segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O cinamomo

Jorge Adelar Finatto



Existe um edifício na rua Dona Eugênia, no bairro Petrópolis, em Porto Alegre, que tem um pequeno jardim na frente. Neste jardim vive um velho cinamomo.

Passei por lá no último sábado, o tempo estava um pouco nublado e frio. Me dirigia à banca de jornal que tem ali perto, onde costumo ir quando estou pela cidade.

Sempre que passo naquele lugar olho para o meu amigo cinamomo. Às vezes me pergunto se ele ainda se lembra de mim. Eu jamais pude esquecê-lo. Morei naquele edifício quando tinha nove, dez anos.

O cinamomo fazia parte das brincadeiras da meninada do prédio e da rua.

Pouca gente sabe - até porque existem hoje poucos cinamomos - mas essa árvore tem minúsculas flores que, na primavera, produzem um dos mais doces e suaves perfumes que conheço.

O meu velho cinamomo está lá, florido, soltando seu perfume em mais uma primavera das nossas vidas. A todos distribui seu aroma generosamente.

De certa forma, somos sobreviventes de um tempo e de um jardim.
 

 


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Fotos: J. Finatto

7 comentários:

  1. Nossa memória afetiva é um pedaço do melhor de nós, Adelar.
    Que ótimo que a Natureza, mesmo em meio a agressões várias, possa estar dando, gratuitamente, seu perfume.
    E que a primavera externa possa, de certo modo, trazer luz e cor ao homem velho que habita em muitos de nós.

    Abraço.

    Ricardo Mainieri

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  2. É isso mesmo, amigo Ricardo. O teu texto, pra variar, vale um poema.

    Um grande abraço.

    JF

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  3. Os cinamomos fizeram parte de minha vida e é das árvores,as que mais gosto. Infelizmente muitas pragas as invadiram e aos poucos, muitas se acabaram e não mais as achei quando voltei onde estavam. porém suas sementes são resistentes e sempre brotam. É preciso cuidar e sempre plantar esta espécie maravilhosa. O perfume é divino, inesquecível a quem tenha sido marcado por ele. Seu texto é muito lindo e escrevi uma frase, certa vez: O cinamomo era meu companheiro de infância e sabia de minhas meninices todas, cúmplice fiel e generoso pois me acolhia sempre, na tristeza ou alegria. Abraços!

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    1. Cara Neusa. Que frase bonita essa tua! O cinamomo faz parte da nossa infância. É cada vez mais raro encontrá-lo nas ruas e quintais. Vivem na memória. As prefeituras poderiam semear e distribuir mudas dessa bela árvore, de sombra e perfume generosos. Seja muito bem-vinda por aqui! Um grande abraço. JF

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    2. Amigo, encontrei cinamomos floridos em minha região mas não consegui as fotos no momento.Vou plantar alguns em meu jardim que é grande e tem espaço para árvores. Abraços.
      Fiz um poeminha a eles:

      O perfume dos cinamomos
      era meu cúmplice
      e me enviava sempre novo amanhecer
      nas brincadeiras de ser criança alegre,
      espalhando as secas folhas
      correndo pelos caminhos,
      na saga de bem viver

      Galgando as nuvens
      ou voando em asas de bem te vis,
      era simplesmente criança,
      que dos verbos, sabia conjugar
      apenas um tempo: sou feliz!

      Neusa Marilda

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    3. Amiga Neusa, cumprimentos pelo belo e sensível poema. Feliz de quem sentiu alguma vez o perfume do cinamomo e teve uma infância perto da natureza. Que o teu jardim floresça muito. Sempre bem-vinda.

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