sábado, 21 de julho de 2012

Os tempos da casa velha

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto. casa em estilo enxaimel. Nova Petrópolis


A casa de madeira de pinheiro, onde vivi a infância, está de pé até hoje. Antes de mim, outras gerações viveram nela e outras vieram depois. Talvez, se encostar o ouvido naquelas vetustas paredes, ouvirei ecos das conversas sumidas no tempo.

O poeta Mario Quintana escreveu, em algum lugar, que o problema da arquitetura moderna é que ela não constrói casas antigas. Não é verdade?

Seria possível dizer, também, que o problema do presente é que não traz de volta as pessoas amadas e os dias que se foram. O leitor não deve levar em conta a melancolia da frase. Triste seria não ter tempos nem pessoas queridas para recordar.

Poucas coisas me passam um sentimento tão forte de permanência quanto as casas velhas, como essa aí da foto. Cada vez mais raras nas cidades brasileiras, quando vejo uma tenho a sensação de estar diante de um sobrevivente.

A ideia de perenidade, ilusória embora, está no pátio, na pérgula coberta de jasmim rosa, nas folhas de uma parreira ancestral, numa fonte em meio ao jardim. As casas em geral duram mais que seus construtores e moradores. E cada vez que se derruba uma um bocado de história afunda junto.

Vivemos uma época em que pouco olhamos as coisas que nos ficaram. Habitamos o eterno presente, como se nada de interessante pudesse haver nem antes e nem depois. Isso não apenas é um erro, como nos remete a uma imensa solidão.


4 comentários:

  1. Julio Ariel Guigou Norro - jaguigou@gmai.com29 de maio de 2013 18:58

    Sou proprietário desta casa, aliás uma das 3 que remontam a 1875 (a da foto), mais uma de 1860 e outra de 1880. Verdadeiros testemunhos da história da construção de "Enxaimel" que, lamentavelmente estão se deteriorando por falta de auxílio financeiro e a passividade municipal que, mesmo tombando não assume as custas. Estou formatando projeto de recuperação (sou arquiteto) dos três exemplares para ser mais "agressivo" na captação de recursos.

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    1. Prezado Julio.

      Essas casas merecem ser preservadas pelo valor histórico-arquitetônico-sentimental que possuem.

      São um convite ao olhar de quem passa por Nova Petrópolis.

      Desejo que tenha sucesso nessa tarefa.

      Jorge Finatto

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    2. Pois é, não existem casas antigas à venda. Como você disse, cheias de histórias guardadas nos vãos das paredes. Penso que estas seriam mais caras. Quando visito uma casa antiga, tenho ímpetos de pedir licença aos proprietários, aos moradores que já a tiveram como sua. Quintana tem razão, quem quiser uma casa antiga, terá que construí-la.

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    3. Belas palavras, Marina, cheias de conteúdo e graça no dizer. Muito bom! Seja bem-vinda. Fico feliz com a tua presença. Um abraço. JF

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