sábado, 16 de março de 2013

O acordo ortográfico fazendo água

Jorge Adelar Finatto

Dicionário Novo Aurélio, 1999. photo: j.finatto
 

O acordo ortográfico da língua portuguesa, firmado pelos países lusófonos em 1990, está no papel, está assinado, só tem um problema: os interessados não sabem o que fazer com ele...  A tentativa forçada de unificação da ortografia, depois de tanto tempo, ainda não é obrigatória.

A edição do Decreto 7.875, de 27/12/2012, postergou a obrigatoriedade das novas regras, no Brasil, para 1º de janeiro de 2016. Até lá, a norma ortográfica atual e a estabelecida no acordo coexistem legalmente.

O adiamento revela, no mínimo, desconfiança. E há razão para isso. Não tenho dúvida de que o acordo dificilmente se tornará obrigatório em Portugal. Por uma singela razão: não existe motivo relevante que justifique as alterações propostas.

Espero, no fundo, que o apego natural dos portugueses ao vernáculo rejeite mudanças sem sentido e que vêm apenas ao argumento de deixar tudo igual. Igual pra quê? Acaso o leitor do português deixará de entender o significado de algumas palavras só porque têm alguns cês a mais ou variação de acentuação? É claro que não.

Uma parte importante da intelectualidade portuguesa não quer saber do acordo, felizmente. As repercussões lá serão/seriam muito mais abrangentes do que no Brasil.

O acordo tem, a meu ver, vício de origem: pretende uniformizar, de cima para baixo, as normas ortográficas brasileira e portuguesa, desconsiderando a razão de ser das diferenças, como se isso fosse razoável. Não é.

Explicações culturais, sociológicas e históricas fazem com que a língua de Camões e Oswald de Andrade tenha particularidades no Brasil e em Portugal, sem que haja nisso desdouro. São diferenças que em nada comprometem o funcionamento e a clareza do idioma.

Podemos ler Fernando Pessoa, Saramago, Ruy Belo, Al Berto e Eugénio de Andrade no "original" português, sem qualquer dificuldade, do mesmo modo que os países da lusofonia lêem, sem problema, Drummond, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Mario Quintana e Heitor Saldanha no português do Brasil.

As peculiaridades ortográficas expressam riqueza, não empobrecimento. Empobrecer é reduzir a norma única, como quer o tal acordo.

No Brasil está muito bem o trema que indica que a pronúncia correta é lingüiça em vez de linguiça, freqüente em vez de frequente, e por aí vai. O acento agudo que nos faz dizer idéia e não idêia tem utilidade.

Qual o problema se, em Portugal, escrevem colectivo, direcção, acção, etc? Nenhum.

As diferenças respondem a realidades e modos de lidar com a língua que precisam ser respeitados.

Pretender unificar a grafia, neste caso, é como querer tornar igual o modo de ser das pessoas. 

O passo seguinte dos sedizentes donos do idioma será talvez homogeneizar as pronúncias e proibir a existência de palavras próprias de cada país. Afinal, quem disse que o absurdo tem limite?
 
No Brasil, houve a certeza de que o acordo fosse valer em definitivo, já que o Decreto nº 6.583, de 29/9/2008, fixou a data de 1º de janeiro de 2009 para a entrada em vigor da nova ortografia.

Mas tinha um porém: estabeleceu, também, um período de transição para sua implementação, tendo como data limite 31 de dezembro de 2012 (agora 31/12/2015). Nesse enquanto-isso, valeriam, como estão valendo, ambas as normas ortográficas.

Penso que na idéia de transição tão longa (depois de mais de 20 anos da assinatura) está subjacente uma desconfiança em relação à validade e plausibilidade do que foi feito.

Se fosse necessário, se fosse histórica e culturalmente justificável, já estaria em pleno vigor o acordo no mundo lusófono. Os fatos demonstram o contrário. 
 
Enfim, não chego ao ponto de dizer que deveríamos  pegar em armas por causa da extinção do trema e outras alterações, como defendem alguns companheiros de luta...

Mas que a coisa ficou muito estranha, não há a menor dúvida.

De tudo fica a lição de que o idioma não pertence a um grupo de iluminados.

A língua é do povo. Querer tornar igual o que, por natureza, é diferente (e não traz qualquer prejuízo) é uma insensatez e uma grande vaidade.

Aqui no blogue, como se vê, continuamos a escrever da forma como temos feito nas últimas décadas, sem remorso e com esperança de que o bom senso, afinal, prevaleça.
 

6 comentários:

  1. Gostei muito de ler esta entrada, parabéns :) Sou português e eu acho que o trema também se deveria usar em Portugal mas infelizmente foi abandonado o seu uso já em 1911 :S Abraço

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    1. Valeu, tuggaboy! Que não nos desmontem as palavras, como fazem com a economia, a política e todo resto.

      Um abraço.

      Jorge Finatto

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  2. Não é o apego dos portugueses ao vernáculo, mas os hábitos de escrita de uma população que tem índices europeus de literacia, o que envolve uma ortografia estabilizada - como, aliás, acontece nos restantes países europeus onde ou nunca houve qualquer reforma ortográfica (caso da Inglaterra), ou houve há 250 anos (caso de França, que nunda mais mudou a ortografia depois disso) ou consistiu num número mínimo de palavras e sem qualquer imposição, como aconteceu com a língua castelhana e ainda com a alemã.
    "Acordos ortográficos" como este, com a modificação de dezenas de milhares de palavras é algo de inédito no mundo inteiro. E, como afirma, certeiramente, "não existe motivo relevante que justifique as alterações propostas" em Portugal. Acrescentaria que nem no Brasil.
    Quanto às diferenças de ortografia entre os dois países, o seu aparecimento não resulta de qualquer evolução natural, mas de opções ideológicas (http://www.filologia.org.br/revista/artigo/5%2815%2958-67.html).

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    1. CM, obrigado pelos acréscimos. Há uma história atrás de cada palavra, como há em cada vida. Não se mudam histórias, assim, sem mais nem menos. Querem "filtrar" a língua para fins que só eles sabem.

      Um abraço.

      Jorge Finatto

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  3. Bem haja! E que, como diz, o bom senso prevaleça! Excelente análise desta situação disparatada! Parabéns!

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    1. Rolone.
      Muito obrigado pela presença e pelo comentário. Eu tenho esse mau sentimento em relação ao acordo. Como usuário da língua, não me conformo. Não porque seja infenso a mudanças. Mas pela sem-razão com que isso tudo foi feito.

      Um abraço.

      Jorge Finatto

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