terça-feira, 4 de junho de 2013

O apanhador de estrelas

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto
 

Escrever é estar vivo. Poder compartilhar isso com o outro é uma felicidade. Navego pelo universo a bordo do caderno silencioso, sem sair do lugar.

Esse texto aconteceu durante uma bruta falta de luz que lançou a casa e toda a rua no mais profundo breu.
 
Saí pelos armários e gavetas às cegas, apalpando em busca de coisas capazes de substituir a luz elétrica que desaparecera, para continuar as anotações que estava fazendo.
 
Me senti um apanhador de estrelas, acendendo velas, fósforos, lanternas, isqueiros, lamparinas a óleo, para iluminar a escuridão que tomou conta do mundo. O breu do ambiente. O breu na alma.
 
Calepino à mão, retomei a busca de verter claridade sobre o incomunicável, a rara luz que nasce da palavra, e o homem é palavra.

O que é um texto senão um telescópio mirando a espessa névoa dos corações e mentes? Que podem as palavras dizer que ainda não foi dito? Acho que podem falar tanto quantos são os olhos que nascem no planeta todos os dias.
 
Na sala calada, o apanhador rumina paciência, visita distância, abraça ausência, faz apontamentos, estuda as anotações de outros exploradores, ajusta as lentes do seu instrumento.

É noite, outono, faz frio. Viajar pelo cosmos, visitar o brilho azul das estrelas, conhecer um pouco esse mistério chamado existência.

O apanhador espreita a noite infinita atrás de um sinal, um movimento, uma luz distante e tênue que ilumine o coração na hora difícil.

Eis que a calma chama penetra na sala pelas frestas, por baixo da porta, pelo postigo. A luz suave se insinua. As palavras criam asas, inauguram o vôo.

A frase ganha corpo e forma, clareia o caminho do texto. Um, vários dias de trabalho para conseguir uma única página.

O apanhador continua a viagem através do inefável, quer aquela luz perene e inalcançável, suspensa num lugar habitado por anjos. Luta contra seus limites pelo fruto sagrado da expressão.

Quando o dia amanhece, traz o coração mais leve, a alma reconfortada ante a alegria que o texto traz.

O apanhador se sente vivo e no caminho. Graças a Deus.
 
______________
 
Texto revisto, publicado antes em 9 de janeiro, 2013.
 

4 comentários:

  1. Adelar, me lembrei do velho e bom rock brasileiro com esta tua crônica. Para ilustrá-la este sucesso da década de 70, dos mineiros de "O Terço"

    Luz De Vela

    O Terço

    Quando eu cheguei em casa
    Estava tudo no escuro
    Porque não tinha energia p'ra acender a luz.
    Então eu fiquei pensando
    Nos milagres desse século
    Enquanto a luz de vela iluminava o papel
    A noite é tão escura quanto natural
    E a luz é a projeção do que você procura entender.
    No meu abrigo noturno
    Eu procuro ler meus sonhos
    Mas sei que o que eu preciso é enxergar no escuro.
    E me acostumar com o espaço
    Que o meu próprio corpo ocupa
    E ver com a clareza independente da luz.
    A noite é tão escura quanto natural
    E a luz é a projeção do que você procura entender.
    Vou me tocando e chocando
    Feito um elétron doido
    Até bater no teu peito
    Querendo mesmo é repouso

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  2. Uma bela lembrança, Ricardo.
    A gente precisa acostumar o olho a ver no escuro e nunca desistir da luz.

    Um abraço.

    Adelar

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  3. Estive hoje, à noite, na AL. Teu nome estava entre os participantes de uma coletânea. Olhei em volta e não te encontrei. vai, então, via comentário, meus sinceros parabéns.

    Ricardo Mainieri

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    1. Querido amigo.

      Obrigado pela lembrança, ando recolhido e meio calado aqui nos Campos de Cima do Esquecimento, de onde te mando um grande abraço.

      Adelar

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