quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O poeta Rilke e o menino: um encontro

Jorge Adelar Finatto

Rarogne, Suíça, 27.01.2014. photo: j.finatto
 

O que não foi dito no texto de ontem, Estudos Rilkeanos, é que desde 17, 18 anos, tornei-me leitor do poeta Rilke (que foi registrado René e só muitos anos depois, por sugestão de Lou Andreas-Salomé, escritora russa, por algum tempo sua amante, depois amiga, passou a assinar-se Rainer).

Rainer Maria Rilke escolheu o Cantão do Valais, no sul da Suíça, para viver aqueles que seriam seus últimos anos. O homem que não teve uma profissão comum, que viveu sob a proteção de mecenas e mulheres, um expatriado no mundo. Um grande poeta e humanista de tempo integral, que teve uma infância difícil.

Em Sierre readquiriu a alegria da criação, mergulhou na língua francesa, indo além do ancestral alemão. Queria ser reconhecido como poeta francês, e não apenas como prosador na língua de Victor Hugo. Na época já era considerado um dos grandes poetas da língua alemã.

Viveu na casa-torre de Muzot, em Sierre, acolhido por um mecenas, entre 1921 e 1926. 

Torre de Muzut, Sierre. photo: j.finatto

O que não foi dito é que essa viagem à Suíça foi feita com a única motivação de seguir os passos do poeta nos últimos tempos em que aqui viveu, sentindo-se renascer como homem, traduzindo Paul Valéry, produzindo poemas franceses. Produção esta que, de alguma maneira, poderia apoiar um pedido de nacionalidade suíça que pretendia fazer. Não sei, afinal, se o fez e se a obteve.
 
(Jorge Luis Borges passou pelo constrangimento desnecessário de pedir essa nacionalidade e vê-la denegada. Como se ser suíço mudasse alguma coisa em sua gloriosa biografia de escritor, um dos mais importantes da literatura mundial.) Enfim...
 
O que não foi dito é que, diante do túmulo de Rilke, me emocionei.

Fiz uma oração para ele, para mim, na solidão azul das alturas álgidas dos Alpes. E senti outra vez como é bom tê-lo por perto da minha alma, ao longo da vida.

O menino pobre daqueles dias distantes veio visitar o poeta. O menino com grandes dificuldades de acesso a livros, a cultura, que continua um aprendiz, um curioso, um apaixonado pela vida e suas possibilidades.

O menino que sofreu, lutou, cresceu, tornou-se o homem de hoje, que nada mais faz além de dar-lhe a mão e sair com ele por aí...
 

2 comentários:

  1. Belíssimo texto. Sou uma leitora de Rilke desde muito nova e, por acaso, amiga do Eduardo Salavisa, pela sua mão cheguei a este blogue que terei de "folhear" com tempo.

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  2. Fico muito feliz com a tua visita. Ser leitor de Rilke é um passaporte para o sublime. Sou grato por conhecer alguém que também tem essa admiração. Devo mais isso ao Eduardo, esse bom novo amigo, um senhor artista. Um abraço!

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