quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O escândalo das hortênsias

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto


As hortênsias resolveram embelezar a cidade. Era só o que faltava.

Em meio a tanta desilusão, tanta feiura das almas, tanta gente má e casca grossa, vêm agora as hortênsias e decidem distribuir beleza e graça.

Um negócio muito estranho.
 
photo: j.finatto

Um verdadeiro absurdo aqui em Passo dos Ausentes.

Quando achava que não tinha mais jeito, quando nada mais esperava diante do triste espetáculo humano, as hortênsias surgem em silêncio, espargindo cor e delicadeza sobre cinzas.
 
O que mais nos espera?, eu pergunto, e já ninguém responde.

Tanta beleza é mesmo uma violência contra a desolação.
 
O que será feito da nossa histórica descrença no Brasil e em nós mesmos?
 
E o que restará do nosso olhar melancólico sobre o sentido da existência? É o fim dos tempos.

Devia ser aberto, imediatamente, um inquérito contra as hortênsias por tamanho escândalo e desacato, verdadeiro atentado violento ao pudor.
 
Mas ninguém faz nada, este é realmente o tempo da impunidade.

Nem maldizer a vida em paz a gente pode agora.
 
É o fim da picada.


photo: j.finatto

___________________

O título podia ser A sagração da primavera, uma feliz recordação da música de Igor Stravinsky, diante da estação que se aproxima (chega em setembro).
Texto revisto, postado antes em 12/12/2011.

Nenhum comentário:

Postar um comentário