domingo, 4 de janeiro de 2015

Os Conjurados

Jorge Adelar Finatto

Borges em photo de Diane Arbus
 

On his blindness
 
Ao fim dos anos me rodeia
uma insistente neblina de luz
que as coisas a uma coisa reduz
sem forma nem cor. Quase a uma idéia.
A vasta noite elemental e o dia
cheio de gente são essa neblina
de luz duvidosa e fiel que não declina
e que espreita no amanhecer. Eu queria
ver uma face alguma vez. Ignoro
a inexplorada enciclopédia, o prazer
de livros em minha mão, reconhecer
as altas aves e as luas de ouro.
Aos outros resta o universo;
à minha penumbra, o hábito do verso.
                                                       J.L. Borges¹
 
Um dos últimos grandes escritores a habitar o planeta, Jorge Luis Borges (1899-1986) nos deixou este belo livro antes de morrer na Suíça, em Genebra, aos 86 anos. Os Conjurados é uma espécie de testamento poético-existencial do grande autor argentino. Composto de breves textos, alguns em forma de poema e outros em prosa poética, foi a sua última obra, publicada em 1985.
 
Hoje, infelizmente, não temos mais autores da dimensão de Borges. Resta, talvez, uma meia dúzia, se tanto, desse nível. O que se vê, em tempos de vaidade globalizada, são performers e pseudoescritores colocando balaios de livros nas livrarias do mundo inteiro todos os dias, buscando vorazmente as luzes dos meios de comunicação, a fama instantânea, o dinheiro. O recolhimento silencioso ao trabalho é exceção.

Está cada vez mais difícil encontrar um ser humano que não tenha publicado ao menos um livro na vida... E que obras lamentáveis colocam-se nas estantes e quantas florestas derrubam-se para editá-las... Aliás, eu não me excluo da malta, pois já andei publicando algumas coisas também...
 
Borges está sepultado no cemitério de Plainpalais, em Genebra. Segundo alguns, o enterro naquela cidade se deu por decisão unilateral de María Kodama, secretária do escritor durante muitos anos, que com ele se casou dois meses antes da morte. Para esses, Borges queria ser enterrado no histórico Cemitério da Recoleta em Buenos Aires.²

Mas eu não quero falar de intrigas envolvendo a senhora Kodama. Prefiro recordar aquele dia em que comprei, na estação rodoviária de Porto Alegre, esse pequeno livro de valor extraordinário. Foi numa banca de jornais e revistas que o encontrei, eu tinha acabado de chegar de uns dias no meio do mato, numa casinha à beira de um riacho, com cheiro de flor de laranjeira à volta.

Sei que perdi tantas coisas que não poderia contá-las e que essas perdições, agora, são o que é meu. (...) Não há outros paraísos a não ser os paraísos perdidos.
                                                                 J.L.Borges ³

Isso foi em janeiro de 1986. O livro veio junto com a edição  recém-lançada da revista Status, da Editora Três. Provavelmente seria a edição do mês de dezembro e vinha com o aviso: Não pode ser vendido separadamente. Trata-se de edição histórica, bilíngüe, publicada no mesmo ano em que a obra foi lançada na Espanha pela  editora Alianza Tres. A tradução, que parece muito boa, é do jornalista Pepe Escobar, que afirma na contracapa:

Em sua última coletânea de poemas, o último sábio sobre a Terra continua fiel a suas pátrias - Shakespeare, a névoa da cegueira, espadas, reflexos, labirintos, espelhos, Genebra. Mas o habitante principal desses versos tecidos na penumbra é sem dúvida a morte (...)

Borges é um acontecimento muito antigo na minha vida. Encontro nele a felicidade do escrever, e a melancolia também, e o desespero discreto da cegueira, e a sabedoria acumulada de outras épocas, de outras vidas talvez, vividas essencialmente através dos livros que leu e das histórias que resgatou do oblívio em conversas pelo mundo afora. Era um conversador interessado, gentil, não raro alegre.


Os Conjurados foi um dos nossos encontros, quem sabe o mais luminoso. Senti vontade de reler o mestre (que nunca se apresentou como tal) nesses dias em Porto Alegre e fui até a estante. O primeiro livro dele que pesquei foi justamente Os Conjurados.

A entrega de Borges nesses textos é total. Identificamos em cada um não apenas o escritor senhor de seu ofício, construindo magia com as palavras, mas um ser humano se revelando.

Os Conjurados é como uma despedida, um solo de violoncelo no fim da tarde, um adeus amoroso a todos os que ficam e, principalmente, a celebração da vida pela comunicação escrita. Retornar ao livro e reencontrar nele, tanto tempo depois, a maravilha é uma grata emoção. Recomendo de coração.

Não há poeta, por medíocre que seja, que não tenha escrito o melhor verso da literatura, mas também os mais infelizes. A beleza não é privilégio de uns quantos nomes ilustres. Seria muito raro que este livro, que abarca umas quarenta composições, não entesourasse uma só linha secreta, digna de acompanhar-te até o fim.  
                                                                   J.L.Borges 4
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¹Os Conjurados, Jorge Luis Borges, p.59. Tradução de Pepe Escobar. Editora Três,  São Paulo, 104 pp., 1985.
²Blog de Ariel Palacios:
³idem a 1, p. 63.
4idem a 1, p. 9.
Veja também: Borges e a névoa do tempo:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/03/jorge-luis-borges-e-nevoa-do-tempo.html
 

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