segunda-feira, 26 de junho de 2017

Van Gogh, o caminho do campo de trigo

Jorge Finatto
 
trilha de Van Gogh no trigal. photo: jfinatto
 
Se pelo menos uma vez tivesse encontrado alguém a quem pudesse abrir o coração, talvez as coisas nunca tivessem chegado a tal ponto.*
                                           Theo Van Gogh

VAN GOGH TRILHOU este caminho algumas vezes, no campo de trigo, parte alta de Auvers-sur-Oise, perto de Paris, a última morada. A íngreme e solitária ladeira desemboca no amarelo trigal.
 
Sim, sempre o amarelo, esperança na vida, girassol, alegria breve em meio ao turbilhão da doença mental e da solidão que o atormentam até o fim.
 
Ele sobe a ladeira já sem ilusões. A morte está próxima. A única ponte de contato com a lucidez, os homens e a vida é o trabalho. Carrega o equipamento de pintura às costas e o chapéu de palha. Busca um pouco de luz, ar puro, a amiga natureza, o silêncio. Ali pinta Trigal com corvos, um dos últimos quadros, exatamente nesta encruzilhada.
 
lugar onde VG pintou Trigal com corvos. photo: jfinatto
 

Trigal com corvos. fonte: Van Gogh Museum, Amsterdam
 
O poeta das cores, das longas caminhadas solitárias, do cavalete e do chapéu de palha não sabia viver só e, no entanto, quase nunca viveu de outra maneira.

O inverno da doença, da incompreensão, da miséria e da falta de reconhecimento o levaram ao fundo do poço. Mas ali, curiosamente, havia cores, formas e emoções vivas e elas iluminaram o seu e o nosso mundo.
 
Este mês de julho, em que se recorda o 127º aniversário de morte do artista, no dia 29, haveremos de lembrá-lo aqui no blog e na exposição que farei a partir do dia 25 de julho no Café do Porto, em Porto Alegre. Intitula-se O último quarto de Van Gogh e retrata o sombrio quartinho do artista no sótão do Auberge Ravoux, algumas de suas últimas pinturas e lugares onde as realizou a poucos dias da morte.
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*Van Gogh, a vida. Steven Naifeh e Gregory White Smith. pág. 823. Tradução de Denise Bottmann. Companhia das Letras, São Paulo, 2012.

sábado, 24 de junho de 2017

Fragmento

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

E no quarto dia que. Depois de tanto se.
Mas Deus viver é isso? E a morte cumé?
Se tanto depois de. Eu você e uma puta solidão
a nos unir. E que dia no quarto. O sol abre
os braços um abraço. A mulher abre as pernas
quentes um mundão no ventre
tanta luz derramada nas entranhas.
Se depois de tanto.
A vida de todos os dias
a que eu sempre quis

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Poema do livro Claridade. Prefeitura de Porto Alegre, 1983.

sábado, 17 de junho de 2017

Fernão de Magalhães e a viagem ao fim do mundo

Jorge Finatto
 
Estreito de Magalhães. photo: jfinatto
 
Descobrimos, no dia 21 de outubro [de 1520], aos 52º de latitude meridional, um estreito (...). Como pudemos constatar em seguida, tem quatrocentas e quarenta milhas de comprimento (...) e desemboca em outro mar, a que chamamos de Pacífico. O estreito é rodeado de montanhas muito altas e cobertas de neve. É tão profundo que, mesmo estando bastante próximo da terra, não se encontrava fundo para a âncora, nas vinte e cinco ou trinta braças. *
                                                                      Antonio Pigafetta

 
OLHANDO AQUI DE CIMA, desde as entranhas do grande pássaro de metal da Aerolineas Argentinas, que agora sobrevoa a Cordilheira dos Andes rumo ao sul extremo, custa acreditar que o português Fernão de Magalhães (1480 - 1521) andou por estes mares gelados e revoltos em 1520. Foi ele quem navegou pela primeira vez através do estreito que faz a ligação entre Atlântico e Pacífico ao longo de cerca de 600 km. A passagem mais tarde foi batizada com seu nome, Estreito de Magalhães.
 
O navegante lusitano comandava então a primeira expedição de circum-navegação da Terra, a serviço da Coroa Espanhola. Em agosto de 1519 partiu do porto de Sevilha com cinco navios e 237 marinheiros. Foi o primeiro a chegar à Terra do Fogo.

Não consigo deixar de comparar a ousadia daqueles marinheiros com o arrojo dos astronautas em suas viagens espaciais. Penso que era mais difícil andar pelos mares do fim do mundo naquelas frágeis embarcações do que ir a Marte nos dias de hoje.

mapa do Estreito de Magalhães. fonte: Wikipédia. clicar
 
O escritor italiano Antonio Pigafetta (1491 - 1534) juntou-se a Magalhães com intenção de relatar a viagem, tendo para isso que comprar seu lugar no navio já que não era membro da tripulação.

A expedição iniciou a travessia do estreito em 1º de novembro daquele ano, vinda do Atlântico. Nominaram-no Canal de Todos os Santos em razão do dia. Ao desembocar do outro lado, no desconhecido oceano, Magalhães deu-lhe  o nome de Pacífico em oposição à turbulência e temeridade das águas no interior do grande canal.

Não bastasse isso, foi no Pacífico que o grande navegador avistou e descreveu as galáxias Grande Nuvem de Magalhães e Pequena Nuvem de Magalhães, que são vizinhas da nossa Via Láctea. Mais tarde deram seu nome às duas em homenagem.

Infelizmente, Fernão de Magalhães não conseguiu retornar com vida à Espanha, tendo sido morto numa batalha com nativos nas Filipinas aos 41 anos. A expedição regressou ao porto espanhol em 1522, com apenas um navio, o Victoria, e 18 homens, Pigafetta entre eles, sob o comando de Juan Sebastián Elcano.

photo: jfinatto
 
Das observações e anotações do escritor resultou a obra A primeira viagem ao redor do mundo, publicada em Veneza em 1536, dois anos após a morte do autor. Gabriel García Márquez considerava este um dos livros mais importantes de sua vida.

Recordo essa história voando em direção ao sul profundo, e quase não acredito no que aquela gente fez embarcada numa casca de noz sobre a superfície tenebrosa do abismo do mar. Parece ficção científica. E, no fundo, foi até mais.

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*A primeira viagem ao redor do mundo. Antonio Pigafetta.  pp. 65-66. Editora L&PM. Tradução de Jurandir Soares dos Santos. Porto Alegre, 2005.
http://www.lpm.com.br/site/default.asp?Template=../livros/layout_produto.asp&CategoriaID=610619&ID=642907
 

sábado, 10 de junho de 2017

Rodolfo Walsh, 40 anos desaparecido

Jorge Finatto
 
Rodolfo Walsh (foto de arquivo)
 
Minha vocação despertou cedo: aos oito anos decidi ser aviador. Por uma dessas confusões, quem a realizou foi meu irmão. Acho que a partir de então fiquei sem vocação e tive muitos ofícios. O mais espetacular: limpador de janelas; o mais humilhante: lavador de pratos; o mais burguês: comerciante de antiguidades; o mais secreto: criptógrafo em Cuba.¹
Rodolfo Walsh

Eu tinha ouvido falar do escritor e jornalista argentino RODOLFO WALSH (1927 - 1977), mas nunca tinha lido nada dele. Nenhuma informação tinha de sua vida. Caminhando pela Avenida San Martín, na tarde gelada de Ushuaia, as montanhas nevadas da Cordilheira dos Andes debruçadas sobre a cidade, me vi diante de um retrato do autor pintado na parede da Rádio Nacional. A legenda diz que desapareceu em 25 de março de 1977. Isto é, um ano e um dia após o início da ditadura militar na Argentina (1976 - 1983).
 
Na livraria Boutique del Libro comprei alguns livros dele. Tomei conhecimento de que vivia na clandestinidade quando "foi desaparecido" e fazia parte do grupo Montoneros, de luta armada, atuando na área de comunicação. No ano anterior havia perdido a filha María Victoria, também integrante do Montoneros, em confronto com forças militares. Ela escolheu suicidar-se a entregar-se com vida aos militares.
 
Walsh (amigo de Gabriel García Márquez, que o admirava como escritor, e um dos criadores da agência de notícias cubana Prensa Latina) faz parte da terrível relação de desaparecidos durante a ditadura. Grupos de direitos humanos estimam em 30 mil pessoas. No entanto, dados levantados nos últimos anos apontam cerca de 9 mil vítimas, entre mortos e desaparecidos. No Brasil, este número é de 434 pessoas, segundo informe da Comissão da Verdade de 2014.²

A diferença, contudo, é que na Argentina alguns dos responsáveis pela ditadura foram julgados e condenados à pena de prisão perpétua, como o general Jorge Rafael Videla, que morreu preso em 2013.  Um, dez, cem, vinte mil desaparecidos, é tudo uma tragédia. Não se trata apenas de um número frio, mas de pessoas.

photo: jfinatto, Ushuaia, maio 2017.
 
No dia de seu assassinato, presumivelmente ocorrido em 25/3/77, por membros da repressão, andava na rua, em Buenos Aires, após encaminhar pelo correio cópias da Carta aberta de um escritor à junta militar,³ na qual fez vigorosa denúncia da ilegitimidade e truculência do regime militar, apontando violação de direitos humanos, métodos hediondos de tortura e extermínio, número de vítimas, além de graves prejuízos à sociedade.

Dirigiu o documento a órgãos da imprensa argentina e a correspondentes estrangeiros. A carta, datada de 24/3/1977, dia em que a ditadura completava um ano, foi seu último texto. Difundida no exterior, não logrou o mesmo nos órgãos de imprensa de seu país submetidos à censura e controle.

últimos dias do escritor (clicar). photo. jfinatto
 
Do que tenho lido de Rodolfo Walsh, chama atenção a sua busca constante da verdade, a pesquisa das informações e o compromisso que se impôs de dar testemunho de seu tempo. É considerado o criador do gênero literário não-ficcional que trabalha com fatos reais; jornalismo com técnicas literárias. Literatura e realidade. Impressiona, ao lado da coragem, a qualidade de seus textos, sejam jornalísticos ou literários, ou ambos integrados.

Basta ler Operação Massacre,4 que conta uma história real, para ver o alto nível dessa prosa. No apêndice deste livro encontra-se a Carta aberta acima referida.

O contista, assim como o autor de não-ficção e o jornalista, é brilhante. A elevada qualidade de suas linhas engrandece a literatura da Argentina, colocando-o ao lado de nomes como Roberto Arlt, Cortázar, Borges, Sábato.

Biblioteca Nacional Mariano Moreno. photo: jfinatto

Neste ano 40 do seu brutal desaparecimento, a Biblioteca Nacional da Argentina, em Buenos Aires, está promovendo a exposição literária Los oficios de la palabra. É uma boa oportunidade para conhecer um pouco de sua história e de sua obra. O texto de apresentação da mostra (clicar sobre ele) é do escritor Alberto Manguel, atual diretor da biblioteca.

Hoje no trem um homem disse: "Sofro muito. Queria ir pra cama dormir e só acordar daqui a um ano". Falava por ele, mas também por mim.5 

Este início de contato com Rodolfo Walsh tem sido enriquecedor do ponto de vista humano e literário. E nos leva à perplexidade de constatar que, tanto tempo depois, não se tem nenhuma notícia sobre o paradeiro de seu corpo e sobre as circunstâncias em que seus algozes (quem foram, onde estão?) lhe deram sumiço. O mesmo trágico destino teve o poeta García Lorca, em Granada, cujo corpo, fuzilado em 1936, no início da Guerra Civil Espanhola, até hoje não foi encontrado. Uma tristeza.
 
ambiente da exposição. photo: jfinatto


apresentação da mostra Walsh por Alberto Manguel. photo: jfinatto

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¹ Ese Hombre y otros papeles personales. Ediciones de La Flor. 3ª ed, pág. 13. Buenos Aires, 2012. Tradução livre do fragmento: Jorge Finatto.
² Argentina ainda discute quantas foram as vítimas (Folha de São Paulo):
http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/02/1735938-argentina-ainda-discute-quantas-foram-as-vitimas-da-ultima-ditadura-militar.shtml
³ Carta aberta de um escritor à junta militar:
http://www.jus.gob.ar/media/2940367/carta_rw_espa_ol_web.pdf
4 Operação Massacre. Rodolfo Walsh. Tradução de Hugo Mader. Companhia das Letras. São Paulo, 2010.
Ese Hombre y otros papeles personales. Ediciones de La Flor. 3ª ed, pág. 266. Buenos Aires, 2012. Tradução livre do fragmento: Jorge Finatto. Palavras do escritor a propósito da morte da filha Vicki (María Victoria).


segunda-feira, 5 de junho de 2017

El viejo faro

Jorge Finatto
 
objetos do Farol de San Juan de Salvamento. photo: jfinatto*


O VELHO FAROL abandonado de San Juan de Salvamento observa o Fim do Mundo. Vive na memória de extintas luzes que iluminavam a escuridão profunda do oceano.
 
Nessas noites glaciais de junho, o fantasma de Julio Verne caminha pela Isla de Los Estados com uma lanterna na mão. Habita a ilha já sem o peso da ampulheta. Convive em silêncio com os personagens do antigo livro que um dia escreveu sobre este território onde a Terra acaba.

Do alto rochedo observa o Atlântico e o Pacífico. O vento fustiga-lhe a face.

O velho escritor, criador de sonhos, é ele mesmo agora um sonho. E mora na sua ilha como o faroleiro de um farol abandonado. Carregará sempre a lanterna da palavra.

eixo central original do farol. photo: jfinatto
 
Estou na janela da mansarda amarela sobre a Baía de Ushuaia. Tarde de domingo. Uma fina neblina arrasta o véu diáfano sobre o Canal de Beagle.
 
A memória das coisas passadas e vividas não pode ser cemitério. Tem de ser maternidade.

Abram-se, por favor, todas as janelas e corações. Deixemos a luz penetrar a sombra.

Celebremos as vidas que estão e as que hão de vir.

Sejamos claros e benignos como as luzes do velho farol e a lanterna do escritor.

restos do farol foram recolhidos; estão no Museu Marítimo de Ushuaia

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*Museu Marítimo de Ushuaia reúne o que sobrou do velho farol. 
 

sábado, 3 de junho de 2017

A solidão do fim do mundo

Jorge Finatto
 
Isla de lobos marinos. Tierra del Fuego. photo: jfinatto

Haverá solidão maior  que a do homem que cuida do farol nestas Ihas do Fim do Mundo? Haverá vida mais austera que a desse alguém, cujo ofício é velar para que os navios não se estraçalhem nos rochedos traiçoeiros do mar tenebroso da Terra do Fogo, sul absoluto, onde se encontram as águas congelantes do Atlântico e do Pacífico?
 
Julio Verne (1828 - 1905), no livro El Faro del Fin del Mundo, ambientado na Isla de Los Estados, a extremo leste da Tierra del Fuego, tem uma visão menos trágica do isolamento do homem do farol. O farol de que trata a obra é o de San Juan de Salvamento que funcionou na ilha entre 1884 e 1902.
 
Antes de mais, importa ressaltar mais uma vez o notável detalhamento que Verne faz da Isla de Los Estados (terreno, fauna, flora, clima) como se por lá tivesse passado alguma vez (nunca veio ao Fim do Mundo). Os requintes de imaginação e a capacidade narrativa e de pesquisa do escritor francês são superiores.

Mas voltemos, distante leitor, à solidão, tema recorrente destas páginas, na lonjura onde me encontro.

Julio Verne. Wikipédia
 
Diz-nos Julio Verne:
 
"(...) a monotonia que implica viver num farol nunca é perceptível, em regra, para os faroleiros. A maior parte deles são antigos marinheiros ou pescadores, e não se preocupam com os dias e as horas".¹

Talvez, talvez, digo eu. E o próprio Verne nos lembra:

- O Farol do Fim do Mundo! Sem dúvida que aquele nome se ajustava àquela ilha isolada de toda terra habitada e habitável.²

Olhando este mar escuro e revolto de inverno, sem qualquer amparo, onde só Deus pode valer a criatura humana em seu deserto, sou tentado a achar que a vida neste território perdido é um desafio que nos leva ao limite físico e psicológico. Mas a solidão também tem lá sua beleza e poesia.

Hay que tener ganas para soportar.

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¹-² El Faro del Fin del Mundo. Julio Verne. Agebe, 1ª ed. Buenos Aires, 2005. págs. 23, 9. Traducción: Ricardo Healy. Tradução livre dos trechos citados, do espanhol para o português, de J.Finatto.