sábado, 29 de julho de 2017

Um campo de trigo chamado Vincent

Jorge Finatto
 
Campo de trigo sob nuvens carregadas, 1890, Van Gogh Museum, Amsterdam¹
 
"Deve ser bom morrer sabendo que se fez algum trabalho de verdade e, portanto, viverá na lembrança pelo menos de algumas pessoas."
               Vincent em carta ao irmão Theo²
 
VAN GOGH (1853 - 1890) é o artista trágico  por excelência. O indivíduo rejeitado pela família e pela sociedade. Nele se resume o calvário existencial de um homem indefeso e ultrassensível, caído num mundo que insiste em maltratar a delicadeza, a simplicidade, a beleza e o talento natural.
 
O gênio maldito, que perambulou solitário de déu em déu, encontrou-se milhões de vezes sozinho por quartos, ruas, esquinas e estradas vazias, devorado pela saudade de um lar e de um amor humano que nunca teria e que o consumia por dentro.
 
De tanto sofrimento nasceu a luminosa obra que tem o poder de expulsar a treva da condição humana que habita nossas mentes e corações. E que diz: a vida é possível!
 
A obra de Vincent torna a existência um imenso campo de trigo onde a fertilidade, a transcendência e a felicidade da criação andam de mãos dadas. Nasceu, ficou 37 anos no planeta, e partiu. Mas não levou consigo os girassóis, trigais, camponeses, pontes, casas, praças, campos, retratos, céus, caminhos, jardins, mil paisagens, a alegria do olhar e do sentir. Generoso, entregou aos semelhantes o melhor de si.
 
Nos 127 anos de sua morte, neste 29 de julho de 2017, a memória doída, mas acima de tudo o carinho, o respeito, a admiração, a sentida homenagem ao artista.
 
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¹ Van Gogh Museum:
² Van Gogh, a vida. Steven Naifeh e Gregory White Smith. pág. 973. Tradução de Denise Bottmann. Companhia das Letras, São Paulo, 2012.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Souvenir

Jorge Finatto
 
Autorretrato na exposição O último quarto de Van Gogh. photos: jfinatto
 
NÃO DEIXA de ser irônico que museus, governos, colecionadores, comerciantes e indústria cultural ganhem milhões e milhões de dinheiros todos os anos à custa de obra de Van Gogh. Enquanto isso, ele em vida padeceu na mais profunda pobreza. Rigorosamente nada usufruiu de seu trabalho, exceto os momentos de felicidade quando criava.
 
Hoje a venda de qualquer de seus quadros é capaz de garantir o sustento de uma pessoa e seus descendentes, em excelentes condições, para o resto da vida. Esse mundo não vale mesmo um cisco.
 
Duvido muito que Van Gogh conseguisse entrar, com suas roupas velhas, seu chapéu de palha e seus olhos de passarinho curioso, em alguns dos museus chiques que  expõem seus quadros. De início, ele não teria dinheiro para o ingresso. A aparência e o dinheiro continuam governando tudo. Não obstante, a malta se diverte nos museus e lojinhas de souvenirs.
 
Os que amam a arte merecem a obra de Van Gogh. Só eles são capazes de entendê-lo e acolhê-lo desinteressadamente no coração.

  

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Van Gogh vai ao café

Jorge Finatto

quarto de Van Gogh no Auberge Ravoux. photo: jfinatto
 
Um dia ou outro eu acho que vou encontrar uma maneira de fazer uma exposição em um café.
Vincent Van Gogh em carta ao irmão Theo, de 10 de junho de 1890.
 
AUVERS-sur-OISE é uma pequena cidade nos arredores de Paris. Atravessada pelo rio Oise, é um lugar tranquilo onde se caminha pelas ruas em paz. Uma cidade interiorana, aprazível. Mas há algo que a destaca no conjunto das cidadezinhas francesas. Foi nela que um dos maiores pintores da humanidade viveu seus últimos dias.
 
Quando estive lá, em duas ocasiões num intervalo de cinco anos, minha intenção era me aproximar dos passos de Van Gogh naqueles ambientes em que realizou cerca de 75 obras-primas.
 
Entre os lugares em que trabalhou em Auvers, nenhum me tocou mais fundo do que o campo de trigo no alto da cidade. Ali pintou, entre outros, o Trigal com corvos, uma das últimas pinturas. Entrei no seu quarto, no sótão do Auberge Ravoux, e senti a imensa solidão daqueles 7 metros quadrados. Era o quarto mais barato da estalagem, sem janela, tendo como única abertura uma claraboia. Mudou-se para lá em 20 de junho de 1890.

Da profunda solidão, da pobreza e da rejeição social, nasceu uma das obras pictóricas mais sublimes e poderosas já produzidas em todos os tempos. Não à toa costumam dizer que ele libertou as cores.

V. Gogh. quadro La pluie (a chuva). photo: jfinatto
  
Van Gogh foi incompreendido na sua época como o seria hoje. Não se sustentava, não teve um emprego tradicional, não conseguiu encontrar uma mulher nem constituir uma família. Viveu de léu em léu, ao desamparo, sem uma alma para se consolar. Um atrapalho para a família e um estorvo para a sociedade. Um espírito de luz vivendo em meio a seres primitivos, mesquinhos e violentos.

A vida só não lhe restou mais trágica porque contou sempre com a ajuda material e a solidariedade moral de Theo, irmão mais moço, que foi seu cálido confidente, conforme demonstram as centenas de cartas que trocaram. Vendeu apenas um quadro em vida, Vinhedo vermelho. Vestia-se com roupas surradas. Com o chapéu de palha, parecia um espantalho. Por não ser um "normal", foi alvo de zombaria e escárnio em todos os lugares onde morou

Existia, ao lado do homem genial, um temperamento difícil e a doença que o levava a crises psíquicas que o torturavam e faziam sofrer os que o cercavam. Até hoje ninguém sabe o que era.

Van Gogh estava longe de ser um artista interessado apenas na pintura. Era um pensador lúcido que leu os autores mais importantes de seu tempo e os antigos. Era um indivíduo culto.

túmulos de Vincent e Theo em Auvers. photo: jfinatto
 
A biografia mais recente e exaustiva concluiu que não se matou com o tiro no abdômen.* Alguém, cuja identidade ele não quis revelar no leito de morte, atirou contra ele. Os autores do livro chegam a dizer o nome do suposto agressor, um que fazia parte do grupo de jovens com quem o pintor encontrou-se algumas vezes no período de pouco mais de dois meses em que viveu em Auvers. Morreu em 29 de julho de 1890, no quarto minúsculo, nos braços do irmão Theo. Ambos estão sepultados lado a lado no cemitério da cidade.
 
Quando fiz as fotografias que integram a exposição O último quarto de Van Gogh não tinha a menor ideia de que um dia faria uma mostra sobre este tema. Como sempre faço, fui fotografando na base do sentimento, da intuição. O resultado poderá ser visto a partir desta terça, 25 de julho de 2017, no Café do Porto, na Rua Padre Chagas, bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre.
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*Van Gogh, a vida. Steven Naifeh e Gregory White Smith. Tradução de Denise Bottmann. Companhia das Letras, São Paulo, 2012.


terça-feira, 11 de julho de 2017

Un amore

Jorge Finatto

Borboletas e papoulas. Van Gogh
Van Gogh Museum, Amsterdam

La speranza di pure rivederti                             
m'abandonava.                                                          
                          Eugenio Montale


No mais remoto deserto
- o sal e o labirinto do tempo
amadureço o poema

E parece que para encontrar-te
tinha de perder-te um dia

Colho no caminho as pétalas
da rosa que não te dei
e distraída desfolhaste

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Poema do livro O Fazedor de Auroras, JFinatto, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.
A esperança de ver você de novo me abandonava, tradução livre do verso de Montale.

sábado, 8 de julho de 2017

Rio de Janeiro em prosa e verso

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

A interessantíssima história da segunda terra natal de todos os brasileiros e de todo estrangeiro de coração aberto à graça da vida (...)*
                           (frase da orelha do livro)

UMA DELÍCIsA DE LIVRO. Trata-se de Rio de Janeiro em prosa e verso, antologia de 200 autores organizada por Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, lançada no distante 1965. O assunto é a cidade maravilhosa em suas mil faces, visões, cores, histórias, alegrias e dramas. Uma relíquia de edição.
 
Contei, para sua aquisição, com os bons préstimos da Livraria Erico Verissimo, de Porto Alegre, à qual nunca havia antes recorrido. Trata-se de livro usado.
 
A variedade de autores e enfoques é preciosa, tornando o volume único em seu valor documental e literário. O sabor fica por conta das excelentes iguarias oferecidas em forma de crônicas, poemas, artigos, lendas, relatos de costumes, histórias das ruas, paisagens, plantas, carnavais, livrarias e tudo mais.

Escritores e poetas ilustres, como os dois organizadores, estão presentes nas 584 páginas, além de jornalistas, historiadores, ensaístas, viajantes, missionários, artistas. Não faltam belas imagens em forma de desenhos, fotografias, mapas e outras ilustrações.

photo: Manuel Bandeira

O poeta e diplomata francês Paul Claudel faz uma bela síntese do ambiente natural do Rio de Janeiro:

O Rio é a única cidade que ainda não conseguiu enxotar a natureza. (pág. 562)
 
Com Lúcio Rangel ficamos sabendo que em 1917 surgiu o primeiro samba, o famoso Pelo telefone,

nascido na casa da Tia Ciata, na Praça Onze, onde se reuniam os melhores compositores populares da época. (pág. 243)

De autoria de um certo Ernesto dos Santos, o Donga, integrante do grupo de compositores Oito Batutas, a letra diz coisas como:
 
Pelo telefone
Chefe de Polícia
Mandou me avisar
Que na Carioca
Tem uma roleta
Para se jogar. (pág. 243)
 
O escritor austríaco Stefan Zweig, um dos grandes do século XX em todo o mundo, assim escreve:

A beleza dessa cidade, dessa paisagem, com efeito, quase não se pode reproduzir nem pela palavra, nem pela fotografia, porque é demasiado variada, demasiado heterogênea e inesgotável; um pintor que quisesse representar o Rio em toda a sua plenitude, e com todos os seus milhares de cores e cenas, não teria tempo para concluir a sua obra numa vida inteira. (pág. 559)

Tem Alvaro Moreyra falando da Melindrosa, genial criação de J. Carlos, e da obra do artista:
 
O ente que olhar, daqui a cem anos, as obras-primas de J. Carlos poderá viver a vida que andamos vivendo... (1922) (pág. 529)
 
photo: Carlos Drummond de Andrade
 
Graciliano Ramos nos diz a respeito da Livraria José Olympio, ícone de uma época e ponto de encontro de escritores e intelectuais:

A Livraria José Olympio daria um romance. Entre aquelas paredes, que para bem dizer não são paredes, porque os livros cobrem tudo, um observador curioso, um desses que vão lá todos os dias, poderia arranjar assunto para um bom romance, que o editor impingiria ao público facilmente numa edição grande, porque estaria fazendo propaganda do seu negócio. (pág. 443)

Machado de Assis, Gilberto Freyre, Olavo Bilac, Vinicius de Moraes, José de Alencar, José Lins do Rego, Astrogildo Pereira, Jean Baptiste Debret, Coelho Neto, João do Rio (Paulo Barreto), Júlia Lopes de Almeida, Eneida, Mário de Andrade, Antônio Maria, José Carlos Oliveira, Elsie Lessa, Lúcio Costa, Di Cavalcanti, Olegário Mariano, Paulo Armando, Jorge de Lima, Mário Pederneiras e miles e miles de outros autores com seu caleidoscópio de observações sobre a cidade amada.
 
Está aí um livro cuja reedição, a bem da cultura brasileira, está a clamar aos céus e aos editores de boa vontade da Terra de Vera Cruz.
 
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*Rio de Janeiro em Prosa e Verso. Organizado por Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1965, 584p., ilustrado. Vol. V da Coleção Rio 4 Séculos.
O créditos das fotos serão registrados tão logo conhecidos os autores. 

sábado, 1 de julho de 2017

Corvo, camélia e guarda-chuva

Jorge Finatto
photos: jfinatto
 

UM DIA apareceste no meu jardim com a cara mais linda desse mundo. Guardei tua imagem para a eternidade fugaz de um álbum digital. Não és apenas uma a mais no mundo: és a camélia que nasceu de um sonho de delicadeza do Criador.


EM ALEGRE bando, dançam pelos céus de Canela, nenhuma chuva cai sobre os panos coloridos, mas vento, o andarilho vento de julho embala as cores e a pura alegria de ser.


O CORVO do cemitério Père-Lachaise*, em Paris, se dá ares, faz caras e bocas no galho seco sobre os túmulos de gente famosa (Balzac, Proust, Oscar Wilde, Chopin, etc.) Em Paris até mesmo os corvos fazem pose e se consideram acima dos mortais...

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Delicie-se, raro leitor, clicando sobre as imagens. E que julho nos seja mais leve.

*Cemitério de Père-Lachaise:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/search?q=P%C3%A8re-Lachaise