quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Rua sem sol

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 
Os antepassados
negros e italianos
rasgaram o oceano
para que eu estivesse

aqui no futuro
olhando o fim de tarde
no horizonte dos muros

não possuo do imigrante branco
a esperança eldorada
nem a saudade triste do preto
em pranto mastigada

sou apenas um homem mestiço
olhando o movimento dos barcos

agora que a noite cai
sobre a cidade
e me surpreendo sonhando
com a fuga
por uma rua sem sol

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Do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.
 

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Conversa com meu anjo da guarda

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

 
DIZIAM OS ANTIGOS que cada pessoa tem o seu anjo da guarda. Anjo bondoso e santo que vela o sono, releva os erros, protege dos perigos, aconselha, sabe perdoar. Anjo zeloso e protetor que anima o coração desolado e ajuda a viver.

Não sei se os anjos ainda estão por aqui, tal o estado em que os homens deixaram o mundo. Se pudesse fazer um pedido, pedia ao meu anjo da guarda que inventasse depressa a máquina de desmorrer.

Sim, para acabar com o problema do desnascimento que todos os homens e mulheres carregam dentro de si e dele não conseguem se livrar. Porque desnascer, ou deixar de caminhar sob o sol, é coisa das mais tristes, sem nenhum sentido, um desperdício enorme de tempo, esforço, sonhos e sentimentos.

Uma vez expulso o desnascer de nossas vidas, com a eternidade toda pela frente, quanta coisa bonita haveríamos de fazer e conhecer! Teríamos os dias necessários para consertar o que ficou torto, o que não deu certo.

Vou fazer muitos barcos de papel pra soltar no Arroio Tega, nas manhãs da eternidade. Passearei com meu guarda-chuva nas ruas molhadas e vazias de Passo dos Ausentes. Subirei em perna de pau na Noite de São João, olharei a Lua da janela do meu quarto de menino, pescarei estrelas com o chapéu.

Descobrirei o nome de todas as flores e árvores. Pedirei, também, ao meu anjo protetor que traga de volta, sem mais demora, os seres amados que já partiram. Sim, estou cansado de viver longe deles, sinto muitas saudades.

Quero todos os ausentes por perto outra vez. Principalmente nessas solitárias noites tão frias, tão povoadas de névoa e memória. O banzo que isto dá na gente.

Os invisíveis habitam a solidão das noites de inverno. É preciso reinventar o tempo.
 
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Texto revisto, publicado antes em 28, maio, 2014
 

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Conversa entre joaninhas

Jorge Finatto

photo: jfinatto

A JOANINHA verde disse para a joaninha amarela:
 
- O Brasil é, de fato, o país do futuro: não temos guerra, vulcão, terremoto, tsunâmi, furacão.
 
A joaninha amarela respondeu:
 
- E precisa?
  

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

O adeus das magnólias e a viagem de carreta

Jorge Finatto


photo: jfinatto
 

AS MAGNÓLIAS secaram com a última neve. É estranho falar em neve neste inverno onde quase não fez frio, foi um verão ameno. Muitos dias com temperaturas acima dos 30º em Porto Alegre. Com interstícios de geada, alguma neve, pouca, aqui na serra.

As magnólias brancas como algodão ficaram escuras e caíram do pé. As cor-de-vinho resistiram um pouco mais, algumas ainda estão vivas, a maioria acabou por cair. É o fim do inverno que nem bem aconteceu. Eu gosto de frio. Mas os tempos são de secura, nas almas e no ambiente.
 
A carreta no jardim com suas grandes rodas de madeira convida para um passeio. Mas não tenho cavalo nem boi para puxá-la. Vamos voar no pensamento entre as estrelas.
 
Andei de carreta no tempo da infância, uma grande aventura. Não me lembro do nome do carroceiro que nos levava de favor, atendendo nossos insistentes pedidos, éramos uns cinco meninos.

Começávamos por sentar nos duros e primitivos bancos de madeira. Depois saíamos pela estrada de chão, a sacolejar como batatas num saco. A sensação ao fechar os olhos: partíamos numa nave de quadro rodas puxada por um boi e íamos pelos céus, cá em baixo.
 
As inesquecíveis viagens, essas que fazemos com a imaginação.

Escrever sobre o tempo, flores e viagem de carreta é uma maneira de distanciar-se do mundo real. Licença poética indispensável nestes dias.
 

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Solitários bancos de praça

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto. Hidráulica Moinhos de Vento, Porto Alegre


TODOS SOMOS um pouco sozinhos. Uma voz no vento espalha essa notícia. Alguns são muito sozinhos. Trazem a marca da solidão a ferro e fogo incrustada na face, na alma. Regalo triste de nascença.
 
Habitamos um território cósmico povoado de solidões. De um modo claro, tudo no universo é um pouco só. Como esses solitários bancos de praça em setembro.

As pessoas têm medo de sair de casa, da caverna moderna, pois a violência e a indiferença tomaram a cidade. Zumbis vagueiam pelas ruas à procura de um lar.
 
Não existe fusão possível com o outro. O caminho é ermo. Um longo itinerário no desamparo é o destino de todo vivente. Haverá salvação?

A arte, esse luxo, aproxima, cria pontes. Haja palavra, haja traço pra desanuviar o fundo escuro dessa terra de esquecimento. Não existe mais memória de dias felizes. A infância é uma ilha perdida no proceloso oceano.

Os bancos vazios nas solitárias tardes de setembro. Cada um com seu cada qual. Com medo, com frio no coração. Não há manta que apague esse frio.
 
Dizem que não existem duas digitais iguais nem jamais existirão. Cada dedo, único dono. A solidão é assim: sinal ancestral. 
 
Os primeiros raios de sol iluminam o corpo da estátua na praça. Na parada do ônibus muita gente sozinha se prepara para enfrentar a trincheira de mais um dia.

Trazem a esperança de uma improvável felicidade, uma incerta salvação neste lugar onde todos padecem. Se olhar bem, cada rosto é uma obra de Deus e merece ao menos um olhar. Um olhar ao menos. Triste Brasil.

Haja filosofia, haja poesia diante de tanta crua realidade. Valha-nos Deus nesse imenso deserto.
 
Se ao menos nos déssemos as mãos, talvez os emissários do medo e da morte não fizessem o que estão fazendo com nossas vidas. Talvez tomássemos enfim a direção desse navio fantasma. E a solidão de cada um, de cada dia, já não seria o que é.