sexta-feira, 30 de março de 2012

Antonio Tabucchi

Jorge Adelar Finatto

photo de Tabucchi, 2008. Autora: Rebeca Yanke. Wikipédia

No tempo deste infinito mínimo, que é o intervalo entre o meu agora e o nosso então, lhe digo até logo e assobio Yesterday e Guaglione.*

Antonio Tabucchi

Amar um escritor é amar as suas palavras.

A morte não se cansa de levar embora os bons. Gente má parece durar uma eternidade. É a conclusão a que chego ao olhar os escritores e artistas que partiram somente nesse começo de ano.

No último domingo, 25 de março, em Lisboa, foi a vez do escritor italiano Antonio Tabucchi, 68 anos. Ele sofria de câncer. É considerado um dos grandes autores da literatura europeia. Mantinha há muitos anos uma forte ligação com Portugal, sendo admirador apaixonado, estudioso e tradutor da obra de Fernando Pessoa para o italiano. 

Casado com uma portuguesa, vivia períodos do ano em Portugal. Também era professor na Universidade de Siena, Itália, onde ensinava Língua e Literatura Portuguesas.

Escrevia regularmente na imprensa e era um corajoso defensor da liberdade de expressão. Escreveu, entre outros, o romance Afirma Pereira, de 1994, que foi adaptado para o cinema, tendo Marcello Mastroianni no papel principal.

Em 2011, Tabucchi desistiu de participar da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), como convidado especial, em protesto diante da decisão do Governo e da Justiça brasileira em não extraditar Cesare Battisti para a Itália, onde deveria cumprir condenação criminal (prisão perpétua) por assassinatos praticados naquele país.

A Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, programou a leitura integral de seu livro Requiem, para o dia 02 de abril próximo, a partir das 10h30. Trata-se do único livro que escreveu em português, uma homenagem a Lisboa e a Fernando Pessoa.

No final da leitura, será lançado o mais recente livro do escritor, O tempo envelhece depressa. A editora Dom Quixote informa que restou um livro inédito do autor.

Antonio Tabucchi, sim, um escritor que se fez amar por suas palavras e respeitar por gestos também.

_______________

* Os voláteis do beato Angélico, p. 46, Antonio Tabucchi, Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2003. Tradução de Ana Lucia Belardinelli.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Seco

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto



Secos pássaros dormem em ressequidos galhos. Secas folhas de plátano se agitam contra o azul. Manhã silenciosa, bailarina morta na caixa de música, seca, enferrujado relógio de parede, retratos na gaveta, tudo seco.
 
Secaram as lágrimas na face do vento.

Coração seco, boca seca, mão seca. Secas palavras. Secas pétalas de camélia vermelha dispersas no chão da praça. Seco, seco.
 
Secou a ponte que unia os amantes, inundava-os com a urgente carícia. Secaram as velas das faluas do Tejo.

Os olhos que olhavam o pôr-do-sol no Guaíba secaram, secaram.

Secos homens invadiram as ruas secas da cidade, cometeram tristes barbaridades.

O milharal, tão seco, pegou fogo.

Sentimento e pensamento, secos. O sexo ficou seco. As páginas do livro de poemas por escrever, secas, secas. Medo seco

Seco olhar observa do fundo do espelho.

A ternura, a ternura, um rio seco, secou dentro do coração.

___________________

Texto revisto, publicado em 23, maio, 2011.

terça-feira, 27 de março de 2012

Uma livraria perto das nuvens

Jorge Adelar Finatto

photos: j.finatto


São Francisco de Paula é uma pequena cidade, na região dos Campos de Cima da Serra, no Rio Grande do Sul. A população beira as 20 mil almas. A paisagem é única no mundo, nunca vi nada parecido, nem nos livros, nem em viagens.


Os campos ondulam lentamente em todas as direções, encimados por bosques de pinheiros, atravessados por córregos, cortados por largas escarpas de basalto, a cerca de mil metros acima do nível do mar. Cachoeiras surgem de repente em meio ao verde. Faz muito frio no inverno, a temperatura média anual é de 14 graus.


Um dia desses descia eu de Passo dos Ausentes (1800 metros de altitude), quando resolvi parar em São Francisco para um cordial café. Eis que numa esquina avistei o enorme casarão.


O nome da livraria é Miragem. Uma quimera perto das nuvens, cheia de livros, objetos de arte, artesanato e um belo café, tudo resumido em dois mil e duzentos metros quadrados.


Uma descoberta assim a gente não deve guardar para si, seria egoísmo. Entrei para ficar uma hora, fiquei quatro. Há bancos de madeira entre as estantes para o visitante descansar, ler ou mesmo cochilar. Através das grandes janelas se vê o sol de outono lá fora. Minha obsessão por relógios foi plenamente recompensada, pois os há em abundância, de todos os tipos, espalhados nos quatro andares do prédio.

Um fragmento da antiga Biblioteca de Alexandria foi parar ali em São Francisco. Alfarrábios convivem com títulos modernos, o velho e o novo se misturando como convém, organizados por áreas e salas. Enfim, se eu fosse fazer uma livraria, acho que seria parecida com a Miragem, que surge como um remanso espiritual no deserto em que vivemos, aqui e em toda parte.


Saindo-se para o pátio da livraria (sim, a livraria tem um pátio), encontramos um amplo anexo para apresentações e leituras públicas. Na fachada consta a data de 1918. No meio do pátio, um plátano ainda jovem e variadas plantas.


No lado oposto ao anexo, o café com suas mesas e cadeiras de madeira, como antigamente. O cappuccino é dos melhores e tem pouca acidez. Os bolos caseiros são olorosos e irrepreensíveis. O único refrigerante vendido no local leva o nome de hidromel, feito de uma mistura de água e mel, fermentada, levemente gaseificada.

Se os dois leitores do blogue querem uma sugestão de livraria, está aí. Como se não bastasse, São Francisco de Paula fica no caminho para Passo dos Ausentes, que vem depois, a nordeste e mais acima, nos Campos de Cima do Esquecimento.