quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Venimos de muy lejos

O Cavaleiro da Bandana Escarlate
 
photo: cena do filme
fonte: site dos produtores*
 
Não fique em casa sozinho, vendo televisão no sofá. Venha para a praça fazer teatro com a gente.
                                              Grupo de Teatro Catalinas Sur

Venimos de muy lejos (Viemos de muito longe, 2012), filme argentino com direção de Ricardo Piterbarg, é o melhor que vi até agora no Festival de Cinema de Gramado. Mais uma vez, o cinema argentino brilha, salva um festival que costuma ser apenas morno e faz valer a pena estar aqui em meio à chuva e ao frio.
 
O filme documenta o trabalho de criação e realização da peça Venimos de muy lejos, do Grupo de Teatro Catalinas Sur, que existe há trinta anos em Buenos Aires.

Catalinas Sur é o nome do bairro onde o grupo se formou, integrado pelas pessoas da comunidade. Vejamos o que eles dizem no seu site oficial*:

Somos um grupo de vizinhos que vemos no teatro a possibilidade de nos comunicarmos com outros vizinhos. Através do teatro, da música, do circo, dos títeres, queremos recordar o valor de nossas histórias individuais e coletivas e recuperar a memória que acreditou e que acredita em um mundo melhor.

Parece exagero dizer que o teatro pode mudar a sociedade, mas um grupo de homens e mulheres que fazem teatro pode levar adiante um projeto que não se limite aos novos modismos globalizados e se apóie nas ricas tradições e na história popular.


Pensamos e sentimos que o teatro é uma forma de comunicação e também de resistência. Estamos convencidos de que nossa utopia é possível e trabalhamos todos os dias para torná-la realidade.

photo: peça Venimos de muy lejos

Venimos de muy lejos conta histórias fictícias e reais, a partir da experiência dos imigrantes (italianos, espanhóis, poloneses, etc., antepassados dos membros do grupo) que vieram para a Argentina em fins do século XIX, inícios do XX, instalando-se nas imediações do porto da cidade de Buenos Aires, no bairro La Boca, conhecidíssimo hoje pelo time de futebol Boca Juniors (estádio La Bombonera) e pela rua-museu Caminito
 
Naquele lugar os imigrantes passaram a morar nos conventillos (cortiços), precariamente instalados em pequenos quartos, com problemas de toda ordem, desde várias pessoas dormindo no mesmo ambiente até diversas famílias usando um mesmo banheiro.
 
O filme traz a peça para a tela, contando as dificuldades e também a solidariedade que movia aquela gente, suas esperanças, suas lutas por um amanhã melhor, suas festas e canções, tudo sempre com muito humor.

Teatro comunitário. A peça, agora filme, estreou em 1990 na Praça Ilhas Malvinas do bairro Catalinas Sur, e segue sendo apresentada em outras praças, cidades e países.

O que mais chama a atenção é a maneira como o grupo atua na comunidade, chamando os moradores para a rua a fim de participarem das atividades artísticas e comunitárias.

Desde crianças até velhos, muita gente se envolve, opina, discute, atua, sendo a criação coletiva a principal característica.

O filme retrata tudo isso com muita riqueza.

Ao saírem da solidão dos apartamentos, as pessoas se encontram, conversam, sabem umas das outras, realizam vários tipos de oficinas, criam projetos, sentimentos e sentidos. E isto, nos dias de hoje, considerando a penúria de convivência em que se vive, é, no mínimo, revolucionário.
 

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Wagner Moura, ator e cidadão

O Cavaleiro da Bandana Escarlate
 
photo: j.finatto
 
No sábado, fez um frio polar aqui em Gramado, com a temperatura caindo para algo próximo de zero grau. Uma chuva bem molhada e insistente não parou o dia inteiro. À noite, no Palácio dos Festivais, assisti ao filme argentino Puerta de Hierro, El Exilio de Perón, e a um curta-metragem (o primeiro da programação noturna) que achei decepcionante, não entendendo como passou na seleção.
 
Para quem, como eu, conhece pouco a história da Argentina, o filme sobre o exílio de Perón (1955-1973), direção de Dieguillo Fernández e Víctor Laplace, tem interesse. Perón foi um líder político marcante e com personalidade complexa. Puerta de Hierro é o nome da casa em que ele morou em Madri, onde recebia visitantes e políticos, e na qual foi guardado o cadáver embalsamado de Eva Perón, depois que restou devolvido por inimigos de Perón, após terem mantido o corpo desaparecido por quase 20 anos. A obra aborda também sua amizade com uma jovem mulher espanhola, à qual confia suas memórias gravadas em fitas.

Naquele período conhece e casa-se com Isabelita. Através dela, entra na história um estranho com supostos poderes sobrenaturais, López Rega, dito El Brujo. Perón retorna à Argentina, é eleito novamente presidente, morre e assume sua vice, Isabelita, que dá poderes a Rega, seguindo-se um período de grande violência promovido por ele, que deságua no golpe e na ditadura militar em 1976.  
 
Um bom filme, embora não desenvolva como poderia as contradições de Perón, inevitáveis, para o bem e para o mal, em figuras de sua dimensão.
 
Mas o melhor da noite ocorreu depois deste filme, durante a entrega do Troféu Cidade de Gramado ao ator Wagner Moura, pelo conjunto de seu trabalho.

photo: j.finatto
 
Poucos artistas no Brasil conseguem se expressar tão bem sobre a arte e a função do ator como ele. Moura estava chegando dos Estados Unidos, onde foi para o lançamento do filme Elysium (estréia de Wagner em Hollywood), que no primeiro dia de exibição faturou cerca de 11 milhões de dólares, conquistando a primeira posição em bilheteria nos EUA.
 
Wagner disse, entre outras coisas, que partilhava o troféu com os atores de sua geração. Com a mãe presente no Palácio dos Festivais,  ele comentou que ela realizava o desejo de estar em Gramado e de ver o filho participando do festival.
 
photo: j.finatto
 
Depois ele referiu que no domingo, 11/8, Dia dos Pais, gostaria de almoçar com seu pai, abraçá-lo, mas não seria possível pois faleceu ainda durante a realização do filme Elysium.
 
O momento mais emocionante ocorreu quando ele dedicou o troféu aos filhos do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, desaparecido desde 14 de julho, na favela da Rocinha, no Rio, quando, após identificar-se aos policiais que o abordaram com a carteira de trabalho, foi conduzido a prestar depoimento na Unidade de Polícia Pacificadora local e não foi mais visto. Sumiu.
 
Wagner disse que não poderia almoçar com seu pai porque ele ficou doente e morreu. Mas que os filhos de Amarildo não poderiam passar com seu pai porque ele desapareceu e não há explicações para isso.
 
O ator falou como alguém que, além de procurar fazer o melhor na profissão que exerce (e o faz muito bem), não se omite diante da realidade brasileira e de fatos dramáticos como o desaparecimento de Amarildo. Sabe dizer as coisas com verdade e sentimento. Além de ator, um ser humano e um cidadão.
 
photo: j.finatto
  

domingo, 11 de agosto de 2013

A sombra da esfinge

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto. duas magnólias
 

Como ele nunca tivera pai para amar, sempre lhe pareceu que a coisa mais em falta no mundo não é dinheiro nem qualquer outro bem material, mas um abraço de pai.
 
Quando menino, era difícil explicar aquela ausência para os outros. Na rua e na escola, as pessoas botavam olho, cara de admiração. Não ter pai era mesmo que não ter um braço ou uma perna.
 
A sombra da esfinge o perseguia no Dia dos Pais, aniversários, natais, páscoas, reuniões na escola, fins de semana, noites e dias sem fim. A falta projetou-se nos sonhos e pesadelos do menino.

O tempo passou.

Um dia ele descobriu que outras casas também não tinham a figura misteriosa. Só que muita gente escondia isso. Estranho: escondiam um ser que não existia. Ocultavam o mito. E alguns possuíam apenas uma deprimente imagem de homem no sofá da sala.

Os sem-pai já não eram exceção. Talvez fossem maioria.

Ficou nele a idéia de que as mulheres, e não os homens, fazem o moinho do mundo girar.

Na verdade, isso não era um consolo, mas a consciência de uma espécie de mutilação. Sempre falta um pedaço.

A humanidade é toda seqüelada, ele pensa, enquanto caminha com o filho pela mão na praça do bairro, domingo à tarde.
 
É que pra ele, agora, todo dia é Dia dos Pais. 
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Texto revisto, publicado anteriormente em 16 de maio, 2013.
 

sábado, 10 de agosto de 2013

O assassinato do ambientalista

Jorge Adelar Finatto

photo: Hernández, em imagem cedida por sua viúva. fonte: El País

O assassinato do ambientalista espanhol Gonzalo Alonso Hernández, 49 anos, ocorrido no último domingo, em seu sítio, no interior do município de Rio Claro, Estado do Rio de Janeiro, é mais um trágico acontecimento na história da luta pela preservação do meio ambiente no Brasil. Uma demonstração evidente - mais uma - do alto grau de violência que domina a sociedade brasileira.

Segundo o jornal El País*, da Espanha, Hernández, que era biólogo, estava no Brasil desde 1997. Inicialmente veio trabalhar como diretor de uma empresa de telefonia. Em 2005 decidiu largar o emprego para dedicar-se integralmente à causa da ecologia, abrindo mão do bom salário que o cargo lhe proporcionava. Passou a atuar no Parque Estadual Cunhambebe, uma reserva da Mata Atlântica, com 38 mil hectares. Conforme o periódico, ele era rigoroso na denúncia de caçadores e desmatadores, chegando até mesmo a segui-los e fotografá-los em suas atividades ilegais.
 
O informe dá conta, ainda, de que sua viúva, a brasileira Maria de Lourdes Pena Campos, e pessoas envolvidas na proteção ambiental temiam pela maneira firme e contundente com que Hernández atuava. Para os que lhe eram próximos, foi uma tragédia anunciada. De acordo com Maria de Lourdes, ele se queixava de que "os brasileiros nunca protestam por nada".

Ela acrescentou que o marido era uma pessoa estudiosa, caseira, que gostava de ler, além de dedicar-se à ecologia:

- Ele queria fazer um blog sobre meio ambiente, mas não deu tempo.

O secretário do Meio Ambiente de Rio Claro, Mario Vidigal, lembrou que ele era um idealista da causa ambiental, denunciando toda ilegalidade que via.
 
O ecologista foi atingido pelas costas com um tiro na cabeça, quando chegava em seu sítio, depois de levar a mulher até a rodoviária, onde ela embarcou para a cidade do Rio, na qual trabalhava durante a semana. Ela regressava aos finais de semana para encontrar o marido. O corpo só foi encontrado na terça-feira pela manhã, coberto por pedregulhos e folhas de bananeira, num riacho próximo. De sua casa foram levados o laptop, duas lanternas e o celular, informa O Globo**. Conforme a reportagem, Hernández participava do programa Produtores de Água e Floresta, uma parceria do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) com o Instituto Terra de Preservação Ambiental, a prefeitura de Rio Claro e a ONG The Nature Conservancy. Ele recebia uma compensação financeira pelo zelo ambiental. O homicídio está sendo investigado pelas autoridades.
 
A violência inaceitável e revoltante nos remete a um Brasil em que existe um abismo entre o elevado poder dos criminosos e a baixa capacidade do Estado em fazer valer a lei. As pessoas de bem, que respeitam regras de convivência e procuram fazer algo pelo coletivo e pela natureza (como Hernández), vivem à margem de proteção. Dominam a cena os bandidos, os malfeitores, os corruptos e corruptores, os violadores da ordem jurídica, que atuam com desenvoltura, sem nenhum limite, porque falta Estado para fazer respeitar a lei.

Os agentes que combatem a criminalidade se defrontam com a falta de recursos para exercer seu papel, com poucos meios materiais e humanos, muitas vezes sem mínimas condições de trabalho. Os salários pagos pelo Estado a esses homens e mulheres não condizem com a importância e o risco de sua missão.
 
Infelizmente, há muito o Brasil deixou de ser um País cordial e pacífico (se é que realmente algum dia o foi). O que vemos é um quadro crescente e assustador de violência, que radica na maior de todas elas, a corrupção.

A incompetência governamental, em níveis federal, estadual e municipal, em áreas essenciais como segurança, saúde, educação, transporte, infraestrutura, meio ambiente e outras, se acentua a cada dia. Com poucas exceções, a maior parte dos administradores públicos subestima a capacidade de indignação da população diante dessa situação, o que põe em risco as conquistas democráticas.

A terrível morte de Hernández é mais um dado nessa realidade brutal, que é a negação dos direitos humanos, da democracia e do estado de direito pelos quais tanto se lutou e tantos perderam, e continuam a perder, a vida.

Quantos outros ambientalistas estarão sofrendo ameaças e agressões neste momento pelo país afora, sem que nada seja feito? Triste Brasil.
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*El País:
**O Globo:
 

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Cley e Cortázar

Jorge Adelar Finatto
 
photo: Julio Cortázar*

  "Sei que algum dia os brasileiros vão descobrir melhor Cley."
     Julio Cortázar
 
Volto ao livro Papéis Inesperados, de Julio Cortázar, sobre o qual escrevi faz algum tempo. Um texto me chamou a atenção, aquele em que Cortázar fala a respeito de seu amigo Cley Gama de Carvalho, que ele apresenta como jornalista e dramaturgo brasileiro. Impressiona o afeto, e também o respeito, que havia entre eles. Conheceram-se em Paris quando Cley fez uma entrevista com o escritor argentino.

Não eram amigos de se ver todo dia. Encontravam-se de vez em quando, a intervalos de dois anos, em geral. Quando Cortázar lhe perguntava, pessoalmente ou através de carta, como estava, a resposta era sempre a mesma: tudo bem.

Mas o escritor pressentia que as coisas não iam bem com o amigo, pelo contrário. Eram os anos dos governos de força neste lado do mundo e Cley teve sérios problemas com a ditadura militar no Brasil. Cortázar não sabia detalhes do que acontecia, pois Cley não era de lamentar-se e evitava o assunto. Mas sentia que a realidade, a cada dia, pressionava mais e mais o brasileiro.
 
É um texto cálido sobre o amigo Cley que se suicidou no Brasil, no final de 1976 ou inícios de 1977, não há precisão. O companheiro que enviava garrafas de cachaça, pelo correio, para Cortázar enfrentar o inverno. Algumas chegavam estilhaçadas no pacote.

O argentino refere-se, também, à peça de teatro que Cley escreveu, intitulada Cromossomos (Como somos), e que considera "magnífica", "cuja representação no Brasil não havia servido exatamente para facilitar a vida e a tranquilidade de Cley". Esse elogio, vindo do criador de Histórias de Cronópios e de Famas, tem que ser bem apreciado.
 
Nunca ouvira falar antes de Cley Gama de Carvalho até ler este texto.
 
Tentei encontrar alguma informação sobre ele, algum trabalho de sua autoria, mas muito pouco consegui até agora. Vou continuar atento. Afinal, pelo que diz Cortázar (poderia haver melhor testemunha?), foi uma pessoa muito especial e um autor importante:
 
"algum dia os paulistas, todos os brasileiros, saberão melhor quem foi Cley Gama de Carvalho, como passou por seu tempo com uma dignidade de grande urso livre, com um sorriso calado de ironia sem maldade".
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Papéis Inesperados, Julio Cortázar. Para uma imagem de Cley, pp. 367/372. Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2010.
*Foto de: Julio Cortázar. Fonte: www.juliocortazar.com.ar. O crédito será dado ao autor tão logo tenhamos a informação.
Este texto publicado anteriormente em 18 de agosto, 2010.
Leia também Urso solitário, do artista plástico Mario Gruber sobre Cley:
http://www.memorial.org.br/acervo/obras-de-arte/homenagem-a-clay-gama-de-carvalho/urso-solitario/
 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Proust no Festival de Cinema de Gramado

O Cavaleiro da Bandana Escarlate

photo: j.finatto. magnólias de Gramado. agosto 2013
 

Estava em solidão com o livro (Em busca do tempo perdido) no breve jardim de inverno no meu solar da Praça Maurício Cardoso, na madrugada fria de Porto Alegre, quando ouvi o som do telégrafo no escritório. Sim, ainda tenho um desses vetustos aparelhos (ninguém mais sabe o que é isso). É com ele que me comunico com Passo dos Ausentes.

Quem será no manipulador a uma hora dessas? Ainda há gente viva naquela cidade perdida? - perguntei-me.
 
Pedi licença a Marcel Proust (1871-1922) para ausentar-me um momento. Ele me olhou como quem diz: vá lá, eu tenho toda a eternidade pela frente.

Subi ao escritório e li a mensagem. Era Alberta de Montecalvino*, a Senhora da Biblioteca, me lembrando que nesta sexta-feira, 09 de agosto, começa mais um Festival de Cinema de Gramado, que se estenderá até o dia 17. Trata-se da 41ª edição do evento, que reúne filmes brasileiros e latinos. Mais que isso: a nobre dama me convocou a fazer a cobertura do festival para o blog.

Do meu jeito, claro, com liberdade, inclusive, para não assistir a todos os filmes (quem há de ver tudo?). Eu não consigo. Preciso de um tempo para respirar e admirar as magnólias que brilham nessa época contra o céu azul de Gramado. 
 
Respondi que sim, tenho por norma jamais dizer não ao cinema e à Alberta. Depois, naquela glacial madrugada, voltei ao jardim e comuniquei a meu amigo que teria de viajar, expliquei-lhe o motivo.
 
- Não se explique tanto, vá em paz, meu caro. Na sua volta, estarei aqui, esperando, aliás como sempre faço - disse-me Marcel. Havia nessas palavras muito mais que compreensão: era a ironia proustiana caindo sobre mim.
 
E não pense o leitor que me espantei, pois faço jus à ironia do grande escritor francês. Faz trinta anos que não consigo terminar de ler os sete volumes de Em busca do tempo perdido.
 
Proust por volta de 1900. photo: Sygma/Corbis.
fonte: site do jornal The Guardian**

Deus, é difícil confessar tamanha barbaridade. As páginas dos volumes ficaram amarelas, muitas coisas caíram no esquecimento dentro de mim, meus cabelos ficaram cor de cinza. Minha culpa não tem limites e é ainda maior do que aparenta: sequer recordo quantas vezes iniciei e interrompi a leitura do primeiro volume (No caminho de Swann), na bela tradução de Mario (sem acento, por favor) Quintana.
 
Pois justo agora tinha decidido seguir até o fim. Com o constrangimento habitual, pedi desculpas a Marcel que, com gravata de laço, perna esquerda cruzada, sentado, olhou para o teto, ergueu a mão direita, deixando-a cair em seguida sobre o braço vermelho da poltrona.
 
- C'est la vie, c'est la vie, mon ami, disse ele com visível enfado, baforando a cigarrilha contra a luz do abajur azul. No mesmo instante perguntei se não gostaria de viajar comigo a Gramado. Poderíamos continuar a conversa na serrana cidade, andar pelas ruas, ir a cafés e tavernas, que nessa época se enchem de felinis e mazaropis. Qual não foi minha surpresa com a concordância de Marcel.

Preparei a Yamaha 250 cilindradas (ano 1974), pouca roupa no alforje e parti, partimos, em tresloucada aventura pela BR-116. Marcel veio na carona da moto.
 
E aqui estamos olhando a imensidão do Vale do Quilombo, no hotel, depois de três horas de vento e garoa na cara. No caminho, paramos em Nova Petrópolis para um café com memorável fatia de bolo caseiro, que teve para nós o sabor de uma madeleine proustiana.

Publicado em 1913, No caminho de Swann foi pago com o dinheiro do próprio escritor. É a porta de entrada desta grande, bela e acolhedora casa. Desta vez, vou tentar não decepcionar Marcel. Enquanto o festival não começa, estamos convivendo, varando as noites em busca da memória e do sentido das coisas.

Os filmes que quero ver. O que mais me move nesta empreitada, não vou negar, é assistir aos seguintes filmes:  A Oeste do Fim do Mundo (2013) - Argentina/Brasil (coprodução); Cazando Luciérnagas (2013) - Colômbia; El Padre de Gardel (2013) - Uruguai; Puerta de Hierro - El Exilio de Perón (2012) - Argentina; Repare Bem (2012) - Portugal; Venimos de Muy Lejos (2012) - Argentina.

O cinema que se faz na Argentina, principalmente, e no Uruguai, atualmente, está entre os melhores do mundo. Pretendo acompanhar de perto esses filmes, sem esquecer alguns brasileiros (embora sem levar muita fé, confesso. Tomara que me surpreenda).

E, é claro, não vou perder os curtas, que passam às tardes, gratuitamente, no Palácio dos Festivais. Descobri belos trabalhos entre os curtas nas edições anteriores.

Os pequenos-grandes filmes são a cereja do bolo do festival de Gramado.

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O Cavaleiro da Bandana Escarlate, menestrel medieval e livre-pensador, faz a cobertura do Festival de Cinema de Gramado para o blogue a convite de Alberta de Montecalvino.
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/01/o-conde-de-lautreamont-e-as-magnolias.html

*Alberta de Montecalvino:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/07/alberta-de-montecalvino.html

**The Guardian:
http://www.theguardian.com/books/2013/feb/07/reading-group-swanns-way
 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Imagens do Vale do Quilombo

Jorge Adelar Finatto 

photo: j.finatto

 
Tem início hoje na Universidade de Caxias do Sul, campus da cidade de Canela, a exposição fotográfica Visões do Vale do Quilombo. São 22 imagens que fiz com a intrépida Coruja durante as minhas passagens por Canela e Gramado, onde se situa o Vale, nas idas e vindas a Passo dos Ausentes.
 
São pinturas de quem não sabe pintar, mas gosta de registrar imagens da natureza.
 
photo: j.finatto
 
Gosto de photos que nos transportam para um lugar espiritual.
 
Fotografar, como escrever, faz parte da vã tentativa de dominar o tempo, aprisionar o transitório. A arte é talvez a busca da impossível permanência. Isso de que somos carentes. A brevidade da vida é algo assustador e não está de acordo com nossa ânsia de beleza e eternidade, perceptível em quase tudo que fazemos.
 
Nesta luta entre o rochedo e o mar, a gente faz o que pode. São formas de partilhar a vida.
 
photo: j.finatto

A fotografia só se completa no olhar e no sentimento do observador.
 
Estão todos convidados.

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Exposição de 05 a 31 de agosto, na UCS, Canela. Fone: 054-32825200
 

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O retorno do pássaro

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto
 

Eu andava sorumbático e não sabia por quê. Até que me dei conta: estou longe de Passo dos Ausentes há muito tempo. Porto Alegre, pra mim, não é mais um porto acolhedor, é um lugar onde venho cumprir compromissos. E sinto medo.

Há violência, ressentimento, indiferença demais nesse porto que ficou triste.

Quando estou por aqui, uma vez cumprida a obrigação, fico no apartamento, ou então me refugio em sala de cinema, livraria, café. Pouco saio nas ruas.

O que houve entre mim e Porto Alegre? Mudamos, talvez não nos reconheçamos mais como antes. Perdemos a intimidade.

Se ainda sinto amor pela cidade do pôr-do-sol? Como não sentiria? Afinal aqui cheguei num longínquo abril, depois de escorregar entre os pinheiros e as montanhas, durante um grande vendaval. Vim rolando feito seixo que acabou caindo na beira do Guaíba.

O Guaíba foi o irmão que me recebeu de braços abertos.

Muitos anos depois retornei à serra ancestral, reencontrei o lar perdido. Tornei-me outra vez aquilo que nunca deixei de ser, um interiorano. Por isso essa sensação de passarinho caído fora do ninho quando estou longe da casa de madeira e basalto nos Campos de Cima do Esquecimento.

Em suma, parafraseando o velho Sócrates, eu não sei de nada, mas sei menos ainda da vida e de mim quando estou na cidade grande.

Quando você ler estas maltraçadas linhas, raro leitor, eu estarei na estrada, regressando, enfim, pro meu canto no universo. Feliz como pássaro ferido que retomou o vôo.
 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Visita ao cemitério de Père-Lachaise, Paris

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. Père-Lachaise, Paris


Um leitor pergunta-me, por e-mail, o que, afinal, um escritor genial como Balzac (1799-1850) ia fazer no cemitério de Père-Lachaise em Paris. Refere-se ao post de ontem (29/12/12), no qual escrevi que o grande romancista francês costumava freqüentar aquele lugar para meditar e realizar no local o que denominou "estudos de dor".


photo: j.finatto.Túmulo de Proust com carta e vaso de flor

Admirou-se, também, o raro leitor, pelo fato de eu ter passado um dia - um domingo - pesquisando, anotando e fotografando no tal cemitério: "O que pode haver de tão interessante num lugar assim? Não revelará esse gesto certa tendência mórbida do temperamento do cronista?", arrematou.

photo: j.finatto. Túmulo de Oscar Wilde em reforma, acima e embaixo (e os beijinhos)


photo: j.finatto

Não posso falar por Balzac, mas acredito que, atento observador como era, capaz de ir a minudências que passam despercebidas da maior parte dos mortais, as horas vividas no cemitério serviram-lhe de precioso material existencial e reflexivo para escrever sua obra.

Nada como a morte para chamar-nos à vida.

Uma certa melancolia ancestral habita o meu sangue, admito. Esse é um traço anímico de quem nasceu em Passo dos Ausentes como eu. Ninguém vem ao mundo impunemente aqui nos Campos de Cima do Esquecimento, entre gélidas névoas.


photo: j.finatto. Túmulo de Balzac

Mas ainda não chego ao ponto de fazer excursões a cemitérios por causa disso. Longe de mim! A morte é, entre os fatos naturais, o que me causa maior aversão e desgosto. Não existe entre mim e ela amizade ou encantamento possível.

Visitar cemitérios, portanto, não é um passeio que, de regra, me agrade, pelo contrário. Além disso, procuro sempre evitar tais visitas, pois, como diz aquele sábio ditado popular: "quem não é visto não é lembrado".


photo: j.finatto. Túmulo da escritora Colette

Uma visita ao Père-Lachaise tem valor cultural. É um giro pela história da arte e da cultura. E uma visão impressionante da transitoriedade de tudo nesse mundo. O destino final de todos os esforços, caprichos, alegrias, dores, sacrifícios, preocupações e vaidades.

Ali estão os túmulos de alguns dos principais artistas, escritores, filósofos e cientistas que marcaram a trajetória humana. As inscrições tumulares dão alguma notícia do que fizeram. Na portaria, o interessado pode pegar um impresso com o mapa das sepulturas contendo informações sobre os ilustres falecidos.


photo: j.finatto. Túmulo de Gilbert Bécaud

Também é possível observar a reação das pessoas diante da morte de personagens famosos (e outros nem tanto), os estudos de dor, de que nos fala Balzac. Cartas, bilhetes, livros, flores, velas, objetos diversos são colocados nos túmulos.

Mas nenhum dos habitantes do Père-Lachaise é alvo de tamanha manifestação de afeto como Oscar Wilde, cujo túmulo foi coberto por marcas de beijos com batom ao longo do tempo. Sobre o assunto escrevi Oscar Wilde: o beijo proibido.*


photo: j.finatto. Père-Lachaise

Estão sepultados no Père-Lachaise, entre tantos: Chopin, Édith Piaf, Yves Montand, Proust, Jim Morrison, Paul Éluard, Sarah Bernhardt, Maria Callas, Isadora Duncan, Allan Kardec, Camus, Gilbert Bécaud, Molière, Champollion, Modigliani, Pissarro, Dalacroix, Max Ernst e por aí vai. É um panteão a céu aberto. Vale a pena uma visita (não recomendável para pessoas impressionáveis).


photo: j.finatto. Père-Lachaise
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Oscar Wilde: o beijo proibido:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2011/12/beijo-proibido.html

Fotos de novembro de 2011.
Texto revisto, publicado antes em 30.12.12.

domingo, 28 de julho de 2013

T.S.Eliot, Deus e as coisas boas da vida

Jorge Adelar Finatto

photo: T.S. Eliot
 

Uma carta do poeta T.S. Eliot (1888-1965), publicada na edição de julho deste ano da revista Serrote (nº 14), que acaba de chegar às livrarias, evidencia a religiosidade de um dos grandes autores do século XX. Nela o escritor considera Deus uma presença fundamental em sua vida.

Eliot nasceu nos Estados Unidos (St. Louis, Missouri) e fez brilhante carreira literária na Inglaterra, adotando a cidadania inglesa em 1927. Por sua obra, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1948.

Num tempo em que o ateísmo ou a desconsideração de Deus é pensamento dominante nos meios intelectuais, a manifestação de Eliot, um dos grandes poetas de língua inglesa de todos os tempos, escapa ao "intelectualmente correto", abordando sem reservas sua crença.

Fugindo da concepção que nega a existência de Deus, ou que sequer leva o assunto em consideração (como se fosse coisa de indivíduos ignorantes e pouco dotados mentalmente), Thomas Stearns Eliot afirma sua fé com convicção, de forma tranqüila, sem pretender impô-la a ninguém.
 
A carta foi escrita em 18 de setembro de 1927, um domingo à noite, tendo como destinatário Geoffrey Faber, escritor e editor, fundador da editora Faber & Gwyer (depois Faber & Faber), para a qual Eliot trabalhou durante muitos anos.

Publicada na Serrote com o título As coisas boas da vida, traz o entendimento do poeta no sentido de que a apreciação das coisas boas da vida depende do alcance de cada um, do grau de bondade de cada um, "minha própria apreciação (...) é intensificada por minha consciência de Deus", e acrescenta:
 
"Por exemplo, se alguém toma as relações humanas (ou, ainda, melhor, a relação homem/mulher) como seu maior bem, afirmo que isso acabará em desilusão e engano. Mas se duas pessoas (digamos um homem e uma mulher que mantêm uma grande intimidade) amam Deus ainda mais do que um ao outro, então ambos desfrutam maior amor um pelo outro do que se não amassem a Deus.

"(...)  O amor de Deus substitui o cinismo, o qual, de outro modo, é inevitável em qualquer pessoa racional, pois as relações com amigos e amantes, apartadas do amor de Deus, sempre, em minha experiência, acabam em desilusão e engano. Ou as pessoas o decepcionam, ou você as decepciona, ou ambos: nenhuma relação humana é, em si mesma, satisfatória" (p.238).*
 
Não me recordo de ver a questão de Deus colocada de forma tão lúcida e clara no âmbito das relações humanas. Não imaginava encontrar semelhante visão a um só tempo existencial e espiritual no autor do belo poema A terra devastada, traduzido no Brasil, com excelência, por Ivan Junqueira, com o título de A terra desolada, no livro T. S. Eliot, Poesia (com introdução e notas), Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1981.

O tema é particularmente importante nos dias de hoje, quando tanto se despreza a dimensão da espiritualidade na vida das pessoas, preferindo-se o indivíduo isolado no egoísmo, separado dos outros, valendo por si, contra tudo e contra todos, sem limites na busca de prazeres e bens materiais.

Não vou tirar o prazer do leitor de ler na íntegra a carta nas páginas da Serrote, de ruminar e extrair suas conclusões. Trata-se de um rico documento. Digo apenas que, por mim, a revista poderia ter apenas esse texto e já estaria plenamente justificada. Mas tem muito mais. É ler ou ler.


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O crédito da photo de T.S. Eliot será dado tão logo conhecida a autoria.
* Tradução de Thiago Lins