quinta-feira, 11 de julho de 2013

Basquiat, um iluminista das cores

Jorge Adelar Finatto

pintura de Basquiat. nome: Skull (caveira), 1984
fonte: Wikipédia

O raro leitor, assim como eu, não está interessado em estatísticas inúteis. Isso não nos afeta, a vida tem coisas mais urgentes e belas com que se ocupar. O que queremos é o texto e a foto que nos dêem algum prazer, uma pequena alegria.

A leitura de um blog tem que ser como a passagem por uma ilha sossegada durante o dia: um breve momento de solidão, leitura e descanso, onde nada nos incomode.

Uma coisa, porém, chama a atenção e quero compartilhar. O texto mais procurado aqui no blog, desde sempre, é aquele sobre Basquiat*, que nunca sai da coluna dos mais lidos. É disparado o que tem mais acessos, o que desperta o maior interesse nas pessoas, não só do Brasil como de outros países. Isso revela, no mínimo, o grande interesse que o artista desperta.

Um dia me impressionei com os grafites de Jean-Michel Basquiat nas ruas de Nova Yorque e, depois, com suas pinturas nas galerias. A juventude do artista, a sua temática urbana existencialista com raízes africanas, a rapidez, a angústia e a urgência de seu traço febril são algumas das características de seu trabalho que me levaram a escrever.

Jean-Michel Basquiat. photo em preto e branco.
autor: James Van Der Zee. fonte: site de Basquiat*

Ninguém consegue ficar indiferente ao seu talento, que apareceu primeiro nas ruas, com a exposição de sua arte nos muros e paredes. Não havia moldura nos grafites figurativos, a moldura era a cidade. Quando decide sair de perto da família, antes dos 20 anos, sobrevive vendendo camisetas e postais na rua, que nessa época foi sua casa. Esse tempo não durou muito: foi veloz a transição entre a pobreza e a fama, entre o nada e o reconhecimento.

O grafite, a arte humilde das ruas, passageira como os caminhantes nas calçadas, perecível ao sol, ao vento e à chuva, é, longe da pichação, a ocupação do vazio, do não-lugar, do espaço do mal, através do impulso vital que se faz lirismo e expressão, em meio à dureza da existência nas cidades. 
Basquiat foi um espírito iluminista no final do século XX, vivendo no asfalto e em seu ateliê, à sombra dos grandes edifícios, em meio a ruídos de máquinas, veículos e fumaça.

Nos seus grafites, ele promove a subjetivação do espaço público, as paredes dos prédios ganham a cor lilás, o amarelo leva sua alegria, o vermelho, sua raiva, revolta e paixão, o azul, a paz provisória, a tristeza assume mil tons.

Autorretrato, 1982. fonte: site oficial do artista**

As coisas aconteceram depressa demais na vida do artista. Morre de overdose de heroína, precocemente, em agosto de 1988, aos 27 anos. Nesse curto período, produziu muito, consagrou-se no meio artístico, foi amigo e trabalhou com Andy Warhol, namorou Madonna antes de ser famosa, e muito jovem, quase um menino, tornou-se uma celebridade.

Basquiat é um parente distante de Tintoretto, com a mesma pressa e violência da composição, e um irmão mais novo de Van Gogh, que, à semelhança do gênio holandês, libertou as cores do seu coração nas ruas da mais universal das cidades do mundo, dando-lhes sentido e sentimento.

Por tudo isso, e em homenagem à sua arte, fico contente que seja tão procurado neste modesto espaço.

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*Basquiat, anjo caído
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2010/11/basquiat-anjo-caido-expoe-em-paris.html
**Site oficial do artista:
http://www.basquiat.com/index-new.htm
A ortografia utilizada no blog é a atual (e antiga), que continua ainda em vigor juntamente com a norma do destrambelhado acordo ortográfico (sobre o qual já nos manifestamos).

segunda-feira, 8 de julho de 2013

O homem e o rio

Jorge Adelar Finatto

Passeio sobre prancha, no Guaíba, diante da Fundação Iberê Camargo.
photo: j.finatto
 
Devia ser eu em cima daquela prancha (stand up), deslizando sobre as águas do Guaíba na tarde de julho. Na verdade, acho que era eu. Sentia o cheiro adocicado do rio enquanto glissava de pé sobre a superfície azulada, cortando as pequenas ondas em direção ao sul.

Se não era eu, como explicar o toque do vento batendo no meu rosto, aquela sensação incrível de liberdade?

Devia ser eu, tinha de ser eu. Pelo menos era o que imaginava, sentado no café da Fundação Iberê Camargo, diante do Guaíba, no intervalo da visita que fazia às exposições de pintura.

Um sentimento de felicidade por estar ali, mergulhado naquela aquarela. A vista da cidade desde o ponto ondulante era de não esquecer.

Porto Alegre vista de uma janela da FIC
photo: j.finatto

Devia ser eu naquela prancha, orientando o remo, olhando a face fugidia da cidade.

A tarde de sol cálido convidava pra ser feliz olhando o Guaíba e seus reflexos.

Recordo do tempo em que, na altura da Usina do Gasômetro, centro de Porto Alegre, havia uma praia onde as famílias se reuniam nos fins de tarde de verão com suas esteiras e guarda-sóis coloridos.

Lembro dos dias ali vividos e de como nos banhávamos nas águas do Guaíba. Às vezes, tinha vontade de embarcar num navio e sair pelo mundo. Sim, navios de várias bandeiras entravam e saíam do porto naquele tempo.

Beira rio. photo: j.finatto
 
O homem da prancha desafia a lógica da cidade nas últimas décadas, que é ficar de costas para o rio. O homem da prancha vem nos lembrar que existe um rio e que é bom manter contato físico com suas águas. O homem da prancha desperta em nós, que estamos à margem, a vontade de deixar o rio fazer parte de nossas vidas outra vez.
 
Por isso é tão importante não perder tardes azuis de inverno. É isso que me digo enquanto olho a cidade abraçada pelo seu rio.
 
Diante do Guaíba, perto do entardecer, esse momento é um convite ao pensamento criativo, ao olhar interior, à integração com a cidade e seu ambiente, à construção de sentidos.

Viver é agora.


Árvore diante da FIC, na beira do Guaíba.
photo: j.finatto

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Iberê Camargo:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/03/ibere-camargo-e-escrita-da-solidao.html

O retrato de Iberê:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/03/o-retrato-de-ibere.html


 

sábado, 6 de julho de 2013

Por quem choras, Maria Filipa?

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. Amsterdam

 
Por quem choras, Maria Filipa?

Quem mastigou teu coração e depois cuspiu no fundo das águas?

Estás ainda sentada à beira do canal, na tarde de outono, em Amsterdam?

Me olhaste com os olhos mais tristes do mundo. Passageiro efêmero no barco casual, numa cidade distante e povoada de ausência, eu nada fiz naquela hora.

Eu estava de passagem entre um cais e outro, um canal e outro, um deserto e outro.
 
Devia talvez ter me jogado nas águas turvas na tarde de domingo. Nada era mais importante do que ir ao teu encontro.

photo: j.finatto.

Devia ter ficado o resto do dia contigo, em silêncio, ali naquele banco, sem nada esperar. Exceto talvez passar e receber um pouco de consolo.

A cara de anjo, o capuz azul da solidão, os olhos mais tristes do mundo, me olhavas.
 
Da minha solidão eu te acenei.
 
Foi tudo que fiz dentro do barco. Por um instante tuas lágrimas diminuíram e teu olhar me seguiu. Depois tua cabeça caiu sobre o colo outra vez, onde as mãos pálidas repousavam.

O barco sumiu sob as pontes atravessadas pelos ventos de novembro. Eu dentro dele.
 
Entre dois cais, entre dois nadas.
 
photo: j.finatto
 
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Texto revisto, publicado antes em 16 de outubro, 2012.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Ortega y Gasset e as Meditações do Quixote

Jorge Adelar Finatto

photo: José Ortega y Gasset

Cada dia menos me interessa sentenciar; a ser juiz das coisas vou preferindo ser seu amante.
Ortega y Gasset, Meditações do Quixote*
 
Procurava há muito tempo o livro Meditações do Quixote (Meditaciones del Quijote), do filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955). Trata-se de uma das principais obras de filosofia do século XX. Nela, o autor concebe um novo filosofar, um pensamento espiritual voltado ao dia-a-dia das pessoas. Os horizontes de uma nova maneira de pensar (e sentir) a existência estão abertos nesta obra.

"Um filosofar que nos faz cúmplices de nossa circunstância; que começa por descobrir a verdade sob as plantas de nossos pés, conciliando o universal com o ponto de vista de cada um; obrigando-nos a guardar estrita fidelidade à nossa personalíssima vivência das coisas, se quisermos ingressar no mundo dos valores. Meditando despretensiosamente sobre o amor, sobre um passeio no bosque, Ortega nos conduz, sem percebermos, aos meandros de toda uma teoria da realidade e do conhecimento, de toda uma metafísica, que seria conhecida, mais tarde, como a metafísica da razão vital.", está dito, em bela síntese, na apresentação do livro.

Eu sou eu e minha circunstância, ensina o filósofo em suas Meditações (pág. 52).

A minha procura foi, durante anos, infrutífera. Adquiri e li outros volumes de Ortega y Gasset, um filósofo que parece falar direto ao coração e não apenas à razão, para quem a filosofia é a ciência geral do amor (pág. 43).

Um pensador, enfim, que consegue falar língua de gente. Faltava-me justamente o primeiro livro, o de estréia, Meditações do Quixote, publicado em 1914, quando o autor contava só 31 anos!, e que se tornou clássico.

Num dia de março passado, estava na livraria que costumo freqüentar em Porto Alegre. Resolvi fazer novamente a famosa pergunta: acaso teria as Meditações do Quixote? A moça consultou o oráculo eletrônico. Até que veio a inefável resposta: posso pedir para nossa sede em São Paulo, lá temos um exemplar, e é único. Fiz a reserva imediatamente, ela telefonou na minha frente solicitando para separarem e mandarem o livro. Quase não acreditei que chegara o dia.

Dias depois voltei para buscar a encomenda. Com ele nas mãos, ainda no balcão, um cidadão surgiu do nada, aproximou-se com olhar de corvo, dizendo que o compraria de mim pelo preço que eu quisesse. Pensei em dar a única resposta cabível no caso: sai daqui, urubu! Todavia, me contive.

- Não é possível. Este livro vai ser doado para a biblioteca de Passo dos Ausentes, assim que eu terminar de ler. Não há dinheiro nisso. Há amor, paixão intelectual, e muitos anos de espera.

Só depositei o exemplar sobre a mesa do café da livraria quando ele sumiu da minha vista, qual nuvem negra. Conheço o tipo, são capazes de qualquer coisa, todo cuidado é pouco...

photo: j.finatto

Comecei a folhear a obra com o prazer que só esses momentos reservam. Com espanto verifiquei o ano da edição: 1967. Mas como? Sim, o volume hibernou em insondáveis desvãos por quase 50 anos até chegar em minhas mãos.

A livraria em questão não trabalha com livros usados, era exemplar novo (velho embora), nunca tivera um dono. Dormiu por décadas o sono das páginas fechadas. Habitou estantes, viveu esquecido, fez uma longa viagem de São Paulo a Porto Alegre, sem sequer sonhar que seu destino seria morar um dia em Passo dos Ausentes.

São misteriosos os caminhos que nos levam a um livro raro. Nesse caso, como em outros, a persistência e a esperança me valeram.

Pra completar, a obra é comentada pelo também filósofo e notável estudioso do pensamento de Ortega y Gasset Julián Marías.

Gosto tanto do livro que não sai mais de perto de mim, está comigo aonde eu vou, no escritório, na mesa de cabeceira, dentro do alforje, nas caminhadas polifônicas e em viagens. Andamos pelo mundo juntos agora.

A filosofia de Ortega y Gasset é amiga da claridade, amiga das pessoas, amiga da vida. Um pensamento solidário com nosso estar no mundo, sem saltos mortais na obscuridade e no desespero. Seus mares e céus profundos guardam tesouros de luz.

Diz o autor nas páginas iniciais das Meditações:

- O amor é um divino arquiteto que baixou ao mundo - segundo Platão, "a fim de que tudo no universo viva em conexão". A inconexão é o aniquilamento. O ódio fabrica inconexão, isola e desliga, atomiza o orbe e pulveriza a individualidade. pág. 38 

- Não pretendo que esta atividade seja reconhecida como a mais importante do mundo; considero-me justificado perante mim mesmo ao advertir que é a única de que sou capaz. O afeto que a ela me move é o mais vivo que encontro em meu coração. Ressuscitando o lindo nome que usou Spinoza, eu o chamaria amor intellectualis. Trata-se, pois, leitor, de ensaios de amor intelectual. pág. 35

- Vai, pois, fluindo sob a terra espiritual desses ensaios, às vezes agreste e áspera, - com surdo, brando rumor, como se temesse ser ouvida demasiado claramente - uma doutrina de amor. pág.36

- Nestes ensaios eu quisera propor aos leitores mais jovens que eu, únicos aos quais posso, sem imodéstia, dirigir-me pessoalmente, que expulsem de seus ânimos todo hábito odiento, e aspirem fortemente a que o amor volte a gerir o universo. pág. 39

Vou saboreando cada frase, buscando alimento no texto do mestre.

Um renascer do espírito é o que encontramos neste livro. Uma filosofia que nos leva ao encontro da vida ao contrário de nos esconder dela.

Uma celebração da palavra bem escrita, bem pensada, bem sentida, comprometida com o homem no mundo (o seu mundo), e não perdido entre as estrelas, embora com elas sonhando. Ler estas Meditações do Quixote, e levá-las em conta, é uma vigorosa experiência de vida.

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*Meditações do Quixote. José Ortega y Gasset. Comentários por Julián Marías. Livro Ibero Americano Ltda. Tradução de Gilberto de Mello Kujawski. São Paulo, 1967.
 

segunda-feira, 1 de julho de 2013

A parte da orquídea

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto


A parte da beleza e da justiça que não se distribui, a parte do calor e da ternura que não se dá e nem se recebe, a parte dos sonhos extraviados na travessia, a parte do amor não vivido, essa é a parte da orquídea.
 
O que ficará desse tempo seco?

Levo no bornal o calepino, o lápis, as anotações estelares, o telescópio, o lampião, o impossível mapa, a máquina de fotografia. Vou em busca da orquídea.
 
Encherei os olhos, o coração, com suas cores, forma e raro aroma. No limite do penhasco, ou no velho tronco da beira do córrego, sob a sombra da nuvem ou da copa do pinheiro, a orquídea respira e ilumina.

Orquídea, sim, orquídeas.
 
O resto não importa.
 
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Texto revisto, publicado antes em 20 de setembro, 2010. 

domingo, 30 de junho de 2013

Não me abandones

Jorge Adelar Finatto
poema dedicado a Chet Baker*

Chet Baker (1929-1988)


Não me abandones
povoa a noite
com teu suprimento
de afeto

enche o deserto
com teus passos

em segredo
devolve-me
a delicadeza
daqueles dias

me dá outra vez
o diamante
da tua
presença

________

*Do livro O Habitante da Bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.

Leia também Chet on poetry:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/06/uma-viagem-sentimental.html
 

sábado, 29 de junho de 2013

Vinicius e Tom: janelas abertas

Jorge Adelar Finatto

Tom (esquerda) e Vinicius. photo: Franceschi (do disco Sinfonia da Alvorada)
fonte: Wikipédia

Poucos encontros deram tanto para a música e a poesia brasileira como aquele entre Vinicius de Moraes (1913-1980) e Antonio Carlos Jobim (1927-1994). Ainda adolescente travei conhecimento com as canções que ambos fizeram a partir da década de 1950. Foi um acontecimento.
 
A poesia de Vinicius e a música de Tom marcaram de forma indelével a minha maneira de perceber a experiência humanizadora da arte. 
 
Dificilmente se encontrará alguém neste mundo de Deus que não tenha ouvido, ao menos uma vez, ainda que de passagem, uma música composta pela dupla, a começar pela famosa Garota de Ipanema.

A obra escrita do poetinha é um caso sério na literatura. Vinicius escreveu com refinamento e voz própria. Combinou lirismo e rigor. Não fazia poesia poética, não forçava o poema. Tinha a criatividade dos grandes poetas. Nas letras musicais que fez não é menor o valor de seu trabalho.
 
Embora sejam diferentes formas de escrever (o verso escrito para ler tem uma construção diversa daquele feito para ouvir), ele se saiu bem em ambas. Na música os versos devem se acomodar a uma melodia, enquanto que a palavra, na solidão da página, deve valer por si, sem acompanhamento. Não existem facilidades em nenhuma das formas.
 
Escrever é sempre o conviver com a terrível liberdade da composição, nas dimensões estética e humana. Vinicius conseguiu a proeza de ser reconhecido em vida como poeta de livro e de canção.

Conviveu, como bardo e menestrel, com grandes escritores e artistas de seu tempo. Foi uma das mais importantes personalidades artísticas brasileiras do século XX.
 
A obra jobiniana é feita de preciosidades. Tom é, como se sabe, um dos nossos mais altos compositores. O encontro dele com Vinicius foi decisivo para o surgimento de diversos diamantes da nossa história musical.

Entre as músicas que fizeram, temos a encantadora Janelas abertas, de 1958. A melodia de Jobim e o poema de Vinicius formam uma unidade de beleza e harmonia. Na voz da divina Elizeth Cardoso, acompanhada ao violão pelo não menos divino Rafael Rabello, esta canção é um bálsamo para a alma, como diziam os antigos. Vale a pena - e como - ouvi-la nesta bonita gravação da Tv Brasil na internet.*
Janelas abertas**
(Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes)

Sim
Eu poderia fugir
Meu amor
Eu poderia partir
Sem dizer pra onde vou
Nem se devo voltar
Sim
Eu poderia morrer de dor
Eu poderia morrer e me serenizar

Ah
Eu poderia ficar
Sempre assim
Como uma casa sombria
Uma casa vazia
Sem luz nem calor

Mas
Quero as janelas abrir
Para que o sol possa vir
Iluminar nosso amor

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*Janelas abertas cantada pela divina Elizeth Cardoso, acompanhada ao violão pelo também divino Rafael Rabello. Vídeo da TV Brasil:

quinta-feira, 27 de junho de 2013

A volta do barco de papel

Jorge Adelar Finatto

Velame do barco antes de se desmanchar na água.
photo: j.finatto

 
Saio a navegar no meu barco de papel pra esquecer o mundo.

Eu, quando quero dar férias à realidade, entro no barco colorido e parto em viagem pelo Guaíba.

Dessa vez reforcei a embarcação. Tomei uma folha de papel mais resistente à intempérie, fixei melhor as dobras. Levantei mais a vela-mestra. Na parte interna, coloquei utensílios mais leves.

Um forte vento sul, porém, apanhou o barco no meio do rio. Agitou as águas de tal modo que as ondas começaram a nos jogar pra cima. O pior era a queda livre na volta. O corpo ficou todo dolorido.

Pra piorar a situação, desabou uma tempestade.

Frágil, o barquinho foi se desmanchando. A vela-mestra foi a primeira peça a ruir, depois foram as outras.

Filipo, o papagaio que me acompanha nas navegações, achou que desta vez  não escaparíamos.
 
- Vamos morrer, capitán!

- Tenha fé, nobre Filipo -, disse-lhe eu. Não desanimemos numa hora dessas, amigo. As nuvens más haverão de dissipar-se.

O peixe Moisés, nosso companheiro de aventuras, nadava aflito ao lado do pequeno veleiro.

Quando o barquinho, enfim, se transformou numa pasta branca de papel, eu respirei fundo antes de afundar no Guaíba.

Mas não era dia de morrer.

A ventania, na sua fúria, nos empurrara pra perto da margem.

Ao cair no rio, a água bateu na altura da cintura. Filipo, que estava encolhido e agarrado no meu esquerdo ombro, gritou animado:

- Conseguimos, capitán!

Moisés respirou aliviado, deu um salto de felicidade e voltou para o interior do rio.

A navegação em barco de papel, amigo leitor, é uma arte.

Como toda arte, tem sua ciência e seus segredos.

O que é preciso pra navegar desse jeito? Bem pouca coisa.

Uma folha branca, lápis de cor, imaginação e um coração quase feliz.

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 Texto revisto, publicado em 20 de outubro, 2010.

terça-feira, 25 de junho de 2013

O ministro Luís Roberto Barroso e o ponto fora da curva

Lorenzo Finatto

Luís Roberto Barroso é, sem dúvida, uma das mais preparadas mentes brasileiras quando o assunto é Direito Constitucional. Advogado, autor de várias obras e artigos na área, é Professor titular de Direito Constitucional da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); Mestre em Direito pela “Yale Law School”; Doutor e livre-docente pela UERJ; Professor visitante da Universidade de Brasília – UnB, da Universidade de Poitiers, França, e da Universidade de Wroclaw, Polônia.
Contudo, não são das mais alvissareiras as declarações do 11º Ministro, cuja posse ocorre nesta quarta-feira, 26/6, no Supremo Tribunal Federal. Com efeito, além de ter criticado a atuação da Corte que vai passar a integrar, formada, cumpre ressaltar, por pessoas tão ou mais preparadas do que ele próprio (considerando-se, inclusive, a experiência na jurisdição envolvendo a árdua e nobre função da guarda da Constituição), Barroso adiantou, de certa forma, o seu voto no julgamento dos embargos que dizem respeito ao processo do “mensalão” (Ação Penal nº 470).
De fato, embora tenha dito, durante a sabatina do Senado, não ter ainda formado convicção a respeito dos embargos declaratórios interpostos no referido processo, para ele, o STF agiu com mais rigor do que a média ao condenar 25 réus envolvidos no maior esquema de corrupção que o país conheceu até aqui. Para ele, o Supremo Tribunal Federal teria utilizado um rigor incomum no referido julgamento: um “ponto fora da curva”, nas palavras do novel Ministro. Disse Sua Excelência:
O mensalão foi, por muitas razões, um ponto fora da curva, mas não correspondeu a um endurecimento geral do Supremo".
Além disso, Barroso afirmou que vai estudar os pontos do referido processo sobre os quais terá de se posicionar na análise dos embargos, mas ressaltou que seu voto não será determinante:
Quem vai fazer a diferença é o ministro Teori Zavascki, e não eu. Porque, nas questões em que há dificuldade, o placar está 5 a 4. Se ele aderir à posição majoritária, a minha posição não fará diferença alguma”.
Há algo dito nas entrelinhas desta fala. E caso Teori vote contra a posição majoritária como ficará a aritmética do ministro... Tais declarações não podem passar despercebidas. E preocupam, na medida em que se trata de um dos mais importantes julgamentos já realizados no Brasil, tendo significado, até o presente momento, uma virada na ideia de impunidade contra a qual a população tanto vem clamando, nas ruas, nessas últimas semanas.
Foi infeliz o ministro ao externar crítica à decisão recente da Corte, manifestando-se publicamente sobre processo em curso e sobre o qual terá de decidir em breve, contrariando, nesse sentido, a própria Lei Orgânica da Magistratura Nacional, no seu art. 36, III.

Será que o STF tornou-se o “ponto fora da curva”, senhor ministro? Só se isso significar que cumpriu exemplarmente a missão de julgar o processo em questão, desincumbindo-se com a maior dignidade do mandato popular do qual está investido na pessoa de seus integrantes.

A esperança de milhões de brasileiros é de que os “pontos fora da curva” configurem uma nova geometria na ética do país, capaz de alterar a trajetória de corrupção, mau uso de dinheiro público e impunidade, tão recorrentes em nossa história, construindo, a partir daí, quem sabe, um novo caminho. Ninguém aguenta mais, senhor ministro, a barbárie do cinismo, da indiferença e da total desconsideração em relação ao interesse público.
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Lorenzo Finatto é Advogado.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Mensagem encontrada numa garrafa 97 anos depois

Jorge Adelar Finatto 
 
photo: Dave Leander. fonte: abc News*
 

A garrafa é pequena e transparente. Foi encontrada por Dave Leander quando ele fazia um mergulho, a 9 metros de profundidade, no rio St. Clair, em Detroit, no estado americano de Michigan. O brilho do vidro chamou-lhe a atenção. Aproximou-se e observou que dentro havia um papel escrito. Trouxe a garrafa à superfície.
 
Retirou a rolha de cortiça com cuidado e pegou o documento. Na verdade, um recibo de pagamento da passagem do navio utilizado para chegar ao local, um parque em uma ilha. No verso o breve texto escrito a lápis: "Having a good time at Tashmoo." Em tradução livre, "Estamos passando bons momentos em Tashmoo". Data: 30 de junho de 1915.

A frase está assinada por Selina Pramstaller e Tillie Esper, então muito jovens. Tashmoo era o nome do parque onde elas estavam, em Harsens Island, e também o nome do navio que levava as pessoas do continente até lá. 
 
Dave Leander encontrou a garrafa em junho de 2012. Ao saber do achado, a Sociedade Histórica Harsens Flats solicitou-lhe a garrafa com o documento para fazer parte do acervo de seu museu. Marcaram para o mês que vem uma exposição com a garrafa e outros materiais que registram as viagens dos habitantes de Detroit ao parque, entre o final do século XIX e início do XX. Na ocasião, pretendem reunir no local possíveis parentes das duas jovens.

A notícia daquele dia na vida de Selina e Tillie atravessou o tempo e chegou até nós a bordo da pequena garrafa que atiraram às águas quase cem anos atrás. Poucas palavras manuscritas a lápis, que sobreviveram às autoras e trouxeram ao futuro a imagem daquele dia de sol e encantamento na ilha. Um documento mínimo e luminoso também.

A frase foi tudo que sobrou daquele dia. As seis palavras fizeram presentes a memória e a alegria de Selina e Tillie.

Quem coloca mensagem escrita dentro de uma garrafa, jogando-a ao mar, ou ao rio, alimenta a esperança de que um dia alguém a encontre e leia.

A palavra escrita, dentro e fora de garrafas, é um modo de lutar contra o esquecimento. No íntimo de cada um, o desejo de prolongar a vida no texto, de fazê-la maior, mais humana, menos frágil. Ansiamos ressuscitar nos olhos de quem lê.

As cartas, os bilhetes, as mensagens eletrônicas, os poemas, os livros, os blogues, também são maneiras de sobreviver. 

Tudo se escreve para fugir da casa do oblívio.

A palavra, ao contrário de nós humanos, permanece. É capaz de carregar por séculos  a nossa efêmera felicidade, a nossa esperança, o nosso desespero.

É tudo que fica de um dia feliz numa ilha ensolarada. Às vezes, é tudo que fica de uma vida.
 
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Message in a bottle (by Christina Ng)
http://abcnews.go.com/US/michigan-message-bottle-mystery-solved/story?id=19438661
 

sábado, 22 de junho de 2013

O calepino de Dante

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto. Venezia


O VENTO geme como um bicho malferido nas esquinas, sacode as placas na rua, portas, janelas, enlouquece os ponteiros do relógio da estação de trem abandonada de Passo dos Ausentes.

Um lamento emana do interior do sino da igreja da praça.

Um cenário de filme de assombração. Aqui acontecem coisas do outro mundo.
 
Os fantasmas somos nós, habitantes dessas terras frias e invisíveis situadas nos Campos de Cima do Esquecimento.

Lá fora, a chuva molha a solidão da rua. Somos peixes no aquário, nadando de um lado para outro dentro de casa, tentando enxergar, sentir alguma coisa nesse enorme vazio. Peixes à procura de qualquer coisa mais que silêncio e oblívio. Agora que o inverno chegou.
 
Vivemos nessas remotas e íngremes alturas, no sul do continente, entre inóspitas nuvens.

Este lugar é a última estação antes do fim do mundo.

photo: jfinatto. Venezia

Os poetas sabem do que eu falo, não digo coisas inaugurais (quem me dera). Digo o trivial da humana condição e não mais do que isso: quireras.

Neste território pequenino existem coisas de espantar.

Um dia, não me lembro quando, andava eu numa fondamenta (caminho que vai à beira de um canal) distante e perdida de Veneza. Caminhava do meu jeito naquela cidade, isto é, olhando as coisas de perto por causa da difícil visão (óculos fundo de garrafa).

Naquela cidade tudo é insondável, úmido labirinto, e eu, quase cego, gosto de me perder em labirintos.

As janelas das casas daquela fondamenta, onde cheguei não sei como, tinham flores e cordas com roupas estendidas secando, mas não havia ninguém morando nelas. Uma doideira. O vento percorria o canal assobiando uma canção terna e delicada, sem começo nem fim.

Descobri, então, o vetusto casarão de uma livraria abandonada. A livraria ficava mais ou menos perto da Ponte de Rialto, no Grande Canal. Entrei lá abrindo uma porta escura e muito pesada, difícil de empurrar.

Canal veneziano. photo: j.finatto

Sentei numa cadeira de couro marrom diante de uma mesa. Ao lado um pequeno vitral amarelo e azul deixava penetrar um sopro de luz solar. Estantes repletas de livros se projetavam para o interior.

Descobri sobre a mesa um calepino de capa lilás.

Abri o caderno, quase encostando os olhos nele. Na terceira página estava escrito: Dante Alighieri, 1319. Li sem fôlego as primeiras anotações do mestre florentino.

Só então percebi do que se tratava, o tesouro que tinha em mãos: eram esboços de poemas misturados a notas de diário, rascunhos de cartas e pequenos desenhos.

A música que o vento tocava lá fora, me dei conta quase sem poder acreditar, era a Valsa dos Ausentes, de Pixinguinha.

O mundo é muito pequeno, o mundo é um suspiro.

Antes de sair da estranha livraria, guardei o calepino de Dante no fundo do meu alforje. Desde aquele insólito evento nunca mais nos separamos. Nunca antes contei esta história.

(Às vezes me pergunto se isso de fato aconteceu ou terá sido um sonho, o espírito aturdido por esses ventos andarilhos de Passo dos Ausentes, nas longas e inóspitas madrugadas.)

O calepino de Dante é o consolo que trago na vida. Quando o leio, como nessa hora longínqua, sentado na cadeira de palha diante da mesa do escritório, tomando café preto com biscoitos de polvilho, esqueço tudo de ruim.

O medo de morrer não encontra asilo nessa hora quase solene.
 
Nem tudo é solitude nesses caminhos.

Passagens luminosas habitam o breu.

Tem orquídeas e magnólias povoando o jardim lá fora. Ramos novos brotam entre as folhas secas.

Um tempo de busca-vida, este.

Esta página, notícia do invisível.
 
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Texto revisto, publicado anteriormente em 10/12/12.
 

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Primavera do Brasil (o tempo das magnólias em flor)

Jorge Adelar Finatto
 

photo: j.finatto



Quem podia imaginar que a primavera do Brasil chegaria em pleno inverno!


(É bom ver o povo nas ruas, lutando pela sua primavera, em paz.)

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Jogos Olímpicos 2016:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2011/07/jogos-olimpicos-de-2016.html