segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O tecido da tua ausência

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto

 Na estação de trem abandonada de Passo dos Ausentes, ouvi de Juan Niebla, o músico cego, o seguinte depoimento, enquanto bebíamos uma taça de café preto com pão torrado. Pediu-me que tomasse por escrito suas palavras.*

Faz tempo que partiste e não escreveste uma carta sequer (um amigo sempre procura no correio pra mim).

Nem cartão postal, nem telefonema, nem e-mail. Nada. Silêncio absoluto.
 
Eu me prometi que não sentiria mais. Não iria mais até a janela escutar teus passos no vento. Nem te encontraria nos sonhos outra vez. 
 
O trem fantasma chega no meio da madrugada na estação de Passo dos Ausentes. Eu ouço o barulho ritmado das rodas nos trilhos. Às vezes pego o capote, o chapéu e a bengala e vou até lá. Volto sempre de mãos vazias.

photo: j.finatto. Estação da Ausência
 
A tua face vai sumindo da memória dos meus dedos (queria mesmo que fosse assim, como desligar uma lâmpada).

O desespero que sinto não é tanto pela tua ausência: é pelo espectro que hoje eu sou. Perambulo pela casa conversando com minha sombra. O aroma das madressilvas entra através das janelas em novembro como a dizer que vale a pena esperar.

Eu seguro o bandoneom e começo a tocar o Concierto Andaluz de Joaquín Rodrigo, que é um modo de me iluminar e suportar.
 
Faz tempo de ti. Não gosto do silêncio imemorial dessas noites (a falta da tua voz no breu).

O ruído do movimento do ponteiro do relógio em meu pulso é seco e aflitivo.

Ando tanta escuridão, tanta. Às vezes me pego acendendo todas as luzes da casa.
 
Ofereço-te este ensaio no escuro sobre o tecido da ausência.

Ei-lo.  Eis-me.

Um farelo de tua ausência apenas. O mais é o que não se diz. Desmesurado sentimento. Não cabe na folha de papel, na página volátil de um blog.

Viver é maior que qualquer literatura.

Sinto cheiro de terra molhada. Em algum lugar está chovendo agora.

Talvez caminhes sozinha na chuva.

O resto é relâmpago. Conjuro da solidão.

Um raio de luz no ventre da nuvem.

 
 ___________________

*Juan Niebla é músico em Passo dos Ausentes. Admitido por concurso público em 1943, ocupa o cargo de músico municipal na estação de trem abandonada da cidade, transformada em centro cultural. Toca bandoneom nas terças, quintas, sábados e quando lhe dá na telha. Tem 85 anos, é cego desde os 16 e não aceita a aposentadoria compulsória. Texto ditado por Niebla em 24 de novembro, 2012, na Estação dos Ausentes.

A claridade do coração:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/04/claridade-do-coracao.html
 

sábado, 1 de dezembro de 2012

Palavra viva

Jorge Adelar Finatto
 

photo: j.finatto. Passo dos Ausentes. Vale do Olhar


Nem todo livro se escreve só por vaidade.

Numa certa medida, a vaidade, sem exageros, faz bem. Como quando nos leva a cuidar melhor de nós e dos outros. É benigna se se traduz em maior zelo pelo modo como fazemos as coisas.

A vaidade, por exemplo, do trabalho bem feito é justa. 

Os melhores textos, creio, surgem a partir de motivações internas profundas, que se impõem movidas pela necessidade de expressar e comunicar.

Escrevemos para entender melhor o mundo e a nós, para sermos ouvidos e, se possível, amados. 
 
Como o músico, o escritor dedilha seu instrumento. Um toco de lápis sobre a folha de papel.

Escrever é um concerto solitário num teatro vazio.

Quem escreve espera que haja alguém do outro lado. Nem sempre há.
 
Meu primeiro contato com a palavra foi através do jornal que o avô lia, ao lado da janela por onde o dia entrava. E também através das cartas que ele escrevia, com a caneta de tinta azul, e daquelas que recebia.

Amar os livros e gostar de escrever é uma coisa. Viver de literatura é outra. No início, achei que como jornalista estaria mais perto da literatura do que em outras profissões. Não era verdade.

A grande carga de trabalho do jornalismo, a intensidade e as preocupações da profissão não permitem maior elaboração do texto. A disponibilidade de espírito para criar fica muito prejudicada. O estresse é constante.

Não consegui em outras profissões o que não alcancei no jornalismo: conciliar trabalho e criação. Descobri que escrever literatura não combina com sobrevivência. Contam-se nos dedos os que conseguem ganhar a vida escrevendo. 

Escrever é uma atividade clandestina, exercida nas horas mortas (na verdade, as mais vivas).  Pelo menos pra mim tem sido assim, falta-me talvez engenho e arte para reunir as coisas.

O ato de escrever é o que traduz melhor a procura de transcendência na minha passagem pela condição humana.

Escrevo com gosto e entusiasmo e nunca fiz disso meio de vida. Sou amador na inteira extensão do termo: amo o que faço e o faço de forma não profissional.
 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Carlos Pena Filho

Jorge Adelar Finatto

 
Os mascarados. Autor: Passarinho. Fonte: site da Prefeitura de Olinda:
www.olinda.pe.gov.br
 
 
Pernambuco tem dado ao Brasil artistas e pensadores da mais alta expressão. O poeta Carlos Pena Filho (1929 - 1960) está entre eles. Trata-se de um senhor artesão do verbo. 
 
Poeta daqueles que devemos ter sempre por perto, com um livro à mão, principalmente nos dias de hoje em que a beleza e a força da palavra estão tão diluídas.
 
Nascido no Recife,  onde morreu muito jovem num desastre de automóvel, Carlos Pena Filho faz parte da linhagem de gente como João Cabral de Melo Neto, Gilberto Freyre e Manuel Bandeira, entre outros pernambucanos que traduzem com requintada arte o modo de ser, sentir, fazer e sonhar do nosso povo.

Um poeta de fina extração. Como todo bom bardo, diz coisas a que o comum dos mortais, por si só, dificilmente tem acesso.
 
As mãos do poeta tornam sensível o invisível, aproximam o remoto, iluminam o sombrio.
 
 A seguir, para despertar o interesse do leitor, um poema da obra Melhores Poemas de Carlos Pena Filho, Global Editora, 4ª edição, São Paulo, 2000.


A mesma rosa amarela

Você tem quase tudo dela,
o mesmo perfume, a mesma cor,
a mesma rosa amarela,
só não tem o meu amor.

Mas nestes dias de carnaval
para mim, você vai ser ela.
O mesmo perfume, a mesma cor,
a mesma rosa amarela.
Mas não sei o que será
quando chegar a lembrança dela
e de você apenas restar
a mesma rosa amarela,
a mesma rosa amarela.*

E esta perfeita tradução de uma cidade, nos versos do poema Olinda:

Olinda é só para os olhos,
não se apalpa, é só desejo.
Ninguém diz: é lá que eu moro.
Diz somente: é lá que eu vejo.

_____________

*Este poema, com música de Capiba, tornou-se conhecido em todo o país, fazendo muito sucesso nas vozes de Maysa, Nélson Gonçalves, Tito Madi e Vanja Orico, entre outros. Informação colhida na obra citada Melhores Poemas.

Olinda, a epifania do olhar:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2010/08/olinda-epifania-do-olhar.html
 

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Hay vida antes de la muerte?

Jorge Adelar Finatto
 
 
photo: j.finatto

 
Em Montevidéu, até os grafites têm espírito. As inscrições públicas nas ruas montevideanas não perdoam a superficialidade. Uma vez lidas, não deixam o caminhante em paz.
 
Pressentindo que seria um absurdo virar simplesmente as costas e ir embora, resolvi fotografar e trazer comigo a inquietante frase.

Hay vida antes de la muerte?

Não bastassem as perplexidades e angústias de cada dia, acrescentei agora mais esta ao meu baú de assombros.

Afinal, haverá mesmo vida antes da morte ou seremos apenas tristes fantoches com a boca de pano rasgada e olhos opacos, às voltas com o anonimato, o desamparo, a solidão?

O que sei é que há dias em que me sinto muito vivo. Parece que a morte ainda não foi inventada. Em outros, contudo, viver não vale um caco colorido de vaso quebrado.

Hay vida antes de la muerte? Si, pero...
 
_________________
 
Texto publicado em 14 de junho, 2011.

domingo, 25 de novembro de 2012

Fanicos e farfalhas

Jorge Adelar Finatto


photo: Wikipédia. Autor: Jon Sullivan
  


Quem viu alguma vez uma joaninha caminhando na página de um livro ou sobre uma folha verde sabe do que estou falando. É talvez o acontecimento mais importante do universo.

Nenhuma literatura e nenhuma filosofia do mundo valem os passos da joaninha.

Só que pouca gente percebe o engenho e a arte por trás da  construção da frágil joaninha.

Existem muitos outros assuntos importantes para se tratar. Um blog não deve ignorar isso.
 
O fato, contudo, é que me encanto com os farelos do mundo. As coisas pequenas me atraem, as outras me enfadam, quando não revoltam.

Encontro claridade nos fanicos da existência.

Tudo que é breve e pequeno se parece com estar vivo e me interessam sobretudo.

Os verdadeiros e últimos sentidos habitam além das aparências da assim chamada realidade.
 
O mundo silencioso das migalhas me é, por isso, muito caro e diz mais que um tratado ontológico.
 
Quando se perde a palavra, é como se perdêssemos a vida.
 
Na arte, ao menos, podemos sonhar um pouco, levitar acima dos mausoléus e crematórios existenciais. Mas sei também que não podemos viver entre as nuvens.

Deve haver um caminho de passagem entre o porão e a copa das estrelas, entre a imensidão da Via Láctea e os passos humildes da joaninha.

____________________

 Foto de joaninha. Fonte: Wikipédia. Autor: Jon Sullivan (PD-PDphoto.org]
  

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Bibliotecas

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto



Tantos livros me assustam
trago uma ignorância milenar
guardada num lugar
claro do meu ser
uma ignorância - ou a sabedoria -
do sol às 7 da manhã


 
_____________
Poema do livro Claridade, co-edição Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento, Porto Alegre, 1983. 

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Viver um pássaro

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. Tucano
 

A ventura de viver na montanha é conviver com as aves. A casa vive cercada desses seres delicados e cantantes. Belas criaturas, habitam os ninhos que constroem nas árvores ou nos buracos dos troncos (como os tucanos). Cantam durante o dia (espantando os males) e, como se não bastasse, podem voar para onde lhes dá na veneta.
 
Deus, quando inventou as aves, estava num dia muito inspirado. A começar pelas cores vivas e contrastantes com que as pintou. O canto nem se fala.

Tem gente que gostaria de ser super-homem, dono da rua, grão-vizir do bairro,  rei do mundo. Eu queria ser pássaro.
 
Tenho grande admiração por essa família que oferece seu canto e sua plumagem sem nada pedir ou esperar em troca. Dão de bom coração o que de graça receberam. 

Das espécies que me visitam na varanda do escritório (onde deixo frutas escolhidas para eles), o tucano é um dos mais coloridos e grandes. Faz sombra e afugenta os pequenos. Não tem um cantar bonito como os outros. É uma voz cava, rascante, amadeirada e sem graça (sem querer ofender o meu amigo).

Costuma pousar no galho diante da janela que dá para o Vale do Olhar. Fica olhando o escritório de perfil, uma figura egípcia.

- O que esse sujeito com óculos de fundo de garrafa está assim me olhando, no meio de pilhas de livros, estantes, quadros e relógios, quando podia estar voando aqui fora? - é a pergunta que leio nos olhos do irmão tucano.

Ora, é essa justamente a indagação que também me faço.

O improvável voo adunco do tucano atravessa o ar colorindo a tarde, percurso entre duas árvores, dois galhos, duas visões de mundo, duas referências no universo.

O rumor de um milagre batendo asas na luz da primavera.

photo: j.finatto
 

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Graciliano Ramos, o texto artesanal

Jorge Adelar Finatto
 

Graciliano Ramos


O texto artesanal se constrói palavra por palavra, no tempo certo, sem pressa. Uma vez construído, ele invade as portas e janelas do sentimento. Com ele o leitor degusta cada vocábulo, cada sentido, com prazer e descoberta.
 
A palavra tem sabor e o bom texto desperta a gula do leitor.
 
Isso é o que nos oferecem os bons poetas, os escritores criativos. Não ficamos indiferentes diante de suas delicadas iguarias. Só de olhá-las na vitrine das livrarias sentimos vontade de levá-las conosco.

O texto industrial, produzido para atender determinada demanda de mercado (como um jornal diário), raramente atinge o nível de arte da escrita. É compreensível que assim seja, pela urgência com que é elaborado. É impossível ser brilhante publicando todos os dias.

Escrever de modo artesanal é um exercício de humildade e paciência diante da vida e da sintaxe. Uma luta permanente de superação das prisões que se erguem fora e dentro de nós.

Um exemplo do que considero um texto artesanal de encher os olhos? Qualquer página do escritor alagoano Graciliano Ramos (1892 - 1953). Conciso, despojado de ornamentos, econômico nos adjetivos, isento de gordura, tudo isso sem ser insosso, capaz de cativar e emocionar o leitor.

A limpeza da expressão, em Graciliano, corresponde a uma ética do fazer literário. O autor se recusa embromar a atenção do leitor. Sabe que cada palavra lida significa tempo raro na vida de quem lê. Um tempo escasso que não volta mais, um tempo de vida vivida que não pode ser desperdiçado.

A palavra, no texto, tem de ser necessária como um pedaço de pão pra matar a fome. A vida é curta, não podemos gastá-la no que é vazio.
 
Vejamos esse pequeno trecho do mestre Graciliano:

"Ave de arribação, não podia arranjar direito as suas histórias, lavá-las, esfregá-las, vesti-las convenientemente, cortar-lhes as unhas, os cabelos e os calos. E talvez julgasse inúteis limpezas excessivas. É possível até que não tivesse conhecimento dessas exigências. Criatura simples e direta, organizava os seus livros com o favor de Deus, evitando as embromações dos escritores comuns, lorotas que só servem para estirar e encarecer o trabalho. Realmente, se ele conseguia narrar um caso em trinta páginas e vendê-lo por dez tostões, por que haveria de espichá-lo em trezentas páginas e explorar o comprador? Domingos Barbosa, novelista consciencioso, só dizia as coisas absolutamente necessárias."*

Graciliano Ramos foi um homem e um escritor inconformado com as injustiças e maldades do mundo. Seus livros nos dão notícia dessa coragem de olhar nos olhos da realidade brasileira e denunciá-la, sem nunca esquecer o indivíduo no meio do redemoinho.

Existem muitas maneiras de escrever. O estilo marcadamente sóbrio de Graciliano, seco segundo alguns, é uma entre tantas possibilidades. É um belo modo de escrever. Não será o único.

Não percebo secura nas linhas do escritor, tão moderno quanto modernos são os bons autores de todas as épocas. A economia no dizer não se confunde com frieza, sequidão, dureza. A palavra flui certa, a página navega segura, nos leva com humanidade e enlevo.

Transparência, clareza, elegância, texto enxuto, no romance, na crônica, nas memórias, nos contos.  Sem derramamentos, sem excessos, um escrever de acordo com o sentido da beleza e da graça, com grande poder de comunicação.

Graciliano, sem jamais pretender ser professoral, é uma aula de como escrever bem e uma das melhores fontes de leitura da língua portuguesa.

_________________

* Viventes das Alagoas. Crônicas. Graciliano Ramos. Rio de Janeiro. Record. 1984. Excerto do texto Um homem de letras.
Entre outras grandes obras do escritor, podemos mencionar São Bernardo (romance), Angústia (romance), Vidas secas (romance), Memórias do cárcere (memórias) e Linhas tortas (crônicas).
Foto: Graciliano Ramos. Fonte: site oficial do escritor:
http://www.graciliano.com.br/
 

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A solidão do planeta errante

Jorge Adelar Finatto
 
 
Arte que ilustra como é o planeta errante. Fonte: Observatório Europeu do Sul.

  
Um jovem planeta errante vagueia pelo universo sem ser cativo de nenhuma estrela. Anda por aí sozinho, sem rumo certo, navegando pelas solidões cósmicas.

Normalmente os planetas giram em torno de um astro maior, com grande quantidade de matéria, como o nosso sol, ao qual ficam ligados pela enorme força de atração. 
 
O nome dele é CFBDSIR2149. Foi assim batizado por cientistas franceses e canadenses do Observatório Europeu do Sul. Eles acabam de descobri-lo com o uso de poderosos telescópios situados um no deserto do Atacama, no Chile, e outro no topo do vulcão adormecido Mauna Kea, do Havaí.

Como não está ligado a nenhuma estrela, ele não brilha com luz refletida, sendo identificado somente por telescópios de raios infravermelhos.

Esse tipo de corpo celeste era conhecido apenas na teoria.  Agora, pela primeira vez, foi observado pelos cientistas, que o localizaram a 100 anos-luz da Terra.

Fico pensando na gênese de sua viagem. Talvez, num dia longínquo, resolveu escapar da força descomunal da estrela-mãe, que o aprisionava nos braços superprotetores. Revoltou-se e decidiu fugir pelas estradas do universo. 

- Nem sempre uma estrela sabe ser boa mãe para o seu menino - , ele deve ter pensado. 

Algumas estrelas, digo eu, apegam-se em excesso a seus filhotes. Não os deixam crescer. Não admitem sequer que saiam um pouco fora do quintal estelar para brincar com outros planetinhas. Quer dizer, a vida dos meninos fica difícil. 

Como em toda escolha crucial, essa não deve ter sido nada fácil para o jovem planeta. Se por um lado ele desfruta da indizível alegria de traçar o próprio caminho, por outro não tem mais a mãe e os irmãos pra partilhar a vida. E lá fora, na rua, faz muito frio, é solitário e perigoso.

Certas línguas invejosas (entre os astros também há maledicência) acusam-no de ser não um planeta de verdade, mas uma estrela falhada, ou anã-castanha, isto é, objeto celeste que, por não ter tamanho nem massa suficientes, não consegue deflagrar as explosões termonucleares que fazem brilhar as estrelas bem sucedidas.

Dizem outros que, na melhor das hipóteses, o planetinha não passa de um andarilho, reles vagabundo do universo a navegar sem eira nem beira.
 
Bom mesmo, penso eu, seria vê-lo e respeitá-lo na sua dura verdade de ser em construção. 

Viajar sozinho pelo espaço, sem ligação com uma estrela, pode ser um ato libertário e uma grande aventura. Mas deve ser triste também. Na vida as escolhas não costumam ser fáceis.

Enfim, cada um sabe o doce e o amargo que traz na alma. 
 

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Cálido

Jorge Adelar Finatto
 
 
photo: j.finatto
 
 
 
Preciso escrever
o poema
que vai salvar
esse dia

o poema cálido
para atravessar
o tempo difícil
que ainda tenho
pela frente

o poema que vai
expulsar
a vontade
de morrer
que chega
aos poucos
como um felino


_____________

Do livro Memorial da vida breve, Jorge Finatto, Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.
 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Tarde de primavera, a luz, os peixes

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto
 
 
Contarei esta estória suspirando,
Daqui a séculos e séculos em algum outro lugar:
Duas estradas, num bosque, divergiam; e eu
Tomei a que era menos frequentada;
E foi isso a razão de toda a diferença!
                                                             Robert Frost*

O sábado estava com sol amarelo e céu azul, as estradas de chão batido querendo ser caminhadas. Andarilho do fim do mundo, parti na caminhada polifônica** em meio às árvores, perto do riacho. Me misturei na paisagem, longe da cidade, longe dos gritos da realidade.

Foi quando, na beira do córrego, encontrei esses peixes entre pedras e aguapés, numa luz de primavera.
 
A arte da fotografia é uma forma de fazer cessar o tempo. Um modo calado e atento de preservar o momento e adiar o oblívio.

photo: j.finatto

A foto é, de fato, um território revelado que se bate contra a morte.
 
Sou fotógrafo amador e trago comigo o entusiasmo dos velhos fotógrafos em missão de desvelar o oculto que súbito se ilumina.

photo: j.finatto
 
Na linguagem dos peixes, pedi licença e colhi algumas imagens. Valeu a pena. A tarde de sábado foi salva do esquecimento com  esses coloridos habitantes.

photo: j.finatto

____________

*Poema A estrada que não tomei, do livro Poemas Escolhidos do poeta americano Robert Frost (1874 - 1963). Tradução de Marisa Murray. Editora Lidador Ltda., Rio de Janeiro, 1969.
 ** A caminhada polifônica:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/08/o-peixe-da-boca-vermelha.html
 

sábado, 10 de novembro de 2012

A literatura morreu (a palavra, não)

Jorge Adelar Finatto
 
 

Agora que a literatura morreu, escrever e ler são atos póstumos, libertos da concorrência e da busca frenética pelos holofotes. Pelo que dizem os arautos do apocalipse, a essa altura somos todos, escritores e leitores, uns pobres moribundos à beira do crematório literário. 

Mas não convém perder a esperança. Poupemos o último suspiro.

Alguns observadores, menos funestos, afirmam que os livros estão perdendo a face humana. É verdade.  A estética e a ética da publicidade, em estreita harmonia com o deus mercado, tomaram conta do mundo dos livros (e de outros mundos), antes um território de culto à beleza e ao espírito. 

Podemos estar vivendo o crepúsculo da era de Gutenberg. O livro como objeto de arte e de cultura tem um futuro incerto pela frente. Menos pelo surgimento de novos meios de leitura, como o livro eletrônico, e muito mais pela perda de valor intrínseco do que se publica. 

Há um estrangulamento de sentido na literatura (o que não vende não tem significado nesse universo - ou é digno de pena). 

A literatura passa por um tempo de anemia como todo o resto. Excesso de autores e de obras, pouca inventividade, rasa originalidade (incluindo cópia de textos alheios na cara dura sem menção das fontes) são alguns dos componentes deste quadro. 
 
A banalização da palavra, o surgimento de escritores com pouca ou nenhuma leitura, a onipresença da linguagem padronizada à maneira fast-food levam ao previsível esgotamento de um certo  tipo de literatura.
 
A palavra não morre. O que morre é a literatura frívola, insípida e mercantil, que pouco ou nada oferece.
 
Nem tudo está perdido. Há escritores dignos deste nome para além dos fogos de artifício, da lista dos mais vendidos, dos modismos, do marketing pessoal, do texto embromador que se escreve com óculos escuros e de olho no dinheiro e na fama.

A boa literatura é um território luminoso, um lugar que não diminui o ser humano. 

O importante, penso eu, é não parar de procurar a alegria que só os livros podem nos dar.

Os clássicos estão sempre aí e é possível identificar, entre os novos, autores que têm algo a dizer. Não desistir da condição de leitor é uma luta que ainda vale o esforço. 

___________________

foto de livros antigos. fonte: freepik.com
 

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O barco mais triste do mundo

Jorge Adelar Finatto 

photo: j.finatto. Rio Mondego, Coimbra


A minha paixão por barcos e navegações sempre me leva a cidades de mar ou rio. Sou um bicho das águas.

O fato de ter nascido e de viver numa cidade serrana é apenas uma das contradições que me definem.

O sonho menino de tornar-me marinheiro jamais me abandonou. Por isso, talvez, essa busca recorrente às águas e às embarcações.

A nostalgia dos barcos não sai do meu coração.

Em Coimbra, existe um barco de passageiros com o nome de Basófias, fundeado no pequeno cais, perto do centro da antiquíssima cidade portuguesa.

Resolvi um dia ir ao encontro do Basófias e fazer um passeio pelo Mondego, o rio que me faz sentir saudades de todos os rios do mundo.
 
Ocorre que, nas três ocasiões em que fui ao cais, não consegui realizar a navegação.

Numa das vezes, o barco estava em manutenção; noutra, não havia passageiros além de mim; numa outra ainda, o tempo mau não permitiu levantar âncora.

Em suma, nunca consegui navegar no Basófias. A nave permaneceu, no meu imaginário, como um barco que jamais saiu do cais.
 
photo: j.finatto. Coimbra
 
A tripulação do Basófias é composta por marinheiros uniformizados a rigor, afáveis no trato. A pose e o orgulho náutico não deixam dúvida de que estamos diante de calejados navegadores.

Às vezes, fico pensando.

O Basófias, nas amarras que o impedem de lançar-se ao rio e realizar o destino para o qual nasceu, é o barco mais triste do mundo.

Mas não deixa de ter sua graça a imóvel embarcação.

De certa forma, o Basófias é a metáfora da existência de muitos.

Dele me enterneço, porque é o retrato de tantas vidas que ficam à margem, esperando no cais, esperando por uma viagem que nunca acontecerá.
 
________________
Texto publicado em 03 de março, 2010.