quinta-feira, 25 de abril de 2013
quarta-feira, 24 de abril de 2013
Série Retratos 16 (outono em Passo dos Ausentes)
_____________
photo: Jorge Adelar Finatto, 23 de abril, 2013
Outono em Passo dos Ausentes
Pedidos de reprodução podem ser feitos ao autor pelo e-mail
j.finatto@terra.com.br
terça-feira, 23 de abril de 2013
Os gatos e o medo de voar
Jorge Adelar Finatto
| ilustração: Maria Machiavelli |
Dizem que os gatos pressentem quando o dono vai morrer.
Desde que Nefelindo Acquaviva me convidou pra fazer com ele o vôo inaugural do dirigível O Invencido (que construiu no galpão do quintal de sua casa, como todas as estrovengas voadoras que criou) meu gato Pituca não saiu mais de perto de mim.
Desde que Nefelindo Acquaviva me convidou pra fazer com ele o vôo inaugural do dirigível O Invencido (que construiu no galpão do quintal de sua casa, como todas as estrovengas voadoras que criou) meu gato Pituca não saiu mais de perto de mim.
Nefelindo Acquaviva é considerado o pioneiro da aviação em Passo dos Ausentes. Um doido com alma de Ícaro.
O que seria do mundo sem os loucos, ele costuma perguntar, apontando ambas as mãos para o peito. E ele mesmo responde: ainda andaríamos de quatro e moraríamos em grutas úmidas, malcheirosas e povoadas de morcegos.
Tudo que alguma vez voou nesses céus dos Campos de Cima do Esquecimento passou pelas mãos de Acquaviva. Da mesma forma, todas as geringonças que se espatifaram no chão também foram obra dele. Ele coleciona 22 quedas com seus objetos voadores, não incluídos aí os tombos na fase de decolagem, mais de trinta.¹
O que seria do mundo sem os loucos, ele costuma perguntar, apontando ambas as mãos para o peito. E ele mesmo responde: ainda andaríamos de quatro e moraríamos em grutas úmidas, malcheirosas e povoadas de morcegos.
Tudo que alguma vez voou nesses céus dos Campos de Cima do Esquecimento passou pelas mãos de Acquaviva. Da mesma forma, todas as geringonças que se espatifaram no chão também foram obra dele. Ele coleciona 22 quedas com seus objetos voadores, não incluídos aí os tombos na fase de decolagem, mais de trinta.¹
Sim, eu temo pela minha vida. Como temi das outras vezes em que concordei em acompanhá-lo em vôos abissais pelo Vale do Olhar. Sou amigo do nosso Santos Dumont e é difícil dizer não a um amigo.
A vontade de voar é tão antiga quanto a presença do ser humano neste mundo de Deus.
Se o Criador não nos deu asas, deu-nos pra compensar a capacidade de sonhar e é o que fazemos na maior parte do tempo, do contrário a vida seria insuportável.
Da última vez em que saí pelos ares com Acquaviva, estávamos a bordo do Besouro Voador, espécie de motociclo com São Cristóvão ao lado, onde eu estava, e duas pequenas asas. O aparelho começou a soltar vários estouros em pleno vôo, a 100 metros de altitude, até que parou de funcionar.
Caímos em queda oblíqua em direção à igreja. Cerca de meio minuto depois, arrebentamos e atravessamos o vitral principal. Desabamos na frente do altar, diante do padre, em plena missa das seis da tarde.
O acidente causou um sério desentendimento entre a Igreja Católica e a Aviação em Passo dos Ausentes, que culminou com o rompimento de relações.
Há muito que Nefelindo e o padre Krauss trocam farpas por questões filosóficas e em razão de um outro acidente aéreo que quebrou a torre da igreja.² O padre acha que os ataques são propositais, parte de um plano de Acquaviva para acabar com a igreja.
Por milagre, não morremos ali mesmo, no meio dos cacos coloridos do vitral. Impossível não lembrar as fortes palavras que o senhor pároco nos dirigiu na ocasião, impublicáveis neste espaço.
A questão é: como posso dizer não a Acquaviva sem magoá-lo, sem ferir de morte seu sonho de voar no mais pesado que o ar? Por outro lado, como dizer sim, sem morrer logo em seguida?
A única pessoa, além de mim, que sempre aceitou voar com ele é Juan Niebla, o músico cego do bandoneón, que toca na estação de trem abandonada. Mas Niebla está com 88 anos.
A vontade de voar é tão antiga quanto a presença do ser humano neste mundo de Deus.
Se o Criador não nos deu asas, deu-nos pra compensar a capacidade de sonhar e é o que fazemos na maior parte do tempo, do contrário a vida seria insuportável.
Da última vez em que saí pelos ares com Acquaviva, estávamos a bordo do Besouro Voador, espécie de motociclo com São Cristóvão ao lado, onde eu estava, e duas pequenas asas. O aparelho começou a soltar vários estouros em pleno vôo, a 100 metros de altitude, até que parou de funcionar.
Caímos em queda oblíqua em direção à igreja. Cerca de meio minuto depois, arrebentamos e atravessamos o vitral principal. Desabamos na frente do altar, diante do padre, em plena missa das seis da tarde.
O acidente causou um sério desentendimento entre a Igreja Católica e a Aviação em Passo dos Ausentes, que culminou com o rompimento de relações.
Há muito que Nefelindo e o padre Krauss trocam farpas por questões filosóficas e em razão de um outro acidente aéreo que quebrou a torre da igreja.² O padre acha que os ataques são propositais, parte de um plano de Acquaviva para acabar com a igreja.
Por milagre, não morremos ali mesmo, no meio dos cacos coloridos do vitral. Impossível não lembrar as fortes palavras que o senhor pároco nos dirigiu na ocasião, impublicáveis neste espaço.
A questão é: como posso dizer não a Acquaviva sem magoá-lo, sem ferir de morte seu sonho de voar no mais pesado que o ar? Por outro lado, como dizer sim, sem morrer logo em seguida?
A única pessoa, além de mim, que sempre aceitou voar com ele é Juan Niebla, o músico cego do bandoneón, que toca na estação de trem abandonada. Mas Niebla está com 88 anos.
Em janeiro último, Acquaviva terminou de construir O Invencido, utilizando o motor de seu antiquíssimo fusca. Quando entrei no galpão naquela manhã de sábado, ele tomava chimarrão sentado cabisbaixo sobre um pelego, encostado na carroça que também faz as vezes de cama.Vestia o gasto macacão azul-marinho e as botas pretas de cano longo.
A negra cabeleira escorrida e o grosso bigode nem de longe denunciam o jovial homem de 70 anos.
Ao me ver, seu rosto se iluminou e ele abriu um sorriso. Veio lépido na minha direção, me pegou pelo braço e disse que tinha algo para mostrar lá no Ninho do Esqueleto. Com emoção, retirou o enorme lençol que cobria o dirigível.
- Faltam poucos dias pra ficar pronto, só mais uns detalhes. Olha a maravilha. Nunca ninguém construiu algo assim. Um dirigível compacto, pra duas pessoas, com seis pequenas janelas pra admirar tudo lá de cima. Tem um beliche, uma geladeirinha, um minifoguareiro, um armarinho, um mínúsculo banheiro e o painel com os instrumentos de navegação, entre os quais aquele telescópio pra ver as estrelas. Não só chegaremos a Porto Alegre desta vez como vamos até o mar. Prepare-se, partiremos em meados de maio. O dia glorioso se aproxima.
O Pituca não sai mais do meu lado. Onde quer que eu vá o gato vem atrás. Mia de um jeito estranho e insistente, quase não me deixa trabalhar no escritório.
Desconfio que ao invés de uma placa comemorativa, no dia da glória vamos ganhar um epitáfio: Aqui jazem dois idiotas, gravado na lápide do túmulo que reunirá o que sobrou de nossos corpos, se é que alguma coisa vai restar depois do desastre anunciado.
___________________
¹Nefelindo e o aeroplano:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2010/05/nefelindo-e-o-aeroplano.html
²A queda do Águia Negra:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2010/09/queda-do-aguia-negra.html
A negra cabeleira escorrida e o grosso bigode nem de longe denunciam o jovial homem de 70 anos.
Ao me ver, seu rosto se iluminou e ele abriu um sorriso. Veio lépido na minha direção, me pegou pelo braço e disse que tinha algo para mostrar lá no Ninho do Esqueleto. Com emoção, retirou o enorme lençol que cobria o dirigível.
- Faltam poucos dias pra ficar pronto, só mais uns detalhes. Olha a maravilha. Nunca ninguém construiu algo assim. Um dirigível compacto, pra duas pessoas, com seis pequenas janelas pra admirar tudo lá de cima. Tem um beliche, uma geladeirinha, um minifoguareiro, um armarinho, um mínúsculo banheiro e o painel com os instrumentos de navegação, entre os quais aquele telescópio pra ver as estrelas. Não só chegaremos a Porto Alegre desta vez como vamos até o mar. Prepare-se, partiremos em meados de maio. O dia glorioso se aproxima.
O Pituca não sai mais do meu lado. Onde quer que eu vá o gato vem atrás. Mia de um jeito estranho e insistente, quase não me deixa trabalhar no escritório.
Desconfio que ao invés de uma placa comemorativa, no dia da glória vamos ganhar um epitáfio: Aqui jazem dois idiotas, gravado na lápide do túmulo que reunirá o que sobrou de nossos corpos, se é que alguma coisa vai restar depois do desastre anunciado.
___________________
¹Nefelindo e o aeroplano:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2010/05/nefelindo-e-o-aeroplano.html
²A queda do Águia Negra:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2010/09/queda-do-aguia-negra.html
domingo, 21 de abril de 2013
O senhor do tempo
Jorge Adelar Finatto
De antigo senhor das horas, o meu velho relógio virou vítima do tempo e hoje sofre com longos intervalos de ausência.
É um relógio que me acompanha desde o século passado. É um objeto austero e simples. Não existem outros como ele à venda. É um dos últimos exemplares vivos de sua geração, se não for o último.
É um relógio que me acompanha desde o século passado. É um objeto austero e simples. Não existem outros como ele à venda. É um dos últimos exemplares vivos de sua geração, se não for o último.
Registrou com precisão a passagem do tempo durante muitos e muitos anos. Esse mesmo tempo agora volta-se contra ele.
O calendário numérico funciona às vezes, e o escrito perdeu-se na bruma. Esquece em que dia da semana estamos, não sabe bem se é segunda, sábado ou domingo. A passagem das horas confunde-lhe o mecanismo e, por vezes, ele pára sem saber o que fazer, como alguém que perdeu a memória numa esquina, de repente.
Em suma, o relógio que por séculos me guiou na mata escura dos dias precisa agora ser guiado.
Não tenho coragem de separar-me dele, jamais o faria e me recuso a sequer falar no assunto. Contudo, sem que ele soubesse, tive outros relógios, mais funcionais e modernos. Nenhum, porém, conseguiu substituí-lo no meu afeto.
Toda vez que abria a gaveta, encontrava-o calado, sem nada reclamar, olhando as paredes internas do cubículo sombrio. Ao perceber minha presença, olhava-me nos olhos como quem se coloca à disposição para o trabalho e a luta. Um companheiro valente e digno.
Resgatei-o agora das trevas.
Resgatei-o agora das trevas.
Se ele é hoje apenas a lembrança do relógio que foi um dia, por outro lado não posso negar-lhe reconhecimento pelos serviços prestados. Além disso, atravessamos momentos difíceis juntos, vivemos muitas situações complicadas e dolorosas nessa vida, coisas que atormentam o pensamento e queimam o coração. E às vezes fomos felizes também.
Carregar o tempo nas entranhas, como ele sempre fez, segundo a segundo, ano após ano, sem descanso, num giro interminável e monótono, é ofício dos piores.
Mandei-o à oficina já por três vezes, mas não resolveu o problema. Decidi poupá-lo das internações inúteis no hospital dos relógios, pois observei que o magoam pelo ar de tristeza com que retorna a casa.
Não sou mais escravo do tempo. Eu faço o que quero do meu tempo. (Por favor, raro leitor, não se iluda: essa disponibilidade é tão sedutora quanto terrível).
Trago o antigo relógio no pulso outra vez. Faço-lhe ajustes manuais e tocamos a vida. Quando é necessário, em razão de compromissos e viagens longas, levo um outro, no bolso ou na mala, sem que ele perceba. E assim levamos o nosso barco.
sexta-feira, 19 de abril de 2013
Memória nas ruas de Paris
Jorge Adelar Finatto
Paris, novembro, 2011. Uma das coisas que admiro nos franceses é o respeito que têm pela memória histórica. Acredito que a maioria dos cidadãos deste país cultua a verdade como valor essencial, o que explica muitas das conquistas da civilização aqui ocorridas.
Em Paris, a cada passo encontramos placas informativas nas vias publicas. Elas contam coisas boas e ruins que aconteceram na cidade. Há um apreço pela transparência que ajuda a formar as consciências.
Em Paris, a cada passo encontramos placas informativas nas vias publicas. Elas contam coisas boas e ruins que aconteceram na cidade. Há um apreço pela transparência que ajuda a formar as consciências.
Não se trata de uma memória seletiva, hipócrita.
Numa escola de crianças, no Quartier Latin, há uma placa na parede ao lado da porta, voltada para a calçada, informando que, durante a ocupação nazista, muitos meninos e meninas judeus daquele colégio foram levados para os campos de concentração dos alemães, com a concordância e participação das autoridades francesas, sendo depois assassinados (foto).
Numa escola de crianças, no Quartier Latin, há uma placa na parede ao lado da porta, voltada para a calçada, informando que, durante a ocupação nazista, muitos meninos e meninas judeus daquele colégio foram levados para os campos de concentração dos alemães, com a concordância e participação das autoridades francesas, sendo depois assassinados (foto).
Na esquina dos bulevares Saint-Michel e Saint Germain, uma outra placa informa que, naquele local, no dia 19 de agosto de 1944, Bottine Robert foi morto pelos nazistas por lutar pela libertação de Paris.
Naquele mês, Hitler ordenara a destruição completa da cidade antes de uma retirada das tropas alemãs diante do avanço das forças francesas de Charles de Gaulle e dos aliados. O comandante alemão em Paris, general Von Choltitz, no entanto, negou-se a cumprir a insana determinação, e a cidade foi poupada.
Naquele mês, Hitler ordenara a destruição completa da cidade antes de uma retirada das tropas alemãs diante do avanço das forças francesas de Charles de Gaulle e dos aliados. O comandante alemão em Paris, general Von Choltitz, no entanto, negou-se a cumprir a insana determinação, e a cidade foi poupada.
| photo: j.finatto |
São fatos diferentes dentro de um mesmo contexto histórico, revelados nas ruas da cidade, à luz do sol ou da lua, para quem quiser saber. É importante que assim seja, que todos saibam e sintam, para que essas coisas nunca mais voltem a acontecer.
Que a história contada e sabida sirva de farol dentro do negrume do nosso tempo, em que a crise mundial testa diariamente a capacidade dos povos em solidarizar-se para melhorar a vida das pessoas.
_______________
Os buquinistas de Paris:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/05/os-buquinistas-de-paris.html
Paris, um passeio literário:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/09/paris-um-passeio-literario.html
Post revisto, publicado anteriormente em 22 de novembro, 2011.
quinta-feira, 18 de abril de 2013
Calle de los suspiros
Jorge Adelar Finatto
![]() |
| photo: j.finatto |
De não ver os olhos estão vazios.
De não escutar os ouvidos estão ocos.
Um dia encontrei no mapa aquela cidade ao sul.
Um lugar que nasceu num tempo muito antigo.
Nela havia uma rua chamada Calle de los suspiros.
Fui até lá como atrás de um segredo.
A rua dos suspiros está povoada de passos perdidos.
Os fantasmas ocupam as casas coloniais.
Quem mora na rua dos suspiros?
A moça da janela olha as buganvílias.
O homem que não sai de casa vê seres incorpóreos nos telhados.
A luz das luminárias é amarelo calmo.
À noite se ouve nas pedras a batida de cascos de cavalos que não existem mais.
A rua dos suspiros é um camafeu pregado no oblívio.
Os ventos se reúnem na calle antes de sair a galope pelo mundo.
A dor envelheceu nesta rua.
Neste lugar, todos sofrem para dentro.
Há um salão de baile desabitado com mesas no escuro.
A orquestra foi embora carregando a música e os casais que dançavam.
A rua dos suspiros habita um retrato caído no tempo.
Quem chora a essa hora na calle deserta?
__________
Foto: J. Finatto
Imagem de Colonia del Sacramento, Uruguai.
Texto publicado no blog em 18/12/2010.
terça-feira, 16 de abril de 2013
As massas polares
A solidão é um negro espantalho que habita os corações.
Agora chegaram as massas de ar polar. Aqui nos Campos de Cima do Esquecimento é assim: aos primeiros movimentos de violoncelo do outono, o tempo se enregela.
Estava arejando livros antigos sobre a escrivaninha, aproveitando uma réstia de sol que penetrava pela clarabóia*, quando o ar gelado da tarde começou a tomar conta.
As primícias do inverno mandam notícias.
Lá fora os ramos e as folhas perdem viço. Tentei resistir só com a blusa de lã, mas não teve jeito. Resgatei o capote azul-marinho do armário.
O frio antecipado traz de volta costumes, reclama providências. Na tarde de domingo, fui até o pinheiro mais robusto do quintal ver se havia caído alguma pinha. Ainda não. As pinhas permanecem penduradas nos verdes galhos, entre grimpas pontiagudas.
Cozinhar pinhão, na chapa do fogão a lenha, é um dos prazeres do frio.
Cozinhar pinhão, na chapa do fogão a lenha, é um dos prazeres do frio.
Enquanto olhava a copa da araucária, deu-se que, no profundo azul do céu, passou voando - num vôo suave e elegante - uma ave de longo pescoço e asas de larga envergadura. Era vôo alto, coisa de duzentos metros, em direção ao poente. Senti gratidão.
As andorinhas já não voam por estas paragens. Partiram em arribação para o Norte, em busca de dias cálidos. Neste canto do planeta, a circulação das seivas diminuiu.
As massas polares vêm me lembrar também que faltam abraços no mundo. Faz muito frio nas almas.
Vertem lágrimas nos olhos das estátuas nas praças.
Mas alguns ainda são capazes do humano gesto. Trazem o sol dentro de si. Esses herdarão a primavera.
As andorinhas já não voam por estas paragens. Partiram em arribação para o Norte, em busca de dias cálidos. Neste canto do planeta, a circulação das seivas diminuiu.
As massas polares vêm me lembrar também que faltam abraços no mundo. Faz muito frio nas almas.
Vertem lágrimas nos olhos das estátuas nas praças.
Mas alguns ainda são capazes do humano gesto. Trazem o sol dentro de si. Esses herdarão a primavera.
_______________
*Nos textos do blog, continuo usando a ortografia atual, e não a do acordo ortográfico, conforme o Decreto 7.875, de 27/12/2012, que postergou a obrigatoriedade das novas regras, no Brasil, para 1º de janeiro de 2016. Até lá, ambas as nornas estão em vigor.
Sobre o assunto:
O acordo ortográfico fazendo água:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/03/o-acordo-ortografico-fazendo-agua.html
Sobre o assunto:
O acordo ortográfico fazendo água:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/03/o-acordo-ortografico-fazendo-agua.html
segunda-feira, 15 de abril de 2013
sábado, 13 de abril de 2013
Efêmera canoa
Jorge Adelar Finatto
| photo: j.finatto. Canoa no Guaíba |
Diante de Porto Alegre, atravessa lenta e quase invisível uma canoa.
Vista do continente, parece uma figura saída de um velho livro de fotografias. Recordação de um passado distante.
Observo-a deslizando no rio, em mansa e agonizante viagem em direção ao crepúsculo.
O homem atrás do peixe e do repouso.
O pescador e o peixe à sombra da cidade desolada.
O observador, na beira do rio, alimenta a ilusão de beleza e permanência do instante.
O olho faminto registra o calado movimento, a passagem da canoa em seu delicado itinerário.
Nenhuma imagem é tão bela como a cidade espelhada no seu rio.
A canoa, a cidade, o homem, o peixe, habitam o efêmero.
Todos rumo ao oblívio.
_______
Texto revisto, publicado antes em 24, fevereiro, 2012.
sexta-feira, 12 de abril de 2013
Cinema de rua
O Cavaleiro da Bandana Escarlate

Este é um blog primitivo. Se o leitor observar, notará vestígios de textos escritos a caneta em guardanapo de papel. Me disseram que o autor desta página pode ser visto em cafés, lendo e rabiscando coisas. Essas anotações ele depois datilografa no computador. O editor do blog é do tempo da máquina de escrever. Para ele, o notebook nada mais é do que uma vetusta olivetti com luzes dentro. Às vezes, desconfio que, em menino, banhou-se nas águas do Dilúvio.
Este é, portanto, um blog arcaico, com raros e valentes leitores. Aqui não se ouvem músicas nem sons temáticos, não se encontram imagens cambiantes nem filmes. Tudo se passa como no tempo do cinema mudo. O fazedor da página deve amar Charles Chaplin (1889-1977).
Eu não devia ficar me dando ares. Sou convidado a escrever sobre cinema. Mas o fato é que quase não tenho saído de casa. Ultimamente, passo os dias na biblioteca do modesto solar, nas cercanias da praça Maurício Cardoso, em Porto Alegre. Abro as janelas dos fundos pra ver os pássaros no breve jardim. Eles vêm alimentar-se. Sirvo-lhes frutas. Em troca me oferecem o canto, dentro da lógica capitalista de que não existe almoço de graça.
Saio pouco de casa por temperamento e porque tenho medo de assalto. Não tenho mais fôlego pra correr dos bandidos. Fumei durante muito tempo, hoje me falta o ar. Contrariando o médico, ainda fumo charuto escondido, principalmente nos entrementes de uma garrafa de vinho.
Meu físico assaz patético é um convite aos ladrões na via pública.
Meu físico assaz patético é um convite aos ladrões na via pública.
Uma pequena história: os primeiros filmes que vi foram aqueles do tempo de menino em Passo dos Ausentes. Não havia sala de projeção naquele fim de mundo. Um dia, no final dos anos 1940, o médico da cidade, Dr. Fredolino Lancaster, numa viagem de estudos à Inglaterra, adquiriu um projetor. Na volta, começou a passar filmes na fachada de sua casa, sobre um lençol branco. As famílias levavam cadeiras para assistir às sessões de filmes mudos, que aconteciam no primeiro sábado do mês. Ali conhecemos o grande Carlitos.
Eram as noites mais esperadas do ano. Alberta de Montecalvino se encarregava de distribuir a pipoca. Nefelindo Acquaviva organizava a platéia. Juan Niebla, o músico cego do bandoneón, executava inefáveis melodias, conforme a história se passava na tela e lhe era segredada na concha do ouvido por Heitor dos Crepúsculos.
O miserável andarilho vaga pelo universo com sua surrada roupa, chapéu-coco e bengala. Carlitos mudou nosso modo de sentir e ver a vida. O vagabundo que vive na pobreza, com modos de sobrevivente e dignidade de cavalheiro, nos devolveu alguma coisa que havíamos perdido pelo caminho. Assistir a um filme de Carlitos é receita infalível contra depressão e vontade de morrer.
_________
Foto: Chaplin como o vagabundo Carlitos (11 de abril de 1915). Autoria não informada. Fonte: Wikipédia. Texto publicado em 2 de junho, 2011.
quinta-feira, 11 de abril de 2013
Encher o chapéu com folhas de outono
Escolhi esta tarde cinzenta pra caminhar por caminhos de silêncio e folhas arrastadas no chão. O coração quis fugir da sala fechada e da tristeza dos últimos dias.
Fui respirar um pouco do ar transparente de abril. Desapareci entre as árvores na distância como quem desaparece ao penetrar numa luminosa aquarela.
Fui respirar um pouco do ar transparente de abril. Desapareci entre as árvores na distância como quem desaparece ao penetrar numa luminosa aquarela.
O silêncio só era cortado aqui e ali pela voz de algum pássaro ou pelo rumor das folhas dos plátanos na passagem do vento.
Uma paisagem fora do tempo. Um território só sentimento. Um instante longe da dor, perambulando nos Campos de Cima do Esquecimento.
| photo: j.finatto |
A bordo do chapéu de palha e dos óculos de fundo de garrafa lá me fui, misturado nas cores outonais como quem vai em busca da urgente seiva pra continuar vivo.
Tem dias em que é preciso estancar a ampulheta e sair por aí numa tarde cinzenta.
Encher o chapéu com as folhas do outono, e andar, andar e andar pela aquarela até flutuar sobre os telhados e sobre a copa das nuvens.
Encher o chapéu com as folhas do outono, e andar, andar e andar pela aquarela até flutuar sobre os telhados e sobre a copa das nuvens.
terça-feira, 9 de abril de 2013
In memoriam
Jorge Adelar Finatto
| Romeu Marques Ribeiro Filho Fonte: site Tribunal de Justiça do RS |
Porque sois uma bruma que aparece por um pouco de tempo e depois desaparece.
Tiago 4: 14
A morte tece sua teia invisível, implacável. Num instante, retira de perto da gente pessoas que nos são queridas.
No meio da tarde de quarta-feira (3 de abril) recebi o telefonema dando conta da morte do colega. Ele havia jogado tênis pela manhã. Depois foi para casa pela hora do almoço. Passou mal e, em seguida, veio a morrer do coração. Não houve tempo pra nada.
Um mero e fatal instante: já não estava mais entre nós. Tinha 57 anos, havia se aposentado há alguns meses como desembargador.
Um mero e fatal instante: já não estava mais entre nós. Tinha 57 anos, havia se aposentado há alguns meses como desembargador.
Conhecia-o há mais de 20 anos. Tivemos uma convivência próxima quando, em 1991, trabalhamos na comarca de Rio Grande, cidade ao Sul, porto marítimo. Havia então o hábito do convívio entre colegas, não apenas no foro como em almoços e jantares de fim de semana.
Tinha admiração pelo ser humano e pelo juiz que ele era. Em Porto Alegre, a convivência diminuiu. Se o interior aproxima, a grande cidade tem o condão de nos distrair do trato diário. O invencível excesso de trabalho e as mil preocupações facilitam o isolamento e, se não nos damos conta, nos distraímos até de viver.
Algum tempo atrás, nos encontramos pela última vez. Era uma época especialmente difícil pra mim em razão de uma doença grave. Como não havia muito o que dizer, ele veio ao meu encontro, me abraçou e me deu um beijo. O gesto me comoveu, e me deu força.
Há momentos na vida em que tudo que mais precisamos é de um abraço e um beijo. Infelizmente, não pude fazer isso por ele.
Vou levar para sempre aquele beijo na minha face, enquanto durar a bruma que também sou.
Vou levar para sempre aquele beijo na minha face, enquanto durar a bruma que também sou.
A Romeu Marques Ribeiro Filho, o beijo e o abraço, saudade e afeto, in memoriam.
domingo, 7 de abril de 2013
Nagai Kafu e as histórias da outra margem
Jorge Adelar Finatto
![]() |
| Nagai Kafu entre mulheres. Kafu Nagai with strippers @ Asakusa Rokkuza, 1952 Fonte: the setting sun* |
Oyuki era uma musa que ressuscitara em meu coração tão cansado imagens de um tempo distante e saudoso. O manuscrito há tanto tempo abandonado sobre a escrivaninha, não fosse por ela ter aberto seu coração para mim - ou, ao menos, não fosse por eu ter achado que esse coração se me abrira -, já estaria há muito tempo no lixo.¹
Nagai Kafu
Mais por falta de livros traduzidos do que por outro motivo, no Brasil temos pouco conhecimento da literatura oriental.
Mas isso começa a mudar. Na medida em que editoras brasileiras investem na tradução de autores daquele lado do mundo, vamos descobrindo pérolas até aqui escondidas.
Ultimamente tenho folheado livros de pintura japonesa, de autores como Hokusai e Hiroshige, e lido textos de escritores japoneses. Não é pouca nem recente a admiração que sinto pela cultura do Japão.
Entre os autores daquele país mais conhecidos por aqui, temos Bashô (poesia) e Yasunari Kawabata (prosa, Prêmio Nobel de 1968 ). Mas existem outros de grande qualidade.
Acabo de ler Histórias da outra margem, do escritor Nagai Kafu (1879 - 1959), esse da foto com as moças. Trata-se de um livro de 123 páginas, que transita entre a ficção, o diário, a poesia, a crônica e as memórias do autor.
Eu não tinha mais aonde ir. As pessoas que eu queria rever estavam todas mortas.²
O enredo se passa na Tóquio da década de 1930. Tadasu Oe é um escritor de quase 60 anos que vive uma história de amor com uma "mulher da vida", na zona de prostituição do bairro Tamanoi, a leste do rio Sumida.
Oyuki é jovem, pobre, bela, alegre, foi gueixa antes de prostituir-se. Ao conhecer Tadasu Oe, pensa abandonar a zona e casar-se com ele. Oe, por seu turno, encontra na jovem inteligente e cheia de vida um cais cálido onde ancora sua solidão nos fins de tarde.
Ao mesmo tempo em que narra o seu romance, Oe conta detalhes do livro que está escrevendo, no qual um professor aposentado abandona a família. O desenvolvimento é surpreendente.
A história é, em vários aspectos, a história do próprio Nagai Kafu. E de muitos homens e mulheres por este mundo afora.
Histórias da outra margem é um livro com uma curiosa e envolvente construção. Nagai Kafu revela-se um excelente escritor, com uma narrativa que combina técnica esmerada e sensibilidade poética, sem cair em literatices.
Como se isso não bastasse, a obra tem ainda belas ilustrações de Shohachi Kimura (1893 - 1958). Um livro, enfim, pra se ter nas mãos.
Eu não tinha mais aonde ir. As pessoas que eu queria rever estavam todas mortas.²
O enredo se passa na Tóquio da década de 1930. Tadasu Oe é um escritor de quase 60 anos que vive uma história de amor com uma "mulher da vida", na zona de prostituição do bairro Tamanoi, a leste do rio Sumida.
Oyuki é jovem, pobre, bela, alegre, foi gueixa antes de prostituir-se. Ao conhecer Tadasu Oe, pensa abandonar a zona e casar-se com ele. Oe, por seu turno, encontra na jovem inteligente e cheia de vida um cais cálido onde ancora sua solidão nos fins de tarde.
Ao mesmo tempo em que narra o seu romance, Oe conta detalhes do livro que está escrevendo, no qual um professor aposentado abandona a família. O desenvolvimento é surpreendente.
A história é, em vários aspectos, a história do próprio Nagai Kafu. E de muitos homens e mulheres por este mundo afora.
Histórias da outra margem é um livro com uma curiosa e envolvente construção. Nagai Kafu revela-se um excelente escritor, com uma narrativa que combina técnica esmerada e sensibilidade poética, sem cair em literatices.
Como se isso não bastasse, a obra tem ainda belas ilustrações de Shohachi Kimura (1893 - 1958). Um livro, enfim, pra se ter nas mãos.
___________________
¹,²Histórias da outra margem, pp. 109, 117. Nagai Kafu, Editora Estação Liberdade, São Paulo, 2013. Tradução do japonês e notas por Andrei Cunha.
Marcadores:
Histórias da outra margem,
Nagai Kafu
Assinar:
Postagens (Atom)




