sábado, 9 de junho de 2012

A cidade perdida: as origens

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


Uma cidade de fantasmas habita um lugar ermo, no cume das montanhas, nos Campos de Cima do Esquecimento.

O leitor talvez se pergunte por que, afinal, Passo dos Ausentes, lugar onde escrevo essas linhas, não aparece no mapa do Rio Grande do Sul nem em nenhum atlas.

Muitas vezes também me fiz essa pergunta. Não encontrei até hoje uma resposta plausível. Para nós, habitantes desta cidade esquecida, a invisibilidade é um mistério difícil de entender.

Não nos veem e não nos sentem.

Nós o que vemos é a andança das nuvens nos contrafortes da solidão.

Oficialmente, não existimos. Não estamos no mapa.

De onde vem essa ausência?

A Sociedade Histórica, Filosófica, Geográfica, Literária, Geológica, Astronômica e Antropofágica de Passo dos Ausentes já encaminhou diversos expedientes aos órgãos do governo, em Porto Alegre, pedindo providências. As respostas são sempre evasivas. “Vamos examinar”, “estamos estudando”, “faltam dados verossímeis acerca da existência da cidade e sua história”.

Mas como? Acaso nos tomam por seres de papel e tinta?

Passo dos Ausentes é uma espécie de Atlântida, a lendária ilha perdida no fundo tenebroso do oceano.

Uma Atlântida invertida, é certo, que caiu para o alto e desapareceu a 1.800 metros de altitude.

Somos seres invisíveis, desaparecidos vivos. Mortos na memória oficial e nos meios de comunicação.

Don Sigofredo de Alcantis, nosso filósofo-mor, costuma dizer que fomos fundados por um grupo de índios guaranis e padres jesuítas. Eles vieram de São Miguel Arcanjo, após a destruição da redução ocorrida durante a Guerra Guaranítica, em meados do século XVIII, quando portugueses e espanhóis acabaram com os Sete Povos das Missões.

Don Sigofredo é o guardião da nossa memória.

A barbicha grisalha, entradas no cabelo, o cavanhaque branco em forma de v, as extremidades do bigode levantadas para cima como a perscrutar o misterioso universo, o velho pensador conta histórias sentado no banco da praça ou caminhando em volta dos seus jardins.

Os dias não se contavam em horas, mas em suspiros, afirma ele.

O rumor do vento nas coberturas de capim santa-fé das cabanas, na beira do Rio dos Ausentes, era a música daqueles inícios.

Depois aqui chegaram cinquenta pessoas, entre crianças, mulheres e homens, todos escravos foragidos de estâncias do sul do estado. Livres, integraram-se na comunidade local.

Após, vieram algumas famílias de andaluzes, fugidas da Espanha por razões não muito bem esclarecidas. Os espanhóis tinham sido recebidos com antipatia nas metrópoles do Rio de Janeiro e São Paulo. Traziam na bagagem ideias utópicas de conteúdo socialista.

O tempo passou. Mais tarde subiram as montanhas indivíduos russos, polacos, alemães, italianos, portugueses e um grupo de judeus e árabes que chegaram juntos.

Ninguém sabe ao certo como e por que essas pessoas vieram parar em Passo dos Ausentes.

Toda essa gente tinha em comum algum trauma de perseguição por razões políticas, filosóficas ou relacionadas à cultura e etnia.

Em Passo dos Ausentes, encontraram refúgio e paz para viver, reconstruir sua história, trabalhar e criar filhos. Não demorou muito para que a cidade se tornasse produtora de boa variedade de produtos agrícolas, de artesanato e de utensílios de pequena indústria. A prosperidade ocorreu no auge da estrada de ferro nos anos de 1940. O declínio veio com o fim da ferrovia na década seguinte.

A população da cidade, que não era grande, passou a diminuir. As pessoas começaram a ir embora em busca de um futuro.

A memória e o afeto têm nos preservado da extinção. Mas não sabemos até quando.

Íngremes e tortuosos são os caminhos através dos paredões de basalto.

Muito frio, chuva, vento e neblina nos separam do mundo.

Don Sigofredo diz que é do nosso modo de ser a saudade das estrelas que desapareceram há muitos milênios. A luz desses astros nos chega viajando pela noite do tempo infinito.

Somos testemunhas de uma claridade que se apagou.

Por que não estamos no mapa?

Somos invisíveis como a nossa história e a nossa cultura.

Às vezes nos reunimos na praça para ouvir a pequena orquestra sinfônica. O Concerto para Violão e Orquestra, de Heitor Villa-Lobos, é a música predileta de Don Sigofredo. Acho que é também a música de Passo dos Ausentes.

Somos poucos e invisíveis.

Na solitude das noites de dezembro ouvimos as histórias uns dos outros.

Não sabemos o que será da cidade e de nós.

Mas quem sabe alguma coisa nessa vida?

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Texto publicado em 25 de dezembro, 2009.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Histórias do fim do mundo

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto


Nas antigas noites da Rua São João, os habitantes colocavam cadeiras na calçada.  Conversavam sobre o passado maravilhoso e o fim do mundo que estava próximo. Era uma maneira talvez de suportar o vazio daquela vida onde nada acontecia. 

Uns diziam que o mundo ia acabar em fogo. Um incêndio de proporções planetárias calcinaria os seres e todas as coisas.

Outros afirmavam que tudo ia terminar em água. Uma chuva, fininha no início, iria aumentando de volume até que ondas gigantescas mergulhariam a Terra em trevas de profundeza, onde nem os peixes sobreviveriam.

Do que Miguel observa e sente, o mundo ao redor está ruindo sem gritos nem estrondos. Como uma escultura de areia abandonada no vento da praia.

Um dia percebeu que continentes de memória e afeto desapareceram com os moradores que, como ele, emigraram para outras cidades.

Atlântidas à deriva num mar de esquecimento.

A passagem voraz do tempo erigiu ausências no coração de Miguel. Ele próprio está fora de contexto. Como uma fotografia que alguém recortou.

Em certas noites de insônia, ele acende a lamparina para espalhar claridade na escuridão da rua da infância.

As portas e janelas estão cerradas. Os habitantes da Rua São João flutuam no espaço. Ninguém mais sai para ouvir as histórias do fim do mundo embaixo das estrelas cadentes.

Às vezes, uma porta se abre vagarosamente. Um menino surge. Toma a mão de Miguel e anda a seu lado pela rua noturna onde ninguém mais vive.

Até que a aurora vem e o menino desaparece. Miguel segue seu caminho, deixando atrás a rua perdida. 

domingo, 3 de junho de 2012

Textos rasgados

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto

A última palavra é sempre do autor. Mas a opinião de alguém em quem confiamos, com "bom olho", ajuda muito na revisão e seleção de textos.

Um dia desses fiz uma incursão por papéis escritos há muito tempo. Estavam dentro de envelopes num canto do armário. Sem remorso, rasguei quase todos. Não havia ali muito a salvar.

Não significa que aquelas páginas foram inúteis. Ao contrário, considero indispensáveis como exercício da expressão escrita. Com seus defeitos, abriram caminho para outras tentativas e acertos.

Não tenho o dom do texto instantâneo. Preciso de um tempo para reler e reescrever. As palavras necessitam respirar para se acomodar entre si. Como abóboras na carroça.

Por isso, gosto de deixar um pouco na gaveta para criar certo distanciamento.

Escolher entre o que fica e o que deve ser rasgado não é fácil. Começa que o criador está envolvido emocionalmente com a sua criatura e é cruel descartar um filho (pais sempre acham os filhos bonitos).

Neste processo, o rigor excessivo é tão prejudicial quanto a autocomplacência. A arte está em encontrar o equilíbrio.

A busca da perfeição (que não existe) pode levar a enganos como a poda demasiada dos ramos dessa árvore, a autocrítica impiedosa. Essa atitude não deixa espaço para a criação.

É difícil e sinuoso o percurso da escrita, mas nisso está também a sua beleza.

A última palavra é sempre do autor. Mas a opinião de alguém em quem confiamos, com "bom olho", ajuda muito na revisão e seleção de textos.

Escritores importantes estão aí para provar que não existe um tempo certo para começar a escrever e publicar. Cada um tem seu tempo. Entre os grandes autores que surgiram para a literatura já na idade madura, encontramos José Saramago e Cora Coralina.

O que não se pode, em qualquer caso, é desanimar. Temos de acreditar que ainda vamos conseguir escrever aquilo que queremos da forma mais bela. E isso acontecerá talvez na próxima página ou na manhã seguinte.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Depois de tudo

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto


Depois de tudo ele quer só um banho. Não o tagarela e desajeitado das enfermeiras. Anseia um banho demorado, com direito de ficar só, recolhido, senhor de seus domínios.

Durante o tempo em que esteve longe do mundo e do próprio corpo, viajando na nuvem de morfina, sonhava sentar debaixo de uma cachoeira e ali ficar um dia inteiro sentindo a água cair.

Havia muitas árvores nesse lugar, camélias brancas, pássaros, um ar carregado de fragrância de mato, bom de respirar. Havia também uma mesa larga e comprida, onde gente da família e amigos se reuniam para o café da tarde.

Até os desaparecidos se chegavam na mesa para conversar com ele. Até mesmo o pai, imemorial ausência, surgiu no sonho e o abraçou calidamente, como nunca antes fizera.

Reencontrou o córrego da infância, entre os pinheiros. Caminhou descalço sobre os seixos, olhou o movimento ligeiro e colorido dos peixes na água. Recordou o jeito da saíra entrar e sair do ninho. A suave luz de maio a tudo envolvia.

Agora está de novo em seus domínios, o hospital ficou pra trás. Embaixo do chuveiro, a água morna escorrendo na cabeça, no corpo, ninguém pra segurá-lo, virá-lo dum lado pra outro feito joão-bobo. Sob a água, sentindo os seixos nos pés, o vento leve na face, os peixes no córrego, conversas na mesa larga dos afetos, ele celebra a dádiva de estar vivo.

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Texto publicado em 1º de julho, 2010.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

A fala de Pedrolino

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto. Venezia. Os mascarados
 

Pertenço à ordem dos amorosos sem camélia.

Os que amaram e se pensaram amados sem o ser. Os quase. Os que saíram cedo da festa.

A dama. Meu coração perdido no infinito tabuleiro. O mundo é lugar de barbaridades. Dor, dores.

Chamava-se Alberta, Alberta de Montecalvino. Pertencia à nobre estirpe dos Albertos, de Passo dos Ausentes. Foi quando a vida aconteceu.

O sol brilhou entre as nuvens. Iluminou a escuridão da vida minha. O triste que eu fui. A Commedia dell'Arte tomou conta da minha existência. Pedrolino, Pierrô.

Estava na janela da mansarda, como sempre, olhando a vida passar.

Então ela atravessou a rua. Trazia a sombrinha vermelha, o vestido branco, laço azul na cintura. Os sapatinhos amarelos. Olhou pra mim e sorriu. Rasgou minha solidão.

Bailei no ar como folha de plátano no outono, lentamente fui cair a seus pés. Desci correndo, pulando os degraus da escada em espiral. Segui o inefável perfume. Enfim, alcancei a dama.

Perguntei se podia fazê-la feliz. Sim, sim.

As iluminações.

Passamos a freqüentar a Praça da Ausência, nas tardes ocres daquele outono. Um dia peguei-lhe na mão. Meu coração cavalo louco. Não dormi durante três noites.

Alberta meu sentimento. Camafeu cravado na minha alma. Ela me deu o lencinho branco perfumado, a letra A bordada em lilás. Guardei-o num lugar secreto, bem no fundo de mim.

Aqueles eram dias de ora-veja.

A dama, o tabuleiro, eu nunca aprendi a jogar.

Não canto outros amores, que não os tive, e, se os tivesse, silenciaria.

Então Arlequim apareceu. Os ódios pularam dentro de mim.

Arlequim e seus guizos, seus versos de algibeira, sua palavra sem valia, seu alaúde. Arlequim disse coisas, deitou falas, expandiu-se em canções. Antes calasse.

Bazófias.

Arlequim se espalha no mundo. Faz ares. Blasona. Explorador de musas, ladrão de amores. Arrebatou o coração de Alberta, os suspiros, até o corpo de violino que eu nunca toquei.

Eu calado sonhador do fim do mundo. Os devaneios da alma. Voltei só pra mansarda. Nem acreditei.

Quem me visse, a face esculpida da dor. Veio o inverno. Invernos.

O vero solitário da rua triste. O que olha a vida da janela. O que foi quase feliz.

O sem camélia.

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Texto publicado em 09 de junho, 2010.
Do livro Calado observador do fim do mundo. Editora Vésper, 2010, Passo dos Ausentes.
Outros detalhes do drama de Pedrolino em A fala do Arlequim, post de 30/10/10, e Alberta de Montecalvino, de 8/11/10.

Ulisses

Casa Fernando Pessoa, Lisboa

domingo, 27 de maio de 2012

Coração batendo na beira do lago

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto


O sol mostra a cara entre as nuvens.

A pintura impressionista revela o traço leve, ligeiro, transparente.

Caminho ao redor do lago nesse dia de outono. Um momento de raro encontro.

As cores passam um sentimento de intimidade e delicadeza.

Não existe nada melhor do que esquecer os compromissos e andar na tarde de maio.

No outono, mais do que em outras estações, sentimos a transitoriedade das coisas.

photo: j.finatto

É um ritual de despojamento e recolhimento de seivas. A natureza guarda energia para os dias difíceis que virão. Um caminho de sombras a percorrer, uma passagem de frio e névoa.

Nunca a transformação fica tão clara.

Já não somos os mesmos que antes caminhavam ao redor do lago. O reflexo na água é de alguém que mudou.

A vida não pode ser levada tão a ferro.

É o que o outono nos ensina. Não vale a pena. Um pouco de leveza numa tarde de maio é o mínimo que devemos nos conceder.

Um pouco de distanciamento dos fantasmas.

Vamos entre as árvores, o silêncio, as cores.

Somos uma imagem dentro do lago, depois se apaga.

Tudo muda, tudo passa. Só ficará desse instante o leve traço do esforçado pintor.

Uma fotografia, um quadro, um poema, um rumor de folhas no vento.

Coração batendo na beira do lago.

photo: j.finatto

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photos: imagens de São Francisco de Paula, serra do Rio Grande do Sul.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Saramago, Caras e Pessoas

Marcelo Buainain
 
 


Para muitos, ao longo dos últimos 10 anos essa imagem do escritor José Saramago se tornou conhecida, porém poucos sabem da sua história e autoria. O autor não é desconhecido...

O ponto de partida é Lisboa, cidade onde vivi praticamente toda a década de 90. Foi nessa ocasião que tive oportunidade de formar uma parceria com a jornalista Cristina Duran que pautava os entrevistados e eu os fotografava. Momentos especiais foram vividos e compartilhados nas tascas e em nossas residências situadas no bairro de Alfama, quase à beira do rio Tejo. Deste elo profissional e amizade tivemos o privilégio de fotografar várias celebridades, entre elas Wim Wenders, Pedro Almodóvar, Bernardo Bertolucci, Irène Jacob, entre tantas outras.

Tomado por uma certa insatisfação com os clichês fotográficos, concebi o projeto "CARAS E PESSOAS", cuja proposta era apresentar uma personalidade portuguesa sob duas óticas: uma face que espelhasse o normal e a outra, a exemplo da famosa fotografia de Albert Einstein, o insólito, o inusitado.

Já em campo, empunhando uma Hasselblad e um estúdio ambulante, retratei o então presidente Mário Soares, a atriz Eunice Munhoz, o ator Joaquim de Almeida, o amigo e escritor Pedro Paixão, o pianista Bernardo Sassetti, o cineasta João Botelho, a cantora de fado Amália Rodrigues e, entre tantos outros, João Fiadeiro, Sérgio Godinho, Rui Chafes, Pedro Cabrita, Ana Salazar, Jorge Molder e Júlio Pomar.

Sensibilizado com o drama humano narrado no livro Ensaio sobre a Cegueira, idealizei para o projeto Caras e Pessoas um retrato do escritor Saramago, enfatizando os olhos, a cegueira, a visão.

Em 25 de fevereiro de 1996, no bairro de Alfama em Lisboa, na residência da jornalista Cristina Duran, tive a oportunidade de focar os olhos e a alma de José Saramago, expressos nesse retrato.

Saramago, a nossa gratidão por acreditar na possibilidade e realização desta imagem.

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Publicado no blog em 23 de junho, 2010.
Agradeço a Marcelo Buainain a generosa e preciosa autorização para reprodução desta matéria. J.Finatto

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Olhares de Granada

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. jardins da Alhambra


Entre a Alhambra e o bairro árabe do Albaicin, à margem do Rio Darro, onde nasceu a cidade de Granada, na Espanha,  o olhar viaja através do tempo.

A alma da cidade andaluz resiste a isso que o apressado observador chama esquecimento. As janelas iluminam o imemorial encontro do antes e o agora.


photo: j.finatto


As plantas verdes, verdes, carregam as seivas vivas, vivas, sobre as paredes descarnadas e vielas escondidas, que perduram ao sol, à chuva, aos ventos, aos séculos.

photo: j.finatto. fonte no Albaicin


As vetustas paredes cochicham entre si, vozes ancestrais aparecem e se perdem no interior dos pátios dos velhos casarões. O silêncio monta guarda nos caminhos estreitos. Vultos habitam sótãos.

photo: j.finatto


Na tarde gitana, acende um violão flamenco atrás das brancas cortinas.

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A casa de Federico García Lorca em Granada:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/01/casa-de-federico-garcia-lorca-em.html

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Música na estação de trem

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto

Às vezes, quando vejo alguém sentado no velho banco da estação de trem abandonada de Passo dos Ausentes, me lembro dos que partiram dessa cidade fantasma.

Tenho vontade de sair por aí e recolhê-los, ampará-los na infinita solidão de quem perdeu seu lugar no mundo.

Algumas palmeiras cercam a pequena estação. O último trem está lá parado. Agora os cáquis - maduros - douram as manhãs de outono perto dos trilhos.

Juan Niebla, 86 anos, costuma chegar pelas quatro da tarde para tocar seu bandoneón. O músico cego assumiu o posto em 1941, aos 15 anos, por concurso público.

Desde então não faltou um dia sequer. Acomoda-se no banco de peroba-rosa e toca algumas músicas. Transita entre Chopin, Debussy, Villa-Lobos, Ravel, Piazzolla e outros.

photo: j.finatto

A função de músico da estação começou com Honoratto Santos, que ocupou o cargo até a morte, em pleno trabalho, aos 80 anos. Tocava instrumentos de sopro como virtuose, especialmente o trompete.

Dizem que Honoratto era natural de Moçambique; alguns afirmam que veio menino ainda de São Tomé e Príncipe. Mas no documento de identidade consta como natural de Passo dos Ausentes.

O músico da estação tinha por ofício alegrar aqueles viajantes que chegavam à nossa cidade e amenizar a tristeza dos que partiam.

O trem acabou em 1950.

Juan Niebla diz que não importa: - Continuo tocando na estação porque quero estar aqui no dia em que o trem voltar. Um dia ele voltará a subir e descer essas serras.

- Enquanto isso, toco para os fantasmas.  E para os amigos que vêm me visitar nas quintas-feiras.


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Mais sobre o músico Juan Niebla:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2011/07/conversa-na-estacao.html

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Um mundo invisível

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto



O inconsciente é como o fundo de certos rios.

Sob a tênue linha que o protege do mundo, existe um espaço habitado, povoado de seres, histórias, descobertas, sentimentos. Há lugares ocos também, medos do escuro, sonhos que não viram a luz do sol.

Somos filhos da claridade atravessando a sombra.

Não existe outra saída além de abrir as janelas para a aurora entrar, tirar a casa da escuridão. Raízes profundas nos ligam ao intangível.

Aqui um riacho com água corrente, seixos, vozes; ali o pássaro, uma borboleta; adiante um pinheiro, um plátano, depois uma ponte de pedra. Depois, a névoa.

Magnólias e buganvílias habitam o jardim.

O passado imóvel, o tempo amarelecido nos retratos. 

A lágrima quente verte no escuro.

Como o fundo de certos rios, carregamos tesouros secretos, peixes vivos. Andorinhas cruzam a altura dos penhascos submersos.

A luminosidade oblíqua clareia o recanto onde o menino sonha.

Não há escuridão indevassável. O medo da travessia é só um breve instante.

A palavra salva o que ficou calado no porão.

Nunca se esquece o vento esculpindo a dura face do basalto. Nunca se olvida a partida da cidade pequena.

No alforje do coração, todos os que ficaram caídos no alçapão do oblívio. 

Entre ruínas procuramos o menino que respira sob destroços.

Esse que a tortuosa estrada jogou na cidade grande. Esse que perambulou por ruas mortas, entre desvalidos, que habitou quartos fétidos e sinistros, em longas noites de espera.

É preciso acolher o menino que se levantou da noite fascista, esse que pensávamos afundado no esquecimento.

Um círculo de luz ilumina a sombra da sala.

O presente é infinito, gosto de nuvem na boca, porcelana côncava azul acima da cidade e seu cais.

É tarde de outono. O mergulhador sai do fundo do rio. O lampião ainda quente nas mãos.

O caderno escrito com o toco do lápis.

Vida, teu sopro é agora.
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quarta-feira, 16 de maio de 2012

Um blogue de capa e espada

Jorge Adelar Finatto
 
Guy Williams, como o Zorro
 
 
Um dia desses alguém escreveu que os blogues fazem parte da pré-história da internet. É sempre assim. Quando acho que estou fazendo algo moderno, esse algo ou não existe mais ou saiu de moda. 

Pensando bem, porém, o blogue tem ainda lá seu interesse. Se tiver um conteúdo honesto, pode atrair leitores. Uma apresentação legal também ajuda.

Um leitor imaginário enviou-me um e-mail. Observa que este é um blogue primitivo, não tem filmes, nem sons, nem recursos técnicos que o tornem atrativo. Os textos não comentam fatos do momento nem são de autoajuda.

Tem razão. O que sei fazer, mal e mal, é publicar algumas linhas, em geral acompanhadas de fotos. As matérias tratadas não destacam temas específicos nem obedecem a critérios de atualidade, nascem da subjetividade do autor. No mais, não sei ou não quero fazer outras coisas.

Um autêntico blogue de capa e espada, que acredita na luta do bem contra o mal, da beleza contra a fealdade, do sentimento e do pensamento contra a brutalidade, bem ao estilo do velho e invencível Zorro, interpretado pelo notável ator americano Guy Williams.

As pessoas não vêm aqui para ver as últimas novidades. Uma razão que não alcanço faz com que visitem esta página. De qualquer forma, a presença é um estímulo.

Tenho o hábito do silêncio e aprecio o texto impresso. O notebook, pra mim, é uma velha máquina de escrever com luzinhas. Mas o fato é que escrever no blog tem sido uma boa experiência.

A internet é um território trevoso, pelas armadilhas que esconde. Mas é, sobretudo, uma alternativa democrática, uma porta que se abre para a comunicação e a liberdade de expressão. Como tudo na vida, o que é bom acaba permanecendo, e o ruim desaparece no buraco da própria ruindade que semeia.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

A casa do anjo

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. Colonia del Sacramento. Uruguai



Hoje, antes de começar a chover, arredaram uns móveis bem pesados lá no céu. Um barulho espesso me fez pensar que talvez fosse a mudança de um anjo. Um anjo bom e humano com suas asas de perfumadas plumas, levando com ele seu chapéu, suas estantes de livros, bicicleta, cama, armários.

Um anjo, quando se muda, deve ter muita coisa pra carregar: cartapácios com registros e fotografias de quem ele protege, cadernos de milagres, álbuns de recordações, aquarelas com paisagens dos campos do Senhor.

As roupas do anjo devem ser brancas como nuvem, inclusive as suas botas.

Gostava que o meu anjo da guarda viesse mais pra perto de mim.

Meu coração anda necessitado de amigo com sabedoria e consolação. Ele podia até ficar morando aqui comigo. Se quisesse, podia subir no telhado, sentar perto da chaminé, lugar calmo e iluminado, de onde se tem uma boa vista do mundo.

O meu anjo da guarda. Há de expulsar a solidão que toma assento na sala. Nunca mais nenhum mal vai me acontecer. Quando de noite o medo se acercar de mim, o anjo me dará sua mão forte. Então eu dormirei como um menino. E vou sonhar outra vez.

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Texto publicado em 10 de dezembro, 2010.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Juiz e réu, encontro extra-autos

Jorge Adelar Finatto


Era quase meia-noite quando saí do consultório do dentista. Tinha viajado cerca de 500 quilômetros até Porto Alegre, dirigindo o valente Monza. Cheguei e fui direto para a consulta.

Na época, 1996, jurisdicionava a vara criminal da comarca de Santo Ângelo, na Região das Missões do Rio Grande do Sul, perto da Argentina. Os compromissos e a grande distância da capital faziam raras essas viagens.

Tinha deixado o carro no estacionamento de um posto de gasolina, do outro lado da rua. Era preciso encher o tanque. Havia apenas um funcionário àquela hora tardia e ele veio me atender. 

Enquanto o veículo abastecia, ele se aproximou e disse que me conhecia. Ah, sim?, de onde - perguntei-lhe.

- O senhor é o juiz que me julgou e me condenou no processo criminal em que fui réu.

Era tarde, uma noite fria de agosto, quase ninguém na rua. Eu não sabia o rumo que aquela conversa ia tomar. Não recordava daquele rosto, por mais que me esforçasse. O homem falava pausadamente.

Não sabia o que dizer, então falei:

- Mas então, como vai a vida? Vejo que estás trabalhando, isso é muito bom.

Impassível, ele limpava o vidro dianteiro. Continuou:

-  Eu andava perdido, tinha problema com drogas, vieram os furtos. O senhor não se lembra de mim. Sabe por que eu não esqueci? Porque me tratou com respeito nas audiências, durante todo o processo. Me tratou com educação. Quando alguém na sala começou a me agredir com palavras, mandou que cessassem as agressões e que todos ficassem calmos. Nunca vou esquecer.

Depois, paguei a gasolina, agradeci o serviço, desejei-lhe sucesso na vida e fui embora.

Este fato me impressionou pelo tipo de percepção que revela. O que mais marcou aquele indivíduo não foi tanto a condenação (talvez esperasse o resultado), mas a maneira como foi tratado no ambiente judicial.

A instrução de processos criminais costuma ser penosa para os acusados e especialmente dolorosa para as vítimas.

O processo é instrumento de realização de justiça e, portanto, de humanização da sociedade. Nele não pode haver espaço para vingança, humilhação, maus-tratos. O que se busca é a aplicação da lei e dos princípios que movem o Direito, visando restaurar a ordem jurídica.

Nesse sentido, o respeito entre todos os envolvidos na relação processual é fundamental.

Para muitos dos que chegam ao Judiciário na condição de réus, em ações penais, a sala de audiência é a escola que faltou lá atrás, infelizmente. O dever mínimo do Estado, em tal situação, é garantir um tratamento digno às pessoas, respeitando cada uma nas suas circunstâncias.

O modo como nos tratamos uns aos outros define o tipo de sociedade em que queremos viver e o país que estamos construindo.

O fato de sentir-se respeitado durante o andamento do processo talvez tenha contribuído para aquele homem refletir e mudar seu comportamento. É o que espero, do fundo do coração.