quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Hokusai e Drummond, passeio na livraria

Jorge Adelar Finatto


xilogravura de Hokusai: A grande onda de Kanagawa. Fonte: Wikipédia
 

A livraria é uma coisa viva. Cada livro é algo pulsante, todos têm um coração. O seu coração.

A internet está aí com toda a força. E, no entanto, os livros de papel não caem no esquecimento. As livrarias estão cheias de títulos e leitores. Pelo menos as grandes. Não sei o que se passa com as outras.

Na tarde nublada de Porto Alegre, resolvi visitar a livraria do bairro. Estou aqui entre as estantes, caminhando no bosque. Tem gente que compra livros e lê por obrigação. Eu leio por necessidade espiritual, encantamento, interesse estético, busca-vida.

Exposição de livros 
 
Li no jornal que as livrarias maiores estão cobrando para expor os livros. Cada espaço tem um valor, conforme a localização. A vitrine é o lugar nobre. Os demais suportes têm preços correspondentes ao destaque, à visibilidade no ambiente.
 
Está muito difícil a vida de autor novo ou desconhecido. Em geral, após o lançamento, a obra fica exposta por poucos dias e logo é retirada. Desaparece. E o escritor/escritora ficam amargando a frustração de não ver mais seu trabalho ao alcance do leitor, depois de ter conseguido - a duríssimas penas - o milagre da edição.

A oferta de autores é muito elevada e a fila anda, como se diz. Só que anda a uma velocidade terrível e sem noção. Enormes dificuldades se apresentam para divulgação das obras nos meios de comunicação. Não há mais espaço - com poucas exceções - fora do estrito interesse econômico da empresa.

Faz tempo que o mundo do livro perdeu a face humana e artesanal. Tornou-se um comércio como outro qualquer, feroz e frio.

Publicação

Os critérios que regem a publicação obedecem, quase sempre, a valores de mercado.  A margem de risco, isto é, de aposta em autores iniciantes, fora de catálogo, é cada vez menor.

Tenho dúvida se um autor como Guimarães Rosa seria editado atualmente, se fosse jovem. Isto porque a qualidade literária conta muito pouco e o senhor Rosa é considerado um autor difícil, desses que exigem maior entrega do leitor. Hoje o que importa  é se o escritor é bom de marketing. O resto é indiferença.

Não sei que futuro espera escritores que são bons de texto, mas não conseguem apoio de uma editora. Talvez não haja futuro algum.

Talvez o futuro da escrita esteja no livro eletrônico. No presente, a nuvem virtual é a saída para os que querem mostrar algo.

Sugestão: se cada editora fizer uma seleção anual para publicar, ao menos, um livro pelo valor literário, fora do conceito best-seller, já ajudaria.

No café da livraria

O que eu procuro entre as estantes, onde estou agora, é o prazer da leitura. Procuro bons autores, esses que resistem sem se entregar ao dono do inferno.

No café da livraria, é hora de folhear os livros colhidos no bosque. Numa mesa próxima, vejo uma leitora com rotundas lentes nos óculos virar as páginas de um volume de matemática. Faz isso com visível prazer.

Vida sexual dos leitores

Na mesa ao lado da minha, duas mulheres conversam sobre retiro espiritual, dieta, cuidados com a beleza e vida amorosa.

Ouço o que dizem não porque quero, mas porque elas falam como se estivessem em casa, sem nenhuma cerimônia e nenhuma timidez.

Uma delas se saiu com esta: "Estou tendo uma excelente vida sexual comigo mesma". Deve ser um tipo de self-service. Que tempos!

Confissões de Minas

Com esforço, volto aos meus livros. Confissões de Minas¹, de Drummond, está entre os eleitos de hoje. As primeiras páginas são daquelas de não largar mais o volume. "Simples traços de pena - mas tão densos, tão firmes e tão elegantes que nunca mais se apagarão", afirma Antonio Candido sobre a obra.


gravura Fuji Vermelho, de Hokusai. Fonte: Wikipédia


Pinturas de Hokusai

O outro escolhido é Hokusai, mountains and water, flowers and birds² (Hokusai, montanhas e água, flores e pássaros), livro com reproduções de imagens do grande mestre da pintura e da gravura japonesa Katsushika Hokusai (1760 - 1849). Vou viajar nessas pinturas. Uma maravilha.

Arte e navegações

A arte faz falta. É difícil viver longe dessas coisas que nos ajudam a prosseguir viagem.

Com a arte navegamos em nossos pequeninos barcos sobre a imensidão das ondas.
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¹Confissões de Minas. Carlos Drummond de Andrade. Cosac Naify, São Paulo, 2011.
²Hokusai, mountains and water, flowers and birds. Matthi Forrer. Prestel Publishing, New York, 2011.
 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Ossos do vento

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto. estrada Nova Petrópolis a Picada Café

 
Um silêncio dentro do silêncio
                             um novelo desfiado no vento
                                                      um arabesco gravado no tempo.
 
Caminhos dos Campos de Cima do Esquecimento. Vou pela curva da estrada, à sombra verde dos plátanos. Tão bom andar assim na beirada sinuosa dos precipícios, ouvindo o claro silêncio das nuvens.
 
No Contraforte dos Capuchinhos, visito Claudionor, o Anacoreta, que não via há muito tempo. No mosteiro onde vive, passei um dia em recolhimento espiritual na sua caverna mística. Enquanto olha - lá de cima - o distante Vale do Olhar, Claudionor me diz:
 
"Tem dias que escuto meus ossos sacolejando no bornal de Deus.
 
"Um dia, quando eu for só silêncio, Ele virá me buscar.

"Reunirá meus restos de humanidade, me carregará nos braços para outro lugar onde vou renascer. Sim, quero nascer outra vez, uma nova oportunidade. A vida é muito escassa. Vivi anos, décadas, decifrando o invisível em salas solitárias, folheando livros obscuros, tateando a sombra, orando.
 
"Na existência que me espera, vou passar os dias nas estradas. Um amanhecer em cada lugar, um amigo em cada canto, um olhar de cada vez."

Voltei a Passo dos Ausentes sentindo o cheiro da uva recém colhida dos parreirais. Comprei na beira da estrada dois cestos de vime cheios do bom fruto.

Volto mais leve - e menos só - depois de ter conversado com Claudionor.
 

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Todo vivente carrega

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto. Paredão de basalto. Serra dos Ausentes
 


Todo vivente carrega
seu fardo de solidão
nas entranhas

cheiros rudes no corpo
primaveras esquecidas
na caduquice
da memória

se eu prossigo
no caminho
não se iludam
é pura teimosia

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Poema do livro Claridade, de Jorge Finatto. Prefeitura Municipal de Porto Alegre, 1983.
 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A solidão segundo Heitor dos Crepúsculos

Jorge Adelar Finatto 
 

photos: j.finatto


Somos poucos e invisíveis. Habitamos os Campos de Cima do Esquecimento.
 
O outono amadurece nas ruas da velha cidade. É quando, no silêncio de antigos retratos, as imagens ganham vida própria e passam a viver outra existência. Um certo rumor habita o silêncio.

O fantasma-mor de Passo dos Ausentes diz que desistiu de aparecer e desaparecer no ar feito nuvem de neblina. Heitor dos Crepúsculos afirma que o motivo é simples: a canseira que isso lhe dá.

- Materializar-se, desmaterializar-se, não apenas cansa, como é parte de um formalismo que perdeu a razão de ser neste lugar, - declara.

- É um ritual desnecessário em Passo dos Ausentes, onde todos padecem do fenômeno da invisibilidade. A cidade e seus habitantes nem ao menos figuram no mapa do Rio Grande do Sul, - constata Heitor.

O nosso lugar no universo é um mistério.
 
Somos personagens de um mundo em extinção.

A cidade não existe oficialmente, apesar dos inúmeros pedidos nesse sentido feitos ao Estado ao longo do tempo, todos denegados. E, no entanto, somos uma das cidades mais antigas da Província de São Pedro. Surgimos logo depois da destruição da Missão de São Miguel Arcanjo pelos exércitos de Espanha e Portugal. Essa história já abordamos no documento A cidade perdida: as origens, neste mesmo espaço.


As pessoas nada sabem da nossa cultura, das nossas origens, do nosso sentimento, da nossa história.

Vivemos isolados. Em parte devido às difíceis condições de acesso pelas encostas das montanhas. Também influi o fato de sermos uma pequena comunidade com cada vez menos habitantes. Um outro aspecto tem a ver com a indiferença dos governantes e dos meios de comunicação, que só vêem o que lhes interessa.

Simplesmente não nos vêem, não nos conhecem, não nos sentem.

A Sociedade Histórica, Literária, Filosófica, Geográfica, Artística, Geológica e Astronômica de Passo dos Ausentes, presidida pelo filósofo Don Sigofredo de Alcantis, decidiu incluir Passo dos Ausentes na carta estelar da constelação de Atlântida, como forma de melhorar a nossa autoestima. É onde hoje figuramos no universo.

De certo modo Heitor tem razão de abandonar certas formalidades fantasmagóricas na Terra dos Ausentes. Anda pelas ruas como um de nós. Ninguém estranha.

A única norma fantásmica da qual Heitor não abre mão é a que diz respeito a jamais deixar-se fotografar. Isso, segundo afirma, seria expor-se demasiado, até mesmo para um fantasma com costumes e idéias liberais como ele.

O lugar preferido de Heitor dos Crepúsculos, na verdade, são dois.

Um deles é o Café Somos Poucos, um recanto aprazível, com gerânios nas janelas, perto da Praça do Esquecimento. Ali se pode tomar o delicioso cappuccino dos suspiros, acompanhado do inefável sonho do oblívio.

Heitor senta-se no fundo do café. A pequena mesa fica ao lado de uma janela que tem sempre metade da veneziana fechada, a seu pedido.

- Gosto de ficar aqui lendo, é o meu ponto de observação das palmeiras, da estrada de ferro e das ausências que povoam esse não-lugar - observa.
 
O outro lugar de Heitor dos Crepúsculos é a velha estação de trem abandonada. Está desativada desde 1951. A antiga maria-fumaça permanece na gare, como nos tempos dos trens de passageiros. Mas nunca ninguém mais viajou como antes.

Dos Crepúsculos aparece na estação, nas tardes cinzentas, pra conversar com seu amigo Juan Niebla, 86 anos, músico cego que toca bandoneón pra alegrar os invisíveis passageiros que não chegam mais. Niebla, apesar disso, não abandona o cargo público para o qual fez concurso e foi nomeado aos 15 anos, em 1927, ficando cego logo em seguida. Permanece no seu posto aguardando a volta do trem de ferro.
 
- No dia em que o trem voltar a nossa cidade, subindo as íngremes montanhas outra vez, estarei aqui para receber os viajantes - diz ele.

Às vezes, Niebla e Heitor saem a caminhar sobre os dormentes até desaparecer na névoa que aqui em Passo dos Ausentes é permanente. Em certas ocasiões, Heitor faz movimentar a maria-fumaça e eles saem em breves passeios pelo caminho dos pinheiros, na margem sinuosa do Rio da Ausência.


O trem, que nunca mais desceu os temerários paredões de basalto da Serra dos Ausentes, contorna perigosos peraus nas cercanias da cidade, descortinando ao longe uma das mais belas vistas do planeta. O trem fantasma depois volta para seu lugar na estação.

Numa de nossas conversas, Heitor dos Crepúsculos confidenciou o quanto a solidão lhe pesa no coração.

O fantasma gosta de me visitar, nos dias de chuva, no escritório, vestindo o negro capote.

- Como já disse uma vez, um fantasma só se torna fantasma porque ama a vida e não aceita volatilizar-se em definitivo. Sonha a impossível permanência entre os vivos. Sempre me sinto sozinho, o que não é de espantar para alguém que se matou, num momento de bobeira, aos 27 anos. O anoitecer é o pior momento do meu dia. Queria ter sido uma pessoa mais leve, mais feliz, com mais fé. O que se há de fazer?
 
Continua Heitor:

- À noite é quando fica mais escuro dentro da minha alma. Saio a me procurar pelos corredores, escadas e sótãos do meu ser abandonado. Sinto essa falta de ser que sempre me acompanhou. Durmo por exaustão, é como cair num poço. É estranho como certas ausências nos acompanham pela vida e atravessam o umbral conosco.

- A noite me invade e me desconcerta. Esse frio e esse vento me habitam. Vivi, vivo (modo de dizer) no chapadão dos Campos de Cima do Esquecimento. Um tempo sem relógios.
 
- Os dias caem do calendário como as folhas no outono.

- Nasci em Passo dos Ausentes, aqui me criei. O meu melhor amigo sempre foi Juan Niebla. Não me evita como os outros.

Niebla costuma dizer:

"Pra mim, nunca morreste, Heitorzinho. Não sei se és um fantasma como dizem, nessa altura pouco me interessa. Se fores, tanto faz. Sou músico e sou cego, moro nessa lonjura, um pouco fantasma também. O importante é que me visitas. Como vês, aqui na estação tudo é muito solitário. Sou eu, meu bandoneón e este banco. Ainda bem que estás por perto.
 
"Acho que somos todos uns desarraigados neste mundo, uns pobres coitados, cada um traz o irremediável dentro de si, só que uns escondem melhor o desamparo do que os outros."

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Texto publicado em 15 de março de 2010, ora revisto. 

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Série Retratos 10 (Uma cidade pela frente)








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photo: Jorge Finatto
Guaíba com Porto Alegre ao fundo. Vista a partir do clube Veleiros do Sul.
Pedidos de cópia ou reprodução podem ser feitos ao autor pelo e-mail j.finatto@terra.com.br
 

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

A inesperada bromélia

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto
 

Conheci uma bromélia que me fez sonhar. Nos encontramos por acaso na floricultura. Estava de passagem, fazendo um descanso em meio à viagem de Porto Alegre a Passo dos Ausentes.

Não tinha idéia de levar uma planta comigo. Queria só animar o coração entre as cores e aromas do ambiente floral.

Quando a vi no vaso cor de alumínio, na estante em minha frente, fiquei encantado.

Tenho no quintal de casa muitas bromélias. Em geral são plantas bonitas e algo ásperas. É uma beleza serena, sem ostentação de vaidade.

A bromélia estava lá diante de mim, com uma delicadeza de forma e uma cor rosa como poucas vezes vi. Carregava no corpo duas flores lilases. Olhei-a durante um certo tempo, apreciando a harmonia estética que dela emanava.

Percebi que não poderia seguir viagem sem a bromélia. Ficaria me torturando depois.

Não é sempre que a maravilha acontece na vida da gente. Quando isso ocorre, não devemos aprisioná-la de modo egoísta, mas é justo querer mantê-la por perto o tempo que for possível.

A pequena bromélia está agora comigo no escritório. Estamos felizes porque estamos vivos e juntos, nessa reunião silenciosa e delicada de livros e plantas.
 

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Fados de Lisboa

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto. Bairro Alto, Lisboa
 

O fado é uma música boa de ouvir, cantar e recordar. É uma das razões que me fazem gostar de Lisboa, perambular pelas ruas do Rossio, da Alfama, do Chiado, do Bairro Alto e da Mouraria.
 
Nesta época de frio em Portugal, é bom comer castanhas quentes vendidas nas ruas em cones de papel. E visitar cafés como o Martinho da Arcada, inaugurado em 1782, na Praça do Comércio, à beira do Tejo.

Nele Fernando Pessoa escrevia, recebia amigos, bebia, comia, ficava só. Ainda hoje sua mesa está lá, sempre com uma flor no vaso que a enfeita. O Martinho é monumento nacional português e tem em sua direção a pessoa gentilíssima e especial que é Antóno Souza. Além de oferecer o melhor da cozinha portuguesa, é importante referência em eventos culturais.


photo: j.finatto


Há uma certa melancolia na alma portuguesa. E há também ternura, calor, esperança. Nenhuma arte fala disso tão bem como o fado.

O fado são as marcas deixadas no coração de alguém que viveu, amou, se emocionou, sofreu e não desistiu do sentimento.

Amália Rodrigues está para o fado como Fernando Pessoa para a poesia. São dois expoentes que mostraram ao mundo o modo de ser e de sentir português.

Nos últimos dias tenho ouvindo discos de jovens fadistas. Katia Guerreiro, Ana Moura, António Zambujo, Mariza, Dulce Pontes, Camané, entre eles. Essa geração de artistas dá novos ares ao gênero, sem virar as costas para a tradição.

Existe uma renovação em curso nas letras das músicas, que expressam uma visão de mundo atual, e no uso de outros instrumentos e também no jeito de cantar.

Não posso estar em Lisboa por agora. Sinto falta das noites passadas na Tasca do Chico, no Bairro Alto, a beber um vinho e ouvir o fado. Me transporto para lá nas asas das canções.

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Alma de fadista:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2011/11/alma-de-fadista.html

Fado, um modo de sentir o mundo:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2011/11/fado-um-modo-de-sentir-o-mundo.html

A pátria da língua portuguesa:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/01/a-patria-da-lingua-portuguesa.html
 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Heráclito e o espelho

Jorge Finatto
 

photo: j.finatto. vôo sobre o Guaíba
 

Heráclito de Éfeso (540 - 480 a.C) disse que ninguém entra ou se banha no mesmo rio duas vezes. Na aguda percepção de pensador, que não só pensava como vivia o pensamento, tudo muda incessantemente, o homem, o rio e todas as coisas.
 
Para o filósofo, tudo está em movimento. O mundo é a unidade dos opostos. Dia e noite, sol e chuva, doença e saúde, agudos e graves, macho e fêmea, inverno e verão, guerra e paz fazem parte de um todo. Um só existe diante do seu contrário. 
 
Heráclito acredita, porém, que um pensamento sábio governa tudo. Há uma justiça no cosmos que orienta o destino dos seres e dirige a vida. Os eventos ocorrem na hora certa.
 
Nós não somos sempre os mesmos, mudamos. O nosso corpo muda constantemente através das células, o pensamento ganha altura por meio da contemplação, da meditação e da ação.

Esperemos, digo eu, que as mudanças nos levem a ter mais sabedoria e mais bondade (que a maldade, o seu oposto, está sempre de prontidão e agindo).
 
O rio não é o mesmo. O tempo escorre, eterna mutação, a alteridade sempiterna das águas, o vôo premonitório das aves.
 
Nada é o mesmo. Não paramos de mudar. Só na morte não há transformação. O outro que vai ali adiante sobre o antigo esqueleto somos nós.
 
Às vezes, diante do espelho, pergunto quem é aquele que me observa do outro lado. Será mais feliz do que todos os que vieram antes dele? Estará mais só? Será mais humano?

Ninguém se vê duas vezes do mesmo modo no espelho. É sempre outro que está lá.
 
Essa manhã ele nem sequer me olhou nos olhos. Tomou café, escovou os dentes, fez a barba automaticamente, passou a mão nos cabelos e foi por seus caminhos. Passou o dia distante de mim. Longe, longe. Um perfeito estranho mora no espelho. 
 
Num momento em que ele se distraiu, olhei através da janela do gabinete e vi um pássaro atravessando o céu sobre as águas do Guaíba.

E vi belas nuvens brancas cruzando o rio. À medida que passavam, sua forma, sua cor e seu interior foram mudando, até que veio a chuva. O outro sentiu desalento. Eu fiquei feliz, porque a chuva me dá felicidade. Sim, felicidade.
 
É impossível deter esse rio, essas nuvens, esse pássaro, esse outro que me escapa no fundo do espelho e teima em me levar por caminhos onde não quero ir.

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Dados sobre Heráclito em Dicionário dos Filósofos. Denis Huisman. Livraria Martins Fontes Editora Ltda. São Paulo, 2004.
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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Série Retratos 9 (cais de Porto Alegre)

 
 




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Autor da photo: Jorge A. Finatto
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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Queremos a eternidade perdida de volta

Jorge Adelar Finatto
 

photo: j.finatto
 
 
Eu tinha muitas coisas para te escrever, contudo, não quero estar escrevendo com tinta e pena. Espero, porém, ver-te logo, e havemos de falar face a face. (A Terceira de João, 13, 14)
 
A nossa passagem pela vida não se eterniza senão através da palavra escrita. Afinal, é a arte, por enquanto, a única eternidade de que dispomos.

A obra do escritor e do artista é essa tentativa de resposta à imensa interrogação que nos envolve.

Estamos soltos e sozinhos no cosmos a bordo do pequeno planeta azul. E não temos nada além da promessa de Deus para nos resgatar e livrar do buraco negro do esquecimento.

Queremos a eternidade perdida de volta.
 
A palavra anda à procura de transcendência, de algo vivo e duradouro, alguma coisa que não se perca, que nos livre do peso das horas e do vórtice da transitoriedade.

Escrever é uma maneira de afirmar que a morte não terá a última palavra.

O texto olha os seres, suas histórias e sentimentos. 

Para isso foram criadas as palavras, para essa eternidade de papel e tinta, para essa busca do encontro.
  
Levantar todos os dias, folhear um livro, olhar a cara no espelho, sair de casa, ir à vida, é um ato de enorme coragem.
 
Qualquer texto, poema, romance, conto, diário, anotação no guardanapo, no caderno ou na tela do computador, tenta salvar o instante que passa.

Escrevemos e lemos enquanto não se realiza a promessa.
 

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Amor

Jorge Adelar Finatto


 
Amor, filme do diretor e roteirista austríaco Michael Haneke, coloca em discussão os limites de alguém que se torna cuidador de uma pessoa inválida. E o próprio sentido de viver daquele que é cuidado em condições de invalidez. Com excelentes desempenhos de Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva, a obra é uma das candidatas ao Oscar de melhor filme deste ano. As premiações serão conhecidas em 24 de fevereiro próximo e adianto que Amor já tem o meu voto.
 
Saí do cinema com a sensação de ter sido atropelado por um trem. Chocado por ver até onde pode chegar o desespero das pessoas diante de uma situação em que a doença muda completamente a vida para pior. O nosso despreparo em lidar com a dor, o sofrimento e a iminência da morte é enorme.

No caso do filme, um casal de professores de música, ambos aposentados, vê-se diante da doença da mulher. De repente, Anne sofre um derrame, um lado do corpo fica paralisado. A paralisia é progressiva, chegando ao ponto de não poder mais fazer nada por si, passando a depender em tudo do marido Georges.

O casal, na faixa dos 80 anos, foi companheiro por décadas, partilharam a vida, a profissão e a família (tem uma filha casada e netos). Amor propõe o problema de como enfrentar a doença de uma pessoa querida. Georges recusa-se a internar Anne, passa a assisti-la integralmente, com o auxílio eventual de uma enfermeira (conto só o início da história e paro por aqui).

O grande mérito do filme, a meu ver, é trazer à reflexão as diferentes maneiras de encarar esta situação.
 
Os avanços da medicina fazem com que se viva mais hoje. Algumas doenças não matam como antes, a vida é prolongada. Às vezes a pessoa sobrevive com prejuízos da saúde mental (sai do ar ou passa por períodos de ausência) e física, necessitando de atenção permanente. O que fazer?
 
Alguns optam por "terceirizar" os cuidados, pagando uma clínica ou hospital. Para quem tem dinheiro e não quer "se incomodar" é o mais cômodo, sem dúvida. Paga-se e está tudo resolvido. Será?

Anne fez o marido prometer que não iria colocá-la no hospital e ele atendeu. A partir daí entram em cena questões éticas e práticas.

O fato é que, se hoje vivemos mais do que antes, precisamos estar preparados para cuidar uns dos outros em caso de doença. Mas em geral ninguém está.

A sociedade na qual vivemos, embalada pela publicidade, funda-se no ideal do consumo sem limites e da felicidade eterna. As aparências valem mais do que tudo (vide a maior parte do que se publica no facebook, as caras e bocas das fotografias, etc.), acredita-se ou finge-se acreditar que viver passa sempre longe da dor.

A vida, nessa visão de pouca valorização do humano, deve ser só prazer, glamour, crescimento individual, conquistas, realizações, viagens, sexo, bem-estar total e constante. Não se vê o sacrifício em prol do outro como uma possibilidade. Todo limite ao prazer precisa ser afastado, qualquer sofrimento, escondido.
  
A tendência predominante diante do infortúnio é de querer terceirizar os cuidados com a doença. Mas até que ponto isso é eticamente aceitável? O amor, a ternura e o respeito acabam quando se apresenta o tempo mau?

Penso o seguinte, na busca de possíveis respostas.

Se eu amo fulana(o), se vivi com fulana(o) a maior parte da minha vida, se tive filhos com fulana(o), se viajei e fui feliz com ela(e), se juntos construímos uma história, uma família, um patrimônio, é razoável abandonar fulana(o) quando ela(e) adoece e não pode cuidar de si mesma(o)? E quando fulana(o) não me reconhece mais, porque a doença me apagou de sua mente? Fulana(o) não será mais fulana(o) por isso, devendo ser descartada(o) da minha vida?
 
Fulana(o) ainda é fulana(o), só que agora doente. A consciência diz que devo fazer tudo ao meu alcance para cuidá-la(o). É o mínimo ético no caso. Vai ser difícil, a vida vai ficar duríssima, a alegria vai diminuir muito, mas faz parte da nossa condição. Vou buscar ajuda, principalmente na família, para manter a pessoa em casa.
 
Um dia, talvez, eu serei o fulano e não gostaria de ser abandonado, "suicidado" ou simplesmente assassinado "por amor", tendo em vista as minhas notórias limitações. Porque enquanto houver um sopro de vida e consciência pretendo continuar vivo, tentando prosseguir.

Haverá situações em que alguém não poderá ser cuidador, por impossibilidade física, emocional ou material. Aí a solução será diferente, provavelmente com hospital ou clínica.
 
Falar é fácil, eu sei. Fazer é outra história. Não existem soluções prontas. Estou apenas pensando e sentindo alto com você, raro leitor.

Mas não me entra na cabeça saltar fora da carroça no momento em que o outro torna-se o doente ou o demente da relação. Sempre lembrando que posso vir a ser o outro do outro.

Viver e amar é mais que um anúncio de bebida, lingerie, automóvel ou férias numa praia paradisíaca. E mais belo também, apesar de tudo.

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A fita branca, outro filme de M. Haneke, trata das origens do nazismo:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2010/05/as-origens-do-nazismo.html

Jean-Dominique Bauby:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2010/04/o-prisioneiro-do-escafandro-e-o-bosque.html 

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Escrito do amor perecível

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto. São Francisco de Paula
 

Poderia jurar amor eterno à pequena borboleta que agora cruza a beira do lago. Ela carrega no coração, como eu, a melancolia antecipada da partida iminente do jardim.

Está escrito que nosso tempo é breve. Teremos de deixar o jardim que tanto amamos. E não sabemos o que nos espera além dele. Talvez exista um outro jardim depois desse.
 
Levaremos a saudade dos dias vividos entre as flores, as fontes, os córregos, as árvores. Não concordamos, claro, com dias assim tão escassos. Mas o que fazer? Nosso coração pulsa nas têmporas.
 
Os dias ruins e a rotina nunca nos tiram a vontade de viver. 
 
A borboleta escreve minúsculos bilhetes que vai soltando ao vento. Amamos as magnólias, as rosas, as nuvens e os hibiscos.

Escreveu a borboleta estas palavras na folha de um plátano:

Eu só queria mais um dia para estar no jardim e dizer do meu amor a cada um dos seus habitantes. Quero que ao menos recordem de mim quando lerem estas palavras.

Lembrem meus voos silentes e suaves. De como amei o farelo, o miúdo da vida.

Estou prestes a deixar o jardim e isso me dá tanta tristeza.

Quero deixar escrito este amor perecível.

Antes de cair e secar no chão.
 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Os desolados

Jorge Adelar Finatto

 
photo: J. Finatto

 
As manhãs fogem do escuro.

A solidão é um negro capuz que se veste nos retirados da dor.

Tive medo de ver os escombros. Os difíceis haveres do abandono. Havia uma mulher chorando naquele breu. Quem? Não divulguei.

O coração humano gira em estranhos círculos. O traçado torto da vida. Quem puder se segure, senão cai no perau. Eu, quando escuto gente chorando, sinto névoa andando à volta.

Coisas que vi. Meu coração barroco. Aquele choro me doeu. Mas eu fui. Foi quando meus olhos divulgaram ela. A mulher era uma visão sob a pérgula. Eu não sabia o que era beleza até aquele quando.

Estava sentada num banco de pedra ao lado de uma camélia vermelha, perto da fonte. Havia uma escada com seis degraus que terminava no ar. Ligava parte alguma a lugar nenhum. A casa desmoronada no íntimo da pessoa.

A mulher, sua triste alma, aquela ruína. Me aproximei no cuidadoso jeito. Era uma tarde de junho como essa. O frio, frios.

A mulher - a visão - fez sinal para eu parar e esperar.

O que fiz nos respeitos. Ela se levantou, arrumou o vestido, olhou o céu. Entre as duas mãos largou a face e os cabelos de linho, depois seguiu sozinha. O tempo andou.

Eu vivia no lugar perdido, arrostando sol e vento, sem eira nem beira.

Os loucos dias no sanatório do mundo. Os ermos. Caminhos que se andam.

Um dia de fina luz de primavera ela veio em minha direção, pegou no braço meu. Caminhou, caminhamos. Em silêncio. Palavras que se dizem sem falar. Aconteceu a brilhante estrela caindo no meu caminho.

O punhal que me rasgava por dentro foi saindo, saiu.

Nos acolhemos, reunimos as raras pertenças.

Me tornei sentimento. Sentimentos.
 
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Texto publicado em 03/05/2010.
 

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Série Retratos 8



"A Catedral", escultura de Auguste Rodin (1840 - 1917)
Museu Rodin, Paris. photo: j.finatto



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Autor da photo: Jorge A. Finatto
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