segunda-feira, 11 de março de 2013

Série Retratos 13








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photo: Jorge A. Finatto
Pedidos de reprodução podem ser feitos ao autor pelo e-mail

sexta-feira, 8 de março de 2013

Adeus a Chorão


Lorenzo Finatto
 

Chorão, vocalista do grupo Charlie Brown Jr., em foto de 2005 - Roberto Setton

A notícia triste diz: 

O vocalista da banda Charlie Brown Jr., Alexandre Magno Abrão, o Chorão, morreu na madrugada desta quarta-feira em seu apartamento no bairro de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. Chorão tinha 42 anos e foi encontrado desacordado por seu motorista, segundo informações da assessoria da banda. A causa da morte ainda é desconhecida. A polícia foi chamada ao apartamento para fazer o trabalho de perícia e o corpo de Chorão foi levado ao IML na manhã desta quarta-feira para ser determinada a causa da morte. (publicada em http://veja.abril.com.br/noticia/celebridades/chorao-do-charlie-brown-jr-morre-em-sao-paulo)
 
Eu não era um fã da banda, tinha, mesmo, certo preconceito ao som que faziam – não achava bom o bastante. Fui “treinado” para pensar que nada menos do que Tom Jobim fosse digno de grande admiração. E, entre as bandas de rock brasileiras, Charlie Brown Jr. não estava entre as minhas preferidas.
Há uns 2 anos, porém, distraído, mexendo no rádio do carro, num desses engarrafamentos intermináveis no trajeto casa-trabalho, de repente ouço os seguintes versos:

Eu quero estar amanhã ao seu lado quando você acordar
Eu quero estar amanhã sossegado e continuar a te amar
Eu quero um sonho realizado, uma criança com seu olhar
Eu quero estar sempre ao seu lado, você me traz paz

Pronto. Distraído do meu preconceito, deixando rolar, como se diz, preocupado menos com parâmetros rigidamente estabelecidos e mais com o que o coração reclamava, me deixei levar.
Os versos da canção, composição do próprio Chorão (Uma criança com seu olhar, do álbum Ritmo, Ritual e Responsa, de 2008, EMI), me arrebataram. Dali em diante, passei a acompanhar de perto o grupo.
Daí minha tristeza profunda pela morte do artista.
Pelo que se pode concluir nesses primeiros momentos, o vocalista foi vítima de uma overdose de drogas. Outro jovem talentoso (não aparentava nem de longe os 42 anos, até pelo seu visual skatista) que vai embora cedo demais.
E isso numa sociedade como a nossa, em que a droga está enraizada quase que de maneira invencível. Uma pena, uma tristeza.

Eu quero um sonho realizado, uma criança com seu olhar / Eu quero estar sempre ao seu lado, você me traz paz.
 
Versos que Tom Jobim certamente abençoaria.

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Lorenzo Finatto é advogado em Porto Alegre.
Uma criança com seu olhar:

O habitante da casa de pedra

Jorge Adelar Finatto 


photo: j.finatto

 
O homem construiu em torno de si a difícil morada. Pedra por pedra, dia após dia. Era uma casa onde a tristeza e o sofrimento não podiam entrar. Os vizinhos da rua estranharam o tamanho daquela ausência.

Como podia alguém se retirar do mundo daquele jeito? A casa foi erguida em paredes de duríssimo basalto. Não tinha porta nem janela.

Às vezes o homem sentia saudades do mar e dos navios que passavam, à noite, com suas luzes no horizonte. Fazia muito frio na casa de pedra. O frio tomou conta do corpo do homem. Ele vivia os dias enrolado num grosso cobertor que o cobria do pescoço aos pés.

Não se ouviam passos nem vozes na casa de pedra. Nem gritos de alegria, nem choros.

Nos longes onde foi morar, o homem decidiu que não ia mais levantar da cama. Passou a dormir na maior parte dos dias. Raramente saía do escuro quarto. De tanto não sofrer, tinha se livrado da convivência com as pessoas.

Ninguém nunca conseguiu entrar na casa.

Uma certa tarde o homem adormeceu e sonhou com o mar. Viu os barcos coloridos na praia. Não havia ninguém na areia. Só as palmeiras olhando o azul. Ele não conseguia mais recordar nenhum rosto humano. Nem mesmo o seu, uma vez que tinha retirado todos os espelhos da casa.

A paisagem foi se apagando aos poucos, entre reflexos que pareciam o sol entrando nas águas. Naquela tarde o homem adormeceu pela última vez.

A espessa solidão se cumpriu.

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j.finatto@terra.com.br
Texto publicado em 17 de maio, 2010.
 

quinta-feira, 7 de março de 2013

Série Retratos 12





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photo: Jorge A. Finatto
Pedidos de reprodução podem ser feitos ao autor pelo e-mail
 

quarta-feira, 6 de março de 2013

O retrato de Iberê

Carlos Alberto de Souza

Retrato de Iberê Camargo, por Graça Craidy;
acrílica sobre tela, 2013

Nos estertores, ele encontrou forças e deu uma entrevista bombástica, criticando o mundo das artes. Não era homem de tocar nas coisas com a ponta dos dedos nem na hora da morte.
 
Na condição de jornalista, mantive contato com Iberê Camargo.

Evito dizer "conheci Iberê Camargo", porque poderia estar dando a ideia de uma relação íntima de amizade que não houve.

Volta e meia a redação do jornal de São Paulo pedia ao correspondente de Porto Alegre que ouvisse o artista sobre isto ou aquilo. As pautas não eram exclusivamente relacionadas com as artes plásticas.
 
Lembro que uma vez o pedido foi para ouvi-lo sobre controle de natalidade. Nunca esqueci a resposta: “É preciso costurar a boceta dessas mulheres”, disse ele, em alto e bom som, ao ruborizado repórter.
 
Acho que essa declaração revela um pouco da personalidade de Iberê. Ele era franco, direto, intenso, falando ou pintando. Não era homem de fazer média.
 
No livro de contos que publicou, No Andar do Tempo, ele próprio diz não ser homem de tocar nas coisas com a ponta dos dedos. Lembro ter visto essa frase estampada como epíteto em uma das paredes do Margs no dia do seu velório, em agosto 1994.
 
O historiador Décio Freitas, amigo do peito de Iberê, contou certa vez que o empresário Jorge Gerdau Johannpeter desejava ter um retrato seu de autoria do artista, depois de se entusiasmar com uma obra do gênero que encomendara tendo a sua mulher como modelo.
 
Iberê teria recusado a oferta do “rei do aço” sob a alegação de que seu rosto não lhe dizia nada, não lhe causava inspiração e que olhar para ele era o mesmo que olhar para um “ovo”.
 
Há mais de 20 outonos estive, a trabalho, na casa em que Iberê morou na Cidade Baixa. Era um sábado, a conversa foi no pátio para aproveitar a mornidão do sol da tarde. Havia um fotógrafo junto. Se a memória não falha era Achutti, que muito fotografou Iberê e sua obra, a ponto de editar o livro Iberê Camargo por Achutti.
 
No fim do papo, em meio às despedidas, Iberê me surpreendeu: “Aparece qualquer hora que vou fazer um retrato teu”. Quem não ficaria seduzido por esse convite?
 
Mas, constrangido, nunca apareci. E oportunidade não faltou. Como trabalhava no Centro, às vezes encontrava o velho Iberê caminhando pela Rua da Praia, anônimo no meio da multidão.
 
Em uma dessas vezes, metido em um casacão que lhe dava ares parisienses, queixou-se que um dos efeitos colaterais da medicação à qual estava submetido para combater o câncer era a falta de saliva, e mostrava a boca tão seca quanto a sua Restinga natal. Esses encontros eram fortuitos, mas havia afetividade neles.
 
Estive na casa de Iberê no bairro Nonoai, onde ele também tinha o ateliê, nos seus derradeiros dias. Lembro do abatimento de sua mulher, Maria, e da filha.

Nos estertores, ele encontrou forças e deu uma entrevista bombástica, criticando o mundo das artes. Não era homem de tocar nas coisas com a ponta dos dedos nem na hora da morte.
 
Em poucas pinceladas, pela superficialidade da relação que mantive com ele, pinto esse quadro de Iberê, mantendo na memória o que ele pintou de mim naquele sábado outonal, apesar de nunca tê-lo executado por indesculpável omissão do modelo.
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Carlos Alberto de Souza é jornalista em Porto Alegre.
smcsouza@uol.com.br
Graça Craidy é publicitária, professora, escritora, artista plástica. Mantém o blog:

segunda-feira, 4 de março de 2013

Escritores fantasmas reúnem-se em Passo dos Ausentes

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


Uma tapera solitária, à beira da ruína, será o local de reuniões do Congresso dos Escritores Fantasmas de Língua Portuguesa, a realizar-se nos primeiros dias do outono em Passo dos Ausentes.

O evento é uma das principais atrações culturais dos Campos de Cima do Esquecimento, ao lado do festival Música do Fim do Mundo, que acontece em junho, e do Teatro Kabuki na Névoa, em novembro. A sessão de abertura ocorrerá no dia 22 de março próximo.

O fantasma de Fernando Pessoa está entre nós. Foi o que declarou ontem Heitor dos Crepúsculos, poeta suicida, assombração-mor da cidade, organizador do conclave. Disse, ainda, que o bardo português é o anfitrião designado para o congresso. Também já chegaram os fantasmas de Oscar Wilde, Rainer Maria Rilke e Bashô, convidados especiais que serão homenageados nesta edição.

Estão todos hospedados na pensão Ao Viajante Solitário, com ampla vista para o Vale do Olhar. O atual administrador do estabelecimento, António Alto da Noite, afirma que os fantasmas literatos não são maus hóspedes:

- Não comem nem bebem nada. Não usam o banheiro nem tomam banho. Em geral fazem silêncio. Às vezes arrastam móveis, principalmente nos dias de chuva (neste lugar chove pelo menos uma vez ao dia). Materializam-se a qualquer momento, mas não costumam demorar. É gente de sossego, leitura e sentimento. São estranhos, claro. Mas cada um no seu cada qual. No café da manhã, sentam-se calados ao redor da mesa, olhando um ponto invisível à frente. De repente, desaparecem. É o jeito deles.


fachada da pensão Ao Viajante Solitário.
photo: j. finatto


A solidão da escrita será um dos temas do encontro, que terá ainda a leitura de textos pelos próprios autores na biblioteca da cidade, programa aberto ao público.

Mocita de La Vega, diretora da biblioteca e única funcionária, organiza o Salão dos Passos Perdidos para receber os poetas, escritores e convidados. Está tirando o pó dos móveis e livros e organiza o fichário, um tanto abandonado nos últimos 30 anos devido à falta de leitores (a população reduziu-se pela metade, a juventude não fica mais aqui). A diáspora dos ausentes.

Revelou a bela bibliófila que, ao passar o espanador numa mesa, ficou surpresa ao ver o fantasma do poeta Rilke sentado na poltrona diante da janela dos vitrais roxos. Vestia casaco e calça de lã cinza-escuros e uma gravata lilás sobre a camisa branca. 

Ao ser descoberto, o poeta de Praga descruzou as pernas, esboçou um meio-sorriso e, levantando-se, convidou-a pra dançar. O vate das Elegias de Duíno segredou-lhe coisas à concha do ouvido. Um perfeito sedutor na palavra escrita como na falada, segundo Mocita. E saíram os dois a rodopiar entre as estantes, sob os lustres de cristal, bailarinos de um tempo fora do tempo, ao som de uma inaudível melodia sentimental.

Heitor dos Crepúsculos, acolhedor-geral do encontro, é a alegria em pessoa nos últimos dias, voa de um lado para outro, toma mil providências, fazendo esvoaçar sua echarpe cor-de-rosa. Materializa-se e desmaterializa-se com grande animação em toda parte, deixando no ar um pó branco cintilante.

Quando menos se espera, Dos Crepúsculos aparece sobre a copa de uma árvore estendendo um tecido de seda. Outras vezes, espalha bandeirinhas coloridas nos portais das casas ou desfiando novelos de lã em torno dos bancos da Praça da Ausência. Todos notamos um certo exibicionismo da parte de Heitor, mas afinal é o momento dele. E fantasmas são, por natureza, exibidos, do contrário não seriam fantasmas.

Passo dos Ausentes engalana-se para receber os voláteis escrevinhadores. Até jornalistas do Japão estão chegando para acompanhar o fantasmagórico evento.

Desde que a cidade foi fundada por alguns padres jesuítas e famílias de índios guaranis sobreviventes do massacre de São Miguel das Missões, em 1756, não se via tanto entusiasmo por estas bandas.

O blogue acompanhará de perto o congresso, que já tem confirmadas as palestras de Machado de Assis, Lima Barreto e Eugénio de Castro. A programação completa bem como o nome dos participantes serão divulgados nos dias vindouros.

Um painel que promete, segundo alguns comentam, é aquele sobre os escritores mortos-vivos, isto é, os que estão vivos mas não têm leitores. Cerca de 1.200 mortos-vivos já se inscreveram para este dia. A este respeito, assim se manifestou Heitor dos Crepúsculos:

- A parte do esquecimento que nos cabe, nesse mundo de ruidosas vaidades e egos exacerbados - o velho mundinho da literatura -, é pequena se comparada à dos escritores mortos-vivos. Nós, pelo menos, não temos contas pra pagar nem espelho em casa.

domingo, 3 de março de 2013

Relâmpago Basquiat*


Jean-Michel Basquiat, sem título, 1981.
Direitos: The estate of Jean-Michel Basquiat.


*Texto do escritor espanhol Antonio Muñoz Molina, publicado no caderno Cultura do jornal El País, nesse sábado, sobre Jean-Michel Basquiat:

http://cultura.elpais.com/autor/antonio_munoz_molina/a/

sábado, 2 de março de 2013

Um amor

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


La speranza di pure rivederti
m'abbandonava.
                         Eugenio Montale


No mais remoto deserto
- o sal e o labirinto do tempo
amadureço o poema

E parece que para encontrar-te
tinha de perder-te um dia

Colho no caminho as pétalas
da rosa que não te dei
e distraída desfolhaste


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Poema do livro O Fazedor de Auroras, JAFinatto, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990
A esperança de ver você de novo me abandonava, tradução livre do verso de Montale.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Peixe vivo

Jorge Adelar Finatto 
 
photo: j.finatto. Rio Guaíba
 

Em 1975 eu tinha menos de 20 anos, o coração batia no escuro e nada estava perdido.

Carregava comigo alguns poetas mortos. A palavra estava viva.

Esse tempo ficou adormecido como um pôr-do-sol no fundo do rio.

O tempo era noite calada.

A ditadura maltratava os corpos e o pensamento, a livre circulação da emoção, das idéias. Manchava com tarjas pretas a verdade nas bocas e nos jornais.

Mas havia gente que não desistia.

Os pássaros resistiam na praça.

Escondida como um segredo, havia uma rua quieta com perfume de açucena.

Eu trazia na alma a felicidade de estar vivo. Perdoai.

Existia um certo olhar, um cabelo em cacho nos ombros, uma saia azul adolescente. Esse olhar e esse cabelo inventavam um jeito de ser feliz. Habitavam um lugar claro na escuridão.

O Guaíba fazia o trabalho de levar nossas lágrimas para o mar em negros cargueiros.

Havia eu estar vivo e ter menos de 20 anos.

Havia aquela estrela brilhando na minha vida, apesar das bombas de gás lacrimogêneo, das prisões, dos desaparecimentos, do medo.
 
Coração aberto, peixe vivo.

O azul e branco do céu desenhado nas águas e naqueles olhos.

Um peixe voava entre as nuvens. Perdoai.

Sobrevivi àquilo em secreto, como quem descobriu um tesouro na ilha de pedra enquanto a cidade dormia.

Existia o rio, seu caminho largo para o sul em direção ao oceano.

A luz amarela do sol escorria entre as folhas e os galhos da Praça Dom Feliciano. Lilases habitavam as flores dos jacarandás.

Havia uma promessa de primavera. Eu tinha menos de 20 anos.

De passo em passo o tempo se cumpria. De mão em mão a manhã se erguia.

Não era ainda a primavera o que se via, mas um rascunho de flor no gradil da janela.

O coração colado à esperança.

Tinha o rio no fundo daqueles olhos, o horizonte de mar, o líquido azul infinito.
 
O sentimento navegava ao largo da cidade, seus medos e seus mortos.

O tempo era noite calada.

Tinha menos de 20 anos, a vida saltava feito peixe vivo.

A estrela brilhava em meu caminho. Perdoai.
 
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Texto publicado em 22 de dezembro, 2009 (primeiro texto do blog).
 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A hora do beija-flor

Jorge Adelar Finatto

beija-flor com névoa. photo: j.finatto
 
Observando com atenção, há um beija-flor na ponta do ramo de magnólia. Ele está pousado no galho pensador, os olhos semicerrados, pensando na sua vidinha. Um momento de pausa no seu dia. Ninguém é de ferro.

Há de ter lá os seus compromissos o beija-flor, uma casa pra voltar, filhos pra criar, contas a pagar, preocupações de quem vive neste mundo difícil.

Mas nesse momento ele precisa ficar sozinho e em silêncio. Precisa disso pra saber quem ele é. Porque, às vezes, na dura faina da sobrevivência, a gente esquece quem é.

A nossa face perde-se na multidão. Um estranho passa a viver através de nós.

Na maior parte da vida cumprimos deveres, tarefas, horários, saímos e chegamos apressados, dormimos sonos interrompidos por relógios e pesadelos, sonhamos um sonho alheio, corremos todo o tempo até a exaustão, e agradecemos por não perder o emprego nem levar um tiro.

Austeras solidões nos habitam. Rígidos papéis nos aguardam todos os dias, implacáveis, inadiáveis.

O mundo espera que ponhamos a máscara de granito ao nascer e não a retiremos nunca mais. Haja Deus!
 
No caso do beija-flor, querem que ele seja sempre e eternamente a mesma ave descrita nos manuais: apodiforme, penas pequenas, úmero robusto e cúbito curto, que se alimenta do néctar das flores e de insetos minúsculos. Igual a milhões de outros beija-flores que vivem no planeta, também conhecidos por nomes estranhos como binga, chupa-flor, chupa-mel, cuitelo, guainumbi, pica-flor. E por aí.

O beija-flor personagem deste texto tem vida interior, seus próprios sonhos e pensamentos, não quer ser igual a nenhum outro existente no mundo.

No fundo, é um poeta o nosso beija-flor. Passa o dia procurando quintais, praças e jardins, não só para alimentar-se, mas para fugir dos predadores e da loucura das pessoas, e para ter um momentozinho de contemplação.

Sim, a nossa pequena ave interioriza-se para poder melhor observar as coisas e os seres, senti-los, talvez escrever alguma coisa.
 
Agora, calado e enovelado em si mesmo, no repousante galho da magnólia, o que o beija-flor quer é ficar só, distante, tentando reunir os fragmentos, reconstruir-se com o que sobrou (se é que ainda existem asas e cores suficientes do pássaro que um dia ele foi), longe dos olhares intrujões, das mesquinharias cotidianas e do fotógrafo abelhudo.

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Heráclito e o espelho:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/02/heraclito-e-o-espelho.html
Texto revisto, publicado antes em 27 de fevereiro, 2013.
 

Série Retratos 11




 
 
 
 
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photo: Jorge A. Finatto
Cais da cidade de Rio Grande
Clique sobre a imagem
Pedidos de cópia ou reprodução podem ser feitos ao autor pelo e-mail j.finatto@terra.com.br
 

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Um poeta chamado Antônio Carlos Arbo

Carlos Alberto de Souza


Antônio Carlos Arbo. photo: acervo da família
 
 
O mistério dos quintais
 
Existe um mistério
No fundo dos quintais!
Ainda mais
Nos quintais
De casas muito antigas...
Deve ser a alma da infância
Que ficou presa ali
- qual balão cativo -
Esvoaçante no tempo...

Nascido em Palmeira das Missões em 1935, o menino cresceu no velho casarão que abrigou seus pais e avós. Ginasiano, estudou em Cruz Alta e Passo Fundo; no Clássico já estava em Porto Alegre, onde avançou para as Artes Dramáticas, na UFRGS. Foi editor de texto da Cia. Cinematográfica Wilkens Filmes. O percurso revela tratar-se de um homem em busca de realização, dotado de sensibilidade, ligado às letras.
Antônio Carlos Arbo radicou-se em Santa Maria em 1965. Realizou o sonho de trabalhar na então recém-fundada UFSM. Depois de passar por vários setores, fixou-se como jornalista da instituição. Atuou na Rádio Universidade e paralelamente na TV Imembuí. Já casado com a sua Yolanda, teve os filhos Negendre, Dimítri e Marjoleine. Quando na adolescência os filhos homens formaram o Quintal de Clorofila, compunha com eles, exímios instrumentistas.
Mudanças de casa também servem para encontrar perdidos que são um achado.

Eis que recupero, depois de muitos anos, Tempoema (Imprensa Universitária – UFSM – 1979), livro de Antônio Carlos Arbo, com uma dedicatória: “Uma lembrança do primo e colega de profissão, 19-03-80”.

Não lembro o ano em que, ainda jovem para os padrões atuais, Antônio Carlos morreu. Penso em investigar. Desisto. Faz de conta que ele ainda vive. E de fato vive nas coisas belas que legou, como, por exemplo, O mistério dos quintais (dedicado a Mario Quintana) e A viagem.

A viagem

O pó levanta dos meus passos
Sem destino,
Do andar, andar, no quarto quente.
O calor podre desprende um ar
Viscoso e irrespirável,
Como o fundo de um lago de petróleo...
E as malas estão ali,
Recebendo o pó de minhas viagens
Circulares ao redor de mim mesmo.
Elas foram feitas para partir
Mas estão ali
Inertes à espera do viajor.
Somente os passos viajam
E o pó levanta no quarto quente,
Enquanto o tempo viaja nos meus passos.

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Carlos Alberto de Souza é jornalista em Porto Alegre.
smcsouza@uol.com.br 
(A voz de Antônio Carlos Arbo recitando O mistério dos quintais:
http://www.youtube.com/watch?v=-aoYBcJrGWk)

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Os direitos humanos em Cuba

Jorge Adelar Finatto
 
 
Yoani Sánchez. Fonte:Wikipédia
 

As ditaduras são feitas de cadáveres e prisões. Não existe a figura do bom ditador.

Sejam de direita ou de esquerda, ditaduras são igualmente infernais. As pessoas da minha geração, que sofreram na pele a falta de liberdade e de perspectivas durante o período ditatorial brasileiro, sabem o que isso significa.
 
Depois de muitas e frustradas tentativas, a filóloga, jornalista e blogueira cubana Yoani Sánchez, nascida em 4 de setembro de 1975, conseguiu autorização para viajar para fora do seu país. Chegou ao Brasil há alguns dias, o primeiro país que visita.
 
Yoani é alguém com coragem para criticar o sistema político e social em seu país. Criou, em 2007, o blog Generación Y. Por conta disso, é perseguida. Não é inimiga de Cuba, pelo contrário. Quer mudanças, quer mais participação do povo e melhores condições de vida. Deseja, enfim, o que qualquer pessoa razoável sonha: uma existência melhor para todos.
 
O tratamento agressivo que Yoani vem recebendo no Brasil, por parte de alguns defensores do regime ditatorial cubano, é desrespeitoso não apenas com ela como em relação à sociedade brasileira, que não aceita o cerceamento à liberdade de expressão.

A visita da jornalista tem sido marcada por manifestações antidemocráticas e grosseiras contra ela, por parte dessa minoria extremista que nem de longe representa o povo brasileiro, por "ousar" criticar o regime.

Os irmãos Fidel Castro Ruz, ex-presidente, e Raúl Castro Ruz, atual líder político de Cuba, não se mostram dispostos a permitir a democratização e nem a rever a forma de tratar os opositores do regime de partido único (Partido Comunista de Cuba).

A Revolução Cubana, vitoriosa em 1959, liderada por gente como Fidel Castro e Ernesto "Che" Guevara, combateu a ditadura do general Fulgencio Batista, que, entre outras violências, tratava com brutalidade os inimigos políticos.

Uma vez no poder, os dirigentes cubanos repetem a intolerância contra os adversários.

Informações divulgadas ao longo das últimas décadas mostram que a revolução trouxe avanços, principalmente em áreas como educação e saúde. É um país pequeno, que tem hoje cerca de 12 milhões de habitantes.

O embargo econômico imposto pelos Estados Unidos só tem colaborado para a falta de avanços sociais e políticos em Cuba. A posição americana é um obstáculo ao fim da ditadura e fortalece o discurso persecutório dos governantes. Yoani, por sinal, é contra o embargo.

Fidel Castro, seu irmão e sequazes cometem o erro essencial de todos os ditadores: acham-se insubstituíveis, e não admitem a transição democrática do poder. Consideram-se melhores e mais preparados do que todos os outros cidadãos e só eles sabem o que é bom para o país.

O governo que se diz revolucionário não reconhece a existência de perseguições por razões de consciência e afirma que o que há são mercenários a serviço dos Estados Unidos, alegação que não convence a mais ninguém.

O que se pergunta é quantas prisões e até mortes serão ainda necessárias para que se estabeleçam o diálogo e o respeito aos que pensam diferente do governo em Cuba.

É uma violência aos direitos humanos um mesmo grupo manter-se no poder por tanto tempo, afastando a população da democracia, negando-lhe direitos políticos e condenando gerações ao silêncio e ao atraso.

Não existe justificativa, do ponto de vista ético, político e humano, para essa eternização, que só é possível mediante a eliminação da liberdade e, às vezes, da própria vida de quem é contrário ao sistema.

O que se espera do governo brasileiro é uma posição firme e clara contra a falta de democracia naquele país e contra a perseguição movida aos que se manifestam por mudanças.
 
É incompreensível e inaceitável o longo e pesado silêncio das autoridades brasileiras em relação aos direitos humanos e à escuridão política em Cuba.
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A blogueira cubana e o blog do juiz:
http://blogdofred.blogfolha.uol.com.br/2013/02/24/a-blogueira-cubana-e-o-blog-do-juiz/

O testemunho dos livros:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2010/03/o-testemunho-dos-livros.html

Generación Y:
http://www.desdecuba.com/generaciony/

De Cuba, com carinho (livro de Yoani Sánchez):
http://www1.folha.uol.com.br/livrariadafolha/707897-em-de-cuba-com-carinho-yoani-sanchez-questiona-ideologias-latino-americanas.shtml

A arte de ser juiz:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2011/07/arte-de-ser-juiz.html

jfinatto@terra.com.br
 

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Hokusai e Drummond, passeio na livraria

Jorge Adelar Finatto


xilogravura de Hokusai: A grande onda de Kanagawa. Fonte: Wikipédia
 

A livraria é uma coisa viva. Cada livro é algo pulsante, todos têm um coração. O seu coração.

A internet está aí com toda a força. E, no entanto, os livros de papel não caem no esquecimento. As livrarias estão cheias de títulos e leitores. Pelo menos as grandes. Não sei o que se passa com as outras.

Na tarde nublada de Porto Alegre, resolvi visitar a livraria do bairro. Estou aqui entre as estantes, caminhando no bosque. Tem gente que compra livros e lê por obrigação. Eu leio por necessidade espiritual, encantamento, interesse estético, busca-vida.

Exposição de livros 
 
Li no jornal que as livrarias maiores estão cobrando para expor os livros. Cada espaço tem um valor, conforme a localização. A vitrine é o lugar nobre. Os demais suportes têm preços correspondentes ao destaque, à visibilidade no ambiente.
 
Está muito difícil a vida de autor novo ou desconhecido. Em geral, após o lançamento, a obra fica exposta por poucos dias e logo é retirada. Desaparece. E o escritor/escritora ficam amargando a frustração de não ver mais seu trabalho ao alcance do leitor, depois de ter conseguido - a duríssimas penas - o milagre da edição.

A oferta de autores é muito elevada e a fila anda, como se diz. Só que anda a uma velocidade terrível e sem noção. Enormes dificuldades se apresentam para divulgação das obras nos meios de comunicação. Não há mais espaço - com poucas exceções - fora do estrito interesse econômico da empresa.

Faz tempo que o mundo do livro perdeu a face humana e artesanal. Tornou-se um comércio como outro qualquer, feroz e frio.

Publicação

Os critérios que regem a publicação obedecem, quase sempre, a valores de mercado.  A margem de risco, isto é, de aposta em autores iniciantes, fora de catálogo, é cada vez menor.

Tenho dúvida se um autor como Guimarães Rosa seria editado atualmente, se fosse jovem. Isto porque a qualidade literária conta muito pouco e o senhor Rosa é considerado um autor difícil, desses que exigem maior entrega do leitor. Hoje o que importa  é se o escritor é bom de marketing. O resto é indiferença.

Não sei que futuro espera escritores que são bons de texto, mas não conseguem apoio de uma editora. Talvez não haja futuro algum.

Talvez o futuro da escrita esteja no livro eletrônico. No presente, a nuvem virtual é a saída para os que querem mostrar algo.

Sugestão: se cada editora fizer uma seleção anual para publicar, ao menos, um livro pelo valor literário, fora do conceito best-seller, já ajudaria.

No café da livraria

O que eu procuro entre as estantes, onde estou agora, é o prazer da leitura. Procuro bons autores, esses que resistem sem se entregar ao dono do inferno.

No café da livraria, é hora de folhear os livros colhidos no bosque. Numa mesa próxima, vejo uma leitora com rotundas lentes nos óculos virar as páginas de um volume de matemática. Faz isso com visível prazer.

Vida sexual dos leitores

Na mesa ao lado da minha, duas mulheres conversam sobre retiro espiritual, dieta, cuidados com a beleza e vida amorosa.

Ouço o que dizem não porque quero, mas porque elas falam como se estivessem em casa, sem nenhuma cerimônia e nenhuma timidez.

Uma delas se saiu com esta: "Estou tendo uma excelente vida sexual comigo mesma". Deve ser um tipo de self-service. Que tempos!

Confissões de Minas

Com esforço, volto aos meus livros. Confissões de Minas¹, de Drummond, está entre os eleitos de hoje. As primeiras páginas são daquelas de não largar mais o volume. "Simples traços de pena - mas tão densos, tão firmes e tão elegantes que nunca mais se apagarão", afirma Antonio Candido sobre a obra.


gravura Fuji Vermelho, de Hokusai. Fonte: Wikipédia


Pinturas de Hokusai

O outro escolhido é Hokusai, mountains and water, flowers and birds² (Hokusai, montanhas e água, flores e pássaros), livro com reproduções de imagens do grande mestre da pintura e da gravura japonesa Katsushika Hokusai (1760 - 1849). Vou viajar nessas pinturas. Uma maravilha.

Arte e navegações

A arte faz falta. É difícil viver longe dessas coisas que nos ajudam a prosseguir viagem.

Com a arte navegamos em nossos pequeninos barcos sobre a imensidão das ondas.
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¹Confissões de Minas. Carlos Drummond de Andrade. Cosac Naify, São Paulo, 2011.
²Hokusai, mountains and water, flowers and birds. Matthi Forrer. Prestel Publishing, New York, 2011.