quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Quase primavera

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto - orquídea


Nem bem extintos os últimos raios, trovões e ventanias, pressinto os começos da nova estação. São apontamentos que se inscrevem aqui e ali no intermezzo de agosto.

photo: j.finatto - flor de pessegueiro

Saudade é isto que eu sinto dos dias de luz grata e benigna na janela do amanhecer.

photo: j.finatto - flor de magnólia
   
A primavera é certa como os primeiros ramos dos pessegueiros em flor.

photo: j. finatto - flor de magnólia
 
A inflorescência principial anuncia-se no entorno da casa. A claridade de Deus levanta-se neste lado do mundo. Bem-vinda sejas tu, que atravessas a escuridão.

photo: j.finatto - camélia

Que venham as manhãs carregadas de flores no silêncio de setembro.

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Fotos: feitas com máquina Sony dsc-hx1, em 16 agosto, 2011. Passo dos Ausentes.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Moça na tarde lilás

Jorge Adelar Finatto


Ela vem bela pela rua triste. É tarde e já chove.

Embaixo das flores dos jacarandás, o mundo é um guarda-chuva lilás.

Ela vem triste, na bela rua dos jacarandás. Chove na tarde e o mundo cheira a lilás.

O guarda-chuva não protege a moça de estar só na tarde.

Ela vem sozinha e atravessa a chuva.

O mundo é belo. A tarde é lilás.

O coração da moça chove na tarde dos jacarandás.

Ela vem na calçada coberta de flores.

A moça é a luz que alumia a rua triste.

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Foto: Jacarandá mimoso. Fonte: Wikipédia. Autoria: Conservatoire Botanique National de Mascarin.

domingo, 14 de agosto de 2011

A falta que eles fazem

 Jorge Adelar Finatto

photo: j. finatto

Penso no quanto esta data, Dia dos Pais, é um atrapalho na vida de muita gente que não tem pai. Vivemos num país em que a paternidade amorosa e responsável ainda é exceção.

Mãe presente, pai ausente, esta é a realidade da maioria das famílias brasileiras.

A figura paterna, na vida de milhões, é um retrato sem rosto.

No tempo de menino, costumava faltar à escola no dia dessa comemoração. Sem pai, ficava muito difícil participar. Notava certo estranhamento por parte dos colegas e mesmo de alguns professores, em relação a nós, os sem pai. Nos olhavam como se carregássemos um grave defeito.

Antonio Carlos Jobim, o nosso grande maestro, disse em certa ocasião, citando uma frase do escritor Pedro Nava: “Quem fica órfão em tenra infância segue pela vida sem um braço”. Referia-se Tom à circunstância de ter perdido o pai muito cedo, quando tinha apenas oito anos. ¹ Seu pai, e da mana Helena, Jorge Jobim, era gaúcho de São Gabriel.

A ausência paterna é um dado cultural e sociológico do Brasil. Não sei a extensão disso em outros países. Entre nós, o problema começou já no início da colonização portuguesa. Os colonizadores vinham para cá sem mulher e sem família, para aventurar, fazer fortuna e depois regressar ao país de origem.

A população portuguesa, na época do descobrimento, não era suficiente sequer para ocupar o seu próprio território. Diferente da situação ocorrida nos Estados Unidos, em que o colonizador inglês chegava com a família para tomar posse da colônia e ali construir a vida. 

Iniciou-se no Brasil violenta exploração sexual de mulheres índias e de negras escravas. Com o advento das casas grandes, o abuso de negras cativas tornou-se comum por parte dos senhores de escravos. Os filhos varões desses proprietários de gente iniciavam a prática sexual na senzala. Nasceram legiões e legiões de filhos mulatos, que naturalmente não eram reconhecidos. As crianças se criavam sem pai, porque só havia a mãe, e todos trabalhavam desde cedo para os donos da propriedade. ²

Contudo, a violência e as privações sofridas por nossas ancestrais índias e negras não apagaram nelas o traço da maternidade. Foram mulheres lutadoras que levaram a vida adiante com seus meninos e meninas sem pai. Passaram esse amor e esse compromisso para as gerações futuras.

O Brasil é fruto desses ventres antigos e sofridos.

A sociedade brasileira tem na expressão materna o núcleo não apenas da geração da vida como de sustentação da nossa frágil organização social.

Disso, desta falta de compromisso paterno, colhemos ainda hoje o bem e o mal.

Os homens, por falta de educação voltada à responsabilidade familiar, muitas vezes não assumem com clareza seu papel. E se acomodam numa espécie de limbo, incentivados pela cultura em que são criados.

Isto está mudando? Acho que sim, tomara que sim.

De modo que, nesse Dia dos Pais, minha homenagem vai para todas as mães que estão ao lado de seus filhos e filhas sem pai, criando-os amorosamente, às vezes sem nenhum apoio, na raça, porque isto é a coisa certa a fazer.

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¹ Caderno de Literatura da Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul. Porto Alegre ,  Ano V, número 9, pág. 9, 2001.

² Casa-Grande & Senzala. Gilberto Freyre. Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, págs. 306/316, 1980.

sábado, 13 de agosto de 2011

A grandeza dos pequenos filmes

O Cavaleiro da Bandana Escarlate

photo: j.finatto

Neste momento em que preparo o saco de viagem pra voltar pra casa, faço um balanço do que vi no Festival de Cinema de Gramado.

Não vi tudo. Simplesmente porque não consigo passar o dia dentro de salas de projeção. Me dá falta de ar e de céu sobre a cabeça. Mas acho que consegui ver uma parte significativa do que passou. 

Curtas

A minha impressão é de que poucas vezes houve uma safra tão boa de curtas-metragens como nesta edição do festival. Ousaria mesmo dizer que o ponto alto do evento foram os curtas, mais bem realizados do que boa parte dos longas. Os pequenos rolos deram banho de qualidade e emoção.

Penso que a escolha do melhor curta será bastante difícil. Aponto seis deles que podem tranquilamente ganhar o Kikito:

- Um outro ensaio. Direção: Natara Ney. Sinopse*:

Um casal apaixonado vê seus planos interrompidos quando ela sofre um acidente e fica
cega. Ambos lutam para se adaptar à nova situação em suas vidas. Enquanto ela
tenta endender o mundo na escuridão, ele faz de tudo para cuidar da mulher que ama.

A construção da narrativa é inovadora e muito bem feita, os atores têm bom desempenho e o final proporciona momento de grande emoção.

- A melhor idade. Escrevi sobre o filme na terça-feira passada. Um belo trabalho.

- Qual queijo você quer. Direção: Cíntia Domit Bittar. Sinopse:

Margarete é uma senhora de idade que tem um súbito ataque de raiva quando seu
marido, Afonso, pergunta se ela pode trazer um queijo da venda. O queijo acaba sendo a faísca para uma discussão sobre como o casal levou a vida durante décadas de convivência, os planos que não realizaram e os sonhos que não viveram.

Filme ótimo na concepção e no desenvolvimento. É a própria vida que está na tela, com suas grandezas, pequenezas e, sobretudo, sentimento. É um trabalho na linha do bom cinema argentino, simples, bem realizado, rico.

Casal protagonista de Qual queijo


- Polaroid Circus. Poderá surpreender, embora, como escrevi na terça-feira, sinto que lhe falta uma história à altura da excelente fotografia e brilhante trilha musical.

- Ribeirinhos do asfalto. Direção: Jorane Castro. Sinopse:

Deisy mora na Ilha do Combu, do outro lado do rio, na frente de Belém. Ela sonha em ir morar na cidade, no meio de todas as luzes que ela vê de noite na sua casa na entrada
da mata. Com a ajuda de sua mãe, ela vai tentar realizar este desejo.

Com belo desempenho da atriz Dira Paes, este é um bom filme, mostrando a vida dessa famíllia entre o início da floresta amazônica e a cidade de Belém, no Pará. Dira é a mãe de Deisy e enfrenta até o marido para proporcionar a mudança da filha para a cidade, em busca de estudo e de uma vida melhor.

- Rivelino. Direção: Marcos Fábio Katudjian. Sinopse:

“Rivellino” narra o encontro de Jonas e o Doutor Mascarenhas num ônibus intermunicipal. Jonas é um homem de trinta anos, recém saído da penitenciária, onde
cumpriu dez anos por tráfico de drogas. Doutor Mascarenhas é ninguém menos que o
promotor responsável por sua condenação.

É um trabalho interessante, num tema pouco explorado pelo cinema, o do encontro de autoridades do sistema judicial com pessoas que foram condenadas criminalmente. A súbita aparição de um elemento externo, o ex-jogador de futebol Rivelino, estabelece uma ponte entre o apenado e o promotor do caso.

Esses foram os curtas que mais me impressionaram. Se fosse escolher um para ser o premiado, ficaria com Qual queijo você quer? por revelar maior harmonia entre todos os ingredientes: roteiro, direção, fotografia, música, interpretação, intensidade, tocando por completo a emoção do espectador.

Em segundo lugar, escolheria Um outro ensaio.

A melhor trilha sonora e a melhor fotografia pertencem a Polaroid Circus.

Melhores atores: José Wilker (A melhor idade), Dira Paes (Ribeirinhos do Asfalto) e Henrique César e Amélia Bittencourt (Qual queijo você quer?). Não necessariamente nessa ordem.

Mas qualquer escolha que vier a ser feita pelo júri será bem-vinda, creio eu, porque o equilíbrio entre os curtas é grande.

Longas

Os dois melhores longas que vi foram o chileno La lección de pintura e o brasileiro As híper muheres. Sobre eles escrevi na quarta-feira passada. Reforço aqui aquelas impressões.

Resumo da ópera

Pra mim, este foi o festival dos curtas-metragens, pela qualidade das obras apresentadas.

Sugestão

Ante a variedade e importância dos curtas, sugiro que os organizadores, em acordo com os produtores dos filmes, façam um dvd com todos eles, disponibilizando-os no mercado com o selo do Festival de Cinema de Gramado.

Até 2012

Agradeço a Alberta de Montecalvino o convite para fazer esta cobertura e também ao blogue pela oportunidade.

Muitas coisas ficaram por dizer. Quem sabe na próxima.

A Yamaha 250, ano 1975, me espera diante do hotel, preta, metálica, louca por estrada.

Um abraço.

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Site oficial do Festival de Cinema de Gramado:
Foto de Qual queijo você quer? reproduzida do Diário Catarinense online:

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O Conde de Lautréamont e as magnólias

O Cavaleiro da Bandana Escarlate

As magnólias só se entregam a quem foge das salas fechadas, numa tarde azul.


photo: j.finatto

Saio a passear na tarde azul de Gramado (enfim, o azul voltou), fugindo da sala escura do cinema, numa espécie de vingança, após esses dias de claustro. Levo comigo o poeta Isidore Ducasse (Montevidéu, 1846 - Paris, 1870), que me acompanha nessa aventura ao Festival de Cinema. O amável e tristonho Conde de Lautréamont, como gosta de ser chamado, habita o velho e grosso volume de Os Cantos de Maldoror.   

Como é de seu costume, Lautréamont resolveu sair das páginas do livro e me faz companhia durante a viagem. Ele gosta de ficar na mesinha diante da janela do quarto de hotel. Escreve coisas a lápis num antigo calepino. Às vezes, levanta-se e olha a cidade e seus telhados. Observa o Vale do Quilombo em frente. Ali, de vez em quando, uma águia mergulha em diagonal entre os penhascos, após emitir estridente guincho.

Com sua roupa do século XIX, colete e gravata de lacinho, anda a meu lado pelas ruas calmas. Fica muito admirado de ver tanta gente jovem conversando animadamente, entrando e saindo dos cafés, do cinema, ocupando a praça, tirando fotografias. Tudo tão diferente da minha triste vida em Montevidéu e Paris - confidencia.


photo: j.finatto

Fica encantado com o brilho das magnólias que povoam a cidade. Elas se parecem muito com aquelas que havia no jardim lá de casa, na Ciudad Vieja, diante do Rio da Prata - diz o poeta.

O meu amigo tem razão de emocionar-se. As magnólias são o grande espetáculo de Gramado e do resto da serra gaúcha no inverno. Contudo, poucos se dão conta disso.

As magnólias só se entregam a quem foge das salas fechadas, numa tarde azul.

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O Cavaleiro da Bandana Escarlate, menestrel medieval e livre-pensador, faz a cobertura do Festival de Cinema de Gramado para o blogue a convite de Alberta de Montecalvino. Como o blogue não tem mecenas, o Cavaleiro paga todas as suas despesas e acha que está muito bem assim.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Na tarde fria e nevoenta de Gramado, todos somos celebridades

O Cavaleiro da Bandana Escarlate

photo: j.finatto

Alguns haverão de encontrar encanto em sair do cálido quarto de hotel, abandonar a leitura da antologia de contos de Juan Carlos Onetti e mergulhar na paisagem gelada e nevoenta de Gramado para assistir filmes no Festival de Cinema. Tenho lá minhas dúvidas sobre isso.


photo: j. finatto

No hotel onde estou hospedado há tantos astros, estrelas, diretores e gente envolvida com cinema, que até um anônimo como eu chama a atenção. Tenho participado de variadas rodas sobre temas relacionados ao mundo da tela grande. Não que eu queira. Simplesmente me pegam pelo braço no corredor, no café, no jardim, como se fosse um deles, e me levam pra lá, pra cá.


photo: j.finatto

Não é de bom tom perguntar-se o nome dos outros nesse ambiente, supondo-se que entre nós, celebridades, existe o recíproco reconhecimento. A mim chamam-me Carlos, o Carlinhos do 707. Pertenço agora à malta. Eu, que sou como um peixe navegando nesses mares de Deus, sempre gostei deste nome e já agora me sinto à vontade com a nova identidade.

Um diretor famoso cismou de dizer, num desses encontros, que, no início da carreira, trabalhou como meu assistente num filme, que eu lhe dei a primeira oportunidade. Espantado, tentei dizer que não, não era bem assim. Mas ele imediatamente retrucou:

- Além de tudo, humilde.

Os presentes aplaudiram. Limitei-me a esboçar um tímido aceno.

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O Cavaleiro da Bandana Escarlate, menestrel medieval e livre-pensador, faz a cobertura do Festival de Cinema de Gramado para o blogue a convite de Alberta de Montecalvino. Como o blogue não tem mecenas, o Cavaleiro paga todas as suas despesas e acha que está bem assim.

Festival de Cinema de Gramado 2011. Com licença, realidade: chegou a hora da ilusão (V)

O Cavaleiro da Bandana Escarlate


photo: j. finatto

Troféu Oscarito. A cerimônia de entrega do Troféu Oscarito a Fernanda Montenegro, 81 anos, ontem à noite, no Palácio dos Festivais, foi simples e emocionante. A grande dama do teatro, cinema e televisão mostrou, em poucas, justas e ternas palavras, a sua nobreza, serenidade e qualidade humana. Lembrou do extraordinário ator Oscarito, que chegou a conhecer, e também do ator Ítalo Rossi, com quem trabalhou várias vezes, que morreu na semana passada. Fernanda, não bastasse o talento que Deus lhe deu, é alguém que nos transmite dignidade, confiança, gratidão, carinho. O teatro encheu-se de aplausos para a atriz.


Fernanda Montenegro, à direita. photo: j.finatto


La lección de pintura. Um belo longa-metragem chileno, com fotografia intensa e impecável. O diretor Pablo Perelman disse que retirou a história de uma pequena novela (não mais do que 35 páginas) de um escritor de seu país que também era pintor, já falecido, adaptando-a. Um menino filho de mãe solteira, numa cidadezinha do interior do Chile, considerado um gênio da pintura, tem sua trajetória bruscamente interrompida pelo golpe militar contra Salvador Allende. Há também a complexidade psicológica dos personagens, a narrativa precisa e humana. É um dos melhores filmes que vi nos últimos tempos.

As híper mulheres. Impressionante longa brasileiro, na linha do documentário. Aborda o povo indígena Kuikuro, do Alto Xingu, no estado do Mato Grosso.  O filme trata do maior ritual feminino daquela região, o Jamurikumalu. Mostra a cultura daquele povo e, nela, a forte presença feminina em relação àquele rico universo. Dirigido por Carlos Fausto, Leonardo Sette e Takumã Kuikuro.

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O Cavaleiro da Bandana Escarlate, menestrel medieval e livre-pensador, faz a cobertura do Festival de Cinema de Gramado para o blogue a convite de Alberta de Montecalvino.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Festival de Cinema de Gramado 2011. Com licença, realidade: chegou a hora da ilusão (IV)

O Cavaleiro da Bandana Escarlate


photo: j.finatto


Depois de um dia trevoso, submerso em chuvas, no fim de tarde o astro-rei mostrou a tímida face entre as pesadas nuvens. Tão reticente chegou, cedo partiu. A névoa veio e tomou conta de Gramado. Na noite, mais chuva. Este foi o cenário dessa segunda-feira, 08 de agosto.

O Festival de Cinema, nesta 39ª edição, começou oficialmente na sexta-feira, com os salamaleques de costume, e se estenderá até o próximo dia 13.

O tempo é curto, a esperança de bons filmes é longa. 

Conforme prometido no post do dia 10 de julho, aqui estou para as primeiras impressões. E começo por onde devia terminar.

Conclusão. Os cineastas brasileiros podiam inspirar-se um pouco no trabalho de seus colegas argentinos e fazer um cinema melhor. Uma temporada na Argentina seria de grande valia para o nosso cinema.  A arte cinematográfica que se realiza no vizinho país do Rio da Prata está num patamar bem mais elevado do que a feita aqui na Terra de Santa Cruz. Se há algum nacionalista incomodado na sala, favor não atirar neste comentarista-por-acaso.

Medianeras Buenos Aires. Este filme argentino, exibido na noite de sábado, vem no caminho do belo cinema produzido no país irmão, nos últimos 20 anos, pelo menos. Concorrente ao prêmio de melhor filme estrangeiro, conta a história de um homem e uma mulher, ambos jovens, solitários, vizinhos que nunca se encontram. Vivem perto, mas ignoram a existência um do outro. Medianeras são paredes que separam os edifícios. O filme fala de solidão, de incomunicabilidade, da dureza da vida na cidade. Direção de Gustavo Taretto.

A melhor idade.  Entre os quatro curtas-metragens exibidos na mostra competitiva, na tarde de segunda, o que mais me chamou a atenção foi A melhor idade, dirigido por Angelo Defanti. Conta a história de um velho de 70 anos, viúvo que vive sozinho, doente de diabetes, em estado avançado. Tendo de escolher entre o tratamento da doença, cujo sinal mais visível é uma enorme ferida na perna direita, e o pagamento mensal da assinatura da tv a cabo, escolhe esta última. "Aos 70 anos, quem precisa de pernas?", é a pergunta que faz o irônico Antenor. A interpretação de José Wilker, no papel do velho, é excelente.

Polaroid Circus. Direção de Marcos Mello e Jacques Dequeker, este curta foi filmado em Paris. A personagem Maria sai pela cidade a fotografar artistas de rua com sua Polaroid, tendo como fundo musical o envolvente solo de saxofone de um músico negro e cego que toca seu instrumento nas margens do Sena. O trabalho apresenta dois grandes momentos: a brilhante fotografia de Jacques Dequeker e a ótima trilha sonora de Alexandre Guerra. O filme é bom, no geral, mas acho que a história poderia ser melhor.

La lección de pintura. A minha boa expectativa para esta terça é o chileno La Lección de pintura, dirigido por Pablo Perelman, que passará logo mais às 19h.

Rubens Ewald Filho. Antes disso, pretendo ir ao Hotel Serra Azul, às 15h, para ouvir o lúcido crítico e estudioso Rubens Ewald Filho falar sobre cinema.

Fernanda Montenegro. A grande atriz brasileira será homenageada no Palácio dos Festivais, às 20h45min, com o Troféu Oscarito. Estarei lá com minha emoção e meu aplauso.

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O Cavaleiro da Bandana Escarlate, menestrel medieval e livre-pensador, faz a cobertura do Festival de Cinema de Gramado para o blogue a convite de Alberta de Montecalvino.

Canção sem acordes

Ricardo Mainieri


photo: j.finatto



Deixarei o conformismo
jogado na lata de lixo.

Despirei os uniformes
do cotidiano
o bom-dia formal
o sorriso-gatilho no rosto.

Estou enjoado
frases feitas
pratos feitos
da revolta que não é feita.

Sou um homem
no macrocosmo dos espelhos
tonto
mas não vou tombar.

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Do livro A travessia dos Espelhos. Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 1990.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Os sinos de bambu

Farandolino Brouillon

photo: j.finatto

No pátio em volta da casa, habitam sinos de bambu. Sempre é bom tê-los por perto. Passam sossego e iluminam o espírito. Um deles está pendurado na caneleira, em cujo tronco se enroscam e brotam os primeiros jasmins, antecipando a primavera.

Os sinos soam suavemente ao leve toque do vento.

Esta é a música que gosto de ouvir nas manhãs e tardes andarilhas de agosto. Quando acontece de madrugada, e acontece de estar acordado, também aprecio ficar ouvindo.

A melodia que nasce dos sinos de bambu nunca se repete, nunca é a mesma. Cada uma tem um jeito único.

Às vezes os sinos tocam ao mesmo tempo, conversando entre si.

É bom fechar os olhos e caminhar no bosque de sons dos sinos de bambu.

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Farandolino Brouillon é poeta em Passo dos Ausentes.

sábado, 6 de agosto de 2011

Tara McPherson, a persistência do coração

Jorge Adelar Finatto


A artista desenha figuras femininas com um buraco em forma de coração no peito. São os rompimentos amorosos, as duras perdas, o dilaceramento dos afetos, num mundo que se esforça por afastar o sentimento da vida humana.


Sempre me surpreende a capacidade dos humanos em fazer arte, apesar da estrovenga em que o planeta está mergulhado, mercê do grande empenho destrutivo dos donos do poder e do dinheiro em todos os países do mundo.

Conheci uma breve mostra do trabalho da americana Tara McPherson. Ela nasceu em São Francisco, Califórnia, em 1976.

Quando surge uma artista como Tara, em condições de observar as coisas do mundo e traduzi-las para nós em forma de arte, devemos agradecer a Deus por isso.

A absurda cultura do consumo e a imposição de personalidades patéticas como referência de valor artístico e sucesso midiático deixam pouca margem ao pensamento crítico e criativo. É raro alguém desenvolver criatividade em meio a padrões tão rígidos de valorização do pueril.

Tara desenha figuras femininas com um buraco em lugar do coração no peito. São os rompimentos amorosos, as duras perdas, o dilaceramento dos afetos, num mundo que se esforça por afastar o sentimento da vida.

Os corações ausentes do peito das musas podem significar, também, entrega, estão batendo em outra parte, no corpo dos seres amados, nessa viagem incandescente e visceral pelo cosmos  à procura do outro que nos enxergue na multidão, nos acolha e nos salve do frio da solidão.

Às vezes, a figura feminina flutua leve pelo ar, com o buraco no lugar do coração, numa espécie de felicidade.




Em outras pinturas, os corações femininos aparecem sangrando.

A artista desenvolve uma estética pop com raízes na história da pintura universal. Não despreza a tradição, pelo contrário, aproveita-a. E segue seu caminho.

Tara costuma falar do amor aos amigos e do respeito ao próximo comos valores essenciais em sua vida. Gosto muito disso, pois revela um ser humano sensível ao outro e não preocupado apenas com o próprio umbigo.

Visitei o site oficial dela e o coloquei entre os meus favoritos.

A obra em construção de Tara McPherson revela traços em busca de sentimento, claridade e beleza. 

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Reproduções de pinturas de Tara McPherson a partir do site oficial da artista:

Leia entrevista da artista na revista Zupi:
http://www.zupi.com.br
 

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

As flores brancas da magnólia

Jorge Adelar Finatto

photo: j. finatto

 
Faz algumas semanas que o sol não aparece em Passo dos Ausentes. Eu, que vivo a urgência de um tempo em que cada dia é um presente imerecido, nada reclamo. Afinal, existe beleza em dias assim cobertos de nuvens, garoa e alguma neve.

Não gosto do vento de agosto andando por aí feito louco, espalhando frio, fazendo estrago. É um vento polar espesso que faz questão de assustar pessoas e bichos na sua passagem. No caminho, leva tudo pela frente e enregela até a alma do vivente.

Esse vento não dá trégua nos Campos de Cima do Esquecimento. Revolve páginas dos livros nas estantes, levanta o pó dos calendários, bate em portas que há muito estão fechadas na ciudad vieja.

As folhas de uma frondosa árvore - o plátano da minha infância - se agitam no oblívio.

O vento glacial, em agosto, desperta coisas que estavam caladas. 

Um menino sai do retrato da parede e senta ao meu lado no escritório. Me olha em silêncio, um prolongado silêncio, enquanto eu escrevo. Depois encosta a cabeça no meu braço e fecha os olhos. Veste uma calça curta, um casaquinho e uma gravata borboleta.

Abraço o menino longamente, digo-lhe pra não chorar por mim, por nós. Ele então seca as lágrimas na manga, volta para o interior do retrato e sorri de novo. 

Lá fora, perto da janela, as flores brancas da magnólia.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Meus amigos

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


Não esqueçam
de me visitar
nas noites
de inverno
quando o medo
cobra caro
e as feridas
não deixam mentir

insolúvel jogo
de espelhos
entre mim
e o que fui

ando bêbado
pela casa
meu coração
é operário
desempregado
com filho pra criar
mulher feia
sem crédito no armazém

me enrosco
em invenções
inúteis
pra repartir contigo
um espaço de ternura

sinto umas
coisas estranhas
caminharem atrás de mim
um cano de fuzil
um casal de velhos famintos
um câncer
e me desagrada não ser
como certos fantasmas

convoco o
silêncio e
suas raízes

inauguro a
manhã

não, eu não sou
uma estrela
um rio
um barco
nada se compara
ao que sinto

preciso todos
ao redor da mesa
principalmente
os desaparecidos
como certos crepúsculos
que a gente vê
fogem e nunca mais

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Poema do livro Claridade, co-edição Prefeitura Municipal de Porto Alegre, Editora Movimento, Porto Alegre, 1983.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A misteriosa expedição da Nasa a Passo dos Ausentes

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


Condições atmosféricas peculiares fazem de Passo dos Ausentes uma estação climática e astronômica única no planeta. Estranhos fenômenos costumam ocorrer nesse longínquo lugar ao sul do mundo.

Estas foram algumas das conclusões do relatório assinado pelo cientista norte-americano John Joseph de la Rosa, que comandou memorável expedição científica a nossa cidade em 1959.
 
Uma cópia do documento está arquivado na Sociedade Artística, Literária, Filosófica, Histórica, Geográfica, Astronômica, Geológica, Antropológica e Antropofágica de Passo dos Ausentes.

A expedição foi organizada pela Agência Espacial Americana (Nasa) por razões que nunca foram esclarecidas. A equipe de seis cientistas ficou hospedada durante 40 dias na pensão Ao Viajante Solitário, conforme consta dos registros daquele estabelecimento.

As coisas se passaram de maneira obscura, a começar pela forma como aqui chegaram os viajantes ianques. Vieram num enorme balão da força aérea americana.

Num dia de maio,  o objeto voador azul-marinho com uma águia branca desenhada surgiu da bruma e pousou o cesto com a tripulação ao lado do coreto da Praça da Ausência, amassando um luminoso canteiro de margaridas amarelas. Segundo se apurou na ocasião, o balão teria partido de um navio de guerra ancorado na costa gaúcha, na altura do Farol da Solidão.

A população reuniu-se na praça para saber o que acontecia. De la Rosa apresentou suas credenciais a Don Sigofredo de Alcantis, nosso filósofo-mor, presidente da SALFHGAGAA. Pediu-lhe permissão para fazer estudos espaciais, astronômicos e atmosféricos nas cercanias da cidade.

Don Sigofredo indagou se tinham autorização do governo federal para entrar no território brasileiro, do qual, como devia saber, Passo dos Ausentes era parte.

O americano esboçou um sorriso irônico e devolveu:

- O senhor tem certeza de que este lugar pertence ao Brasil? Não vimos nada no mapa nem identificamos qualquer registro oficial. Viemos em paz, Don Sigofredo, não existe razão para envolver as autoridades brasileiras nisso. Estamos em missão científica por determinação do nosso governo. 

- Não vou discutir o assunto da nossa inexistência oficial com o senhor - disse com voz grave e pausada Don Sigofredo.  - Já nos bastam os problemas que enfrentamos, há mais de cem anos, com a burocracia do governo, que insiste em não conceder existência jurídica a nossa cidade. Se vêm em paz, podem ficar o tempo que quiserem. Apenas um aviso: façam por merecer a hospitalidade.

Sobre os acontecimentos que sobrevieram e como aquela expedição mudou a vida da nossa cidade trataremos em breve.


photo: j. finatto

Enquanto isso, vale lembrar ao raro leitor que tratamos da origem de Passo dos Ausentes no texto publicado no blogue em 25 de dezembro, 2009.

Convém recordar, ainda, que tramita desde o final do século XIX, nos órgãos burocráticos do estado do Rio Grande do Sul, o processo que trata do pedido de reconhecimento de Passo dos Ausentes como cidade. Até hoje nada conseguimos.

O último parecer da comissão foi ofensivo à nossa pretensão. Afirma-se no tal documento que a Equipe de Estudos Antropológicos para Verificação da Existência do Lugar e seus Habitantes não conseguiu sequer subir até nosso lugar de viver, ante as péssimas condições de acesso por córregos, imensos paredões de pedra e estradas de chão a pique, quase verticais em alguns trechos, culminando em densas nuvens de neblina, chuva e austeras trovoadas consequentes a raios que explodem ameaçadoramente perto dos forasteiros que se aproximam.

Os medrosos e pouco diligentes funcionários não chegaram, ao menos, perto do Contraforte dos Capuchinhos. Assustaram-se com as alturas e clima hostil. 

Não satisfeitos com o fracasso da incursão, puseram uma placa absurda no início da Estrada da Ausência, 90 km a leste e 100 km acima  de São Francisco de Paula, escrevendo em letras vermelhas sobre fundo branco os dizeres:

Passagem temerária.
       Valhacouto de fantasmas.

Habitamos entre nuvens.

Somos voláteis e invisíveis para o mundo oficial. Nenhum registro, nenhum apontamento. Não figuramos nos mapas, nos roteiros turísticos, culturais e históricos do Rio Grande do Sul. Os jovens muito cedo vão-se embora em busca de oportunidades.

Somos poucos. Sobrevivemos por pura teimosia neste lugar, agarrados à memória e a uma inexplicável esperança.

Somos uma página caída no desvão do tempo, escrita a mão pelo Criador num momento de distração e enfado com as coisas tristes desse mundo. 

O Senhor cultivava um instante de poesia quando desenhou este lugar perdido nos Campos de Cima do Esquecimento.


domingo, 31 de julho de 2011

Jogos Olímpicos 2016

Jorge Adelar Finatto


 O cartão-postal vai brilhar intensamente outra vez, será um grande espetáculo visual para o mundo, o Rio é mesmo deslumbrante, o povo é acolhedor, as praias são lindas. Depois, tudo se apaga e volta a ser como antes, só que pior, porque dinheiro grosso foi gasto sem critério e sem sentido, perdendo-se uma grande oportunidade.

O amigo leitor está no justo descanso do fim de semana.

Desembarcou na ilha-refúgio de dois dias quase sem fôlego. A rude lida da sobrevivência leva ao limite nossa paciência e capacidade de resistência.

Tudo que se quer, nessa hora, é estar perto das pessoas amadas. E um bom descanso, no sofá ou na velha cadeira de balanço, um livro, uma revista.

Não deve o cronista importunar esse santo repouso. Os temas tratados hão de ter alguma leveza, trazer um pouco de ar fresco.

Contudo, quero falar de um assunto que me atormenta e que gostaria de compartilhar.

Trata-se dos Jogos Olímpicos de 2016.

Penso que a sociedade brasileira, você, eu, todos nós deveríamos ter sido consultados sobre a realização dos Jogos no Rio de Janeiro. Motivo principal: a extraordinária soma de dinheiro público que será utilizada no evento. Fala-se algo em torno de R$ 30 bilhões. Muito provavelmente será bem acima disso, como costuma acontecer.

A cidade maravilhosa foi escolhida sede da Olimpíada em Copenhague, na Dinamarca, no dia 02 de outubro de 2009, vencendo as concorrentes Madri, Tóquio e Chicago. Mas terá sido mesmo uma "vitória" ou, antes, um alívio para as cidades preteridas, porque não terão de gastar essa babilônia em meio a uma das piores crises econômicas que o mundo já conheceu?

sexta-feira, 29 de julho de 2011

A solidão da palavra: partilha

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. Guaíba e seus barcos.


A solidão da palavra é partilha.

Escrever é particular e solitário como viver. É um modo de comunicação difícil, isolado, clandestino.

Não tenho hora para escrever, mas gosto da noite. Escrevo em qualquer lugar e não só no escritório. Posso escrever em avião, sala de espera, quarto de hotel, fila, ônibus, trem, banco de praça.

Também gosto de escrever nos cafés. É um estar sozinho acompanhado. Não importam as conversas, os ruídos do entorno. Escrevo à mão, em pequenos cadernos, em páginas de livros, folhas soltas, guardanapos.

Se fosse músico ou pintor, acho que não escreveria. A música e a pintura são linguagens universais. Não precisam tradução, intérpretes, obras de consulta, dicionários. Basta ouvir, olhar, sentir. É o ideal da arte. Não é o caso do texto, que se limita àqueles que sabem a língua.

Escrever, escrever de verdade, com compromisso e sentimento, é ofício duro. Salvo raras exceções, não é possível viver de literatura. É necessário ter outra profissão para sobreviver. O tempo para escrever e ler é pequeno.

Uma ocasião alguém me perguntou como encarava o fato de escrever há tanto tempo, ter alguns livros publicados, e permanecer um autor desconhecido. Eu disse que via com naturalidade.

Olhando para os que vieram antes, encontramos cerca de quatro mil anos de passado literário. O livro de Gênesis, por exemplo, foi concluído por Moisés em 1513, antes de Cristo. Se tomarmos apenas os escritores que surgiram a partir da Idade Média, encontraremos centenas e centenas de bons autores esperando leitura.

O tempo do leitor é raro.

O mundo dos livros também é regido por leis de mercado. Certos escritores têm presença constante nos meios de comunicação, nos catálogos das editoras e nas estantes de livrarias, por diversas razões, principalmente comerciais. A qualidade literária nem sempre é o critério mais observado nesse processo. Então, ser lido, mesmo por poucas pessoas, sendo escritor fora do mercado, é realmente uma coisa muito boa.

A solidão é nosso lugar no mundo. Cada um vive na sua ilha da maneira como pode. E palavras são barcos que abrem caminho entre as ilhas. 
 
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Texto publicado em 19 de maio, 2010. Após revisão, é agora republicado.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

No tempo das camélias

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto


A camélia é uma flor sem vaidade (sim, existem flores desprovidas de vaidade). Cresce no quintal da mais humilde casa até o jardim do mais rico palácio.

Nesse tempo de sol entre nuvens, a camélia surge com sua face iluminada. Se há algo que salva os dias sombrios do inverno, é ela.

A camélia é criadora de beleza. Certas combinações difíceis de imaginar, como misturar o verde escuro das folhas do arbusto com o vermelho carregado da flor, são bela invenção cameliana. 

Porto Alegre é uma cidade com muitas praças. 

Aqui no meu bairro há várias. Numa delas, camélias brancas e vermelhas espalham-se entre os bancos, que nessa época passam quase sem gente. A suave presença dessas flores tece momentos de viva emoção.

Na tarde de hoje, vi dois pés de camélia cor-de-rosa, caprichosamente plantados na calçada. Pura visão.

E pra não dizer que neste blogue só se falam amenidades, um pouco de realidade.

A crueldade não tira férias. Os atentados, com muitos mortos, na Noruega, mostram apenas que a europa evoluída, humana e racional é, em certa medida, uma imagem na água, uma ilusão romântica.

O fundamentalismo está muito forte por lá, enraizado em movimentos como o neonazismo, os nacionalismos extremados, a criminalidade organizada, o racismo, a xenofobia, o desrespeito ao diferente, e em tantos outros processos de violência e exclusão (até mesmo em relação a países periféricos do continente).

A maior parte dos europeus, contudo, não aceita viver neste mar de sangue e intolerância. É com esses que precisamos contar, na Europa e em todos os lugares, para dar a volta por cima.

Sobre a morte de Amy Winehouse não vou falar nada. Seria levar a tristeza longe demais.