segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

As órbitas misteriosas

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


A coisa mais difícil do mundo é encontrar guarda-chuva perdido.

O meu guarda-chuva desapareceu num início de outono. Éramos inseparáveis até então.

Nos perdemos num dia de forte neblina nos Campos de Cima do Esquecimento. Tínhamos saído para dar uma volta aqui em Passo dos Ausentes, garoava.

Num momento em que me distraí, veio um pé-de-vento e o arrancou de minhas mãos, ele saiu voando alto, foi em direção ao Vale do Olhar, nunca mais voltou. Desnecessário dizer que deixou uma dor no meu coração.

Decerto ele agora anda em órbita em volta da Terra, como as bonecas de trapo das primas antigas e os borzeguins azuis do major.

Tudo que um dia perdemos vira um ponto de luz no espaço.

(As coisas perdidas deixam sempre algum rastro.)

Por isso, acredito que nada do que amamos se apaga simplesmente.

O meu guarda-chuva perdido era como amigo de infância.

A gente nunca esquece, mas não sabe ao certo para onde o vento o levou.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Efêmera canoa

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


Diante da cidade cinza, atravessa indiferente uma canoa.
Vista assim parece cartão-postal. Uma recordação do passado distante.
De tantas pinturas concebidas, nenhuma será tão bela como a cidade e seu rio.


photo: j.finatto


A solidão da canoa desliza pelo retrato, em lenta e agonizante passagem rumo ao crepúsculo.
O homem atrás do peixe.


photo: j.finatto


O pescador e o peixe ao largo da cidade.
O observador, no continente, na sua ilusão de beleza e permanência.
Todos em direção ao oblívio.


photo: j.finatto

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O cenário é Porto Alegre; o rio, o Guaíba.
Fotos feitas em 22, fevereiro, 2012.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O escritor e seu carnaval

Jorge Adelar Finatto


pintura: Maria Machiavelli


O escritor sai pela rua no seu solitário bloco de carnaval.

Como será uma fantasia de escritor? A cara pintada de palhaço. Um enorme nariz de papelão. Nos olhos, grandes óculos redondos e pretos em forma de bicicleta. Um bigode de trilho de trem. Na cabeça, o chapéu de Napoleão, feito de folha de jornal.

Um par de borzeguins vermelhos desamarrados.

Na esquina, ele se mistura ao cordão de foliões, se deixa levar pelas ruas do bairro fantasiado da estranha criatura que, na verdade, é. Ele vai com o cordão pelo meio da praça, de mãos dadas com a alegre mascarada que encontrou pelo caminho. Ela tem pequenos olhos azuis e cabelos pretos escorridos nos ombros.

O escritor e a mascarada dispersam-se do grupo. O dia amanhece. Encostados nas costas um do outro eles descansam num banco da praça. Ele com um catavento na mão. Ela com um hibisco amarelo preso no cabelo.

Uma chuva de verão começa a cair. Eles correm e entram no Café da Aurora que àquela hora  abre a porta aos primeiros fregueses. Pedem uma taça de café preto, o pão ainda quente do forno.

Enquanto isso, lá fora, sob a chuva azul, arlequins, colombinas e pierrôs passam molhados na calçada, cantando As Pastorinhas.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

No carnaval, olhando o mar

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. Amsterdam

Estava na livraria, no sábado de carnaval, olhando a estante como quem mira o mar de dentro do seu barco, ávido por partir. Esse olhar nunca é inocente. Há uma busca de felicidade na mão que se eleva até a prateleira.

A simples procura faz alguém feliz, essa transitória felicidade que, às vezes, nos habita em meio ao tumulto.

A velha angústia de saber que não há tempo pra ler nem a metade dos livros que gostaríamos torna a escolha um momento difícil. Mas não desanimo nem estou preso ao cânone, à obrigação de ler certas obras só porque alguém disse que tem de ser assim. Não.

Estou diante da estante, olho o mar de histórias.

Esse instante deve ser, acima de tudo, lúdico. Afinal, não bastasse a brevidade das coisas, hoje é carnaval.

Quero a leveza do barco ancorado na beira do canal. Quero um livro profano, desses que ensinam a arte de andar de bicicleta pelas ruas do bairro sem ser atropelado por isso.

Ou um que enuncie o nome dos pássaros dessa cidade, ou traduza a forma das nuvens nos céus de fevereiro. 

No movimento das águas desse mar, escolhi alguns títulos que prometem boas fugas do território das ilhas: O Cemitério de Praga (romance, Umberto Eco), Um Pai de Cinema (fábula, Antonio Skármeta) e Chamadas Telefônicas (contos, Roberto Bolanõ). Pelo que li, em voo de gaivota sobre as ondas, são profanos o suficiente para alegrar o meu carnaval.

Diante da estante, sábado, olhando o mar.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Anne Frank, para não esquecer

Jorge Adelar Finatto


Anne Frank. Fonte: Fundação Anne Frank
http://www.annefrank.org/

Espero poder contar tudo a você, como nunca pude contar a ninguém, e espero que você seja uma grande fonte de conforto e ajuda.
(O Diário de Anne Frank, 12 de junho de 1942)

Um domingo de outono em Amsterdam, fim de novembro, 2011. O vento corre sobre os telhados e canais, enquanto a garoa cai gelada. O fato de ser domingo, muito frio e úmido, não afasta as cerca de 200 pessoas que aguardam na fila para entrar na casa-museu onde viveu Anne Frank (1929-1945) nos últimos dois anos de sua vida, antes de morrer no campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha. Estou no fim da fila. Poucos minutos depois outra extensa fila se forma atrás de mim. São pessoas de todas as idades e nacionalidades.

Anne escreveu nesta casa o famoso diário no tempo em que aqui esteve mergulhada com a família no Anexo Secreto, durante a ocupação nazista da Holanda, na Segunda Guerra Mundial. Pelo fato de serem judeus, os Frank, como milhões de outros, foram implacavelmente perseguidos pelo nazismo alemão. Em 1933, haviam se mudado da Alemanha, seu país de origem, para Amsterdam, a fim de fugir do regime de Hitler.

Otto Frank construiu este refúgio na parte dos fundos do imóvel onde funcionava sua empresa, situada na rua Prinsengracht, 263, à beira de um canal. Fez isso prevendo o dia em que teriam de mergulhar (sumir) para não ser presos e assassinados. Em 6 de julho de 1942, trouxe a família para cá. O esconderijo foi chamado de Anexo Secreto. Deixaram para trás o apartamento onde viviam ele, a esposa Edith e as duas filhas, Anne e Margot.  Na parte da frente da casa continuou o negócio, comércio de alimentos, cuja propriedade Otto passou para o nome de outros (os judeus não podiam exercer atividade empresarial), embora, na prática, continuasse a dirigi-lo.  Mais quatro pessoas juntaram-se a eles no anexo. Amigos fiéis se encarregaram de levar alimento e outros produtos ao grupo. Com o passar dos dias, tudo foi escasseando.

Em 4 de agosto de 1944, o esconderijo foi denunciado (nunca se soube quem foi o delator). As oito pessoas foram presas, levadas para campos de concentração e todos, com exceção de Otto, morreram. Anne e sua irmã morreram de tifo no campo de Bergen-Belsen no fim de fevereiro ou em março de 1945, poucos dias antes da libertação deste. Provavelmente foram enterradas em valas comuns. Além delas, outras 28 mil pessoas perderam a vida naquele campo naquele mês, em função da fome, do frio e das doenças. A maioria dos prisioneiros, nos últimos seis meses, era de mulheres. Edith morreu em Auschwitz. Otto sobreviveu a Auschwitz. Em 1947, publicou o diário de Anne, que havia sido encontrado na casa depois da invasão dos nazistas e da prisão dos oito. Anos mais tarde, o prédio transformou-se na Casa de Anne Frank, museu que guarda a memória daquelas vidas e daquele terrível período.

Autenticidade

Houve quem duvidasse da autenticidade do diário. Argumentou-se que uma menina entre os 13 e os 15 anos não teria conhecimento nem maturidade suficientes para escrevê-lo com tal profundidade. Na apresentação do livro*, informa-se que após a morte de Otto Frank, em 1980, aos 91 anos, os documentos (diário e outros papéis que o integram) foram entregues ao Instituto Estatal Holandês para Documentação de Guerra, em Amsterdam. Consta que o referido instituto mandou fazer uma profunda investigação a respeito, a qual concluiu por autênticos os documentos.

O texto passou por revisões gramaticais e, quiçá, de estilo antes da publicação. Houve seleção do que seria publicado, o que, em princípio, é natural: apenas uma parte do que se escreve se transforma depois em livro.

Realmente chama a atenção que uma pessoa tão jovem tenha escrito essas páginas. Todavia, cada indivíduo é um universo e talentos há que se revelam muito cedo. Por outro lado, é sabido que o sofrimento acelera ferozmente o amadurecimento do ser humano, que em condições tais queima etapas e se vê obrigado a antecipar uma visão adulta do mundo.

Sobre o diário manifestaram-se com admiração pessoas como o ex-presidente americano John F. Kennedy, o ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela e o escritor italiano e ex-prisioneiro de Auschwitz Primo Levi.

O testemunho

O relato de Anne Frank é, antes de tudo, bem escrito. Prende a atenção do leitor pela forma como é construído e pela matéria-prima com que trabalha. Anne conta como eram os dias no Anexo Secreto, as angústias, os conflitos, as perplexidades, tristezas, pequenas alegrias, esperanças e o medo sempre à espreita.

O texto surge como exercício de liberdade (a única possível naquelas condições) e resistência num ambiente absolutamente adverso. O confinamento de mais de dois anos num espaço pequeno, a convivência difícil de pessoas fragilizadas física e psiquicamente, o cerceamento da individualidade e dos sonhos, o desespero, a ausência dos direitos mais elementares, tudo isso faz do diário um documento único.

O testemunho de Anne Frank conta uma história que jamais poderá ser esquecida. Vale para todos nós. O nazismo continua atuante, seja através de organizações clandestinas, seja em coisas como o racismo e o ódio aos direitos humanos. Existem os que acreditam na superioridade de algumas pessoas, nações e culturas em relação às outras. Esse tipo de gente acha que os 'inferiores' precisam ser submetidos a qualquer custo. Contra essa barbárie aniquiladora do outro precisamos ficar atentos.

A palavra de Anne Frank, no seu apelo à dignidade da vida em contraste com a brutalidade diabólica e insana do totalitarismo, nos ajuda a refletir e a nos posicionar. E, sobretudo, a não esquecer.

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* O Diário de Anne Frank, tradução do inglês para o português de Ivanir Alves Calado, Edições BestBolso, 11ª edição, Rio de Janeiro, 2010.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A rua antiga me atravessa

Jorge Adelar Finatto


Colonia del Sacramento, Uruguai. photo: j.finatto


A vida se esconde na rua antiga.
A saudade mora aqui desde antes do mundo ser inventado.
Os passos dos habitantes se ouvem na longínqua estrela.
Quem nos vê, quem nos vale nesse labirinto?
A vida inteira no postigo.
Tantas coisas eu sonho.
Tantas coisas eu sinto.
As pedras da rua antiga são diamantes do oblívio.
O tempo nela escorre feito lágrima.
Ninguém vê essa cicatriz aberta na face do planeta.
Calado observador do fim do mundo.
A rua antiga me atravessa.

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Do livro Calado Observador do fim do mundo, Editora Vésper, Passo dos Ausentes, 2010.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Pietá com véu

Jorge Adelar Finatto


photo: Samuel Aranda. Prêmio World Press Photo 2011


A dor humana não tem fim.
A mulher recolhe em seus braços o corpo do homem que sofre.
Pietá moderna, o véu encobre-lhe a face, mas não esconde o gesto.
Mãos de zelo amparam o sangue e a lágrima.
Tudo explode ao redor.
Esses braços re-velam a proteção consoladora, a redenção do amor humano.
O resgate da urgente ternura, templo da compaixão.
O que essas mãos salvam está muito além do que as palavras podem.
O véu já não oculta, revela.


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Texto inspirado na fotografia do espanhol Samuel Aranda.
Aranda é o vencedor do World Press Photo 2011, divulgado na sexta-feira, 10/02. Mais importante concurso mundial de fotojornalismo, a imagem escolhida foi a de uma mulher de véu integral a abraçar homem ferido durante a revolta popular no Iêmen. O resultado foi anunciado em Amsterdam pelos organizadores do evento. A  fotografia foi escolhida entre mais de 100 mil. Na edição, foram analisados  trabalhos de 5.247 profissionais de 124 países.
Fontes: Agência Lusa e jornal Expresso, Portugal.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A aventura do flamingo cor-de-rosa

Jorge Adelar Finatto


Flamingo. Foto: Aaron Logan. Fonte: Wikipédia


O flamingo pousou na popa do veleiro quando passávamos pela Ilha do Barba Negra, na Lagoa dos Patos (que, àquela hora, brilhava sob o sol amarelo e intenso da tarde de fevereiro).

Pousou ao lado de Filipo, o papagaio marinheiro, que estava sentado e distraído na beira do barco, os olhinhos fechados, peito estufado respirando a brisa. Filipo deu um pulo de susto, o boné de marinheiro caiu na água. O flamingo recolheu-o com o bico.

Essas surpresas acontecem na vida de quem navega. Tínhamos saído para dar um giro com nosso veleiro Solitário, a fim de ver as belezas do rio, suas ilhas e pássaros. E também para ficar distantes do ruído e do trânsito violento da cidade, da correria agressiva e sem sentido.

Filipo indagou do flamingo, na linguagem das aves, qual era seu nome e de onde vinha. Ele respondeu que se chamava Arquibaldo e que vinha de Amsterdam, sua cidade natal, na Holanda. Vivia com a família num barco abandonado num dos canais daquela bela cidade. Estava em viagem de férias com os pais e irmãos quando o inesperado aconteceu.

Amsterdam. photo: j.finatto


Na altura do arquipélago dos Açores, uma tempestade dispersou a família de flamingos e arremessou Arquibaldo em outra direção, separando-o do grupo. Depois de vencer o medo e a ventania, voou muito e pegou carona num navio. Acabou chegando ao sul do Brasil após vinte dias. Estava exausto e atordoado com os últimos acontecimentos.

Os flamingos, em geral, têm a plumagem cor-de-rosa. Em Arquibaldo essa cor é ainda mais viva, um rosa antigo belíssimo. Providenciamos uma boa alimentação e um bom descanso para nosso novo amigo.

Arquibaldo é um flamingo adolescente e observador, com bom humor e espírito de aventura. Sentiu-se tão bem que pretende ficar conosco até o final do verão, quando então regressará para junto de sua família na casa-barco de Amsterdam.

O peixinho Moisés, nosso companheiro de navegações, saltou do rio para o interior do barco e ficou dentro do balde conversando com Arquibaldo. Na Ilha das Pedras Brancas, rumamos em direção ao Parque da Harmonia e, daí, para o velho cais de Porto Alegre, sempre ouvindo a incrível história do mais novo membro da tripulação.

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Mais aventuras do veleiro em:

Navegador de barco de papel
http://ofazedordeauroras.blogspot.com/2011/08/navegador-de-barco-de-papel.html

A volta do barco de papel
http://ofazedordeauroras.blogspot.com/2010/10/volta-do-barco-de-papel.html

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Bom dia, Mano Bisol

Jorge Adelar Finatto


pinturas: Maria Machiavelli


Habitava sozinho a quitinete diante do rio Guaíba. Um microcosmo formado por uma sala, que também era quarto, uma cozinha, um banheiro e uma janela.

Uns livros empilhados contra a parede, um radinho de pilha para ouvir as músicas da rádio da universidade, as últimas notícias (o mundo estava por acabar, só não sabia o dia).

Havia também quatro baratas (as sibilas) e algumas traças de saudosa memória. 

Naquele mínimo universo, não havia liberalidades de espaço, de dinheiro (que se contava aos centavos para o ônibus e o prato feito do almoço) e muito menos de ternura.

Tudo minimalista.

Ele, as sibilas, as traças e os livros povoavam aquele território perdido, cercado de austeridade e solidão por todos os lados.

Sobre a pia da cozinha, o fogãozinho com duas pequenitas bocas. Essas bocas, como a dele, estavam sempre fechadas.

O calado morador não sabia e nem tinha disposição para cozinhar. Comer sozinho, todos os dias, deixa o cara desamparado. O que saía (ao amanhecer e antes de dormir) era uma singela e morna taça de café com leite, pão e manteiga.

Solidão, farelo de pão. A festa das baratas.

Lá fora, na rua, a ditadura militar.

Às sete horas da manhã (que é quando os justos abrem os olhos para o sol que roça a veneziana), ele ligava o radinho para ouvir Bom dia, Mano, o ensaio falado do filósofo, poeta e desembargador José Paulo Bisol.

A cortina musical era a linda Voo sobre o horizonte, tocada pelo conjunto Azymuth (o cd com essa e outras músicas acaba de ser relançado pela Livraria Cultura, na sua Coleção Cultura).

Aquele era o momento de reunir forças antes de ir para a batalha. A palavra do Bisol tinha afeto, esperança, companheirismo. Carregava uma energia capaz de empurrar o vivente para o núcleo duro da realidade.

Havia naquelas frases um entusiasmo, uma ideia de que tudo na vida é possível. E, naquela altura, era mesmo.

(Palavras acendem um coração apagado.)

Com o bornal ao ombro e uma esperança difusa no peito, o sobrevivente saía então para enfrentar o mundo.

Gracias, Mano Bisol!

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Presença

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


Me tens aqui lutando
com secas palavras
para iluminar a treva
que nos reúne
em torno do lume
do poema

me tens aqui solidário
beirando a primavera
beirando os trintanos
com raros bens materiais
e nenhum privilégio
de credo ou classe

às vezes louco
às vezes patético
com poucos seres humanos
pra repartir
alguma coisa

me tens aqui poeta
num país injusto e sofrido
caminhando à beira de um rio

a sujeira flutua nas águas
os pobres equilibram-se
em perigosas palafitas

me tens aqui poeta lírico
cada dia mais lúcido

como a primavera
eu invado de repente
a sala adormecida
o coração desabitado

não tenho uma saída
para os dramas
que andam por aí

sequer possuo soluções
plausíveis
para os atrapalhos
cotidianos

o que posso oferecer
e ora ofereço
é essa canção discreta
para dissipar a sombra

um braçada de flores
no inverno

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Do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Rua sem sol

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


Os antepassados
negros e italianos
rasgaram o oceano
para que eu estivesse aqui
no futuro
olhando o fim de tarde
no horizonte dos muros

não possuo do imigrante branco
a esperança eldorada
nem a saudade triste do preto
em pranto mastigada

sou apenas um homem mestiço
olhando o movimento dos barcos

agora que a noite cai
sobre a cidade
e me surpreendo sonhando
com a fuga
por uma rua sem sol

________________

Do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Essa fome infinita

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


Último dia do primeiro mês do ano. Alguém dirá: estamos apenas no começo.

Mas eu acho, nessa minha vã filosofia de viajante do tempo, que a locomotiva está correndo demais.

Não quero a velocidade do trem-bala. Gosto mais do ritmo da maria-fumaça.

Por favor, Seu Maquinista, mais devagar.

Quero ver a paisagem. Quero conhecer e trocar palavras com os outros passageiros.

Quero não chegar tão cedo a lugar nenhum, a nenhuma estação. Não tenho pressa.

Afinal, todas as viagens estão mesmo fadadas a chegar um dia.

Só quero o caminho. Essa fome infinita de viver.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O instante é nossa eternidade

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto

A caminhada polifônica, essa que se faz para a observação da natureza e o alimento do espírito, precisa se adaptar às inclemências do clima.

O calor do verão dá muita canseira. Há quem goste (o que é de gosto regala a vida, diz o provérbio popular).

Quer dizer, um chapéu de palha é importante, assim também um cantil com água fresca, um borzeguim leve, não obstante robusto. Não esquecer, claro, telescópio, calepino e a Coruja, a câmara de revelar o mundo. Enfim, coisas do caminhante.

photo: j.finatto

Aqui na serra não se está de todo livre da força sufocante do astro-rei. Mas há a brisa generosa, o vento correndo nos cânions, os arroios, as árvores, sombras benignas.

As hortênsias já agora começam murchar, exaustas de tanta luz solar. Em compensação, inicia a vindima. O cheiro da uva nos parreirais e cestos de vime é uma promessa de felicidade. O sabor na boca das pretas, brancas e rosadas é pura epifania.

A polifonia andante demanda persistência, olhar inaugural e uma certa leveza no coração. Sim, leveza, sem a qual até o primitivo azul do céu nos oprime.

photo: j.finatto

O caminho oferece miradas. Lá longe, no vale, a casa branca entre os pinheiros. Crianças correm em volta. Uma mulher estende roupas no varal. São traços de tinta dentro da pintura.

Caminhemos, caminhemos sem pressa, disponíveis aos apelos do campo. Quem sabe encontraremos um bosque na beira do entardecer, pra descansar, fazer algumas anotações, sentir o tempo pulsar.

Somos figuras efêmeras numa irrepetível aquarela de verão. O instante é a nossa eternidade.

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Leia mais sobre a caminhada polifônica em O peixe da boca vermelha:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com/2011/04/o-peixe-da-boca-vermelha.html

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

A nossa morte dos outros

Jorge Adelar Finatto

photo: Vítor Rios, Global Imagens, Jornal de Notícias, Portugal.

Em Lisboa, duas mulheres foram encontradas mortas no apartamento onde moravam, na Travessa do Convento de Jesus. Uma tinha 74 anos, a outra, 80. Uma vizinha estranhou que elas não atendiam a porta há dias e informou a polícia. Os corpos estavam em decomposição e foram retirados nessa quarta-feira, 25.

De acordo com os primeiros informes, eram irmãs. A mais nova sofria de câncer e cuidava da mais velha, que estava doente na cama. A senhora de 74 anos veio a falecer, após prolongada enfermidade. A outra, que dela dependia, ficou sem receber cuidados, água e alimentos, vindo a morrer também. 

A tragédia aconteceu em Lisboa, mas fatos semelhantes ocorrem diariamente pelo mundo. O brutal isolamento das pessoas está em toda a parte.

Entre velhos e crianças, esta realidade é ainda mais triste, porque normalmente são indefesos.

Morre-se no silêncio do abandono e no retiro da dor. Morre-se de qualquer jeito, sem assistência, longe do olhar das autoridades, dos parentes e amigos. Morre-se distante das redes sociais, como bicho, num dia qualquer de janeiro. Ninguém põe atenção nisso.

Afinal, todos estamos muito ocupados com a internet, e-mail, facebook, twitter, skype, blog e sei lá mais o quê. Nos comunicamos com o mundo inteiro a todo instante, mas não conseguimos cumprimentar e muito menos saber o que se passa com o vizinho de porta.

A história dessas duas senhoras é o retrato devastador de um tempo de solidão, onde se morre sem ter ao menos uma mão para segurar, porque essa mão afundou e já não pode nos valer no mar de sombras.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Maestro Antonio Brasileiro, entre o Guaíba e Ipanema

Jorge Adelar Finatto


Faz hoje 85 anos que nasceu o maestro Tom Jobim (1927 - 1994). Além de músico e compositor genial, um cidadão do Brasil e do mundo. Amante das palavras que cultivou com raro zelo e maestria, amigo das pessoas, dos bichos e plantas, deixou-nos um legado de superação, talento e respeito ao outro. Quando ouvimos a música de Jobim, quando lemos seu verso e sua prosa, estamos mais perto de algo parecido com felicidade.


O coração do homem que nunca mais voltará resiste em silêncio. O navio avança nas águas do Guaíba em direção à Lagoa dos Patos. Jorge Jobim perde de vista o contorno de Porto Alegre. A figura melancólica recorta-se na memória da tarde de inverno. O grande mar de água doce (Mar de Dentro) remete Porto Alegre ao Atlântico. O Rio de Janeiro é o destino.

O tempo voa longe. No dia do futuro, alguém abre a gaveta. A claridade ilumina velhos papéis do homem que partiu. Eis ali o poeta e sua palavra.

O menino Antonio Carlos teve que reinventar o pai que perdeu aos oito anos. Acariciou suas mãos ausentes ao piano, nas antigas manhãs da casa de Ipanema.

O piano cantou a canção paterna: a nostalgia do sul, a saudade da família, dos amigos, o amor que se perdeu. Era preciso calar o esquecimento.
       

photo: j.finatto. cais antigo de Porto Alegre

Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim nasceu em 25 de janeiro de 1927 no Rio de Janeiro, filho de Nilza Brasileiro de Almeida Jobim, carioca, professora, e de Jorge de Oliveira Jobim, gaúcho de São Gabriel, poeta, bacharel em Direito com passagem pela carreira diplomática. Morreu em 8 de dezembro de 1994, nos Estados Unidos, para onde viajara a fim de se operar de um câncer.

O pequeno Tom veio com os pais a Porto Alegre, onde Nilza e Jorge haviam se casado, para conhecer a família Jobim. Por pouco não ficaram morando nas margens do Guaíba. Porém, falou mais alto o desejo de Nilza de morar no Rio, onde estavam seus familiares. No meio materno foi criado o menino Tom-Tom, apelido dado pela única irmã, Helena Jobim.

A grande perda: Jorge morre aos 47 anos incompletos, deixando os dois filhos em tenra idade.

O guri criou-se entre as montanhas e o mar do Rio de Janeiro. Os longos passeios pela mata e pela praia, as pescarias, o contato com bichos e plantas fizeram nascer o interesse pelas coisas da natureza. Tornou-se não apenas seu profundo conhecedor como defensor.

Entre os professores que teve, está o alemão naturalizado brasileiro Hans-Joachim Koellreutter, que lhe ensinou a transposição das fronteiras que separam a música erudita da popular. Alguns mestres que o inspiraram: Debussy, Bach, Stravinsky, Villa-Lobos.

Amoroso das palavras, Tom Jobim foi um leitor dedicado e atento. Cultivou, entre tantos, João Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade. Nas letras e textos que escreveu, percebe-se o artesão meticuloso do verbo.

A obra de Tom Jobim constrói-se na esfera da genialidade. Soube como poucos aliar talento a muito trabalho. As composições que nos legou transcendem as ensolaradas cercanias de Ipanema: são patrimônio espiritual da humanidade. Águas de março, Garota de Ipanema, Lígia, Dindi, Samba de uma nota só, Chovendo na roseira e Samba do avião são apenas algumas das inesquecíveis canções que integram a sua produção.

Um dos criadores da Bossa Nova, o maestro foi também um dos principais nomes da música mundial no século XX.

A descoberta da obra jobiniana nos leva a um mundo de delicadezas e felicidade. 

Amanhã, se tudo der certo, encontraremos o amor. Se a abóbada não ceder sobre nossas cabeças, se a Mata Atlântica - que o maestro tanto amou - não virar jardim calcinado, teremos quem sabe tempo para olhar a paisagem e sentir a vida.

Ouviremos, talvez, o canto do sabiá em setembro.

A música de Antonio Brasileiro transporta-nos a esse mundo futuro e antecipa-nos a maravilha.


A vida era por um momento.
Não era dada. Era emprestada.
Tudo é testamento.
                                                      Antonio Carlos Jobim* 

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Foto: Antonio Carlos Jobim. Fonte: Acervo do Instituto Antonio Carlos Jobim: http://www.jobim.org
Texto publicado originalmente em 05 de junho, 2010.
*Palavras finais de ACJ na apresentação do disco Urubu, 1976.
Leia texto de Helena Jobim, irmã de Tom:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com/2011/04/o-livro-na-praca.html

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

António Lobo Antunes: Ah, se pudesse escrever como Messi joga futebol!

Jorge Adelar Finatto

photo de António Lobo Antunes. Autor: Pedro Loureiro, El País.

O que li até agora do escritor português António Lobo Antunes foi seu Livro de Crônicas, que me causou excelente impressão. O autor se nutre de material cotidiano, da memória e do inconsciente, compondo páginas onde se destaca a realidade não desprovida de ternura. Um texto denso, econômico nos adjetivos, no qual se percebe uma visão de mundo entre a crueza, a melancolia, a lucidez e o afeto.

A seguir, reproduzo alguns trechos da entrevista que ele concedeu ao jornalista Antonio Jiménez Barca, do jornal espanhol El País. A matéria foi publicada em 14 de janeiro último. Nascido em Lisboa (onde vive), em 1º de setembro de 1942, Lobo Antunes completará 70 anos em 2012. Médico psiquiatra por formação, entre 1971 e 1973 atuou como tenente-médico do exército português, em Angola, durante a Guerra Colonial. Essa dura experiência atravessa alguns de seus livros.

Exerceu a medicina até dedicar-se integralmente à literatura.

É um dos autores portugueses mais lidos e premiados da atualidade, tendo publicado diversos livros, entre eles Memória de Elefante e Os cus de Judas. O mais recente (2011) é o romance Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?

Seguem as declarações de Lobo Antunes a Antonio Jiménez Barca, que verti para o português em tradução livre.

                                                     
§ O que eu gosto, o que eu persigo nos livros é a felicidade na mão do escritor.

§ (...) sabe o que dizia Cervantes do castelhano? Que era como o português, porém com osso. É verdade: o castelhano é um idioma muito forte. O português é muito plástico, um bom idioma para escrever. Mas esconde o perigo de sua própria facilidade. Tens que lutar todo o tempo contra essa facilidade... É muito mais difícil fazer um bom livro em francês que em português, creio. Por isso o trabalho de Céline ou de Proust me parece incrível.

§ Enquanto se escreve não se pode pensar no leitor. Se fazes mesuras ao leitor, o livro resulta ruim. Falei muito com Juan Marsé (um amigo meu que gosto muito como escritor, cujo último romance, Caligrafia dos sonhos, me parece uma maravilha) que não se pode transigir nisso. O escritor tem que fazer o que tem que fazer. E se agrada ao leitor, melhor. E se não lhe agrada...

§ Levei muito tempo para encontrar meu estilo, muitos anos. Com trabalho.

§ (...) comecei a publicar tarde, com 36 anos. (...) jamais volto a ler o que escrevi. (...) porque tenho medo de encontrar defeitos muito grandes e pouca qualidade. Só se pode escrever se estamos convencidos de que é o melhor. E depois, é tão difícil, e há tantas decepções com os próprios livros...

§ Cada vez mais os livros se fazem sozinhos. Antes os planificava muito. Agora não.

§ (...) normalmente, trabalho 12 horas por dia. Agora não. Agora espero. Não sei se já escrevi meu último livro, se vou ser capaz de escrever um outro. A verdade é que nunca sabes...

§ (...) escrever é a única coisa que sei fazer, que faço. Além disso, tenho a impressão de que os livros não me pertencem, de que nem ao menos tenho o direito de pôr o nome na capa. Eles vêm de partes tuas - ou não tuas - que não conheces. Nos bons momentos a mão caminha só.

  A literatura não se faz com a lógica da cabeça, senão com a dos afetos, com a dos sentimentos ou das emoções.

§ As primeiras redações são sempre ruins. O problema não é escrever, mas corrigir. Para corrigir, teu estado de espírito deve ser completamente diferente. Aí se tem de estar vigilante. E tratar de vertebrar teu delírio.

§ Nunca servi para outra coisa. Não sirvo para a vida prática. Nem sequer tenho computador: escrevo à mão, porque é como bordar, gosto do cheiro do papel, gosto dessa coisa artesanal da escrita, o desenho das letras. Há três ou quatro coisas importantes na vida: os livros, os amigos e as mulheres... e Messi. Há pouco o vi, na tv, no Mundialito.

 Ah, se pudesse escrever como Messi joga futebol! A bola parece apaixonada por ele!

§ As pessoas vivem muito mal em Portugal agora. Faz dois dias, fui comprar cigarro e no quiosque duas senhoras quase se matam por dez centavos. Este bairro é um bairro pobre, onde há restaurantes muito baratos, tascas modestas, onde podes comer por cinco ou seis euros. Antes estavam sempre cheios. Agora estão vazios. As pessoas não têm dinheiro. O desemprego aumenta e, ao mesmo tempo, há uma classe social com muitíssimo dinheiro. É tudo muito injusto.

sábado, 21 de janeiro de 2012

O direito à solidão

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto

Um banco vazio na estação.
Eu quero sentar naquele banco.
Um pássaro cantando na janela do trem.
Eu quero viajar.

Uma das coisas mais enlouquecedoras que conheço é não poder ficar só.

O homem é um ser gregário que necessita desesperadamente de solidão para se construir.

Precisamos ficar a sós com nossos pensamentos e sentimentos. Senão, perdemos a face.

O direito à solidão é uma das principais conquistas na vida de uma pessoa.

Poder ficar um pouco sozinho é tão essencial quanto conviver.

Estar no meio de gente é a melhor coisa, desde que seja uma escolha. Da mesma forma, permanecer isolado do mundo nos leva à desumanização.

Através da solidão traçamos o caminho para chegar ao outro. Conhecendo-nos melhor podemos conviver melhor.

O poder estar só, recolhidos com nossos botões, é uma questão de saúde mental e espiritual. Depois, vamos ao mundo.

Por falar nisso, vou agora ao Café da Ausência, na estação de trem abandonada de Passo dos Ausentes, a fim de encontrar os amigos para o costumeiro cappuccino com leve toque de graspa, no fim da tarde.