quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Entonces es necesario piramidar

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. Recriação do quarto de Van Gogh em Arles. Museu Van Gogh, Amsterdã.


A internet é uma árvore cheia de galhos e ramificações que se espalham por todo o mundo. Blogues e sites são como ninhos que se alojam nessa frondosa árvore planetária.

Faz hoje dois anos que O fazedor de auroras está na rede. Agradeço a presença das pessoas que nos visitam. É uma satisfação recebê-los.

Todo mundo é ocupado demais. Por isso cada visitante tem de ser recebido como alguém especial. É o mínimo que procuro fazer nesta sala simples, porém sincera.

Não faço balanços de fim de ano, porque tenho enjoos de navegar por essas águas. Se paro para pensar, parece que tudo ficou por dizer ou fazer.

Mas quando olho em frente, sinto que existe muita estrada verde e iluminada querendo ser pisada.

Prefiro, então, nessa hora piramidal (?), recorrer aos versos do amigo e grande poeta Heitor Saldanha:

 Las pirámides están llenas de luz.
 Entonces es necesario piramidar.*

A foto acima é um mimo (??) aos dois leitores do blogue. É a representação do quarto de Van Gogh, em Arles (cidade ao sul da França, onde o artista viveu um certo período).

A montagem, feita com móveis, quadros e objetos, é fiel à pintura do gênio holandês, datada esta de 1888. A instalação está no segundo andar do Museu Van Gogh, em Amsterdã, a poucos metros do quadro original.

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* Do livro A Hora Evarista, trecho de Poemeto, Heitor Saldanha, Instituto Estadual do Livro, Editora Movimento, Porto Alegre, 1974. 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O menino e o cego

Jorge Adelar Finatto


O menino caminha
pela mão do cego

o cego carrega os livros
na velha mala de couro

traz a alma partida
o violino pendurado ao ombro

cavaleiros passam lentamente
na noite da rua São João
dormem sobre os cavalos
com grossas capas azuis
os chapéus caídos nos olhos

vão para o olvido

o menino e o cego
a torre e o sino
a estação
a lua fria
o trem que parte

o vento agita as folhas

gira atônito
cata-vento
do tempo

a vida não será
mais a mesma

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Poema do livro Memorial da vida breve, Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.
Ilustração de Paulo Porcella.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O escândalo continua (ou uma orquestra de sopros e cores no jardim)

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto

As flores perderam a noção do razoável e do pudor. É difícil olhar para o jardim e não corar (como um frade de pedra não pode fazer). Estava no escritório, na dura faina, olhando o mundo pela janela (a triste sina), quando comecei a ouvir instrumentos de sopro lá fora.

Caminhei até a breve varanda da clausura. Descobri, entre aromas, um conjunto floral em concerto, tocando seus instrumentos.



Desnecessário dizer que daí por diante perdi a concentração no que fazia. Passei o resto do dia esticado na cadeira de balanço com aquelas músicas, aquele perfume, aquelas finas cores.

photo: j.finatto


Alguma coisa está fora do controle. A beleza brutal e desumana dessas flores açula, em meio ao caos, os corações secos, abre as janelas do sentimento.

Não sei como essa insensatez vai acabar. Pra falar verdade, não estou muito preocupado. Afinal, dizem, não há mal que sempre dure.

photo: j.finatto


quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Vitorino Nemésio, mestre da palavra

Jorge Adelar Finatto

photo: Vitorino Nemésio*


Esta saudade desesperada e impertinente que tenho do que já fui.** V.N.

No mês passado, em Lisboa, uma tarde ia pela Rua Garrett, no Chiado, decidido a encontrar algum livro do poeta, cronista e ficcionista português (açoriano) Vitorino Nemésio (1901-1978). Conhecia-o vagamente, de ouvir falar.

Entrei numa livraria e descobri na estante Viagens ao pé da porta, um de seus vários livros, volume de crônicas editado pela Imprensa Nacional - Casa da Moeda, de Portugal. Entusiasmado com o achado, fui sentar no café A Brasileira para a costumeira pausa do cafezinho e da leitura.

Impressionou-me muito o texto do autor nascido nos Açores (as ilhas outra vez, onde também repousa a origem materna de Fernando Pessoa).
 
Eis um senhor  escritor e um notável humanista, combinação que só raramente encontramos. Combinação que faz de um escritor um grande escritor.

Às vezes, o indivíduo escreve bem, mas não tem lá muito o que dizer. São escritores ligeiros, cuja profundidade é a de um rio a que uma formiga atravessa com a água pelas canelas.

Em outro caso, a pessoa tem conteúdo, mas não talento para expressar-se com arte através da palavra escrita.

Nemésio, que foi professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde se aposentou (lecionou, também, na Bélgica e no Brasil, por algum tempo), é um caso sério da escrita e do pensamento em língua portuguesa.

Ouçamos um pouco as suas palavras:

Cartas-prefácios já se não usam. Algum desabafo, em volume, é logo levado à conta de prolixidade e pieguice. Tudo se tornou tecnicamente curto e teleimediato...

Mas eu fui criado com o dito de "quem não desabafa rebenta", e preciso expandir-me.

Este livro é fraca coisa: Viagens ao pé da porta - confissões de um pequeno filósofo (como dizia o nosso defunto vizinho Azorin) emparedado numa aldeola das abas da Cumeada de Coimbra. É um livro feito dos papéis avulsos de uma longa colaboração na rádio e na imprensa periódica, em cujo impressionismo pude contudo guardar a liberdade interior da reflexão e da poesia. (...) [Dedicatória]

Deus dá o peixe à rede, o grão ao arado, a lenha ao machado, a palavra à pena e a pena à galinha. Depenei a minha galinha, aparei a minha pena, copiei o meu traslado Ao calor do meio-dia a fonte rendeu a última gota de água. O pote está cheio. Oxalá a água chegue para enganar a sede, - pelo menos ao dono do pote... [Filosofia aldeã]

Por que será que tudo na vida se não reduz a silêncio de campo e a sombra de árvore? A verdade é que trememos como varas verdes diante da morte, que já é raro apanhar-nos na cama, como apanhou nosso avô, mas vem sorrateira e mecânica no guarda-lamas de um camião ou na mesa de mármore da cervejaria de esplanada, secção de doenças súbitas. (...) [Terceira crônica das águas novas]

O segredo da nossa segurança espiritual consiste afinal em sabermos que a perpétua emboscada não desarma. (...)[Páscoa na aldeia]

Assim é este artesão do verbo: dono de um texto altamente elaborado, ao mesmo tempo que poético, simples e profundo. Seu invulgar humanismo (foi amigo e correspondeu-se com o filósofo espanhol Miguel de Unamuno) nos leva a ver a vida com resignada esperança e dignidade.

Demorei a chegar ao cais do belo escritor açoriano Vitorino Nemésio, cheguei talvez com atraso. Mas, enfim, cheguei.

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*Quando for conhecida a autoria da foto, será dado o devido crédito.

** Frase extraída do texto Terceira crônica das águas novas.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O escândalo das hortênsias

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. Passo dos Ausentes


As hortênsias resolveram embelezar o mundo. Era só o que faltava.

Em meio a tanta desilusão, tanta feiura das almas, tanta gente má e casca grossa, vêm agora as hortênsias e decidem distribuir beleza e graça. Um negócio muito estranho.

photo: J.finatto

Um verdadeiro absurdo aqui em Passo dos Ausentes.

Quando achava que não tinha mais jeito, quando nada mais esperava diante do triste espetáculo humano, as hortênsias surgem em silêncio, espargindo cor e delicadeza sobre cinzas.

Essa beleza é mesmo uma violência contra o cidadão acostumado ao deserto e ao cotidiano tapa na cara.

Nem maldizer a vida em paz a gente pode mais.


photo: j.finatto

sábado, 10 de dezembro de 2011

As últimas páginas

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto


Quem me espera, a essa hora, na Travessa da Espera, no Bairro Alto, em Lisboa?

Eu passo invisível por vielas retorcidas em mil labirintos. Em cada esquina, uma nesga do Tejo e um fado. 

Anoitece, personagens saem das portas como das páginas de velhos livros, ganham as ruas, carregando seu abismo, sua dor, seu sonho, sua dificuldade de viver.

Um fantasma caminha rente às portas das tascas, o chapéu caído nos olhos.

As janelas abrem-se para o rumor e os cheiros que vêm da calçada.

Cada um de nós é um romance, mergulhados estamos no livro da própria existência, escrito por não se sabe que caprichoso autor.

Mas quem quer ler as últimas páginas?

Ninguém me espera na Travessa da Espera.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Anelo de luz

Jorge Adelar Finatto

 
lua crescente entre galhos, Lisboa. photo: j.finatto


Um anelo de luz entre as folhas, um vislumbre de claridade. Uma passagem vista da terra, olhar de um calado observador. Fragmento lácteo do universo. Um lugar distante e particular como cantar para si mesmo.

E tu caminhas no frio, o bolso cheio de pétalas vermelhas, por um caminho coberto de folhas não escritas. Um vocabulário de buscas e silêncios.

Passageiro e passagem se  misturam. Caminham perto da estrela. Viagens são anelos guardados no fundo do coração. Quem precisa de avião, se já nascemos com asas?

Uma pergunta atravessa a ponte.  Uma trincheira no vazio.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Melody Gardot e o retorno do pássaro

Jorge Adelar Finatto

Flores com bicicletas ao fundo. Amsterdam. photo: j.finatto


No retorno de Amsterdam a Passo dos Ausentes, onde acabo de chegar, escutei Melody Gardot nos fones de ouvido, dentro do pássaro prateado, na travessia da noite atlântica.

Descobri Melody no quarto de hotel, na Place de la Sorbonne, Quartier Latin, em Paris, onde gosto de ficar. O dia estava frio e nublado, resolvi ler e ouvir música numa rádio que só toca jazz. Lá pelas tantas, veio aquela voz sentida, cálida, íntima como de alguém que conhecemos há muito tempo.

Anotei o nome e no outro dia, na loja de discos, adquiri seus dois cds: Worrisome heart My one and only thrill ( Incômodo coração e Minha primeira e única emoção, em tradução livre). Apesar do sobrenome, ela não é francesa, mas americana, nascida em Nova Jérsei, em 2 de fevereiro de 1985.

Compositora, Melody diz as coisas que impressionam seu jovem coração ferido, com a voz mais doce desse mundo. Na apresentação do primeiro disco, agradece aos homens que maltrataram seu sentimento, porque deixaram material para compor suas músicas. Tudo tem dois lados.

Interessante a maneira como Gardot encontrou a música. Um dia, enquanto andava de bicicleta, aos 19 anos, foi atropelada por um automóvel. O início de sua carreira está relacionado com esse acidente, do qual lhe resultou traumatismo craniano. Seguindo sugestão de seu médico, Melody voltou-se para a composição. Criou algumas canções quando ainda estava de cama, incapaz de caminhar.

A musicoterapia deu frutos e ela fez uma pequena gravação a que chamou de Some Lessons - The Bedroom Sessions, base de Worrisome heart. Tudo tem dois ou mais lados.

Recomendo aos meus dois leitores que procurem ouvir essa doce e inspirada Melody Gardot. Acho que gostarão.

A vida, enfim, sempre se renovando, trazendo o novo, luz benigna em meio à escuridão.

O pássaro pousou outra vez. Vou agora respirar o ar das montanhas, abrir as janelas, olhar longe, escutar um pouco de silêncio.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Oscar Wilde: o beijo proibido

Jorge Adelar Finatto

Mulheres beijam o túmulo de O.Wilde. Autor: Peter Horree/Alamy. Fonte: www.cartacapital.com.br


O escritor que, em vida, teve os beijos proibidos, nem na morte pode recebê-los .

Inauguraram, no último dia 29 de novembro de 2011, o túmulo reformado do escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900), no Cemitério Père-Lachaise, em Paris. Estive no local poucos dias antes, no domingo, 20/11, e no mesmo dia escrevi aqui sobre o assunto (Visita ao cemitério).

Leio que a reforma foi financiada pela família do escritor e pelo governo da Irlanda, e contou com a execução técnica do departamento de Monumentos Históricos da França.

Em 1950, foram ali depositados os restos mortais do amigo de Wilde, Robert Ross. Em razão do homossexualismo, o escritor chegou a ser condenado a dois anos de prisão com trabalhos forçados, na Inglaterra, em 1895, fato que desestruturou sua vida e sua saúde de modo irremediável. Na prisão, escreveu o texto de natureza confessional De profundis. A terrível experiência do cárcere levou-o, também, a escrever sobre a necessidade de revisão total das condições de vida nas cadeias.

Sobre o túmulo de Wilde foi erguido, em 1912, um monumento, uma esfinge alada, pelo escultor Jacobs Epstein. O conjunto da obra foi declarado patrimônio histórico em 1997. Merlin Holland, neto do autor, e Dinny McGinley, ministro irlandês das Artes e do Patrimônio, estiveram presentes na inauguração, assim como o ator britânico Rupert Everett, intérprete de escritos do criador de O Retrato de Dorian Gray. Todos estavam muito felizes com a reforma.

A triste e asséptica novidade, contudo, é que, de agora em diante, não será mais possível beijar o túmulo, nele deixando as alegres e coloridas marcas de lábios com batom, demonstração de afeto que começou, de forma misteriosa, por volta dos anos 1990. Os responsáveis pelos trabalhos ergueram em torno do mausoléu placas de vidro de dois metros de altura para manter distantes os lábios dos admiradores.

Segundo afirmam, as marcas de batom enfeiaram o local ao longo dos anos, prejudicando o monumento, pois o conteúdo gorduroso do batom penetrou profundamente na pedra. Acreditam que os fãs de Wilde serão agora mais sensatos que apaixonados, protegendo-se, assim, melhor a memória do autor (sic).

Não acredito em proteção contra o amor.

Aliás, a humanidade anda farta de proteção desse tipo. Também não creio que possa existir maior manifestação de respeito e carinho do que beijar o túmulo de um escritor que morreu pobre e esquecido, em 1900, num quarto humilde de hotel, perto do Sena, em Paris. No lugar de proibir os beijos, poderiam ter feito diferente: criar no ambiente um espaço que acolhesse esses beijos, que os facilitasse, enquanto invulgar manifestação de carinho.

Ao invés de preocupar-se em proteger a integridade fria e monumental da pedra, deviam receber melhor esses lábios, dar-lhes o amparo que merecem.

Eles, os beijos, expressam o verdadeiro monumento imaterial a ser preservado acima de tudo, em tempos de pouco afeto e de raras manifestações de calor humano.

O escritor que em vida sofreu a proibição dos beijos não pode usufruí-los nem na morte.

Equivocam-se, na minha opinião, os familiares e reformadores do túmulo, que procuram afastar a demonstração de vida e ternura, em homenagem à aparência insípida, inodora e despida de qualquer sinal de gordura dos lábios humanos.

Poderia mesmo dizer aos meus dois leitores que estou de saco cheio de certo tipo de mentalidade, cúmplice da indiferença, do distanciamento, da ostentação e da frieza.

Pelo que conheço de Wilde, ele detestaria essa reforma que o protege do amor dos leitores. Amor que lhe foi negado em sua breve e sofrida vida.

Deus nos proteja dos nossos protetores.

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Leia sobre a viagem de O.Wilde a Passo dos Ausentes:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com/2011/04/oscar-wilde-em-passo-dos-ausentes.html

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Um sopro de alegria

Jorge Adelar Finatto

photo:j.finatto


Amsterdam. Um habitante dessa cidade de vento, bicicletas e canais me diz que o tempo anda diferente: nessa época do outono, já devia estar nevando. No entando, a temperatura anda pelos sete, oito graus de dia, com garoa às vezes. À noite esfria mais. Neve, porém, nada.

Cá com meus botões, esse friozinho é coisa pequena pra quem vive em Passo dos Ausentes. O povo aqui é fiasquento para o frio, põe logo os capotes. Eu fico só olhando.

O que mais sinto falta é da amplitude dos nossos vales e das montanhas. Na Holanda tudo é plano, uma boa parte abaixo do nível do gelado Mar do Norte. O território encantado para os ciclistas que andam pela cidade feito abelhas. A sequência inumerável dos prédios de tijolinhos ocres, brancos, vermelhos, marrons e amarelos nos leva a voltas infinitas em torno de um lugar comum.


photo: j.finatto

Agora caminho por uma alegre feira de rua. Nela se vendem frutas, verduras, peixes, roupas, eletrônicos, mil utensílios. E, pra refazer o coração, tulipas. 

Sim, tulipas de vivas e cálidas cores.

Um sopro de alegria em meio à melancolia dos barcos e do vento no entardecer.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Um vento com jeito de despedida

Jorge Adelar Finatto


Van Gogh Museum - Amsterdam

Amsterdam. Essa é a cidade das mil pontes que atravessam os cem canais espalhados por todos os cantos. Um labirinto. As casas de tijolinhos ocres e marrons sao todas iguais e parecem saídas daqueles jogos de construir para criancas.

A monotonia da paisagem nos dá a sensacao de não sair do mesmo lugar. O que salva é o bailado das gaivotas sobre as aguas turvas.

Amsterdam é, sobretudo, o Museu Van Gogh. A coleção abrange obras que vão desde a formação até a maturidade do artista. Um encanto. Me emocionei diante da pintura do quarto onde ele morou em Arles.

O vento passa sobre os barcos e invade as esquinas. Um vento com jeito de despedida.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O escolhido de Deus

Jorge Adelar Finatto

"A Catedral", escultura de Auguste Rodin, Museu Rodin, Paris. photo: j.finatto

Paris. Sempre penso que Deus fala através dos artistas. Acho que eles têm a missao de continuar a criaçao do mundo. Carregam a centelha divina capaz de revelar a beleza escondida. Iluminar o calabouço da condiçao humana faz parte deste designio.

Fui visitar o Museu Rodin. Esse homem foi um artista abençoado. As esculturas que fez em materiais dificeis como marmore e bronze sao absolutamente belas. Mesmo um admirador eventual como eu nao fica insensivel diante de tanta beleza.

Deus colocou nas maos, no coraçao e na mente de Auguste Rodin  um talento especial para esculpir, pensar e sentir sua arte - e ele soube aproveitar (para nosso proveito e encanto). Chegamos a duvidar que um ser humano seja capaz de realizar obra tamanha em quantidade e qualidade. Sao esculturas divinas.

Eu poderia ficar na frente de um pedaço de marmore uns dez anos e, pelo pouco que sei de mim, nao sairia sequer um traço, quanto mais uma simples escultura.

Deus distribui talentos, a cada um de um jeito. O segredo esta em descobrir a capacidade que nos destinou e depois trabalhar, trabalhar muito. Dar o nosso melhor para tornar a vida menos sofrida e mais bonita, eis ai um belo projeto, nesse planeta onde tantas vezes nos sentimos exilados do paraiso.

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As fotos virao em breve.
Conto que continuarao a distribuir os acentos pelas palavras, sem avareza.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Memória nas ruas de Paris

Jorge Adelar Finatto

"Em memória das crianças, alunos dessa escola [Lycée Henri IV], deportadas de 1942 a 1944 porque nasceram judias, vítimas inocentes da barbárie nazista, com a cumplicidade ativa do governo de Vichy. Elas foram exterminadas nos campos da morte. Não as esquecemos jamais". (tradução livre e photo: j.finatto)


Paris. Uma das coisas que admiro nos franceses e' a consideraçao que têm pela memo'ria historica. Em Paris, a cada passo encontramos placas na via publica. Elas contam coisas boas e ruins que aconteceram por aqui. Ha' um respeito pela verdade.

Nao se trata de uma memoria seletiva, hipocrita. Numa escola de crianças, no Quartier Latin, ha' uma placa na parede que da' para a rua informando que, durante a ocupaçao nazista, muitos meninos e meninas judeus desse colegio foram levados para os campos de concentraçao alamaes, com a concordancia das autoridades francesas, sendo depois assassinados.

Na esquina dos bulevares Saint-Michel e Saint Germain, uma outra placa informa que, naquele local, no dia 19 de agosto de 1944, Bottine Robert foi morto pelos nazistas por lutar pela libertaçao de Paris.

Sao fatos completamente diferentes dentro de um mesmo contexto historico, revelados nas ruas da cidade, 'a luz do sol ou da lua, pra quem quiser saber. E' importante que assim seja, que todos saibam, para que essas coisas nunca mais se repitam.

Que a historia contada e sabida sirva de farol dentro do negrume dos tempos atuais, em que mais uma vez a crise mundial testa a capacidade dos paises em se solidarizar para evitar o pior.

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Espero que os caros leitores façam aquilo que nao estou conseguindo por aqui: distribuam generosamente os acentos nas palavras.

domingo, 20 de novembro de 2011

Visita ao cemitério

Jorge Adelar Finatto

Aviso (com beijinhos) diante do túmulo em obras. photo: j.finatto

Paris. O domingo de sol e frio e céu azul foi ideal para visitar o Cimetière du Père-Lachaise. Muita gente vem a esse cemitério, inclusive em grupos com guia, porque nele habitam (silenciosamente, claro) vultos da cultura, ciência, artes, filosofia, politica, etc.

Vim pra conhecer um tumulo em especial, o de Oscar Wilde. Esta em reforma, mas ainda assim pude constatar o que sabia por ouvir dizer: nele se depositam sempre muitas flores e bilhetes e beijinhos apaixonados com batom vermelho sobre a lapide gelada.

photo: j.finatto

As pessoas dirigem-se ao escritor como alguém vivo, capaz de lhes transmitir impulso vital e alegria de viver. Nenhum outro, nessas cercanias tao caladas, tem esse apelo e nem visitantes tao dispostos a celebrar a vida. Proust e Balzac estao aqui perto, mas nao tem comparaçao. 

Pra toda essa gente, Oscar Wilde, mesmo morto, continua muito vivo. Nao pode haver maior gloria para um escritor. Oportunamente virao as fotos e os acentos.

sábado, 19 de novembro de 2011

Quanto vale

Jorge Adelar Finatto

Madri. Dizem que a poesia nao dá retorno econômico, os livros  de poemas nao vendem ou vendem mal. Em tempos como o que vivemos, o dinheiro passa a ser tudo, porque esta é a lei dos que mandam no mundo, o sistema bancário e a indústria de armas.

A vida podia ser muito melhor para todos mudando algumas peças desse tabuleiro. Nos Estados Unidos e na Europa, os peoes, torres, cavalos e bispos começam a avançar contra os reis e rainhas do atual sistema.

A economia é uma dimensao importante da realidade, mas nao pode ser a única a ditar regras.

Quanto vale, eu pergunto, o Poema em linha reta do Fernando Pessoa (lembrando que ele escreveu centenas de outras obras-primas como essa)? Ele que passou a vida dependendo de favores de familiares e de amigos, muito embora trabalhasse como tradutor em casas comerciais.

Quanto vale, para as finanças do país e do universo, o amanhecer  sobre a névoa em Passo dos Ausentes, o som do riacho escorrendo entre os seixos, à sombra das árvores?

Quanto vale a queda amarela dessa minúscula folha, na tarde de outono, um acontecimento irrepetível, porque nunca mais haverá esta folha nem este momento?

Quanto vale o nosso sentimento em relaçao às pessoas e  ao mundo?  Pense nas coisas que lhe sao caras. A maioria delas nao tem seu valor estimável em dinheiro.

As coisas espirituais nao podem ser reduzidas a um  sorriso irônico e simplesmente jogadas no lixo como sao.

A crise por que passamos é uma oportunidade de mudar o jogo, tornar o  planeta mais humano, pondo fim à fabricaçao e venda de armas e impondo limites aos imperadores dos bancos. Mais agricultura, mais livros, menos conflitos, mais vida.

Escrevo enquanto espero o trem na estaçao de Atocha,  saboreando a invencível taça com pao e manteiga. A vida pode ser simples e boa.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Com Lorca pela Andaluzia

Jorge Adelar Finatto

De Granada para Madri. Leio no El País (o Rio Grande do Sul é que merecia um jornal assim) que certos intelectuais espanhóis costumam dizer que, se Federico García Lorca nao tivesse sido assassinado, provavelmente teria acabado como letrista de Rocío Jurado (1946-2006), uma cantora popular aqui da Espanha. 

O autor do artigo, David Trueba, afirma que talvez fosse mesmo assim, ao argumento de que, neste país, se nao se assassinam ou levam ao exílio os grandes talentos,  eles sao condenados a uma sobrevivência precária. Todavia, ele nao considera uma derrota ser letrista de Jurado, que trabalhava a música sentimental  e cuja arte ajuda a entender o modo de ser e sentir do espanhol.

De minha parte, digo aos meus dois leitores (eram três, mas acho que um se mudou de mala e cuia para outros blogues, no mundo cruel  e sem coraçao da rede infinita de pescar leitores), pois digo-lhes que a ponderaçao acima vale para a Espanha, mas vale também para o mundo inteiro.

Os poetas e artistas sao seres incômodos, improdutivos, que pesam na vida da tribo, como as cigarras, ao contrário das sempre previsíveis e obreiras formigas.

No Brasil, onde nao se assassinam poetas, a indiferença do meio se encarrega de asfixiá-los. O Estado, a quem cumpre o papel de estimular a criaçao cultural em geral, atua de forma tímida e as oportunidades oferecidas sao poucas.

A arte, entre nós, será sempre ou quase sempre um milagre. O esquema industrial de produçao atua com valoraçao do lucro e, para tanto, despreza a criaçao enquanto alta manifestaçao do espírito. Nao há interesse nisso.

Os criadores sao levados muitas vezes a uma condiçao de párias sociais, às vezes em humilhante situaçao de dependência. Isso tudo é ruim, porque a arte é um poderoso formador de consciências e uma fonte de bem-estar emocional.

Estou convencido de que toda vez que alguém "perde tempo" tentando escrever um texto, pintar um quadro, tocar um instrumento, cantar uma música, dançar, representar, etc., o mundo melhora um pouco.


quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Zambra para Federico

Jorge Adelar Finatto

Pero yo ya no soy yo,
ni mi casa es ya mi casa.
Compadre, quiero morir
decentemente en mi cama.
(Romance Sonámbulo, Federico García Lorca)

Granada, 13 nov. O que pulsa à sombra das vetustas paredes da Alhambra? A velha cidade rumina o passado enquanto resiste ao presente. Ainda há pouco o vulto de Federico atravessou a Plaza del Carmen. A garoa noturna umedecia os olhos negros gitanos, o sorriso aberto do caballero de fina estampa.

O que pulsa na escuridao à beira da Alhambra? A Federico mataram por política, poder e ódio. A poesia sobreviveu. Nunca a mataram, nao conseguiram apagar . A poesia sobreviveu ao corpo nunca encontrado, à covardia dos assassinos. A poesia sobreviveu à angústia dos últimos momentos diante dos algozes.

A voz do poeta continua entre nós. Federico, viajante do tempo, nos deixou as palavras e a perplexidade do fim. 

O que pulsa em Granada, na noite de garoa e silêncio, é o poema cálido e vermelho de García Lorca.

domingo, 13 de novembro de 2011

O rio Guadalquivir e as folhas douradas do outono

Jorge Adelar Finatto

Sevilha, 11 nov. Esta é a cidade dourada pelas folhas dos plátanos no outono e pelas laranjas que começam a amadurecer nas incontáveis árvores que se espalham pelas ruas. Também é um lugar que incentiva o uso das bicicletas, com ciclovias bem organizadas em meio ao intenso trânsito de veículos. Existem bicicletas à disposiçao em certos pontos.

O rio Guadalquivir traz em si a lembrança dos fenícios que navegaram por aqui. De lá para cá muitos outros navegantes passaram por essas águas, como os romanos do antigo império. Mais de dois mil anos de história nas ruas e no curso do rio. Os marcos históricos estao por toda parte.

Pra mim, o que mais impressiona é o Palácio Real Alcázar, construído pelos árabes a partir do século VIII e continuado depois pelos reis católicos. Os traços entre amplos e minimalistas da arquitetura árabe valem a observaçao atenta.

Mas é nos jardins delicados, cultivados em diversos ambientes de repouso e meditaçao, que o coraçao bate encantado. Existem fontes de várias formas entre as trepadeiras coloridas, com aquele som da água escorrendo sem pressa. E muitas flores, arbustos e árvores que nos devolvem a uma espécie de éden perfumado.

O sevilhano sabe tratar o viajante e nao economiza educaçao. Nos telejornais e conversas o assunto é a crise da zona euro e as eleiçoes gerais da Espanha no próximo dia 20. Percebo que existe, por parte dos europeus em geral, uma certa admiraçao pelo atual momento do Brasil. Lula da Silva, Dilma Rouseff e o povo brasileiro sao boas referências aos olhos deles. O mundo realmente dá voltas, nao é?

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Fado, um modo de sentir o mundo

Jorge Adelar Finatto

Lisboa, 10 nov. O fado é uma música visceral que vai direto ao coração. Se não arrepia, não é fado. Ouçamos estes versos que escutei na Tasca do Chico, na madrugada de ontem:

Eu era só silêncio e alguns medos (…) 
Escrevia na folha do esquecimento, que no vento se perdia (…)

O sentimentalismo lusitano é capaz de construções assim. Emoção à flor da pele, sensibilidade viva. Este modo de perceber o mundo está na origem da nossa formação. Carregamos essa herança afetiva de Portugal. Ave, pois, Camões, Padre Vieira, Fernando Pessoa, Eugênio de Andrade, Ruy Belo.

Ave, entre nós, Drummond, Vinicius, Quintana, Alvaro Moreyra, Heitor Saldanha, Henrique do Vale, Ricardo Mainieri.

Ave, toda a gente do fado, poetas que estão por aí e mais os que virao depois.

Engana-se quem pensa que fado é só tristeza, desilusão e dor. Nele há alegria, encontros e sonhos. O fado nasceu aqui ao lado, no bairro da Mouraria, para onde foram os mouros após a retomada de Lisboa por El Rei, por volta do ano 1100. Eternizou-se na voz de Amália e hoje canta pelo mundo no jeito dos jovens fadistas.

O vinho e o fado me fazem pensar (e sentir) que a razão longe do coração está perdida. O mundo do futuro – mais justo e muito mais humano – deverá surgir dessa união de sentimento e razão.

A indiferença que apaga e suprime o outro é casa de maluco. Está com os dias contados.

O povo do afeto tomará conta do planeta.

Viva o fado.