segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Quintana e a Feira do Livro de Porto Alegre

Carlos Alberto de Souza
 
Mario Quintana. photo: Daniel de Andrade Simões*
 
 
Mario Quintana foi, por muitos anos, um frequentador assíduo da Feira do Livro.
 
Não faltavam razões para ele se esgueirar por entre as bancas que ano a ano foram se multiplicando e rompendo os limites da Praça da Alfândega.
 
Quintana era escritor, além de tradutor e crítico cuja opinião era abundantemente demandada por novos autores; portanto, a feira era um habitat natural para ele.
 
Quintana era poeta, e os poetas gostam de praças.
 
Quintana morava no Centro (habitou o Majestic, o Presidente, o Royal e o Porto Alegre Residence) e a proximidade desses hotéis com a feira também facilitava a ida reiterada do velho pedestre e fumante a cada edição do maior evento livreiro do Estado.
 
Quintana trabalhava no Centro, no Correio do Povo, contíguo à praça da feira, e os serviços que prestava à Editora/Revista do Globo deviam levá-lo ao quartel-general da empresa, na Rua da Praia, onde ficava a histórica livraria de mesmo nome.
 
Quintana era solteiro, não tinha família, pelo menos um núcleo familiar sólido - vale lembrar a dedicada presença da sobrinha Helena no fim da vida do tio querido. Ir à feira, onde teve a esperá-lo uma bela Bruna Lombardi, também era uma forma de fugir da solidão do quarto de hotel. Na praça e em outros lugares públicos, o poeta era admirado, festejado, abordado, acolhido, reconhecido. A rua sempre foi para ele uma espécie de antítese da Academia Brasileira de Letras.
 
Enfim, não faltavam razões para Quintana ir à feira. E, uma delas, convém não esquecer, a condição de leitor, de consumidor de livros, de remexedor de baús.
 
Jamais Mario Quintana foi à Feira do Livro, penso eu, “porque ele nos últimos anos era um velhinho folclórico...”, como disse, com rara infelicidade, o patrono da atual edição da feira, Luís Augusto Fischer, em entrevista a Zero Hora (caderno Cultura, pág. Central, 12/10/2013). Nessa, o dono da coluna Pesqueiro da própria ZH se enredou na linha do pensamento e das palavras e fez feio.
 
O bom professor tem a chance de se redimir homenageando Quintana no seu discurso de abertura da feira. Afinal, foi com a presença constante e pertinente de figuras como o poeta que a feira se fez e é o que é.
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Carlos Alberto de Souza é jornalista em Porto Alegre.
smcsouza@uol.com.br

domingo, 13 de outubro de 2013

Seco

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto




Secos pássaros dormem em ressequidos ninhos. Secas folhas de plátano se agitam contra o azul. Manhã silenciosa, bailarina morta na caixa de música, seca. Enferrujado relógio de parede, retratos na gaveta, tudo seco.

Secas as lágrimas na face do vento.

Coração seco, boca seca, mãos secas. Secas palavras. Secas pétalas de camélia vermelha dispersas no chão. Secos dedos dedilham secas cordas de violino. Seco, seco.

Secos abraços unem os amantes. Secas velas movem as faluas do Tejo.

Secos olhos olham o pôr-do-sol no Guaíba. Secos, secos.

Secos homens invadiram as ruas da cidade, cometeram tristes barbaridades.

O milharal, tão seco, pegou fogo.

Sentimento e pensamento, secos. O sexo, sem ternura, seco, seco. As páginas do livro de poemas por escrever, secas, secas.

Seco olhar observa no fundo do espelho.

A esperança, um rio seco dentro do coração, talvez volte a amanhecer.
 
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Texto revisto, publicado em 23, maio, 2011.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Conversa de amigo

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


O leitor do blog é companheiro de viagem. Conversamos na jornada como o vento conversa com os pinheiros e a Lua na tarde de Passo dos Ausentes.
 
A idéia de que a internet cria um ambiente de convivência e troca é estimulante. Um lugar onde todos podem ser ao mesmo tempo leitores e escritores. Emissores e receptores de mensagens, sem a atitude meramente passiva que assumimos diante de um jornal, revista, meios eletrônicos, etc.
 
Por outro lado, ninguém deve ficar tempo demais diante do computador, esquecendo a vida real em nossa volta. Isso nos levaria ao isolamento e sua multidão de fantasmas. Somos gente e necessitamos da presença física do outro.
 
Precisamos de convívio, encontro real com pessoas reais.
 
Não sei quantas pessoas estão do outro lado da tela, mas isso não importa. A qualidade de quem lê é que faz a diferença.
 
As manifestações dos leitores são escassas, é verdade, quase não existem. Mas às vezes tenho a impressão de ver um leve movimento na cortina da janela virtual, anunciando que alguém parou e, por um breve instante, deu uma olhada para o interior da sala.
 
A grande arte, a arte superior e civilizada é, sem dúvida, a leitura. Ler é traço de humanismo, empatia, generosidade, curiosidade. Eu me considero, antes de tudo, um leitor, um leitor esforçado que encontra recompensa no seu esforço. Além de estar sempre com um livro por perto, tenho descoberto bons blogues, com riqueza de informação, análise, imagens e criação literária.

A palavra bem escrita tem espaço garantido no coração do leitor, independente do meio onde esteja veiculada.
 
Ler e escrever são a prova acabada de que o ser humano foi criado para ser convivente nessa curta passagem existencial.
 
O filósofo Jean-Paul Sarte (1905-1980) disse: "o inferno são os outros", com sabedoria. É este outro, algumas vezes tão diferente e outras tão parecido conosco, quem, afinal, no ato de nos "infernizar", nos completa, nos dá sentido, nos faz querer ser melhores do que somos.
 
Esta prosa me lembra um poema de Robert Frost (1874-1963), grande poeta norte-americano que viveu perto da natureza e que apreendeu, como poucos, a poesia transcendente que dimana das coisas simples. É com os versos de Frost que digo até logo, desejando uma boa sexta-feira a todos.
 
Hora de conversar*
  
Quando da estrada um amigo me chama
Refreia seu cavalo e anda a passo
Não fico parado e olho à volta
Para todas as colinas que não capinei
E grito de onde estou: “O que é?”
Não, não como se houvesse um tempo para conversar.
Enterro minha enxada na terra fofa
A lâmina para cima a cinco pés de altura
E ando: vou até o muro de pedra
Para uma conversa de amigo.
 
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*Poemas Escolhidos. Robert Frost. Editora Lidador Ltda. Rio de Janeiro, 1969. Tradução de Marisa Murray.
 

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Somos todos de uma distante galáxia

Jorge Adelar Finatto
 
Imagem da galáxia espiral NGC 1637*

 
A idéia de que alguém na Islândia, na China ou na galáxia espiral NGC 1637, a cerca de 35 milhões de anos-luz da Terra (na constelação do Rio Erídano), está lendo estas linhas dá o que pensar. Revela o poder da palavra na internet, capaz de estreitar distâncias, suavizar o tempo, mitigar solidões.

Se é verdade que somos todos estrangeiros neste estranho universo, resta ao menos a esperança de encontrar pelo caminho pessoas pra partilhar a vida, tornando a viagem menos solitária.

Escrever num blog, raro leitor, é como escrever com lápis de cor numa nuvem. Ninguém sabe no que vai dar, mas é bonito ver as letras coloridas no fundo branco.

A palavra impressa passa o sentimento físico de permanência, ao contrário do ciberespaço, no qual domina a sensação de extrema fugacidade.

Estamos acostumados a pensar no papel como se nele a palavra estivesse a salvo do tempo, do desaparecimento.

Mas a impressão de perenidade não deixa de ser uma quimera.

A imensa maioria dos livros está condenada ao esquecimento por falta de leitores. Sobrevivem alguns fisicamente nas estantes, mas é uma existência sem brilho e sem alma. Na verdade, vivem no escuro e no pó. A luz de olhos humanos não ilumina suas páginas fechadas.

Só está vivo o texto (virtual ou impresso) quando encontra um leitor que o descobre e retira do claustro.

O resto é silenciosa espera na biblioteca (ou na nuvem da internet).

O blog é uma esquina invisível onde amigos se reúnem pra conversar. Um meio de comunicação aberto a todos, lugar de encontros, região de claridades.
 
Escrever na nuvem, portanto, é uma maneira de resistir. Uma ilusão, quem sabe, mas ajuda a viver.

Estou falando essas coisas talvez porque é madrugada, o outono chegou nos Campos de Cima do Esquecimento. Faz frio lá fora e eu olho para o céu pontilhado de cintilações, tentando descobrir uma janela aberta, com alguém debruçado nela, na NGC 1637.
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*Imagem produzida e divulgada pelos astrônomos do Observatório Europeu do Sul, no norte do Chile,  em 20 de março, 2013.
Texto revisto, publicado em 23 de março, 2013.

domingo, 6 de outubro de 2013

Monsieur Jardin du Bonheur

Jorge Adelar Finatto
 
 
estação de trem no dia da chegada de M. Jardin. photo: j.finatto


Du Bonheur, Monsieur Jardin du Bonheur. É natural de uma colônia do interior de Gramado. Vem de uma nobre linhagem de espantalhos da região do Valais, nos Alpes suíços. No Brasil, os Bonheur fixaram-se na Serra gaúcha no fim do século XIX.

Ele desembarcou na estação de trem de Passo dos Ausentes no final dos anos 1940, pouco antes da melancólica desativação do transporte ferroviário em nossa região, os Campos de Cima do Esquecimento. Estranhável pela roupa velha, amassada e colorida, pelo chapéu de palha desfiado nas extremidades e pelo sotaque que mistura português, alemão e francês, logo na chegada atraiu muitos olhares.

Com uma surrada mala de couro na mão, caminhava com as finas pernas em arco e com os ombros levantando e baixando, alternadamente, feito gangorra. Assim que desceu do trem, foi em direção a Juan Niebla, o músico cego que tocava bandoneón na gare para alegrar os passageiros. Indagou se sabia onde podia encontrar trabalho, esclarecendo que era espantalho profissional. Niebla indicou a minha casa. Desde então ele vive aqui comigo.

Nunca precisei de um espantalho. Niebla me encaminhou Jardin para fazer troça comigo, e divertiu-se muito com a situação.

Percebi nos primeiros dias que Jardin jamais seria um espantalho convencional. É, na verdade, um subversivo do ofício. Não veio ao mundo para assustar aves em plantações e jardins, nem tampouco pessoas, estas por natureza tristes e sofridas.

Jardin é um espantalho vivo e alegre. Veio ao mundo para fazer graça às crianças e espantar a tristeza dos mais velhos.

Contemplativo, revela-se amigo do livre pensar e dos livros, que lê tanto de pé como sentado no jardim e no quintal, encostado na vetusta carreta coberta de vasos floridos. 

É bom conversador e tem livre acesso à minha pequena biblioteca.

Gosta de chá de maçã com canela. Vem ao escritório três ou quatro vezes por semana para pôr a conversa em dia e beber seu chá. Costuma observar demoradamente o Vale do Olhar. É quando sinto certa nostalgia no claro azul daqueles olhos. Às vezes, na minha ausência, ele se recosta na poltrona de couro marrom perto da janela, cobre-se com a manta de lã e dorme feito um menino.
 
À noite, quando a solitude e o frio pedem lareira acesa e aconchego, vamos para a sala dos fundos, de onde se avista, muito longe, o Contraforte dos Capuchinhos. Dali se vêem as muitas faces das estrelas que rebrilham a anos-luz de distância.

É quando mais gosto de ouvir as histórias do meu amigo, que emigrou da mansidão da colônia para o meu singelo jardim e, sobretudo, para o meu coração.
 
Jardin é meu confidente e também o é dos pássaros. Leva a vida a folhear seus livros e fazer anotações debaixo do pinheiro-mor. De vez em quando, assume a missão de seus ancestrais. Vai para o meio do jardim, estende os braços horizontalmente e abre um largo sorriso.

Nesse momento recebe a visita de muitos pássaros que lhe pousam nos braços e no chapéu. Para atraí-los traz sempre nas mãos grãos de alpiste.
 
A barba por fazer, as botas escuras, uma espiga de milho em cada bolso do casaco, a camisa quadriculada com retalhos coloridos e a gravata-borboleta azul dão-lhe um aspecto jovial. Uma capacidade de observação além do comum faz de Jardin um ser diferente. 
 
Um dia comentei que sua aparência lembrava a figura de um poeta antigo ou talvez um filósofo.
 
A comparação trouxe-lhe certo encanto: 
 
- Vivo longe das vaidades desse mundo, existo modestamente, em contato com a natureza, tagarelando com os pássaros que me visitam em busca dos farelos que trago sempre nos bolsos e nas mãos. Por isso amo a poesia.
 
Antes de sair do escritório, Jardin abriu a estante e pegou O Caminho do Campo *, obra do filósofo existencialista alemão Martin Heidegger (1889-1976), famoso habitante da Floresta Negra.
 
Leu estas linhas em voz alta:
 
“O carvalho mesmo assegurava que só semelhante crescer pode fundar o que dura e frutifica; que crescer significa: abrir-se à amplidão dos céus, mas também deitar raízes na obscuridade da terra; que tudo o que é verdadeiro e autêntico somente chega à maturidade se o homem for simultaneamente ambas as coisas: disponível ao apelo do mais alto céu e abrigado pela proteção da terra que oculta e produz. Isto o carvalho repete sempre ao caminho do campo, que diante dele corre seguro de seu destino.”
 
Acrescentou Monsieur Jardin:
 
- Essa é a parte boa do pensamento heideggeriano, em oposição à outra, sombria e inaceitável, que se envolveu com o nazismo, o que é simplesmente grotesco para um filósofo (e para qualquer ser humano dotado de um pouco de sensibilidade e inteligência), manchou-lhe a biografia. Triste.

O controvertido filósofo, digo eu, concordando com meu amigo, nunca veio a público dar explicações (que devia) e nem desculpou-se. Nunca pediu perdão. Silenciou. Isto é trágico para um pensador.

Monsieur Jardin despediu-se, sumindo na escada, deixando no ar um aroma de ervas silvestres.

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Sobre o problema do ser. O Caminho do Campo. Martin Heidegger. Livraria Duas Cidades, São Paulo, 1969. Tradução de Ernildo Stein.
 

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A fala de Arlequim

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. A mascarada. Veneza


Querer eu quero, e o querer é tudo. Cumpro os regulamentos do invisível.

De silêncio em silêncio, as difíceis passagens. Eu sinto no calado.

Os comedimentos. A pessoa sonhada tem certos jeitos. De não se deixar ver, nem tocar, nem sentir, nem sonhar. Os caprichos do ser amado.

As magnólias me doem no inverno de tão belas. Eu lírico. Os tormentos do amador. A musa é do tipo nem aí. Não sabe de mim.

Arlequim ao relento eu sou. Os rigores da lira me dilaceram. Vivo no austero das horas. Sinto no meu segredo.

Ela não me vê. Eu a vejo. Amador.
 
A musa é só o motivo. Eu sou o seu adamastor.

O que dorme no banco da praça. O que mora dentro do casaco e da manta. O do chapéu ridículo. O que fala algaravias no café. O que não suporta gritos. O que senta no cais a olhar as faluas e gaivotas.

Caminho à beira dos meus penhascos.
 
Ruínas são coisas que habitam no íntimo da pessoa. O que se fala e o outro não entende. Um diz aurora, a musa entende anoitecer. As palavras, tonterias.

Sentimento é o ora-veja da vida. Cultivo distância, alimento paciência. A musa e seu mistério e seu desdém.

O ser sonhado tem certos olhares. A musa vive num jardim secreto que eu mesmo inventei. A trança de linho desce pelo muro escarpado do castelo. Eu romântico.
 
A vida gira no esconso das horas cinzas.

Os trapos coloridos do meu coração ao vento.

Amador, amador.
 
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photo: Cena veneziana. Veneza, 2011.
Texto revisto, publicado em 30 de outubro, 2010.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

O cinamomo

Jorge Adelar Finatto
 
photo do cinamomo: j.finatto
 

Existe um edifício na rua Dona Eugênia, esquina com Lucas de Oliveira, no bairro Petrópolis, em Porto Alegre, que tem um pequeno jardim em frente. Neste jardim vive um velho cinamomo.
 
Passei por lá no último sábado, o tempo estava um pouco nublado e frio. Caminhava rumo à banca de jornal que tem ali perto, onde costumo ir quando estou pela cidade.
 
Sempre que passo naquele lugar olho para o meu amigo cinamomo. Às vezes me pergunto se ele ainda se lembra de mim. Eu jamais poderia esquecê-lo. Morei naquele edifício quando tinha nove, dez anos.

O cinamomo fazia parte das brincadeiras da gurizada do prédio e da rua.
 
Pouca gente sabe - até porque existem hoje poucos cinamomos na cidade - mas essa árvore tem minúsculas flores que, na primavera, produzem um dos mais doces e suaves perfumes que conheço.

O meu velho cinamomo está lá, florido, soltando seu perfume em mais uma primavera das nossas vidas. A todos distribui seu aroma generosamente.

De certa forma, somos sobreviventes de um tempo e de um jardim.
 
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Texto revisto, publicado em 27 de setembro, 2010. 

domingo, 29 de setembro de 2013

Xico, Vasco e Iberê

Jorge Adelar Finatto

O homem da flor na boca (Um ato de amor à vida).
pintura de Iberê Camargo, 1992.
 
Saber desenhar é um dom maravilhoso. Eu não sei desenhar um ovo. Por isso admiro quem domina essa arte. Amo a pintura e gosto de visitar exposições.
 
Conhecer desenho é fundamental pra quem quer ser pintor ou escultor. A arte abstrata contribuiu muito para o desprestígio da pintura no Brasil e no mundo. Abandonou-se o figurativo, caiu-se no risco tosco, nos espaços vazios, abusou-se do sem sentido. Com exceções que vêm de artistas que já tinham um trabalho anterior fincado na figura. Exemplo entre nós: Manabu Mabe.

O abstrato de Manabu tem beleza e espírito. Passa emoção.

A maior parte do que se chama de arte abstrata é coisa de gente que nunca aprendeu a desenhar. Faltaram às aulas, negaram-se a estudar. Não podia dar boa coisa.

Van Gogh, por exemplo, desenhava muito bem. Fazia figuras humanas e inanimadas com rigor. Ele nunca traía o objeto. Observei de perto algumas coisas que ele pintou na França. Concluí que ele as desenhou tais como eram, embora não fosse um mero copiador, um retratista.

Em Van Gogh os objetos ganham a forma que assumem em sua alma. O essencial da coisa está lá. O resto ele inventa.  A pintura emerge da carga emocional que coloca nos traços, da técnica refinada, da explosão das cores.

No vento e na terra, 1991. Iberê Camargo
 
Visitei na sexta-feira passada (27/9) a exposição Xico, Vasco e Iberê, o ponto de convergência, na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre. É uma mostra concisa e interessante para quem deseja ter uma idéia do trabalho desses importantes artistas gaúchos (embora nascido em Traun, na Áustria, Xico construiu sua vida e sua obra no Rio Grande do Sul).
 
Xico Stockinger (1919-2009) e Vasco Prado (1914-1998) foram escultores e Iberê Camargo (1914-1994), pintor.

Os três tiveram vidas longas que lhes permitiram construir uma obra singular. Cada qual a seu modo, marcaram a história da arte no Rio Grande do Sul e no Brasil.

Colegas de ofício e contemporâneos, eles manifestaram através do trabalho sua visão de mundo, sua inquietação existencial, sua razão de viver, suas esperanças.

Na série Gabirus, Xico faz da arte instrumento de denúncia, mostrando em bronze criaturas massacradas por condições sub-humanas de vida no Brasil, gente com carência alimentar e que, devido à subnutrição, tem seu desenvolvimento biológico comprometido. Ele desvela a solidão desses seres profundamente sofridos, desarmados e impotentes diante da realidade, como a figura da mãe com a criança morta ao colo.


Gabirus, bronze. Xico Stockinger. 1996

Gabirus. Xico Stockinger. 1996

De Vasco estão expostas algumas esculturas em mármore, bronze e madeira, centradas na figura humana, composta e decomposta em traços expressivos numa composição que perpassa o tempo. O ser humano com sua herança genética e cultural permanece através dos séculos. É o tema do escultor.

Acrólito. 1965/1994.
madeira e bronze.
Vasco Prado.
 
Acrólito, detalhe.

Iberê apresenta suas figuras sombrias e atormentadas, vocacionadas à solidão, à melancolia, ao sofrimento, com poucas frestas para a esperança (quase nenhuma).

Parece que, para Iberê, só pode haver magia e claridade nos pátios da infância. O resto é duro e áspero itinerário no desespero. Uma obra implacável com a condição humana.

Num país e num Estado onde a arte ainda é um luxo para muito poucos, é preciso saudar iniciativas como as da FIC em proporcionar acesso gratuito às exposições e outras atividades, o que confere um caráter social ao trabalho da instituição. Na sexta-feira havia muitos estudantes adolescentes fazendo visitas guiadas aos acervos. Recebiam informação e formação preciosas. A isso eu chamo esperança.

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photos: j.finatto

Iberê Camargo e a escrita da solidão:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/03/ibere-camargo-e-escrita-da-solidao.html
 

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Os esquecidos e os lembrados

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto.Aparados da Serra, RS.
 


Integração
 
tem dias que me sinto
tão em tudo
que me parece que não vou morrer
construo-me a cada instante
no próprio ar que respiro
me pouso longe
tranqüilo
onde no olho do pássaro
o vôo já está completo
onde no pouso do pássaro
fica vibrando a distância
que a ave traz inserida
ao repentino do vôo
duma iminente partida
são as pequenas coisas
que fazem a nossa vida
eu vivo o que deslimito *
 
                            Heitor Saldanha
 
Nunca entendi bem os motivos que fazem de certos escritores ilustres desconhecidos. Embora tenham um bom trabalho literário, permanecem na sombra. Ao passo que outros, com pouco ou nenhum mérito, são convidados para almoçar todos os dias no Olimpo dos deuses das letras e  ocupam generosos espaços nos meios de comunicação.
 
O livro, na minha visão, é um objeto espiritual, antes de qualquer coisa. Quanta ingenuidade! Na visão dominante, livro é negócio como outro qualquer. Existe uma luta de facão, no mundo editorial, para impor autores no mercado. Tudo ou quase tudo passa pelo departamento comercial.

O que se vê é que não há mais divulgação desinteressada em jornais, revistas e meios eletrônicos. Tudo tem um preço. A começar pela colocação de livros nas livrarias, onde cada setor tem um valor, dependendo da localização. Provavelmente existem exceções, poucas.

Torna-se cada vez mais comum ver detentores de espaços escritos/falados/televisados, na imprensa, propagandearem, sem nenhum pudor, suas próprias produções, de forma insistente. Apropriam-se dos veículos de informação como se fossem algo pessoal e não social.

Claro que há escritores de qualidade que conseguem furar o bloqueio. Mas o sistema em vigor é altamente excludente e privilegia a homogeneidade autoral em vez da diversidade. Trocam-se os nomes dos escrevinhadores, mas o texto é sempre o mesmo.

A tal ponto a mesmice se instalou, que dificilmente veremos surgir, hoje ou no futuro próximo, no Brasil, um escritor com a sintaxe genial de João Guimarães Rosa. O ambiente é totalmente desfavorável à literatura enquanto invenção.
 
Criadores de talento, em todas as áreas, amargam na úmbria do anonimato. O fenômeno não começou agora. Mas atualmente está muito pior do que há 20 anos.

O tempo, às vezes, faz justiça e resgata alguém que ficou esquecido na álgida furna. Mas o tempo é um senhor muito velho, de longas barbas de nuvem, e tem lá seus muitos lapsos de memória.

O que restou de democrático, no fim das contas, é a internet, pelo menos enquanto não vier um marco civil criando uma internet ruim para pessoas comuns como nós e uma outra, rápida e poderosa, para os grandes meios de comunicação.

Na literatura, como na vida, uma atitude é essencial: persistência. Um escritor apenas razoável talvez não se torne um escritor brilhante. Mas, com trabalho e coragem para evoluir, poderá melhorar muito o resultado de sua escrita.

O que importa é não publicar qualquer coisa, e não desistir nunca. Além disso, temos a eternidade pela frente, porque ninguém se importa mesmo.

Não falo essas coisas por mim, que já fui inscrito no livro-tombo do esquecimento em vida, escritor interiorano, cronista de temas pastorais, correspondente do fim do mundo. Falo por autores de real importância que não têm voz. E pelos leitores que não os conhecerão.

Lembro alguns deles, aqui do Rio Grande do Sul, mas existem outros: Jorge Jobim, pai de Tom Jobim; Heitor Saldanha, Henrique do Valle e Paulo Corrêa Lopes, todos excelentes poetas, todos encobertos pela névoa da indiferença.

Se você leu ao menos um deles, parabéns. Se não, procure descobrir em algum livro-velheiro, pois não são editados há muitos e muitos anos (já falei sobre cada um deles no blog). O que escreveram é da melhor qualidade, mas nenhum escritor, crítico, professor ou jornalista se ocupa deles (com raríssimas exceções). Por quê? Eu me pergunto e não sei a resposta. Simplesmente não estão entre os eleitos. Habitam a caverna dos esquecidos.

Alimento meu coração de leitor e minhas estantes com o que vasculho nos sebos. E que as musas não nos abandonem nunca.

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*A Hora Evarista, Heitor Saldanha. Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1974. p. 18.
 
Escrever em língua portuguesa:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/05/escrever-na-lingua-portuguesa.html
 

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Itaimbezinho: beleza e perdição do abismo

Jorge Adelar Finatto

Itaimbezinho. photo: j.finatto

Há muitas verdades entre o céu e a Terra que não se encontram nos livros. Revelam-se no silêncio da floresta.
 Balduino Rambo ¹

O silêncio é tão grande, às vezes, que tenho a impressão de que, se chamar por Deus, Ele ouvirá e responderá em meio aos eternos paredões de basalto erguidos no vento. Mesmo os que não crêem são levados a pensar nessa possibilidade, diante da majestade do espetáculo da natureza no Itaimbezinho.

Estive na quinta-feira passada (19/9)  visitando o Parque Nacional dos Aparados da Serra, onde está o cânion do Itaimbezinho, encravado nos Campos de Cima da Serra. Os paredões verticais chegam a 700 metros de altura.

As cercanias das bordas do abismo, o qual se prolonga por quase 6 quilômetros, são formadas por suaves percursos de campo que acabam em quedas escarpadas.

Os campos de fato são "aparados", isto é, cortados como a fio de faca, terminando sem transição na aba dos precipícios. ²

A origem do nome vem do Tupi: ita significa pedra, e aimbé, cortada. No interior do cânion, existem cursos de água, abundante vegetação, animais, fendas e cascatas que se derramam sobre o leito rochoso.

Essa região fica a nordeste do Rio Grande do Sul e faz fronteira com Santa Catarina. O lugar é de um vigor extraordinário. O Parque Nacional da Serra Geral, onde se encontra o cânion Fortaleza, está ao lado. Ambos os parques são administrados pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade.³

O Parque Nacional dos Aparados da Serra foi criado em 1959. Nasceu da inspiração e do grandioso trabalho do notável pensador, escritor, cientista e padre jesuíta gaúcho Balduino Rambo (1905-1961). Situa-se no município de Cambará do Sul, um dos lugares mais frios do Estado. A chegada até o cânion é íngreme por uma estrada de chão e pedra, numa extensão de 17 quilômetros.

Há uma beleza inaugural no lugar. Uma visão que vem das origens do mundo. Entre aqueles espessos e altos paredões correram as águas do Dilúvio.

 A jóia mais preciosa de todas as paisagens dos aparados rio-grandenses é o Taimbezinho. 4
  
Trata-se de um dos cenários mais bonitos do Brasil. A vista do cânion é estonteante, no duplo sentido de bela e, ao mesmo tempo, vertiginosa. Um encanto visceral misturado com um vestígio de angústia.

A paisagem fascina pelo alumbramento que produz no espírito. Uma beleza inesquecível.

O Itaimbezinho representa uma presença física e estética esmagadora da natureza.

Itaimbezinho. photo: j.finatto

O belo grandioso é aquele sentimento estético que, de um lado, abala o espírito em sua pequenez diante das forças da natureza e, do outro lado, compensa tais abalos pela consciência íntima da realeza humana sobre todas as forças naturais. 5

Há, de fato, no Itaimbezinho, um apelo ao belo que é verdadeira perdição, isto é, a ele não podemos resistir. Mas existem, também, riscos aos quais o visitante deve estar atento.

Fiz a Trilha do Vértice, a mais curta, que se estende por cerca de 1400 metros (ida e volta), com três ou quatro pontos de observação. O último deles sem nenhum belvedere para a parada dos visitantes. Fica-se à beira do precipício, separado deste apenas por um singelo fio de cabo de aço que mal se levanta do chão e nada protege. Além disso, o espaço é muito pequeno. Qualquer descuido ali pode ser fatal.

A outra trilha é a do Cotovelo, que tem cerca de 6 quilômetros e se aprofunda mais no parque. Existe ainda uma terceira, a Trilha do Rio do Boi, que dá acesso ao interior do cânion e cuja entrada é do outro lado, pela cidade de Praia Grande, em Santa Catarina. É um caminho para fazer com guias experimentados.

Itaimbezinho. photo: j.finatto

Não são raros os casos de pessoas que se perderam e até morreram no local nas últimas décadas. Existem situações de morte acidental e outras por suicídio. Numa rápida pesquisa, verifiquei a ocorrência de alguns desses casos neste ano. No último, um rapaz está desaparecido desde o dia 27 de julho passado. Sua mochila foi encontrada na margem do despenhadeiro. Ninguém sabe o que aconteceu. As buscas resultaram infrutíferas e estão suspensas.

São milhares de visitantes todos os anos. Nem todos têm o cuidado necessário para transitar em semelhante ambiente. Por isso, as visitas mais seguras são as guiadas.

Algumas pessoas esquecem que o perigo ronda todo abismo. Por desconhecimento, excesso de confiança ou simples falta de noção metem-se em situações de risco.

Por outro lado, é visível a necessidade de melhorar a infraestrutura do parque, com mais investimentos para contratar pessoal, melhorar as instalações, a orientação dos visitantes, a sinalização dos caminhos, e para construir novos mirantes seguros de observação.

Não obstante o esforço da administração e dos funcionários, falta mais gente e faltam equipamentos para tornar o parque mais aproveitável, principalmente para os estudantes. Afinal, são 13.060 hectares de área de Mata Atlântica e Floresta de Araucária que merecem toda atenção.

Itaimbezinho. photo: j.finatto

A atração pelos abismos é uma inclinação que trazemos dos ancestrais. O ser humano tem encanto atávico por este tipo de formação natural.

Vale a pena conhecer os Aparados da Serra, com a contemplação cuidadosa e o respeito que os precipícios exigem de nós.

Do passeio só devemos trazer boas recordações e fotografias.

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¹Pe. Balduino Rambo. A pluralidade na unidade. Memória, religião, cultura e ciência. Vários autores. Editora Unisinos, São Leopoldo, 2007. contracapa.
²A Fisionomia do Rio Grande do Sul, ensaio de monografia natural, Balduino Rambo, 3ª edição, 2ª reimpressão, Editora Unisinos, São Leopoldo, 2005. p. 389.
³Instituto Chico Mendes
http://www.icmbio.gov.br/portal/o-que-fazemos/visitacao/ucs-abertas-a-visitacao/729-parque-nacional-de-aparados-da-serra.html
4 idem à nota 2. p. 385.
5 idem. p. 429.
  

sábado, 21 de setembro de 2013

O navegador de estrelas

Jorge Adelar Finatto
 
Nebulosa do Camarão. Autor: Observatório Europeu do Sul
 

A Nebulosa do Camarão é considerada pelos astrônomos uma efervescente maternidade de estrelas. Um grande número desses astros ali nasce e se aninha calidamente entre as nuvens de gás. A imagem mais nítida dessa região do espaço, situada a 6.000 anos-luz da Terra, foi divulgada na quarta-feira (18/9) pelo Observatório Europeu do Sul.
 
As fotografias foram feitas pelo Survey Telescope (Telescópio de Rastreio) um dos mais potentes do mundo, na localidade de Paranal, ao Norte do Chile, onde se situa o observatório. Naquele lugar estão os maiores telescópios em atividade no planeta.

O Survey Telescope tem 2,6 metros de diâmetro e foi construído em torno da câmera OmegaCam, que é capaz de produzir fotografias em resolução bastante alta, de até 268 megapixels.
 
Recém-nascidas, quentes, brilhantes, candentes, assim são as estrelinhas que a nebulosa dá à luz, fazendo daquele recanto do universo um verdadeiro berçário.

Não sou especialista no assunto, longe disso, mero navegador de estrelas nesta estação de fim do mundo que é Passo dos Ausentes, lugar tão longínquo e pouco freqüentado como aquele território perdido no espaço. Mas acho que a Nebulosa do Camarão é lugar dos mais ternos e alegres que existem, com suas inumeráveis estrelas bebês.

As infantas se espreguiçam, fazem graça, ensaiam primeiras palavras e movimentos no aconchego da imensa nuvem azul.

A distante maternidade, situada na Constelação de Escorpião, brilha na vastidão do cosmos.

As estrelinhas irradiam pó de luz no breu frio do infinito que a tudo separa e devora. São elas que iluminam a alma do viajante do espaço quando, solitário e fatigado, passa naquelas paragens em sua nave.

De olhar o céu não me canso. Seria bom que as pessoas olhassem mais para as estrelas. Astrônomo feito a facão, habitante dos Campos de Cima do Esquecimento, tenho às vezes impressão de ouvir as risadas e as vozes das pequenas criaturas no sopro do vento estelar.

Enquanto isso, a bordo do telescópio caseiro, rastreio o universo à procura da estrela que um dia fugiu dos meus olhos, desapareceu e nunca mais.

Quem sabe ainda nos encontraremos numa outra constelação.
 

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Um barco atravessa a alma da cidade

Jorge Adelar Finatto
 
photos: j.finatto
 
No sábado saí pelo Guaíba de barco. Esse rio é a alma de Porto Alegre. Entre a cidade e o rio, uma coleção de embarcações, pequenas ilhas e crepúsculos.
 
Poucas cidades têm um rio assim para espelhar-se, matar a sede e tomar banho. Mas o esgoto é uma página difícil que teima em não se resolver.
 
As gaivotas povoam a solidão, voando sobre os navios que partem no rumo do mar. São cerca de 300 quilômetros de água doce que remetem Porto Alegre ao Atlântico pela Lagoa dos Patos.
 

Fiquei um tempo olhando o azul do céu, sentindo o balanço das ondas, avistando o continente ao longe. Na altura da antiga chaminé, no Parque Harmonia, muita gente caminhava, corria ou andava de bicicleta pela via que margeia o rio (nos fins de semana interrompe-se ali o tráfego de veículos). Alguns biguás sobrevoavam o espelho.
 

A luz de começo de outono se derrama sobre a paisagem. A delicadeza das cores espalha-se no enlace de céu, vela e cais.
 
Tenho a impressão que fico alguns anos mais moço toda vez que navego pelo Guaíba.
 

Os aguapés divagam solitários, soltos e vivos nas águas.

Eu sou o efêmero capitão de um barco que atravessa o cartão-postal.
 

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Texto revisto, publicado originalmente em 4 de abril, 2011.
 

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Noturno da minha rua

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto

 
Essa é a hora em que os olhos se fecharam e todos dormem. Só eu não dormi na minha rua. Não posso dormir. Existe muita coisa calada querendo falar. 

No edifício da esquina uma luz se acende, não sei se numa sala ou num quarto. Talvez seja outra insônia igual a minha. Talvez uma sede em busca de um copo dágua. Talvez uma saudade da infância. Talvez um remorso. Talvez um medo. Talvez uma perda (isso que eu e meu silêncio conhecemos bem a essa hora).
 
Há uma luz que nunca se apaga no edifício daquela colina do outro lado. Pode ser alguém doente naquele apartamento, ou alguém conversando com fantasmas, ou que ficou só e acontece que não consegue dormir sozinho.
 
Muitas coisas eu vejo da minha janela noturna.

Uma mulher atravessa a rua fumando, a brasa vermelha flutua na escuridão em direção ao desconhecido, desaparece.

O olhar tem vida efêmera na furna.

As únicas realidades da noite que são belas e não têm fim são os sonhos das crianças.
 
Eu sinto uma falta absurda de alguma coisa que não está mais aqui. Queria de volta o meu anjo da guarda pra conversar nessa hora despida e inerme, em que não há defesa possível, porque estamos muito sós, já é muito tarde, e todos na casa e na rua dormem. Como falar dessas coisas com alguém, se nem ao menos sabemos do que se trata? 
 
Vou até a janela velar a estrela que brilha solitária acima da minha rua. Peço a ela que não me deixe sozinho na furna fria.
  

sábado, 14 de setembro de 2013

Blobfish, a melancolia de um rosto

Jorge Finatto

photo: blobfish. Greenpeace/Rex Features

A Sociedade de Preservação dos Animais Feios (Ugly Animal Preservation Society*) fez um concurso pela internet para escolher o bicho mais feio do mundo em 2013.

O objetivo dessa sociedade inglesa é chamar a atenção para animais pouco visíveis, pouco conhecidos e nem tão bonitos assim, que, no entanto, desempenham seu papel no ecossistema, merecendo, como os ursinhos panda que todos acham lindos e fofos, ser protegidos.

Participaram da eleição mais de 3 mil votantes. O eleito no curioso certame foi blobfish, ou peixe gota, com nome científico de psychrolutes marcidus. Ele habita as profundezas do Oceano Pacífico, e agora é o mascote da UAPS.

Blob tem aparência de gente. Tem um ar inteligente, tímido, mimoso e melancólico.

A expressão taciturna é de alguém desamparado no mundo. Mais que isso, percebo nele a tristeza dos que a sociedade rotula, não sem crueldade, de estranhos ou feiosos.

Procuro entender o que vai na alma de BLOB. É visível que ele não gosta da situação criada à sua volta, incomoda-o a exposição a que está sendo submetido.

Seu semblante parece dizer-nos: me deixem em paz, detesto sensacionalismo ecológico, principalmente este que está sendo feito em relação à minha discreta pessoa.

Julgar alguém pela aparência é um hábito leviano e prepotente que leva, não raro, a erros grosseiros. Imperdoáveis injustiças cometem-se em nome das aparências. Nós, os que não somos lindos, nos ressentimos com isso. Por isso entendo o sentimento de indignação de Blob.

Fazer julgamento pelo aspecto exterior é coisa de néscios e brutamontes, os quais, infelizmente, tomam conta do planeta desde sempre.

Não será este, por certo, o caso da Sociedade de Preservação dos Animais Feios, cujo objetivo, ao que parece, é justamente proteger de maus-tratos e da extinção criaturas da natureza pouco atrativas esteticamente, isto é, feias na visão do senso comum (quantas barbaridades se cometem com base no tal senso comum!).

O senso comum tem feito misérias ao longo da história. Hitler chegou ao poder e fez o que fez com base no senso comum da Alemanha da época. As ditaduras sul-americanas, mas não só, idem.

Uma pessoa jamais pode dar-se o direito de não pensar. Do contrário há sempre o risco de outros o fazerem por ela e, em seu nome, cometerem grandes desatinos e crimes. O espírito crítico é fundamental em qualquer situação, pena de aceitar-se o horror como algo normal e o mal como coisa banal.

Continuando. No que concerne aos padrões de beleza normalmente aceitos, são em geral vazios, mesquinhos, privilegiando a crosta dos viventes mais que o conteúdo. Coisa tola.

Mas, afinal, o que é feio e o que é bonito, não é, Blob? Acaso existirão o feio e o belo absolutos? Não haverá nisso uma margem de subjetivismo, de nuvem e de negociação?

Por causa da ditadura das aparências, um dia, na tentativa de evitar comparações estéticas com outros seres, e os sofrimentos daí decorrentes, os ancestrais de Blob resolveram habitar o fundo profundo do oceano.

Adaptaram-se com o passar do tempo, vivendo no silêncio e na solidão das águas de profundeza, onde poucos resistem. Os marcidus suportam bem grandes pressões no corpo gelatinoso. Acima de tudo, acho que eles queriam ficar longe da maldade humana, dos julgamentos desumanos. Mas não adiantou muito, infelizmente, pois os parentes de Blob continuam sendo alvo de pesca predatória.

Frotas de traineiras que utilizam redes de arrastão, na Austrália e Nova Zelândia, ameaçam de extinção a família blobfish. Na ânsia de pescar sem limites, acabam capturando peixes como ele, que sequer é comestível. Em princípio, portanto, não interessa à pesca, mas é preso no embalo das redes.

Blob não entende, e eu muito menos, por que, sendo tão parecido com os humanos, foi justamente ele escolhido como animal mais feio do mundo.

- Mas como?, pergunta ele incrédulo. - Será que as pessoas não gostam de se olhar no espelho, será que têm vergonha de sua aparência, não se acham suficientemente belas? A autoestima do ser humano anda assim tão baixa?

Difícil entender, amigo Blob. Creio que a maioria não atenta para o que realmente importa, que está no coração e nos valores de cada um, e não na fachada. Triste mundo. Mas se serve de consolo, Blob, digo que, pra mim, tu és um dos seres mais bonitos que eu já conheci.

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*Ugly Animal Preservation Society
http://uglyanimalsoc.com/

Biodiversidade
http://g1.globo.com/Noticias/Ciencia/0,,MUL1463377-5603,00.html

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Um Van Gogh guardado no sótão

Jorge Adelar Finatto

Pôr-do-sol em Montmajour. photo: Reuters
 
Nesta segunda-feira (9/9), o Museu Van Gogh¹, de Amsterdam, anunciou a descoberta de mais um quadro de Van Gogh (1853-1890). Trata-se de Pôr-do-sol em Montmajour (Sunset at Montmajour), pintado pelo artista em Arles, sul da França, em 1888.

A pintura revela uma natureza abundante, colorida, com plantas retorcidas e a ruína de uma parte da vetusta abadia de Montmajour, ao alto, situada a poucos quilômetros de Arles, onde o pintor gostava de ir. A cena se passa ao entardecer, sob um céu em que predominam os tons claros.

A obra foi apresentada pelo diretor do museu, Axel Rüger (à esquerda na foto abaixo). Ele disse que um achado desta importância ainda não havia ocorrido na história do museu (inaugurado em 1973), tratando-se de um acontecimento raro.

A pintura pertence a um colecionador particular, que prefere não se identificar. Mede 93,3 centímetros de comprimento por 73,3 de altura. Será exibida ao público no MVG a partir de 24 de setembro próximo.

photo: apresentação do quadro no Museu Van Gogh
fonte: AFP

A informação mais curiosa que li é que o quadro estaria guardado no sótão da casa do proprietário. Segundo divulgado, um industrial norueguês teria adquirido a obra nos anos 1970. Ela chegou a constar do catálogo de Theo Van Gogh, irmão do artista. Submetida a exame nos anos 1990, sua autenticidade foi rejeitada pelo MVG.

Agora, porém, ao refazer o estudo, dois peritos da instituição analisaram a pintura durante dois anos, numa pesquisa aprofundada que levou em conta o estilo do pintor, o material por ele utilizado, a técnica, bem como sua correspondência com Theo.

Nas numerosas cartas, ele sempre abordava com Theo os trabalhos que estava desenvolvendo. Numa missiva de 5 de julho de 1888, Van Gogh descreve ao irmão o cenário que a tela ora descoberta mostra:

"Ontem, ao pôr-do-sol, estive num matagal pedregoso em que cresciam carvalhos muito pequenos e retorcidos, tendo ao fundo uma ruína sobre a colina, e campos de trigo no vale. Uma cena que não poderia ser mais romântica, à la Monticelli, o sol despejava seus raios muito amarelos sobre os arbustos e a terra, numa verdadeira chuva de ouro (tradução livre)."² Na mesma carta, o pintor diz ter feito um estudo pictórico do local, mas que ficou abaixo do que desejava fazer.
 
Conforme o MVG, a obra se insere num período muito importante, considerado por alguns o auge de sua produção, no qual compôs quadros como Os girassóis, O quarto e A casa amarela.
 
Van Gogh não tinha ateliê nem alunos. Era um artista solitário e errante, andava para cima e para baixo com sua caixa de pintura às costas. Costumava levantar cedo para o trabalho (queria aproveitar a luz) e nada na sua vida importava mais do que pintar. A pobreza sempre esteve a seu lado. Ironicamente, hoje seus quadros estão entre os mais caros do mundo e museus importantes sonham em realizar uma exposição com seu trabalho.
 
Autorretrato com chapéu de feltro, 1888

Morto aos 37 anos, num suposto e nunca esclarecido suicídio³, em Auvers-sur-Oise (cidadezinha perto de Paris), Van Gogh trazia o arco-íris dentro do peito. Em sua breve passagem pela Terra, revelou ao mundo a beleza das cores, as quais libertou em força e luz. Na sua mão, as formas e sentimentos ganharam outra dimensão.

O traço de Van Gogh é único como única foi sua solidão e sua dedicação à arte. Uma vida profundamente sofrida que, no entanto, só retribuiu com felicidade.
 
Em cada obra que nos legou, Van Gogh entregou um pedaço de seu coração.
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1.Museu Van Gogh:
http://www.vangoghmuseum.nl/vgm/index.jsp?page=330698&lang=en
2.Carta:
http://www.vangoghletters.org/vg/letters/let636/letter.html
3.O último quarto de Van Gogh (The last bedroom of Van Gogh)
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2009/12/o-ultimo-quarto-de-van-gogh.html
 

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Vênus e Lua: um flerte no céu

Jorge Adelar Finatto 

photo: j.finatto. 8/9/2013


A Lua crescente mais parecia um sorriso no céu. Uma casquinha flutuando nas escuras alturas. Um pouco mais acima, à direita, o planeta Vênus na forma de um ponto luminoso. Para o observador, ambos desciam em direção à linha do horizonte, a oeste, devido ao movimento de rotação da Terra sobre si mesma. Uma visão e tanto.
 
Isso aconteceu no domingo. Estava no escritório no início da noite e achei muito bonito aquele envolvimento astronômico entre nosso satélite natural e o planeta azul brilhante. O fenômeno não é comum de acontecer (não me lembro quando o assisti aqui nos Campos de Cima do Esquecimento, se é que isso ocorreu alguma vez). Fiz as fotografias.

photo: j.finatto. 8/9/2013
 
Em determinado instante do flerte entre os astros, Vênus se escondeu atrás do luminoso sorriso da companheira. Depois tornou a aparecer na parte inferior da Lua. Enquanto isso, bem lá no alto estava o planeta Saturno e, abaixo de todos, Mercúrio.
 
Uma conjunção rara como essa faz a gente se sentir testemunha de algo maior e belo. Por essas e outras, costumo olhar para o céu à espreita de maravilhas. E não é que acontecem?

photo: j.finatto. idem