terça-feira, 19 de novembro de 2013

Bullock e Clooney perdidos no espaço

Jorge Adelar Finatto

Sandra Bullock, no filme  Gravidade. photo: divulgação
 

Gravidade é um dos melhores filmes que vi nos últimos tempos. Dirigido pelo mexicano Alfonso Cuarón, com roteiro dele e de Jonás Cuarón, estreou em outubro passado. Tem nos papéis principais os atores George Clooney e Sandra Bullock, que interpretam astronautas num vôo nas cercanias da Terra, com a missão de reparar o telescópio Hubble.

As coisas transcorrem normalmente. O comandante Matt Kowalski (Clooney) e a engenheira biomédica Ryan Stone (Bullock) trabalham fora da espaçonave, quando, de repente, uma chuva de detritos provoca a destruição da nave e a morte dos demais tripulantes. Inicia-se então uma terrível luta pela sobrevivência por parte de Matt e Ryan.

A construção das imagens é impressionante. A seqüência das cenas nos leva ao pleno sentimento de desamparo causado pelo fato de se estar a cerca de 400 km acima da Terra, sem qualquer comunicação com os técnicos da Nasa. Os dois viajantes estão perdidos no espaço, soltos no vácuo, sem gravidade, numa região escura, povoada de silêncio. Longe do mundo num ambiente inóspito.

Ali um pedaço de metal, submetido à luz solar, chega facilmente a 260º Celsius, obrigando a utilização de espessas luvas e isolantes térmicos. Na região de sombra, a temperatura despenca para -100º C.

Nesse território obscuro, as estrelas são remotos pontos de luz. A única coisa que brilha, em suaves cores, é o nosso planeta, que surge como um doce jardim em meio ao abismo celeste. Ryan e Matt têm apenas um ao outro.

O resto é solidão e isolamento.

Bullock e Clooney. photo: divulgação

As imagens em três dimensões transportam o espectador àqueles confins, fazendo com que se sinta também perdido, olhando com profunda nostalgia a distante Terra. O cenário é maravilhoso e assustador.

Os astronautas estão à deriva no espaço. Náufragos do infinito, sem galho ou corda em que se segurar. Com a proximidade do fim do oxigênio armazenado no interior do equipamento e com a iminente perda de propulsão que lhes permite deslocamento, a situação torna-se dramática.

Isto é apenas um pálido rumor do que acontece. Tem muito mais.

A história faz pensar tanta coisa.

Entre os possíveis sentidos que o drama sugere, está o da imensa nuvem de solitude e precariedade que cerca aqueles que estão fora do nosso planeta, presos por um fio à vida. Fica a forte sensação de que, sozinhos, não vamos a parte alguma.

Precisamos uns dos outros em nossa precária condição de seres frágeis e pequenos num universo tão vasto quanto difícil. A aventura de viver na Terra e de explorar o espaço exige coragem e solidariedade. Não temos mais do que o outro, que, mais do que algoz, pode ser a nossa inspiração e salvação.

O filme lembra que talvez pior do que passar dificuldades aqui no planeta azul, cercado de gente por todos os lados, é ficar abandonado lá em cima, onde viver é, nas atuais condições, impossível.
 

domingo, 17 de novembro de 2013

A queda do Águia Negra

Jorge Adelar Finatto
photo: j.finatto


Os destroços do aeroplano ainda estão espalhados em volta do chafariz, no centro da Praça da Ausência. Essa queda do Águia Negra não foi apenas a décima oitava na vida do piloto Nefelindo Acquaviva. Mas ao contrário das anteriores, não foi um acidente.

Um traiçoeiro tiro de bombarda, de autoria desconhecida, está na origem do rompimento das relações entre a igreja e a aviação em Passo dos Ausentes.

Nefelindo decolou com o Águia Negra do fundo de seu quintal na tarde de sábado. Sobrevoou cercas e telhados a muito pouca altura. Os vizinhos taparam os olhos com as mãos e baixaram as cabeças, temendo pelo pior.

O ensurdecedor e absurdo objeto voador - espécie de motociclo com asas de besouro, contruído por Acquaviva no galpão do seu pátio - ganhou altitude a duras penas, descrevendo no ar um preocupante ziguezague.

Quando atingiu a marca de 40 metros, Nefelindo iniciou manobra para contornar a torre da igreja e rumar ao sul, na direção de Porto Alegre. O acalentado sonho do pioneiro da aviação em Passo dos Ausentes é aterrissar um dia na capital do Rio Grande do Sul. Com isso quer realizar dois objetivos: chamar a atenção da sociedade para a existência da cidade esquecida, que nem sequer no mapa está, e divulgar a prodigiosa invenção aeronáutica.

No momento em que começava a volta na torre, ouviu-se o assombroso estrondo do tiro de bombarda, cujo projétil passou a poucos centímetros do aparelho, desequilibrando-o nas alturas. O aeroplano bateu no alto da torre contra a cruz, que se partiu e despencou. Em seguida, a nave precipitou-se vertiginosamente, vindo a cair sobre o chafariz no meio da praça. A água amenizou a queda.

Naquela hora a banda municipal ensaiava no coreto. Os músicos correram e retiraram o que sobrou de Nefelindo de dentro do casulo. O médico, Dr. Fredolino Lancaster, 96 anos, único da cidade, compareceu ao local pouco depois da tragédia e fez o atendimento de urgência. Disse que era um milagre o piloto ter sobrevivido. 
Dois dias após, no hospital, pela tarde, todo enfaixado na cama, Nefelindo segurava um charuto entre os dedos, enquanto olhava através da janela. Nuvenzinhas brancas desfiavam entre os fios do negro bigode. Nisso chegou o chefe local da igreja católica, Dom Krauss. O padre usava o chapelão preto em forma de bacia virada para baixo. Dirigiu-se secamente a Nefelindo, com forte sotaque germânico.

- Eu o proíbo de invadir o espaço aéreo da igreja. Se isso acontecer novamente, eu mesmo me encarregarei de atirar contra seu pássaro insano. Acredite, Nefelindo, sou bom atirador.

- Cínico chapeludo - respondeu o aeronauta com a voz cavernosa. A cidade toda sabe que o tiro partiu do pátio da sua igreja. O senhor acaba de decretar o fim do nosso armistício. Nós da aviação não aceitamos intimidação nem ultimatos. Passou o tempo em que a igreja fazia o que bem entendia nesse fim de mundo. Prepare-se para o pior.

- Você não podia andar solto por aí, devia estar no hospício -, disse Dom Krauss, que se retirou furioso do quarto, abrindo espaço com os braços entre as duas enfermeiras que chegaram para atender o sobrevivente.
                              
               &        &        &

Juan Niebla, o músico cego que toca bandoneón na estação de trem abandonada de Passo dos Ausentes, foi até o jardim do hospital e, diante da janela aberta do amigo, executou Adiós Nonino, de Astor Piazzolla.
O perfume das madressilvas impregna o ar nesses tempos de primavera.

Somos ruínas vivas em progresso na nossa pequena cidade. Um lugar onde a neblina veio morar com a solidão. 

Mas temos, como nosso aviador, a ambição dos altos voos.
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Texto revisto, publicado em 24 de setembro, 2010.
Mais sobre o Águia Negra no post de 5 de maio, 2010.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Dom Segundo Sombra

Jorge Finatto

pintura O Gaúcho, de Nélson Jungbluth.
fonte: Relatório Samrig - Moinhos Rio-Grandenses, 1981-1982
 
Guacho e gaúcho pareciam-me o mesmo, porque entendia que ambas as coisas significavam ser filho de Deus, do campo e de si mesmo. 
Dom Segundo Sombra, p. 228

Voltando de Cambará do Sul, no meio de muita chuva e frio, num setembro da vida, resolvi entrar em São Francisco de Paula para tomar um café com bolo na Livraria Miragem, um bom lugar para se encontrar não só livros como objetos de artesanato, além de bom atendimento.
 
Retirei da estante o livro Dom Segundo Sombra¹, do escritor argentino Ricardo Güiraldes (1886-1927), publicado pela primeira vez em 1926. Trata-se  de um clássico da literatura latino-americana, saudado por gente como Jorge Luis Borges.

O que foi decisivo para que o levasse para a mesa do café e, depois, para casa foi ver que o tradutor do espanhol para a última flor do Lácio, inculta e bela² era ninguém mais nem menos do que Augusto Meyer (1902-1970), notável escritor, intelectual e pesquisador porto-alegrense.
 
Comecei a ler enquanto bebia café e comia a inefável fatia de bolo da casa, seguindo-se um refrescante hidromel. O livro me pegou pela cabeça e pela emoção.

Ao ler Dom Segundo Sombra, nos transportamos para a vida dos tropeiros de antigamente, que trilharam os caminhos da formação da identidade do gaúcho, atravessando as grandes solidões do pampa argentino montados em lombo de cavalo, levando gado de um lado para outro. Mas não só gado: notícias, histórias, amizades, saudades, um modo de estar na vida. Aqueles homens levavam no íntimo uma visão de mundo temperada pelo sofrimento, pela dignidade e pela coragem.

A vastidão do silêncio impregnava seus gestos.
 
A história se passa em um cenário em que eles estão expostos a tudo, unidos no duro ofício. Nas difíceis andanças, sob chuva e sol, o horizonte parece ficar cada vez mais longe à medida em que avançam na marcha. Nesse ambiente hostil ao conforto, no qual o convívio social se dá por exceção, a figura feminina aparece em segundo plano. Os cavalos são os imprescindíveis companheiros de travessia. Güiraldes mostra, neste contexto, a iniciação de um jovem na áspera lida rural.


capa da primeira edição³

O jovem é Fábio Cáceres, meio sem eira nem beira no mundo, sem saber direito qual sua origem, perdido na bruma da falta de memória familiar, um guri abandonado, guaxo (isto é, que não tem mãe ou que dela foi separado ainda na amamentação. A. Meyer utiliza a grafia guacho, como no espanhol). Um sobrevivente num universo primitivo mas não destituído de grandeza humana.
 
Dom Segundo Sombra é um homem escuro, forte, andarilho, sozinho como muitos naquelas paragens e naquele tempo, resumido no modo de ser, habituado à ironia cevada daqueles que, como ele, passam a existência trabalhando para proprietários rurais donos de quase tudo. Homem, todavia, a quem a ternura não abandonou e para quem a liberdade se funda no possuir-se, e não no possuir, no feliz dizer de Leopoldo Lugones (1874-1938), no artigo que apresenta o livro.

Dom Segundo carrega muitas histórias, mistérios, saberes da terra, num viver que é a cristalização da imagem do trabalhador do campo. Nesse viver e nos códigos que o norteiam está a raiz da nacionalidade argentina. Uma espécie de protopersonagem, assim como o Martín Fierro de José Hernández (1834-1886). Ele traz uma sabedoria de longínqua origem, de vertente indígena. Sabe lutar como poucos, mas o uso da violência não faz parte do seu modo de ser e resolver as coisas.
 
O encontro do menino Fábio com Dom Segundo Sombra é determinante para ambos. Um resgate de sentidos em meio à solitude de espaços vazios que se perdem em confins.

A vida gira constantemente e muitas vezes se tem a impressão de que não chega a lugar algum. Talvez só a afeição humana possa nos salvar do desaparecimento na sombra opressiva do tempo.
 
Dom Segundo Sombra, o gaúcho por excelência, povoa o ambiente com sua observação aguda da vida e sua bondade, e não nega ensinamentos, conselhos e o contido afeto a Fábio, o qual deixa de ser um desamparado guaxo. Nasce entre eles uma amizade profunda com a marca da cumplicidade e do respeito que só o sentimento de gratidão e a admiração são capazes de criar.
 
 ______________

¹Dom Segundo Sombra, Ricardo Güiraldes. Tradução de Augusto Meyer. L&PM Editores, Porto Alegre, 1997.
²verso de Língua Portuguesa, poema de Olavo Bilac.
³photo do Museu Güiraldes, Argentina.
http://www.sanantoniodeareco.com/parque-criollo-y-museo-gauchesco-ricardo-guiraldes
 

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Segredos do implúvio

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto
 

I

Dizem
que escrever
poemas
é ofício
de pouco valimento

mas pouco se revelou
sobre a memória
da sombra
as paredes úmidas
da velha casa de madeira
o escuro corredor
onde se morria
um pouco todos os dias
sem notícia
sem amanhã

II

alguém precisava
recordar
os soturnos habitantes
da rua humilde
na cidade serrana

lembrar o cheiro
de suas vestes
as pedras soltas
na porta das casas

os casacos pretos
nas manhãs de geada

III

nada ou muito pouco
se disse
dos segredos do implúvio

eu me pergunto por que
esse vazio em torno

estaria no silêncio
acre das caves
o destino de partir?

trabalho lento
nas escarpas
do coração

IV

não fossem
os trilhos
do trem
o barulho santo
do trem
atravessando
a madrugada
criando ao menos
em tese
a possibilidade
da fuga
muitos teriam
desistido de tudo
ali mesmo
como fez Chico
o Esquecido

V

o coração não é
assim mero

cresce em segredo
na dura colheita

não se esvazia
o coração
como se esgotam
as cisternas

VI

alguém precisava contar
a náusea persistente
a longa e tortuosa estrada
que desce na Capital

melhor não inventar
histórias
de castelos e linhagens
que nunca existiram
e se houve
federam
como podem feder
as escadarias
dessas obscuras passagens
perdidas no planeta
que recolhem
seres rastejantes

VII

o que se registra
no tombo do tempo
é que há um menino
imóvel
à beira da jovem defunta

naquele lugar
a despedida
com alguma flor
sussurros abafados

ele pergunta
onde ela foi habitar

o que vê
é a morte
e seu absurdo trabalho
convertendo em pó
a luz dos olhos

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Do livro O habitante da bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.
 

domingo, 10 de novembro de 2013

Ilhas e taperas

Jorge Adelar Finatto 
 
photo: Eduardo Tavares. veleiro no Guaíba
 
 
Um dia desses saí a navegar pelo Guaíba no meu barco de papel.
Às vezes ele se chama Sonhador, outras, Solidão.
No itinerário, desembarquei em algumas ilhas.
Confesso me assustei com as taperas que encontrei.
Tapera, do tupi, aldeia extinta.
Habitação em ruína, lugar abandonado.
Filipo, o papagaio que sempre me acompanha, costuma dizer: tapera, é em nós que ela existe.
Nos nossos gestos vazios, nas nossas omissões, na impotência de mudar a vida, na indiferença.
De tão abandonadas, as ilhas se transformam em território de fantasmas.
Cada um de nós é uma ilha nessas águas tão fundas do viver.
Quando olho em volta da minha ilha, encontro outras ilhas. Muitas ilhas.
Apesar da quantidade e da proximidade, não formamos  um arquipélago.
Existimos isoladamente. Em certos dias flutuamos à deriva.
Os habitantes das ilhas querem falar e ser ouvidos.
Raros, contudo, dispõem-se a escutar.
Esse o flagelo que assola o mapa das ilhas.
Habitamos taperas modernas, com computador, blog, máquina de lavar, tv a cabo, aparelhos de som, ar-condicionado, elevador, secador de cabelo, mil coisas.
Em nosso íntimo, continuamos homens e mulheres das cavernas, com poucos amigos. Solitários, primitivos, ilhados.
Lutamos pra sobreviver, saímos à caça todas as manhãs, disputamos ferozmente espaços no  mercado de trabalho, no mercado de alimentos, no mercado das paixões. Com sorte, encontraremos nosso quinhão no mercado do amor.
Desconfiamos quando nos mostram o coração.
Dores e medos são curtidos no recesso como se não existisse mais ninguém no bairro, no edifício.
As nossas moradias, tugúrios onde nos escondemos. Planejamos a fuga para um lugar que não sabemos se existe, mas deve ser melhor.
Olho o movimento dos barcos na entrada do cais.
Ouço o ruído seco do vento na vela branca do veleiro.
Uma gaivota atravessa o rio.
O entardecer aprofunda o exílio.
Não conseguimos formar um arquipélago.
O Guaíba embala a solidão das nossas ilhas e taperas.

 
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A photo do Eduardo não é uma maravilha?  Texto revisto, publicado antes em 04 de fevereiro, 2010.
 

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

António Zambujo vale um banquete

Carlos Alberto de Souza
 
António Zambujo. photo: Rita Carmo*
 
António Zambujo vale um banquete, mas saiu por quilo de alimento não perecível na gostosa noite da quinta (7/11) no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Os que foram assisti-lo saíram nutridos com o que de melhor a música pode oferecer. Cantor maravilhoso, repertório maravilhoso, músicos maravilhosos.
Em algumas canções, Zambujo lembrou Caetano, pela afinação, beleza vocal e gorjeios. Mas também lembrou Chico, de quem cantou Valsinha, um dos grandes momentos do espetáculo, curtido por representantes da colônia portuguesa de Porto Alegre. E até as onomatopeias de João Bosco se insinuaram na voz do gajo do Alentejo (por sinal, onde fica a Portoalegre deles).
Zambujo é de primeiríssima grandeza, mas, pelo que se viu no palco e após o espetáculo, nos autógrafos do seu CD Outro sentido, desprovido de estrelismo. Dividiram a cena com ele os virtuoses Ricardo Cruz (contrabaixo) - da estatura de um Jorge Helder -, Bernardo Couto (guitarra portuguesa), José Miguel (clarinete) e João Moreira (trompete). Todos tiveram o demorado e reconhecido aplauso da plateia, que quase lotou o espaço.
O brincalhão Zambujo disse esperar que tenha sido a primeira de outras apresentações na capital gaúcha. Tomara. Assim também devem pensar o simpático Wiliam, que veio especialmente de Santos (SP) para o espetáculo, e o casal Verissimo e Lucia, que aplaudiu o artista português.
Para terminar, vale dizer que no segundo e último bis, António Zambujo cantou Foi Deus, de Alberto Janes, acompanhado apenas do contrabaixo de Ricardo Cruz. Caiu-lhe bem o verso “...Foi Deus que me pôs no peito um rosário de penas que vou desfiando e choro ao cantar / Fez poeta o rouxinol / Pôs no campo o alecrim / Deu as flores à primavera / Ai... e deu-me esta voz a mim”.
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photo do site oficial do artista:
 Carlos Alberto de Souza é jornalista em Porto Alegre.
smcsouza@uol.com.br

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Anotações de primavera

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto




Aqui na Serra as flores começam a dar o ar da sua graça, e que graça elas têm! As mais vistosas, nesse momento, são as hortênsias e as rosas.

Obra de arte é a que nasce da intervenção humana. Mas se abstraímos esse fato, podemos dizer que existe arte na natureza. Uma beleza que sempre se renova e nem todos percebem. Não entendo como algumas pessoas conseguem ficar sem olhar as flores.

Em cidades grandes, a ocupação desordenada do espaço e a redução drástica de áreas verdes tornam essa observação mais difícil. Uma possível saída é cultivar flores e hortaliças em apartamentos (sem colocar vasos nas janelas, que podem cair e machucar alguém).

As flores são exemplo, por excelência, da arte natural. Mas há muito mais, as paisagens, as matas, os pássaros, as nuvens, o sol, as estrelas fixas e as cadentes, os animais, as águas dos rios e oceanos, as borboletas, os ninhos e tanta coisa.

Claro que estou falando da face suave, deixando de lado o feio portentoso. Não estou considerando a destruição do meio ambiente e a rude indiferença em relação à natureza (como se pudéssemos viver sem ela).

photo: j.finatto

Estou conversando, portanto, em meio aos destroços, tecendo levezas de primavera num cenário de desolação. Provisoriamente lírico. Não consigo viver sem esses vôos minimalistas. O excesso de realidade é um grande estraga-prazeres, derruba qualquer rasgo contemplativo.

Mas o fato é que, apesar de tudo, ainda encontro felicidade no traço delicado de uma flor, no seu perfume, na sua cor.

A Terra é um delicado jardim azul vagando no espaço.

E um dia talvez vamos descobrir que o ser humano é a mais bela das obras criadas, não só em beleza exterior como, principalmente, em atributos éticos. Isto acontecerá quando o dinheiro, a vaidade e o poder não forem mais a medida de todas as coisas.
 

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O espantalho no milharal

Jorge Adelar Finatto
 

photo: j.finatto

 
Se parar de escrever na casa do labirinto, nesta difícil procura de claridade, se o silêncio e o medo crescerem ao meu redor como um vasto milharal habitado por estranho espantalho vestido de negro, com grossas lentes nos óculos que não ampliam a progressiva e asfixiante pequenez das coisas, esse tal que desistiu do ofício de espantar, sendo ele próprio o contumaz espantado no oblíquo território da existência, se os amigos esquecerem de me visitar nas ermas noites de inverno, se um pássaro soltar o canto no galho da araucária diante da minha janela, se essas palavras que escrevi servirem, ao menos, pra distrair o leitor (?) do problema da morte e da inefável falta de sentido da vida, eu sentirei que valeu a pena.

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Araucária vista da janela, Passo dos Ausentes.
Texto revisto, publicado em 13 de abril, 2011.
 

domingo, 3 de novembro de 2013

El largo viaje de placer

Jorge Adelar Finatto
 

Um livro cativante, intenso do início ao fim, dos melhores que li nos últimos anos. A Longa Viagem de Prazer, contos do escritor uruguaio Juan José Morosoli (1899-1957), publicado em outubro de 2009 pela editora L&PM, com tradução de Sérgio Faraco, é dessas obras que lastimamos não ter conhecido mais cedo. São nove  pequenas histórias que tratam da vida solitária e comum de homens e mulheres que vivem no interior do Uruguai.

A grandeza humana e dramática que encontramos nesses personagens é a mesma presente nas grandes obras da literatura universal. A poesia pulsa em cada um desses relatos povoados de densa humanidade, nos quais nós, habitantes deste mundo ermo e estranho, nos reconhecemos como diante de um espelho.
 
A maestria literária de Morosoli coloca-o ao lado de importantes autores do continente americano, como Julio Cortázar, Juan Carlos Onetti, Borges, Guimarães Rosa, Steinbeck, García Márquez, Dyonelio Machado.
 
Conforme salienta, com rara sensibilidade, o editor, crítico literário e ensaísta uruguaio Heber Raviolo, no excelente prólogo que escreveu para esta edição, os seres morosolianos "se radicam num lugar, num pago, num pueblo, ou andam pelos caminhos sem destino, sem saber o que buscam e nem se de fato buscam, numa espécie de contemplação de si mesmos ou de sua própria condição. El drama del hombre de este tiempo es tal vez  el haber perdido la facultad de sentirse vivir, disse Morosoli, e no tempo estancado, que é o tempo de sua obra, suas personagens parecem empenhadas, obstinadamente, em sentir-se vivas, aferradas, sem o saber, a certas categorias humanas elementares e por isso mesmo essenciais. Viventes de um tempo morto, ou condenado a morrer, é o que poderíamos dizer dos seres morosolianos." (pág. 13). 
 
Ainda segundo Raviolo, o escritor deixou uma obra pequena, "mas sólida e absolutamente pessoal", centralizada nos relatos breves.
 
Juan José Morosoli nasceu na interiorana cidade de Minas e dela nunca saiu. Cedo abandonou os estudos para trabalhar. Entre outros ofícios, foi atendente de livraria e bazar, dono de dois cafés e teve um armazém e depósito de mercadorias.
 
Resta esperar que outros títulos de Morosoli sejam vertidos para o português e lançados no Brasil. E quem viajar ao Uruguai não esqueça de trazer na bagagem ao menos um livro deste grande autor.
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A Longa Viagem de Prazer, Juan José Morosoli, tradução de Sérgio Faraco, Coleção L&PM Pocket, Porto Alegre, 2009. Resenha publicada em 6 de setembro, 2010.
 

sábado, 2 de novembro de 2013

Os últimos acendedores de lampiões


Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto
 

No entardecer, quando o sol morre atrás do Contraforte dos Capuchinhos, os dois acendedores de lampiões saem às ruas para dissipar a escuridão. Érico tem 80 anos e Dyonelio, 85. São os últimos remanescentes da Companhia de Iluminação de Passo dos Ausentes.
 
Inauguram a luz com seu gesto, esconjuram as trevas.
 
A nostálgica claridade noturna de nossas 20 ruas é invenção de 80 lampiões nelas espalhados. É assim desde 1925. A cidade parou no tempo a partir de então.
 
Érico e Dyonelio exercem o ofício desde a adolescência, quando ingressaram na companhia como aprendizes. Com a aposentadoria dos acendedores mais velhos, e diante do brutal esvaziamento da cidade (os jovens muito cedo vão-se embora à procura de estudo, trabalho e aventura; os velhos acabam morrendo e mudam-se em definitivo para os campos da ausência), não houve renovação dos iluminadores.

Somos uma cidade perdida no tempo e no espaço. Somos poucos. Habitamos os Campos de Cima do Esquecimento.
 
Os últimos acendedores de lampiões fizeram um pacto. Trabalharão até o dia da morte para não deixar a cidade entregue ao breu profundo. Eles acreditam que quando não mais saírem às ruas para acender os lampiões forças malignas tirarão proveito da escuridão e expulsarão nossa cidade do sistema solar.
 
Precisamos evitar a todo custo que se cumpra o presságio do padre Eleutério Ombra, enunciado em 1755, de que uma nova São Miguel das Missões se ergueria perto das nuvens, sobre altas montanhas, com graça e fulgor.
 
Advertiu, todavia, o velho sacerdote, que uma grossa sombra rondaria sempre esse lugar e poderia devorá-lo. Os filhos partiriam cedo para o mundo e não voltariam, deixando os pais envoltos nas eternas brumas da solidão.
 
photo: j.finatto

Depois que exércitos espanhóis e portugueses destruíram São Miguel, em 1756, alguns padres jesuítas e índios guaranis, sobreviventes do massacre, fugiram e fundaram Passo dos Ausentes.
 
Uma grande angústia, hoje, toma conta das pessoas por aqui. Vivemos numa cidade condenada ao desaparecimento. Cada um é insubstituível. Nem ao menos figuramos no mapa do Rio Grande do Sul, não há reconhecimento oficial por parte do governo.
 
Na capa do processo que tramita há quase duzentos anos no túnel burocrático, no qual postulamos elevação à condição de cidade, está escrito: burgo de fantasmas, vila mal-assombrada. Assim o governo nos trata.
 
O tempo, em Passo dos Ausentes, é uma ferida que não pára de sangrar.

Somos poucos. Somos invisíveis. Somos habitantes dos Campos de Cima do Esquecimento.

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Do livro A cidade perdida: as origens. Editora Vésper, Passo dos Ausentes, 2003.
Texto revisto, publicado no blog em 22 de janeiro, 2011.

 

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Drummond e a máquina de costura

Jorge Finatto


Carlos Drummond de Andrade¹

Uma antologia de poesia brasileira e uma máquina de costura. Que relação têm essas coisas? Nenhuma aparentemente. Mas foi através desse inusitado encontro que li, pela primeira vez na vida, um poema de Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987).

Neste 31 de outubro faz 111 anos que nasceu o grande poeta brasileiro.

Gosto de lembrar e contar essa história. Numa casa de gente pobre como era a nossa, livro raramente entrava, era artigo de luxo. Eu tinha 15 anos e minha mãe comprou a máquina de costurar pra cuidar das roupas da família.

Por feliz iniciativa do fabricante (ou da loja que vendia o produto, nunca soube), junto com a máquina vinham duas antologias: a de poesia brasileira e uma outra de poetas portugueses. Os dois volumes eram pequenos e grossos (trago-os até hoje na estante, são os livros que estão comigo há mais tempo).

A força viva da palavra apresentou-se diante de meus olhos quando li Cantiga de viúvo do bardo de Itabira. Algo estremeceu dentro de mim, uma porta se abriu e nunca mais fechou.

Como podia alguém escrever aquelas coisas, daquele jeito?

Havia tanto sentimento e beleza naqueles versos que me emocionei com a viuvez do poeta. Drummond tinha só 28 anos quando publicou Alguma Poesia, em 1930, seu primeiro livro, no qual está incluído o poema. Ele não era viúvo, pelo contrário, estava na flor da juventude e trilhava o caminho do conhecimento amoroso. A comovente história do poema tinha brotado da imaginação e da sensibilidade do escritor.

O texto drummondiano transmutou invenção em realidade na alma do adolescente leitor que eu era. Me tocou fundo a solidão do homem perplexo e sofrido ante a perda do seu amor.

Concluí que, se era possível dizer tais coisas com palavras tão simples, então valia a pena escrever. Despertar emoção e capacidade de sentir dor e alegria faz parte da missão dos poetas.

Fiquei para sempre com aquela impressão de força e limpeza da expressão escrita do poeta mineiro, confirmada depois de travar conhecimento com sua obra.

Drummond é uma lição perene de poesia.

Cantiga de viúvo²

A noite caiu na minh'alma,
fiquei triste sem querer.
Uma sombra veio vindo,
veio vindo, me abraçou.

Era a sombra de meu bem
que morreu há tanto tempo.

Me abraçou com tanto amor
me apertou com tanto fogo
me beijou, me consolou.

Depois riu devagarinho,
me disse adeus com a cabeça
e saiu. Fechou a porta.
Ouvi seus passos na escada.
Depois mais nada...
                                 acabou.

________________

¹Foto colhida na internet. O crédito será dado tão logo conhecido o autor.
²Poema do livro Alguma poesia, da antologia Reunião, 10 livros de poesia de CDA. Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1977.

Também sobre Drummond: A memória do Coração:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2010/04/memoria-do-coracao.html

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Porta aberta

Jorge Adelar Finatto


imagem de livro. fonte: jornal Público, Portugal.
 
 
Leio que o mundo dos blogues está à beira do precipício. Um escritor que costumo ler escreveu que estava pensando em abandonar o seu blog por falta de leitores, achava melhor fazer outra coisa.

Faz tempo que ele não publica um texto novo e eu, como seu leitor, sinto falta. Há uma espécie de velório antecipado deste meio de comunicação, democrático por excelência. Eu detesto velórios.

Prefiro as salas de espera das maternidades.
 
Muitas pessoas que têm blog (a maioria, acredito) não dispõem de outra opção, isto é, não têm onde publicar seus textos nos meios impressos tradicionais. Os blogueiros, com não muitas exceções, estão fora da era de Gutenberg, de onde foram expulsos pela falta de interessados em seus escritos. Faço parte deste time. 
 
Acontece que tem gente escrevendo e fazendo boas coisas nesse "velho e moribundo" mundo dos blogues. Não estamos falando, portanto, de falta de páginas interessantes.
 
Eu vim para a blogosfera impelido pela oportunidade que a internet proporciona, fazendo do indivíduo seu próprio editor, independente de intermediários. Nenhum outro meio é tão instantâneo e livre. Me acostumei ao novo modo de publicar, que além de tudo dispensa a derrubada de árvores para fazer papel e é extremamente acessível a todos em qualquer lugar do planeta.
 
Isso não significa que abandonei os livros de papel. Pelo contrário, cada vez amo mais os meus livros. Sou um fantasma do mundo de Gutenberg.  Enquanto publico no blog, meu espírito vagueia por sebos e livrarias como alma penada.

Gosto de sentir a textura do papel entre os dedos, o cheiro inefável das folhas. Aprecio levar o livro aonde vou, sinto falta de tocar no objeto.
 
A minha biblioteca caseira está cheia e quase não tem mais espaço para novas aquisições. Os da família se entreolham toda vez que chego em casa com um novo volume. Devem se consolar, talvez, pensando: ao menos ele não tem outros vícios (que se saiba).
 
Os livros e a leitura são uma doce e vital cachaça. Como disse Drummond, no poema Explicação, todo mundo tem sua cachaça. Não sou avesso a novidades e estou pensando a sério em comprar um leitor eletrônico de livros.
 
Não sei se a era dos blogues está no fim. Mas uma coisa eu sei: leitores não vão deixar de existir. Onde houver bom conteúdo haverá leitores por perto.

Mesmo um blog primitivo como este, só de textos e fotografias, encontra alguns interessados. Então, enquanto existir alguém aí do outro lado, estarei por aqui com a porta aberta. 
 

domingo, 27 de outubro de 2013

Celebro a vida que virá

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto. outubro 2013
 
Un petit espoir très féroce:
c’est moi!*
                                             Robert Lalonde

Ainda não nasci
sequer faço parte da paisagem
escuto uns gritos do outro lado: não estou

a sombra é apenas o começo
do previsível caminho
que vai dar na aurora

ainda não nasci
no entanto, é para breve

celebro a vida que virá
rompendo a escuridão
explodindo em alegria
como a primavera depois do inverno

sei onde isso terminará:
flor no extremo do ramo
beleza enchendo o vazio

faço do silêncio
um grande bosque
onde borboletas passeiam
pássaros inventam a claridade
com seu canto

imagina uma faísca que, súbito, paira no ar
uma palavra procurando um oco de boca
uma pequena luz que cresce: sou eu

_________

Poema do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.
*Uma pequena esperança muito feroz: sou eu. Da obra Une belle journée d'avance. Éditions du Seuil, Paris. 1986.
 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Meu encontro com Walt Whitman

Jorge Adelar Finatto 

photo: Walt Whitman, em 1887 . Autor: George C. Cox.
Fonte: Wikipédia.


O trabalho mudou minha vida de lugar  muitas vezes. Faz muitos anos morei numa cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul. O lugar se resumia a uma igreja católica e outra protestante, duas escolas, um hospital, algumas ruas e casas e pouca coisa mais. Em volta, a mata. Em certas tardes, eu saía a andar por estradas de chão, solitárias e com aroma silvestre.

Caminhar assim é como andar dentro de si mesmo.

Num dia de sol e frio, eu percorria um desses caminhos. Um córrego prateado corria na margem. Numa curva em frente, entre os altos plátanos que se erguiam nos dois lados da estrada, apareceu um homem. Quando nos cruzamos, ele me cumprimentou, em silêncio, fazendo um gentil aceno de cabeça, que eu retribuí.

Ele tinha uma barba branca abundante, uns olhos pequenos muito azuis, o cabelo na altura dos ombros. Usava um chapéu escuro com largas abas, a face um tanto rosada. Vestia um velho casaco, a camisa abotoada até o pescoço. Trazia um livro na mão esquerda.

Eu tive certeza de que se tratava do poeta norte-americano Walt Whitman (1819 – 1892).

Fiquei orgulhoso e feliz de estar ali, pisando o mesmo chão que o grande Walt.

Seria o espectro do poeta que eu vira? Seria alguém muito parecido?

Encontrei-o em outras duas ocasiões. Como da primeira vez, éramos só nós, a estrada verde, a brisa e o rumor do córrego. Fiquei observando o poeta. Ele entrava num desvio lateral da estrada, subia uns cinquenta metros em direção a uma pequena casa de madeira.

A casa era muito branca e delicada. Sozinha, lá no alto, mostrava cortinas azuis nas janelas abertas, e flores, muitas flores da estação no breve jardim em volta.

Walt entrava pela porta dos fundos e desaparecia.

Uma chaminé de alumínio saía pelo telhado.

Pensei em conversar com o poeta na última vez em que o encontrei. Talvez ele até dissesse alguns versos de Folhas da Relva, sua obra-prima. Mas não. Achei melhor não incomodar. Afinal, os poetas trabalham enquanto caminham em silêncio por estradas de chão.

Um dia chegou a hora de ir embora da cidade pequena.

A vida seguiu, muitos caminhos eu percorri depois. Mas nunca esqueci que, em certas tardes, numa cidadezinha do interior, eu caminhei na mesma estrada por onde andava Walt Whitman.

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Transbordante de Vida
                                                      Walt Whitman

Agora, transbordante de vida, sólido, visível,
No ano quarenta de minha existência, no ano oitenta e três dos Estados,
A alguém que viverá dentro de um século, ou em qualquer número de séculos,
A vós, que ainda não haveis nascido, dedico estes cantos, esforço-me por
alcançar-vos.
Quando lerdes, eu que sou agora visível, hei-de ter-me tornado invisível; então sereis vós, denso e visível, quem lerá os meus poemas, quem se esforçará por compreendê-los,
A imaginar quão felizes seríeis se me fora dado estar ao vosso lado e converter-me em vosso camarada;
Que seja, pois, como se eu estivesse. (Não duvideis demasiadamente que não esteja então ao vosso lado).

Poema extraído de O Livro de Ouro da Poesia dos Estados Unidos, coletânea de poemas organizada por Oswaldino Marques, edição bilíngue, Ediouro, tradução de Manuel Ferreira Santos.
_________

Texto revisto, publicado no blog em 17, abril, 2010.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Ventos da primavera

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto
 
 
A primavera traz, nas malas recém-abertas da longa viagem, roupas leves e coloridas. Nos últimos dias tem chovido e faz frio. Os inícios da primavera eu conheço bem. Por isso não me espantam os ventos andarilhos de outubro quase novembro. Quando se aproxima o Dia dos Mortos, 02 de novembro, é sempre assim.

Finados sem vento não é Finados.
 
Acordei no fim da madrugada e estou no escritório. Escuto música, leio alguma coisa antes que amanheça. Ainda é noite nas montanhas, o verde das árvores ainda dorme no escuro. Nenhum pássaro, nenhum canto. É hora de pálpebras fechadas. Mas a luz não tarda e todos os olhos se abrirão novamente para a vida e seu difícil ofício, a vida e seus mistérios.
 
Por mais que se queira ficar imóvel (tem dias que tudo que se quer é ficar calado num canto, mastigando silêncio, ruminando assombros, observando o invisível ), os ventos de primavera nos empurram, exigem movimentos, atitudes, escolhas, passos.
 
Se somos uma obra em progresso, toda vontade de inércia é uma ilusão. É isso que tenho de me lembrar a cada manhã.

Nunca é fácil sair do aconchego do ninho, mesmo depois de ganhar penas e envergar asas. Os primeiros e os últimos vôos do dia são um salto sobre abismo. Penso, às vezes, que viver é contornar precipícios.

O que resta é repousar algumas horas por noite, acordar, lavar o rosto, vestir a roupa e ir pra estrada. Partir na dança dos abismos.

As horas de contemplação são raras e compradas a peso de diamantes.

Por isso, bem-vindos aqueles que vêm a esta página em algum momento do seu dia. Espero que não saiam de mãos vazias.

O melhor a fazer a esta hora inaugural, quando a claridade emerge do leste e aponta entre os galhos e as folhas, é sair com esses ventos que cheiram à flor, sair com eles pelo amanhecer afora.

Deus é grande e viver é sempre bom.
 
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A grafia que utilizo, como se percebe, é a antiga, que ainda está em vigor, juntamente com a do acordo (?) ortográfico, que, ao que parece, fez água. Sobre o assunto:
O acordo ortográfico fazendo água:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/03/o-acordo-ortografico-fazendo-agua.html
  

domingo, 20 de outubro de 2013

Biografias versus biografados

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto
 

Trava-se acirrada discussão no Brasil sobre a publicação de biografias.

De um lado estão os que pretendem retirar do ordenamento jurídico os artigos 20 e 21 do Código Civil (Lei nº 10.406, de 2002), que, na prática, condicionam a publicação de biografias à autorização dos biografados, se vivos, ou de seus herdeiros, se mortos.

O autor e a editora até podem publicar sem autorização, mas ficam sujeitos a processo judicial de proibição, indenização e recolhimento da obra, caso as pessoas mencionadas não concordem com a edição.

Em sentido contrário, sustenta-se a plena aplicação dos dois dispositivos legais, à luz do art. 5º, X, da Constituição Federal, que tutela a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas. Entendem estes que a exigência de autorização deve permanecer. Postulam, alguns, a participação dos biografados nos lucros de suas biografias.
 
Entre os argumentos que li em favor da revogação da autorização, está o de que a exigência é verdadeira censura e afronta o direito constitucional da liberdade de expressão (art. 5º, IX, da Constituição Federal). Afirma-se que as normas em vigor não permitem a livre circulação da informação e constituem atraso em relação a países onde a autorização não é exigida, como nos Estados Unidos. Acrescenta-se que a limitação legal produz biografias chapa-branca, sujeitas à interferência de biografados e familiares.
 
Para engrossar o caldo, tramita no Congresso Nacional projeto para acabar com a autorização. E uma ação direta de inconstitucionalidade foi ajuizada no Supremo Tribunal Federal contra os artigos 20 e 21 do CC. Esta é, resumidamente, a controvérsia.

Entendo, inicialmente, que a liberdade de expressão não pertence somente às editoras e aos biógrafos, é um direito fundamental de todos os cidadãos, que não pode ser objeto de censura. Por outro lado, não pode ser vista como censura decisão judicial que, democraticamente, harmoniza princípios constitucionais de igual importância.

Há liberdade de expressão (e não censura) na manifestação dos que defendem a vida privada, a intimidade e a imagem, ainda que de figuras públicas.

Cada direito deve ser ponderado no âmbito do sistema jurídico como um todo, não isoladamente.
 
O que está posto em discussão, de forma equivocada a meu sentir, é que pessoas públicas não têm direito à intimidade e à vida privada, direitos protegidos constitucionalmente tanto quanto a liberdade de expressão. Como se, por exercerem ofício público (músicos, atletas, artistas, políticos, etc.), já não pudessem dispor da vida pessoal.

Não se deve confundir personalidade pública com direito de apropriação da vida alheia.

Pretender que, por ser persona pública, o indivíduo deva suportar que terceiro escreva sobre sua vida e comercialize a seu bel-prazer essa história configura, no mínimo, inaceitável invasão da vida do outro. Retirar do personagem a possibilidade de decidir contra isso é, na minha visão, uma violência.

A história de uma pessoa é seu maior patrimônio, a sua maior riqueza, e é o que deixa de mais importante como herança. Não parece justo nem razoável que alguém se aproprie desse patrimônio personalíssimo para divulgá-lo e comercializá-lo quando e como bem entender, enquanto ao biografado resta assistir a tudo calado, como se não fosse com ele.

Alguns argumentam que há interesse público na publicação de determinadas biografias. Na maioria dos casos, contudo, notadamente de biografados vivos e famosos, não é o interesse público que move o biógrafo, mas o interesse econômico. De resto, trata-se de erro grosseiro confundir interesse público (inexistente) com vontade de satisfazer a curiosidade pública, coisa bem diversa, movida esta pelo desejo pueril tão em moda de rastrear a privacidade e a intimidade alheias. 
  
Não há violação da liberdade de expressão nos artigos do Código Civil, mas sim a preservação do direito legítimo de todo indivíduo de dispor de sua história de vida, no qual está incluído aceitar ou não ser biografado. Está na esfera jurídica da pessoa decidir. Como negar isso a alguém? 
 
O que é público é o trabalho, a obra, a atividade profissional. Mas isto, de modo algum, significa que a pessoa não tenha mais direito a uma vida pessoal e de ser dono dela.
 
A liberdade de expressão, pedra fundamental no edifício do estado democrático de direito, não é, todavia, absoluta e encontra limites em outros direitos constitucionais.

O fato de personalidades como Michael Jackson terem por volta de 200 biografias não-autorizadas, por si só, não leva a concluir que o modelo americano possa ser transposto, sem ressalva, à realidade brasileira, tão diversa em múltiplos aspectos.

A vingar a tese da inconstitucionalidade ou da revogação dos artigos em questão, na prática se estará colocando a biografia de pessoas vivas em domínio público. Nunca será demais lembrar que a lei que protege os direitos autorais (Lei nº 9.610/1998) ampara os direitos do autor por 70 anos após sua morte... Como aceitar que a vida do criador, sua principal obra, caia de imediato em domínio público?

Penso que a lei pode ser aperfeiçoada. O artigo 20 pode ser melhorado, mas seria um grave erro simplesmente retirá-lo do mundo jurídico.
 
Por exemplo, acredito que seria um avanço fixar-se um prazo para o exercício do direito por parte dos herdeiros. Também seria, neste momento, oportuno, tanto no STF como no Congresso Nacional, realizar audiências públicas sobre o assunto,  a fim de enriquecer as decisões que serão tomadas nos dois poderes.

Caso o STF decida pela liberação geral das biografias, temo que será muito difícil preservar a vida dos direitos fundamentais em questão.

Por fim, observo que não é a primeira vez e nem será a última que normas constitucionais entram em aparente conflito. É a análise percuciente do caso concreto que determinará qual direito deve ser aplicado para a realização do justo. Há inúmeras situações em que a liberdade de expressão prevalece sobre normas de mesma hierarquia. E há casos em que não prevalece, sendo que a própria Constituição Federal, no artigo 220, parágrafo 1º, acena com limites.

Viver em democracia significa, essencialmente, conhecer estes limites e saber que não existem direitos absolutos.

______________

1. O presente artigo foi reproduzido no blog Interesse Público, do jornalista Frederico Vasconcelos, da Folha de São Paulo. Trata-se de um espaço democrático e qualificado da imprensa brasileira:

http://blogdofred.blogfolha.uol.com.br/2013/10/21/biografias-e-apropriacao-da-vida-alheia/ 

2.  A escritora Glória Perez divulgou o texto no seu twitter. Um abraço pra ela!
https://twitter.com/gloriafperez/status/397029073295126528

3. Atualizei parte do artigo em 29 de novembro de 2013.
 

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Púbi Mann contra o Terceiro Reich

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. Lago da Ausência


O fato por todos conhecido em Passo dos Ausentes  é que Púbi Mann retornou à cidade depois de 14 anos, sem memória e envolto numa espessa névoa de silêncio, numa remota e fria tarde de junho de 1952. Não tinha uma história pra contar, não reconhecia mais o lugar, as pessoas nem a si próprio.

Eram quatro horas quando o Jeep verde do Exército rompeu a neblina na entrada da cidade. Parou na Praça da Ausência. Trazia quatro militares e aquele homem com barba ruiva, vestindo um grosso capote azul-marinho e botas de cano longo. No lado direito da cabeça, tinha uma profunda cicatriz onde o cabelo não crescia.

Púbi não olhava nos olhos das pessoas. Esboçava um vago e incompreensível sorriso. O olhar passeava curioso pelos telhados ao redor da praça.  Dois oficiais levaram-no até o Teatro da Vida Breve, que também é biblioteca, pinacoteca, cinemateca, café e local de encontros.

Mocita de la Vega, administradora do teatro, explicou aos soldados que tentaria localizar o filósofo Don Sigofredo de Alcantis, a quem caberia atender a missão, na condição de presidente da Sociedade Histórica, Geográfica, Geológica, Astronômica, Filosófica, Literária, Antropofágica e Artística de Passo dos Ausentes.  

Mas Don Sigofredo não se encontrava na cidade, estava longe, no Contraforte dos Capuchinhos, visitando Claudionor, o Anacoreta. Mocita, então, buscou Juan Niebla, o músico cego, na estação de trem abandonada. E foi Niebla, na condição de vice-presidente da SHGAFLA, quem recebeu os militares no gabinete.

- Conforme mostram os documentos que ora entregamos - disse um dos oficiais, que, depois de olhar para Niebla, interrompeu a fala e virou-se para seu colega. Este, com um gesto impaciente, mandou que continuasse. - Como eu dizia, o senhor Púbi Mann, que agora apresentamos, foi mandado de volta ao Brasil pelo governo da Alemanha.

- De acordo com o Informe 79/EB/52, ele foi incorporado como soldado cozinheiro na marinha daquele país em 1939, um ano depois de chegar na Alemanha, vindo do Brasil.  Foi um lamentável equívoco, dizem as autoridades alemãs, já que o senhor Púbi estava de passagem, procurando parentes distantes na cidade de Lübeck.

- Ocorre que os Mann tinham fugido da Alemanha com a ascensão do nazismo. Púbi ficou sem ter para onde ir. Foi expulso da pensão quando o dinheiro acabou e passou a vagar pelas ruas e praças de Lübeck. Não conseguia se comunicar direito, pois falava num dialeto alemão de emigrantes do século XIX. Dormia na rua. Os dias eram difíceis. As autoridades locais resolveram recolhê-lo a um abrigo. Fizeram-lhe novos documentos, só que como cidadão alemão, e o entregaram ao exército. Poucos dias depois, foi encaminhado à marinha de guerra, sendo incorporado como soldado cozinheiro.

Juan Niebla interrompeu e disse:

- Pobre Púbi. Sinto pelo seu silêncio que está ausente deste mundo. Éramos amigos de infância. Com a morte dos pais, ele resolveu viajar em busca de possíveis familiares na Alemanha. De nada adiantaram nossos avisos sobre o perigo da guerra. Foi em busca de uma obscura ancestralidade. Está mais oco do que quando partiu.

- Só que Púbi se negou a servir na armada de Hitler -, retomou o oficial. No quartel, as coisas ficaram ruins pra ele. Mesmo assim, foi embarcado. Remisso, negava-se a fazer qualquer coisa, quis organizar um motim e foi preso no porão do navio. Durante um bombardeio, um pedaço de aço atingiu-lhe a cabeça, ferindo-o gravemente. Ele perdeu a memória.  De volta, foi encaminhado a um campo de concentração na Alemanha.

- Depois da guerra, foi para um hospital psiquiátrico, de onde teve alta recentemente para ser devolvido ao Brasil. O informe diz ainda que ele recebe uma pensão mensal e vitalícia do governo daquele país por serviços prestados contra o nazismo, com sacrifício da própria saúde. Não há outros detalhes.

Os soldados partiram, afundando-se com o Jeep verde na neblina. Coube a Juan Niebla, com o auxílio do braço de Mocita, levar o desmemoriado pela mão até a casa da irmã Celina Mann, única parente viva.

Foi deste modo que Púbi Mann regressou a Passo dos Ausentes. Alto, magro, curvado e esquecido de tudo. Passava os dias sentado em silêncio na cadeira de balanço do avarandado do sobrado familiar. Celina, todos os dias, pelas cinco da tarde, lia para ele trechos da Bíblia.

Isto foi assim até o dia em que, do nada, durante uma caminhada com a irmã ao redor do Lago da Ausência, aconteceu o milagre que ninguém mais esperava. Púbi emergiu das trevas e contou a verdadeira e incrível história daquela cicatriz e de sua rebelião contra o Terceiro Reich. Mas isto já é outra história e caberá ao próprio Púbi contá-la, quando assim resolver.

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Texto revisto, publicado em 11 de junho, 2012.
 

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A Liga da Orquídea

 Jorge Adelar Finatto

Fachada da Sociedade Histórica, Antropofágica e Literária de Passo dos Ausentes
photo: j.finatto
 

Em Passo dos Ausentes, de onde escrevo essas longínquas linhas, não há registro oficial de morte motivada pelo frio. Apesar das peculiares condições atmosféricas, que impõem ventos polares, chuvas, neblinas e neves em boa parte do ano, por aqui de frio ninguém morre. 

Datam do tempo da fundação da cidade, em 1759, por índios guaranis e padres jesuítas fugidos da destruição de São Miguel das Missões, os primeiros agasalhos de lã tecidos nos Campos de Cima do Esquecimento. Grossos capotes, palas, ponchos, meias, calças, vestidos, ceroulões, casacos, blusas, luvas e mantas de lã crua fazem parte da indumentária da Terra dos Ausentes.  

Se de frio ninguém padece, o mesmo já não se pode dizer daqueles que sofrem nas geleiras da solidão. 

Há entre nós relatos que entraram para a literatura médica mundial, de vidas que foram salvas de morrer de solidão e de ausência de afeto. Os casos foram descritos com detalhes pelo único médico existente em Passo dos Ausentes, Dr. Fredolino Lancaster, que, aos 98 anos, ainda exerce a medicina, na falta de substituto. 

Em memorável palestra na Sociedade Histórica, Geográfica, Filosófica, Literária, Geológica, Astronômica, Teatral, Antropológica e Antropofágica de Passo dos Ausentes, Fredolino Lancaster abordou o tema Da solidão glacial dos viventes e dos moribundos. Eis alguns trechos da fala do nosso venerando esculápio: 

- A prova de que o abandono e a falta de afeto também adoecem e podem até mesmo levar à morte eu recolhi em pelo menos 30 casos hoje considerados clássicos. Apresentei este estudo em 1980, em Londres, durante encontro internacional de médicos especialistas na alma humana. Trago apenas um resumo.

- Antes de prosseguir, um calicezinho de graspa, por favor. Assim, assim está bem. Obrigado, Mocita de La Vega.

- É importante atentar para os sintomas. Persistentes tremores de frio acompanham o indivíduo desde que acorda até adormecer. Ocorrem independente da temperatura que faz no ambiente. A temperatura do corpo fica mais baixa do que o normal. Palpitações, suor frio, olhos e boca secos, mãos instáveis, vontade de não sair da cama ou de casa, e uma acentuada atração pelo abismo são alguns dos sinais.

- Na situação descrita, os pacientes perderam laços afetivos importantes, passaram a revolutear em volta das perdas como mariposas ao redor da lâmpada. A solitude persistente, intocável com palavras, o vazio, o frio interior, compõem o quadro de uma doença impiedosa e cruel, que precisa ser identificada logo no início. Pode apresentar quadro agudo, mas costuma ser crônica, e é deveras traiçoeira.

- O tratamento para evitar o trágico desfecho - a morte física ou, pior ainda, a morte interior, também conhecida como morte em vida (indiferença profunda diante de tudo e de todos) - é a terapia do urgente abraço. 

- Povos antigos utilizavam o abraço tribal para prolongar a vida de seus moribundos, o que acontecia às vezes por muitos dias, meses e até anos. Adaptei o abraço tribal para nossa álgida realidade,  nessas alturas dos Campos de Cima do Esquecimento. Tenho casos de pacientes que sobrevivem há dez, vinte ou mais anos, mesmo com graves doenças, valendo-se do abraço amigo.

- Desde que passei a utilizar a terapia, nunca mais perdi um doente de solidão. É preciso cercar o enfermo com atenção e ternura. Um abraço prolongado, duas vezes por dia, é o tratamento indicado para os casos leves. Para casos mais graves, abraços de três em três horas, em casa, na rua ou no local de trabalho, são fundamentais.

- É necessário identificar os possíveis abraçadores, que podem ser parentes, cônjuges, amigos, vizinhos e até mesmo desconhecidos, desde que instruídos para o nobre mister. 

- A Liga da Orquídea, que atualmente presido, sob a cálida inspiração de Alberta de Montecalvino, a Senhora da Biblioteca, faz um trabalho notável de visitas e apoio aos doentes de solidão com seu grupo de voluntários e voluntárias. 

- A solidão dos moribundos é, de longe, a pior solidão. Até um macróbio como eu tem medo da morte. E a pior morte é a morte solitária, sem carinho. 

- O abraço, portanto, é remédio sem igual para enfrentar a solitude e o medo de morrer. Prolonga a existência e revigora o coração. É tratamento sem igual para a saúde física e para o espírito. Não há novidade nisso, pois, no passado, em São Miguel das Missões, terra dos nossos ancestrais, já era utilizado. Obrigado.

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Alberta de Montecalvino:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/07/alberta-de-montecalvino.html