segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Julio Cortázar em Porto Alegre

Jorge Adelar Finatto






A literatura passa um sentimento de permanência das coisas. Nós passamos, as palavras escritas ficam. A maior parte dos livros dura muito mais do que as pessoas.

Os escritores que escolhemos para nos acompanhar na travessia são fundadores dessa eternidade de papel. Os livros fazem parte do que somos.

A lembrança mais remota que associo ao nome do escritor argentino Julio Cortázar (1914 - 1984) é dos primeiros tempos de estudante universitário em Porto Alegre. O ano 1976, tinha dezenove anos. Estava lendo Histórias de Cronópios e de Famas e As Armas Secretas.

A fila do restaurante universitário era torturante pra quem tinha que ir pro trabalho cedo da tarde como eu. Estudante pobre, precisava trabalhar pra sobreviver, como muitos. Nas filas do r.u., lia Cortázar (foto). Então, aquele era também um bom momento do meu dia. Depois li outros livros dele.

Agora, lendo Papéis Inesperados (tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht), livro de 490 páginas, com textos inéditos do escritor, publicado originalmente em 2009, vinte e cinco anos após sua morte, reencontro Cortázar. No Brasil, o livro foi lançado em 2010 pela Civilização Brasileira.

Os textos - encontrados em uma velha cômoda, na casa onde morou o autor, em Paris, por sua viúva Aurora Bernárdez - são poemas, contos, outras histórias de cronópios e de famas, outros episódios de Um tal Lucas, um capítulo de O Livro de Manuel, discursos, prólogos, artigos de arte e literatura, crônicas de viagem, etc.

A felicidade de encontrar material novo do autor, tantos anos depois, é muito grande.

O dado inusitado e, para nós que amamos a literatura de Julio Cortázar, muito gratificante foi descobrir uma menção a Porto Alegre no texto Never stop the press, onde se lê a frase "uma vista escolhida do Tirol e/ou de Bariloche e/ou de Porto Alegre" (pág. 117).

Sei que Cortázar gostava do Brasil, onde esteve pelo menos em duas ocasiões, e que admirava, por exemplo, Clarice Lispector e Carlos Drummond de Andrade, além de apreciar nossa música, especialmente Caetano Veloso, mas ignoro se alguma vez esteve em nossa cidade.

De qualquer forma, ver Porto Alegre no texto de Cortázar, ainda que só de passagem, dá o que imaginar. Pensando bem, acho que ele tinha muito a ver com a cidade povoada de barcos e crepúsculos, jardins escondidos na frente de casas desaparecidas, quintais perdidos no tempo.

Silenciosos gatos caminham sobre muros cobertos de hera em ruas esquecidas habitadas por fantasmas.

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Texto atualizado, publicado em 11 de agosto, 2010.

domingo, 12 de janeiro de 2014

O peixe da boca vermelha

Jorge Adelar Finatto
photos: j.finatto




A caminhada polifônica destina-se não apenas ao exercício do corpo como à indispensável atenção às coisas do espírito.

A observação dos seres vivos e da paisagem, a aproximação estética e sensorial da mãe natureza, a respiração do ar limpo e fresco das manhãs e tardes, a descoberta de inefáveis epifanias durante o percurso, tudo isso faz parte da polifonia andante.




Caminhava eu, pois, nas cercanias do Lago da Neblina, em Passo dos Ausentes, em andança de paz e contemplação, prevenido com a invencível Coruja, a vetusta máquina fotográfica que me acompanha. 

Os gansos, insolentes, desistiram de acusar a minha presença. Concluíram após breves instantes que sou apenas um andarilho que está só de passagem, um sujeito inofensivo, sem nenhuma importância na ordem cósmica, um sopro, como se diz, na ventania, que perambula a bordo de um chapéu de palha branco, levando grossas e estapafúrdias lentes nos óculos, à cata do invisível.

Um indivíduo assim não oferece risco à fauna nem à flora, quiçá a si mesmo.

Andava, portanto, em pleno dia, como quem persegue uma estrela cadente. 

Nas margens e dentro do lago existe vida pulsante. Estava olhando o vazio (essa maneira de encontrar, talvez, o inesperado), quando ouvi um vago rumor na água no meu esquerdo lado (a bombordo, como nós, marinheiros do universo, costumamos de dizer).




Foi quando me apareceu, vindo do fundo das águas, o amigo (ou amiga) dessas photos.




Um peixe branco, a boca pintada de vermelho, com traços coloridos espalhados pelo corpo, cerca de 1 metro de comprimento. Passou a simpática criatura a navegar perto de mim.

Tive a impressão de que sabia da sessão de photos, ao menos não poupou poses e movimentos. Chegou-se mais para a beira, tornou-se mais íntimo, mas não tão próximo que não pudesse executar um plano emergencial de fuga caso isso fosse necessário. Não foi.



Acho que ele quis dizer alguma coisa com sua esguia, calma e querida presença, e acho que conseguiu.





O peixe da boca vermelha encheu de beleza a tarde e o meu coração.

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Texto revisto e atualizado, publicado em 25 de janeiro, 2011.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A luz de cada um

Jorge Adelar Finatto




photo: j.finatto


Um súbito apagão mergulhou a todos no breu profundo, o mesmo que dominava o Brasil naqueles anos difíceis. No grande saguão cerca de 200 pessoas aguardavam para assistir a uma palestra. Talvez com o ator, dramaturgo e escritor paulista Plínio Marcos (1935-1999), num encontro que foi memorável. Mas não tenho certeza. Devia ser 1978, 79, 1980 quem sabe.  Como a maioria das pessoas ali presentes, eu era estudante de jornalismo. 

A ditadura militar no Brasil (1964-1985) se encaminhava pela abertura "lenta e gradual" iniciada pelo general-presidente Ernesto Geisel (1907-1996). As palestras na Faculdade de Comunicação Social da PUC, em Porto Alegre, eram com pessoas que, além de fazer um balanço do período de exceção, trabalhavam pela democratização, projetando o futuro dentro da democracia. Vinham artistas, sindicalistas, escritores, professores, jornalistas, cientistas, homens e mulheres que pensavam o Brasil.

Havia então muita esperança. Precisávamos, mais que tudo, de esperança pra suportar o tempo mau. E de muita disposição para reconstruir um país e nossas vidas nele.

A ditadura colheu as pessoas da minha geração em plena infância. Fomos criados no cercado do pensamento único. "Brasil, ame-o ou deixe-o" era um dos adágios da propaganda de Estado.

Esperávamos no saguão a abertura do auditório. A treva tomou conta. Era a metáfora da situação vigente. Muita gente no escuro, sem saber como sair do calabouço daqueles anos duros.

No início houve um silêncio, uma espera inquieta sobre o significado do apagão. Pouco a pouco as conversas foram retomadas.

Em meio à grossa escuridão, começaram a ser acesos fósforos, isqueiros, folhas de caderno como tochas. Pontos de luz passaram a brilhar formando claridades, que foram se espalhando. O breu já não nos engolia. Havia um ritual de instauração da luz. Não era uma grande luz, eram intermitentes chamas rebelando-se contra a treva.

A luminosidade era a soma da luz de cada um. Não era uma luz sozinha. Pequenas luzes dissipavam o medo.

Somos centelhas luminosas. Só que muitas vezes não nos damos conta dessa energia.

Quando deixamos a luz escapar da escuridão que nos habita, rompemos o breu, fundamos claridade.

Pelo menos foi isso que senti na ocasião e sinto ainda hoje. Nunca esqueci. Nunca esqueço. Quando a luz voltou, já estávamos iluminados. 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A vida vale um caco

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


Existe beleza nos cacos de uma xícara quebrada, agora eu sei.

Juntei os restos de louça espalhados no chão do escritório, acondicionei-os em folhas de jornal, preparei o material para descartar no lixo seco. Desci, coloquei tudo no recipiente próprio. Depois subi a escada Santos Dumont e voltei ao trabalho.

Enquanto labutava, percebi num canto da sala uma reminiscência da xícara em forma de lasca colorida.

As cores e o formato daquele caco me chamaram a atenção. Eu descobri que havia beleza naquilo. Fui em seguida até o lixo e resgatei os outros pedaços.

photo: j.finatto

O objeto xícara havia se partido acidentalmente ao cair no chão. Deu origem a vários outros miniobjetos com formas, cores e volumes próprios.

No ato trágico de morrer da xícara-mãe, os fragmentos renasceram individualmente, dando inicio a novas "vidas". No ato de nascer, receberam a marca intransferível da solidão que caracteriza as coisas e os seres deste mundo.

Sei, por experiência de quem é astrônomo do farelo, observador de miudezas, que não existem outras lascas iguais a essas.

photo: j.finatto

São entes novos no universo. Estão aí com sua particular verdade, têm uma face própria, uma maneira de ser, uma sombra, ocupam um certo espaço, a claridade os ilumina todas as manhãs, existem.

A asa da xícara ficou incólume, contudo não é mais uma asa. Aderente à superfície convexa, lembra mais uma orelha.

Uma orelha que escuta talvez a voz de uma boca ausente, uma canção impossível.

Libertou-se, a asa, da antiga e rígida situação funcional. Ninguém mais poderá tratá-la ou esperar dela que se comporte como se singela asa fosse. É uma nova entidade, um corpo mutante com uma estética única. Perdeu a natureza acessória com que veio à existência.

photo: j.finatto

De certo modo, os fragmentos estão mais vivos do que quando formavam um todo orgânico e fechado. Aproveitaram a chance, gozam agora de uma liberdade que antes não conheciam.

O que aconteceu com os cacos foi um reviver após a morte súbita da mãe-xícara. Estão soltos no mundo, rebentos recém paridos, cada um a seu jeito. Como todos os seres, correm riscos e o futuro lhes é incerto. O preço de estar vivo.

Olho os restos no canto da escrivaninha. São parecidos com tudo que é vivente. Aprenderam na pele que, às vezes, cair um baita tombo, bater com a cara no chão, ficar reduzido a estilhaços, pode ser o caminho para um novo, jamais imaginado, belo e colorido recomeço.

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Texto revisto e atualizado, publicado em 30 de abril, 2013.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A primeira manhã

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto*


Porque há hibiscos
                       na rua
e a primavera
quase sempre
é sentimento
te ofereço esta manhã

como fantasma
não faço mais
que transitar
nessa obscura rota
do adeus

como se fossem meus
colho teus segredos
que o vento carrega
para onde eu não sei

te ofereço esta manhã
a primeira manhã do mundo
para não esqueceres
o bem que te quero

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Do livro Memorial da vida breve, J.A.Finatto, Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.
photo: janela do Castelinho, Caracol, Canela.

domingo, 5 de janeiro de 2014

A palavra e o moinho

Jorge Adelar Finatto 
 
Livraria Miragem, setor do sebo. photo: j.finatto, 02/01/2014


Aproveitei o dia nublado de 2 de janeiro e desci da neblina de Passo dos Ausentes para visitar mais uma vez a Livraria Miragem, em São Francisco de Paula. Nessa pequena cidade os Campos de Cima da Serra se estendem até chegar aos Campos de Cima do Esquecimento (que iniciam 100 quilômetros depois, a nordeste, no lugar mais alto e frio do Rio Grande do Sul).
 
Na livraria, antes dos livros, dei uma passada no café e bebi um copo de hidromel acompanhado de uma fatia do delicioso bolo caseiro. A pausa serviu também para tirar os solavancos do corpo e a poeira da roupa, fruto da descida vertiginosa pelo Contraforte dos Capuchinhos por estrada de chão batido.
 
photo: j.finatto
 
Me dirigi depois sem demora ao terceiro andar da livraria, onde está o belo e silente sebo. Escolhi dois livros. Um de uma autora inglesa de quem nunca ouvira falar, George Eliot, nome fictício de Mary Ann Evans (1819-1880). Intitula-se O Moinho do Rio Floss. Li as primeiras páginas e me agradou a descrição do cenário rural. É uma edição de aspecto razoável, datada de dezembro de 1945. Publicada pela Livraria José Olympio Editora, de inestimáveis serviços prestados aos leitores do Brasil, a obra tem tradução de Oliveira Ribeiro Neto.  Apesar de vetusta, muitas das 559 páginas precisam ainda ser abertas com espátula. As páginas têm a cor meio ocre de folhas de plátano no outono.
 
O outro livro é de ensaios, Vivendo pela palavra, da escritora americana Alice Walker (1944), autora do famoso A Cor púrpura, que virou filme de sucesso. Trata-se de publicação da Editora Rocco, de 1988, com tradução de Aulyde Soares Rodrigues, 190 páginas. Estou já pela metade da leitura e gostando muito (não li nada dela antes).


photo: j.finatto
 
Alice tem uma abordagem simples da vida, ao mesmo tempo em que extrai sofisticadas sínteses de suas observações. É uma ativista dos direitos humanos. Neste livro de 27 ensaios, escritos entre 1981 e 1988, publicados antes em revistas, ela fala de relacionamentos, começando com seu pai, traz lembranças de sua vida familiar de menina pobre e negra no sul dos Estados Unidos, aborda política, racismo, viagens, homossexualismo, bichos, natureza, dificuldades no convívio com seus cabelos (e a superação delas), e personagens que conheceu, como o grande poeta Langston Hughes (este lembrado no texto O velho artista, a respeito de outro belo personagem, o Sr. Sweet).

Abrimos uma página, ao acaso, e lá encontramos sua infância rural, na Georgia, fim dos anos 1940, e vemos um velho tocando violão e cantando blues, ao lado do forno quente que assa biscoitos, na cozinha cheirosa. E tem também uma cadeira de carvalho feita pelo avô, os problemas afetivos e materiais da família, e muito além disso, mais tarde, o mundo e suas mil faces.

photo: j.finatto

A escritora pensa e sente a condição de mulheres e homens negros de seu país e do resto do mundo. Denuncia a opressão onde a percebe e mostra o valor e a beleza das pessoas, independente de raças, e suas difíceis circunstâncias. Tudo isso com sensibilidade, numa linguagem cálida, não raro de mãos dadas com a poesia.

Os livros não têm resposta pra tudo, é verdade, nem podem nos salvar. Mas nos ajudam a viver. Abrem caminhos para o que não conhecemos, fora e dentro de nós. Nos completam.
 
Os escritores trabalham como um moinho que vai sentindo e meditando as coisas da vida, re-moendo os fatos e as circunstâncias, deles extraindo sentidos. O resultado são palavras que nos entregam com a suma dessa experiência e suas revelações.

Começou a entardecer. Me despedi do pessoal da livraria e voltei pra estrada rumo de casa. Com esses dois livros e a alma mais leve do que quando cheguei.

photo: j.finatto
 

sábado, 4 de janeiro de 2014

Refúgio

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto
 

Tudo tão frágil na vida
o mundo inteiro cabe num abraço 

medos povoam a insônia
a chuva lá fora é a infância
com seus tesouros submersos
no navio sem leme
nem capitão
do tempo 

melhor me refugiar no teu corpo
fingir que tudo está tranquilo
arranjado e bom
como no útero
  
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Poema do livro O Fazedor de Auroras, J.Finatto, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1.990.
  

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O guardião da cidade-fantasma

Jorge Adelar Finatto
 
Shigeru Nakayama. photo: Bruno Kelly (Folhapress)
 
Airão Velho é uma cidade em ruínas, nas margens do rio Negro, perdida na floresta amazônica. Nasceu em 1694 como Santo Elias do Jaú, primeira povoação daquela região ribeirinha, no atual Estado do Amazonas. Algumas décadas depois da fundação, portugueses mudaram-lhe o nome para Airão Velho.
 
Cidades-fantasmas não são propriamente raridades no Brasil. Nós que vivemos aqui em Passo dos Ausentes, nos Campos de Cima do Esquecimento, sabemos bem o que é isso.
 
Não é por essa razão que Airão Velho virou notícia na Folha de São Paulo por esses dias*. Após o auge durante o período do ciclo da borracha (final do século XIX, inícios do XX), foi gradativamente se esvaziando.

Na década de 1960, os últimos moradores partiram por falta de opção econômica e se estabeleceram a 100 km do local, na hoje Novo Airão, distante 120 km de Manaus.

O que restou da antiga cidade é cuidado pelo imigrante japonês Shigeru Nakayama, 65 anos, que vive ali sozinho num casebre há 13 anos.
 
Ele sobrevive da pesca e de uma horta que cultiva nas cercanias do rio Negro, sem ajuda do Estado no trabalho de conservação. As ruínas e objetos que fizeram parte da vida da comunidade são poucos e Shigeru assumiu a missão de dar-lhes guarida, antes que desapareçam:
 
- Não quero abandonar isso aqui, tenho paixão por esse lugar, disse ele ao enviado especial da Folha, jornalista Lucas Reis.
 
A história do guardião remonta ao ano de 1964, quando desembarcou no Brasil, aos 16 anos, em Belém do Pará, com os pais e mais três irmãos. Vinham de Fukuoaka, no Japão. Um dia foi convidado por uma integrante da família Bezerra (importante em Airão Velho), ex-moradora, para cuidar das ruínas. Ele aceitou a tarefa e começou a recolher remanescentes históricos, formando um pequeno museu em sua casa. Na época de finados, limpa o cemitério. A patroa morreu em 2012, mas ele continua firme, cuidando e limpando o lugar.
 
photo: Bruno Kelly (Folhapress)
 
Segundo Shigeru, o local é conhecido internacionalmente e recebe turistas, principalmente estrangeiros, além de pesquisadores. "Não restou quase nada, mas tem muita história", afirmou a Lucas.
 
Conforme a reportagem, sobraram poucas coisas: uma casa de comércio, uma residência, o cemitério, uma escola, restos da igreja construída em 1702. O pedido de tombamento está sendo examinado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e tomara que a resposta não tarde.
 
A matéria da Folha, revelando o zelo do japonês em plena floresta amazônica, traz a idéia de que o mundo é quintal de todos, independente da nacionalidade e do lugar onde a pessoa resolve viver. Shigeru cuida daquele torrão brasileiro como se tivesse nascido lá. É uma relação de amor com a terra, com a memória dos que lá viveram, com a história da velha e extinta cidade.
 
Aquilo que para muitos seria motivo de insuportável solidão, para o imigrante é razão de realização e orgulho.
 
Essa história demonstra que o que vincula um indivíduo a um lugar é o sentimento e o compromisso que tem em relação a ele.

A consciência de pertencimento é coisa de coração e mente, não de papéis oficiais. São atitudes como a de Shigeru Nakayama que fazem a diferença entre a conservação e a destruição da Amazônia (e do próprio planeta).
 
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Folha de São Paulo, edição digital de 29/12/2013. Reportagem do enviado especial Lucas Reis com fotos de Bruno Kelly (Folhapress):
 

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Mares de 2014

Jorge Adelar Finatto 
 
Veleiro Cisne Branco. photo: Marinha do Brasil
 

Espero que neste novo ano cada um consiga levar seu barco pela vida da melhor maneira possível. De preferência sem grandes tempestades. Sobretudo, sem nenhum naufrágio.  Boas histórias nos reserve a travessia, com belas pessoas, ilhas e portos por conhecer. Se fizer chuva e ventania pelo caminho, que encontremos abrigo seguro e tenhamos no coração a lembrança dos dias de sol.

Desejo aos leitores saúde durante a viagem. Tudo de bom. Afeto, convivência, compromisso. Ânimo, muito ânimo pra fazer o que precisa ser feito.

Os passos do silêncio, as necessárias mudanças interiores, sem as quais nada mudará. E força, muita força pra deixar pra trás o irremediável.
 
Algumas coisas. A nesga de sonho na janela da realidade. Um pala novo de lã crua pra enfrentar o vento, a chuva, a solidão e o medo. Um novo amigo, amiga.
 
Quero abandonar a idéia de perfeição, abraçar a do possível, a do que é em movimento. Vou esquecer as desilusões e mágoas e isso vai ser um grande passo.

Quero livros com letras maiores. Lentes mais leves nos meus óculos.
 
Perdoar a quem nunca pediu perdão e ser perdoado. Acreditar mais nas pessoas, duvidar menos da vida, da existência após a morte e de mim.
 
Encontrar bons livros e conhecer novos autores que se ocupem mais do que escrevem do que com suas fulgurantes pessoas. O mesmo vale pra músicos, filósofos, jornalistas, médicos, operadores do Direito, atores, esportistas, blogueiros, vaidades gerais.
 
Comprar um barco a vela, concluir a leitura de Em Busca do Tempo Perdido, compreender melhor meus dessemelhantes, conhecer a Índia, passar uma tarde em Plutão. Ter mais paciência com o Brasil. Lembrar onde esqueci meu velho guarda-chuva.
 
Em 2014 vou tomar mais banho de chuva, subir mais vezes no telhado para observar as nuvens de perto.
 
Construir uma escada em caracol solta no espaço e, lá no alto, vou desenhar uma janela para admirar as flores do pátio e as estrelas sem fim.
 
Conversar mais com Deus, domesticar o medo de morrer assim de repente, sem me despedir de ninguém.
 
Que o tempo a ser escrito valha a pena, palavra por palavra.
 
 
photo: j.finatto
  

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Motivo

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto

Nesta estação de fim de mundo
atrás de morro, feijão refogado
bilha, ventanas abertas
o louco devora o coração


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Do livro Viveiro, Jorge A. Finatto, Edições Sanguinovo, São Paulo, 1981.
A estação de trem de Passo dos Ausentes:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/06/a-estacao-de-trem-de-passo-dos-ausentes.html 

domingo, 29 de dezembro de 2013

Um blogue de capa e espada

Jorge Adelar Finatto

Guy Williams, como o Zorro, década de 1950


Um dia desses alguém escreveu que os blogues fazem parte da pré-história da internet. É sempre assim, pensei com meus três botões. Quando acredito que estou fazendo algo novo e diferente, esse algo não existe mais ou já saiu de moda.

Pensando bem, porém, acho que os blogues têm ainda algum interesse. Se tiver um conteúdo honesto e for transparente, pode atrair leitores. Uma apresentação visualmente agradável ajuda.

Um leitor enviou um e-mail. Observa que meu blogue é primitivo, não tem efeitos visuais, filmes, sons, nem recursos técnicos que o tornem mais atrativo. Os textos não comentam fatos do momento nem são de autoajuda. Um blogue insosso, sem nenhuma graça, enfim. Tem razão o nobre leitor.

O que sei fazer, mal e mal, é publicar algumas linhas acompanhadas de fotos. As matérias tratadas não destacam temas específicos nem obedecem a critérios de atualidade, nascem da subjetividade e do caos mental e/ou espiritual do autor. No mais, não sei ou não quero fazer outra coisa.

Um autêntico blogue de capa e espada, portanto, desses que acreditam na luta do bem contra o mal e na vitória da bondade ao final, da beleza contra a fealdade, do sentimento e do pensamento contra a brutalidade e a indiferença, bem ao estilo do velho, incomparável e invencível Zorro, interpretado pelo grande ator americano Guy Williams (photo).

As pessoas não vêm aqui para saber as últimas notícias nem para ler a minha opinião sobre elas. Uma razão que não alcanço faz com que os leitores visitem esta página rude. De qualquer forma, a presença deles é um estímulo para eu continuar traçando palavras e caçando imagens.

O notebook, pra mim, é uma velha máquina de escrever com luzinhas dentro que algum ET esqueceu aqui na Terra. Mas o fato é que gosto mesmo de escrever à mão, e só depois digito no computador. Um escritor das cavernas.

A internet tem um lado obscuro, pelas armadilhas e violências que esconde. Mas é, sobretudo, uma alternativa democrática, uma janela que se abre para a comunicação entre indivíduos e para a liberdade de expressão. O que é bom permanece pela qualidade que agrega à vida das pessoas; o ruim desaparece no buraco da própria ruindade que semeia.

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Texto atualizado, publicado em 16 de maio, 2012.

sábado, 28 de dezembro de 2013

É preciso recomeçar tudo

Jorge Adelar Finatto 

photo: j.finatto
 

É preciso recomeçar tudo
traçar o novo amanhecer
nas ruas da cidade

é preciso enterrar os mortos
varrer os destroços
abrir as portas para o sol
fazer seu trabalho

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Poema do livro O Fazedor de Auroras. Jorge A. Finatto. Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.

 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A claridade do coração

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto


 A trevosa sintaxe da vida. Nas almas a escuridão cativa.

Fugidias imagens me perseguem. Nos urdimentos do bandoneón, busco outras claridades. Viver longe do abismo, no vero amanhecer, eu busco.

Eu, Juan Niebla, venho do neblinoso. Trouxe o calepino?

Tenho andado pela vida à procura de luz. Essa que vem de dentro. A escuridão está por toda parte, principalmente nos corações.

As trevas-mestras sustentam o mundo.

Bem-vindo o que vem em paz e desarmado. Os regulamentos da amizade eu cumpro. A minha casa está sempre aberta ao que chega sem falsidade. Vivo os bons momentos da minha música. Nos enquantos, porque amanhã é escuro no alto e no fundo. Anote, por favor.
 
A treva foi inaugurada com a luz principial.

Isto é demanda antiga lá do céu. A velha contradição, o bem contra o mal. A luta imemorial. Mas também os complementos, um talvez não existe sem o outro. Sei lá o que digo. Estou exausto disso tudo. 
 
Em termos de arriscada filosofia, caminho em beira de precipícios.

A maldade não tem sala na minha casa. Sou músico de bandoneón e antiga memória, na estação de trem abandonada de Passo dos Ausentes.

Espero com o ouvido a chegada do invisível trem. Cego desde os 16 anos, sim, senhor. O resto é o breu e se dissipa quando toco meu instrumento no velho banco.
 
A vida é dura? Pra completar, é breve. Somos um ato-falho da criação.

Sou homem de fé, Deus me perdoe. Se vive. Fazemos o que é possível, às vezes muito menos, às vezes pouco mais. Quase tudo é retórica para o distinto público. Quem nas alheias falas se reconhece.

Somos ferida em carne viva, vivo pensamento. Se vive. Está anotando?
 
O certo é que, na vida como na arte, a gente fracassa sempre. Falta aquele grito, aquela palavra, aquela revolta na hora certa, o remate contra a escuridão, aquilo que não foi dito nem lembrado.

A expressão clara, pura emoção. Os impossíveis.

O ora-veja, em assunto de arte, só a divina obra tem. Deus é artista caprichoso, no atacado e no miúdo, como outro igual não há. Conseguiu escrever?
 
Pediram-me um ensaio falado sobre as cores remotas do outono. Mas eu só sei, só vejo o que sinto.


photo: j.finatto
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Juan Niebla é músico em Passo dos Ausentes. Admitido por concurso público, ocupa o cargo de músico municipal desde 1943. Toca bandoneón na estação de trem abandonada da cidade. Tem 87 anos, é cego desde os 16.

Texto atualizado, publicado anteriormente em 23 de março, 2011.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Natal, luz para todos

Jorge Adelar Finatto 

Aglomerado de estrelas. photo da Nasa
 

Jesus, como filho primogênito, antes da vida na Terra, foi auxiliador de Deus na tarefa de criar o mundo. 
 
A Bíblia refere-se a Cristo como sendo a luz capaz de iluminar as trevas da existência. No Evangelho de João, Jesus diz: "Eu sou a luz do mundo. Quem me segue, de modo algum andará na escuridão, mas possuirá a luz da vida."(João 8: 12)

O que se reverencia no Natal, atualmente, nada tem a ver com essa Luz, mas com papai noel, gnomos, imagens, presentes, publicidades mil, comércio furioso. A tal ponto o consumo invadiu esta data que muita gente não sabe ou olvida seu verdadeiro sentido.
 
Alguns se sentem muito infelizes por não ter condições de dar ou receber presentes. A maioria das pessoas esquece que o grande presente, o maior de todos, é o nascimento e a palavra de Jesus.
 
O evangelista João relaciona Cristo, essencialmente, com a palavra. Logo nas primeiras linhas de seu evangelho: "No princípio era a Palavra (Verbo, em algumas traduções), e a palavra estava com o Deus, e a palavra era (um) deus. Este estava no princípio com o Deus. Todas as coisas vieram à existência por intermédio dele, e à parte dele nem mesmo uma só coisa veio à existência." (João 1-3
 
A Palavra é Jesus, "um Deus", isto é, um poderoso ser espiritual (que tem capacidade de poder), por intermédio de quem todas as coisas vieram à existência.

Jesus, como filho primogênito, antes da vida na Terra, foi auxiliador de Deus na tarefa de criar o mundo. Única criação direta de Deus, a Palavra é vida e é luz.
 
Por que Jesus é chamado de Palavra? Segundo o Estudo Perspicaz das Escrituras, assim o é por atuar como a Boca ou Porta-Voz de Deus, seu Pai. "Ele era a Palavra de comunicação de Deus para transmitir informações e instruções aos outros filhos espirituais e humanos do Criador".*
 
Que o Natal nos traga iluminação espiritual através da Palavra, que é pura luz.

Bom Natal com saúde, fé e esperanças a todos!
 
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*Estudo Perspicaz das Escrituras, volume 3, p. 163. Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, São Paulo, 1992.
 

domingo, 22 de dezembro de 2013

Arte do grafite e a difícil paisagem

Jorge Adelar Finatto

imagem do filme Cidade Cinza
 
A arte do grafite é uma forma de expressão que ganhou força nas últimas décadas. Continua sendo motivo de discussões e incompreensões. Muitos aceitam, outros a rechaçam, por entender que suja a cidade e polui visualmente.
 
A primeira pergunta que pode ser feita, no meu entender, não é propriamente quem faz e por que faz grafite, mas por que se permite tanta parede e tanto muro, de forma desorganizada e desumana, em nossas cidades.

O grafite é a ocupação gráfica e lúdica do espaço público tomado pelo cinza medonho dos edifícios e do concreto, pela dureza dos muros e construções, pela frieza das intermináveis avenidas, pelo perigo, pelo ruído e fumaça dos veículos, pelos acachapantes painéis de publicidade.

A grande cidade é um lugar inóspito pra se viver. Vive-se do jeito que dá, porque, como as baratas, somos indestrutíveis.
 
Os imensos paredões verticais, túneis e viadutos sufocam e remetem a um sentimento de prisão no enorme labirinto. Câmeras espalhadas por todo lugar vigiam os movimentos dos viventes.

A agressão aos sentidos é constante. A violência e o crime tornaram-se banais. As vítimas são só um número nas estatísticas. Parece não haver saída. Como no livro 1984, de George Orwell, viver é mera concessão do Grande Irmão que a todos governa e persegue. Não há outra possibilidade além de calar e adaptar-se.
 
Os fazedores de grafite, em geral, exprimem a sensibilidade acuada e ferida. Querem deixar sua marca, um traço que ecoa como um grito na paisagem difícil. Desde uma rude linha até uma composição figurativa elaborada e reflexiva. Estão aí.

grafite em P. Alegre. photo: j.finatto

É claro que nem tudo é arte nesse universo que tem nas ruas seu ambiente natural. Há riscos e signos de tal forma caóticos e agressivos que aumentam, ao invés de diminuir, a sensação de soledade e isolamento. A pichação, via de regra, tem esse efeito e é muito pobre. Pichar é rabiscar qualquer coisa que colabora para a poluição visual, tal como ocorre com a maior parte dos anúncios publicitários colocados na via pública.

grafite em travessa de P. Alegre. photo: j.finatto

O grafite artístico adquiriu status não faz muito tempo e veio depois de muito debate e confusão. No início era tratado como caso de polícia e já configurou conduta passível de reprovação penal. Atualmente, o parágrafo 2º do art. 65 da Lei nº 9.605/98 descriminaliza, em certa medida, o grafite, enquanto manifestação de arte:

"Não constitui crime a prática de grafite realizada com o objetivo de valorizar o patrimônio público ou privado mediante manifestação artística, desde que consentida pelo proprietário e, quando couber, pelo locatário ou arrendatário do bem privado e, no caso de bem público, com a autorização do órgão competente e a observância das posturas municipais e das normas editadas pelos órgãos governamentais responsáveis pela preservação e conservação do patrimônio histórico e artístico nacional. (Incluído pela Lei nº 12.408, de 2011)"

grafite dOs Gêmeos em São Paulo

Penso que a lei penal não é a melhor maneira de tratar do assunto, nem o processo penal o lugar mais favorável para refletir sobre este tipo de conduta. Medidas administrativas deveriam ser suficientes. O debate dever ser cultural, ambiental, antropológico e sociológico, estimulado no âmbito da União, Estados e Municípios com a comunidade interessada.

Cartaz do filme Cidade Cinza

A tendência de criminalizar condutas que a rigor não precisam deste tratamento torna a vida em sociedade mais complicada do que já é, e não resolve situações de conflito. A norma penal não substitui o indispensável diálogo.

O documentário Cidade Cinza, em cartaz em Porto Alegre, trata da questão na cidade de São Paulo. Mostra que houve uma evolução no entendimento do grafite por parte das autoridades, que em alguns casos já o aceitam e respeitam como forma de arte. Principalmente a partir do reconhecimento internacional de grafiteiros como Os Gêmeos (autores do grafite no alto do post), Nunca e Nina, entre outros. 

Mas ainda há muita incompreensão sobre o tema. De acordo com o filme, equipes da prefeitura paulista saem às ruas para apagar aqueles traços que não consideram arte. São pessoas sem qualquer formação na matéria que decidem entre o que fica e o que vai ser eliminado. De resto, nem sempre é fácil discernir sobre o que é grafite e o que é pichação. Certamente não podem ser pessoas despreparadas, sem informação, a decidir o que apagar, se é que se deve apagar (salvo casos excepcionais). Em geral, o apagamento é um convite a nova pichação.

Imagem do filme Cidade Cinza

De qualquer forma, cada vez mais se autorizam espaços públicos e particulares para a prática do grafite nas cidades brasileiras, o que é sempre recomendável. Representa uma compreensão superior dessa manifestação, além de trazer colorido e beleza para o sofrido cenário urbano.

O grafite é perecível por natureza, constantemente exposto a fatores como sol, chuva, vento, poluição. A seu favor, o fato de ser arte democrática, a todos acessível nas nossas ruas, e que se presta à expressão de pessoas de diferentes idades, origens e condição social. Tem o mérito de quebrar um pouco o cinza, o duro concreto, o insuportável vazio, a rigidez das almas, a indizível solidão da cidade.


grafite em rua de Porto Alegre. photo: j.finatto


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Basquiat:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2010/11/basquiat-anjo-caido-expoe-em-paris.html
A arte das ruas:
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