quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Pastéis de Belém, Farta Brutos, marialva, etc.

Jorge Adelar Finatto
 
mapa no Museu da Marinha, Lisboa. photo: j.finatto

A tarde de chuva me levou ao bairro de Belém, em Lisboa, para degustar mais uma vez os famosos Pastéis de Belém e beber a costumeira taça de café com leite. Como sempre, a casa estava muito movimentada. Como sempre, o atendimento é dos melhores. Turistas de vários países, a malta brasileira em bom número.
 
Os Pastéis de Belém só se encontram neste lugar, em nenhum outro, assegura o funcionário. O que se vende nas outras pastelarias são pastéis de nata, esclarece, sem desfazer deles. São diferentes apenas. Eu acho os de Belém mais refinados.

photo: j.finatto, 12.02.2014
 
Caminhei, depois, à extensão do Mosteiro dos Jerônimos onde estão os restos mortais de Fernando Pessoa, Vasco da Gama e outros grandes da história portuguesa. Fui em direção ao Museu da Marinha, que visitei há quase um mês.
 
A exposição de barcos verdadeiros, muitos deles históricos, fez a minha alegria de bicho das águas. Voltei hoje pra procurar uma lembrança na lojinha náutica que existe ali ao lado. Encontrei um pequeno sino dourado de convés de navio que vai para o convés do meu escritório em Passo dos Ausentes.

Na segunda-feira jantávamos com amigos portugueses no Farta Brutos, restaurante de cozinha tradicional portuguesa do Bairro Alto. Entre os freqüentadores históricos, Jorge Amado, José Cardoso Pires, José Saramago, só pra mencionar alguns. Sentamo-nos à mesa preferida de Saramago, na qual existe uma placa recordando o freguês ilustre.

Farta Brutos. photo: j.finatto, 10.02.2014

A conversa ia animada com garfadas no prato de bacalhau, o vinho tinto celestial (cujo nome não sei porque foi escolha do amigo, me distraí e não reparei no rótulo). Até que ao falar em livros, literatura, escritores, pintores, fadistas, etc., surgiu no meio a palavra marialva, que esses ouvidos nunca tinham ouvido. Fulano era um marialva, alguém disse.
 
Pelo rumo da prosa, marialva é o indivíduo namorador, rabo-de-saia, amigo da noite, boêmio. Não é uma delícia?

Um dado interessante mencionado por Francisco Oliveira, proprietário do restaurante. Aquele edifício foi um dos que escaparam da destruição durante o grande terremoto que destruiu parte de Lisboa em 1º de novembro de 1755.
 
Uma notícia de hoje, mais uma que ilustra a crise que o país atravessa: 21 licenciados moram nas ruas de Lisboa. Gente que fez curso universitário e não encontra saídas (profissional, pessoal). É duro.
 
O mundo dos grandes navegadores portugueses era pequeno e se conquistava numa caravela.

Hoje é infinito e ninguém se entende. 
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O barbeiro de Fernando Pessoa:
http://ofazedordeauroras.blogspot.pt/2011/03/o-barbeiro-de-fernando-pessoa.html
 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O amor de Fernando por Ofélia

Jorge Adelar Finatto

 
O amor de Fernando Pessoa por Ofélia, o seu Bebé, é o único envolvimento conhecido do poeta com uma mulher. Não se tem notícia - eu pelo menos nunca ouvi falar - de que tenha havido outra em sua vida.
 
Suas cartas de amor, publicadas em livro, dão uma mostra de como todo ser humano - inclusive um gênio como Pessoa - necessita amar o amor.
 
Precisamos acreditar na idéia do amor romântico, esse que nos faz levitar entre nuvens de perfume (mesmo sabendo que, no fundo, mentimos para nós e para o outro). Os rubores da alma.
 
Queremos nos iludir achando que vai surgir esse outro que nos fará sair do calabouço, nos completará e fará felizes, nos consolará e não morrerá antes de nós.
 
Que sei eu. Talvez tudo isso tenha mesmo que ser assim. Amar o amor, e suspirar em bancos de praça, entre flores.
 
 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A tragédia do desemprego

Jorge Adelar Finatto
 
A Casa Gris, 1917, Marc Chagall*
 
A pior coisa que pode acontecer a um homem ou a uma mulher, depois da perda da saúde, é ficar sem trabalho. O trabalho é aquele algo sem o qual todo o resto fica a perigo. A vida afetiva, a vida familiar, a paz de espírito, a alegria de viver, a autoestima, tudo resta afetado quando a sobrevivência está em risco.
 
Eu vivi essa experiência e sei que é devastadora. Tinha 25 anos e meu patrão, na época, decidiu que minha presença não era mais necessária. Depois de 4 anos de serviços prestados com dedicação, levei um pontapé no traseiro, sem qualquer explicação. Ia ser pai do primeiro filho e não tinha mais dinheiro do aluguel e da comida.
 
Me lembro que nos primeiros tempos passei a sentir uma espécie de vertigem pela situação. Encostava numa parede, respirava fundo, esperava passar. Segui em frente. Porque aos 25 e com o apoio da família nada está perdido.
 
Há que buscar forças nas profundezas, ter persistência, esperança, não desanimar. Em nenhuma hipótese. Amanhã será melhor.
 
Fiquei muito tocado com a matéria de capa do jornal Público deste domingo, que trata do problema da emigração de portugueses forçados a deixar seu país depois dos 50 anos por causa do desemprego.
 
A tragédia da falta de trabalho atinge todas as faixas etárias em Portugal. Mas sinto como profundamente desalentadora a situação dos que, na madureza, ficam sem o ganha-pão, obrigando-se, sabe lá Deus com que forças, a abandonar sua terra, sua gente, seus afetos, reiniciando uma história num lugar estranho.
 
O aeroporto não é saída para o sério problema social. Os países mais ricos da União Européia, ao que parece, não pensam dessa forma e lavam as mãos, como o célebre personagem bíblico. É preciso repensar essa união. Já não se utilizam invasões militares, canhões e tiros para submeter outros povos. As armas são mais sutis, mas os efeitos igualmente terríveis na vida das pessoas. 
 
Impõem-se medidas intoleráveis de "ajustamento" a países mais fragilizados como Portugal. Reduzem-se salários e pensões, aumentam-se impostos, cortam-se investimentos em áreas fundamentais, jogam-se milhares e milhares no desemprego e no desespero. A juventude se vê sem nenhuma perspectiva. Se a União significa isso, não serve. Muito triste.
 
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Coleção do Museu Thyssen-Bornemisza, Madri, Espanha:

photo de abertura do blog: Café do Chiado, Lisboa, 10.01.2014
 

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Stephanie, temperamental e perigosa

Jorge Adelar Finatto
 
Stephanie, Portugal. fonte: Centrotv.pt*
 
O retorno a Portugal acontece em meio à tempestade Stephanie. Só agora à noite, ao ligar a televisão, vim a saber que o país está sendo sacudido pela dita senhora, e não apenas na costa. Pausa.
 
(Pra tirar a viagem do corpo, fui ao cinema assistir Ao Encontro de Mr. Banks, no Shopping Amoreiras.) 
 
(O filme conta a história de como Walt Disney levou 20 anos para adquirir os direitos de filmagem do livro Mary Poppins, da escritora australiana P.L. Travers. Um bom filme, tendo Emma Thompson no papel da difícil e inflexível autora, e Tom Hanks interpretando Disney, sem esquecer o sempre talentoso Paul Giamatti, motorista que consegue uma aproximação mais humana com Travers.)
 
(Há um bom cappuccino no café Praça Central, deste shopping, que faz companhia à não menos gostosa baguete de frango.) Fim da pausa.
 
Como não sabia da chegada de Stephanie, quando saí do cinema fui surpreendido com ferozes ventos a varrer Lisboa. No caminho para o hotel, tive meu chapéu bruscamente arrancado da cabeça. Saí atrás pela calçada molhada da chuva. Um jovem teve a agilidade de apanhá-lo, quando passava voando a seu lado, num golpe de gato. 
 
A partida entre Benfica e Sporting foi suspensa devido à ventania que chegou a derrubar placas sobre a arquibancada. Felizmente os torcedores já haviam se retirado, evitando uma tragédia (a partida não chegou a iniciar). Prevêem-se mais chuvas e ventos de mais de 130 km por hora e cheias nos rios Tejo e Mondego, entre outros. Alguns pousos de aviões foram desviados do aeroporto de Lisboa.
 
De modo que esse é o quadro. Esperamos que Stephanie seja razoável e vá embora sem mais tardança.
 
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Centrotv.pt:
 

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Um monge voa nas catedrais de Salamanca

Jorge Adelar Finatto
 
Vista das catedrais de Salamanca (à dir.) a partir da ponte construída
pelos romanos sobre o rio Tormes no início da era cristã. photo: j.finatto
 
Há um monge adormecido na minha alma. Alguém que se alegra no silêncio e no recolhimento do invisível claustro. Como todo monge que se preze, gosta mais da Renascença do que da Idade Média.
 
O monge que me habita - esse tal que atravessa o oceano para visitar a solitude de velhas igrejas - gosta da arte religiosa, porém é um iconoclasta e um revoltado quando se trata da Inquisição, de inquisidores e abusadores sexuais da Igreja Católica.

photo: j.finatto


Aos diabos com todos eles. Que ardam no inferno que criaram. Que respondam pelos crimes cometidos, diz o monge inconformado.
 
- Não se misture essa gente má com aqueles que, no âmbito da religiosidade sã, tantas coisas boas fizeram e fazem. Cada macaco no seu galho.
 
Levo o monge a caminhar pelas ruas do Casco Viejo de Salamanca, na Espanha. Vamos até o interior das catedrais Velha e Nova. A Velha foi construída entre os séculos XII e XIV, nos estilos românico e gótico. A Nova, entre os séc. XVI e XVIII, nos estilos gótico e barroco. São geminadas, transita-se internamente por ambas, sem necessidade de sair à rua.

photo: j.finatto
 
O monge passeia entre as naves e oratórios, nichos, relicários e retábulos. Voa em direção às abóbadas, vôo em profundidade vertical acima das colunas para estar mais perto da luz que entra parecendo iluminar a treva da condição humana.
 
Quem sabe um anjo aparece e nos salva do vazio e da tristeza desse mundo, consola-se o monge.
 
photo: j.finatto
 
Detalhe das catedrais. photo: j.finatto

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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Don Miguel de Unamuno

Jorge Adelar Finatto
 
Miguel de Unamuno

Pensa o sentimento, sente o pensamento;
que teus cantos tenham ninhos na terra,
e que quando em vôo subirem aos céus
atrás das nuvens não se percam.
                             
                                      M. Unamuno, Credo Poético¹
 
O rio Tormes atravessa Salamanca. A vida da cidade remonta a 2700 anos. Histórias, portanto, não faltam. Em 220 antes de  Cristo, por exemplo, o general cartaginês Aníbal invadiu o lugar. Trouxe 40 elefantes junto com seu exército. Em meados do século I a.Cristo, Salamanca foi conquistada pelos romanos. Eles construíram sobre o rio a ponte que está lá até hoje. Os engenheiros romanos fizeram bem sua parte por onde passaram.
 
Mas o que me trouxe à cidade não foram fatos como estes, e sim conhecer a Casa Museu Unamuno¹ e um pouco mais da vida do escritor e filósofo. O museu faz parte da Universidade de Salamanca (segundo alguns, a mais antiga da Europa, criada em 1218). Ontem saí cedo para fazer a visita. Fazia muito frio, ventava, garoava.

O ingresso ao museu custa 4 euros (cerca de 13 reais). Infelizmente não é permitido tirar fotos no local. O prédio onde está localizado sediava a antiga casa reitoral. Eleito reitor em 1900, Don Miguel de Unamuno (1864-1936) foi convidado pela instituição a ocupar a casa com sua esposa e filhos, sendo que quatro dos nove que o casal teve nasceram ali e um deles, Raimundín, ali faleceu.

fachada da Casa Museu (esquerda). photo: j.finatto
 
Depois de sair do cargo, em 1914, passou a viver numa casa da Calle Bordadores, que ocuparia até a morte. Esta casa se situa ao lado da estranha Casa das Mortes, com suas esculturas humanas deformadas na fachada.
 
A Casa Museu reconstrói a moradia de Unamuno e família. Conta com diversos objetos pessoais, mobiliário e os cerca de 6 mil livros que ele doou à universidade. Ali estão o escritório, o quarto, o penico, a biblioteca, a sala, a escadaria a pique para o segundo piso feita com pesadas pedras.

Encontram-se, também, a sua boina basca, os óculos, o chapéu, bengalas (era um caminhante das ruas da cidade). Retratos nas paredes, pinturas, poemas que escreveu na solidão do escritório, manuscritos.

A claridade do dia entra pelas amplas janelas e dá vida ao ambiente como fazia naqueles tempos.

escultura de Unamuno, Salamanca, autor: Pablo Serrano, 1968. photo: j.finatto
 
O mínimo que se pode dizer de Miguel de Unamuno é que é um pensador absolutamente original, um filósofo dos mais importantes não apenas do século XX como da história da humanidade. Um escritor que trabalhou a palavra como poucos e que através dela conseguiu dizer o indizível.

Um poeta de grande talento e sensibilidade que também escreveu peças de teatro, novelas, artigos para jornal, manifestações públicas e livros imperdíveis. Um homem público na extensão do termo, envolvendo-se com a política, o socialismo, a república, antimonarquista.

Um cidadão de grande coragem moral diante das injustiças e da desumanização. Participou da Geração de 98, grupo que reanimou a cultura e o pensamento espanhóis após a grande crise que adveio com o fracasso do país  na guerra hispano-americana.
 
Nos últimos dias, decepcionado com as ações do governo de Franco que então se instaurava, e que apoiara nas primeiras horas,  permaneceu recolhido na casa da Calle Bordaderos, na condição de inimigo do novo regime que iniciou a terrível Guerra Civil Espanhola (1936-1939).

detalhe da escultura. photo: j.finatto
  
Unamuno não aceitou a violência absurda dos que prendiam e matavam quem não estivesse do seu lado, entre opositores, pessoas comuns do povo e intelectuais indefesos como o poeta Lorca, assassinado em agosto de 1936 (até hoje o corpo não foi encontrado).

Contra isso insurgiu-se o filósofo num discurso célebre ("Vencereis, mas não convencereis")², feito na condição de reitor da Universidade de Salamanca, na cerimônia de abertura do ano acadêmico, em 12 de outubro de 1936. Dela participava a cúpula do franquismo, inclusive a esposa do general Franco. Por pouco não foi morto pelos militares presentes, sendo protegido pela mulher de Franco, Carmen Franco, que o acompanhou até sua casa. Foi então destituído do cargo e obrigado a ficar recluso.
 
escritório do filósofo. fonte: site do Museu
 
Unamuno é muito mais do que uma estátua numa praça de Salamanca ou do que um personagem empoeirado de museu.
 
Raramente uma cidade está tão identificada com um homem como neste caso. Salamanca e Unamuno são inseparáveis. Carregam em si a idéia de que o espírito sempre prevalecerá sobre a indiferença, a violência e a morte.
 
A obra de Don Miguel é profundamente humana e instigante. Não conheço nada parecido. Del sentimiento trágico de la vida é desses livros fundadores, capazes de mudar a nossa consciência das coisas ou, pelo menos, de ampliá-la em larga proporção. Falar de seus livros - a notável qualidade literária, a visceralidade do conteúdo - em poucas linhas, seria leviano. Fica, em todo caso, este registro de um dia gelado em Salamanca.
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¹Poema (fragmento) do livro Poesías, Cátedra, Letras Hispánicas, terceira edición, 2009. Tradução: j.finatto.

²Casa Museo Unamuno:
http://unamuno.usal.es/index.html

³Ariel Palacios:
http://blogs.estadao.com.br/ariel-palacios/vencereismas-nao-convencereis-unamuno-e-a-razao-contra-a-forca/
 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O barco abandonado

Jorge Adelar Finatto
 
 
Bote Abandonado, 1850. Frederic Edwin Church.
Museo Thyssen-Bornemisza, Madrid. photo: j.finatto
 

Tive vontade de entrar nesse barco da pintura e sair por suas águas em viagem. Ou melhor, continuar a viagem, já que amanhã é dia de levantar âncora e ir adiante. Hoje foi dia de visitar o Museu Thyssen-Bornemisza, em Madri. Terminei a visita ao acervo permanente que comecei e não completei em 2007. Nos próximos dias começa no museu uma exposição de Cézanne que promete.
 
O Bote Abandonado do pintor americano Frederic Edwin Church (1826-1900) mexeu comigo.

Acho que vi nele transfigurado um momento de grande solidão do artista. Ou a minha própria solidão. Ou as duas. Sei lá. É uma solidão de menino triste, olhando o outro barco lá adiante com gente dentro, conversando e passeando. Sentimento, sentimentos.
 
Faz um frio seco, em contraste com os quase 35ºC de quando saí de Porto Alegre. Estou hospedado numa rua chamada Calle de Los Libreros. Se disser que escolhi a dedo o lugar, estarei desprezando o acaso, que foi quem de fato me trouxe a este hotel. Bem, o fato é que, mesmo estando a menos de 100 metros da Gran Vía, aqui é silencioso.
 
E a ruazinha é cheia de livrarias, um paraíso para qualquer bibliófilo. Encontrei dois livros do poeta catalão Salvador Espriu (1913-1985), uma descoberta recente e rara de que já falei no blog.
 
São edições bilíngües, catalão-espanhol. Um dos livros intitula-se La Piel de Toro, Editorial Lumen, Barcelona, 1983, tradução ao espanhol por José Agustín Goytisolo. A maioria das páginas ainda está grudada, vou procurar uma espátula ou abra-cartas para abri-las.
 
Há os seguintes versos de um poema, numa folha livre, que dizem:
 
Pouco a pouco saíam
do porto esguias barcas
de esperança.
 
Sim, que sejam carregadas de esperança as barcas que partirem do nosso porto. 

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photo de abertura do blog: grafite na estação de trem de Montreux

Os passos do andarilho:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.es/2013/12/os-passos-do-andarilho.html
 

sábado, 1 de fevereiro de 2014

La vie est belle

Jorge Adelar Finatto

Montreux. 28.01.2014. photo: j.finatto
 

Sim, a vida é bela. A frase não é nova, mas continua atual. Foi o que senti quando vi o Lago Léman com as montanhas nevadas dos Alpes ao fundo.
 
É bela a vida, mesmo quando uma vaga tristeza aparece no dia de inverno.  Mesmo quando sabes que não verás mais os olhos azuis da mulher que te fez feliz só por existir e pelo sorriso que te ofereceu como um presente em plena tarde na beira do lago azul.

Montreux. photo: j.finatto

A vida é bela apesar dos maus e dos loucos que fazem da vida dos outros muitas vezes um inferno.

É bela, sim, a vida, como o Lago Léman com os Alpes cobertos de neve em Montreux.

O que mais me chama a atenção na Suíça, além das belezas naturais e do alto padrão de vida, é a elegância moral das pessoas. São muito educadas, mas não afetadas. Gostam de ajudar os semelhantes, sejam pessoas do lugar ou estrangeiros, na rua, no trem, em qualquer lugar.

Montreux. 28.01.2014. photo: j.finatto *

Em Sierre, eu andava pela cidade como ilustre desconhecido, com uma câmera na mão, catando coisas, fazendo anotações. Pois quase toda vez que passava por alguém na calçada ou num café era cumprimentado como se fosse do lugar, da família. Porque eles são assim.

Presenciei atos de civilidade e respeito neste país que me fazem acreditar que um dia o ser humano poderá dar certo no resto do planeta. Deixaremos de nos tratar como inimigos e nos olharemos com estima social, como se fosse destino de todos ser feliz, e não só de uns poucos.

Na Suíça a cordialidade é certa como a precisão dos relógios e a pontualidade dos trens.

Montreux. photo: j.finatto
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*La fenêtre d'une chambre. Grand Hôtel Suisse Majestic, Montreux.
 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O poeta Rilke e o menino: um encontro

Jorge Adelar Finatto

Rarogne, Suíça, 27.01.2014. photo: j.finatto
 

O que não foi dito no texto de ontem, Estudos Rilkeanos, é que desde 17, 18 anos, tornei-me leitor do poeta Rilke (que foi registrado René e só muitos anos depois, por sugestão de Lou Andreas-Salomé, escritora russa, por algum tempo sua amante, depois amiga, passou a assinar-se Rainer).

Rainer Maria Rilke escolheu o Cantão do Valais, no sul da Suíça, para viver aqueles que seriam seus últimos anos. O homem que não teve uma profissão comum, que viveu sob a proteção de mecenas e mulheres, um expatriado no mundo. Um grande poeta e humanista de tempo integral, que teve uma infância difícil.

Em Sierre readquiriu a alegria da criação, mergulhou na língua francesa, indo além do ancestral alemão. Queria ser reconhecido como poeta francês, e não apenas como prosador na língua de Victor Hugo. Na época já era considerado um dos grandes poetas da língua alemã.

Viveu na casa-torre de Muzot, em Sierre, acolhido por um mecenas, entre 1921 e 1926. 

Torre de Muzut, Sierre. photo: j.finatto

O que não foi dito é que essa viagem à Suíça foi feita com a única motivação de seguir os passos do poeta nos últimos tempos em que aqui viveu, sentindo-se renascer como homem, traduzindo Paul Valéry, produzindo poemas franceses. Produção esta que, de alguma maneira, poderia apoiar um pedido de nacionalidade suíça que pretendia fazer. Não sei, afinal, se o fez e se a obteve.
 
(Jorge Luis Borges passou pelo constrangimento desnecessário de pedir essa nacionalidade e vê-la denegada. Como se ser suíço mudasse alguma coisa em sua gloriosa biografia de escritor, um dos mais importantes da literatura mundial.) Enfim...
 
O que não foi dito é que, diante do túmulo de Rilke, me emocionei.

Fiz uma oração para ele, para mim, na solidão azul das alturas álgidas dos Alpes. E senti outra vez como é bom tê-lo por perto da minha alma, ao longo da vida.

O menino pobre daqueles dias distantes veio visitar o poeta. O menino com grandes dificuldades de acesso a livros, a cultura, que continua um aprendiz, um curioso, um apaixonado pela vida e suas possibilidades.

O menino que sofreu, lutou, cresceu, tornou-se o homem de hoje, que nada mais faz além de dar-lhe a mão e sair com ele por aí...
 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Estudos Rilkeanos (o epitáfio de Rilke)

Jorge Adelar Finatto 
 
Velha igreja de Rarogne, Suíça, ao lado da qual Rilke está enterrado
photo: j.finatto, 27.01.2014
 
 
Concluí ontem os Estudos Rilkeanos, em Sierre e arredores, Suíça, cátedra que eu mesmo criei e da qual sou, até o momento, o único aluno. 

Pela tarde, com a neve cobrindo os tênis, andava eu no pequeno cemitério da cidadezinha da Rarogne (perto de Sierre), na frente da igreja, atrás do túmulo e do famoso epitáfio do poeta. Rilke foi sepultado em 02 de janeiro de 1927 ao lado da igreja e não entre os outros túmulos,  por sua própria escolha (morreu em 29 de dezembro de 1926 numa clínica em Valmont, cercanias de Montreux).
 
O poeta tomou todas as providências relacionadas com sua morte, para a qual se preparava porque sofria de leucemia, doença, naquela época, fatal, ao contrário de hoje. Ele gostava muito da velha igreja silenciosa situada na encosta dos Alpes em Rorogne, do ar e da luz daquele ambiente. Na frente está o cemiteriozinho. O lugar se localiza a cerca de 400, 500 metros acima dos telhados, lá se chega através de uma estrada íngreme, a pique, entre casas perdidas no tempo.
 
Túmulo de Rilke. photo: j.finatto
 
Por duas ou três vezes quase fui ao chão entre as sepulturas. Desnecessário dizer que não havia mais ninguém na rua naquela hora, salvo um ou outro vulto, tal o frio e a neve que doía na cara. Mas Deus é pai e protegeu esse pobre cristão do pior, que podia ser cair lá de cima.
 
A capela e o cemitério estão bem no alto e, ainda assim, não ficam nem perto da metade do caminho até o topo das montanhas que se erguem em ambos os lados do vale, na cordilheira que vai ao infinito. Os Alpes, mais ou menos como o Contraforte dos Capuchinhos em Passo dos Ausentes, não têm fim...
 
photo: j.finatto
 
Em Rarogne se fala o alemão e depois o francês. Eu não encontrava o túmulo, não havia jeito. Não tinha ninguém, aparentemente, na igreja e nem na casa ao lado que pudesse dar uma informação. Li e não entendi o mapa fixado na parede. O cérebro naquela altura estava congelando com o resto do corpo. Até que surgiu uma criatura pela estrada montanha abaixo. Saí do cemitério e fui em sua direção.
 
photo: j.finatto
 
O bom homem se assustou ao constatar que eu saíra das catacumbas. Fiz sinal para que se acalmasse, eu ainda era um vivente. Conseguiu entender o que eu queria e, num francês com forte acento germânico, me indicou onde estava o túmulo, isolado, ao lado da igreja.
 
Enfim, está aí o registro, com o epitáfio-poema belíssimo e misterioso.
 
Epitáfio de Rilke. photo: j.finatto
 
Rosa, ó pura contradição,
                           volúpia,
de ser o sono de ninguém
                       sob tantas
pálpebras.*
 
Do muito que vi e aprendi nesses dias rilkeanos compartilharei oportunamente com os leitores.

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*Tradução de Manuel Bandeira, em sua Antologia Poética, Livraria José Olympio Editora, 7ª edição, Rio de Janeiro, 1974.

O poeta Rilke e o menino: um encontro:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2014/01/o-poeta-rilke-e-o-menino-um-encontro.html
 
 

domingo, 26 de janeiro de 2014

Rilke na gelada e pacata Sierre

Jorge Adelar Finatto
 
Sierre, Suíça, 26.01.2014. photo: j.finatto

 
Há pouco andava pelas ruas calmas de Sierre numa temperatura de - 1ºC. Para este domingo - agora é pouco mais de meia-noite-, está previsto um frio que pode chegar a - 7. É o rigoroso inverno, gelado e branco, que me faz levar sobre o esqueleto a manta e o grosso capote que trouxe de Passo dos Ausentes. Só tiro as mãos do bolso na hora de fazer as fotografias com a velha e intrépida Coruja. 
 
De manhã, logo mais, a palestra em que será abordada a obra de Rilke, talvez um pouco da vida do grande poeta de língua alemã (nascido em Praga, atual República Checa), e sua atividade como tradutor de si mesmo para o francês. Evento da Fondation Rilke de Sierre.
 
No hotel onde estou hospedado, passaram o próprio Rilke e Goethe, entre outros. O vetusto prédio do Hôtel de La Poste está reformado, mas continua o mesmo na essência. Não duvido que, no silêncio da madrugada glacial, encontre pelos corredores com fantasmas de artistas, poetas e escritores que por aqui andaram no passado. Pode ser, tudo pode ser nessa vida.
 
Como meus óculos são no estilo fundo de garrafa, às vezes me pregam peças com reflexos nas lentes, que me remetem a figuras fantásticas, carnais ou evanescentes, reais ou imaginárias. Nunca sei. Se cruzar com alguma assombração por aí, não me darei conta. É bom assim, que cada um viva na sua dimensão, no seu recolhimento, sem fazer estardalhaço nem atrapalhar os outros.

Sierre, 26.01.2014. photo: j.finatto
 
Rilke viveu nessa região os últimos seis anos de sua vida em que muito produziu. Morreu com 51 anos em dezembro 1926. Habitou na ocasião o pequeno castelo de Muzot, nas cercanias de Sierre, alugado para ele e depois adquirido por um mecenas do escritor. Ainda hoje é propriedade privada, só se pode observar por fora.
 
O poeta cuidava de rosas no seu jardim pouco antes da morte causada por leucemia. O que o levou a vir morar em Sierre, em solitude e branco silêncio, entre majestosas montanhas e o vale povoado de videiras que produzem um vinho excelente? Acho que, como sempre fez, andava atrás de si mesmo e do ser profundo que vive em cada um e em todos (muitas vezes adormecido).
 
Talvez venham algumas respostas no encontro de amanhã.
 
Se pudesse recomendar um livro aos leitores do blog, indicaria que lessem, mais de uma vez,  Cartas a um jovem poeta, uma obra profunda que, a pretexto da tratar de literatura, cuida mesmo da formação e da alma do ser humano, de uma maneira simples e transcendente ao mesmo tempo.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Montanhas cobertas de sol e neve

Jorge Adelar Finatto
 
 
montanha gelada com sol, Suíça, 24.01.2014. photo: j.finatto
 

No aeroporto de Lisboa, antes de embarcar para Genebra ontem, escolhi o jornal Público no balcão da TAP para leitura de bordo e a revista Sábado, esta ainda não conheço. Além do Público, gosto também do Jornal de Notícias e só eu sei a falta que sinto das crônicas do Manuel António Pina (1943-2012) nas páginas do periódico.
 
Poeta, escritor e jornalista de grande talento, lúcido e criativo, Pina faz muita falta à língua portuguesa e a nossa vida. O olhar crítico do escritor sobre a realidade temperado com a partilha do sonho nos dava esperança, esse sentimento que nos mantém vivos e nos empurra para frente.
 
Tenho uma relação de livros dele que vou comprar antes de retornar a Passo dos Ausentes, no Porto ou em Lisboa. Até onde sei, nada se publicou dele no Brasil até agora, o que é uma ausência imperdoável.
 
Venho à Suíça em função de um evento envolvendo o poeta Rainer Maria Rilke (1875-1926), uma de minhas devoções literárias. Ele viveu no cantão do Valais os últimos anos de sua vida e ali concluiu a notável obra. Era um homem de temperamento contemplativo, brando, sentimental, calmo, a ponto de agüentar o mau gênio de Auguste Rodin quando foi seu secretário, ainda nos anos de juventude, em Paris, sendo um bom amigo.
 
A notícia é que mal cheguei aqui e já sinto saudade de Portugal. Poucas cidades são tão belas como Lisboa. E as pessoas são especiais em todo lugar.

A julgar pela têmpera, alma, valores e criatividade do povo português, acho que o país sairá desse difícil momento muito fortalecido, e virão dias grandiosos pela frente. Digo isso a partir da observação que faço nos últimos anos. Alguma coisa muito boa está sendo gerada no sal desse silêncio.
 
Como essas montanhas que a neve cobriu, congelando as seivas. A vida está lá, latente, invisível, e vai explodir na primavera.
 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Manuel Alegre, Pastéis de Belém, Elétrico 28

Jorge Adelar Finatto
 
Vista do Mosteiro dos Jerônimos, Lisboa, 23.01.2014. photo: j.finatto
 
Auschwitz

Olhar vazio esqueletos em pé
mortos-vivos caminhavam sem rumo.
E a quem lhes falava de Deus
eles apontavam a chaminé:
fumo.
                                 Manuel Alegre

Além de gastar o Elétrico 28 (bonde) andando pelas colinas e a baixa de Lisboa, tirei o dia de ontem, que estava azul e ensolarado, não obstante frio, para ir a Belém, esse bairro arejado e alegre.
 
Acho um lugar suave, com muitas opções culturais, como o Mosteiro dos Jerônimos e o Centro Cultural de Belém, bom de estar e ficar, na beira do Tejo, de onde partiam as caravelas ao Oceano a descobrir mundos. Bebi a costumeira taça de café com leite e comi dois pastéis doces que tanto me apetecem nos Pastéis de Belém.
 
Visitei amigos nesses dias portugueses, ouvi mais do que falei (porque nisso, pra mim, reside a graça), perambulei. Fui a livrarias em busca dos livros que fazem parte de uma lista de autores portugueses que não encontro no Brasil. Um nome, contudo, não tinha anotado: Manuel Alegre (1936).
 
Uma descoberta dessas vale uma viagem. Na terceira livraria do dia, na Praça do Rossio, descobri o livro Nada está Escrito, de Manuel Alegre (Publicações Dom Quixote, 2012, Lisboa). Tinha ouvido falar que se tratava de um político português, do Partido Socialista, que viveu anos no exílio durante a ditadura e que também era escritor, poeta.
 
Peguei o volume na estante e folheei-o com desconfiança. Políticos poetas são coisa rara. Li alguns poemas e vi que estava diante de uma exceção. Continuei a leitura no quarto de hotel, li quase todo.
 
Manuel Alegre é um senhor poeta. Não tenho qualquer idéia de seus feitos ou mal-feitos na política. Mas nesta obra constatei que tem muitos acertos como fazedor de versos. Pelo que escreve, deve ser um ser humano com um rico coração que leva para a política o melhor de si.
 
Encontrar uma pessoa sensível e que faz poemas para os semelhantes é um clarão na alma.
 
Daqui a algumas horas parto de Portugal, vou para longe, rumo ao norte. Vou feliz, com tantas coisas boas vividas nos últimos dias.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Ninguém é dono do poeta Fernando

Jorge Adelar Finatto

Fernando Pessoa ( à direita) com amigo no Café Martinho da Arcada, Lisboa
 

 Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho
como sempre tenho sido,
sozinho como sempre serei.¹
                                                    Fernando Pessoa
 
Nos últimos tempos tenho notado um aumento de animosidade entre alguns estudiosos da obra  e da biografia de Fernando Pessoa (1888-1935). Há como uma disputa que vem crescendo com o passar dos anos. Uma busca de afirmação pessoal a partir da maior visibilidade da obra do autor.

Existe uma briga de foice no escuro entre os que querem ser os únicos donos do Fernando e não admitem novos sócios na firma. Li textos que beiram a agressão em páginas de livros e revistas. Apontam coisas como, por exemplo, falhas na interpretação da letra do escritor que geraram escolhas supostamente equivocadas a comprometer seus textos.
 
Há evidente excesso no tom dessas manifestações, que prejudica não apenas a cordialidade do debate como a qualidade da discussão.

Precisa ficar claro que ninguém é nem será dono de Fernando Pessoa. Todo mundo sabe ou devia saber que a pátria dele é a língua portuguesa.

Minha pátria é a língua portuguesa,  escreveu no Livro do Desassossego, trecho 259.

Ele vive no idioma uma existência espiritual, a única em que encontrou um pouco de felicidade em sua vida cheia de limitações materiais, solitária e sacrificada.
 
Qualquer tentativa de apropriação de sua verdade mostra o lado pequeno de quem toma esse caminho. Lá na sua residência atual, no Mosteiro dos Jerônimos, no bairro de Belém aqui em Lisboa, o poeta deve rir-se quando toma conhecimento dessas besteiras em torno de si.

Para quem morreu sem reconhecimento, que não foi nada na vida (mesmo tendo escrito uma obra universal, sentido tudo e sido muitos em um só), há uma grande ironia nisso tudo. Disse ele:

Um dia talvez compreendam que cumpri, como
nenhum outro, o meu dever nato de intérprete
de uma parte do nosso século; e quando o
compreendam, hão-de escrever que na minha época
fui incompreendido, que infelizmente vivi entre
desafeições e friezas,
e que é pena
que tal me acontecesse.²
                                       Fernando Pessoa

Fernando Pessoa merece que o amemos pelo que é, independente de faniquitos e interesses pessoais de seus intérpretes. Dispensa proprietários.
_______________

Casa Fernando Pessoa, Lisboa, Portugal
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/index.php?id=4287

¹-² Textos de Fernando Pessoa. Ponto M - 2013. 

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Oceanário de Lisboa

Jorge Adelar Finatto 
 
Oceanário de Lisboa, 21.01.2014. photo: j.finatto
 
Não houvesse outros motivos para vir a Portugal (há e muitos), este por si só justificaria a aventura de atravessar o Atlântico e visitar esta terra: o Oceanário de Lisboa.

photo: j.finatto. 21.01.2014
 
A terça-feira amanheceu chuvosa, convidando a ficar em casa. De modo que o itinerário que pretendia fazer pelas colinas e parte baixa de Lisboa com os elétricos (bondes) foi adiado. No oceanário fiquei impressionado com a beleza da vida que acontece abaixo e acima das águas marinhas, a variedade dos seres com suas ricas formas, tamanhos, cores, gêneros. Um mundo silencioso, abissal, encantador.

 
photo: j.finatto, 21.01.2014

É difícil resistir à graça e pequenez (cerca de 5, 6 cm) do peixe-palhaço em suas ligeiras evoluções entre os fios coloridos das anêmonas, com as quais vive em saudável (para ambos) associação.

É impossível não se deslumbrar diante da diversidade de centenas de espécies, passando por tubarões, arraias, até peixinhos quase invisíveis. Sem esquecer as medusas, os pingüins, gaivotas, tartarugas, estrelas-do-mar, papagaios-do-mar e tantos outros.

Esse universo é cuidado com zelo constante pela equipe da instituição, como se vê pela foto abaixo, em que presenciei o momento em que o "peixe-homem" trabalhava num dos inúmeros aquários existentes.

photo: j.finatto, 21.01.2014


O oceanário é a prova de que um mundo absolutamente fabuloso existe, quase como que numa outra dimensão, ao qual não estamos habituados, raramente vemos e temos pouca consciência de sua importância e da maravilha que representa.

Um ambiente do qual o homem só deve se aproximar com humildade, sabedoria e delicadeza para entender, preservar e extasiar-se.


photo: j.finatto, 21.01.2014
 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Maldita classe econômica

Jorge Adelar Finatto

Chafariz, Praça do Rossio, 20.01.2014. photo. j.finatto

 
O sujeito que inventou a classe econômica nos aviões pode não saber, mas o inferno, para ele, é certo. Vai direto para aquele sítio, se é que ainda não foi, pelo mal que causa aos viajantes menos afortunados, entre os quais me incluo. Não existe a menor possibilidade de que receba a benesse de uma transição para o purgatório e muito menos ao paraíso.
 
Como castigo passará o resto da eternidade sentado num desses torturantes assentos que criou para o sofrimento dos outros. Aqui fez, no inferno pagará.
 
Já o cara que criou o banheiro da classe econômica levará uma grande temporada no purgatório. Durante muitos e muitos anos terá de fazer suas necessidades naquele cubículo, encolhido, segurando-se nas paredes, equilibrando-se para não ir ao chão enquanto se alivia, ouvindo o rumor de gente apertada que aguarda a vez no corredor.
 
O passageiro da classe econômica viaja de teimoso. É, antes de tudo, um forte, lembrando o que disse Euclides da Cunha em Os Sertões a propósito do sertanejo.

O importante é não fazer parte da classe dos pobres de espírito deste mundo. Amar a poesia e a travessia. Estar sempre perto de Deus, que está em toda parte e é presença indispensável nas viagens de avião, por todas as razões.

Vista da janela

Tejo ao fundo, 20.01.2014. photo: j.finatto

Do meu quarto de hotel vejo uma nesga do Tejo entre os edifícios. O melhor lugar do mundo para olhar o mundo, se calhar, é a janela do quarto de hotel. Tudo na vida é passageiro e circunstancial como no quarto de hotel. Somos seres em viagem, absurdamente transitórios. O que nos salva é o sentimento. As cidades permanecem.

Levantei de madrugada e fui até a janela. Havia um silêncio denso, uma imobilidade. Logo mais o teatro de viver recomeçaria. Somos atores improvisados, atrapalhados com o roteiro mal escrito. Andamos aos tombos. Mas andar pela vida vale a pena, sempre. É um milagre.

A cidade de Lisboa é bela, não falta o que ver e fazer. Escolhi o dia de amanhã para andar de elétrico (bonde) pelas colinas e pela Baixa.

Elétrico(bonde).20.01.2014. photo: j.finatto
 
 A diáspora continua

O assunto da hora, em Portugal, é a fuga de cérebros do país. Sem oportunidade em sua terra, devido à crise econômica, os jovens são levados a pensar no aeroporto como única saída. É a velha e conhecida diáspora, apenas com outro recorte.

Atinge os mais novos, os que precisam "fazer a vida", construir sua história. O caminho de saída é tresloucado. Cabe aos mais velhos transmitir aos moços o conhecimento, a memória, para que possam assumir a história, o destino individual e coletivo. A isto chamamos tradição em qualquer sociedade.

A falta de perspectiva para os jovens é um sério problema em muitos países, inclusive no Brasil. A questão não se limita, portanto, a Portugal, embora aqui seja talvez mais sentida pelas características do país.

A diáspora da juventude, aqui e acolá, não é boa solução, longe disso. O futuro que o diga.
 

domingo, 19 de janeiro de 2014

Lisbon Revisited

Jorge Adelar Finatto

Amanhece sobre o Atlântico. 19/1/2014. photo: j.finatto
 

O avião pousou às 10h40min deste domingo em Lisboa. Tão delicado foi seu pouso, tão correto o vôo de mais de dez horas desde Porto Alegre, que os passageiros aplaudiram vivamente o comandante da TAP, com grande justiça.
 
O que posso dizer? Cheguei moído e insone como sempre acontece. Vi o noticiário, algum outro programa no sistema de bordo, mas sobretudo vim escutando o fado. Sim, o fado, essa maneira tão portuguesa quanto universal de estar no mundo.
 
Lisboa revisitada, como no título do belíssimo poema de Fernando Pessoa de 1923. O frio é intenso, a umidade está no ar. Dormi à tarde no quarto de hotel. Antes fui até a banca de revistas e comprei o Público. Depois, no fim do dia, um prato de bacalhau com o vinho Mina Velha, que não sou de ferro.

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!

                                     (trecho de Lisbon Revisited, Fernando Pessoa)
 
 Volto a Lisboa como quem volta a si mesmo.
 
Após umas quatro horas de sono, assisto na RTP a um programa musical com o grande nome do fado Carlos do Carmo. Ele canta canções de diversos autores, entre os quais Ary dos Santos, José Afonso, Alexandre O'Neill, Manuel de Freitas. É uma reprise de algo que aconteceu há 15, 20 anos atrás. Só papa-fina.

Alguém poderá pensar que ando em Lisboa atrás do passado, porque gosto do fado e de caminhar na beira do Tejo (tão calmo como o vejo na ampla janela do quarto neste momento). Sim, Portugal tem um passado. Mas o fado? O fado é futuro.

O compromisso dessa viagem é um evento sobre o poeta Rilke do qual vou participar na Suíça. Mas não poderia deixar de vir a Lisboa de Fernando, esse poeta absoluto e genial. E, na Espanha, tenho encontros com Ortega y Gasset e Miguel de Unamuno. São visitas que compensam muito sofrimento dessa vida.

Um encontro com a maravilha.

Anotei o nome de escritores que vou buscar nas livrarias: José Cardoso Pires, Manuel António Pina, Alexandre O'Neill, Daniel Jonas, Herberto Helder, Jorge de Sena e mais o que esqueci e vou lembrando. E tenho amigos para rever, como o António Sousa no Martinho da Arcada, lugar marcante na vida de Fernando.

O pássaro pousou. Começa o vôo.

 Mar Português

                           Fernando Pessoa

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!


Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.


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O barbeiro de Fernando Pessoa:
http://ofazedordeauroras.blogspot.pt/2010/04/o-barbeiro-de-fernando-pessoa.html
 

sábado, 18 de janeiro de 2014

Milonga del Ángel

Jorge Adelar Finatto
 

photo: j.finatto

 
Habitamos entre nuvens. Os ventos nos açoitam aqui nos Campos de Cima do Esquecimento em sua louca debandada em direção ao sul do continente. 

Juan Niebla fez o convite para ouvi-lo tocar seu bandoneón. Estamos agora na estação de trem abandonada de Passo dos Ausentes. O concerto intitula-se Milonga del Ángel, música de Astor Piazzolla, leitmotiv da reunião.
 
Talvez porque hoje é sábado, e domingo costuma ser um dia agonizante, celebramos a vida escutando músicas que tocam fundo nosso coração.

Niebla é cego, guardião da memória da cidade junto com Don Sigofredo de Alcantis.

Estamos no Café dos Ausentes que é o que restou da velha estação. Fechamos os olhos, sentimos  a melodia que emana dos dedos magros e ágeis.

As mãos do cego apalpam o invisível, ressuscitam sonhos e emoções.

Iniciamos a nossa charla após o concerto, como de costume.
 
Diz Niebla:

- Imaginem uma cidade espiritual, em que os ancestrais vagueiam em silêncio pelas casas e ruas, vivem nos antigos retratos, nas cartas guardadas no fundo de gavetas, sobrevivem na memória dos poucos que ficaram. Isso é Passo dos Ausentes.

- Para onde nos levam os caminhos entre as estrelas, Juan? - indaga Don Sigofredo, piscando o olho em minha direção.

- Não pense que não percebi a piscadela, quimérico amigo. Nunca duvide das antenas deste velho morcego. Mas já que pergunta, na verdade não sei aonde levam aqueles caminhos. Tu és o filósofo, esforçado tradutor do intangível.

- Sou só um cego numa estação de trem abandonda esperando o comboio fantasma que vai levar-me um dia por trilhos desconhecidos. Por enquanto é música e é fraterno encontro, estamos todos vivos, graças a Deus.

- Também ando pela vida à procura de respostas -, continuou Niebla. - Ouçamos o que nos disse o nunca suficientemente lembrado poeta e filósofo Hölderlin, no seu Fragmento de Hipérion*:

"Interrogo as estrelas e elas permanecem mudas. Interrogo o dia e a noite, mas eles não respondem. De mim mesmo, se me interrogo, entoam apenas sentenças místicas, sonhos sem interpretação".

A solidão é o que mais nos aproxima nessas reuniões. Estamos sós na beira dos penhascos. Caminhamos para o oblívio nesse esquecido fim de mundo.

Acreditamos em anjos, nos consolamos. Entre nuvens.

 _______________

* Hipérion ou O Eremita na Grécia. Friedrich Hölderlin. Tradução, notas e apresentação por Marcia Sá Cavalcante Schuback. Forense, Rio de Janeiro, 2012.

Juan Niebla é músico em Passo dos Ausentes. Admitido por concurso público, ocupa o cargo desde 1940, na estação de trem abandonada da cidade. Tem 89 anos, é cego desde os 15.

A cidade perdida: as origens:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/06/cidade-perdida-as-origens.html
 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Navegações

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto
 
Não existem chegadas
e partidas definitivas
rijos itinerários nascidos
na rota turbulenta
dos abismos

o que há é esta
necessidade de navegar
que começa não sei
em que rio

ou fundão
e depois se expande

um dia toda busca
cristaliza
e se pode, enfim,
recolher as velas
no porto do outro
mundo

_______

Poema do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.