sexta-feira, 21 de março de 2014

Pra dizer que também falamos de flores*

Frederico Vasconcelos
Repórter Especial da Folha de São Paulo

photo: j.finatto
 


"Estamos perplexos, temerosos, impotentes, humilhados diante da realidade que nos assola."


Sob o título “O país das quaresmeiras em flor”, o texto a seguir é de autoria do juiz e poeta gaúcho Jorge Adelar Finatto. Foi publicado originalmente em seu blog “O Fazedor de Auroras“, que tem como lema “a vida de todos os dias, a que eu sempre quis”.

 
Só agora me dou conta, raro leitor, de que elas andam por aí, anunciando a Páscoa e o advento do outono. A nova estação chega cheia de significados
 
(fala de Ressurreição e de urgentes renascimentos)
 
As flores das quaresmeiras têm tudo a ver com sentir claro, respirar limpo, passar longe dos abismos.
 
É o que eu penso nesse instante vendo-as vibrar na claridade, apesar da densa sombra que se abate sobre o Brasil com sua triste face de corrupção e violência social
 
mas não é só aqui, dizem os intérpretes do caos, mas sendo aqui, digo eu, já me basta, é o suficiente para danar a minha/nossa vida.
 
Estamos perplexos, temerosos, impotentes, humilhados diante da realidade que nos assola.
 
(dizer que saímos da escuridão abissal da ditadura e acabamos nisso, nesse buraco sem fundo que suga nossa alegria, nosso trabalho, nossa paz, nosso sangue, nossos sonhos
 
ceifa vidas diariamente nas ruas do país sem lei, sem autoridade, sem saúde, sem educação, sem esperança (tudo, claro, garantido no papel),
 
trágicas ruas onde se afunda o famoso, nunca demais louvado, não obstante sempre negligenciado estado democrático de direito
 
- de que estado e de que direito estamos falando mesmo? -
 
ninguém sabe ao certo se existe de fato e o que é isto no aqui e agora, nem mesmo se depois de tanta indiferença, omissão, arrogância, malandrice, cinismo e incompetência haverá ainda um país para chorar)
 
Mas olhando as quaresmeiras em flor, nesta hora e neste lugar, ao menos nesse efêmero instante, a morte não tem nem pode ter guarida.
 
As flores das quaresmeiras são o oposto da morte, negação do desespero e do abandono (longo abandono de séculos).
 
(a delicadeza dos ramos, pétalas e cores remete a um mundo outro)
 
Um tempo de recolhimento e silenciosas caminhadas por estradas interiores nos habita na quaresma.
 
Olhar atento ao solitário vôo do pássaro sobre os fios de luz, tecendo destino e distância com a nossa esperança (por um fio).
 
Tempo de resistência
(como sempre)
de atravessar a ponte
(sobre o rio das mortes)
e chegar vivo do outro lado.
 __________
*Interesse Público

quarta-feira, 19 de março de 2014

O país das quaresmeiras em flor

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto, 15.3.2014
 
Só agora me dou conta, raro leitor, de que elas andam por aí, anunciando a Páscoa e o advento do outono. A nova estação chega cheia de significados
 
(fala de Ressurreição e de urgentes renascimentos)
 
As flores das quaresmeiras têm tudo a ver com sentir claro, respirar limpo, passar longe dos abismos.

É o que eu penso nesse instante vendo-as vibrar na claridade, apesar da densa sombra que se abate sobre o Brasil com sua triste face de corrupção e violência social

mas não é só aqui, dizem os intérpretes do caos, mas sendo aqui, digo eu, já me basta, é o suficiente para danar a minha/nossa vida.

Estamos perplexos, temerosos, impotentes, humilhados diante da realidade que nos assola.

(dizer que saímos da escuridão abissal da ditadura e acabamos nisso, nesse buraco sem fundo que suga nossa alegria, nosso trabalho, nossa paz, nosso sangue, nossos sonhos

ceifa vidas diariamente nas ruas do país sem lei, sem autoridade, sem saúde, sem educação, sem esperança (tudo, claro, garantido no papel),

trágicas ruas onde se afunda o famoso, nunca demais louvado, não obstante sempre negligenciado estado democrático de direito

- de que estado e de que direito estamos falando mesmo? -

ninguém sabe ao certo se existe de fato e o que é isto no aqui e agora, nem mesmo se depois de tanta indiferença, omissão, arrogância, malandrice, cinismo e incompetência haverá ainda um país para chorar)

photo: j.finatto, 15.3.2014
  
Mas olhando as quaresmeiras em flor, nesta hora e neste lugar, ao menos nesse efêmero instante, a morte não tem nem pode ter guarida.

As flores das quaresmeiras são o oposto da morte, negação do desespero e do abandono (longo abandono de séculos). 
 
(a delicadeza dos ramos, pétalas e cores remete a um mundo outro)
 
Um tempo de recolhimento e silenciosas caminhadas por estradas interiores nos habita na quaresma.

Olhar atento ao solitário vôo do pássaro sobre os fios de luz, tecendo destino e distância com a nossa esperança (por um fio).
 
Tempo de resistência

(como sempre)

de atravessar a ponte
 
(sobre o rio das mortes)
 
e chegar vivo do outro lado. 


photo: j.finatto, 15.3.2014
 

terça-feira, 18 de março de 2014

Pessoa e Borges em Lisboa

Casa Fernando Pessoa
24 de março, 18h
Rua Coelho da Rocha, 16, Lisboa
 
 
 

Para além de vorazes leitores de Omar Khayyam e de William Shakespeare ou de poetas que souberam cultivar o universal no realismo local (Cesário Verde e Evaristo Carriego), Jorge Luis Borges e Fernando Pessoa partilharam numerosas paixões literárias. 

Sem sabê-lo, talvez, ambos viriam a corresponder-se com escritores espanhóis como Isaac del Vando Villar, entre outros; e em Maio de 1924 até caminharam nas ruas da mesma cidade, Lisboa – circunstância que inspiraria Vasco Graça Moura na composição do poema «o encontro».

Reunidos à volta de Borges e de Pessoa, seis críticos literários de diversas nacionalidades estabelecerão paralelos e aproximações entre estas duas obras inesgotáveis. Evento gratuito aberto ao público.

Programação:

Pessoa & Borges: Blending Milton
Patricio Ferrari

Realidade e representação em Pessoa, Borges e Berkeley
Diego Giménez
 
O idealismo de George Berkeley em Fernando Pessoa e em Jorge Luis Borges
Roberto Rolandone

Pessoa, Borges e Khayyam
Fabrizio Boscaglia

O arquivo de Babel: Os espaços infinitos do Livro em Fernando Pessoa e Jorge Luis Borges
Sandra Bettencourt

Pessoa e Borges, uma amizade metafísica
Pablo Javier Pérez López.
 
Organização: Diego Gimenez (CLP, Universidade de Coimbra) e Patricio Ferrari (CEC, Universidade de Lisboa / Department of English, Stockholms universitet).
 

segunda-feira, 17 de março de 2014

Canção da bruma

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto, 12.3.2014
 

Senhor
quando chegar
a minha vez
de cruzar a ponte
deixa eu levar comigo
no alforje de nuvem
os dias de sol

as tardes
de outono

os pinheiros
da serra onde
nasci

deixa eu levar
o som do riacho

as antigas
conversas
da Rua São João

me concede
a memória
dos amigos
da infância

na bruma
que serei
me alcança
um bosque
e pássaros
para tecer
a minha casa

___________

Poema do livro O habitante da bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.

sexta-feira, 14 de março de 2014

As virgílias

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto, Madri.
 
Eu tô muito cansado de viver na solidão. 
 
Cada um carrega seu quinhão de solidão, por supuesto. Todos temos as mesmas perguntas diante da vida. Como faz um grande silêncio do outro lado da linha e o caderno de respostas está vazio, continuamos tão desamparados como no dia do nascimento.

Não sei você, raro leitor, mas eu conheço o sentimento inscrito na epígrafe. Eu li a frase num pedaço de papel deixado num assento do trem entre Madri e Salamanca. Estava justamente no lugar marcado na minha passagem.

Guardei a anotação entre as páginas do livro de poemas de Salvador Espriu que comprara na noite anterior num sebo da Calle de Los Libreros em Madri.

Entendo bem o sentimento escrito naquele papel. 

Um cansaço de estar só, uma vontade de sair da ostra, ver o sol lá fora, encontrar gente, não num centro comercial, numa fila de banco, num aeroporto, mas na rua, num café, numa praça, em casa. 

Um lugar humano. 
 
As longas temporadas de recolhimento fazendo coisas que a sociedade impõe. Solitude desde a infância até a vida adulta e velhice. O oposto de estar junto, de partilhar. 

Sim, nascemos de mãos dadas com nossa irmã gêmea, solidão. Mas a vida não há de ser só um buraco dentro do peito. Tem de ser mais, tinha de ser mais. 
 
Encontrar seres humanos, dividir o vagão do trem, o lado mais bonito e luminoso da viagem.

Mas, em caso de urgência, tenho pelo menos as virgílias.

São minúsculas borboletas que não têm mais que um centímetro e meio de asa a asa. Revoluteiam ao meu redor. São dezenas, cada uma com sua cor viva, violeta, azul, púrpura, amarelo, lilás, laranja, branco, preto.

As virgílias surgem do nada. Como um bilhete num assento de trem.

Acendem a solidão como lamparinas em miniatura. Ficam voando em volta de mim como vaga-lumes numa praça silenciosa e desabitada.

As virgílias depois vão-se embora. Apagam aos poucos suas luzes até que nenhuma mais resta. Nenhuma. E eu durmo esperando amanhecer. 

____________
 

quarta-feira, 12 de março de 2014

O inquilino do absurdo

Jorge Adelar Finatto
 

photo: j.finatto. 09.03.2014. Passo dos Ausentes

 
Eu, Landgrave dos Santos Esquecido, inquilino do absurdo, de tudo dou fé e assino.
 
As coisas que não aconteceram são as que mais se afeiçoaram à minha memória.

A biografia que merece os veros registros: a dos não-acontecimentos, a dos impossíveis sonhos. O resto são pedras que se carregam dentro dos bolsos. Como os suicidas a caminho do mar. 
 
Essa cidade é onde o abandono é dono.

As praças vazias onde me quedo ouvindo falecidas conversas. Ó ausências do mundo!

Bardo obscuro e tabelião de papéis perdidos em Passo dos Ausentes, eu vivo os interstícios. Os ásperos padecimentos da humana travessia.

Cheio pela borda de cansaços, frustrações, tapas na cara e desejos. Quem houvera nesta vida se dignasse escutar meus ais.
 
Viver é assunto proceloso e bem noturno.
 
Por isso estou aqui. Me contando, me abrindo, me inventando.

Sou o bardo barroco, ressuscitado em salvadoras prosopopéias. A obsessão pela música interior. Essa que me faço e entrego ao raro leitor. Construo o venturoso canto.

Não me interessa a realidade. Quem tiver a realidade que bem a guarde e embale.

Sou viajante de um tempo que se esfuma. O tal.

A saudade é um retrato em branco e preto na gaveta do oblívio. Os pedaços de cada um.

O meu coração habita um quarto de pensão. A pensão se chama Ao viajante solitário.

Às vezes penso que o mundo é uma grande pensão. A pensão dos viajantes solitários. E viver é um fio de orvalho estendido de manhãzinha sob o sol.

Somos parceiros das nuvens e da bruma.
 
Caminho para o lugar ermo do esquecimento.

Eu, Landgrave dos Santos Esquecido, inquilino do absurdo, ante vossa alta ausência, improvável leitor. 

Aqui Passo dos Ausentes, nos Campos de Cima do Esquecimento, Rio Grande do Sul, Brasil. Dou fé e assino.

Inícios de outono.
 
____________
 
Texto revisto, publicado em 20 de agosto, 2010.

domingo, 9 de março de 2014

Fernando Pessoa e o barbeiro Manassés

Jorge Adelar Finatto
 
Fernando Pessoa. fonte: Casa Fernando Pessoa


Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Fernando Pessoa, no poema Mar Português
 
Em 2007 estive na minúscula sala onde funcionou a Barbearia Seixas do senhor Manassés, na Rua Coelho da Rocha, bairro Campo de Ourique, em Lisboa. Ele foi, durante muitos anos, o barbeiro de Fernando Pessoa (1888-1935), que morou naquela rua entre 1920 e 1935. Conversei na ocasião com António Seixas, quase octogenário, que ocupava então a velha sala que tinha pertencido ao seu pai.

Não era mais uma barbearia, mas uma oficina para conserto de aparelhos de som. Estava localizada quase na frente do prédio onde o poeta viveu até a morte em 30 de novembro de 1935. No local existe hoje a Casa Fernando Pessoa.
 
Sobre esta longa conversa e as revelações de António (que conheceu o poeta) escrevi O barbeiro de Fernando Pessoa, publicado no blog.¹

Acrescento algo que não divulguei naquele texto. O poeta vivia na época na companhia da irmã, do cunhado e da sobrinha. Segundo António Seixas, o relacionamento de Fernando com o marido da irmã não era bom.

Não admira que assim fosse. O poeta levava uma vida de solteirão, ganhava pouco como correspondente de inglês e francês em casas comerciais, bebia muito (fato que contribuiu para a morte precoce aos 47 anos) e fumava como uma chaminé no pequeno quarto que ocupava no apartamento. O cunhado era coronel acostumado à disciplina da caserna. A contradição entre as visões de mundo de ambos é de fácil percepção.

A família, contudo, foi fundamental na vida de Fernando Pessoa. Nela ele encontrou amparo emocional e material. Não foi por acaso que viveu os últimos 15 anos na casa da irmã. Ali se sentia acolhido, não obstante as diferenças com o cunhado (de resto comuns entre pessoas do mesmo grupo familiar).

Arrisco a dizer que não haveria a obra genial sem o lastro afetivo e prático da família (açoriana pelo lado materno). Os familiares de Pessoa foram essenciais na sua vida e contribuíram para que ele tivesse condições de dedicar-se à escrita.

photo: j.finatto, 2007, Lisboa

                                                 *   *   *

Ontem, 8 de março, pessoanos do munto inteiro recordaram os cem anos do famoso Dia Triunfal (08 de março de 1914).

Conforme relatou Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, em carta de 13/1/1935, ao abordar a gênese dos heterônimos: "(...) acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim." ²

Vieram à luz, no êxtase do Dia Triunfal, o Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro, "O Mestre"; após a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa; seguindo-se a revelação dos heterônimos Ricardo Reis e Álvaro de Campos (este com a Ode Triunfal).

A carta foi escrita alguns meses antes da morte do poeta. Segundo estudiosos, o Dia Triunfal foi uma ficção de Pessoa para explicar a origem dos seus "outros".³

____________

¹O barbeiro de Fernando Pessoa:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2011/03/o-barbeiro-de-fernando-pessoa.html
²Arquivo Pessoa:
http://arquivopessoa.net/textos/3007
³O "dia triunfal" de Pessoa: uma ficção verdadeira
http://www.publico.pt/cultura/noticia/o-dia-triunfal-de-pessoa-uma-ficcao-verdadeira-1627473
Casa Fernando Pessoa:
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/index.php?id=2233
 

sexta-feira, 7 de março de 2014

O e-mail do amigo morto

Jorge Adelar Finatto
 
 
photo: jfinatto
 
 
Tenho um amigo que morreu há alguns anos, mas que ainda está muito presente na minha vida. Um cara alegre, espirituoso, valente leitor. Aprendi e me diverti muito com ele.

Manuel gostava da vida e era forte. Por isso eu tinha a impressão de que ele viveria não menos do que 90, 100 anos. Viver era com ele mesmo. Não desanimava diante dos tombos.
 
Na verdade, nunca esqueço meus mortos. Trago-os sempre por perto, na memória e no coração. Às vezes pensam que estou em colóquio com as paredes, falando sozinho. Bobagem. É com eles que eu falo quando estou muito só (o que nem é tão raro assim).
 
O fato é que o e-mail do Manuel ainda está na minha lista de e-mails do computador. Nas ocasiões em que decido mandar algum texto e/ou photo para pessoas da lista, sempre me deparo com o e-mail do Manuel.

Me dá um arrepio de saudade, uma dor.
 
Um sentimento mais forte que a razão me diz que eu não posso deletar o e-mail do Manuel. Sinto que, se o fizesse, perderia mais ainda o Manuel. De uma forma que não entendo bem, acho que ele cairia mais fundo da ponte da memória dentro do abismo do esquecimento.
 
Pessoalmente estou farto de perdas, raro leitor. Por isso não vou apagar o e-mail do Manuel.

Sempre fica em aberto a possibilidade de comunicação entre nós. Quem sabe um dia ele ainda vai mandar uma mensagem me gozando por não ter coragem de retirá-lo da lista? Talvez dissesse, entre irônico e triste, olhando nos meus olhos:
 
- E-mails de amigos mortos são como folhas ao vento, não dá para escrever nada neles. Esquece e segue em frente.
 
Faria talvez uma graça com a tendência, tão minha, para a melancolia e para me agarrar ao perdido como um náufrago.
 
Como se eu próprio não fosse, qualquer dia desses, mera lembrança. Um e-mail deletado da lista. 
 

quarta-feira, 5 de março de 2014

O rumor do córrego

Jorge Adelar Finatto

Montreux. Lago Léman. photo: j.finatto
 

O seixo sobre a escrivaninha é cor de mel maduro e tem pequenas crateras na superfície. Elas lembram o território redondo e branco da Lua cheia. 
 
Antes de vir parar aqui, o seixo habitou outros lugares. Deve ter rolado por séculos no fundo das águas.

Provavelmente veio ao mundo antes das ondas do Dilúvio. A menos que seja o minúsculo fragmento pós-diluviano de uma estrela que despencou e esfriou.

O seixo faz parte agora do resumido mundo do escritório. Mergulhado nessas águas de estantes de livros e objetos que foram se chegando com o passar dos anos (enquanto eu próprio passava).

Cada objeto tem uma origem e uma história para contar, assim feito o seixo.

Como viajantes numa estação de trem.

Às vezes levo o seixo ao ouvido para escutar o rumor distante do córrego da minha infância na sua antiga viagem rumo do mar.

Ouço então a passagem do vento sobre as águas e o vôo das folhas quando se soltam dos ramos.

O escasso seixo é um pedaço do infinito universo que veio ao mundo para rolar e passar (tal como eu).

Uma singela lembrança do eterno. 
 

segunda-feira, 3 de março de 2014

Oscar Wilde em Passo dos Ausentes

Jorge Adelar Finatto
 
A morte é um preço excessivo para dar por uma rosa encarnada.
Oscar Wilde* 


 
O guarda-chuva é um escudo existencial contra a tristeza e a pouca luz do mundo.

Um indivíduo deprimido e solitário não deve andar por aí sem guarda-chuva, mesmo em dias de sol. Não importa o tempo que faz lá fora.

A umbela traz consolo ao coração, além de proteger o esqueleto.

Em Passo dos Ausentes, existe o Sindicato dos Fazedores de Guarda-Chuvas, Chapéus, Bengalas, Luvas e Mantas. A cidade, hoje habitada por muitos fantasmas e poucos seres humanos, foi importante centro produtor e exportador desses produtos. Consta nos registros do sindicato que, entre 1890 e 1939, a Inglaterra importou a quase totalidade da produção.

O cliente mais famoso, na área das artes, foi ninguém mais, ninguém menos, do que o escritor irlandês Oscar Wilde (1854 - 1900). Dizem os antigos que ele chegou a ter perto de 20 chapéus-de-chuva (nome pelo qual também é conhecido o guarda-chuva ) e cerca de 10 bengalas confeccionados na Terra dos Ausentes.

Numa secreta viagem, o autor de O Retrato de Dorian Gray esteve em Passo dos Ausentes, em 1891. Veio a nossa pacata aldeia a fim de mandar fazer, pessoalmente, um modelo exclusivo de guarda-chuva. O artefato tinha, num canto da parte externa do tecido azul-claro, as iniciais D.G., em tom rosa, as mesmas que foram gravadas, em prata, no cabo de osso de anta.

Oscar ficou durante 40 dias por aqui, conforme está registrado no livro de hóspedes da pensão Ao Viajante Solitário. Foi tempo suficiente para encantar a todos. Ganhou o título de cidadão honorário e sua despedida, na estação de trem, foi um dos maiores acontecimentos da cidade em todos os tempos.

 

 
Tal impressão causou em nosso meio que, desde então, quando pessoas de Passo dos Ausentes viajam à Inglaterra e à França, fazem uma espécie de peregrinação sentimental atrás de Dorian Gray, quer dizer, Oscar Wilde.

Muitos dos bilhetes apaixonados colocados (todos os dias) junto ao túmulo do escritor, no cemitério Père Lachaise, em Paris, são de gente dos Campos de Cima do Esquecimento.

Entre os políticos que adquiriram as nossas obras de arte, estão Getúlio Vargas e Winston Churchill. Na Terra da Rainha como em São Borja, são tratados como relíquias e viraram peças de museu. Em diferentes países do mundo, os guarda-chuvas aqui produzidos transmitem-se através das gerações na condição de finas joias de artesania.

Faz 40 anos que Guilherme Baden-Baden, o químico de Passo dos Ausentes, não sai à rua sem carregar o enorme Morcego Negro, espécie de capacete protetor que se afeiçoou a ele como se fosse a extensão de seu esquerdo braço.

Homem pequeno, Baden-Baden quase desaparece sob o para-sol (outro nome do objeto pluvioso). Enquanto estiver com o guarda-chuva aberto, afirma ele, nada de ruim poderá lhe acontecer. Não se trata de vã filosofia, diz o sábio:

- É uma intuição ancestral, uma maneira de ver e sentir a existência.

Nunca ninguém, em qualquer tempo, foi abandonado por um guarda-chuva. O contrário, porém, é muito comum.

Uma das grandes invenções da humanidade, cuja origem se perde na noite dos séculos, o guarda-chuva é, ao lado do cão e dos diários das moças, o melhor amigo do homem.

___________

Fotos: 1) Oscar Wilde, 1882. Autor: Napoleon Sarony. Fonte: Wikipédia. 2) Guarda-chuva nos jardins da Praça da Ausência. Autor: J. Finatto.
Texto revisto, publicado em 18 de abril, 2011.
Leia também, sobre Oscar Wilde e o beijo proibido:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/06/oscar-wilde-e-o-beijo-proibido.html
*Pensamentos, Oscar Wilde, p. 202. Relógio D'Água Editores, 2011, Lisboa.

domingo, 2 de março de 2014

Os mascarados


Carnaval de rua em Olinda, Pernambuco.
 

Os mascarados. Autor: Passarinho. Fonte: site da Prefeitura de Olinda:
www.olinda.pe.gov.br

 

sábado, 1 de março de 2014

O peixe e seu carnaval

Jorge Adelar Finatto
 
 
photo: j.finatto
 

A imagem dos peixinhos brilhando no fundo azul, e as outras, eu pesquei no Oceanário de Lisboa. É uma visita que não dá para perder em Portugal, conforme já registrei aqui.* Além de peixões, como tubarões, e peixinhos, como cavalos-marinhos, existem muitos outros seres que habitam no interior e fora das águas oceânicas, e são mostrados no oceanário.
 
Há um universo de vidas que não conhecemos, nas profundezas e na superfície. Um mundo que, por ironia, depende da boa vontade do ser humano para não ser destruído, o que, convenhamos, é uma temeridade.

photo: j.finatto
 
Resta esperar e acreditar que teremos o bom senso de não acabar com os oceanos, pois neles reside talvez a nossa única chance de sobrevivência no planeta diante do colapso alimentar que se avizinha.

Não existe beleza nem alegria na morte, apesar do que vemos na televisão diariamente. A estética da violência e da destruição, presente no noticiário e em grande parte da programação, desde filmes até grotescas lutas entre pessoas que se ferem bestialmente (a que chamam esporte), só faz alimentar a nossa desumanização.

photo: j.finatto

Preservar a vida enquanto há vida dentro e fora de nós.
 
Durante a folia oficial, artificial e midiática do carnaval (tudo é espetáculo...), eu prefiro o mundo silencioso, natural e colorido dos cavalos-marinhos e anêmonas-do-mar. O carnaval dos peixes.
 

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Escritores fantasmas reúnem-se em Passo dos Ausentes

Jorge Adelar Finatto
 

photo: j.finatto


Uma tapera solitária, à beira da ruína, será o local de reuniões do Congresso dos Escritores Fantasmas de Língua Portuguesa, a realizar-se nos primeiros dias do outono em Passo dos Ausentes.

O evento é uma das principais atrações culturais dos Campos de Cima do Esquecimento, ao lado do festival Música do Fim do Mundo, que acontece em junho, e do Teatro Kabuki na Névoa, em novembro. A sessão de abertura ocorrerá no dia 22 de março próximo.

O fantasma de Álvaro de Campos está entre nós e falará na abertura do encontro. Foi o que declarou ontem Heitor dos Crepúsculos, poeta suicida, assombração-mor da cidade, organizador do conclave. Disse, ainda, que o bardo português é o anfitrião designado este ano para o congresso. Também já chegaram os fantasmas de Oscar Wilde, Rainer Maria Rilke, Bashô, Heitor Saldanha e Henrique do Valle, convidados especiais que serão homenageados nesta edição.

Estão todos hospedados na pensão Ao Viajante Solitário, com ampla vista para o Vale do Olhar. O atual administrador do estabelecimento, António Alto da Noite, afirma que os literatos fantasmas não são maus hóspedes:

- Não comem nem bebem nada. Não usam o banheiro nem tomam banho. Em geral fazem silêncio. Às vezes arrastam móveis, principalmente nos dias de chuva (neste lugar chove pelo menos uma vez ao dia). Materializam-se a qualquer momento, mas não costumam demorar.

- É gente do sossego, leitura. São sentimentais, são estranhos. Mas cada um no seu cada qual. No café da manhã, sentam-se calados ao redor da mesa, olhando um ponto invisível à frente. De repente, desaparecem. É o jeito deles.
 
fachada da pensão Ao Viajante Solitário.
photo: j. finatto

A solidão da escrita será um dos temas do encontro, que terá ainda a leitura de textos pelos próprios autores na biblioteca da cidade, programa aberto ao público.

Mocita de La Vega, diretora da biblioteca e única funcionária, organiza o Salão dos Passos Perdidos para receber os poetas, escritores e convidados. Está tirando o pó dos móveis e livros e organiza o fichário, um tanto abandonado nos últimos 30 anos devido à falta de leitores (a população reduziu-se pela metade, a juventude não fica mais aqui). A diáspora dos ausentes.

Revelou a bela bibliófila que, ao passar o espanador numa mesa, ficou surpresa ao ver o fantasma do poeta Rilke sentado na poltrona diante da janela dos vitrais roxos. Vestia casaco e calça de lã cinza-escuros e uma gravata lilás sobre a camisa branca.

Ao ser descoberto, o poeta de Praga descruzou as pernas, esboçou um meio-sorriso e, levantando-se, convidou-a pra dançar. O vate das Elegias de Duíno segredou-lhe coisas à concha do ouvido.

- Um perfeito sedutor na palavra escrita como na falada, disse Mocita.

E saíram os dois a rodopiar entre as estantes, sob os lustres de cristal, bailarinos de um tempo fora do tempo, ao som de uma inaudível melodia sentimental de Amadeus Mozart.

Heitor dos Crepúsculos, acolhedor-geral do encontro, é a alegria em pessoa nos últimos dias, voa de um lado para outro, toma mil providências, fazendo esvoaçar sua echarpe cor-de-rosa. Materializa-se e desmaterializa-se com grande animação em toda parte, deixando no ar um pó branco cintilante.

Quando menos se espera, Dos Crepúsculos aparece sobre a copa de uma árvore estendendo um tecido de seda. Outras vezes, espalha bandeirinhas coloridas nos portais das casas ou desfia novelos amarelos de lã em torno dos bancos da Praça da Ausência.

Todos notamos um certo exibicionismo da parte de Heitor, mas afinal é o momento dele. E fantasmas são, por natureza, exibidos, do contrário não seriam fantasmas.

Passo dos Ausentes engalana-se para receber os voláteis escrevinhadores. Até jornalistas do Japão estão chegando para acompanhar o fantasmagórico congresso.

Desde que a cidade foi fundada por alguns padres jesuítas e famílias de índios guaranis sobreviventes do massacre de São Miguel das Missões, em 1756, não se via tanto entusiasmo por estas bandas.

O blogue acompanhará de perto o encontro, que já tem confirmadas as palestras de Machado de Assis, Lima Barreto e Eugénio de Castro. A programação completa bem como o nome dos participantes serão divulgados nos dias vindouros.

Um painel que promete, segundo alguns comentam, é aquele sobre os escritores mortos-vivos, isto é, os que estão vivos mas não têm leitores. Cerca de 1.200 mortos-vivos já se inscreveram para este dia. A este respeito, assim se manifestou Heitor dos Crepúsculos:

- A parte do esquecimento que nos cabe, nesse mundo de ruidosas vaidades e egos exacerbados - o velho mundinho da literatura -, é pequena se comparada à dos escritores mortos-vivos. Nós, pelo menos, não temos contas pra pagar nem espelho em casa.
Texto revisto, publicado em 04 de março, 2013.
 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

As últimas cores

Jorge Adelar Finatto 
 
photo: j.finatto, 24.01.2014
 

No itinerário que faço durante a caminhada polifônica, há sempre uma claridade que me faz parar na beira do caminho. É uma hortênsia que reúne na sua floração diversas cores e texturas. Há anos que a observo durante os meses de verão.

Paro para olhá-la de perto e sempre a fotografo, impressionado com sua exuberância. Como quem quisesse proteger contra o esquecimento imagem tão bela.

Não conheço outra hortênsia com tal diversidade e luminosidade.
 
A sua pintura se compõe e decompõe em inumeráveis tons, dos quentes aos frios, ao longo do período que começa lá por novembro e vem até finais de fevereiro. Sempre variando nas tintas.

Não resisti e fotografei-a mais uma vez em busca dessas que são, provavelmente, as últimas composições de sua mágica paleta. Essas photos testemunham as cores finais que ela emite nesse verão.

photo: j.finatto, 24.01.2014

Em breve ficarei sem essa beleza na beira do caminho. 
 
Mesmo agora, no momento em que se despede para hibernar por muitos meses (tempo no qual vai fabricar novas tintas), a hortênsia não priva o caminhante dos seus derradeiros instantes de beleza. Faz ainda o seu melhor. Um exemplo para nós.

A hortênsia, no seu encanto humilde e sereno, é só visão e dádiva.

photo: j.finatto, 24.01.2014
 
 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

A biblioteca é um refúgio

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto, 23.01.2014

 
A biblioteca é um bosque onde me refugio quando a barra da realidade pesa. Isto acontece quase todos os dias do ano. Por essa razão é um lugar que estimo tanto. Tenho uma relação de afeto com meus livros.
 
A minha não é, contudo, uma biblioteca de bibliófilo. Embora eu faça parte de uma confraria de bibliófilos (que edita preciosidades literárias, quatro obras por ano), a minha biblioteca é uma oficina de trabalho, não é um relicário e menos ainda um santuário.
 
Os livros são feitos por mãos humanas e por isso são imperfeitos e belos. Nada mais artificial do que estabelecer com eles alguma solenidade. A única solenidade que os livros reclamam é a leitura.

Não trato os volumes por vossa excelência, mas por tu, como deve acontecer entre amigos.
 
Escrevo e sublinho nas páginas sem nenhuma culpa. E é possível encontrar exemplares em mais de uma peça da casa por onde estive ao longo do dia ou da noite.
 
Cada um tem um jeito de ficar sozinho. O meu é com um livro na mão.
 
Passei o domingo de chuva na biblioteca. Arrumei os livros que trouxe da viagem. Uma mala pesada com obras não editadas no Brasil. Referi os nomes de alguns dos autores aqui esses dias.
 
Não é tarefa fácil acomodar novos livros entre os antigos. Tive que dar uma boa mexida nas estantes. Novos personagens e escritores se incorporaram ao pequeno acervo, trazendo sua cálida existência e sua claridade.

photo: j.finatto, 23.01.2014

 
Tenho uma ligação emocional com meus livros. Não vou dizer que não tenho um forte sentimento de posse em relação a eles. De modo que não fico exatamente tranqüilo quando me levam uma obra por empréstimo. Dependendo do livro, fico mesmo com o coração na mão. Mas recebo poucos pedidos.
 
De tempos em tempos faço uma revisão e avalio quais são os livros imprescindíveis. Isto é, aqueles que levarei para a ilha deserta quando, desiludido da vida, partir para lá um dia. Os que não se enquadram nessa categoria costumo dar.
 
É uma maneira de fazer a literatura circular, além de não afundar a casa em livros. Um livro que para mim não é tão interessante, para outra pessoa pode ser uma dádiva espiritual.
 
De resto, não me iludo com a posse de qualquer coisa nessa vida. Não somos donos de nada. Temos apenas a posse precária e transitória de algumas coisas materiais. Dia mais, dia menos, trocam de mãos.

Só nos pertence aquilo que levamos dentro da alma.*
 
Enquanto arrumava as estantes, nos intervalos li História do sábio fechado na sua biblioteca, de Manuel António Pina (Assírio & Alvim, Lisboa, março de 2009). Um pequeno livro de 60 páginas, ricamente ilustrado por Ilda David, que conserva ainda um gostoso cheiro de tinta. Trata-se de uma bonita história que lembra uma fábula na maneira de contar.
 
Com o talento que Deus lhe deu (por certo teve que trabalhar muito para trazê-lo à luz**), Pina escreve coisas assim no seu livro:
 
Como sabia todas as coisas (o sábio) e não tinha nada de novo para saber e conhecer, a sua vida era muito triste e desinteressante. Era uma vida sem espanto, onde nada de novo e surpreendente acontecia e todos os dias eram iguais a todos os dias. Mesmo coisas tão estranhas e misteriosas, como, por exemplo, os cortinados do quarto agitando-se, à noite, ou os móveis rangendo como se falassem uns com os outros, não tinham para ele qualquer mistério. (p. 10) 
 
Este livro já faz parte da relação dos imprescindíveis.

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*A respeito de possessões imateriais, vale a pena ler Um poema de Chagall, em tradução de Manuel Bandeira, em sua Antologia Poética, Livaria José Olympio Editora,  sétima edição, Rio de Janeiro, 1974. "Só é meu o país que trago dentro da alma."
**Eugénio de Andrade:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/06/eugenio-de-andrade.html
 

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Evocação de Rilke

Jorge Adelar Finatto
 
 
photo: j.finatto, 27.01.2014. Rarogne, Suíça


Quem tomará a minha mão
na noite de vermes
quando o asco me derruba
feito cão pela esquina

quem de coração amigo
chegará para beber a gota
de ternura estrangulada

quem me chamará de irmão
na dor imensa
quando o medo me acerta
com suas espadas de fogo


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Poema do livro Claridade, Jorge A. Finatto. Prefeitura Municipal de Porto Alegre, 1983.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Viver com medo

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto


Um empresário português do ramo de restaurantes contou-me, em Lisboa, que viveu durante 20 anos no Brasil. Chegou ao Rio de Janeiro com apenas um dólar, ficou pouco tempo em casa de parentes e em seguida começou a trabalhar no setor de panificação, num bairro carioca da zona sul. Trabalhou duro, acabou construindo sua própria empresa. Progrediu, constituiu família, sentia-se feliz.
 
Um dia bandidos entraram no seu estabelecimento, encostaram o revólver na sua cabeça, ameaçaram matá-lo e levaram todo o dinheiro. Disseram-lhe para não fazer alarde do roubo, pois conheciam bem a ele, a mulher e os filhos. Coisas piores poderiam acontecer.

Naquele dia tomou a decisão de ir embora do Brasil. Disse-me que não poderia viver com medo. Hoje é proprietário de um bom restaurante na Praça do Comércio, à beira do Tejo, que freqüento quando estou em Lisboa.
 
- Não existe coisa mais terrível do que viver com medo. Jamais poderia me adaptar a uma situação como essa. Preferi deixar tudo para trás, recomeçar do zero.
 
Entendo o que ele sentiu. Nas grandes cidades brasileiras, e mesmo nas médias, vive-se com medo. A violência está fora de controle. Latrocínios, assassinatos, roubos, furtos, estelionatos, tráfico de drogas, maus-tratos, etc., acontecem a todo momento. Pra não falar da criminalidade no trânsito com grande número de vítimas fatais e mutilados.*
 
Vivemos com medo no Brasil. Experimente sair à noite pelas ruas de Porto Alegre e ficará surpreso ao ver que pouca gente ocupa os espaços públicos, como parques, praças, calçadas, passeios (falamos de uma cidade com 1 milhão e 400 mil habitantes). Motivo: medo do bandido, do assalto, do tiro, do estupro, de ser mais uma vítima. Falei à noite, mas de dia a preocupação com a violência também é constante.

O que faz com que os criminosos ajam com tanta desenvoltura? Eles contam com a impunidade, sabem que têm muitas chances de que nada lhes aconteça. O índice de responsabilização penal é muito baixo entre nós.
 
As autoridades policiais trabalham no limite de suas forças, com muito pouca estrutura, pouco pessoal, pouco investimento. Os criminosos contam com  isso. As investigações recaem sobre os delitos mais graves. Daí que muitas pessoas simplesmente não registram as violências que sofrem, porque sabem que dificilmente serão apuradas. Há desta forma um buraco na estatística da criminalidade.
 
Os magistrados que atuam na área penal convivem com a absurda situação dos estabelecimentos penais superlotados, que não oferecem condições mínimas de encarceramento e ressocialização. Porto Alegre tem hoje o maior e pior presídio do Brasil, o Central, com mais de 4 mil presos onde caberiam no máximo 2 mil.

As péssimas condições já foram denunciadas à Corte Interamericana de Direitos Humanos, tribunal da Organização dos Estados Americanos, que está cobrando ações práticas das autoridades. Encarceramento em condições sub-humanas só gera mais violência, mais crimes e mais desumanização.
 
Os governantes conhecem os problemas. No entanto, o que fazem para alterar este cenário - quando fazem - é muito pouco. A realidade não muda, pelo contrário, se reproduz.

Teremos neste ano a Copa do Mundo de Futebol e o ambiente é este. Estão havendo gastos públicos exorbitantes para este evento que é um luxo que o Brasil não poderia se dar. E logo depois, em 2016, vêm os Jogos Olímpicos, outra aventura que vai custar muito caro.

Enquanto isso faltam recursos para obras essenciais em serviços de saúde, segurança, educação, transportes, moradia, infraestrutura e por aí vai. 
 
É necessário lucidez e um grande esforço para transformar esse triste panorama. E tudo começa na cabeça e no sentimento das pessoas.

Padecemos no paraíso, raro leitor. Num estado e num país de imensas possibilidades humanas e naturais. Mas precisamos estar à altura desse patrimônio. 

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*Dados oficiais divulgados pelo Governo do Estado na terça-feira, 18/02, revelam que em 2013 morreram nas estradas e ruas do Rio Grande do Sul 1984 pessoas, contra 2091 mortes em 2012.
 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A viagem na viagem

Jorge Adelar Finatto
 
cegonha saindo do ninho. Salamanca, Espanha. photo: j.finatto

Quando o caderno de viagem está completo e não há mais espaço para escrever uma só palavra, é sinal de que a travessia está no fim. É hora de voltar. Cumpriu-se o tempo de vôo e de paisagens vistas da janela.
 
As mais de três mil photos enchem o computador. As duas malas estão cheias de livros. Um mês passou voando. Meu prazo de validade para quartos de hotel, estações de trem, aeroportos, check-in, check-out, táxis, chegou ao limite.
 
É preciso, como a ave, ao ninho regressar. E de lá continuar a viagem.
 
Para mim Portugal é sempre porta de entrada e de saída da Europa (sim, o velho e combalido continente que a senhora Angela Dorothea Merkel, no melhor e no pior estilo germânico de ser, conduz com mãos e garras de aço).

Cada vez mais vivo esta verdade clara como o sol, que Fernando nos revelou no seu Livro do Desassossego: a nossa pátria é a língua portuguesa.
 
Quiseram os fados que o único país da América a falar português fosse o Brasil. Somos um estranho país americano. Poderia ter sido o espanhol, o holandês, o francês, o inglês. Mas não.

A árvore plural, colorida, cheia de referências culturais e étnicas que é o Brasil, escolheu a língua de Camões para ser.
 
Operou-se entre nós o milagre da unificação do imenso território em torno de uma única língua, essa que nos lambe desde o berço: o português.
 
Desde o mais remoto povoado amazônico até a rua mais erma da pequena cidade do Chuí, no extremo sul do Rio Grande do Sul, entrando no Uruguai, temos o mesmo idioma.
 
A árvore não pára de botar ramos, folhas, flores, frutos e espinhos. País formado por índios, colonizadores e imigrantes, muitos guardam ainda a memória de outras línguas, outros falares. Mas o português é a pátria de todos.
 
O Brasil continente pensa, sente, escuta, fala, lê e escreve português desde 1500. 200 milhões de almas nas pegadas do Padre Vieira e de Guimarães Rosa.

O que nos falta talvez é dar as mãos aos países lusófonos - todos darem-se as mãos - para juntos alcançarmos uma projeção econômica e cultural única no mundo. Naturalmente, sem essa bobagem de acordo ortográfico, que mais nos separa do que nos aproxima.

Deus nos livre da síndrome da mesquinharia, da inveja, do ciúme e da vileza cultural entre nossos países, e do abismo do grande umbigo, buraco negro das augustas vaidades que corrompem a nossa "mátria" comum.

Ando mesmo com saudade de ouvir Baden Powell tocando seu violão, dedilhando maravilhas como Pastorinhas, Inquietação, Molambo, Dora e todo o resto.¹  Ando mesmo precisado de caminhar pelas ruas escondidas de Passo dos Ausentes.
 
É hora de voltar, raro leitor. E começar outra viagem. A viagem na viagem.

A hora do antropófago, da deglutição de tudo o que foi visto, percebido, sentido. Tempo da intuição, da elaboração, da criação.

O eterno retorno ao pajé Oswald de Andrade.² 
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¹Disco Lembranças, ano 2000.
²Manifesto Antropófago, 1928. 

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Livros perdidos e achados

Jorge Adelar Finatto
 
photo: Eugénio de Castro


Fiz uma relação de livros de escritores portugueses antes de sair do Brasil. São obras que não encontro na Terra de Vera Cruz.  Achei quase todos, com duas exceções. Lisboa, livro de bordo (crônicas, 1997), de José Cardoso Pires (1925-1998), e Constança (poesia, 1900), de Eugénio de Castro (1869-1944).
 
Percorri cerca de 20 livrarias e alfarrabistas, entre o Porto e Lisboa, e nada. Na terça passada encerrei a busca visitando velhos alfarrabistas do Bairro Alto. A resposta foi a mesma: não existem mais.
 
Esses livros não podem faltar na livrarias.

photo: José Cardoso Pires

A Lisboa de Cardoso Pires é a cidade vista a partir da alma do grande escritor, capaz de traçar notáveis sínteses em poucas linhas com seu olhar penetrante e sensível.
 
Constança foi uma indicação de Don Miguel de Unamuno quando li, ainda em Salamanca, o seu Por tierras de Portugal y de España.* Diz o genial e valoroso filósofo espanhol:
 
Portugal parece a pátria dos amores tristes e dos grandes naufrágios.
 
(...) nenhuma obra (de Eugénio de Castro), a meu entender, e sobretudo a meu sentir, sobrepuja Constança, publicada em 1900. Constança é sua obra mais profundamente portuguesa, aquela em que sua alma conseguiu vibrar mais em uníssono com a alma de seu povo. É como se sua mão ao escrevê-la se houvesse convertido na arpa eólica de seu povo, vibrando ao sopro da alma deste. A lírica de Constança é a mais alta e mais nobre lírica, aquela que, sendo profundamente coletiva, é, por isso mesmo, profundamente pessoal.
 
Constança foi a mulher do infante D. Pedro, aquele da infeliz Inês de Castro, cujos trágicos amores imortalizou Camões.

Vindas de Don Miguel, imaginem o significado destas palavras.

Aí estão as duas sentidas faltas na mala dos portugueses que levarei comigo.

Manuel António Pina. Wikipédia

Nunca entendi por que estamos tão distantes da literatura e da cultura dos países de língua portuguesa. Vivemos no Brasil uma espécie de isolamento dentro da lusofonia.

Autores como José Saramago, Mia Couto e, depois, António Lobo Antunes começaram a desembarcar em terras brasileiras nos últimos anos. É muito pouco diante da pluralidade de autores lusófonos.

Em Portugal, percebo que há também um distanciamento do Brasil, pouco se conhece.

Estou levando a mala pesada de livros, mas o esforço compensa. Entre outros, levo comigo Lobo Antunes, Alexandre O'Neill, Eugénio de Andrade, Agostinho da Silva, Herberto Hélder, Maria Gabriela Llansol, J. Cardoso Pires, Fernando Pessoa, J. Saramago, Maria Velho da Costa, Ruy Belo, Vitorino Nemésio, Manuel António Pina, Eduardo Salavisa.

Na Suíça consegui encontrar as obras de Rilke que perseguia. Em Madri, completei a biblioteca básica de Ortega y Gasset, graças à generosidade da Fundação Ortega y Gasset que me repassou, sem cobrar por isso, volumes fundamentais do filósofo.

Dos espanhóis tratarei em texto próprio. Os discos também merecem um post à parte.

De que vale, afinal, uma viagem, se não for para procurar aquilo que nos faz falta em nossa paisagem espiritual?  
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*Por tierras de Portugal y de España, Miguel de Unamuno, Biblioteca Unamuno, Alianza Editorial, Madrid, 2011. Tradução do trecho acima: J. Finatto.