terça-feira, 12 de outubro de 2010

Gentileza

Jorge Adelar Finatto


A vida é assim. As mãos que plantam nem sempre são as que colhem. O semeador cultiva o alimento e a beleza que muitos vão aproveitar. Quantos se beneficiam do aroma das flores que mãos anônimas semearam na via pública? E quantos matam a fome graças ao trabalho imenso dos que  vão ao campo deitar sementes à terra?

Os anônimos fazem o moinho do mundo girar.

Na minha rua, por exemplo, alguém teve a  grande gentileza de plantar primaveras.  Nesta época, os arbustos cobrem-se de pequenas flores azuis e brancas, exalam o denso perfume que faz a felicidade de quem caminha na calçada.


Na mesma minha rua, existem também palmeiras. E buganvílias, sim, buganvílias.

Agora o vento chega do rio. Traz notícia de barcos e peixes em movimento. Carrega junto a vontade de viajar e esquecer, que às vezes aparece como sol entre nuvens.

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Fotos: J. Finatto

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

A feira

José Saramago


Este ano não irei à Feira do Livro de Lisboa. Que não é como a de Frankfurt, ou a de Guadalajara, no México, nem sequer como a de Madrid, mas que é a nossa e está num lugar bonito, onde antes havia uma colina e agora menos, porque a fúria urbanística reduziu encostas, mas ainda assim vê-se o rio ao fundo, e há uma bela imagem da cidade pombalina, a que ia ser moderna e racional e o foi, basta passear por ela para ver que a razão esteve presente quando se desenhou, embora logo tivessem vindo outros que preferiram o obscurantismo às luzes e quase deram cabo dela.

Dizem-me que faz bom tempo e que a Feira este ano está mais animada, como se por esse mundo fora não lavrassem coisas terríveis, crise, pobreza, depressão. Diz-se que em épocas de crise se lê mais, e parece que os contabilistas comprovam esta afirmação. A mim agrada-me pensar que em épocas de crise as pessoas querem saber por que chegámos a isto e acercam-se aos livros como se estes fossem fontes de água fresca e os leitores gente sedenta.

Gosto da Feira do Livro. Gosto de estar horas sentado assinando exemplares de pessoas que chegam com um recado, em geral discreto. Gosto de levantar os olhos e ver as pessoas circulando entre os pavilhões, talvez procurando o ser humano que os livros levam dentro. Gosto do calor da primeira parte da tarde e da frescura que virá depois, sinto que certo lirismo me percorre o corpo, em mim que não sou lírico, mas sentimental. E penso que os livros são bons para a saúde, e também para o espírito, e que nos levam a ser poetas ou a ser cientistas, a entender de estrelas ou encontrá-las no interior da vontade de certas personagens, essas que às vezes, algumas tardes, se escapam das páginas e vão passear entre os humanos, talvez mais humanas elas.

Sinto muito não poder estar este ano em Lisboa, na Feira do Livro.
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Publicado com autorização da Fundação José Saramago
http://www.josesaramago.org/
Texto extraído do blog O Caderno de Saramago
http://caderno.josesaramago.org/.
Postado originalmente em 08 de maio, 2009.
A grafia é a de Portugal.


Foto de José Saramago (1922 - 2010) : Acervo da FJS

domingo, 10 de outubro de 2010

Mônica Salmaso

Jorge Adelar Finatto


Uma voz absolutamente íntima numa modulação  limpa  e sentimental. A cada canção que ouvimos, mais próximos nos sentimos de Mônica Salmaso. De onde vem a suave epifania, esse caminho aberto para o  centro da emoção? Muito ela nos oferece na pura voz consoladora. Muito nos conta da vida e dos  sentimentos. Ouvi com grande prazer seu  cd Noites de gala, samba na rua (2007),  que gravou pela Biscoito Fino. O mínimo que podemos dizer diante de tanta beleza é muito obrigado, Mônica Salmaso, por seu inefável canto. Nunca nos falte.

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Foto: Mônica Salmaso por Dani Gurgel. Fonte: site oficial da cantora: www.monicasalmaso.mus.br

sábado, 9 de outubro de 2010

Menestrel virtual

Jorge Adelar Finatto


O blogueiro é como o menestrel de antigamente. Leva na mão o alaúde. Entrega seu verso e sua prosa a quem quiser, em troca de um pouco de atenção.

Escrever num blogue tem virtudes. A principal delas é, talvez, evitar a derrubada de árvores para publicação de livros. O blogue se constrói no meio imaterial, não agride a natureza. É abstrato como um fantasma.

Ninguém cheira nem toca as páginas do blogue. Nesse sentido (como em muitos outros), o livro é insubstituível. A utilização do ambiente virtual é uma necessidade e uma saída diante da profusão de pessoas que estão escrevendo.

O autor do blogue pode alterar o que escreveu a qualquer tempo, e isto é importante para melhorar a qualidade do texto (principalmente em se tratando de blogue literário). O texto está em permanente construção.

No momento em que se pressiona a tecla "publicar", o conteúdo vai para o espaço infinito e pode ser lido por qualquer habitante deste e de outros planetas.

A solidão compartilhada dá um sentimento de companhia na dura vida da escrita.

Haverá, de fato, leitores interessados no que escrevemos? Ninguém sabe. O que importa é que o recado está na rede. As palavras estão à procura de quem as leia e, quem sabe, também as ame.

O blogueiro, tão parecido com o ancestral troglodita, vive ruminando e anotando na sua caverna virtual, em busca de comunicação.
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Foto: J. Finatto

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Não me abandones

Jorge Adelar Finatto

a Chet Baker


Não me abandones
povoa a noite
com teu suprimento
de afeto

enche o deserto
com teus passos

em segredo
devolve-me
a delicadeza
daqueles dias

me dá outra vez
o diamante
da tua
presença

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Poema do livro O Habitante da Bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.
 
Foto: J. Finatto
 

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Edgar Morin

Jorge Adelar Finatto


Viver, para mim, é também inconcebível, incrível, maravilhoso e horrorizante. A mosca, a borboleta, a viúva- negra, e também o gato e o cão, trazem-me de volta sem cessar esse mistério. Porque o mistério, para mim, não está somente nos problemas insolúveis para nossa razão e nosso espírito; ele está na vida cotidiana. Edgar Morin *

O filósofo francês Edgar Morin, 89 anos,  afirma que não teme que o chamem de traidor. Isto já aconteceu quando defendeu os direitos humanos, em prol da vida com dignidade e liberdade.  Seus acusadores foram injustos, obtusos e sectários.

Em julho do ano passado, ele esteve no Brasil, onde proferiu a palestra Pensar o Sul, no Sesc de São Paulo. Na ocasião, presenciou ao lançamento da página a ele dedicada  na internet pelo Portal SescSP.

Mesmo sendo judeu de origem, Morin, que também é sociólogo, historiador e economista, declara que Israel tem uma postura colonizadora e dominadora. Não se mostra otimista em relação a uma solução para o impasse entre israelenses e palestinos. Manifesta "compaixão pelos palestinos que sofrem as misérias e humilhações de uma ocupação", segundo afirmou em entrevista ao jornalista Antonio Gonçalves Filho, publicada no caderno Cultura do jornal O Estado de S. Paulo, em 02 de agosto de 2009.

Não existe qualquer traição em denunciar o injusto, como faz Morin. O cerco de Israel aos palestinos é abusivo e violento. O comportamento ético do estado judeu é inaceitável e não aponta qualquer  solução.  Israel pensa em manter a dominação e a humilhação dos palestinos pela violência e isso é tudo.

É preciso ficar claro, também, que muitos judeus, em todo o mundo, são contra a política israelense. Não deixa de ser contraditória a atitude do estado de Israel, considerando a história de perseguições e terríveis violências contra o povo judeu, sendo a mais recente o holocausto promovido pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, com o extermínio de seis milhões de judeus em campos de concentração.

Na França, Morin também foi chamado de traidor por se manifestar contra a guerra da Argélia (1954 - 1962), em que os argelinos lutaram pela independência do país diante da dominação francesa, o que só ocorreu em 1962. Também aqui nenhuma razão assiste a seus detratores, mais uma vez a história lhe deu razão.

Antes ainda, o filósofo foi considerado traidor por alguns socialistas, por resistir à sedução e dominação do regime stalinista, na União Soviética e seus apêndices. A extrema violência da era Stalin, a negação dos direitos humanos, da democracia e da vida dos opositores são fatos conhecidos. Aqui, mais uma vez, prevaleceu a lucidez de Edgar Morin em suas observações.

O pensamento totalitário chama de traidor aquele que enxerga de modo diferente, ao olhar que aponta o erro, a ignorância, o assassinato como meio de luta. Nas vezes em que o acusaram de traição, Edgar Morin opôs-se corajosamente às investidas fascistas e homicidas contra o ser humano.

O pensador francês acredita num futuro humanista para o mundo, baseado numa reforma educacional e moral, em que o fator dominante seja a solidariedade planetária, construída por pessoas de boa vontade decididas a criar uma nova civilização.  Neste processo, acredita, o Brasil poderá ter papel importante e até decisivo, levando em conta sua miscigenação cultural e a biodiversidade da Amazônia. Considera que o Brasil pode ser o país do futuro, desde que enfrente seu maior obstáculo: a corrupção, conforme declarou na brilhante entrevista a Antonio Gonçalves Filho.

Ouçamos Edgar Morin.

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* Excerto do texto de introdução ao site Edgar Morin, criado pelo Sesc de São Paulo.
Vale a pena conferir este excelente trabalho:
http://www.edgarmorin.org.br/
Foto: Edgar Morin, no Rio de Janeiro, por Lila Rodrigues. Fonte: Portal Sesc SP, no site dedicado ao filósofo.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Orquídea, sim, orquídeas

Jorge Adelar Finatto


 


 

























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Fotos: J. Finatto

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Retrato achado no fundo da gaveta

Jorge Adelar Finatto


A estrada velha da serra anda em curvas febris, lambe a beirada dos peraus, cai e levanta em vertigem. Plátanos à margem, com folhas novas, lembram bandeirolas ao vento. Bosques de pinheiros surgem aqui e ali. Algum córrego azul atravessa a tarde. O chapéu de palha sob nuvens  muito brancas. Imemoriais cercas de taipa habitam o silêncio. A casa de enxaimel sorri com as janelas abertas.

No pátio, o poço de água boa.

Um dia o menino adormeceu embaixo do pinheiro grosso. Trazia o balde cheio de ameixas amarelas. Acordou com a chuva suave escorrendo na face. Um cheiro morno de erva do campo impregnava o ar. Lá longe um avião fazia um risco no céu. Em casa o esperava o cheiro de pão feito no forno do fogão a lenha e do café recém passado. A mãe cantava enquanto passava roupa.

Muitos anos depois o menino olha através da janela. A chuva cai mansa no seu coração e molha o retrato.

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Foto: J. Finatto. Restaurante Roda Dágua, Nova Petrópolis.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Elvis Costello

Jorge Adelar Finatto


Um repertório apurado, uma voz cálida e interpretações únicas fazem de Elvis Costello um dos grandes artistas da atualidade. O cantor e compositor inglês apresenta um programa de entrevistas num canal de tv a cabo (não lembro qual), nos sábados à noite. No início de setembro, ele conversava com uma cantora e ela perguntou-lhe se lia muito. Costello respondeu que não, existem muitos livros, bons autores, mas ele prefere dedicar todo seu tempo à música.

Gostei da sinceridade, não desconversou. Ler é bom e importante, mas  isso não significa que quem não lê será expulso do paraíso. Há coisas muito mais graves, como não conseguir ser um pouco feliz. E ninguém se engane: mesmo entre escritores,  existem aqueles que pouco ou nada leem. Como conseguem, eu não sei.

Elvis Costello é casado com a canadense Diana Krall, ótima cantora de jazz que já se apresentou em Porto Alegre. Ele passa uma imagem de pessoa íntegra, transparente, bastante concentrada no que faz, e que respeita  os outros. Tenho um dvd de Chet Baker em que Costello aparece como apresentador. É muito bonita a forma reverente como trata o genial trompetista americano, que morreu em Amsterdam  em 1988.

Num tempo em que ser sincero e respeitoso não está em moda, Costello é uma referência. Se juntarmos isso ao seu talento, concluímos que vale a pena conhecê-lo melhor e prestar atenção no seu belo trabalho, como, por exemplo, o cd que gravou em 1998 com Burt Bacharach.

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Foto: Elvis Costello. Divulgação.

Coisas que voam na primavera

Jorge Adelar Finatto


O frio dos últimos dias nos remete a um inverno tardio. Como sempre, o vento sopra em Passo dos Ausentes. O vento da primavera é menos espesso que o do inverno. É um vento jovem, carregado de bom humor nos seus rodopios. Quando canta, são leves as canções.

Outubro vira velozmente as folhas do calendário. 

Os dias correm em catadupas para o fim do ano, fazem girar o misterioso moinho.

Esse vento de primavera não tem rumo certo. Nem o coração.

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Foto: J. Finatto

sábado, 2 de outubro de 2010

Cacaso

Jorge Adelar Finatto


Foi o poeta e compositor Cacaso a pessoa que melhor traduziu, até hoje, o sentido do que escrevo. Devo a ele a leitura mais luminosa e mais profunda. O texto foi publicado no jornal Leia Livros, na coluna Vinte pras duas, em 1982. Era sobre meu livrinho de poemas Viveiro, lançado em São Paulo, em 1981, pelo Grupo Sanguinovo.

Fiquei surpreso e feliz com o que ele escreveu, e havia bons motivos. Cacaso é um poeta raro, dos melhores que tivemos na segunda metade do século XX*. Escreveu poemas e letras de música como poucos. Fez parcerias com Tom Jobim, Edu Lobo, Sueli Costa, Djavan, Francis Hime, João Donato, Macalé, entre tantos. Foi professor na Faculdade de Letras da PUC do Rio de Janeiro. Tinha uma leitura muito lúcida sobre o Brasil e nossa cultura. Era um intelectual refinado e, ao mesmo tempo, uma pessoa simples e generosa. Conhecia as ruas das grandes cidades e conhecia o interior brasileiro. Conhecia e amava o nosso povo.

Em 1985, tive o único encontro com ele, visitando-o em seu apartamento na Avenida Atlântica, no Rio. Recordo a ampla sala com piano de onde se via o mar de Copacabana. E uma outra sala, local de trabalho, que tinha um armário repleto de fitas com músicas gravadas. No trato pessoal, revelou-se muito atencioso, disposto a falar e ouvir.

Cacaso (Antônio Carlos Ferreira de Brito, 1944 - 1987), esse homem, esse poeta, esse pensador, foi um pecado morrer tão moço, com tanto ainda para nos ensinar, nos ajudar a entender e nos escutar.


A poesia do Jorge Adelar Finatto é breve, sem muitos volteios, incapaz de autocomplacência e dotada de uma região de silêncio que lhe comunica transcendência. O poeta vê o cotidiano como um absurdo rotineiro, um lugar onde o escândalo já não escandaliza e onde certa dose de perversidade e dureza torna-se um antídoto necessário à sobrevivência. 

Cacaso

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Foto: Cacaso. Divulgação. Revista Bravo online, março de 2009. Ilustra excelente texto de Geraldo Carneiro sobre o poeta. bravonline.abril.com.br

* A antologia lero-lero, da editora Cosac & Naify, lançada em 2002, é uma bela mostra do trabalho de Cacaso.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Literatura pra que mesmo?

Jorge Adelar Finatto


Confesso que sou um leitor tosco, desses que buscam sentido nas coisas que leem. Não apenas gosto de ler como de reler livros, e a cada nova leitura descubro coisas que antes não vi. O tempo é raro diamante. Não pode ser desperdiçado. Lutamos para escolher, entre milhares, o livro que irá nos fazer mais felizes,  mais saciados na busca de beleza e conhecimento, recompensando-nos  pelo esforço da leitura.

Li entrevista de uma escritora em que ela afirma que não acredita que a literatura possa ter uma função, nem que possa ser uma possibilidade de reflexão, de alteridade. Diz também que literatura é literatura, não tem função nenhuma e não  se pode esperar isso dela.

Não tenho pretensão de atribuir "funções" à literatura. Mas não posso disso extrair seu oposto, que é negar a ela qualquer função. Como leitor, busco nos livros prazer, encanto, conhecimento, uma espécie de felicidade que só a leitura pode trazer e que não encontro em outras coisas. 

Esse prazer e essa felicidade estão diretamente relacionados à possibilidade de construção de sentidos que a leitura oferece. O escritor escreve determinada coisa e o leitor estabelece suas  relações, faz descobertas, extrai e constrói significados. A obra literária só ganha vida nos olhos do leitor e ele próprio torna-se criador no ato de ler.

Desde que acordamos de manhã até o segundo antes de dormir, passamos o tempo procurando sentidos. Isso é assim porque temos uma consciência e não podemos apagá-la. Do outro lado, está o inconsciente, um oceano de sentidos ocultos, intuições, memórias pessoais e ancestrais que fazem parte do nosso ser.

Ninguém lê uma página ou uma linha sequer sem essa tentativa de encontrar significados. E se lemos é porque estamos em busca de alguma coisa, algo nos falta, estamos em construção.

O assunto é longo e comporta várias interpretações.  O que eu acho é que escrever e botar um livro no mundo é assunto de muita responsabilidade. Por isso custo a entender o que foi dito na entrevista. Talvez não tenha ainda alcance suficiente para compreender.

Contudo, no dia em que chegar à conclusão de que a literatura não tem função nenhuma, que não serve para refletir, nem para ver o mundo e o outro numa perspectiva diferente, no dia, em suma, em que entender que literatura é literatura, e ficar só nisso, aí então será a hora de parar e fechar o estabelecimento.

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Foto: J. Finatto. Ipê amarelo.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Todos os cheiros

Jorge Adelar Finatto


Os cheiros trazem de volta emoções que ficaram guardadas no sótão da memória.

Entrar no Mercado Público de Porto Alegre, à margem do Guaíba, é fazer uma viagem através do mundo de fragrâncias que nos remetem a sentimentos e tempos distantes. Da infância eu recordo de coisas ali compradas que eram empacotadas com papel e barbante. Cada uma chegava em casa com seu  odor característico. Assim a erva do chimarrão, o café de Minas Gerais, o bacalhau norueguês, o cacau da Bahia, o camarão e o peixe da cidade de Rio Grande. Lembro das idas ao mercado e do contato com aquele universo de cheiros e mil produtos expostos.

Um dia desses retornei ao mercado público e fiquei por lá um pedaço da tarde. Fui atrás de especiarias espirituais que não tardaram a se revelar. Encontrei no ar toques de cravo e canela, vestígios de peixe, baunilha, vinhos, charque, hortelã, cidreira, limão,  manjerona, madeira, melão e por aí vai. Um encantador mosaico olfativo habita aquelas bancas e corredores.

Caminhei naquele movimento colorido como nos tempos de menino, gente indo e vindo, os vendedores falando com os visitantes - e não apenas sobre compra e venda de mercadorias -, como sempre se fez em todos os mercados do mundo, em todas as épocas,  menos, claro, na frieza e dura objetividade do shopping moderno.

Na verdade, quando entrei no mercado público, acho que fui atrás do guri que eu fui.

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Foto: site da Prefeitura Municipal de Porto Alegre:

http://www2.portoalegre.rs.gov.br/mercadopublico/

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Baaria, A Porta do Vento

O Cavaleiro da Bandana Escarlate


Alberta de Montecalvino, a grande dama de Passo dos Ausentes, enviou-me uma mensagem através de Heráclito, o pombo-correio. Invocando a cláusula pétrea da amizade, pede-me que escreva algo sobre o filme Baaria, A Porta do Vento (Itália, 2009), do diretor Giuseppe Tornatore. A película não passará em Passo dos Ausentes porque o cinema que lá havia, o Cine Esplendor, fechou em 1955. Os anos 50 do século XX foram ferozes com os Ausentes.

Resistir a um pedido de Alberta, quem há-de? Vocês já leram o texto que ela publicou neste blog em 14 de junho passado? Não deixem de fazê-lo.

Conheço Tornatore de outros filmes, como Cine Paradiso, Malena e Estamos Todos Bem.  Ele é sentimental e verdadeiro, mas não é bobo. O filme é uma viagem afetiva através do tempo, tendo Baaria, cidade natal do diretor, como cenário. Uma viagem através de um álbum de família no interior de um cartão postal. Lá estão seus pais, irmãos, amigos, lugares. Lá está a pobreza. E também a luta, a esperança. Baaria é uma espécie de gíria que significa porta do vento, palavra de origem árabe ou fenícia. O nome certo da cidade é Bagheria e fica na região da Sicília.

Assistimos à passagem do tempo na vida das pessoas e da cidade, entre os anos 1930 e 1980. As mudanças são testemunhadas pelo olhar de Peppino, desde menino até a velhice. Como qualquer cidade, em Baaria tem o louco, o  nefelibata, o aleijado, as brigas familiares, a solidão das janelas olhando a estrada (tão Passo dos Ausentes), a dificuldade de viver, meninos  brincando, tirando frutas do pomar alheio, namoros, romances, violência.


Tornatore denuncia a máfia e o fascismo, embora não  se detenha a examinar a extensão dessas organizações. A obra mostra um país com muitas feridas, mas sobretudo enaltece o amor familiar e a amizade.

É a história de gente pobre que ficou na Itália após a grande  diáspora. Ainda está por ser contada a outra história, a dos que emigraram, dos que foram expulsos da mãe Itália no último quarto do século XIX, cerca de dez milhões de pessoas. Famílias inteiras separadas para sempre. Essa foi a maneira como muitos países europeus "resolveram" na época seus problemas econômicos, políticos e sociais. Esse Amarcord faltou na obra de Fellini. Quem sabe Tornatore não o fará um dia?

Tem gente torcendo o nariz para Baaria, A Porta do Vento. A meu ver, injustamente.

A trilha musical do velho Ennio Morricone é bela, a fotografia é encantadora.

Eu chorei algumas vezes durante o filme. Emoção derramada por ver na tela fragmentos da vida pequena numa cidadezinha italiana, em tudo tão parecida com o nosso interior do Rio Grande do Sul.

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Fotos: Paris Filmes, divulgação.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O cinamomo

Jorge Adelar Finatto



Existe um edifício na rua Dona Eugênia, no bairro Petrópolis, em Porto Alegre, que tem um pequeno jardim na frente. Neste jardim vive um velho cinamomo.

Passei por lá no último sábado, o tempo estava um pouco nublado e frio. Me dirigia à banca de jornal que tem ali perto, onde costumo ir quando estou pela cidade.

Sempre que passo naquele lugar olho para o meu amigo cinamomo. Às vezes me pergunto se ele ainda se lembra de mim. Eu jamais pude esquecê-lo. Morei naquele edifício quando tinha nove, dez anos.

O cinamomo fazia parte das brincadeiras da meninada do prédio e da rua.

Pouca gente sabe - até porque existem hoje poucos cinamomos - mas essa árvore tem minúsculas flores que, na primavera, produzem um dos mais suaves e doces perfumes que conheço.

O meu velho cinamomo está lá, florido, exalando seu perfume em mais uma primavera das nossas vidas. A todos distribui seu aroma generosamente.

De certa forma, somos sobreviventes de um tempo e de uma cidade.
 

 


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Fotos: J. Finatto

domingo, 26 de setembro de 2010

Navegações

Jorge Adelar Finatto


Não existem chegadas
e partidas definitivas
rijos itinerários nascidos
na rota turbulenta
dos abismos

o que há é esta
necessidade de navegar
que começa não sei
em que rio ou fundão
e depois se expande

um dia toda busca
cristaliza
e se pode, enfim,
recolher as velas
no porto do outro
mundo

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Poema do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.
Foto: J. Finatto

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A queda do Águia Negra

Jorge Adelar Finatto


Os destroços do aeroplano ainda estão espalhados em volta do chafariz, no centro da Praça da Ausência. Essa queda do Águia Negra não foi apenas a décima oitava na vida do piloto Nefelindo Acquaviva. Ao contrário das anteriores, não foi um acidente.

Um traiçoeiro tiro de bombarda, de autoria desconhecida, está na origem do rompimento das relações entre a igreja e a aviação em Passo dos Ausentes.

Nefelindo decolou com o Águia Negra do fundo de seu quintal na tarde de sábado. Sobrevoou cercas e telhados a muito pouca altura. Os vizinhos taparam os olhos e ouvidos com as mãos e abaixaram as cabeças, temendo pelo pior.

O ensurdecedor e absurdo objeto voador - espécie de motociclo com asas de besouro, contruído por Acquaviva no galpão do seu pátio - ganhou altitude a duras penas, descrevendo no ar um preocupante ziguezague.

Quando atingiu a marca de 40 metros, Nefelindo iniciou manobra para contornar a torre da igreja e rumar ao sul, na direção de Porto Alegre. O acalentado sonho do pioneiro da aviação em Passo dos Ausentes é aterrissar um dia na capital do Rio Grande do Sul. Com isso quer realizar dois objetivos: chamar a atenção da sociedade para a existência da cidade esquecida, que nem sequer no mapa está, e divulgar a prodigiosa invenção aeronáutica.

No momento em que começava a volta na torre, ouviu-se o assombroso estrondo do tiro de bombarda, cujo projétil passou a poucos centímetros do aparelho, desequilibrando-o nas alturas. O aeroplano bateu no alto da torre contra a cruz, que se partiu e despencou. Em seguida, a nave precipitou-se vertiginosamente, vindo a cair sobre o chafariz no meio da praça. A água amenizou a queda.

Naquela hora a banda municipal ensaiava no coreto. Os músicos correram e retiraram o que sobrou de Nefelindo de dentro do casulo. O médico, Dr. Fredolino Lancaster, 96 anos, único da cidade, compareceu ao local pouco depois da tragédia e fez o atendimento de urgência. Disse que era um milagre o piloto ter sobrevivido.
 

Dois dias depois, no hospital, pela tarde, todo enfaixado na cama, Nefelindo segurava um charuto entre os dedos, enquanto olhava através da janela. Nuvenzinhas brancas desfiavam entre os fios do negro bigode. Nisso chegou o chefe local da igreja católica, Dom Krauss. O padre usava o chapelão preto em forma de bacia virada para baixo. Dirigiu-se secamente a Nefelindo, com forte sotaque germânico.

- Eu o proíbo de invadir o espaço aéreo da igreja. Se isso acontecer novamente, eu mesmo me encarregarei de atirar contra seu pássaro insano. Acredite, Nefelindo, sou bom atirador.

- Cínico chapeludo - respondeu o aeronauta com a voz cavernosa -, o senhor acaba de decretar o fim do nosso armistício. Nós da aviação não aceitamos ultimatos. Passou o tempo em que a igreja fazia o que bem entendia nesse fim de mundo. Prepare-se para o pior.

- Você não podia andar solto por aí, devia estar no hospício -, disse Dom Krauss, que se retirou furioso do quarto, abrindo espaço com os braços entre as duas enfermeiras que ali chegaram para atender o doente.
                              
               &        &        &

Juan Niebla, o músico cego que toca bandoneón na estação de trem abandonada de Passo dos Ausentes, foi até o jardim do hospital e, diante da janela aberta do amigo, executou Adiós Nonino, de Astor Piazzolla.

O perfume das madressilvas impregna o ar nesses inícios de primavera.

Somos ruínas vivas em progresso na nossa pequena cidade. Um lugar onde a neblina veio morar com a solidão. 

Mas temos, como nosso aviador, a ambição dos altos voos.

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Mais sobre o Águia Negra no post de 5/5/10.

 

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A pensão do tempo

Jorge Adelar Finatto


O tempo, como se sabe, é um quarto de pensão. Num dia estamos hospedados e, noutro, não estamos mais. O viajante chega ao mundo com a mala  repleta de difíceis trabalhos. Vai morar na pensão. Trata de sobreviver e nessa lida empenha seus melhores dias. Em certo momento, vem o gerente da pensão e avisa que está na hora de ir embora.  Indignado, o viajante protesta: mas como, excelência, eu pago a hospedagem em dia, faço enorme esforço pra não me desentender com os demais hóspedes (o que nem sempre é fácil), levo uma vida honesta, luto pra fazer a coisa certa e, agora, quando a vida começa a melhorar, vem o senhor e me manda embora? Isso não é justo. Peço que reconsidere. O gerente, onipotente, diz tem gente esperando a vaga do quarto, você jamais foi dono de nada, isto aqui é uma pensão, um lugar de passagem, lembra? Nunca houve promessa de quarto eterno. O senhor tem de partir. Mas pra onde, pergunta o perplexo viajante, depois de todos os sacrifícios, é isso que me espera? Não faz sentido.  E quem disse que tem que ter sentido? Arrume a mala e vá para a estação. O seu trem não demora a chegar. O viajante fica em silêncio. Desiludido, fecha os olhos. Uma cálida lágrima escorre pela face.

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terça-feira, 21 de setembro de 2010

Justiças*

 José Saramago


No dia de 22 de Julho de 2005, um cidadão brasileiro, Jean Charles de Menezes, de profissão electricista, foi assassinado em Londres, numa estação de metro, por agentes da polícia metropolitana que o confundiram, diz-se, com um terrorista. Entrou numa carruagem, sentou-se tranquilamente, parece que chegou mesmo a abrir o jornal gratuito que havia recolhido na estação, quando os polícias irromperam e o arrastaram para o cais. Não o detiveram, não o prenderam, derrubaram-no violentamente e dispararam-lhe dez balas, sete das quais na cabeça. Desde o primeiro dia, a Scotland Yard não fez outra coisa que criar obstáculos à investigação. Não houve julgamento. A procuradoria impediu que os polícias fossem incriminados e o juiz proibiu o jurado de pronunciar uma sentença condenatória. Já sabem, se algum dia lhes aparecer por aí uma peruca branca, dessas que aparecem nos filmes, digam ao portador o que as pessoas honestas pensam destas justiças.

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*Publicado com autorização da Fundação José Saramago
http://www.josesaramago.org/
Texto extraído do blog O Caderno de Saramago
http://caderno.josesaramago.org/.
Postado originalmente em 25 de fevereiro, 2009.
A grafia é a de Portugal.

Foto de José Saramago (1922 - 2010) : Acervo da FJS

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A parte da orquídea

Jorge Adelar Finatto

A parte da beleza e da justiça que não se distribui, a parte do calor e da ternura que não se dá e nem se recebe, a parte dos sonhos extraviados na travessia, a parte do amor não vivido, essa é a parte da orquídea. 

O que ficará desse tempo seco e sem ar?

Levo no bornal o caderno de anotações, os lápis de cor, a caneta, o telescópio, o lampião, o impossível mapa e a máquina fotográfica pra descobrir a orquídea. 


Encho os olhos e o coração com suas cores, formas e raro aroma. No limite do penhasco, no velho tronco da beira do córrego, sob a sombra da densa nuvem, a orquídea respira e ilumina.

Orquídea, sim, orquídeas. 


 
O resto não importa. 

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Foto: J. Finatto