quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Construção

Jorge Adelar Finatto


Eu sou o que me construo
entre um apocalipse e outro
uma aurora e outra

Sou como essas partículas
de luz
que se expandem no espaço
flutuam nas alturas solitárias

Traço o poema
entre um abismo e outro
uma alegria e outra
e avanço
apesar do nevoeiro

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Poema do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.
Foto: J. Finatto

terça-feira, 9 de novembro de 2010

José e Pilar

Jorge Adelar Finatto


Uma perda irreparável o acabar de cada dia. 
José Saramago*

Assisti ao documentário José e Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes, que está sendo lançado no Brasil e em Portugal. O filme mostra como era o cotidiano dos últimos anos de vida do escritor e poeta português José Saramago ao lado de sua mulher, a jornalista espanhola Pilar Del Rio. Saramago morreu em 18 de junho passado, aos 87 anos, na ilha de Lanzarote, situada no arquipélago espanhol das Canárias, onde vivia. A filmagem estendeu-se por três anos.

A sinceridade e a abertura do escritor ao deixar-se mostrar na vida doméstica e no trabalho são tocantes. Não há pose, há o José Saramago inteiro, homem e cidadão.  Coisa rara nesses dias. Frases espontâneas, simples e profundas, comentários sobre a vida, a morte, os direitos humanos, a difícil situação do planeta, tudo ele compartilha com a naturalidade de quem conversa em volta da mesa. Aquele que nasceu de uma família muito  pobre, na aldeia de Azinhaga, e que consolidou uma carreira literária depois dos 50 anos, tem uma solidez de princípios, integridade e humanismo comparável à das rochas vulcânicas da ilha onde viveu.

O documentário capta o escritor em sua casa e viajando pelo mundo, dentro de aviões, aeroportos, hotéis, em sessões de autógrafo, conferências, entrevistas, homenagens e no dia-a-dia com Pilar Del Rio. Pilar não é apenas coadjuvante do primeiro Prêmio Nobel de Literatura de Língua Portuguesa (1998), é a companheira que trabalha incessantemente, com seu talento e suas ideias, interlocutora permanente. Impressiona o quanto o casal se amava e se completava, cada um com sua individualidade, ambos personalidades fortes.

De tudo que li e vi de Saramago, com o acréscimo deste excelente documentário, fica-me a impressão de que ele foi o escritor mais lúcido, solidário e comprometido com o lado humano que tivemos nas últimas décadas em todo o mundo.

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* Frase dita pelo escritor no documentário.
Foto: José e Pilar. Cena do filme. Divulgação.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Alberta de Montecalvino

Jorge Adelar Finatto



Veneza é o sonho de toda Colombina. Eu passei a vida em Passo dos Ausentes. O que é esse lugar? Um território perdido no vento. A neblina, o frio e a chuva povoam a cidade o ano inteiro. Habito com amargura e ironia esta estação de fim de mundo.

Casei-me aos 16 anos com Dom Alberto de Montecalvino, o Solitário da Biblioteca. Na época ele contava 69 anos. Desde aquele quando, passei a viver neste austero castelo de basalto e vidro. Hoje tenho 70 anos, sou deveras viúva e, às vezes, me perco nos salões da memória. As intermitências.

Daqui de cima, na larga janela da biblioteca, avisto o Contraforte dos Capuchinhos. Gosto muito dessa visão porque por ali é que se vai embora de Passo dos Ausentes. Mas nunca passei naquela estrada. Dom Alberto me pediu que jamais o fizesse. Os medos. Atendi o bom homem. Passaram-se os anos.

O muito amado do meu coração é Pedrolino. Dom Alberto sempre soube, suportou, era como um pai pra mim. O meigo Pedrolino. Amoroso e fiel. Seu amor é casto e resignado. Tem as delicadezas.

Arlequim é o senhor das labaredas. Inconstante e fútil. Nunca vem ao meu coração. Tem meu corpo, jamais minha alma. Com ele muito me rio, é engraçado, leviano. Incapaz de amar alguém além de si mesmo. Não tem sentimento.

O corpo tem fome e a fome seus apetites. Arlequim é malicioso, egoísta, por isso sabe agradar quando quer. Pedrolino é terno, quase um menino, vai direto ao assunto. Não conhece as sutilezas.

Quem pudera reunir, na mesma pessoa, as gratas virtudes. O mundo humano foi bordado imperfeito, eu sei. Tal felicidade ninguém merece.

Ambos os dois, Arlequim, o devasso, e Pedrolino, o amado, são a minha devoção. Cada qual no seu momento. Sou a Senhora da Biblioteca. Viúva mui constante em negras vestes de luto. Os respeitos a Dom Alberto. Tenho a minha idade. Cultivo as devoções, no discreto.

Não me julguem tão depressa. Poupem-me da vossa moral de almanaque. De metafísica e solidão o cemitério está cheio. Conheço os reveses. Eu vivo os enquantos.

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Foto: J.Finatto
Texto publicado no blog em 14/6/10.

Baltasar Garzón espera condenação por investigação de crimes do franquismo amnistiados*


O juiz espanhol Baltasar Garzón afirmou-se hoje convicto de que está a ser preparada uma sentença condenatória contra si, depois ter sido processado por prevaricação por querer investigar os crimes do franquismo amnistiados.

Garzón, 55 anos, disse no entanto que não se arrepende da iniciativa que tomou, apesar da mesma ter levado à suspensão das suas funções como magistrado da Audiência Nacional a 14 de Maio passado.

“O que quero é que esta situação transitória termine e que haja um resultado qualquer que ele seja, mas se me perguntar qual pode ser, claramente penso que o julgamento está já estabelecido e pré-determinado”, disse aos jornalistas, à margem do Estoril Film Festival, iniciativa na qual participa como convidado.

Questionado sobre qual será a decisão da justiça espanhola, respondeu: “Nesta altura é difícil pensar que não é uma sentença condenatória”.

“Não se chegaria até aqui se não fosse para um resultado desses”, considerou o juiz que se tornou conhecido por ter conseguido em 1998 a detenção do ex-ditador chileno Augusto Pinochet e lutou também contra a impunidade de crimes da ditadura argentina.

“Não posso arrepender-me daquilo que decidi em função da atividade judicial com análise das resoluções e das leis aplicadas ao caso, interpretando-as com o objetivo de investigar esse crimes e proteger as vítimas”, afirmou, sublinhando que atuou com base em queixas das associações de memória histórica e de vítimas particulares e seguindo o procedimento que tinha tomado em casos similares.

Baltasar Garzón defendeu que é importante que a investigação se faça e lembrou que as queixas contra si partiram de grupos da extrema-direita espanhola.

“Essa investigação é necessária, é conveniente e pode ser defendida legalmente”, disse, acrescentando que, com base na lei interna (espanhola) e na própria legislação internacional sobre direitos humanos e em resoluções dos tribunais internacionais, “é verdadeiramente difícil assumir que se tenha cometido um delito”, ao fazer a interpretação que fez.

O juiz manifestou-se desejoso de que haja uma decisão, embora ainda não tenha sido apontada qualquer data para uma decisão do Supremo Tribunal de Espanha, onde o caso está a ser apreciado.

Aos jornalistas, Baltasar Garzón não deixou de notar que, numa primeira fase, até à sua suspensão de funções da Audiência Nacional a tramitação do processo avançou “de forma rápida ou normal” e desde então isso não tem acontecido.

“Ninguém gosta de estar sentado no banco dos réus”, respondeu o juiz em resposta a uma pergunta sobre como se vê nessa situação, mas sublinhou que a acusação foi feita “por defender uma interpretação da lei, por defender a investigação de crimes que têm a categoria de crimes contra a humanidade” e considerando que “é uma vergonha para Espanha que não se investiguem estes crimes”.

O ‘super juiz’, como é muitas vezes designado, está actualmente como consultor no Tribunal Penal Internacional (TPI), funções que exercerá até Dezembro e não sabe se continuará.

“Em princípio o período (de funções no TPI) ficará concluído em Dezembro. Não estou a pensar fazê-lo (continuar), mas se me pedirem ficarei com gosto, porque o trabalho é interessante e há muitos casos abertos nos quais estou a trabalhar como consultor e estaria interessado em acompanhá-los”, afirmou o juiz, sem desvendar o que pensa fazer no futuro.

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*Notícia extraída do site da Fundação José Saramago em 7/11/2010
http://www.josesaramago.org/  


Fonte: publico.pt

A grafia é a de Portugal.

Cláudio Accurso na Feira do Livro

Jorge Adelar Finatto

No país desigual que temos, os saberes em
ciências sociais estiveram presentes em sua modelagem ou servem apenas para explicá-lo?

Essa frase de Cláudio Accurso nos dá uma ideia do percuciente caminho que percorreu na elaboração de Aportes de Desenvolvimento Econômico, obra que autografará nesta segunda-feira, às 15h30min, na Feira do Livro de Porto Alegre.

Economista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Accurso não se limita ao domínio exemplar da técnica do seu metiê. Vai muito além, a bordo do substrato humanista que impregna o saber científico. Leva-nos a pensar com sentimento, provando, uma vez mais, que não existe sabedoria longe do coração.
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Lançamento da Editora da UFRGS, IEPE e Centro de Estudos e Pesquisas Econômicas da universidade federal.

sábado, 6 de novembro de 2010

O coração da neblina

Jorge Adelar Finatto


Um vasto silêncio. O viajante entrou na fotografia. Atravessou para o outro lado. Caminhou na névoa como se andasse dentro de si mesmo.  Pisou na grama a esmo, interiorizou-se na paisagem em busca de algo, talvez de alguém que um dia ele foi e se perdeu.  Aqui fora, só o que vê são vultos ao redor. Não vislumbra mais rostos como antigamente, não sente o seu coração nem o das pessoas batendo.  Agora quando acorda tudo lhe parece estranho. O espelho mostra uma face sem expressão, uma boca onde a palavra já não habita. Há um banco solitário na praça vazia desse olhar. Esse olhar de nuvens. A tarde caiu no interior do retrato.  Ficou frio. Ele deitou e dormiu embaixo de uma árvore com o casaco por cima como fez uma vez aos 20 anos. Está feliz naquele lugar como há muito não acontecia.  Está sozinho, mas se sente inteiro. Não entende como a vida foi escurecendo dentro dele. Invadiu a fotografia tentando se afastar do labirinto e se encontrar. Um vento leve e úmido bate-lhe na cara. Por enquanto ele pode ficar ali, longe de tudo, distante do mundo. Ninguém vai procurá-lo naquele território ausente. Mais tarde, só mais tarde, retornará. Quem sabe reencontrará a palavra e o sol na saída do retrato.

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Foto: J. Finatto

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Os desolados

Jorge Adelar Finatto



As manhãs fogem do escuro. A solidão é um negro capuz que se veste nos retirados da dor.

Tive medo de ver os escombros. Os difíceis haveres do abandono. Havia uma mulher chorando. Quem? Não divulguei.

O coração humano gira em tristes moinhos. O traçado torto da vida. Quem puder se segure, senão cai no perau. Eu, quando escuto gente chorando, sinto breu andando à volta.

Coisas que vi. Meu coração barroco. Aquele choro me doeu. Mas eu fui. Foi quando meus olhos a divulgaram. A mulher era uma visão sob a pérgula. Eu não sabia o que era beleza até aquele dia. Estava sentada num banco de pedra cercado de camélias vermelhas, ao lado da fonte. Havia uma escada com seis degraus que terminava no ar. Ligava parte alguma a lugar nenhum. A casa desmoronada no íntimo da pessoa.

A mulher, sua tristeza na alma, aquela ruína. Me aproximei no cuidadoso jeito. Era uma tarde de junho como essa. E fria, fria. A mulher - a visão - fez sinal para eu parar e esperar. O que fiz nos respeitos. Ela se levantou, arrumou o vestido, olhou o céu. Entre as duas mãos largou a face e os cabelos de linho, depois seguiu. O tempo varou a vida.

Eu vivia no lugar perdido, arrostando sol e vento, sem eira, sem beira. Os loucos dias no sanatório do mundo. Os ermos. Caminhos que se andam.

Um dia de fina luz de primavera ela veio em minha direção, pegou no braço meu. Caminhou, caminhamos. Em silêncio. Palavras que se dizem sem falar. Aconteceu a brilhante estrela caindo no meu caminho.

O punhal que me rasgava por dentro foi saindo, saiu.

Nos acolhemos, reunimos as raras pertenças.

Me tornei sentimento. Sentimentos.

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Foto: J. Finatto
Texto publicado no blog em 03/5/2010.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Primavera 54

Jorge Adelar Finatto


O vento vai para o sul e faz o giro para o norte. Gira e gira continuamente em volta, e o vento retorna logo aos seus giros. Eclesiastes 1:6

Todos os dias são santos, todas as horas são as últimas. A santidade de cada instante, o milagre de existir, a utopia da felicidade, em meio às nossas imperfeições, levam a agradecer cada dia recebido.

Atendendo pedido dos queridos Niamara Pessoa Ribeiro e Cláudio Accurso, dois intelectuais que engrandecem nosso meio, publico os textos que remeteram. 

Vivo a urgência de um tempo em que não posso me permitir os excessos da vaidade, mas tampouco o desperdício do carinho dos amigos. Colho estas manifestações com humildade e profunda gratidão.

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Niamara Pessoa Ribeiro (Graduada em Letras e Especialista em Teoria Literária):  Rogo-lhe a gentileza de possibilitar que este texto se torne de conhecimento de seus leitores, especialmente nesta semana em que se comemora o seu aniversário. Quero cumprimentá-lo por muitos motivos, dos quais destaco os seguintes.
 
O senhor surpreende positivamente: integra uma plêiade de perfis nobremente poliédricos que cintilam em todos os aspectos pelos quais possam ser analisados. 
  
Eu o conheci inicialmente como Magistrado: além de íntegro, megacumpridor do dever, respeitoso com colegas e superiores, igualmente concedeu sincera consideração a seus subordinados.  Poucos sabem falar até com o mais humilde dos servidores mantendo o mesmo trato com que  se dirigem aos hierarquicamente iguais ou superiores. Ou seja: o senhor se relaciona com o valor das pessoas, não com a importância dos seus cargos.

Também o conheci integrado ao ambiente familiar, bastando dizer que a visão de uma família como a que o senhor construiu nos faz acreditar cada vez mais nessa instituição. 

Após, também o conheci como Poeta maior, desses que sobrevivem ao avassalador cotidiano. Lembro-me dos mineiros que trabalham na profundidade do solo, sob montanhas de terra: estão os magistrados sufocados sob toneladas de papéis. Dos que são extraordinariamente sensíveis como o senhor, com sensibilidade de alto quilate, poucos conseguem trazer à superfície seu talento incólume, poucos sobrevivem com o olhar criador, eis que a profissão os seduz a se tornarem analíticos, frios ao pegarem a caneta.

Sei da importância de o senhor ser Magistrado, sei o quanto de intelectualidade e imparcialidade é requerido para a vitória nesse terreno. Sim, eu o admiro por isso. Muito mais, porém, eu o admiro como escritor, literato, primoroso Fazedor de Auroras. Explico: o senhor "estava" Magistrado, mas o senhor "é" Poeta. Há os bancos escolares, os diplomas e um universo que "fazem" o bacharel... tanto o bom quanto o menos... mas não fazem o artista. O verdadeiro talento não se compra... não se finda... não se desaprende...
              
Cumprimento pelo aniversário não um, mas  todos os Finatto:  o Poeta, o Jornalista, o Magistrado, o Amigo, enfim,  aquele que, também nesta página virtual, comprova ter erudição (grande porque acrescida de sabedoria), inspiração (elevada e traduzida em permanente criatividade), informação (confiável porque acompanhada de profundidade). Características acessadas somente após muita estrada e vitorioso aperfeiçoamento espiritual.

Feliz Aniversário e um abraço da Niamara Pessoa Ribeiro.  

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Cláudio Accurso (Economista e Professor Universitário): Fico feliz por encontrar no senhor uma pessoa que se preocupa com as desventuras do homem nessa passagem pela terra. E o faz como cidadão crítico de um mundo que tem tudo para ser melhor para todos e como intelectual e poeta com capacidade de perscrutar o oculto, nele descobrindo o belo e o potencial de beleza na alma de cada um, às vezes adormecidos pelas agruras do dia a dia. 
 
Sua manifestação literária, uma vez introjetada, pode despertar potencialidades para um acontecer mais harmônico e mais realizador, ou pelo menos com mais esperanças para os que já não sonham ou mais risonho para os que já não riem.

Um abraço do Cláudio Accurso.

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Foto: J. Finatto

domingo, 31 de outubro de 2010

Drummond 108

Jorge Adelar Finatto


A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.*

31 de outubro, 1902. Itabira do Mato Dentro, Minas Gerais. Nessa data e nesse lugar nasceu Carlos Drummond de Andrade. Vivo estivesse, completaria hoje 108 anos. Sinto saudade do poeta como de um irmão mais velho. São dessa ordem as afinidades literárias que se transformam em afeto, respeito e falta.

Morto aos 84 anos, em 17 de agosto de 1987, 12 dias depois da morte da única filha Maria Julieta, escritora, Carlos foi  - e é - um dos nomes mais importantes da poesia em língua portuguesa.

Notabilizou-se, também, como cronista e contista refinado, que conseguia fazer uma leitura solar dos acontecimentos e dos não-acontecimentos. A poderosa lente com que mirava a realidade e a observação aguda da vida tornavam seus textos semanais, em jornal, leitura indispensável.

Enxergava como poucos nossas qualidades e defeitos, nutria  uma irredutível esperança na existência, mesmo desiludido. O bom humor é outro traço marcante de sua visão de mundo.

O humanismo da expressão, em Drummond, sempre foi fonte de revelação e consolo. O poeta nos toca e nos ajuda a viver.  Amoroso e lúcido, o texto nunca lhe sai indiferente ao destino humano.

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?**

É nessa vida prolongada da palavra escrita que podemos ter o poeta conosco. Convivente, irmão.
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*Trecho do poema Consolo na Praia, da Antologia Poética de Carlos Drummond de Andrade, Editora Abril, São Paulo, 1982.
**Trecho do poema Amar, idem.
Foto do poeta copiada do site www.carlosdrummonddeandrade.com.br

Mais sobre CDA no post de 11/4/10.

sábado, 30 de outubro de 2010

A fala do Arlequim

Jorge Adelar Finatto


Querer eu quero, e o querer é tudo. Cumpro os regulamentos do invisível. De silêncio em silêncio, as difíceis passagens. Eu sinto no calado. Os comedimentos. A pessoa sonhada tem certos jeitos. De não se deixar ver, nem tocar, nem sentir, nem sonhar. Os caprichos do ser amado.

As magnólias me doem no inverno de tão belas. Eu lírico. Os tormentos do amador. A musa é do tipo nem aí. Nem sabe de mim.

Arlequim ao relento eu sou. Os rigores da lira. Vivo no austero. Sinto no meu segredo. Amador. Ela não me vê. Eu a vejo. A musa é só o motivo. Eu sou o seu adamastor.

O que dorme no banco da praça. O que mora dentro do casaco e da manta. O do chapéu ridículo. O que fala algaravias no café. O que não suporta gritos. O que senta no cais a olhar as faluas.

Caminho nos meus penhascos. Ruínas são coisas que habitam no íntimo da pessoa. O que se fala e o outro não entende. Um diz aurora, a musa entende anoitecer. As palavras, tonterias.

Sentimento é o ora-veja da vida. Cultivo distância, alimento paciência.

O ser sonhado tem certos olhares. A musa vive num jardim secreto que eu mesmo inventei. A trança de linho desce pelo muro escarpado do castelo. Eu romântico. A vida gira nos esconsos. Os trapos coloridos do meu coração ao vento.

Amador, amador.

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Foto: J.Finatto. Cena veneziana.
Texto publicado no blog em 12/05/10.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Viagens da memória

Ricardo Mainieri



Sou refém das engrenagens que movimentam a existência cotidiana. Poderosas, elas me levam e trazem, sem consulta. Enredam-me em pensamentos e situações, por vezes, sem controle. Ultimamente, como tenho sido bem-comportado, ganhei o direito de retroceder no tempo.

Posso escolher época e local. Nesta era de pouca criatividade, sugiro Porto Alegre, metade da década de setenta.

Pronto, estou de volta. A cidade reaparece em seu ritmo monótono, pano de fundo um som marcial. Entendo, estamos atravessando o que alguns chamam de “ditabranda”. Eu prefiro pensar que ela teve outra textura...

O sol brilha forte na tarde defronte ao rio. Domingo. Carrego um radinho de pilhas onde o locutor narra uma partida de futebol. Não contenho uma risada interior, penso: quanta precariedade.

Eu que conheci computadores, IPODs, MP3, televisão a cabo. Agora, me vejo resumido a um aparelho rudimentar, quem nem pilhas alcalinas aceita...

Volto ao meu equipamento. Imagino, pela voz, um senhor sisudo, de bigodes aparados. Ele fala palavras que desconheço como escrete, beque, córner, guarda-valas. Sua impostação carrega algo de formalidade.

Entremeado à narrativa, ele chama os patrocinadores. Desfilam pela memória finadas empresas. O poderoso Magazine Mesbla, J. H. Santos e suas barbadíssimas, os sanduíches da lanchonete Ribs e tantas coisas que já havia deletado.

Desligo o aparelho. Ainda posso ouvir a intervenção da reportagem que fala de um ferido conduzido ao nosocômio da municipalidade. Num fôlego, o locutor emenda com um convite de enterro ressaltando que o féretro sairá da Capela D, do Cemitério situado na Colina Melancólica. É demais!

Subitamente, sou puxado de volta aos tempos de agora. Aterriso meio desequilibrado.Quase sou atropelado, ufa!

Não sei se choro ou se sorrio.

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Ricardo Mainieri é escritor e poeta. 
Autor do blog mainieri´s: 
http://mainieri.blogspot.com/

Foto: Os barcos e a cidade. Porto Alegre. J. Finatto

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Em alguma parte alguma, novo livro de Ferreira Gullar

Jorge Adelar Finatto


Que a sorte me livre do mercado
e que me deixe
continuar fazendo (sem o saber)
                 fora de esquema
                 meu poema
inesperado*

Vinicius de Moraes afirmou certa vez, com o crédito que lhe confere a  notável obra poética que nos legou, que "Gullar é o último grande poeta brasileiro". A assertiva carrega algum exagero natural resultante da  admiração do observador diante de uma rara descoberta. Como aquele colecionador de borboletas que, num belo dia, encontra, no bosque, o exemplar único, de transcendente beleza, até então escondido.

Se Vinicius disse último querendo referir-se ao mais recente (naquele momento), aí fica o dito por não dito.

Ferreira Gullar não será, provavelmente, o último grande poeta brasileiro. Esperamos que outros de igual valor venham a  iluminar a nossa literatura. Mas é, com o mérito que o talento,  o esforço e o tempo lhe atribuem, sem nenhum exagero, um dos grandes autores de poemas de todos os tempos.

Não apenas pela obra poética em sentido estrito. Há rigor de pensamento, sensibilidade e engenho na obra em prosa do escritor, a desafiar limites entre poesia e texto discursivo.

Estou lendo o seu recém-lançado Em alguma parte alguma. Nos últimos anos, toda vez que compro um livro de poesia o faço com o coração cheio de angústia, porque está cada vez mais difícil encontrar poesia nos livros de poesia. É impressionante como a poesia fugiu dos livros de poemas.

Há muito tempo não lia um livro novo com essa emoção. Está ali a poesia a salvo e renovada, vivente em poemas longamente aguardados e trabalhados. Gullar publica Em alguma parte alguma onze anos após o lançamento do livro anterior, Muitas vozes. Não perdemos por esperar, fez bem o poeta em seu prolongado retiro. Nos entrega textos finamente elaborados, que revelam intensa capacidade inventiva, onde a criação se manifesta em belos, seguros, altos e inovadores voos de formas e sentidos.

Faz bem o poeta em não nos privar de sua grande poesia, que é pura partilha de algo que agora nos pertence. Eu, que considerava o Poema Sujo o ponto mais elevado da obra de Ferreira Gullar, não tenho mais essa certeza.  Acredito que estamos diante de uma outra obra-prima do poeta. Perdi a conta dos versos que sublinhei. Felizes somos nós que podemos lê-lo em português, porque, não tenhamos dúvida, não se trata apenas de um livro brasileiro, mas um acontecimento universal. O poema Rainer Maria Rilke e a morte vale por uma estante inteira de poesia, e este é apenas um entre tantos.

Sobre este novo Gullar (80 anos completados em 10 de setembro passado), os entendidos ainda dirão muitas coisas. Diante do que li, tenho isto a dizer: assombro.

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*Primeiros versos do poema Off Price, do livro Em alguma parte alguma, Ferreira Gullar, Editora José Olympio, Rio de Janeiro, 2010.
Foto da capa do livro: site da Livraria Cultura: www.livrariacultura.com.br

Mais sobre Ferreira Gullar no post de 10/set/2010.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O segredo das águas

Jorge Adelar Finatto


O planeta girava em lentos círculos. Aquela rua de chão batido era um grão à deriva no universo. Em certas noites geladas de junho, a conversa avançava pela madrugada. Na cozinha, em volta do fogão a lenha que ardia, cada um contava uma história, um caso real ou inventado. As notícias eram poucas. O rádio, quando pegava alguma estação, fazia  zumbido de mil abelhas. A luz elétrica de tão fraca era de um laranja escuro. O menino tinha  vindo ao mundo há cinco, seis anos. Estava vivo contra todas as expectativas devido à saúde frágil. Era bom adormecer ouvindo vozes na velha casa de madeira de pinheiro. Era bom fazer parte daquele retrato perdido no tempo.  Era uma dádiva estar vivo no labirinto. Riscos de estrelas atravessavam o céu, caíam num lugar misterioso ali perto. Sobreviventes na longa noite austral, as pessoas observavam a geada encobrindo a escuridão lá fora. Águas subterrâneas corriam limpas debaixo das casas, afloravam nos poços, encanamentos, regavam secos sentimentos, derrubavam muros de ódio, lavavam a sujeira dos corpos, das almas. Para onde foram aquelas vozes? - pergunta o coração do menino - para onde correram aquelas águas?

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Foto: J. Finatto

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A biblioteca particular de Fernando Pessoa digitalizada


 Nota Prévia*
Jerónimo Pizarro


Dar visibilidade virtual à biblioteca particular de Fernando Pessoa foi o objectivo de uma iniciativa colectiva que começou em Abril de 2008 e que hoje permite disponibilizar em linha milhares de páginas impressas, muitas das quais contêm anotações, comentários, traduções e outros diversos tipos de textos em prosa e em verso, para além de desenhos, horóscopos e exercícios caligráficos. Estas páginas, que em número quadruplicam o número de autógrafos pessoanos à guarda da Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), são decisivas para revisitar a vida e a obra de Fernando Pessoa. A sua biblioteca, composta por mais de 1300 títulos (mais da metade deles em língua inglesa), é um autêntico repertório de fontes e de escritos. Por este e por outros motivos, o seu valor é inestimável. No poema «Un lector», Jorge Luis Borges escreveu: «Que otros se jacten de las páginas que han escrito; | a mí me enorgullecen las que he leído». Que leu Pessoa? Com que propósitos? Estas são só algumas das perguntas que agora se podem começar a formular com mais assiduidade.

Salienta-se que esta biblioteca, albergada na sua grande maioria na Casa Fernando Pessoa (1058 títulos), não conta com todos os exemplares que alguma vez dela fizeram parte; parcelas da mesma estão ainda com a família do escritor e no espólio número 3 da BNP. Mas neste site é possível percorrê-la na sua quase totalidade e descobrir por que razões constitui um objecto de estudo privilegiado; a este respeito, pode ser útil a consulta da revista Portuguese Studies, vol. 24, n.º 2, 2008; do livro Fernando Pessoa: o guardador de papéis, Texto Editores, 2009; e, claro, do volume A Biblioteca Particular de Fernando Pessoa, D. Quixote, 2010. Para ter uma visão rápida de certos exemplares que se optou por destacar, basta visitar Anotações, Assinaturas, Dedicatórias e Selos.

A digitalização da biblioteca foi realizada no âmbito de colaboração protocolada entre a Casa Fernando Pessoa e o Centro de Linguística da Universidade de Lisboa. Agradeço a Inês Pedrosa, directora da Casa, pelo seu apoio, visão e entusiasmo, e a todos os investigadores que, ao longo deste projecto, disponibilizaram o seu tempo para fotografar, página a página, os livros que hoje compõem esta nova biblioteca digital. Dos investigadores destaco Patricio Ferrari e Antonio Cardiello, com quem coordenamos o projecto, e a todos aqueles que participaram de maneira mais empenhada e até à última sessão: Liliana Navarra, Mário Fernando da Silva Costa e Maria Manuel Denis Lages, e nas semanas finais, Jorge Uribe e Fabrizio Boscaglia. Outros nomes e informações figuram na ficha técnica.

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* Fonte: site da Casa Fernando Pessoa
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt
www.mundopessoa.blogs.sapo.pt

Foto: Fernando Pessoa. Acervo da CFP.

A grafia é a de Portugal. 

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Bez Batti, o homem que tira sentimento de pedra

Jorge Adelar Finatto


Bez Batti, o grande escultor brasileiro de pedra basalto, é senhor de um talento e de um humanismo que o colocam entre os principais criadores da atualidade no mundo.


Deus está no seixo como está no homem, na nuvem, no vento, no peixe.




O ser humano pode conversar com pedras. É possível desvelar emoção adormecida na densa concentração de matéria.

À luz da obra escultória de João Bez Batti Filho, as pedras são seres vivos.

As esculturas de basalto do artista conversam com o observador, fazem pensar e comunicam sentimento. São seres falantes que pulsam e querem partilhar beleza. Transcendem a condição de coisa vulcânica, arrepiam-nos ao leve toque.



São rochas que, antes de tornarem-se esculturas e adquirirem vida, dormiam como qualquer outra em remota obscuridade. Agora que nasceram e respiram, têm histórias para contar, e nos contam.

A visão desses objetos de criação nos leva a algumas considerações.

Existem memória e mistério ocultos na profundeza da pedra.

A emoção habita o álgido coração da rocha.

A vida é breve, o basalto é eterno

Uma secreta linguagem irmana Bez Batti e as pedras.

O trabalho paciente do escultor demanda força física para o duro enfrentamento. Com inspiração, ideias claras e perseverança, ele extrai raras revelações.

Ouçamos o que diz Ferreira Gullar: "Em arte, todo fazer é uma aventura imprevisível. Por isso, como o basalto é duro, e o risco, maior, Bez Batti, antes de atacá-lo, desenha a forma que pretende esculpir. Mas com isso não exclui de todo o imprevisível que nasce da resistência da pedra à ação que a agride, embate em que se misturam a sabedoria adquirida pelo escultor e a aceitação do acaso que se infiltra em sua ação".¹

O basalto é a terceira rocha mais dura que há na natureza. Origina-se de antiquíssimos derramamentos vulcânicos.


Egípcios, sumérios e pré-colombianos estão entre os poucos povos que se aventuraram a trabalhar com gravação e escultura em basalto.

O irmão rio

Bez Batti dialoga com as pedras desde a infância, na beira do Rio Taquari, no Rio Grande do Sul, onde vivia com a família.

O menino saía em solitárias caminhadas pela beira do rio (que é uma continuação do Rio das Antas), indo ao encontro dos seixos em suas margens e leito. Atravessava escarpas, sumia na sombra frondosa do arvoredo sobre a correnteza azul.

Nascido em Venâncio Aires (RS) em novembro de 1940, Bez Batti (tem o mesmo nome do pai, um imigrante italiano severo e trabalhador) um dia mudou-se para Bento Gonçalves. Fixou ateliê e residência na Linha São Pedro, numa casa de basalto com mais de cem anos, que faz parte dos Caminhos de Pedra, itinerário cultural onde se documenta a história da imigração italiana.





Desde então nunca ficou muito tempo longe do Rio das Antas. E quer que suas cinzas sejam espalhadas sobre as águas no dia em que morrer.

O Rio das Antas, essa criatura murmurante que caminha pela Serra do Rio Grande do Sul desde o início dos tempos.

O rio e seu ambiente ocupam o centro das preocupações ecológicas de Bez Batti. Há alguns anos administradores públicos vêm ali desenvolvendo projetos de engenharia, envolvendo represamento de águas e instalação de usina elétrica. Estas obras estão alterando a conformação do leito, submergindo áreas onde antes se podiam ver corredeiras, cristalinos lajeados entre as encostas verdes da mata. O rio escorrendo sobre o basalto.

De tanto conversar com as pedras e as águas, Bez Batti ganhou-lhes a confiança. Tornaram-se conviventes.

Os pequenos seixos e os altos penedos confidenciam-lhe coisas.

Falam de um tempo ancestral em que o Rio das Antas era um lugar povoado de claridade. Nele homens, bichos, plantas e pedras viviam em harmonia. Entendiam-se através da língua da intuição, do toque, do olhar demorado, da conversa, do respeito.

As esculturas do artista nos remetem ao encantamento de formas silenciosas, poéticas, sensuais. As saliências e concavidades nos levam à aurora da criação do mundo.

A arte africana toca o escultor muito de perto. Também marcam sua sensibilidade artistas como Pablo Picasso, Amedeo Modigliani, Constantin Brancusi, Henry Moore, e a arte antiga.

Basalto sanguíneo e o Arroio Tega

Em suas longas caminhadas pela natureza (ele não dirige, alguém o leva até os lugares de observação, pesquisa e meditação), descobriu novas faces, formas e cores do basalto. Segundo afirma, Caxias do Sul está erguida sobre uma das mais impressionantes províncias minerais de basalto que se tem conhecimento. Provavelmente não existe outra região com essa característica.



Além do basalto cinza, o mais comum de todos, ali se encontram inusitadas rochas de cor verde, verde-oliva, cacau, negra, rosa.

O basalto sanguíneo é resultado da persistente procura de Bez Batti. Identificou-o pela primeira vez no leito do Arroio Tega, que atravessa Caxias do Sul. Uma pedra tão bela quanto rara. O escultor acredita que, pelas evidências que colheu até hoje, o sanguíneo só existe no leito do Tega.

O encantador de pedras

Bez Batti é este artista que ousou abrir portas para uma maneira diferente de fazer escultura. Pagou um alto preço por isso. O caminho foi duro como um paredão de basalto.

Onde só havia rigidez mineral e o peso abissal da noite de milênios ele encontrou delicadeza e sentido.

Só um homem obstinado pela vida e pela beleza, absolutamente devotado à sua arte, poderia atingir os resultados que Bez Batti alcançou. Isto depois de enfrentar todas as incompreensões, limitações materiais e espirituais que o nosso meio costuma impor àqueles que se arriscam pelos caminhos da arte e da sensibilidade.




Ele nos mostra que existe beleza em estado bruto, esperando quem a desvele. E comprova, com seu ofício, que é preciso trabalhar muito para merecer o belo.

O senhor das pedras é também o homem da fé inabalável no trabalho. Nunca esperou apoios e estímulos, infelizmente quase inexistentes.

Construiu com as mãos uma arte inaugural.

Um encantador de pedras, ele diz que gostaria de ser (e é).

Bez Batti consegue extrair claridade do elemento mais primitivo que existe na natureza.

O que acontece com as rochas nos interstícios, nos poucos momentos de descanso do escultor? Elas se calam, retornam ao estado inanimado, por falta de seu poeta.

A arte, caminho para a iluminação

O que será o trabalho de uma vida senão esse lapidar constante sobre nossas imperfeições?

Ninguém nunca está completo. Ninguém é um bom ser humano por acaso.

Há que pegar o cinzel e reconstruir o homem e a mulher. É preciso reinventar a vida.

Sim, de toscas pedras podem brotar preciosos pássaros, plantas, frutos, cabeças humanas, torsos, semblantes, nichos, naturezas vivas, maternidades, segredos, tartarugas, peixes, rios, abstratos jardins.



Das mãos e da obstinação de Bez Batti nasce a maravilha. 

Até Bez Batti ir viver na beira do rio, ninguém conversava assim com os seixos e as rochas. Ninguém saía a andar pelo mundo armado apenas com o coração e a força do invencível cinzel.

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1. Uma poética do basalto. Texto de Ferreira Gullar no livro Bez Batti - Esculturas, do Instituto Moreira Salles, São Paulo, outubro de 2006.

2. Crédito das imagens:  1 - A foto de Bez Batti é de autoria de Ricardo Chaves. 2 - As fotos das esculturas são de Valdir Ben, que acompanha o escultor há mais de trinta anos; algumas delas estão publicadas no portal Artista Net.   


Texto publicado neste blog em 29/01/10.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O coração todo errado ou a coisa dolorida

Jorge Adelar Finatto


Nas manhãs de sábado, ele costuma ficar sentado perto da janela da sala do apartamento, tomando mate e lendo alguma coisa, como agora. Não olha pra nada em especial lá fora, não há o que ver,  só edifícios com gente sozinha dentro. Peixes vivendo no aquário. Começa a chover. Ele fecha o vidro.
 
Faz dois anos que ela foi embora, numa manhã assim.  Disse que não queria chegar aos 30 ao lado do cara errado. O cara errado. O último café juntos. Não consegue esquecer. Será talvez um número mágico, um prêmio de loteria, a pessoa certa?

Ficou esse frio no coração. A coisa dolorida. Antes de fechar a porta,  ela pediu que  ele cuidasse dos peixes. Havia comprado o aquário antes de se conhecerem. Qualquer dia volto pra buscar, ela falou, tchau. 


Às vezes ele olha os dois peixinhos de perto. Eles mexem a boca como se dessem beijos junto ao vidro. Ele percebe nos seus olhos o mesmo vazio de quando se vê no espelho.

O apartamento ficou grande demais para os três. Se ao menos o telefone tocasse.

O coração todo errado.

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Foto: J. Finatto sobre ilustração de Maria Machiavelli.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A volta do barco de papel

Jorge Adelar Finatto


Saí a navegar no meu barco de papel pra esquecer o mundo.

Eu, quando quero dar férias à realidade, entro no barco colorido e parto em viagem pelo Guaíba.

Dessa vez reforcei a embarcação. Tomei uma folha de papel mais resistente à intempérie, fixei melhor as dobras. Levantei mais a vela. Na parte interna, coloquei utensílios mais leves.

Um forte vento sul, porém, apanhou o barco no meio do rio. Agitou as águas de tal modo que as ondas começaram a jogar o barco pra cima. O pior era a queda livre na volta. O corpo ficou todo dolorido.

Pra piorar a situação, desabou uma tempestade.

Frágil, o barquinho foi se desmanchando. A vela foi a primeira peça a ruir.

Filipo, o papagaio que me acompanha nas navegações, achou que daquela não escaparíamos.

- Vamos morrer, capitán!

- Tenha fé, nobre Filipo -, disse-lhe eu. Não desanimemos numa hora dessas, amigo. As nuvens más haverão de dissipar-se.

O peixinho Moisés, nosso companheiro de aventuras, nadava aflito ao lado do pequeno veleiro.

Quando o barquinho, enfim, se transformou numa pasta branca de papel, eu respirei fundo antes de afundar no Guaíba.

Mas não era dia de morrer.

A ventania, na sua fúria, nos empurrara pra perto da margem.

Ao cair no rio, a água bateu na altura da cintura. Filipo, que estava encolhido e agarrado no meu esquerdo ombro, gritou animado:

- Conseguimos, capitán!

Moisés respirou aliviado, deu um salto de felicidade e voltou para o interior do rio.

A navegação em barco de papel é uma arte.

Como toda arte, tem sua ciência e seus segredos.

O que é preciso pra navegar desse jeito? Bem pouca coisa.

Uma folha branca, lápis de cor, imaginação e um coração quase feliz

 
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Imagem e foto: J. Finatto 
Publicado neste blog em 23/03/10.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Melodia sentimental

Juan Niebla


Sou cego e toco bandoneón na estação de trem abandonada de Passo dos Ausentes. Escrevo essas linhas pelas mãos do amigo Nefelindo Acquaviva. Tinha quinze anos, em 1950, quando fui nomeado músico oficial da estação, é um cargo público. Pouco tempo depois de começar o ofício, acabaram com os trens. Jamais deixei de tocar meu instrumento. Um dia pode ser que a ferrovia volte e eu vou estar aqui para receber os passageiros com minha música.  

Esta é uma cidade perdida nos Campos de Cima do Esquecimento. Como os leitores do blog sabem, sequer no mapa do Rio Grande do Sul nós figuramos. Somos um mistério a 1800 metros de altitude. Passamos 300 dias do ano envoltos na neblina, no frio e sob os rigores da chuva. Nos 65 dias restantes, neva.

A música espalhou claridade dentro de mim e ao meu redor. Vivo nas brumas desde os seis anos de idade.  As melodias têm sido a minha salvação. A presença e o afeto dos amigos são meu refúgio. Faço dois concertos por semana na estação, às terças e sextas, no fim da tarde. Acquaviva inaugurou um café na antiga gare, ficou um ambiente muito agradável.

Recebi um inesquecível presente do Cavaleiro da Bandana Escarlate. Trata-se do cd Melodia Sentimental, de Gilson Peranzzetta e Mauro Senise, com participação de Silvia Braga.  Esse disco tem sido meu encanto e meu consolo nesses inícios de primavera, quando os ventos sopram loucamente em todas as direções, deixando os habitantes da cidade um tanto deslembrados e aflitos.

A música de Peranzzetta - piano e arranjos - e Senise - sax alto, soprano e flauta - é inaugural. É como sentar na beira do córrego e ouvir a doce e estranha melodia da fundação do mundo. Como quando fico só na estação vazia, escutando o vento que vem pela grande curva da chegada dos trilhos.

A participação de Silvia Braga com sua harpa é um passeio pelo inefável, herança que algum anjo nos deixou quando passou pela Terra.

Música instrumental de fina origem, esse cd, editado pela Biscoito Fino, nos proporciona encontros sublimes com Villa-Lobos, Gabriel Fauré, Claude Debussy, Bach, Jobim e outros do mesmo nível. Não me canso de ouvir esse belo e emocionante trabalho.

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Foto: Peranzzetta, Silvia Braga e Senise (direita). Por Ana Luísa Marinho, divulgação.

Notícias de Passo dos Ausentes nos posts de 24/9/10, 9/9/10, 25/6/10.

domingo, 17 de outubro de 2010

O Tega

Jorge Adelar Finatto


O arroio Tega
era um som
um toque
um fio ligeiro
de água limpa
escorrendo mundo afora
no fundo das casas
da gente humilde

certo dia
emparedaram
o Tega

um pedaço
da minha vida
afundou junto

agora flui invisível
no subterrâneo

carrega na sombra
as tardes que se foram
perdidos barcos de papel
os sonhos do menino

em rumo cego
segue o velho Tega

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Poema do livro Memorial da vida breve, Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.
Foto: J. Finatto

sábado, 16 de outubro de 2010

Lições do deserto

Jorge Adelar Finatto



O resgate de 33 mineiros do fundo de uma mina, a 700 metros de profundidade, no deserto de Atacama, no Chile, mostrou ao mundo, e a cada um de nós, o que podem a boa vontade, a união e a fé das pessoas. Dos 69 dias que passaram lá embaixo, 17 deles foram incomunicáveis. Na escuridão completa ou  na semiescuridão, durante todo o período, encerrado no último dia 13 de outubro, os mineiros nos deram uma demonstração de solidariedade, de crença em algo melhor, de obstinada determinação em seguir vivendo, contra toda adversidade.

Quantas vezes nos sentimos irremediavelmente solitários, incapazes de mudar qualquer coisa ao nosso redor e em nossas vidas? Pois aqueles 33 homens do povo - não havia nenhum com pós-graduação, mestrado, doutorado ou pós-doutorado - nos ensinaram coisas esquecidas em tempos de louco egoísmo, consumo, cinismo e total falta de limites na busca de bens materiais e do prazer a qualquer preço.

Havia vários tipos humanos no interior daquele terrível poço. Líderes com incrível capacidade de lidar com a crise, indivíduos amorosos com a família e com os amigos, alguns religiosos,  outros mais sensíveis, uns mais otimistas e determinados, um ou outro mais triste, quem sabe até algum desesperado. Mas fizeram uma opção inarredável de continuar lado a lado, lutando até o fim, fosse qual fosse o desfecho.  

O ser solidário não significa a eliminação da individualidade. Pelo contrário, é essa rica afirmação de sensibilidades, inteligências e jeitos de ser que nos mantém  vivos sobre o planeta ao longo dos seis milênios em que nele habitamos. Mas não podemos  nunca perder de vista a importância do com-viver, da empatia, da capacidade de se comover com o nosso semelhante. 

A vida só faz sentido na partilha do pão, do sentimento, da esperança. Só assim podemos vencer o medo. 

Do fundo da mina, em pleno deserto, o espírito humano  demonstrou que pode ser mais forte do que a morte, que juntos somos capazes de sobreviver e ir além. 

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Foto: Resgate do último mineiro. Fonte: Ap (copiada do site ultimosegundo.ig.com.br)