segunda-feira, 16 de maio de 2011

José Carlos Oliveira, cronista

Jorge Adelar Finatto


Sou contumaz leitor de jornais. Nesse tempo todo, acho que tenho procurado não propriamente notícias do mundo que é, mas de um outro, mais delicado e venturoso, que infelizmente insiste em não aparecer nas páginas impressas.

Costumo guardar recortes de textos que me tocam, alguns deles nunca saem depois em livro. Há alguns dias peguei pra reler um desses papéis, uma crônica do saudoso jornalista e escritor José Carlos Oliveira (1934 - 1986), intitulada O livro dos analfabetos (Jornal do Brasil, Caderno B, 21 de janeiro, 1981).

Nela, lê-se o seguinte trecho:

Um verdadeiro homem é um poema torto. Um verdadeiro homem não é um santo nem um herói, porque esses são filhos diletos de Deus e neles Deus escreve certo; um verdadeiro homem não é um monge anacoreta, porque este corajosamente se furta à existência erradia, errante e errada que a nossa tribo se compraz em viver ou é induzida, ou conduzida, ou forçada a viver. O verdadeiro homem é experimental (...)

Estimulado por essa bela crônica, fui à livraria e comprei O homem na varanda do Antonio's, crônicas da boemia carioca nos agitados anos 60/70, publicação organizada pelo também jornalista e escritor Jason Tércio e editada pela Civilização Brasileira em 2004. 

O livro é encantador. Vale a pena ler o texto bem trabalhado, sensível, perspicaz e brilhante de José Carlos Oliveira (o Carlinhos Oliveira), um dos nossos grandes cronistas.
 

Manuel António Pina: Prêmio Camões de Literatura 2011

Jorge Adelar Finatto


O Prêmio Camões de Literatura 2011 foi atribuído, na quinta-feira, 12 de maio, ao poeta e escritor português Manuel António Pina, 67 anos. O resultado foi divulgado  na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e o júri justificou a premiação com fundamento na inventividade e originalidade da obra do autor. Ele publicou, entre outros, O país das pessoas de pernas para o ar (infanto-juvenil) e Aquele que quer morrer (poesia).

Manuel António Pina colabora diariamente como cronista  no Jornal de Notícias, de Portugal. É bacharel em Direito, tradutor e, no passado, também foi jornalista.

Em entrevista concedida a Sérgio Almeida, do Jornal de Notícias, em 20 de julho de 2010, declarou o poeta:

Não escrevo poesia como escrevo crónicas, profissionalmente. No caso da poesia, sou antes amador, isto é, aquele que ama. Só escrevo poesia quando não posso deixar de escrevê-la. Ou, como Borges diz (acho que é Borges), quando uma espécie de incomodidade, ou de remorso, me força a procurar a poesia. O facto de passar às vezes anos sem publicar poesia não significa que tenha deixado de escrever poesia. Tenho há muito um livro praticamente pronto, reunindo poemas dispersamente publicados aqui e ali, em jornais e revistas, e inéditos. Não tenho é tido tempo (nem pachorra) para trabalhar sobre alguns poemas que continuam à procura de si mesmos. Dois ou três deles estão há anos presos por um único verso; tenho, d e alguns desses versos, inúmeras versões, ou tentativas, mas não são o que procuro. Embora não saiba o que procuro, sei que, quando o encontrar o reconhecerei. Resta-me esperar; não tenho pressa.

Se existe algum valor em prêmios literários, e eles são poucos considerando os escritores existentes, é o de revelar autores de mérito (quando assim o fazem), independente de ações de marketing por parte da indústria do livro. Nunca li nada de Manuel Pina. Mas, diante desta sua declaração, reveladora de um escritor humano e dedicado, vou atrás de um livro seu para conhecê-lo um pouco mais. 

O Prêmio Camões é considerado a mais importante distinção em língua portuguesa e, em 2010, o vencedor foi o poeta brasileiro Ferreira Gullar.

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Foto: Manuel António Pina. Fonte: Jornal de Notícias, Portugal.

sábado, 14 de maio de 2011

Palavras com pássaros dentro

Jorge Adelar Finatto


Escrever coisa leve, talvez bonita. Eu gostaria de ver o mundo com bons olhos nessa manhã de maio. Uma frase, um verso com pássaros e arroios cantando dentro. A mesa posta para o café da manhã com os amigos, a conversa e o abraço depois de tanto, tanto tempo. Caminhei através dos segredos e das almas da noite. Vi coisas e precipícios de que não quero recordar. Arrastam-se sombras no átrio da aurora. Queria dizer um barco branco com uma vela lilás nas águas calmas do amanhecer. Queria encontrar a garrafa com a urgente e cálida mensagem para os habitantes das ilhas. Os moradores das ilhas foram viver na cidade, levando as ínsulas no coração, com seu isolamento, sua inocência perdida, a distante memória dos peixes. Estou entrincheirado na primeira claridade. Um farol iridescente desliza entre as nuvens, o pássaro inaugura o canto no galho invisível dessa manhã.


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Foto: J. Finatto

quarta-feira, 11 de maio de 2011

A vida com arte

Jorge Adelar Finatto




A arte é uma espécie de olho mágico que nos permite conhecer e viver outras vidas além da nossa. A obra que toca nossa emoção e nossa consciência é a mesma que nos retira do aqui e agora, nos faz transcender e ver além. Aí estão a música, os livros, os filmes, a pintura, a escultura, a fotografia, o artesanato (suas mil formas e materiais) e tudo o mais que as pessoas criam com desvelo e sentimento. Um prato de comida pode ser uma obra de arte, assim como uma casa limpa e arrumada com gosto, um jardim bem florido e cuidado, uma boa conversa. A natureza também está cheia de arte e graça. Por tudo isso, sou grato a Deus e aos que criam coisas capazes de aumentar nossa percepção sobre os seres e o mundo. Palavra após palavra, imagem após imagem, sentido após sentido, a gente vai se construindo a cada instante. 


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Foto: J. Finatto 

terça-feira, 10 de maio de 2011

A hora da solidão

Jorge Adelar Finatto



Porque a vida é breve, não há certeza de nada e a grande arte é levantar-se depois do tombo. Porque o amor roçou o coração como um vento frio e foi embora. Porque há uma casa na sombra e alguém abandonado lá dentro. Porque ele a procurou em muitos lugares. Porque sente que ela não voltará. Porque a noite chegou e ele não sabe o que fazer com o que restou da sua presença. Porque precisa vencer sozinho o medo do escuro. Porque é hora de varrer os destroços, reinventar a vida e não morrer de solidão.


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Foto: J. Finatto 

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Ausência

Jorge Adelar Finatto




Eu chamo teu nome
                            no escuro
no escuro meus olhos procuram
                                       procuram
até secar de tanta espera



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Poema do livro Claridade, Prefeitura Municipal de Porto Alegre, 1983.
Foto: J. Finatto
 

sábado, 7 de maio de 2011

Maureen Bisilliat: exposição de fotografias sobre o universo de João Guimarães Rosa



“Aprecio imagens aliadas à escrita, frases escolhidas definindo melodicamente a linha da orquestração. Em livros como os de Diane Arbus (1923-1971), de Nan Goldin (1953), há essa orquestração: ritmos, silêncios, acordes, vazios. A palavra, escolhida da produção literária ou pinçada do testemunho biográfico, vem da fala íntima da pessoa, destilada. Seria quase como escrever com a imagem e ver com a palavra.” (Maureen Bisilliat)

A exposição A João Guimarães Rosa permite um olhar simultâneo sobre a produção fotográfica e a produção editorial de Maureen, revelando tanto a fotógrafa como a editora de imagens e textos nesta exposição sobre Guimarães Rosa e o universo do sertão brasileiro e dos seus personagens. Os seus ensaios fotográficos foram sempre concebidos e apresentados em fortes sequências visuais que sintetizam a visão da autora sobre os universos do real e do imaginário, compondo aquilo que denomina de equivalências fotográficas das obras literárias que nortearam o seu trabalho.

Maureen Bisilliat nasceu em Englefieldgreen, Surrey, Inglaterra, em 1931. Estudou pintura com André Lhote em Paris (1955) e no Art Students League em Nova Iorque (1957) antes de se fixar definitivamente no Brasil em 1957, na cidade de São Paulo. Trabalhou como fotojornalista para a Editora Abril entre 1964 e 1972. Autora de importantes livros fotográficos inspirados em obras de grandes escritores brasileiros, expõe em 1985 em sala especial na 18ª Bienal Internacional de São Paulo. Em Dezembro de 2003, a sua obra fotográfica completa, composta por cerca de 16.000 imagens, foi incorporada no acervo fotográfico do Instituto Moreira Salles (IMS) no Rio de Janeiro em função da sua inquestionável relevância no âmbito da fotografia e da cultura brasileiras.

A Casa Fernando Pessoa e o Instituto Moreira Salles sentem-se honrados em trazer esta exposição para Portugal, pois entendem que a síntese entre imagem e texto que Maureen Bisilliat realiza nesta mostra em homenagem a Guimarães Rosa possibilitará ao público português aproximar-se ainda mais deste autor da língua portuguesa que reflecte e regista na sua obra aspectos profundos e determinantes da cultura brasileira, evidenciados igualmente nas marcantes imagens de Maureen aqui reunidas.

A exposição conta ainda com o apoio do Bairro Alto Hotel.


Câmara Municipal de Lisboa
Casa Fernando Pessoa
R. Coelho da Rocha, 16
1250-088 Lisboa
Tel. 21.3913270
Autocarros: 709, 720, 738 Eléctricos: 25, 28 Metro: Rato

Notícia e imagem reproduzidas do site da Casa Fernando Pessoa. A grafia é de Portugal.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

O cão vermelho

Jorge Adelar Finatto


Na seção de classificados do jornal, leio o anúncio: procura-se cão, cor vermelha, cego de um olho, que atende pelo nome de Pirata. Gratifica-se quem devolvê-lo ao dono.

Pirata, cego de um olho, vermelho, imagino que só pode pertencer a um velho homem do mar, alguém que, aposentado das artes da navegação, fixou-se no continente com o animal de estimação.

Provavelmente o cão fez a volta ao mundo várias vezes com seu capitán.

Pirata estranhou, talvez, a vida em terra, viu-se tão perdido que se perdeu na cidade. O pobre cachorro deve estar mareado com tanta violência, indiferença e falta de horizonte. No navio ele era único, o cão do seu capitán. Aqui é apenas mais um desconhecido, ninguém se importa.

A cidade não presta atenção em quem vai, em quem chega, em quem desaparece. Tudo some em suas ruas, em seus dramas, em seus obscuros labirintos. Anônimos, cada um de nós carrega sua solidão, sua dificuldade de viver, sua falta de abraço. Ainda que nos pintássemos de vermelho, como Pirata, decerto ninguém ia notar. Muitos não teríamos sequer um dono para reclamar por nós num anúncio de jornal.

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Foto: J. Finatto. Porto Alegre, vista do barco.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Don't leave me

Jorge Adelar Finatto
to Chet Baker




Don´t leave me
provide the night
with your suplly
of affection

fill the desert
with your steps

in secret
give me back
the daintiness
of those days

give me once again
the diamond
of your
presence

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Poem from the book O habitante da bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.
Foto: J. Finatto

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Bin Laden e o silêncio da justiça

Jorge Adelar Finatto

Somente a realização da justiça é capaz de estabelecer a paz e a verdade. Execuções sumárias, por mais eficazes e espetaculares que pareçam ser, não têm este poder.

A morte de Osama bin Laden por um comando militar americano, no Paquistão, foi divulgada e celebrada pelo presidente Barack Obama. Disse o governante dos Estados Unidos que o mundo está mais seguro agora. Será tão simples assim?

Perdeu-se, na verdade, uma boa oportunidade de avançar na construção de uma ordem jurídica e judicial internacional. Osama era tido como terrorista número um do planeta, líder da Al Qaeda, grupo responsável, segundo fontes norte-americanas, pelos atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, que fizeram cerca de 3.200 mortos.

As terríveis cenas dos ataques terroristas contra as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, falam por si. Poucas vezes no mundo se viu tamanha monstruosidade. Jamais se apagarão da memória humana as imagens dos aviões com passageiros sendo jogados sobre os edifícios e explodindo. A revolta da sociedade americana e mundial contra os atos de barbárie é perfeitamente compreensível e aceitável.

Todavia, o enfoque dos Estados Unidos e de outros países que também foram atingidos pelo terror, como Espanha e Inglaterra, deveria ser sempre o da persecução, prisão e julgamento dos responsáveis. A vingança, seja entre particulares ou aquela perpetrada pelo Estado, não se confunde com justiça.

A separação dos poderes do Estado foi uma das mais importantes conquistas da humanidade. Cabe ao Judiciário o julgamento, dentro das regras legais, entre as quais o direito de ampla defesa e a publicidade do processo. Não existe qualquer dúvida de que culpados por crimes de terrorismo devem ser punidos com absoluto rigor, mas isso deve ocorrer observando-se a lei.

O que houve, neste caso, foi o julgamento midiático de Osama bin Laden, baseado, fundamentalmente, em informações e conclusões das autoridades americanas. A opinião pública se formou em torno disso. Não houve empenho por um julgamento judicial, como se requer de nações ditas civilizadas e do Estado democrático de direito.

A captura e o julgamento de Bin Laden eram fundamentais para desarmar os espíritos, apontar um novo rumo nas relações internacionais, além de ser um marco no enfrentamento do terrorismo que se articula em várias regiões do mundo. Alguns arguem que seria impossível capturá-lo vivo. Será mesmo? Ao menos se tentou? Informações ontem divulgadas pelo porta-voz da Casa Branca dão conta de que o terrorista estava desarmado no momento do ataque.

O que este episódio revela, na essência, é a concretização de um ato de execução contra quem foi considerado responsável por uma das mais tristes tragédias de que se tem conhecimento na história. Isto, contudo, não é fazer justiça e dificilmente tornará o mundo um lugar mais seguro e melhor para se viver.


segunda-feira, 2 de maio de 2011

Ernesto Sabato: morre o grande escritor e humanista argentino

Jorge Adelar Finatto


A vida é tão curta e o ofício de viver tão difícil que, quando se começa a aprender, se tem de morrer. 
                                             Ernesto Sabato

A arte é uma forma de construir afetos. Através da criação artística nos aproximamos de pessoas que nunca vimos e com as quais jamais mantivemos contato. O criador passa a fazer parte da nossa íntima família espiritual. No caso da literatura, escritores e leitores irmanam-se na convivência dos livros. Um não existe sem a presença (e a atenção) do outro. Ernesto Sabato, membro importante desta família invisível, acaba de nos deixar.

O grande escritor argentino morreu na madrugada de sábado (30 de abril) em sua casa na cidade de Santos Lugares, perto de Buenos Aires. Sabato tinha 99 anos e completaria o centenário no próximo dia 24 de junho. Ele sofria de bronquite. Ontem, domingo, ele foi homenageado na Feira do Livro de Buenos Aires.

Ernesto pertencia a um grupo reduzido de escritores cuja obra guarda estrita coerência com a vida, desses que têm nos valores éticos e no senso de justiça a sua maior referência.

Um lutador pelos direitos humanos, preocupado com os problemas de seu tempo, ele presidiu a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (Conadep) na Argentina. Nomeado por Raúl Alfonsín, primeiro presidente democrático após o fim da ditadura militar, Sabato conduziu os trabalhos da equipe que elaborou o informe "Nunca Más", também conhecido como Informe Sabato. O documento minucioso apontou 8.960 desaparecidos, além da existência de 340 centros ilegais de detenção e tortura. O relatório deu origem aos processos que resultaram na condenação dos responsáveis pelas ações da ditadura. Sabato sempre se opôs à elaboração de leis que visavam ao "ponto final" nas responsabilizações.

Sou um simples escritor que viveu atormentado pelos problemas de seu tempo, em particular pelos de sua nação. Não tenho outro título (E.S.)

Filho de pai italiano e mãe albanesa, o escritor doutorou-se em Física em seu país em 1938.Trabalhou em pesquisas no Instituto Curie, em Paris. Na década de 1940 renunciou à ciência por considerá-la amoral, passando a dedicar-se integralmente à literatura e à pintura.

Estava quase cego, sofria de depressão e nos últimos anos passava recolhido em sua casa. Pintava às vezes e encontrava alento escutando música. Autor de obras importantes como O Escritor e Seus Fantasmas, A Resistência, Sobre Heróis e Tumbas e O Túnel, ele se considerava uma espécie de anarquista cristão que só crê na paz e na justiça social.

Pelo tanto que fez neste mundo e neste tempo conturbados, pelos valores que cultivou e praticou, o nosso reconhecimento ao escritor e humanista Ernesto Sabato. 

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Texto elaborado a partir da leitura das obras O Escritor e Seus Fantasmas, Sobre Heróis e Tumbas e A Resistência e de informações colhidas, no domingo, no site do jornal espanhol El País: http://www.elpais.com e do jornal argentino Clarín: http://www.clarin.com/
Traduções do blog.
Foto do escritor Ernesto Sabato: El País.

sábado, 30 de abril de 2011

Fuga y misterio

Jorge Adelar Finatto



Depois das gaivotas, dos barcos e do Guaíba, retornei a Passo dos Ausentes, meu chão no mundo. Na noite de outono, na Praça da Ausência, as pessoas olham o bordado das estrelas com a lua e sentem o perfume branco e azul das flores das quaresmeiras. Juan Niebla, o músico cego que toca bandoneón na estação de trem abandonada da nossa pequena cidade, apresenta-nos o Primeiro Concerto do Outono. A noite está muito fria, a temperatura caiu aos dois graus, informa o termômetro ao lado do chafariz. Com o capote preto descendo até as canelas, o boné de lã com as abas caindo sobre as orelhas, sentado numa cadeira de palha, Niebla executa peças de Astor Piazzolla. A abertura foi com Fuga y Misterio, comovente como as restantes músicas do programa.

Umas trinta pessoas estamos diante do coreto da praça onde o músico toca. Cada um trouxe sua cadeira de casa. Alberta de Montecalvino usa o lenço azul claro ao redor do pescoço de gazela; sobre o casaco cor-de-rosa, o camafeu de prata na altura do coração. A grande dama está na primeira fila e não faz questão de esconder as lágrimas, no que é acompanhada por muitos da assistência.

Aos poucos a névoa vai tomando conta do lugar. A luz amarela dos postes de iluminação mergulha na brancura azulada da bruma. Ao final do concerto, Mocita de la Vega sobe ao coreto e entrega um arranjo de rosas amarelas a Juan Niebla, enquanto se ouvem aplausos e gritos de bravo. Claudionor, o Anacoreta, ergue as mãos ao céu em agradecimento.

Quem nos visse reunidos nesse cenário pensaria, talvez, tratar-se de uma página de romance do século XIX. Mas não. Somos seres de carne e osso. Habitamos os Campos de Cima do Esquecimento. Comove-nos a música de Piazzolla, recriada magistralmente pelas mãos de Juan Niebla. Nessa hora aberta, fria e vazante.

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Foto: J. Finatto

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Fernando Pessoa, Cartas Astrológicas



A partir da interpretação das cartas astrológicas de Fernando Pessoa sobre personalidades mundiais, Portugal e dos seus heterónimos, Fernando Pessoa – Cartas Astrológicas, de Paulo Cardoso e Jerónimo Pizarro, explica, de modo acessível e rigoroso, como a astrologia se insinua na obra de um dos maiores poetas portugueses.

Apresentação da obra por José Blanco: 03 de maio, às 18h30min, na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa.
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Câmara Municipal de Lisboa
Casa Fernando Pessoa
R. Coelho da Rocha, 16
1250-088 Lisboa
Tel. 21.3913270
Autocarros: 709, 720, 738 Eléctricos: 25, 28 Metro: Rato
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt
www.mundopessoa.blogs.sapo.pt

Reprodução de notícia da Casa Fernando Pessoa. A grafia é a de Portugal.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Aos que dizem que tudo é possível

Jorge Adelar Finatto


Aos que dizem que tudo é possível, eu digo sim, tudo pode via a ser. Mas que venha logo, sem demora, sem promessas delirantes, que desperte, enfim, a luminosa manhã. 

A treva tomou conta do Brasil, da cidade, da minha rua, entrou na minha casa.

Fugir pra onde? Se tudo em volta suspira e dói. 

Se tudo é possível, que venham as pequenas alegrias, as inesperadas ternuras, os abraços escondidos, as urgentes revelações, as mãos dadas.  

Se tudo é possível, um casal dançará um fado rasgado em plena calle deserta.

Se tudo é possível, abrirei o guarda-chuva e sairei pela noite em busca de açucenas em setembro pra deixar em tua porta.

E se tudo for mesmo possível, vamos enfrentar o problema do medo de viver

(a morte, essa coisa numerosa e fria, está em toda parte e não faz mais espanto).

Dizem eles que tudo na vida é possível.

Que venha depressa essa ventura.

Que não nos falte o impossível amanhecer.

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Foto: J. Finatto

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Apresentação da revista Nova Águia dedicada a Fernando Pessoa



Miguel Real e Renato Epifânio estarão na Casa Fernando Pessoa dia 29 de Abril pelas 18h30 para a apresentação do novo número da revista Nova Águia, que tem como tema Fernando Pessoa: 'Minha pátria é a língua portuguesa' - Nos 15 anos da CPLP. A Nova Águia - que surgiu em 2008 - é hoje uma referência incontornável no panorama cultural lusófono, estendendo-se as suas apresentações públicas a largas dezenas de cidades não só em Portugal, mas também no Brasil, em Timor-Leste, Cabo Verde, Índia e Angola. A lista de colaboradores inclui nomes consagrados como António Braz Teixeira, Adriano Moreira, António Telmo, Pinharanda Gomes, António Cândido Franco, Artur Manso, Miguel Real, Joaquim Domingues, Manuel J. Gandra e Jorge Telles de Menezes, mas dá também voz aos novos autores da lusofonia. Inspirando-se na visão de Portugal e do Mundo de Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva, a Nova Águia assume-se como um órgão plural. Na mesma ocasião será ainda apresentada a revista Letras com Vida, do Centro de Literaturas e Culturas Europeias e Lusófonas da Faculdade de Letras de Lisboa.

Câmara Municipal de Lisboa
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1250-088 Lisboa
Tel. 21.3913270
Autocarros: 709, 720, 738 Eléctricos: 25, 28 Metro: Rato

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Reprodução de notícia da Casa Fernando Pessoa.

terça-feira, 26 de abril de 2011

A palavra em silêncio

Jorge Adelar Finatto


Reescrever será, talvez, o vero escrever.

A palavra em silêncio é a palavra em estado de poema. É a expressão que busca, no cotidiano, a poesia existente nas coisas e nos seres.

O poeta não faz poesia, disse o poeta cruz-altense Heitor Saldanha. O poeta faz o poema, ensinou Heitor, sem nenhuma intenção professoral, do alto do seu gênio e da sua humildade.

A poesia existe em si, solta no mundo, enquanto o poema é a tentativa de colher esta revelação.

Nada grita como o poema, esta construção verbal, quase sussurro. O poema não é marketing pessoal, não quer vender nada. É como um rio vivo, correndo no fundo da memória e do tempo.

A palavra, irmã da vida, vida cheia de sofrimento, encanto, esperança, vida que quer ir além da miséria existencial, vida nossa de todos os dias, que tão pouco conhecemos.

O verso é a procura da comunicação, nasce em silêncio, abre caminho para a claridade. O poema reduzido ao rumor de sua incomparável verdade.

A expressão avessa ao ruído da conveniência e do agrado fácil, que só se afirma na medida do alvoroço interno da própria luz que produz.

A palavra lavrada a frio, na entranha quente da vida.

O ato de publicar em livro deve ser exceção no ofício do escritor. Uma parte significativa do que se publica não tem qualidade para ser impressa. O respeito ao leitor, e até mesmo às árvores que se derrubam para fazer livros, requer isso. Podemos ser exigentes naquilo que escrevemos.

Precisamos dar o nosso melhor, fazer o possível. É claro que sempre há uma insegurança quanto ao que, como e quando publicar. Mas em geral o bom texto emite sinais, se impõe como algo que poderá ser socializado através da publicação.

Reescrever será, talvez, o vero escrever.

Uma parada na estação-gaveta, por algum tempo, pode salvar um texto. Em literatura, prefiro o fazer pouco, mas fazer bem.

Publicar qualquer coisa, publicar por publicar, fazer carreira de poeta ou escritor, não é  e nunca foi o meu caminho. As coisas ruins que publiquei o fiz pensando que eram boas. A gente também se engana.

Ninguém deve se sentir acuado diante da palavra. Ninguém está obrigado a só escrever matéria excelente, isso só aumenta a angústia e desestimula. Não existe, de resto, a obra literária perfeita.

A alegria precisa ser nossa irmã na travessia da escrita.

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Foto: J. Finatto

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O que vem chegando

Jorge Adelar Finatto



O que vem chegando
desde muito longe
no longo apito
do navio

saudade de mim?


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Do livro O habitante da bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.
Foto: J. Finatto

sábado, 23 de abril de 2011

Manhã de Páscoa

Jorge Adelar Finatto



O que as mulheres estão olhando? O que vem pela frente na estrada do tempo? Quem ficou em casa sem nada esperar?

Que mistérios, que notícias virão enrolados nos palimpsestos da manhã de Páscoa?

O amanhecer avança entre as sombras, espalha-se no ar azul.

O que há de luminoso no domingo de Páscoa é que todos estão vivos. Anda pela casa o cálido rumor de vozes, conversas, cantigas, risos, que começa na quinta-feira Santa e se estende até a Ressurreição.

Todos estamos vivos e a esperança habita entre nós.

A vida vence a morte e nada está perdido.

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Imagem: pintura Manhã de Páscoa, de Caspar David Friedrich (1774 - 1840). Fonte: Museu Thyssen-Bornemisza, Madri, Espanha: http://www.museothyssen.org

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Talvez com a chuva

Jorge Adelar Finatto


Talvez com a chuva
recupere a coragem
e saia por aí batalhando
as coisas que acredito

talvez nos tornemos
até bons amigos e unidos
expulsemos o medo
pra fora das gavetas

talvez a gente
consiga se olhar
e vai ser
o começo de tudo

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Poema do livrinho Viveiro, Edições Sanguinovo, São Paulo, 1981.
Foto: J. Finatto

terça-feira, 19 de abril de 2011

The maker of auroras

Jorge Adelar Finatto


Give me your hand,
may afternoon,
your slender rain
your memory filters
your clearness

the heart persists
in the slow construction
of the mornings

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Poem from the book O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.
Foto: J. Finatto

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Oscar Wilde em Passo dos Ausentes

Jorge Adelar Finatto

 
O guarda-chuva é um escudo existencial contra a tristeza e a pouca luz do mundo.

Um indivíduo deprimido e solitário não deve andar por aí sem guarda-chuva, mesmo em dias de sol. Não importa o tempo que faz lá fora.

A umbela traz consolo ao coração, além de proteger o esqueleto.

Em Passo dos Ausentes, existe o Sindicato dos Fazedores de Guarda-Chuvas, Chapéus, Bengalas, Luvas e Mantas. A cidade, hoje habitada por muitos fantasmas e poucos seres humanos, foi importante centro produtor e exportador desses produtos. Consta nos registros do sindicato que, entre 1890 e 1939, a Inglaterra importou a quase totalidade da produção.

O cliente mais famoso, na área das artes, foi ninguém mais, ninguém menos, do que o escritor irlandês Oscar Wilde (1854 - 1900). Dizem os antigos que ele chegou a ter perto de 20 chapéus-de-chuva (nome pelo qual também é conhecido o guarda-chuva ) e cerca de 10 bengalas confeccionados na Terra dos Ausentes.

Numa secreta viagem, o autor de O Retrato de Dorian Gray esteve em Passo dos Ausentes, em 1891. Veio a nossa pacata aldeia a fim de mandar fazer, pessoalmente, um modelo exclusivo de guarda-chuva. O artefato tinha, num canto da parte externa do tecido azul-claro, as iniciais D.G., em tom rosa, as mesmas que foram gravadas, em prata, no cabo de osso de anta.

Oscar ficou durante 40 dias por aqui, conforme está registrado no livro de hóspedes da pensão Ao Viajante Solitário. Foi tempo suficiente para encantar a todos. Ganhou o título de cidadão honorário e sua despedida, na estação de trem, foi um dos maiores acontecimentos da cidade em todos os tempos.


Tal impressão causou em nosso meio que, desde então, quando pessoas de Passo dos Ausentes viajam à Inglaterra e à França, fazem uma espécie de peregrinação sentimental atrás de Dorian Gray, quer dizer, Oscar Wilde.

Muitos dos bilhetes apaixonados colocados (todos os dias) junto ao túmulo do escritor, no cemitério Père Lachaise, em Paris, são de gente dos Campos de Cima do Esquecimento.

Entre os políticos que adquiriram essas nossas obras de arte, estão Getúlio Vargas e Winston Churchill. Na Terra da Rainha como em São Borja, são tratados como relíquias e viraram peças de museu. Em diferentes países do mundo, os guarda-chuvas aqui produzidos transmitem-se através das gerações na condição de finas joias de artesania.

Faz 40 anos que Guilherme Baden-Baden, o químico de Passo dos Ausentes, não sai à rua sem carregar o enorme Morcego Negro, espécie de capacete protetor que se afeiçoou a ele como se fosse a extensão de seu esquerdo braço.

Homem pequeno, Baden-Baden quase desaparece sob o para-sol (outro nome do objeto pluvioso). Enquanto estiver com o guarda-chuva aberto, afirma ele, nada de ruim poderá lhe acontecer. Não se trata de vã filosofia, diz o sábio:

- É uma intuição ancestral, uma maneira de ver e sentir a existência.

Nunca ninguém, em qualquer tempo, foi abandonado por um guarda-chuva. O contrário, porém, é muito comum.

Uma das grandes invenções da humanidade, cuja origem se perde na noite dos séculos, o guarda-chuva é, ao lado do cão e dos diários das moças, o melhor amigo do homem.

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Fotos: 1) Oscar Wilde com seu casaco favorito, 1882. Autor: Napoleon Sarony. Fonte: Wikipédia. 2) Guarda-chuva nos jardins da Praça da Ausência. Autor: J. Finatto.
Texto revisto, publicado em 18 de abril, 2011.
Leia também, sobre Oscar Wilde e o beijo proibido:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/06/oscar-wilde-e-o-beijo-proibido.html