quinta-feira, 16 de junho de 2011

Zeca Afonso

Jorge Adelar Finatto


Grândola, vila morena
terra da fraternidade
o povo é quem mais ordena
dentro de ti, ó cidade*
                   
Uma tarde de inverno europeu em 2002, de passagem por Coimbra, onde estava para conversar com estudantes da Faculdade de Letras, ouvia a chuva bater na janela do quarto do Hotel Botânico. Meu espírito andava às voltas com António Nobre, Eça de Queirós e o Mondego, esse rio que me traz saudades do Guaíba.

Em Porto Alegre, o Guaíba me dói porque não me deixa esquecer o Mondego.

A tarde já caminhava para a noitinha quando liguei a televisão na RTP. Foi quando ouvi, pela primeira vez, falar nele. No dia seguinte, fui a uma loja e comprei uma caixa com dois discos.

O que há no canto do poeta, compositor e cantor português José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos - o Zeca Afonso - que faz o coração da gente bater fundo e claro?

Dentro de ti, ó cidade
o povo é quem mais ordena
terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Que emoção é esta que nos convida a sair pelas ruas de mãos dadas?

De que profundeza brota essa vaga azul de sentimento que se alteia no horizonte e depois invade a cidade, distribuindo esperança em meio ao feroz egoísmo?

Em cada palavra que pronuncia, no canto geral que celebra a vida, Zeca Afonso fala-nos da gente, da terra, do compromisso com o justo. A voz que sincera se levanta vem de uma alma sensível, sedenta de justiça, harmonia entre os homens e beleza. Vem das origens de um povo esta voz forjada no sonho e na luta.

Zeca Afonso nasceu em Aveiro a 2 de agosto de 1929, filho de pai juiz e mãe professora primária, com os quais viveu em certos períodos, tendo, em outros, ficado aos cuidados de tios e tias. Morreu em Setúbal, em 23 de fevereiro de 1987.

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
em cada rosto igualdade
o povo é quem mais ordena

O canto de Zeca Afonso, comprometido com a fraternidade, oferece abrigo e consolo a pessoas do mundo inteiro. Não por acaso a belíssima Grândola, Vila Morena, é uma canção-símbolo dos novos tempos nascidos em Portugal com o movimento que se cristalizou na Revolução dos Cravos, a 25 de abril de 1974, que levou democracia ao país depois da longa escuridão da ditadura. 

Nós do Brasil precisamos conhecer a obra do Zeca Afonso.

À sombra duma azinheira
que já não sabia a idade

jurei ter por companheira
Grândola, a tua vontade

Grândola, a tua vontade
jurei ter por companheira
à sombra duma azinheira
que já não sabia a idade

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* Grândola, Vila Morena, letra e música de José Afonso.
Foto: José Afonso. Fonte: imagem do Google. O crédito será dado tão logo tenha informação sobre o autor.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Hay vida antes de la muerte?

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto

 
Em Montevidéu, até os grafites têm espírito. As inscrições públicas nas ruas montevideanas não perdoam a superficialidade. Uma vez lidas, não deixam o caminhante em paz.

Pressentindo que seria um absurdo virar simplesmente as costas e ir embora, resolvi fotografar e trazer comigo a inquietante frase.

Hay vida antes de la muerte?

Não bastassem as perplexidades e angústias de cada dia, acrescentei agora mais esta ao meu baú de assombros.

Afinal, haverá mesmo vida antes da morte ou seremos apenas tristes fantoches com a boca rasgada e olhos opacos às voltas com o anonimato, o desamparo, a solidão?

O que sei é que há dias em que me sinto vivo. Parece que a morte ainda não foi inventada. Em outros, contudo, viver não vale um caco colorido de vaso quebrado.
 
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Foto: J. Finatto
Mais sobre a arte do grafite no texto Basquiat, anjo caído, de 28 de novembro, 2010.

domingo, 12 de junho de 2011

Fernando Pessoa, 123 anos

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto. Lisboa

A vida prática sempre me pareceu o menos cómodo dos suicídios. (Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, trecho 247)

Fernando Pessoa completaria 123 anos de vida nesta segunda-feira, 13 de junho, ele que nasceu em Lisboa em 1888 e ali morreu em 1935, aos 47 anos. Poucos, raros poetas foram tão bem acolhidos e amados pela posteridade como ele. Uma vida aparentemente banal, sofrida, estoica, verteu para o mundo uma obra absolutamente única e encantadora. A vida do homem Fernando Pessoa foi e continuará a ser um grande mistério em meio ao aparente nada que o cercou, por maiores que sejam os esforços de seus biógrafos e estudiosos.
Para comemorar o aniversário, publico este texto que resultou de um encontro que tive com o senhor António Seixas, filho de Manassés, barbeiro de Pessoa, em 2007.

O barbeiro de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa habita um quarto do apartamento do primeiro andar, lado direito, do edifício nº 16 da Rua Coelho da Rocha, no bairro Campo de Ourique, em Lisboa. Cuida da aparência e dos fatos (ternos), que compra de bons fornecedores, apesar das sérias dificuldades financeiras. O que ganha trabalhando em casas comerciais, como responsável pela correspondência em inglês e francês, é insuficiente.

Costuma frequentar a Barbearia Seixas, quase na frente do edifício. Para lá se dirige seguidamente. Quando a única cadeira está ocupada por outro cliente, o poeta faz um discreto gesto, uma senha para o barbeiro Manassés. Este, tão logo se desocupa, dirige-se ao apartamento onde Fernando vive na companhia da irmã, do cunhado e da sobrinha. A visita de Manassés tanto pode ocorrer de dia como à noite.


A pequena sala abre a porta de madeira marrom sobre a calçada. Faz parte de um prédio antigo, castigado. Trata-se, hoje, de uma oficina de equipamentos de som. Nesse território perdido no tempo, encontro o senhor António Seixas, quase octogenário, que vem a ser o responsável técnico (ou será melhor dizer o alquimista?) do estabelecimento. É o filho de Manassés.*

No local exíguo, acumulam-se muitos aparelhos. Não existe uma ordem aparente. Mover-se, ali, requer estreitamento de ombros e movimentos de cintura. Coisa difícil.

Peço licença para entrar. António me recebe com um sorriso. Revela-se gentil no trato, tem excelente disposição física e boa memória.

Encantado pelos sons mágicos que brotam das caixas lumisosas, António Seixas não seguiu a profissão do pai, que ali se estabeleceu há mais de oitenta anos.


O menino António, com cinco, seis anos de idade, muitas vezes acompanhou Manassés até o quarto do Senhor Pessoa (assim refere-se ao poeta). Faço perguntas a respeito dessas incursões. António não é mesquinho nas respostas. Ao contrário, demonstra satisfação em recordar aquele tempo e a relação do pai com Pessoa.

Fernando mudou-se para a Rua Coelho da Rocha em 1920, tendo ele próprio alugado o imóvel. Cansado de perambular por quartos de aluguel e de parentes em Lisboa, fixa naquele apartamento e naquela rua o seu lugar de viver, o recanto de aconchego físico e emocional que lhe dará condições de desenvolver o trabalho literário num dos períodos mais produtivos.

Ali viveu com a mãe Maria Madalena e os irmãos, após o retorno destes de Pretória, África do Sul, onde o padrasto João Miguel Roza era cônsul, tendo lá falecido. Mais tarde, após a morte da mãe, foram morar naquele local a irmã Henriqueta Madalena (Teca) e o cunhado, coronel Francisco Caetano Dias. A sobrinha Manuela nasceu nesse apartamento. Neste endereço, o poeta viveu até a morte em 1935.

Manassés, segundo António, era mais do que barbeiro do Senhor Pessoa, era também seu amigo e confidente.

Fernando os recebia e os levava até seu quarto. António Seixas recorda o forte cheiro de tabaco daquele lugar pequeno e pouco iluminado, que tinha apenas uma janela. A primeira providência de Manassés, enquanto conversava com o Senhor Pessoa, era limpar os cinzeiros cobertos de “beatas” (pontas de cigarros já fumados).

António lembra a mesa do quarto cheia de papéis, os livros apertados em duas estantes. Perto da cama, a cortina da janela iluminada pela luz que vinha da rua. Observa que o Senhor Pessoa era um homem reservado, educado, atencioso com o menino.

Aqueles que conviveram com o poeta dizem que ele era especialmente afável com os mais humildes. Pessoa ouvia com atenção o que lhe falava Manassés. Durante muitos anos o poeta comeu em restaurantes, bebeu e fumou muito, pouco dormiu. A morte com apenas 47 anos talvez tenha sido apressada pela vida que levou.

O edifício número 16 da Rua Coelho da Rocha abriga atualmente a Casa Fernando Pessoa. Concebida pela Câmara Municipal de Lisboa, foi inaugurada em 1993 e destina-se a preservar a memória do poeta. Encontra-se nela a biblioteca pessoal do escritor, com muitas anotações feitas por ele em diversos dos cerca de mil e duzentos volumes. Os livros tratam dos mais variados ramos do conhecimento. Entre objetos e documentos pessoais do autor, estão os óculos, canetas, máquina de escrever, fotografias, documentos e manuscritos, além dos poucos móveis que o acompanharam em vida. A famosa arca onde guardava seus escritos, que estava em poder da família, foi leiloada e está agora com um colecionador no norte de Portugal.


O que mais impressiona na Casa é o quarto do poeta. Um espaço pequeno, humilde, um tanto sombrio. Prova de que, para o verdadeiro criador, não existe lugar melhor ou pior para escrever. A arte muitas vezes floresce em lugares tristes e sem perspectiva, talvez até mesmo como reação do espírito à adversidade.

Os restos mortais de Pessoa repousam hoje no Mosteiro dos Jerônimos, no bairro de Belém, diante do Tejo. Em sua companhia, naquele lugar, está o não menos poeta Luís de Camões, além de Vasco da Gama.

Em meio à conversa, António Seixas me chama a atenção para um equipamento sonoro que ele mesmo inventou. Não existe nada melhor em matéria de som, segundo afirma. Liga o aparelho em alto volume, pergunta se já ouvi algo com esta qualidade. Não sei exatamente o que responder, mas o entusiasmo e a confiança do meu interlocutor são tamanhos que não tenho nenhuma dúvida a respeito do valor deste invento.

Despeço-me de António, agradecendo a generosidade por falar de suas lembranças do Senhor Pessoa.

Saio a andar pela rua que tantas vezes ouviu os passos do poeta. Um dos grandes gênios da literatura universal.

Vou até o restaurante da esquina. Tomo um caldo verde.


Mar Português
                   Fernando Pessoa

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

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Fotos: J. Finatto

Pela ordem: 1) grafite do poeta em rua do bairro Chiado, em Lisboa; 2) Casa Fernando Pessoa, onde viveu o poeta; 3) oficina do Senhor António Seixas, onde funcionou a Barbearia de Manassés, seu pai; 4) desenho de Pessoa numa das janelas do edifício.
*Este encontro ocorreu em 2007.
O barbeiro de Fernando Pessoa foi publicado no blog em 15 de abril, 2010, e em 14 de março, 2011.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Homem com naufrágio dentro

Jorge Adelar Finatto




O homem morava dentro do escafandro.
Os peixes o acompanhavam aonde quer que fosse.
Habitava o território de uma aquarela marinha.
As tardes povoadas de barcos, gaivotas, ventos, búzios.
Ela partiu certa manhã para um giro em torno da ilha onde viviam.
Gostava de ouvir o rumor azul do mar batendo nas pedras.
Nunca mais retornou.
O homem foi mirar os longes na beira do alto penhasco.
A barba cresceu, o tempo misturou as folhas do calendário, enquanto ele esperava.
A lágrima verteu cálida sobre a face fria.
Ele foi então morar no interior do escafandro.
Homem com naufrágio dentro.
Ela estava deitada no leito submerso do seu coração.
Nada em sua nudez lembrava a cálida presença.
O rosto parecia sereno, feliz.
Os cabelos flutuavam como anêmona.
Ele quis morar com ela no fundo das águas.
O irremediável abismo o chamava.
Muitas noites adormeceu com a esperança de não acordar.
Os peixes desenhavam coloridos traços ao redor do homem para despertá-lo.
Um dia ele acordou nas profundezas da manhã austral.
Uma força impressionante puxou o escafandro, ele enfim subiu,
arrastando suas correntes.
A praia vazia, as palmeiras, o horizonte.
A voz dela se distanciando na trompa dos búzios.
O homem saiu a andar na praia deserta da aquarela.
O que ele fez para suportar todas as manhãs que vieram depois? É um segredo que só os cavalos-marinhos e as anêmonas conhecem.

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Foto: J. Finatto

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Memorabilia

Jorge Adelar Finatto

fotos: jfinatto

 
Uma fotografia é um território perdido.

Uma emoção recortada no tempo.

Um instante levantado do esquecimento.

Afeto guardado na gaveta. Um túnel sentimental, alçapão de luz.

Vozes longínquas na cena imóvel. Um cheiro de doce e canela na casa serrana à beira do córrego.

Coração batendo na porta, querendo entrar,  mas não há mais casa.

Um lugar com gente querida vaga no espaço.

O passado no presente.

Uma mundo minimalista.

Um estalo.

Um fragmento de vida, quase nada.

Uma instante eterno.

Memória e oblívio.
 

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Escrever na língua portuguesa

Jorge Adelar Finatto




Um escritor disse que a língua portuguesa tem pouco alcance, é entendida por um número reduzido de leitores no planeta. Lamentou que estamos muito longe da realidade de quem escreve em inglês. Ficamos circunscritos aos países que têm o idioma de Fernando Pessoa como língua oficial, além de antigos enclaves portugueses como Goa e Macau.

Pois eu não sofro essa angústia. As minhas inquietações de escritor amador - no duplo sentido de quem ama o que faz e não sobrevive deste fazer - são mais modestas. Não me tira o sono a maior ou menor influência de escritores de dicção portuguesa no mundo. Não faço distinção entre autores a partir do idioma em que escrevem ou da nacionalidade, mas a partir do sentido de suas palavras.

O português é a nossa língua do coração. É através dela que expressamos nosso ser no mundo. É um prazer imenso falar, ler e escrever na língua de Camões, João Guimarães Rosa, Cartola, dona Maria Antônia da floricultura.
 
Estou mais preocupado com o fato de viver num país com quase 200 milhões de almas e que tem tão poucos leitores. Me entristece não ser lido por pessoas que falam a minha língua e que moram na mesma rua que eu, no mesmo bairro, na mesma cidade e até no mesmo edifício.

A questão que me toca diz respeito à pouca participação na vida cultural das populações dos países de expressão portuguesa, fruto do atraso que também atende pelo nome de injustiça social nesses países.
  
Claro que gostaria de ser lido em Paris, Tóquio e Londres, mas já estou me preparando para não ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. A menos que haja uma revolução no mundo das letras, a começar pela descoberta, por parte de meus vizinhos, de que eu escrevo. Tudo leva a crer que continuarei desconhecido no meu próprio idioma. (Mas se daqui a cinco minutos, ou três mil anos, alguém se debruçar sobre estas linhas, acho terá valido a pena.)

No fundo, no fundo, penso que livros e autores, como todo o resto, estão votados ao esquecimento, com raríssimas exceções. Mas ninguém deve desanimar por isso.

A língua portuguesa e seus escritores têm um lugar no mundo e esse lugar será tanto mais importante quanto maior for nossa capacidade de formar cidadãos leitores em nossas tristes nações.

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Foto: J. Finatto

sábado, 4 de junho de 2011

A casa do anjo

Jorge Adelar Finatto



Antes de começar a chover, arredaram uns móveis bem pesados lá no céu. Um barulho espesso e fundo me fez pensar que talvez fosse a mudança de um anjo. Um anjo bom e humano com suas asas de plumas perfumadas, levando seu chapéu, suas estantes de livros, bicicleta, cama, armários.

Um anjo, quando se muda, deve ter muita coisa pra levar com ele: cartapácios com registros, caderno de milagres, álbuns de fotografia das pessoas por quem tem cuidados, pinturas com paisagens dos campos do Senhor.

As roupas do anjo devem ser brancas como nuvem, inclusive as botas.

Gostava que o meu anjo da guarda viesse mais pra perto de mim.

Meu coração anda necessitado de amigo com sabedoria e consolação. Ele podia até ficar morando aqui comigo. Se quisesse, podia subir no telhado, sentar perto da chaminé, lugar calmo e iluminado, de onde se tem uma boa vista do mundo.

O meu anjo da guarda. Há de expulsar a solidão que toma assento na sala. Nunca mais nenhum mal vai me acontecer. Quando de noite o medo se acercar de mim, o anjo me dará sua mão forte. Então eu dormirei como um menino. E vou sonhar outra vez.
 
 
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Foto: Colonia del Sacramento. Uruguai. J. Finatto
Publicado antes, em 10 de dezembro, 2010.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Cinema de rua

O Cavaleiro da Bandana Escarlate


Este é um blog primitivo. Se o leitor observar, notará vestígios de textos escritos a caneta em guardanapo de papel. Me disseram que o autor desta página pode ser visto em cafés, lendo e rabiscando coisas. Essas anotações ele depois datilografa no computador. O editor do blog é do tempo da máquina de escrever. Para ele, o notebook nada mais é do que uma vetusta olivetti com luzes dentro. Às vezes, desconfio que, em menino, banhou-se nas águas do Dilúvio.

Este é, portanto, um blog arcaico, com raros e valentes leitores. Aqui não se ouvem músicas nem sons temáticos, não se encontram imagens cambiantes nem filmes. Tudo se passa como no tempo do cinema mudo. O fazedor da página deve amar Charles Chaplin (1889-1977).

Eu não devia ficar me dando ares. Sou convidado a escrever sobre cinema. Mas o fato é quase não tenho saído de casa. Ultimamente, passo os dias na biblioteca do modesto solar, nas cercanias da praça Maurício Cardoso, em Porto Alegre. Abro as janelas dos fundos pra ver os pássaros no breve jardim. Eles vêm alimentar-se. Sirvo-lhes frutas. Em troca me oferecem o canto, dentro da lógica de que não existe almoço de graça.

Saio pouco de casa por temperamento e porque tenho medo de assalto. Não tenho mais fôlego pra correr dos bandidos. Fumei durante muito tempo, hoje me falta o ar. Contrariando o médico, ainda fumo charuto escondido, principalmente nos entrementes de uma garrafa de vinho.

Meu físico assaz patético é um convite aos ladrões na via pública.

Uma pequena história: os primeiros filmes que vi foram aqueles do tempo de menino em Passo dos Ausentes. Não havia sala de projeção naquele fim de mundo. Um dia, no final dos anos 1940, o médico da cidade, Dr. Fredolino Lancaster, numa viagem de estudos à Inglaterra, adquiriu um projetor. Na volta, começou a passar filmes na fachada de sua casa, sobre um lençol branco. As famílias levavam cadeiras para assistir às sessões de filmes mudos, que aconteciam no primeiro sábado do mês. Ali conhecemos o grande Carlitos.

Eram as noites mais esperadas do ano. Alberta de Montecalvino se encarregava de distribuir a pipoca. Nefelindo Acquaviva organizava a plateia. Juan Niebla, o músico cego do bandoneón, executava inefáveis melodias, conforme a história se passava na tela e lhe era segredada na concha do ouvido por Heitor dos Crepúsculos.

O miserável andarilho vaga pelo universo com sua surrada roupa, chapéu-coco e bengala. Carlitos mudou nosso modo de sentir e ver a vida. O vagabundo que vive na pobreza, com modos de sobrevivente e dignidade de cavalheiro, nos devolveu alguma coisa que havíamos perdido pelo caminho. Assistir a um filme de Carlitos é receita infalível contra depressão e vontade de morrer.

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Foto: Chaplin como o vagabundo Carlitos (11 de abril de 1915). Autoria não informada. Fonte: Wikipédia.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Prêmio Açorianos para narrativa longa


O Prêmio Açorianos de Criação Literária, Narrativa Longa – 2011 é uma iniciativa da Secretaria Municipal da Cultura que visa contemplar aqueles que têm uma história longa para contar. As inscrições acontecem entre os dias 1º e 24 de junho, e podem ser feitas no site da Prefeitura de Porto Alegre, na Coordenação do Livro e Literatura (Av. Erico Verissimo, 307) ou pelo correio.

Cada autor pode concorrer com uma obra narrativa longa inédita (ficção, romance ou novela), contendo no mínimo 80 laudas de 30 linhas cada. O concurso é gratuito e abrange escritores nascidos ou residentes no estado do Rio Grande do Sul.

Além da publicação da obra, o autor receberá um prêmio no valor de R$10 mil reais.


Informações:
Coordenação do Livro e Literatura
(51) 3289 8072/8072
Av. Erico Verissimo, 307. Menino Deus – Porto Alegre/RS

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Notícia reproduzida da Coordenação do Livro e Literatura da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, Brasil.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Se um barco de papel

Jorge Adelar Finatto





O irmão rio vive dentro do menino. Convivem desde a infância, através da água limpa bebida diretamente da torneira e dos banhos nas tardes claras e quentes de verão nas pequenas praias. Na tarde muito fria e azul do último dia de maio, ele sai a andar pela beira do Guaíba, que é um jeito todo seu de fugir da realidade quando o peso é muito grande.

Existe uma memória afetiva que os irmana. Mais de uma vez ele teve de partir de Porto Alegre para trabalhar e viver em outras cidades. Sempre que pôde, foi ao mapa e escolheu um lugar com porto para ancorar a saudade do irmão.

Ele leva no bolso do casaco o barco de papel construído com a folha de um caderno escolar. A simples visão do rio tem o poder de acalmá-lo e o deixa perto da felicidade ou seja lá como se chama esse sentimento de integração com o mundo.

Ouve o rumor da água batendo na areia e nas pedras -  e uma sensação de harmonia o invade. Enfim solta o barco de papel e embarca. Sai pelo Guaíba a navegar, subindo e descendo as ondas, girando suavemente o leme, enquanto a vela amarela se enche de vento. O continente ficou ao largo com a angústia e o irremediável.

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Foto: J. Finatto

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Um fantasma quer conversar

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto


Olha só pra mim. Quem me dera. Eu vivo no sumiço. Vento de maio me leva por diante.

Alberta de Montecalvino, a dama deste não-lugar, foi quem me deu a idéia de visitar esta efêmera página virtual.

Sou um dos fantasmas de Passo dos Ausentes, a cidade perdida nos Campos de Cima do Esquecimento, na serra do Rio Grande do Sul. Me chamo Heitor dos Crepúsculos.

Escrevo essas linhas sem muita fé de ser lido. Meu amigo Juan Niebla diz que escrever num blog é escrever na água.

Eu não ligo, sou só de passagem, não tem importância, nada tem muita importância. Não tenho ideia de permanência, compreende? 
 
- Escreve alguma coisa, Heitorzinho. Te mostra um pouco, meu querido. Entre os mortos-vivos dessa cidade, és um dos mais sentimentais e engraçados - disse Juan, tocador de bandoneón da estação de trem abandonada.

Não pretendo me dar ares de escritor. Sou, talvez, um escrevedor póstumo, alguém que publica suas histórias no vento. Não escrevo, claro, pra publicar em livro. Olha só pra mim. Não tenho mais a literária vaidade.

Passou o tempo e me levou.

Eu era poeta. Sempre vivi dentro do nevoeiro. Conversava, e às vezes me desesperava, com a folha em branco. As danações do criador.

Depois atravessei a ponte, depois vim para o invisível. Saí do mundo aos 27 anos por vontade própria. A vida era insuportável, não via saída, a esperança não entrava na minha alma. Eu poeta trevoso.

Quem me vê hoje, pode dizer sem engano: ali vai o arrependido.

Apareço e desapareço, tenho as superiores autorizações. Um fantasma é um ser virtual. Ora está, ora não está. Às vezes choro de saudade da vida com a cabeça entre as mãos pelos telhados. O menino que eu era quando saltei.

Não moro no pequeno cemitério, porque nunca encontraram meu corpo. Me joguei do penhasco, no belvederezinho aprazível que tem na descida do Vale do Olhar.

Foi um momento de infinita angústia, nem queira saber. Cansei de ser gente (o menino que eu era!). Os tristes apressamentos. Cada coisa que se faz na vida.

Nunca quis morrer de verdade. Queria um pouco só, pra sentirem pena. Quando vi o que tinha feito, já era tarde. Agora só existo no oblívio.

Aqui em Passo dos Ausentes todos me aceitam do meu jeito neblinoso, não se incomodam com o lusco-fusco que eu sou. O interrompido. O volátil.

Na dimensão esvoaçante e nevoenta, tudo é muito em paz, mas é uma paz cinza e sozinha.

Escrevo esse breve apontamento na mesa perto da janela que dá para o Vale do Olhar, no Café dos Ausentes, na estação de trem abandonada.

Observo o vento nas palmeiras da tarde gelada de maio. Meu amigo Juan Niebla, músico cego, com seu bandoneón na gare vazia e silenciosa, esperando um trem de passageiros que não virá. Agora está tocando As Quatro Estações Portenhas, do Astor Piazzolla.

O último trem partiu faz muito tempo. Esqueceram de desligar a esperança no coração do Juan. Feliz dele assim.

Só a música é eterna. O resto é bruma.

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Heitor dos Crepúsculos é fantasma e poeta em Passo dos Ausentes.

sábado, 28 de maio de 2011

A rua antiga me atravessa

Jorge Adelar Finatto



A vida se esconde na rua antiga.
A saudade mora aqui desde antes do mundo ser inventado.
Os passos dos habitantes se ouvem na longínqua estrela.
Quem nos vê, quem nos vale nesse labirinto?
A vida inteira no postigo.
Tantas coisas eu sonho.
Tantas coisas eu sinto.
As pedras da rua antiga são diamantes do oblívio.
O tempo nela escorre feito lágrima.
Ninguém vê essa cicatriz aberta na face do planeta.
Calado observador do fim do mundo.
A rua antiga me atravessa.

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Do livro Calado Observador do fim do mundo, Editora Vésper, Passo dos Ausentes, 2010.
Foto: J. Finatto. Colonia del Sacramento, Uruguai.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Livro, livros

Jorge Adelar Finatto


Passei um tempo numa livraria-café nesta tarde de maio. As livrarias me causam encantamento natural, porque gosto de caminhar em meio a  bosques. Por outra parte, elas me trazem um sentimento de angústia, porque há livros que nunca lerei, o tempo é curto, as estantes são infinitas.

Peço desculpas prévias aos livros e autores que não conhecerei.

Mas tem o lado da beleza colhida nos livros descobertos na imensa floresta. A esses, gratidão.

Cultivo a arte de ser lento.

Essa coisa tão fora de moda que é parar, fazer silêncio, sentir o mundo.

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Foto: J. Finatto

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Pequenas notícias

Jorge Adelar Finatto


O poema é uma pequena notícia, uma biografia mínima. É alguém contando sua passagem no mundo. Deve ser lido aos poucos, em lentos sorvos, à impossível pressa. Como quem estivesse a bordo de um breve barco que avança calmamente pelo rio. Sou capaz de ouvir o rumor dos remos batendo na água. 

Escrever poemas depois de Walt Whitman e Fernando Pessoa pode parecer um tanto quanto inútil. O imenso talento e a altura da obra destes dois poetas universais podem soar inibidores de novas vozes. Mas, abrindo um pouco mais o olhar, é possível reconhecer em cada indivíduo uma nova maneira de ver e sentir a existência. Como se a experiência do ser humano no planeta se renovasse em cada um de nós. Então, se assim é, o texto da vida está sendo sempre reescrito. Por isso todo canto é bem-vindo. Ninguém deve desistir diante da tradição. A obra dos que vieram antes deve servir de estímulo e inspiração, não de constrangimento. O resto é vida, trabalho e fé.
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Foto: J. Finatto

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Seco

Jorge Adelar Finatto



photo: j.finatto
 
Coração seco, boca seca, mão seca. Secas palavras, medo seco. Secas pétalas de camélia vermelha dispersas no chão da praça. Seco, seco.
 
Secos pássaros dormem em ressequidos galhos. Secas folhas de plátano se agitam contra o azul. Manhã silenciosa, bailarina morta na caixa de música, enferrujado relógio de parede, tudo seco.
 
Secou a ponte que unia os amantes, inundava-os com a urgente carícia. Secaram as velas das faluas do Tejo.

Os olhos que olhavam o pôr-do-sol no Guaíba secaram, secaram.
 
Secos homens invadiram as ruas secas da cidade, cometeram tristes barbaridades.
 
O milharal, de tão seco, pegou fogo.
 
Sentimento e pensamento, secos. O sexo ficou seco. As páginas do livro de poemas por escrever, secas, secas.

Seco olhar observa do fundo do espelho.
 
A ternura, a ternura, um rio seco, seco dentro do coração. 
 

sábado, 21 de maio de 2011

Lars von Trier e a desumanização da palavra

Jorge Adelar Finatto

Não terá sido esta, provavelmente, a última vez que alguém declara simpatias por Hitler e pelo nazismo. O cineasta dinamarquês Lars von Trier foi mais um, ao declarar, no Festival de Cinema de Cannes, compreender Adolf Hitler e ser nazista. Disse que gostava de judeus, mas nem tanto, porque Israel é um pé no saco. Declarou-se, também, admirador da arte e do talento de Albert Speer, arquiteto oficial do Terceiro Reich.

As declarações foram feitas durante entrevista coletiva de apresentação de seu filme Melancholia, na quarta-feira passada. Diante da péssima repercussão, desculpou-se depois, afirmando arrepender-se do que disse, que tudo não passou de uma brincadeira estúpida. Acrescentou que não era nazista.

Os responsáveis pela organização do festival expulsaram von Trier do evento por suas afirmações. Admitiram, contudo, que seu filme continuasse concorrendo. Além disso, declararam-no persona non grata. Caso seu filme venha a ser premiado, ele não poderá estar presente na cerimônia, conforme amplamente divulgado na imprensa. Pelo que entendi, ironizou o cineasta, a decisão significa que eu estou proibido de chegar a cem metros do Palais. Mas acho que posso tomar um sorvete ali perto e olhar à distância.

O que impressiona, além das declarações absurdas, é essa maneira frívola como von Trier trata o episódio, mesmo após a repercussão negativa e do seu pedido de desculpas. Dificilmente alguém brinca quando se trata de Hitler e da 2ª Guerra Mundial. Estamos falando de um dos maiores, mais cruéis e terríveis massacres da história do homem, sendo desnecessário estender-se sobre suas funestas e indeléveis consequências.

Impressionante ver que um homem de 55 anos, diretor premiado de cinema, que trabalha com cultura de massa, não tenha o alcance do que diz (não terá mesmo?), numa coletiva daquele que é um dos mais tradicionais festivais de cinema do mundo. É triste vê-lo ocupar um espaço de tamanha importância e visibilidade para dizer coisas como essas, que ofendem não apenas os judeus como são uma afronta a toda a humanidade. Se quem tem o poder da palavra, na arte, o utiliza desta forma, estamos muito mal.

Diante do seu pedido de desculpas, diminui a justa indignação das pessoas que não aceitam qualquer forma de condescendência com a intolerância, a crueldade e a violência. É muito complicado tudo isso, vindo de quem vem.

Se é verdade que a boca diz aquilo de que o coração está cheio, então a situação do cineasta é mais preocupante do que parece. Esperemos, todavia, que não, que tudo, realmente, não tenha passado de uma brincadeira estúpida.

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Declarações do diretor, em itálico, colhidas do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, edições de 19 e 20 de maio, 2011.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

O alfarrabista e as florestas do mundo

Jorge Adelar Finatto


O instante é este pedaço de eternidade. Traço essas linhas enquanto olho pela janela, o vento nas folhas do arvoredo em volta da casa. A lenha queima na lareira, a chama ilumina e aquece. Escrever é um jeito de participar da vida. E é bom ficar assim, sentindo o movimento do planeta em seu giro pelo universo. Neste recanto de montanha, nessa hora tardia, um pouco de sossego no coração.

Há muitos bons livros que nunca lerei, idiomas bonitos que não aprenderei, cidades e ruas que não terei tempo de visitar. Há pessoas com quem jamais trocarei uma só palavra. É estranho pensar nisso.

A partilha da solidão entre todos os seres. Não será menos solitário o alfarrabista enquanto espera entre as florestas de livros. Livros que esperam nos bosques das estantes. Autores e livros à espera de quem os descubra e os ame. Existe solidão abissal em não ser descoberto nem amado.

Nessa hora longínqua, de noite fria lá fora, folhas caindo no pátio, preciso acreditar que há amor para todos. Neste momento, o que escuto é a bela música da vida.

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Foto: J. Finatto
 

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Hermeto Pascoal

Jorge Adelar Finatto



De menino eu quisera ser marinheiro. Mas depois, com medo do mar, eu fora é músico, uma orquestra inteira, no meu coração sonhador. A música é um jeito da gente trazer o mundo dentro de si, e todas as vidas, todos os barcos e todas as águas junto. Se alguém procura saber, no hoje (tão longe do menino que eu fui e dos sonhos que não aconteceram) que Villa-Lobos eu quisera ser, neste agora tão medonho da vida e do mundo, então eu dizia, sem remorso nem bazófia: quisera ser Hermeto Pascoal. Não medra esconso  o meu dizer. Quero os versos e os acordes do alvoroço. O amanhecer do humano esforço. Grande Sertão e estelares veredas. Algaravia de sons. Tudo voa e no ar se encontra. Os arranjos do engenho e da arte que o artista faz. Não faço enciclopédia, digo apenas o que sinto, e já não é pouco nessa quirera. Eu quero, sim, os espantos. O cheiro da flor da laranjeira de manhã. Eu quero a hermética, universal, pascoalina melodia.

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Foto: Hermeto Pascoal. Autor: Rique Barbo. 
Fonte: site oficial do artista: http://www.hermetopascoal.com.br/

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Eugénio de Andrade

Jorge Adelar Finatto


Na vida, ter talento só não basta, é preciso trabalhar muito para chegar a algum resultado. Muitos talentos se perdem, nas mais diversas atividades, por falta de entrega e persistência.

Existe um poeta pouco conhecido no Brasil, que é dos grandes que temos na língua portuguesa: Eugénio de Andrade. Nasceu em 19 de janeiro de 1923, em Póvoa de Atalaia, centro de Portugal, e morreu em 13 de junho de 2005, na cidade do Porto, onde hoje existe a fundação que leva seu nome.

Lê-se pouca poesia no Brasil e no mundo, de modo geral. Os tempos são duros. A poesia é o gênero literário que pede um leitor sensível, atento à beleza da palavra e da composição no seu grau mais elevado de elaboração (o poema), e, sobretudo, um leitor dotado de espiritualidade.

Um brutamontes dificilmente terá afeto pela poesia.

Eugénio de Andrade é um belo poeta. Lida com o poema de forma rigorosa e, ao mesmo tempo, com notável simplicidade. A simplicidade que só os mestres alcançam como resultado da dedicação cotidiana e obstinada ao trabalho.

Na vida, ter talento só não basta, é preciso trabalhar muito para chegar a algum resultado. Muitos talentos se perdem, nas mais diversas atividades, por falta de entrega e persistência.

A poesia de Eugénio de Andrade nos traz encanto e esperança. Como nestes dois poemas.


O SORRISO

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.


VER CLARO

Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.


A obra do poeta é rara. Para melhor conhecê-la é interessante uma visita ao site da Fundação Eugénio de Andrade¹ e, claro, a leitura de seus livros. Entre nós, onde Eugénio, infelizmente, é quase desconhecido, existe a antologia Poemas de Eugénio de Andrade², que oferece uma boa visão do conjunto de sua obra.

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¹Fotos e poemas de Eugénio de Andrade reproduzidos do site da Fundação Eugénio de Andrade:
http://www.fundacaoeugenioandrade.pt/
² Poemas de Eugénio de Andrade, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1999.
Texto publicado em 25 de maio de 2010.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Vivaldi e a noite fria de outono

Jorge Adelar Finatto


A vida é uma melancólica estação de trem onde todos estão só de passagem rumo ao esquecimento.

Escutava o Concerto em Mi Menor, "Il favorito", op.11. n. 2, andante, do veneziano Antonio Vivaldi (1678 - 1741) no começo desta noite fria de outono, de lua cheia, em Passo dos Ausentes. A música é muito sentimental, vai crescendo dentro da gente de um jeito calmo. Não sei por que, enquanto a ouvia, passei a recordar certos dias de outono na minha infância. A avó preparava doces, conversava e costurava. A casa de madeira de pinheiro ficava entre os plátanos, à beira do arroio.

O arroio tinha música viva. A bruma costumava andar a esmo nas redondezas e com ela o silêncio. Quando alguém abria a porta, um pouco daquela névoa entrava e tomava assento na sala, como um fantasma. O mundo era então um lugar muito pequeno.

Um dia a avó partiu na neblina, levando para sempre as costuras, as conversas, os doces. Não teve tempo de se despedir. A casa fechou-se como um coração que esfriou. Fui para a estação de trem. O que aconteceu depois foi uma longa história de partidas sem despedida.

A vida é uma melancólica estação de trem onde todos estão só de passagem rumo ao esquecimento.

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Foto: J. Finatto

Three poems

Jorge Adelar Finatto



Event

My face in the rain
in the wind
sad like a scarecrow

Evento
Minha cara na chuva
no vento
triste como um espantalho



Occupation

life is a horror that I allow myself

Ofício
 a vida é um horror que me permito



Tragedy

the moon has fallen over the crops

Tragédia
a lua caiu na plantação

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Poems from the book Viveiro, Edições Grupo Sanguinovo, São Paulo, 1981.
Foto: J. Finatto