segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A câmara de Manoel de Oliveira faz 80 anos

Jorge Adelar Finatto


photo: Manoel de Oliveira. Fonte: Correio do Porto*


Na universidade, fui aluno rudimentar das aulas de cinema. Só hoje, muito tempo depois, me dou conta do que aconteceu. Ou melhor: não aconteceu. Fomos rudes alunos, porque nos faltou o essencial: observar, aula após aula, ano após ano, com toda atenção, os movimentos da câmara de Manoel de Oliveira.

Deveríamos ter aprendido a ver cinema com os olhos do cineasta português. Mas fomos por outros caminhos.

A sintaxe intimista e inaugural de Manoel de Oliveira respira silêncio, mistério e revelação. Ao mesmo tempo, poucas vezes se veem imagens com essa qualidade.

Na sua lenta e rigorosa composição, a câmara deste que é o mais antigo cineasta em atuação no mundo (completará 103 anos em 11 de dezembro próximo) nos leva por ermos, sinuosos, encantadores itinerários.

Manoel de Oliveira estreou em 19 de setembro de 1931, com o filme "Douro, faina fluvial". A péssima reação de parte da plateia presente naquele V Congresso Internacional de Crítica, em Lisboa, teria levado o dramaturgo e escritor italiano Luigi Pirandello a perguntar se, em Portugal, se costumava aplaudir os bons filmes com os pés...

O filme não agradou os portugueses por mostrar pessoas pobres, às vezes descalças, na dura lida do comércio de peixes. Os estrangeiros, por outro lado, gostaram muito. Iniciava-se ali um novo modo de pensar e fazer cinema.

A Manoel de Oliveira a nossa homenagem.

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* www.correiodoporto.com

domingo, 18 de setembro de 2011

Explode na cidade a primavera

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto


As praças e ruas recebem a visita dos pássaros.

Setembro, em Porto Alegre, oferece belas pinturas e concertos ao ar livre. Muitas flores e plantas espalhadas no espaço público e em jardins particulares. Fotografei uma roseira numa calçada aqui perto, um escândalo.

photo: j.finatto

Pessoas cansadas dos seus tugúrios, que também atendem pelo nome de apartamentos, vêm para as ruas no sábado e no domingo.


photo: j.finatto


A arte não está só nas galerias, nos livros e museus (às vezes, nem aí está). Está nos olhos de quem sabe olhar as coisas simples.


photo: j.finatto

O que importa é a qualidade da experiência estética. Pode ser um ipê amarelo, um canto de muro, uma floração na esquina.


photo: j.finatto

A beleza está em toda parte. Um exagero poético, vá lá.

photo: j.finatto



Explode na cidade a primavera.


sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O mundo na capa da gaita

Jorge Adelar Finatto


pintura: Maria Machiavelli
Vida difícil em todo lugar. Com raríssimas exceções, ninguém se sente muito à vontade no planeta nos últimos anos, tantos são os problemas, os medos, as violências e inseguranças que nos cercam. O mal-estar se espalha como aqueles círculos que se formam na água quando atiramos uma pedra.

Penso especialmente naqueles irmãos de certas regiões de África, que sofrem com o drama da falta de alimentos, lá onde há gente que morre de fome. Este o quadro mais doloroso.

Fruto de uma desordem mundial, de um esquecer-se do outro, de um culto sem precedentes à vaidade e ao todo poderoso deus do dinheiro e do mercado. Países ricos buscam saídas individuais para a crise da economia "globalizada" (essa que reparte prejuízos e concentra riquezas).

Os salvadores da pátria do "faça como quiser" já não conseguem encontrar soluções para suas casas que desmoronam e seus iates que afundam na baía.

Os mares e as terras do mundo, com sua generosa fertilidade, são capazes de abastecer com relativa facilidade os sete bilhões que seremos até o fim do ano. Mas qual o quê! "Faltam" alimentos para os pobres.

A Europa, quem diria, submete com regras duríssimas as comunidades de economias mais atrasadas da zona do euro.

Aqui no Brasil, onde existem condições para melhorar a vida de toda a população, a corrupção instalada rapina o dinheiro público, esse que faz falta na saúde, na educação, no sistema penitenciário, na cultura, na moradia, na qualidade de vida das pessoas, etc.

Alguém já fez a conta, ainda que aproximada, de quanto os gastos com a indústria da guerra, nos Estados Unidos, são responsáveis pelo afundamento da economia daquele país?  

Por que não se proíbe simplesmente a fabricação, a compra e a venda de armas no mundo? Já existe armamento suficiente para fazer quinhentas guerras mundiais.

Os desastres ambientais se intensificam por fatos do homem. Há países que não têm reservas de água potável para os próximos anos. O que vai ser?

Um pouco de solidariedade poderia salvar muita coisa. Mas, como tudo na vida, só vai acontecer se começar dentro de cada um. Nos pequenos e invisíveis gestos do dia a dia, na relação com as pessoas (colocar-se no lugar do outro), no respeito incondicional à vida e ao bem comum.

Isso tudo é velho e sabido como andar de pé. Mas por que será que não aprendemos? 

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Do coração para as mãos

Jorge Adelar Finatto

Trabalhos de Rosane de Lima e Bruna Maciel. photo: j.finatto

A tarde azul e morna de setembro faz esquecer o rigor dos últimos frios. Redivivos, depois do longo e fustigante inverno, começamos a sair da caverna. Visitei ontem uma feirinha de artesanato, na praça central da cidade de Canela, serra gaúcha.

Um espaço gracioso, situado quase na frente da antiga estação de trem. Nele, objetos simples e criativos cativam o olhar. Impressiona a arte que encontramos em muitas das peças expostas. As artesãs (a maior parte dos expositores são mulheres) mostram um talentoso trabalho feito em casa, com poucos recursos.

Peças de Izabel Ribeiro Dias e Gisele Ribeiro Dias, mãe e filha. photo: j.finatto

A dignidade com que essas pessoas se entregam ao ofício é tocante. O artesanato é uma arte ainda pouco vista e pouco divulgada. Os trabalhos são muitas vezes únicos, porque produzidos individualmente. Os preços são acessíveis.

idem

Eu sou um encantado por artesanato e a minha vontade é levar um monte de coisas. A morada da gente é um curioso e colorido museu de móbiles pendurados, bonecos, pinturas, esculturas e sabe-se lá mais o quê. Para que algo novo entre, às vezes é preciso que uma peça mais antiga saia.

A casa do indivíduo é um território introspectivo, povoado de coisas que têm a sua cara, invisíveis para o mundo.

Os artesãos dificilmente ficam ricos com seu ofício. Mas não é isso que importa. Estão na luta, tocando a vida honestamente e produzindo beleza. São pessoas assim, com este espírito, que nos dão esperança em um tempo mais humano e num mundo mais bonito.

photo: j.finatto

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O homem que roubou o sol

Jorge Adelar Finatto


pintura: Maria Machiavelli
 

Um homem de coração triste pode entristecer a vida de muita gente.

O sol está preso no sótão da casa do homem sem esperança.

Em uma manhã de infinita tristeza, ele ergueu os braços, apanhou o sol com as duas mãos, como se fosse uma laranja, e o levou para o trevoso lugar. Desde então, não mais o devolveu para a rua onde mora.

- Nunca, nunca mais vou soltar o sol -, disse a um grupo de meninos e meninas que foram até a frente de sua porta. 

- Ninguém mais vai ver a luz nem receber calor nessa rua.

À noite, os vizinhos observam a estranha claridade que escapa pela claraboia. Raios iridescentes giram entre si, perpassam o espaço e vão em direção ao vazio universo. Nenhum, no entanto, fica para iluminar aquele pequeno lugar mergulhado na sombra.

O homem triste tem uma pedra enorme, pesada e fria, no coração. Uma lápide com uma inscrição numa estranha língua que ninguém entende. Não consegue mais falar nem sentir.

O roubo do sol foi um ato de desespero, de revolta com coisas más que aconteceram na sua vida. Ao agir dessa maneira, privou a rua e seus habitantes de luz, alegria e esperança.

É preciso trazer de volta o homem triste para o convívio, antes que tudo em volta dele congele, antes que as seivas sequem, antes que desapareça a vida naquela rua.

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Maria Machiavelli é artista plástica em Passo dos Ausentes onde mantém ateliê e nele ensina gratuitamente técnicas de pintura.

domingo, 11 de setembro de 2011

Eu ia tomar um bonde amarelo

Jorge Adelar Finatto


photo: Museu Virtual Memória Carris. Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Imagem de José Luís Kieling Franco


Eu ia tomar um bonde amarelo
e dar um giro pela cidade
mas não existe mais o bonde amarelo
nem eu tenho dez anos

me engano ou essa cidade
mudou de endereço
se não, como explicar tanta gente
desconhecida nas ruas
e os amigos perdidos nas esquinas
do tempo do bonde?


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Do livro Claridade, Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento, 1983.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O sol do outono ilumina o córrego

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto

Olhemos o córrego. Sim, caminhemos em suas verdes sombras. As águas nascem no silencioso ventre da montanha e afloram, com suave rumor, num remanso.

Olhemos o sol do outono dentro do córrego. Sigamos sem pressa por suas curvas e declives no interior da mata, ouvindo os pássaros.

Peixinhos vermelhos, amarelos e brancos aparecem e somem num reflexo entre os ramos e as pedras. Os seixos ficaram redondos de tanto rolar no mundo. É bom sentir sua forma entre os dedos dos pés, acariciá-los na palma da mão. Sintamos o córrego.

Amemos o córrego. Vamos com os pés descalços, em lentos passos de quem caminha pela vez primeira. Sim, sigamos como habitantes do itinerário cantante das águas, no seu eterno movimento para o oceano.

Descobriremos que não estamos tão sós e que não há solidão irremediável no mundo, porque existe o córrego escorrendo entre passos e pássaros na mata.

O sol do outono ilumina o córrego.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Camafeu sentimental


Jorge Adelar Finatto
 

photo: j.finatto
 

Deve ter sido assim
num lugar assim
num tempo assim

ele foi feliz um dia
sem saber o que era
 felicidade
 

Uma fotografia guardada há muito tempo na gaveta. Ele já esteve nesse lugar. Nem sabe quando. Uma velha casa de madeira entre pinheiros. Um córrego esperto cantando ali perto. Pode ouvi-lo agora claramente. Na janelas laterais, floreiras com gerânios de variadas cores.

Lá dentro, em volta de uma grande mesa, pessoas se reúnem para o café da tarde. Um alarido de véspera de primavera. O menino olha aqueles rostos iluminados. O cheiro de pão feito em casa, no fogão de barro, se espalha por tudo.

Em volta daquela mesa, retratos na parede. Em volta da parede, o mundo gira em lentas rotações.

O aroma de jasmim invade o ambiente. No quintal grande, caminha-se entre laranjeira, ameixeira, romãs, pitangueira, mamoeiro, parreira, abacateiro. O cinamomo florido abre os galhos perto do poço, o banco pintado de branco embaixo.

Há muito tempo ele não visitava a casa da infância.

As buganvílias exalam azul e branco no jardim.

O gato dorme entre novelos de lã na cadeira de balanço.

Um dia recortado no tempo. Pessoas vivendo sem medo da separação. Cálida alegria.

A fotografia, camafeu sentimental.

Deve ter sido assim, num lugar assim, num tempo assim, ele foi feliz um dia, sem saber o que era felicidade.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O livro eletrônico

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto. novas folhas nascerão
  

Se o caro leitor teme que o livro eletrônico poderá varrer do planeta o livro de papel, fique calmo, isto não acontecerá. Dia desses, vi na televisão (sempre ela) a demonstração de como funciona o livro digital.

As palavras estavam lá  na pequena tela luminosa, intercaladas por imagens, entre elas algumas que, tocadas com a ponta do dedo, movimentavam-se coloridas como num filme. São breves animações que ilustram o texto, podendo ser utilizadas, se assim quiser o leitor.

Gosto muito da associação de textos e imagens, o que fica claro no tipo de trabalho que tento fazer aqui no blogue. Se é possível acrescentar recursos técnicos que valorizam o texto, tornando a leitura mais atraente, com imagens, notas explicativas, dicionários, sons e outros, penso que isto é válido. Em nada prejudica a leitura, pelo contrário, enriquece o ato de ler.

Não sou favorável a qualquer manipulação do texto literário em função do suporte. Nada de resumos, cortes, compactações. Simplesmente, deve oferecer o texto tal como é, podendo o leitor usar ou não os recursos disponíveis.

O livro eletrônico é uma realidade irreversível. Ainda é muito caro, eu não me animo a comprar um. Mas deverá tornar-se cada vez mais acessível. Um mesmo aparelho, do tamanho de um livro de bolso, poderá carregar não só uma, mas várias bibliotecas, além de permitir o acesso a jornais e revistas em meio digital, entre outras possibilidades.

O livro impresso não irá desaparecer, mas sem dúvida deixará de ser o principal instrumento de leitura. Gente como eu, que ama o livro de papel, nada perderá. Haverá outras opções de leitura apenas, e isto é muito bom.

Com relação à formação das novas gerações de leitores, acredito que a tecnologia aplicada ao livro vai facilitar bastante o processo, nestes tempos em que o computador faz parte da vida das pessoas.

Estarei sendo moderno ou ingênuo além da conta? Terei sido abduzido por falsas promessas de felicidade?

O que vocês acham?


domingo, 4 de setembro de 2011

Não escrevemos o primeiro verso

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto. magnólias


Não escrevemos o primeiro verso
há tudo por ser dito
mas sou teimoso
insisto no jogo

quando desanimares pensa em mim
que não abandonei as ferramentas
que não dei um verso para a eternidade


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Do livro Claridade, Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento, 1983.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Ah, uma tarde solto por aí

Jorge Adelar Finatto


barco de papel: j.finatto

Ah, uma tarde solto por aí. Navegando pelo rio no meu barco de papel. Ao largo do continente, sem compromissos, distante das mesquinharias, das bocas que nunca se calam, da violência, das cotidianas grossuras e vaidades.

Esqueço de mim, de ti, da nossa infinita desimportância no arranjo cósmico.


Deito no fundo do barco, olho as nuvens. 

Descortino o voo leve, lento e branco da gaivota. Só escuto o som do vaivém das ondas batendo na quilha.

Ah, um dia longe da cidade, disso tudo que tira a cor da alegria e corrompe a força da beleza.

Coração ao vento, sem hora pra voltar. 


quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A caixa do mágico


Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto. saudade de Passo dos Ausentes


Tão divagado, tão ermo, tão falto de poder.

Um bardo não devia sair por aí numa hora dessas.  A temerária cidade e seus perigosos caminhos.

Alguém falou que é tarde demais, a utopia afundou, o encanto acabou, é melhor desistir dos sonhos.

Eu sei que é madrugada, faz frio, setembro dobra a esquina e quase tudo está perdido.

Trago a poesia na caixa de mágico.

Por isso abri o guarda-chuva e atravessei o medo da cidade. Por isso fugi da escura casa. Por isso, pra não secar o rio dentro de mim, estou aqui perto da tua ausência.

Para ir ao teu encontro escolhi as melhores palavras no livro dos espantos. Nessa longínqua hora. 

Carrego um lírio numa mão e o chapéu cheio de pássaros na outra. Eles não param de sair.

Os meus pássaros voam para ti e em teu nome levantam o róseo véu da aurora.


segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Vingança

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto



O que eu faço sentado
na solidão desta praça
que o outono pintou
de amarelo?

eu me vingo das salas


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Do livro Claridade, Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento, 1983.


domingo, 28 de agosto de 2011

Promessa do sol

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto



Estou vivo e lúcido
na tarde da América do Sul

entre palmeiras verticais
e andorinhas azuis

entre o que restou do teu jeito
e a promessa generosa do sol
batendo na minha cabeça



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Do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Navegador de barco de papel


Jorge Adelar Finatto

O poder e a vaidade perdem o homem.
Barcos de papel, às vezes, podem salvá-lo.


photo: j.finatto. cais de porto Alegre


O pequeno barco do caderno escolar levanta âncora no bolso do homem sério e triste.

Um homem circunspecto, com tantos casos para decidir.

Quem o vê saindo assim para o trabalho, de manhã cedo, terno, gravata e pasta, não imagina o que leva no coração.

Olha o mundo através das grossas lentes dos óculos, carrega perplexidades e sonhos que ninguém percebe.

O barco de papel desliza entre as vagas do dia pesado e cinza.

O navegador sonha a fuga do real, ao avistar o Guaíba da janela do gabinete.

A cidade vive dentro do rio uma existência invertida. No fundo das águas habitam seres harmoniosos, os gestos são calmos, existe esperança.

O navegador planeja o exílio do mar de conflitos e sofrimentos em que mergulha todos os dias.

No fim da tarde, caminha até a beira do rio, retira o barco do bolso, solta-o na água. Larga a pasta, tira a gravata, o casaco, os sapatos, empurra a embarcação e salta para dentro.

O vento com cheiro de água doce e dos peixes que nela vivem expande a vela rumo ao Sul. Na quilha do barco o colorido infantil dos lápis de cor.

As ilhas observam a absurda solidão das pessoas no continente, a falta de amor, a falta de justiça.

Ele deita-se no fundo do barco, exausto, as mãos atrás da nuca. Olha as estrelas e a lua que aparecem aos poucos no céu. Anseia um lugar em que possa ter tempo pra sentir, pensar, conviver, olhar a paisagem.

Peixes prateados saltam pelos lados do barco, nadando na mesma direção.

O sol se põe.

Estar só no crepúsculo é o de menos.

Difícil é largar o barco dentro d’água, soltar a vela, buscar outras margens.

Difícil é não ser igual à pedra nem se dar por vencido.

No fim de todas as tardes, ele foge com o menino que mora dentro dele.

A felicidade civil de sentar no barco, olhando a cidade de longe, o movimento dos aguapés, a aquarela do pôr do Sol.

O rio abraça a cidade e suas dores.

O navegador do barco de papel presta atenção no ritmo das ondas, nas gaivotas, biguás, reflexos.

O rio está povoado de céu e peixes (sim, há peixes vivos, estrelas e nuvens dentro do rio).

Sinos tangem a música do entardecer sobre as águas do Guaíba.

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Texto publicado em 02 de janeiro, 2010.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Viagem aos moinhos de vento

Palomar Boavista

Moinhos de vento em Campo de Criptana. Foto de Lourdes Cardenal, 2004. Fonte: Wikipédia.


Não há nenhuma alma nas ruas desertas e nevoentas de Passo dos Ausentes a essa hora tardia. Inútil, com a bruma desfiando suas brancas sedas por aí, querer perscrutar o firmamento atrás de corpos celestes. Nenhuma galáxia, nenhuma estrela, nenhum cometa, nenhum farelo de luz. O frio congela os ossos e os astros.

Sentando no observatório, na cadeira de balanço, me enrolo no velho pala de lã crua. Deixei acesa a luminária de fraca claridade, no canto da sala, ao lado do telescópio. Estou meio dormindo, meio em vigília.

Sonhei que o avô me esperava lá fora, na rua, sob o poste de luz amarela. Me acenou embaixo do guarda-chuva e do boné, fazendo sinal para ir ao seu encontro. Fui. 

Cego, o avô se apoiou no meu ombro, como sempre fazia, e saímos a caminhar na escuridão. Falou das coisas da vida e da saudade que sentia do mundo.

- Trouxe os óculos? - perguntou. Nunca esqueça dos óculos.

O avô ama os livros que leu no tempo em que ainda havia luz nos seus olhos. Alguns trechos guardou na memória. No sonho, ele me pediu para acompanhá-lo numa visita a Campo de Criptana, pequena povoação na região de La Mancha, na Espanha.

- Foi ali que Dom Quixote travou a famosa batalha contra os gigantes, que, na verdade, eram apenas moinhos de vento. Vamos lá conhecer a maravilha de perto. Criptana é a cidadezinha mais bonita da Mancha, com suas casas brancas contra o céu azul. Leia pra mim, Palomar, em voz alta, o capítulo VIII, primeira parte, do Dom Quixote, antes de entrarmos no pueblo.

Acordei com o som da chuva batendo no telhado. Tirei os óculos, me enrodilhei no pala feito gato e cerrei os olhos outra vez. Voltei a caminhar com o avô, ouvi suas histórias e visitamos juntos a terra dos moinhos de vento, nessa noite fria de névoa e ausência.

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Palomar Boavista é astrônomo-mor em Passo dos Ausentes.


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O náufrago que escrevia na água

Jorge Adelar Finatto


pintura: Maria Machiavelli


O náufrago escreveu sobre a falésia da ilha, em verdes letras de folhas de bananeira, um pedido de socorro. Estava no lugar havia muitos dias, em meio a palmeiras, pássaros, cachoeiras, borboletas e ventos.

A ilha era muito isolada. Nem risco de avião havia naquele céu austral.

O tempo passou e nada acontecia. O náufrago começou então a escrever breves textos na areia. Não sabia se aquilo era poema, conto, crônica, desabafo ou simples diário de náufrago.
 
Registrava coisas, sentimentos, estados de espírito, sonhos, pesadelos, esperanças, fugas, mistérios. A água do mar vinha e apagava tudo quando a maré enchia.
 
O náufrago não tinha lápis nem calepino (gostava de dizer esta palavra esquisita em voz alta, no silêncio da ilha).

Um dia ele desistiu de ser descoberto. Ninguém ia escutá-lo mesmo no fim de mundo onde vivia.

Passou a escrever direto na água com a ponta do dedo.
 
As letras azuis eram desenhadas nas linhas brancas da espuma. Escrevia com o fervor das primeiras e últimas palavras dos afogados, escrevia para sobreviver naquele mar de solidão.

As palavras afastavam-se da ilha e desfaziam-se em direção ao horizonte.

O náufrago era agora o homem que escrevia na água.

Escrevia para os peixes e as gaivotas.
 

domingo, 21 de agosto de 2011

Passagem

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


O ronco do avião
sobrevoa meu quarto
no bairro Menino Deus

o ruído espesso
rasgando a madrugada
me desperta o sono

eu sigo o barulho
até onde o ouvido alcança
sonho com a possível cidade
do continente
que ele irá desvendar

imagino o cenário
o olhar de certa mulher
mil prazeres e aventuras
esperando no lugar

(a bela vida que lá acontece)

no domingo a essa hora

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Do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Federico García Lorca: a memória em busca do poeta

Jorge Adelar Finatto


Entre Víznar e Alfacar, cercanias de Granada, as grandes pedras demarcariam a possível localização da fossa onde estão os restos mortais do poeta Lorca, assassinado há 75 anos. Foto: jornal espanhol El País




Poeta, músico, pintor, compositor, dramaturgo, García Lorca está entre os grandes da literatura espanhola e universal. Assassinado brutalmente antes do amanhecer, há 75 anos, no início da Guerra Civil Espanhola, seu corpo jamais foi encontrado. Surge agora informação sobre a possível localização da fossa.

Federico García Lorca (Fuente Vaqueros, 5 de junho, 1898 - algum lugar entre Víznar e Alfacar, madrugada de 18 ou 19 de agosto, 1936), um dos grandes poetas que a Espanha deu ao mundo, foi assassinado pouco antes do amanhecer, provavelmente na madrugada do dia 19 de agosto de 1936, sendo uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), que mergulhou a Espanha numa das maiores tragédias de sua história. 

As forças fascistas e nacionalistas, contrárias à vitória da Frente Popular (esquerda republicana), nas eleições de fevereiro de 1936, mataram o escritor andaluz aos 38 anos, nas cercanias da cidade de Granada, num lugar entre os povoados de Víznar e Alfacar.

O que motivou o absurdo assassinato do autor de obras-primas como o Romancero Gitano? Por certo, o ódio injustificado e grotesco com relação ao fato de Lorca ser o poeta que a cada dia se tornava mais conhecido e respeitado por sua importante obra, naquela altura em plena construção, aliado à sua condição de republicano, pessoa sensível às injustiças sociais, contrário ao atraso que representava a extrema direita. As reformas pretendidas pelo governo eleito, na esteira da constituição democrática de 1931, iam na contramão de interesses conservadores de parte da sociedade espanhola. A explosão de violência se instalou com a revolta dessa parcela da população e de setores militares a partir de 17 de julho de 1936.


Foto do poeta. Fonte: site oficial da Fundación Federico García Lorca*
Ocorre que Lorca não tinha partido e nem militância política. Tinha seus ideais humanistas e sua sensibilidade contra as iniquidades sociais.

La popularidad de Lorca y sus numerosas declaraciones a la prensa sobre la injusticia social le convirtieron en un personaje antipático e incómodo para la derecha: “El mundo está detenido ante el hambre que asola a los pueblos. Mientras haya desequilibrio económico, el mundo no piensa. Yo lo tengo visto. Van dos hombres por la orilla de un río. Uno es rico, otro es pobre. Uno lleva la barriga llena, y el otro pone sucio el aire con sus bostezos. Y el rico dice: ‘¡Oh, qué barca más linda se ve por el agua! Mire, mire usted el lirio que florece en la orilla’. Y el pobre reza: ‘Tengo hambre, no veo nada. Tengo hambre, mucha hambre’. Natural. El día que el hambre desaparezca, va a producirse en el mundo la explosión espiritual más grande que jamás conoció la humanidad. Nunca jamás se podrán figurar los hombres la alegría que estallará el día de la gran revolución. ¿Verdad que te estoy hablando en socialista puro?” [Entrevista en La Voz, Madrid, 7 de abril de 1936]. Fonte: site da Fundación Federico García Lorca.


No dia 11 de julho, durante jantar na casa do amigo Pablo Neruda, em Madri, foi aconselhado pelos presentes a não ir para Granada, devido ao clima de violência que tomava conta no país. Todavia, resolve sair da capital e ir encontrar-se com a família. No dia 13 de julho, toma o trem, na estação de Atocha, em direção a Granada. Em 20 de julho, o cunhado Manuel Fernández Montesinos, prefeito socialista de Granada, casado com sua irmã Concha, é detido pelos revoltosos, que tomam o poder na cidade.

Lorca conversa com os familiares e decide instalar-se na casa da família Rosales, no centro da cidade. Embora com membros ligados à Falange Espanhola, de direita, os Rosales eram amigos do poeta. No entanto, na tarde de 16 de agosto, foi preso. Nessa mesma data seu cunhado foi fuzilado. Embora o empenho dos Rosales e outros, as forças de extrema direita decidiram fuzilar também o poeta, como a muitas pessoas.

Há referência de que entre as razões da prisão de Lorca, constantes no documento que se perdeu, estaria, além da motivação política, a sua condição de homossexual.

O poeta foi fuzilado antes do amanhecer, na madrugada do dia 18 ou do dia 19 de agosto de 1936, em algum lugar sombrio entre as localidades de Víznar e Alfacar.

O corpo nunca foi encontrado e seus restos mortais permanecem desaparecidos, como o de milhares de pessoas vitimadas durante aquele período.

Estima-se que a ferocidade da Guerra Civil, que dividiu a Espanha, custou ao país mais de 500 mil mortos. Com a vitória dos nacionalistas, o líder do movimento, general Francisco Franco, instalou o governo ditatorial, que se prolongaria de 1939 até 1975, ano em que morreu. 

O jornal espanhol El País divulgou a fotografia acima, na edição de 10 de agosto passado, como sendo a possível localização da fossa onde foram atirados os corpos de Lorca e de três outros homens fuzilados com ele, o professor primário republicano Dióscoro Galindo, e Joaquín Arcollas Cabezas e Francisco Galadí Melgar, bandarilheiros anarquistas.

A indicação do lugar - demarcado por cerca de nove grandes pedras - resulta de observações feitas pelo historiador malaguenho Miguel Caballero e pelo arqueólogo aragonês Javier Navarro Chueca. A ideia é de que, em breve, sejam realizadas pesquisas no local em busca do que restou dos corpos do poeta e dos outros.

Há dois anos foram feitas escavações em uma área próxima, sem êxito. 

A Espanha empenha-se hoje na reconstituição de sua memória histórica. Nesse sentido, a localização das fossas onde se encontram os restos dos corpos das vítimas da barbárie faz parte de uma busca necessária, para o estabelecimento da paz de espírito de familiares e de todos os que sofreram, de alguma forma, perdas com tão longo silêncio em torno das valas comuns.

Penso que a reconciliação da Espanha com sua história, e não mais a negação desta, passa por gestos como este, de tentar resgatar e dar sepultura digna a quem sofreu violações durante o conflito, de um lado e de outro.

Digo eu, em vermelho, que, neste e em outros casos, enquanto não há um corpo, ou restos mortais, o sentimento que fica é de que a morte não se completa no coração de quem vive e dos que virão depois, há uma espécie de prolongamento do luto no tempo e na história, embora não exista dúvida a respeito do fato. 

Ao contrário de abrir velhas feridas (que, de resto, nunca se fecham na obscuridade), isto pode levar ao necessário caminho da tolerância, do respeito e do convívio democrático (o que pode haver senão isso?). Trata-se de um resgate e de uma construção que já não importam somente à Espanha, mas a toda a humanidade.

Tomara que desta vez se encontre o que restou do corpo do poeta Federico García Lorca, dando-se-lhe a humana sepultura, e há de ser um bem que assim seja, ao menos como lembrança e símbolo do horror, para que violências deste tipo nunca mais aconteçam no mundo.


Porém eu já não sou eu,
nem meu lar é mais meu lar.
Compadre, quero morrer
decentemente em minha cama.

 

(Do poema Romance Sonâmbulo,  de Lorca)**

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* Fundação Federico García Lorca, site oficial:
http://www.garcia-lorca.org/Home/Home.aspx
** Antologia Poética, tradução de William Agel de Mello, Editora L&PM, Porto Alegre, Brasil, 2005.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Quase primavera

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto - orquídea


Nem bem extintos os últimos raios, trovões e ventanias, pressinto os começos da nova estação. São apontamentos que se inscrevem aqui e ali no intermezzo de agosto.

photo: j.finatto - flor de pessegueiro

Saudade é isto que eu sinto dos dias de luz grata e benigna na janela do amanhecer.

photo: j.finatto - flor de magnólia
   
A primavera é certa como os primeiros ramos dos pessegueiros em flor.

photo: j. finatto - flor de magnólia
 
A inflorescência principial anuncia-se no entorno da casa. A claridade de Deus levanta-se neste lado do mundo. Bem-vinda sejas tu, que atravessas a escuridão.

photo: j.finatto - camélia

Que venham as manhãs carregadas de flores no silêncio de setembro.

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Fotos: feitas com máquina Sony dsc-hx1, em 16 agosto, 2011. Passo dos Ausentes.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Moça na tarde lilás

Jorge Adelar Finatto


Ela vem bela pela rua triste. É tarde e já chove.

Embaixo das flores dos jacarandás, o mundo é um guarda-chuva lilás.

Ela vem triste, na bela rua dos jacarandás. Chove na tarde e o mundo cheira a lilás.

O guarda-chuva não protege a moça de estar só na tarde.

Ela vem sozinha e atravessa a chuva.

O mundo é belo. A tarde é lilás.

O coração da moça chove na tarde dos jacarandás.

Ela vem na calçada coberta de flores.

A moça é a luz que alumia a rua triste.

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Foto: Jacarandá mimoso. Fonte: Wikipédia. Autoria: Conservatoire Botanique National de Mascarin.