domingo, 25 de março de 2012

Menestrel virtual

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto


O blogueiro é como o menestrel de antigamente. Leva na mão o alaúde. Entrega seu verso e sua prosa a quem quiser, em troca de um pouco de atenção.

Escrever num blogue tem virtudes. A principal delas é, talvez, evitar a derrubada de árvores para publicação de livros. O blogue se constrói no meio imaterial, não agride a natureza. É abstrato como um fantasma.

Ninguém cheira nem toca as páginas do blogue. Nesse sentido (como em muitos outros), o livro é insubstituível. A utilização do ambiente virtual é uma necessidade e uma saída diante da profusão de pessoas que estão escrevendo.

O autor do blogue pode alterar o que escreveu a qualquer tempo, e isto é importante para melhorar a qualidade do texto (principalmente em se tratando de blogue literário). O texto está em permanente construção.

No momento em que se pressiona a tecla "publicar", o conteúdo vai para o espaço infinito e pode ser lido por qualquer habitante deste e de outros planetas.
 
A solidão compartilhada dá um sentimento de companhia na dura vida da escrita.

Haverá, de fato, leitores interessados no que escrevemos? Ninguém sabe. Eu pelo menos não sei. O que importa é que o recado está na rede. As palavras estão à procura de quem as leia e, quem sabe, também as ame.

O blogueiro, tão parecido com o ancestral troglodita, vive ruminando e anotando na sua caverna virtual, em busca de comunicação.
 
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Texto publicado em 9 de outubro, 2010.
 

quinta-feira, 22 de março de 2012

Vida bonsai

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto
    
A `A a´´´´´ á ``a~a~a~a

Escrever é devorar o mundo com palavras.

á~â ``a  á`a

O escritório é um lugar silencioso, recolhido. O mapa das viagens sonhadas e nunca realizadas repousa sobre a mesa, cheio de anotações.

Alguns cravos vermelhos respiram na terra escura, no vaso perto da janela.

                                    b c d e f

Ao longe, a mata e a verde silhueta das montanhas. O voo azul e esquivo das últimas andorinhas nas escarpas, antes da partida ao hemisfério norte (a sempre procurada primavera).

O bonsai carrega dois figos pendentes sobre a escrivaninha.

A fonte, no velho tronco escuro, leva água para cima e para baixo, num movimento que lembra o incessante moinho circular da vida.

                                           l j m n hh   hh   çrt xt

O som da água escorrendo é mergulho e passagem dentro da luz.

A presença das pequenas coisas levanta a palavra da escuridão.

O outono inaugura novas seivas nos caules, nos corpos, nas almas.

O pássaro cabe na mão. Um livro é uma coisa singela. Um só olhar desvela todo o horizonte.

Vida pequena, vida possível, vida inventada

                                              uu uah  uauhhh   iih  êêêê

 

Bonsai de palavras, fresta de claridade no breu da escrita.

Letras brilhando na tela, voando como andorinhas, se projetando na infinita nuvem virtual. Em busca talvez de um olhar que as resgate da grande dispersão.

Agora é tempo de respirar fundo, habitar os aposentos interiores do outono, soltar palavras como pandorgas ao vento.


segunda-feira, 19 de março de 2012

O fantasma e o menino

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


O fantasma habita a alma do menino.

Oscar é como um parente antigo, desses que um dia batem na porta, com uma mala de couro pesada, uma roupa velha, sapatos cobertos de pó, trazendo no olhar todo desamparo desse mundo.

Em noites de vento, o menino ouve o barulho das correntes no porão. Oscar agita-se muito nas cercanias do outono. O menino é o único da casa que sabe da sua existência.

Não, o fantasma não está preso, nada o impede de ir para onde quiser. Simplesmente arrasta as correntes com as mãos de um lado para outro, numa espécie de desalento que não tem fim.

Oscar é um Sísifo condenado a recordar a vida e a todos que amou e perdeu. Arrasta as recordações pelas noites de outono adentro. Não há consolo na sua solidão.

Ele tem o cabelo muito branco, escorrido até os ombros, a pele da face rosada, as mãos solitárias. Veste bermuda cinza e uma camisa branca abotoada até o pescoço. Tem o semblante vazio.

Às vezes, o menino desce ao porão, tenta conversar. Mas ele não fala a respeito do seu viver tão fatigado.

Oscar toca violoncelo, na música deposita sua frágil e dolorida alma.

Nunca olhou o menino nos olhos. Olha para as paredes de pedra com um olhar vago de quem mira o mar de cima de uma montanha. 

O menino costuma deixar a luz do porão acesa, como uma rosa branca num vaso azul de porcelana.

Há coisas em relação às quais nada se pode fazer. Mas nem por isso o menino é triste. O sol de cada dia é sempre uma nova oportunidade.

O passado é algo estranho e insuportável.

O silêncio, às vezes, fala mais que qualquer palavra.

sábado, 17 de março de 2012

Primeiro informe do outono

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


Uma certa luz

Este é o último sábado de verão. O próximo será outono. Chega ao fim o longo e suado estio. Os primeiros ocres e amarelos surgem nas folhas. É tempo de passagem para uma nova luz. Quaresma. O tempo das quaresmeiras em flor.


Um certo artista

Deus é um artista caprichoso e incomparável. Só ele tem paciência e tempo (a eternidade, no caso) para pintar folha por folha, ramo por ramo, galho por galho com tamanho engenho e arte. E sua caixa de lápis de cor não tem igual no universo.

O que é o fotógrafo da natureza, senão um mero copiador da obra Dele, sem nada pagar de direito autoral?


photo: j.finatto

Que a nova estação nos traga boas notícias nas cartas do vento.


Cavalo-Marinho

Uma das coisas mais bonitas que ouvi ultimamente é a música Cavalo-Marinho, de Cacaso e Nando Carneiro, na linda voz de Rosa Emília. Está no youtube, onde alguém colocou a canção com imagens do nascimento de um cavalo-marinho. Algo raro, emocionante:

 http://www.youtube.com/watch?v=h-jI0bObvVI

O poema de Cacaso é de uma simplicidade tocante:

                            Galopa cavalo marinho
                                    me ensina o caminho
                                    que devo tomar
                                    Solta as crinas no vento
                                    galopa no vento
                                    cavalo do mar

Está no livro Mar de Mineiro (poemas e canções), de 1982.


Balaio de uva na beira da estrada

Nessa época, quem anda pelas estradas da serra costuma encontrar tendas onde se vendem uvas em balaios de vime. Também oferecem queijos, frutas, verduras, embutidos, vinhos, chás, produtos coloniais e artesanais, chapéus de palha, além de boa conversa. As tendas estão à sombra de frondosos plátanos, cujas folhas começam a dourar. Sentir o cheiro e a frescura desses lugares é voltar um pouco na infância. Às vezes, lá longe, uma cascata branca escorre numa escarpa de antiquíssimo basalto.


photo: j.finatto


Milagres

Não acredito muito em milagres, mas que existem, existem. Tanto é que estou/estamos por aqui, em mais um outono de nossas vidas. Considerando as duras vicissitudes e os entrementes, isto não é pouca coisa.


sexta-feira, 16 de março de 2012

O poema como carta

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto. 



O poema
como carta
sem destinatário certo
que não vai pela mão
                                do carteiro
mas chega a alguém
e é salvo da ironia
da gaveta



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Do livro O Habitante da Bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.

Conversas de escritores

Jorge Adelar Finatto

photo: jornalista José Rodrigues dos Santos

Há um bom programa de entrevistas com escritores na Rádio e Televisão de Portugal (RTP), que se chama Conversas de escritores. É apresentado pelo jornalista e escritor José Rodrigues dos Santos. O apresentador conversou com alguns dos autores mais importantes da literatura mundial, como o português José Saramago e o alemão Günter Grass, entre outros.

As entrevistas são muito bem conduzidas, com perguntas pertinentes e, sobretudo, com tempo para os entrevistados responderem (coisa rara nos meios de comunicação). Não há comerciais e tudo se passa como se a conversa acontecesse na nossa sala.

Caso queiram fazer uma visita, o acesso é pelo link:

RTP - CONVERSAS DE ESCRITORES

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Fotografia: jornalista e escritor José Rodrigues dos Santos.
Fonte: http://www.livroseleituras.com

quarta-feira, 14 de março de 2012

Cacaso

Jorge Adelar Finatto



Cacaso estaria fazendo 68 anos na data de ontem, 13 de março. Em memória, reproduzo este texto publicado em 02 de outubro de 2010.

Foi o poeta e compositor Cacaso a pessoa que melhor traduziu, até hoje, o sentido do que escrevo. Devo a ele a leitura mais luminosa e mais profunda. O texto foi publicado no jornal Leia Livros, na coluna Vinte pras duas, em 1982. Era sobre meu livrinho de poemas Viveiro, lançado em São Paulo, em 1981, pelo Grupo Sanguinovo.

Fiquei surpreso e feliz com o que ele escreveu, e havia bons motivos. Cacaso é um poeta raro, dos melhores que tivemos na segunda metade do século XX*. Escreveu poemas e letras de música como poucos. Fez parcerias com Tom Jobim, Edu Lobo, Sueli Costa, Djavan, Francis Hime, João Donato, Macalé, entre tantos. Foi professor na Faculdade de Letras da PUC do Rio de Janeiro. Tinha uma leitura muito lúcida sobre o Brasil e nossa cultura. Era um intelectual refinado e, ao mesmo tempo, uma pessoa simples e generosa. Conhecia as ruas das grandes cidades e conhecia o interior brasileiro. Conhecia e amava o nosso povo.

Em 1985, tive o único encontro com ele, visitando-o em seu apartamento na Avenida Atlântica, no Rio. Recordo a ampla sala com piano de onde se via o mar de Copacabana. E uma outra sala, local de trabalho, que tinha um armário repleto de fitas com músicas gravadas. No trato pessoal, revelou-se muito atencioso, disposto a falar e ouvir.

Cacaso (Antônio Carlos Ferreira de Brito, 1944 - 1987), esse homem, esse poeta, esse pensador, foi um pecado morrer tão moço, com tanto ainda para nos ensinar, nos ajudar a entender e nos escutar.

A poesia do Jorge Adelar Finatto é breve, sem muitos volteios, incapaz de autocomplacência e dotada de uma região de silêncio que lhe comunica transcendência. O poeta vê o cotidiano como um absurdo rotineiro, um lugar onde o escândalo já não escandaliza e onde certa dose de perversidade e dureza torna-se um antídoto necessário à sobrevivência.


Cacaso

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Foto: Cacaso. Divulgação. Revista Bravo online, março de 2009. Ilustra excelente texto de Geraldo Carneiro sobre o poeta. bravonline.abril.com.br

* A antologia lero-lero, da editora Cosac & Naify, lançada em 2002, é uma bela mostra do trabalho de Cacaso.

Vale a pena visitar a bonita página criada pela cantora Rosa Emília para Cacaso no facebook:



segunda-feira, 12 de março de 2012

O prisioneiro da Ilha de Patmos

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


A família espiritual de A eram os livros. Os poucos que havia na casa, quando ainda era menino, e depois os outros, que foi amealhando feito formiga, um a um, com tenacidade e alumbramento.

A família dos livros tinha uma vantagem. Nenhum de seus membros morria ou desaparecia, o que acontecia com alguma frequência com os outros familiares.

Os livros retirados das bibliotecas por empréstimo eram parentes distantes. Traziam a aura de quem passou por muitas casas, iluminando solidões diurnas e noturnas. Guardavam o cheiro misturado dos ambientes que tinham frequentado.
 
Na casa antiga, havia muitos silêncios. Vultos moviam-se calados. Um relógio velho de parede tentava acompanhar a passagem do tempo, mas nele as horas tinham enlouquecido.

O mundo de papel e tinta surgiu para espantar os fantasmas que o amedrontavam. Sabia que, mais dia, menos dia, acabaria só, como todos.

Uma espécie de eternidade habitava os livros.

Havia um gato na casa, porque gatos gostam de histórias assombradas. No porão gelado e sombrio, coisas inúteis eram esquecidas.

Um retrato de Getúlio Vargas ocupava o centro da parede da sala, o pai dos pobres, como se dizia.

A janela do quarto de dormir olhava o nada.

A rua se chamava São João, nome do apóstolo que teve as visões na Ilha de Patmos, no mar Egeu, onde esteve exilado por falar de Deus e dar testemunho de Jesus, e na qual escreveu o livro bíblico Apocalipse (Revelação).

A rua São João era a nossa Ilha de Patmos. Ali todos eram prisioneiros de um tempo e de um lugar e o destino lhes era comum: afundar no esquecimento.

Exilados do mundo, todos alimentavam o sonho secreto de um dia fugir. Fugir para sempre, para qualquer lugar, ainda que fosse o último ato da vida.
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Texto publicado no blogue em 27, out, 2011.

sábado, 10 de março de 2012

O escravo e sinhá

Jorge Adelar Finatto


ESCUTEI o samba no rádio. Era aquela hora da tarde em que olhamos a janela sonhando fugir para algum lugar distante.

O samba Sinhá, do mais recente cd de Chico Buarque de Holanda, conta a história de um negro escravo que é levado ao tronco pelo "feroz senhor de engenho", sob a acusação de olhar a sinhá despida tomando banho no açude. É o próprio escravo quem narra o fato.

Num lamento, ele nega a imputação que lhe é feita pelo senhor, "Sou de olhar ninguém/Não tenho mais cobiça/Nem enxergo bem".

O senhor de escravos, de olhos azuis, decide furar as vistas do pobre e indefeso homem.

Na última parte do canto, quem fala é o cantor, dizendo-se atormentado, "Herdeiro sarará/Do nome e do renome/De um feroz senhor de engenho/E das mandingas de um escravo/Que no engenho enfeitiçou Sinhá".

Pelo que sugere, a relação entre escravo e sinhá foi além de um simples olhar.

Trata-se de obra-prima de Chico Buarque e João Bosco, com texto do primeiro, que resgata um bárbaro evento (fictício ou real) do período da escravidão no Brasil. Um doloroso retrato da sociedade escravocrata.

Como obra de arte, toca fundo a nossa emoção e nos faz pensar. Não será esta capacidade de nos tirar da inércia e da indiferença a virtude superior da arte?

Sinhá é um samba de alta eficácia literária, musical e humana, que resume um tratado de sociologia e, de quebra, nos faz chorar.


Sinhá

  Chico Buarque e João Bosco

Se a dona se banhou
Eu não estava lá
Por Deus Nosso Senhor
Eu não olhei Sinhá
Estava lá na roça
Sou de olhar ninguém
Não tenho mais cobiça
Nem enxergo bem

Para que me pôr no tronco
Para que me aleijar
Eu juro a vosmecê
Que nunca vi Sinhá
Por que me faz tão mal
Com olhos tão azuis
Me benzo com o sinal
Da santa cruz

Eu só cheguei no açude
Atrás da sabiá
Olhava o arvoredo
Eu não olhei Sinhá
Se a dona se despiu
Eu já andava além
Estava na moenda
Estava para Xerém

Por que talhar meu corpo
Eu não olhei Sinhá
Para que que vosmincê
Meus olhos vai furar
Eu choro em iorubá
Mas oro por Jesus
Para que que vassuncê
Me tira a luz

E assim vai se encerrar
O conto de um cantor
Com voz do pelourinho
E ares de senhor
Cantor atormentado
Herdeiro sarará
Do nome e do renome
De um feroz senhor de engenho
E das mandingas de um escravo
Que no engenho enfeitiçou Sinhá


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Cd Chico. Chico Buarque de Holanda. Biscoito Fino, 2011.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Alvaro Moreyra

Jorge Adelar Finatto

Se um dia tiver de escolher um cronista pra levar para uma ilha deserta (essa pequena ilha imaginária que todo mundo tem, de náufrago, com uma só palmeira, perdida no meio do oceano), este cronista será o porto-alegrense Alvaro Moreyra (1888 - 1964).

O Brasil tem cronistas de valor, o sempre lembrado Rubem Braga é, com justiça, um bom exemplo. Mas nenhum tem a sintaxe tão refinada, natural, despojada e poética de Alvaro Moreyra. Não será exagero dizer que ele fundou a moderna crônica no Brasil.

As palavras parecem gostar de ser tocadas pela mão do escritor. Passeiam com ele, brincam, mergulham, saltam da página, seduzem e se deixam seduzir. Adoram estar perto do senhor Moreyra (ele acrescentou o y ao nome em lugar do i). Não há sobras nem há faltas no texto deste autor (principal influência literária de Carlos Drummond de Andrade, nos anos de formação, entre os escritores brasileiros).

São breves composições que têm a invulgar capacidade de traduzir sentimentos, pensamentos, estados de espírito, aquarelas da alma que normalmente são difíceis de pintar. A leveza, o humor, a bondade, a delicadeza e a ironia inteligente (que nunca se confunde com grosseria) são sua marca.

Um olhar amoroso sobre os seres e a vida é o traço deste artesão do verbo.

A injustiça e o sofrimento das pessoas não passam despercebidos nas páginas deste comunista devoto de São Francisco de Assis.

Poeta, diretor de revistas, teatrólogo (iniciou o movimento de renovação do teatro em nosso país junto com a mulher, Eugênia Moreyra, através do Teatro de Brinquedo),  Alvaro Moreyra sempre levou Porto Alegre e o Guaíba no coração por onde andou.

Estas impressões vêm a propósito de ter descoberto agora a edição de uma antologia de crônicas do escritor, recolhidas dos vários livros que publicou no gênero. É a primeira publicação desta natureza dedicada ao autor de Um sorriso para tudo. A obra faz parte da Coleção Melhores Crônicas, da editora Global, com seleção e prefácio de Mario Moreyra.

Tomo a liberdade de sugerir aos meus dois leitores que não deixem de levar para casa este livro. Estou certo de que viverão momentos de felicidade na companhia do senhor Arlequim da Silva (pseudônimo de Alvaro).

... E fico a ver navios. É um passatempo. O mar, por ser sempre o mesmo, é diferente sempre. Às vezes, verde, com franjas de espuma. Outras vezes, azul, parado, imóvel. Em certas manhãs, parece uma cauda de pavão... Eu gosto do mar. Paro, horas esquecidas, na areia da praia, olhando as ondas, marujamente, cheio de uma nostalgia deixada em mim pelos portugueses meus ancestrais... E fico a ver navios...

É o que tenho feito em toda a minha vida...

                                         Alvaro Moreyra *

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Foto de Alvaro Moreyra: reprodução de fotografia do escritor publicada na revista  Para Todos, de 19 de março de 1927 (coleção do autor do blog).

*Alvaro Moreyra, Coleção Melhores Crônicas, p. 54. Seleção e prefácio de Mario Moreyra. Global Editora, São Paulo, 2010.

Leia mais sobre Alvaro Moreyra:
A memória do coração:

Páginas de velhas revistas:
 
Teatro de Brinquedo:
 

sábado, 3 de março de 2012

Iberê Camargo e a escrita da solidão

Jorge Adelar Finatto

Solidão, pintura de Iberê Camargo, 1994. Foto: Luiz Achutti.
Fonte: site da Fundação Iberê Camargo:
http://www.iberecamargo.org.br

No passar vertiginoso do tempo, o instante quer ficar. O pintor é o mágico que imobiliza o tempo.
Iberê Camargo


Fiz uma visita à Fundação Iberê Camargo agora no fim de fevereiro. O edifício localiza-se na beira do Guaíba, e foi desenhado pelo famoso arquiteto português Álvaro Siza.   Gostei muito do lugar, sua organização, atendimento, mas acho que bem poderia ter pelo menos uns quatro janelões a mais para se admirar o rio e Porto Alegre.

Em nada interfeririam nos ambientes de exposição, já que as aberturas estão nos corredores isolados que rodeiam em espiral o interior do prédio.

Nada se compara à visão da cidade e seu rio. Penso nessa outra pintura não para fazer concorrência com as obras expostas no interior do museu, mas para nos aproximar dessa outra beleza, tão natural e delicada, integrando-a naquele espaço de arte. Falo como alguém que se ressente da falta de pontos de observação em Porto Alegre.

A cidade e seus habitantes estão vendados para o rio.

escultura Os Arqueólogos, bronze. De Chirico, 1968. photo: j.finatto

Era um dia nublado de fevereiro. Havia a tarde pela frente, suficiente para a visitação das duas exposições: Conjuro do mundo: as figuras-cesuras de Iberê Camargo, e De Chirico: O sentimento da arquitetura. 

Tenho um conhecimento pouco profundo da obra do gaúcho Iberê Camargo (1914 - 1994). A visita contribuiu para ampliá-lo. A fundação é o lugar ideal para conhecer esse importante artista brasileiro do século XX.

A minha relação com o grego Giorgio De Chirico (1888 - 1978, pronuncia-se De Quírico, conforme aprendi lá no museu) é mais antiga, vem do tempo em que andava às voltas com os surrealistas, sendo eu mesmo um deles, tardio embora, alguém que valoriza o inconsciente e os sonhos  no ofício de criar. Faziam parte de minhas admirações gente como De Chirico, André Breton, Salvador Dali, Antonin Artaud, Miró, Magritte, Lautréamont e vários outros membros da inquieta e ilustre família.

Há nas exposições pinturas encantadoras de Iberê e de De Chirico, além de belas esculturas deste último. Recomendo, portanto, vivamente uma visita a ambas. 

vista de uma janela da FIC. photo: j.finatto

As contínuas reformas na nossa cidade - a cidade é a nossa casa - nos transformam em forasteiros. O progresso é uma ação de despejo em execução.
Iberê Camargo

Os azuis da pintura de Iberê são únicos. Como no quadro Solidão, pintado no ano de sua morte. O que o artista nos transmite é um forte sentimento de que a beleza e a solidão caminham sempre lado a lado. Parece que uma não existe sem a outra. 

O indivíduo está só com ele mesmo e na vida em sociedade. Os caminhos são tortuosos e estão cheios de pedras. Nessas pinturas, há uma visão turva do destino humano. A metáfora de um tempo com a marca da crueza, num século que nos deixou de herança duas guerras mundiais e um ambiente nunca visto de desprezo ao humano e perda de sentidos.

A minha maior surpresa, contudo, viria depois da visita à FIC. Movido pela curiosidade de conhecer um pouco mais o pensamento do pintor, adquiri seu livro  Gaveta dos Guardados, publicado em 2009 pela Fundação Iberê Camargo e editora Cosac Naify.

O que li nesses textos é resultado do trabalho de um escritor talentoso, senhor do ofício da palavra. Este é um livro com horizonte e profundidade, de alguém que tem realmente o que dizer e o faz com arte.


interior da FIC. photo: j.finatto

Iberê não é apenas um artista plástico que escreve bem. Não é somente um homem culto que resolveu escrever e dar-se ares de escritor. Não. É um escritor que domina a expressão escrita com maestria e originalidade. 

Sou impiedoso e crítico com minha obra. Não há espaço para alegria. Acho que toda grande obra tem raízes no sofrimento. A minha nasce da dor.
Iberê Camargo

O autor escreve com rigor e no que diz não existe espaço para superficialidades e salamaleques. Escrever, para este pintor de palavras, é um ato de vida ao qual se consagrou por inteiro.

Gaveta dos Guardados é um livro de memórias, mas é, sobretudo, um livro no qual se plasma a criação literária em alto nível. Uma descoberta.

Iberê Camargo é um caso raro de artista com domínio vigoroso e fecundo de duas linguagens.

fachada da FIC. photo: j.finatto

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As três frases em azul foram retiradas do livro Gaveta dos Guardados (págs. 102, 103 e 31), de Iberê Camargo. Fundação Iberê Camargo, editora Cosac Naify, São Paulo, 2009.


quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A sempre louca busca do invisível

Jorge Adelar Finatto


(Meu relógio e eu temos em comum a urgência de viver o tempo das pequenas coisas. As revelações do farelo.)


photo: j.finatto



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Contraforte dos Capuchinhos, Passo dos Ausentes. photo: j.finatto

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O Artista

Jorge Adelar Finatto

Jean Dujardin e Bérénice Bejo, em O Artista. Fonte: Divulgação

Na semana passada, assisti a O Artista, dirigido por Michel Hazanavicius (França, 2012, 100 min) e saí do cinema encantado por ver, enfim, um filme de arte, bem distante dos clichês, dos bruxinhos e dos efeitos especiais tão em voga. É um filme em preto e branco, mudo, tendo bela trilha sonora de fundo. 

Conta uma história humana, ao tratar de um ator que percorre difícil itinerário que o leva da fama à decadência, na Hollywood da década de 1920. Estrela do cinema mudo, George Valentin não assimila bem a chegada do cinema falado e aí começa a sair de cena. A jovem atriz e dançarina Peppy Miller, que se projeta no novo modo de fazer cinema, acompanha de perto o drama do ator.

O filme fala também da vaidade que, às vezes, toma conta de nós quando o sucesso acontece (em qualquer profissão ou atividade) e de como ela pode nos levar ao fundo do poço.

Mas O Artista nos recorda, sobretudo, do amor, da empatia e da solidariedade que deve haver entre as pessoas, principalmente em momentos de crise e desorientação (pelos quais todos, mais dia, menos dia, acabamos passando).

Dos filmes que vi nos últimos tempos, este é um dos mais tocantes. Nada nele é forçado e a emoção flui e cresce naturalmente ao longo da trama. Diferente, por exemplo, de A invenção de Hugo Cabret, do diretor Martin Scorsese, (Estados Unidos, 2011, 126 min), notável em efeitos especiais, mas no qual o sentimento não amadurece, tem pressa de mostrar-se ao espectador, e acaba não acontecendo, ao menos não como em O Artista, em que cada lágrima e cada riso têm sua razão e seu momento.

Os Oscars (a cerimônia avançou até o início da madrugada desta segunda-feira, no horário do Brasil) de melhor filme para O Artista e  o de melhor ator ao seu protagonista Jean Dujardin são, por todas as razões, mais do que merecidos (ganhou também os prêmios de melhor direção, figurino e trilha sonora). Pra não esquecer: a atuação de Bérénice Bejo, como Peppy, tem momentos inesquecíveis. 

Lavei a alma, porque as premiações a O Artista fizeram justiça.


As órbitas misteriosas

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


A coisa mais difícil do mundo é encontrar guarda-chuva perdido.

O meu guarda-chuva desapareceu num início de outono. Éramos inseparáveis até então.

Nos perdemos num dia de forte neblina nos Campos de Cima do Esquecimento. Tínhamos saído para dar uma volta aqui em Passo dos Ausentes, garoava.

Num momento em que me distraí, veio um pé-de-vento e o arrancou de minhas mãos, ele saiu voando alto, foi em direção ao Vale do Olhar, nunca mais voltou. Desnecessário dizer que deixou uma dor no meu coração.

Decerto ele agora anda em órbita em volta da Terra, como as bonecas de trapo das primas antigas e os borzeguins azuis do major.

Tudo que um dia perdemos vira um ponto de luz no espaço.

(As coisas perdidas deixam sempre algum rastro.)

Por isso, acredito que nada do que amamos se apaga simplesmente.

O meu guarda-chuva perdido era como amigo de infância.

A gente nunca esquece, mas não sabe ao certo para onde o vento o levou.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Efêmera canoa

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


Diante da cidade cinza, atravessa indiferente uma canoa.
Vista assim parece cartão-postal. Uma recordação do passado distante.
De tantas pinturas concebidas, nenhuma será tão bela como a cidade e seu rio.


photo: j.finatto


A solidão da canoa desliza pelo retrato, em lenta e agonizante passagem rumo ao crepúsculo.
O homem atrás do peixe.


photo: j.finatto


O pescador e o peixe ao largo da cidade.
O observador, no continente, na sua ilusão de beleza e permanência.
Todos em direção ao oblívio.


photo: j.finatto

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O cenário é Porto Alegre; o rio, o Guaíba.
Fotos feitas em 22, fevereiro, 2012.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O escritor e seu carnaval

Jorge Adelar Finatto


pintura: Maria Machiavelli


O escritor sai pela rua no seu solitário bloco de carnaval.

Como será uma fantasia de escritor? A cara pintada de palhaço. Um enorme nariz de papelão. Nos olhos, grandes óculos redondos e pretos em forma de bicicleta. Um bigode de trilho de trem. Na cabeça, o chapéu de Napoleão, feito de folha de jornal.

Um par de borzeguins vermelhos desamarrados.

Na esquina, ele se mistura ao cordão de foliões, se deixa levar pelas ruas do bairro fantasiado da estranha criatura que, na verdade, é. Ele vai com o cordão pelo meio da praça, de mãos dadas com a alegre mascarada que encontrou pelo caminho. Ela tem pequenos olhos azuis e cabelos pretos escorridos nos ombros.

O escritor e a mascarada dispersam-se do grupo. O dia amanhece. Encostados nas costas um do outro eles descansam num banco da praça. Ele com um catavento na mão. Ela com um hibisco amarelo preso no cabelo.

Uma chuva de verão começa a cair. Eles correm e entram no Café da Aurora que àquela hora  abre a porta aos primeiros fregueses. Pedem uma taça de café preto, o pão ainda quente do forno.

Enquanto isso, lá fora, sob a chuva azul, arlequins, colombinas e pierrôs passam molhados na calçada, cantando As Pastorinhas.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

No carnaval, olhando o mar

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. Amsterdam

Estava na livraria, no sábado de carnaval, olhando a estante como quem mira o mar de dentro do seu barco, ávido por partir. Esse olhar nunca é inocente. Há uma busca de felicidade na mão que se eleva até a prateleira.

A simples procura faz alguém feliz, essa transitória felicidade que, às vezes, nos habita em meio ao tumulto.

A velha angústia de saber que não há tempo pra ler nem a metade dos livros que gostaríamos torna a escolha um momento difícil. Mas não desanimo nem estou preso ao cânone, à obrigação de ler certas obras só porque alguém disse que tem de ser assim. Não.

Estou diante da estante, olho o mar de histórias.

Esse instante deve ser, acima de tudo, lúdico. Afinal, não bastasse a brevidade das coisas, hoje é carnaval.

Quero a leveza do barco ancorado na beira do canal. Quero um livro profano, desses que ensinam a arte de andar de bicicleta pelas ruas do bairro sem ser atropelado por isso.

Ou um que enuncie o nome dos pássaros dessa cidade, ou traduza a forma das nuvens nos céus de fevereiro. 

No movimento das águas desse mar, escolhi alguns títulos que prometem boas fugas do território das ilhas: O Cemitério de Praga (romance, Umberto Eco), Um Pai de Cinema (fábula, Antonio Skármeta) e Chamadas Telefônicas (contos, Roberto Bolanõ). Pelo que li, em voo de gaivota sobre as ondas, são profanos o suficiente para alegrar o meu carnaval.

Diante da estante, sábado, olhando o mar.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Anne Frank, para não esquecer

Jorge Adelar Finatto


Anne Frank. Fonte: Fundação Anne Frank
http://www.annefrank.org/

Espero poder contar tudo a você, como nunca pude contar a ninguém, e espero que você seja uma grande fonte de conforto e ajuda.
(O Diário de Anne Frank, 12 de junho de 1942)

Um domingo de outono em Amsterdam, fim de novembro, 2011. O vento corre sobre os telhados e canais, enquanto a garoa cai gelada. O fato de ser domingo, muito frio e úmido, não afasta as cerca de 200 pessoas que aguardam na fila para entrar na casa-museu onde viveu Anne Frank (1929-1945) nos últimos dois anos de sua vida, antes de morrer no campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha. Estou no fim da fila. Poucos minutos depois outra extensa fila se forma atrás de mim. São pessoas de todas as idades e nacionalidades.

Anne escreveu nesta casa o famoso diário no tempo em que aqui esteve mergulhada com a família no Anexo Secreto, durante a ocupação nazista da Holanda, na Segunda Guerra Mundial. Pelo fato de serem judeus, os Frank, como milhões de outros, foram implacavelmente perseguidos pelo nazismo alemão. Em 1933, haviam se mudado da Alemanha, seu país de origem, para Amsterdam, a fim de fugir do regime de Hitler.

Otto Frank construiu este refúgio na parte dos fundos do imóvel onde funcionava sua empresa, situada na rua Prinsengracht, 263, à beira de um canal. Fez isso prevendo o dia em que teriam de mergulhar (sumir) para não ser presos e assassinados. Em 6 de julho de 1942, trouxe a família para cá. O esconderijo foi chamado de Anexo Secreto. Deixaram para trás o apartamento onde viviam ele, a esposa Edith e as duas filhas, Anne e Margot.  Na parte da frente da casa continuou o negócio, comércio de alimentos, cuja propriedade Otto passou para o nome de outros (os judeus não podiam exercer atividade empresarial), embora, na prática, continuasse a dirigi-lo.  Mais quatro pessoas juntaram-se a eles no anexo. Amigos fiéis se encarregaram de levar alimento e outros produtos ao grupo. Com o passar dos dias, tudo foi escasseando.

Em 4 de agosto de 1944, o esconderijo foi denunciado (nunca se soube quem foi o delator). As oito pessoas foram presas, levadas para campos de concentração e todos, com exceção de Otto, morreram. Anne e sua irmã morreram de tifo no campo de Bergen-Belsen no fim de fevereiro ou em março de 1945, poucos dias antes da libertação deste. Provavelmente foram enterradas em valas comuns. Além delas, outras 28 mil pessoas perderam a vida naquele campo naquele mês, em função da fome, do frio e das doenças. A maioria dos prisioneiros, nos últimos seis meses, era de mulheres. Edith morreu em Auschwitz. Otto sobreviveu a Auschwitz. Em 1947, publicou o diário de Anne, que havia sido encontrado na casa depois da invasão dos nazistas e da prisão dos oito. Anos mais tarde, o prédio transformou-se na Casa de Anne Frank, museu que guarda a memória daquelas vidas e daquele terrível período.

Autenticidade

Houve quem duvidasse da autenticidade do diário. Argumentou-se que uma menina entre os 13 e os 15 anos não teria conhecimento nem maturidade suficientes para escrevê-lo com tal profundidade. Na apresentação do livro*, informa-se que após a morte de Otto Frank, em 1980, aos 91 anos, os documentos (diário e outros papéis que o integram) foram entregues ao Instituto Estatal Holandês para Documentação de Guerra, em Amsterdam. Consta que o referido instituto mandou fazer uma profunda investigação a respeito, a qual concluiu por autênticos os documentos.

O texto passou por revisões gramaticais e, quiçá, de estilo antes da publicação. Houve seleção do que seria publicado, o que, em princípio, é natural: apenas uma parte do que se escreve se transforma depois em livro.

Realmente chama a atenção que uma pessoa tão jovem tenha escrito essas páginas. Todavia, cada indivíduo é um universo e talentos há que se revelam muito cedo. Por outro lado, é sabido que o sofrimento acelera ferozmente o amadurecimento do ser humano, que em condições tais queima etapas e se vê obrigado a antecipar uma visão adulta do mundo.

Sobre o diário manifestaram-se com admiração pessoas como o ex-presidente americano John F. Kennedy, o ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela e o escritor italiano e ex-prisioneiro de Auschwitz Primo Levi.

O testemunho

O relato de Anne Frank é, antes de tudo, bem escrito. Prende a atenção do leitor pela forma como é construído e pela matéria-prima com que trabalha. Anne conta como eram os dias no Anexo Secreto, as angústias, os conflitos, as perplexidades, tristezas, pequenas alegrias, esperanças e o medo sempre à espreita.

O texto surge como exercício de liberdade (a única possível naquelas condições) e resistência num ambiente absolutamente adverso. O confinamento de mais de dois anos num espaço pequeno, a convivência difícil de pessoas fragilizadas física e psiquicamente, o cerceamento da individualidade e dos sonhos, o desespero, a ausência dos direitos mais elementares, tudo isso faz do diário um documento único.

O testemunho de Anne Frank conta uma história que jamais poderá ser esquecida. Vale para todos nós. O nazismo continua atuante, seja através de organizações clandestinas, seja em coisas como o racismo e o ódio aos direitos humanos. Existem os que acreditam na superioridade de algumas pessoas, nações e culturas em relação às outras. Esse tipo de gente acha que os 'inferiores' precisam ser submetidos a qualquer custo. Contra essa barbárie aniquiladora do outro precisamos ficar atentos.

A palavra de Anne Frank, no seu apelo à dignidade da vida em contraste com a brutalidade diabólica e insana do totalitarismo, nos ajuda a refletir e a nos posicionar. E, sobretudo, a não esquecer.

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* O Diário de Anne Frank, tradução do inglês para o português de Ivanir Alves Calado, Edições BestBolso, 11ª edição, Rio de Janeiro, 2010.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A rua antiga me atravessa

Jorge Adelar Finatto


Colonia del Sacramento, Uruguai. photo: j.finatto


A vida se esconde na rua antiga.
A saudade mora aqui desde antes do mundo ser inventado.
Os passos dos habitantes se ouvem na longínqua estrela.
Quem nos vê, quem nos vale nesse labirinto?
A vida inteira no postigo.
Tantas coisas eu sonho.
Tantas coisas eu sinto.
As pedras da rua antiga são diamantes do oblívio.
O tempo nela escorre feito lágrima.
Ninguém vê essa cicatriz aberta na face do planeta.
Calado observador do fim do mundo.
A rua antiga me atravessa.

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Do livro Calado Observador do fim do mundo, Editora Vésper, Passo dos Ausentes, 2010.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Pietá com véu

Jorge Adelar Finatto


photo: Samuel Aranda. Prêmio World Press Photo 2011


A dor humana não tem fim.
A mulher recolhe em seus braços o corpo do homem que sofre.
Pietá moderna, o véu encobre-lhe a face, mas não esconde o gesto.
Mãos de zelo amparam o sangue e a lágrima.
Tudo explode ao redor.
Esses braços re-velam a proteção consoladora, a redenção do amor humano.
O resgate da urgente ternura, templo da compaixão.
O que essas mãos salvam está muito além do que as palavras podem.
O véu já não oculta, revela.


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Texto inspirado na fotografia do espanhol Samuel Aranda.
Aranda é o vencedor do World Press Photo 2011, divulgado na sexta-feira, 10/02. Mais importante concurso mundial de fotojornalismo, a imagem escolhida foi a de uma mulher de véu integral a abraçar homem ferido durante a revolta popular no Iêmen. O resultado foi anunciado em Amsterdam pelos organizadores do evento. A  fotografia foi escolhida entre mais de 100 mil. Na edição, foram analisados  trabalhos de 5.247 profissionais de 124 países.
Fontes: Agência Lusa e jornal Expresso, Portugal.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A aventura do flamingo cor-de-rosa

Jorge Adelar Finatto


Flamingo. Foto: Aaron Logan. Fonte: Wikipédia


O flamingo pousou na popa do veleiro quando passávamos pela Ilha do Barba Negra, na Lagoa dos Patos (que, àquela hora, brilhava sob o sol amarelo e intenso da tarde de fevereiro).

Pousou ao lado de Filipo, o papagaio marinheiro, que estava sentado e distraído na beira do barco, os olhinhos fechados, peito estufado respirando a brisa. Filipo deu um pulo de susto, o boné de marinheiro caiu na água. O flamingo recolheu-o com o bico.

Essas surpresas acontecem na vida de quem navega. Tínhamos saído para dar um giro com nosso veleiro Solitário, a fim de ver as belezas do rio, suas ilhas e pássaros. E também para ficar distantes do ruído e do trânsito violento da cidade, da correria agressiva e sem sentido.

Filipo indagou do flamingo, na linguagem das aves, qual era seu nome e de onde vinha. Ele respondeu que se chamava Arquibaldo e que vinha de Amsterdam, sua cidade natal, na Holanda. Vivia com a família num barco abandonado num dos canais daquela bela cidade. Estava em viagem de férias com os pais e irmãos quando o inesperado aconteceu.

Amsterdam. photo: j.finatto


Na altura do arquipélago dos Açores, uma tempestade dispersou a família de flamingos e arremessou Arquibaldo em outra direção, separando-o do grupo. Depois de vencer o medo e a ventania, voou muito e pegou carona num navio. Acabou chegando ao sul do Brasil após vinte dias. Estava exausto e atordoado com os últimos acontecimentos.

Os flamingos, em geral, têm a plumagem cor-de-rosa. Em Arquibaldo essa cor é ainda mais viva, um rosa antigo belíssimo. Providenciamos uma boa alimentação e um bom descanso para nosso novo amigo.

Arquibaldo é um flamingo adolescente e observador, com bom humor e espírito de aventura. Sentiu-se tão bem que pretende ficar conosco até o final do verão, quando então regressará para junto de sua família na casa-barco de Amsterdam.

O peixinho Moisés, nosso companheiro de navegações, saltou do rio para o interior do barco e ficou dentro do balde conversando com Arquibaldo. Na Ilha das Pedras Brancas, rumamos em direção ao Parque da Harmonia e, daí, para o velho cais de Porto Alegre, sempre ouvindo a incrível história do mais novo membro da tripulação.

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Mais aventuras do veleiro em:

Navegador de barco de papel
http://ofazedordeauroras.blogspot.com/2011/08/navegador-de-barco-de-papel.html

A volta do barco de papel
http://ofazedordeauroras.blogspot.com/2010/10/volta-do-barco-de-papel.html