quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Oceânica vigília

Jorge Adelar Finatto


A viagem transoceânica, por avião, impõe rigores a quem não dorme. Sinto admiração (ponhamos assim, ao invés de inveja, que é uma coisa triste) pelos viajantes que conseguem dormir no voo que une os continentes que o mar separa.

Os passageiros insones, como eu, são invadidos pelo medo ancestral de voar. Mais ainda: voar à noite. E, terror dos terrores: sobre o oceano.

Alguns, pelo contrário, sentem-se tão à vontade que não só repousam como roncam. A vida, para esses, é um estar em casa permanente.

O que fazer às quatro da manhã, na cabine metálica, a dez mil metros de altitude, e no escuro?

Assisto, em geral, a dois ou três filmes, após ter lido muitas páginas do livro de viagem, a revista de bordo e as outras compradas antes de embarcar. Depois escuto música, especialmente se é bossa nova, gênero que nos transmite a ideia de que voar vale a pena e que, mesmo na solidão, pode haver poesia.

De vez em quando, sintonizo a pequena tela no canal da rota, onde aparece a posição da aeronave. Quando mostra a passagem pelas ilhas vulcânicas de Cabo Verde, na costa da África, sinto um certo alento. A viagem de doze horas se encaminha para a parte final.

O surgimento da aurora ilumina o oceano, colhe o pássaro em pleno voo. Nas suas entranhas, os primeiros movimentos dos viajantes a acordar. É servido o café da manhã. A insônia agora tem companhia. A vida segue para quem dormiu e para quem não dormiu. O novo dia chega cheio de vida para todos.  A grande ave, enfim, vai pousar. Graças a Deus.

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photo: j.finatto

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A chuva de vestido

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto

De sol passou a chuva. Assim, sem aviso. Veio um vento, nuvens correram. Bateram uns trovões danados, luziram clarões. Caíram os primeiros pingos. Quase tudo ficou calado, submerso no som da chuva.

Estava sentado no café, numa mesinha de frente, atrás do largo vidro da janela. Lia alguma coisa e olhava a praça do outro lado da rua. Um peixe com grossas lentes no aquário.

Apareceu então aquele vestido vermelho, correndo, iluminando o coração deserto.

Soaram em mim uns acordes de Joaquín Rodrigo, sei lá, a tristeza e o sonho do Cavaleiro da Triste Figura.

De longe não se via a dona do vestido. Só a mancha vermelha atravessando a praça, em diagonal, entre os canteiros de rosas. Uma visão fugidia, deslizante, da direita para a esquerda, em linha descendente.

Um vestido vermelho andaluz. Naquela praça que chovia. Na tarde do coração deserto.

sábado, 8 de outubro de 2011

Segredos do implúvio

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


I

Dizem
que escrever
poemas
é ofício
de pouco valimento

mas pouco se revelou
sobre a memória da sombra
as paredes úmidas
da velha casa de madeira
o esquálido corredor
onde se morria
um dia todos os dias
sem notícia
sem amanhã

II

alguém precisava
recordar
os soturnos habitantes
da rua humilde
na cidade serrana

lembrar o cheiro
de suas vestes
as pedras soltas
na porta das casas

os casacos pretos
nas manhãs de geada

III

nada ou muito pouco
se disse
dos segredos do implúvio

eu me pergunto por que
esse vazio em torno

estaria no silêncio
acre das caves
o destino de partir?

trabalho lento
nas escarpas
do coração

IV

não fossem
os trilhos
do trem
o barulho santo
do trem
atravessando
a madrugada
criando ao menos
em tese
a possibilidade
da fuga
muitos teriam
desistido de tudo
ali mesmo
como fez Chico
o Esquecido

V

o coração não é
assim mero

cresce em segredo
na dura colheita

não se esvazia
o coração
como se esgotam
as cisternas

VI

alguém precisava contar
a náusea persistente
a longa e tortuosa estrada
que desce na Capital

melhor não inventar
histórias
de castelos e linhagens
que nunca existiram
e se houve
federam
como podem feder
as escadarias
dessas obscuras passagens
perdidas no planeta
que recolhem
seres rastejantes

VII

o que se registra
no tombo do tempo
é que há um menino
imóvel
à beira da jovem defunta

naquele lugar
a despedida
com alguma flor
sussurros abafados

ele pergunta
onde ela foi habitar

o que vê
é a morte
e seu absurdo trabalho
convertendo em pó
a luz dos olhos

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Do livro O habitante da bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.
Foto: J.Finatto

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Um conto chinês

Jorge Adelar Finatto



Mais uma vez um filme argentino me tira de casa. Desta vez foi Um conto chinês, que tem no papel central esse grande ator que é Ricardo Darín (O filho da noiva, O clube da lua, O segredo dos seus olhos). A presença de Darín é motivo justo e esperado para esse movimento tão antigo quanto civilizado que é sair da caverna para ir ao cinema.

A Argentina faz hoje os melhores filmes do mundo, no meu mui modesto entendimento. Cinéfilos e cineastas devem prestar atenção no que os irmãos que habitam as margens do Rio da Prata estão fazendo na tela. Em menor proporção, mas com a mesma qualidade, estão obras produzidas no Uruguai (O banheiro do papa, entre outras).

Roberto (Darín) é um homem solteiro, na faixa dos 40 anos, que vive um cotidiano solitário e paralisante na sua casa num subúrbio de Buenos Aires, que tem na parte da frente uma ferragem, que administra e da qual é proprietário. É ex-combatente da guerra das Malvinas. Além do trabalho, tem como passatempo procurar e colecionar recortes de notícias absurdas. Um homem ensimesmado, desconfiado, mergulhado na sua pequena vida. Um de nós, em suma.

Um dia conhece Jun, um jovem chinês que veio embarcado, trabalhando num navio mercante, para a Argentina em busca do tio. Um acontecimento os aproxima, levando-os a conviver, apesar de um não entender o idioma e a vida do outro. Roberto vê sua rotina ser invadida contra sua vontade. Abriga o rapaz perdido, o que o leva a experimentar gestos e sentimentos até então desconhecidos. A vida não seria mais a mesma.

Um evento real, ocorrido na China, está na origem da narrativa: uma vaca que caiu do céu.

O filme conta uma boa história, tem bom roteiro, uma câmara simples e correta. É povoado de diversas situações que levam o espectador ao riso, à reflexão sobre a solidão e a solidariedade. Nos coloca diante da fragilidade da existência e dos desígnios humanos, tendo como pano de fundo a única coisa capaz de nos salvar da dureza da realidade, dos outros e de nós mesmos: o amor.

O sentimento que a gente leva depois que sai da sala escura é de que, apesar de tudo, vale a pena estar vivo emocionalmente, em meio ao nada que nos cerca.

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Produção: Espanha e Argentina, 2011. Direção de Sebastian Borensztein. Com Ricardo Darín, Muriel Santa Ana, Huang Sheng Huang, Javier Pinto, Julia Castelló Agulló. 93 min.
Imagem: cartaz do filme.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A pensão dos viajantes solitários

Jorge Adelar Finatto



A cidade é onde o abandono é dono.

As praças vazias onde me quedo ouvindo falecidas conversas.

Bardo obscuro e tabelião em Passo dos Ausentes, eu, Landgrave dos Santos Esquecido, inquilino do absurdo, vivo os interstícios.  Os ásperos padecimentos da humana travessia. A bordo de um frágil e ridículo corpo existo. Ninguém sabe até quando.

Cheio pela borda de cansaços e desejos. Quem houvera nesta vida me escutasse os ais.

Viver é assunto proceloso e bem escuro.

As coisas que não aconteceram são as que mais se afeiçoam na minha lembrança. A biografia que merece os veros registros: a dos não-acontecimentos.

Por isso estou aqui. Me inventando, me contando.

Sou o bardo barroco, ressuscitado em salvadoras prosopopeias. A obsessão pela música interior. Essa que me faço. Conjuro o venturoso canto.

Não me interessa a realidade. Quem tiver a realidade, que a bem guarde e embale.

Sou viajante de um tempo que se esfuma.

A saudade é um retrato em branco e preto na gaveta da memória. Os destroços de cada um.

O meu coração habita um quarto de pensão. A pensão se chama Ao viajante solitário.

Às vezes penso que o mundo é uma grande pensão. A pensão dos viajantes solitários. A existência é um fio de orvalho estendido de manhãzinha sob o sol.

Somos parceiros das nuvens.

Caminho para o lugar mero do esquecimento.

Eu, Landgrave dos Santos Esquecido, inquilino do absurdo, de tudo dou fé e assino. Passo dos Ausentes, nos Campos de Cima do Esquecimento, Rio Grande do Sul.

Primavera, primaveras.

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Do livro Calado observador do fim do mundo, Editora Vésper, Passo dos Ausentes, 2010.
photo: j.finatto

sábado, 1 de outubro de 2011

Hay vida antes de la muerte?

Jorge Adelar Finatto



 
Em Montevidéu, até os grafites têm espírito. As inscrições públicas nas ruas montevideanas não perdoam a superficialidade. Uma vez lidas, não deixam o caminhante em paz.

Pressentindo que seria um absurdo virar simplesmente as costas e ir embora, resolvi fotografar e trazer comigo a inquietante frase.

Hay vida antes de la muerte?
 
Não bastassem as perplexidades e angústias de cada dia, acrescentei agora mais esta ao meu baú de assombros.

Afinal, haverá mesmo vida antes da morte ou seremos apenas tristes fantoches com a boca rasgada e olhos opacos às voltas com o anonimato, o desamparo, a solidão?

O que sei é que há dias em que me sinto vivo. Parece que a morte ainda não foi inventada. Em outros, contudo, viver não vale um caco colorido de vaso quebrado.
 
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Foto: J. Finatto
Texto publicado em 14 de junho, 2011.
Mais sobre a arte do grafite no texto Basquiat, anjo caído, de 28 de novembro, 2010.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A solidão literária

Jorge Adelar Finatto


Obras e autores observam ávidos das estantes, na livraria. Todos querem uma chance de sair do frio e da sombra e ser levados pelo leitor. Séculos e séculos de esforço literário nos contemplam das prateleiras. Poucos, todavia, são os escolhidos.

O mortal leitor, por sua vez, sabe que não pode ler tudo, mas apenas uma pequena parte do que existe em forma de livro. Precisa ser muito seletivo. A vida é curta, os livros, infinitos.

Uma boa maneira de acertar nas escolhas é buscar os clássicos, esses que já se afirmaram como grandes obras ao longo do tempo, sendo como tal reconhecidos pelos leitores, estudiosos, escritores e interessados em leitura, em geral.

A sensibilidade e o interesse de cada pessoa têm de ser respeitados. Não adianta querer impor textos e gostos a ninguém.

O tempo para ler é pequeno.Trabalho, estudos, compromissos de toda ordem, problemas do dia a dia, tudo conspira contra o tempo de ler. Eu leio na praça, no ônibus, no trem, no café, na fila e até em casa... Não existem condições ideais. O ato de ler é uma conquista diária.

Existe solidão literária no lado de quem escreve como no de quem escolhe e lê livros.

Após folhear, cheirar, tocar as folhas, olhar as capas, ler algumas linhas ao acaso, chega o momento tão esperado. Guardo no bolso a lista que trouxe de casa. Estou levando, hoje, um Eça de Queirós (Um dia de chuva), um Juan Benet (Você nunca chegará a nada), um Luiz Felipe Pondé (Contra um mundo melhor, ensaios do afeto), e um Eustáquio Gomes (A biblioteca no porão, livros, autores e outros seres imaginários).

Que cada um seja feliz do seu jeito e com suas escolhas, o mais que puder, respeitando os outros. O resto, pra ser sincero, não importa muito.

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photo caseira: j.finatto

terça-feira, 27 de setembro de 2011

O postigo de Deus

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto


 
As manhãs amadurecem no coração da treva.

Como pode alguém tão pequeno querer voar tão longe, sonhar tão alto?
 
Em meio a portulanos e cartapácios, Claudionor, o anacoreta, alimenta o sonho. A quimera do grande encontro o habita.

Ah, as horas passadas na biblioteca da caverna, no Contraforte dos Capuchinhos. A cela onde ele se refugia em torno da mesa, viajando nas páginas, no telescópio, na bruma do tempo.

Ah, essas travessias desoladas pelo invisível. Aqui onde ele se queda a duvidar.

As místicas visões o perseguem desde a infância nestes Campos de Cima do Esquecimento.
 
A mirada do infinito saber, a vertigem do pensar, a buscada unidade com o universo. Não ser mais um estrangeiro no planeta.
 
Os mistérios do vir-a-ser.
 
Um dia - ele bem sabe - a face de Deus iluminará o postigo da caverna. Então tudo o mais será farelo de luz caído das estrelas.
 
Por enquanto, o trevamundo. Escuridão a galope pela estrada.

Urgentes prosopopéias o ajudam a povoar o silêncio, a construir o neblinoso caminho.

Ah, as solitárias caminhadas pela Rua do Farelo, em Passo dos Ausentes.

Prisioneiro do efêmero, Claudionor se lança na antieternidade do fugaz instante.

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Claudionor, o anacoreta, é místico e astrônomo amador. Vive no Contraforte dos Capuchinhos, em Passo dos Ausentes.
Foto: J. Finatto
Texto revisto,  publicado em 09 de março, 2011.
 

domingo, 25 de setembro de 2011

Celebro a vida que virá

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


Un petit espoir très féroce:
c’est moi!
                                             Robert Lalonde


Ainda não nasci
sequer faço parte da paisagem
escuto uns gritos do outro lado: não estou

a sombra é apenas o começo
do previsível caminho
que vai dar na aurora

ainda não nasci
no entanto, é para breve

celebro a vida que virá
rompendo a escuridão
explodindo em alegria
como a primavera depois do inverno

sei onde isso terminará:
flor no extremo do ramo
beleza enchendo o vazio

faço do silêncio
um grande bosque
onde borboletas passeiam
pássaros inventam a claridade
com seu canto

imagina uma faísca que, súbito, paira no ar
uma palavra procurando um oco de boca
uma pequena luz que cresce: sou eu


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Poema do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.
Foto: J. Finatto

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

O espantalho no milharal

Jorge Adelar Finatto




Se parar de escrever na casa do labirinto, nesta difícil procura de claridade, se o silêncio e o medo crescerem ao meu redor como um vasto milharal habitado por estranho espantalho vestido de negro, com grossas lentes nos óculos que não ampliam a progressiva e asfixiante pequenez das coisas, esse tal que desistiu do ofício de espantar, sendo ele próprio o contumaz espantado no oblíquo território do existir, se os amigos esquecerem de me visitar nas ermas noites de inverno, se um pássaro soltar o canto, em junho, no galho da araucária diante da minha janela, se essas palavras tiverem servido, ao menos, pra distrair o leitor (?) do problema da morte e da inefável falta de sentido da vida, só por isso a luta terá valido a pena.
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Foto: J. Finatto. Araucária vista da janela, em Passo dos Ausentes.
Texto publicado em 13 de abril, 2011.
 

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Os passos na calçada

Jorge Adelar Finatto



 
2 horas da manhã. Nenhum cochilo. Ele vara a escuridão com os olhos ora abertos, ora fechados.

Está ocupado ruminando ausências no escuro.

De repente, entra pelo quarto, através de veneziana, uma aragem, um certo aroma.

Ouve os passos da primavera, lá fora, na calçada. Ela caminha como uma jovem mulher, senhora do mundo, espalhando beleza, desejo e vida.

Ele toca com a ponta dos dedos os óculos, na mesinha de cabeceira. Quer ir até a janela vê-la passar na sua calada rua.

O som dos passos diminui até cessar. Ele desiste de levantar. A cama está quente, ainda faz frio, amanhã é dia de trabalho. Em silêncio, agradece a Deus por outra primavera.

Sabe que vive um tempo raro, delicado. Como a pele das rosas.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A câmara de Manoel de Oliveira faz 80 anos

Jorge Adelar Finatto


photo: Manoel de Oliveira. Fonte: Correio do Porto*


Na universidade, fui aluno rudimentar das aulas de cinema. Só hoje, muito tempo depois, me dou conta do que aconteceu. Ou melhor: não aconteceu. Fomos rudes alunos, porque nos faltou o essencial: observar, aula após aula, ano após ano, com toda atenção, os movimentos da câmara de Manoel de Oliveira.

Deveríamos ter aprendido a ver cinema com os olhos do cineasta português. Mas fomos por outros caminhos.

A sintaxe intimista e inaugural de Manoel de Oliveira respira silêncio, mistério e revelação. Ao mesmo tempo, poucas vezes se veem imagens com essa qualidade.

Na sua lenta e rigorosa composição, a câmara deste que é o mais antigo cineasta em atuação no mundo (completará 103 anos em 11 de dezembro próximo) nos leva por ermos, sinuosos, encantadores itinerários.

Manoel de Oliveira estreou em 19 de setembro de 1931, com o filme "Douro, faina fluvial". A péssima reação de parte da plateia presente naquele V Congresso Internacional de Crítica, em Lisboa, teria levado o dramaturgo e escritor italiano Luigi Pirandello a perguntar se, em Portugal, se costumava aplaudir os bons filmes com os pés...

O filme não agradou os portugueses por mostrar pessoas pobres, às vezes descalças, na dura lida do comércio de peixes. Os estrangeiros, por outro lado, gostaram muito. Iniciava-se ali um novo modo de pensar e fazer cinema.

A Manoel de Oliveira a nossa homenagem.

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* www.correiodoporto.com

domingo, 18 de setembro de 2011

Explode na cidade a primavera

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto


As praças e ruas recebem a visita dos pássaros.

Setembro, em Porto Alegre, oferece belas pinturas e concertos ao ar livre. Muitas flores e plantas espalhadas no espaço público e em jardins particulares. Fotografei uma roseira numa calçada aqui perto, um escândalo.

photo: j.finatto

Pessoas cansadas dos seus tugúrios, que também atendem pelo nome de apartamentos, vêm para as ruas no sábado e no domingo.


photo: j.finatto


A arte não está só nas galerias, nos livros e museus (às vezes, nem aí está). Está nos olhos de quem sabe olhar as coisas simples.


photo: j.finatto

O que importa é a qualidade da experiência estética. Pode ser um ipê amarelo, um canto de muro, uma floração na esquina.


photo: j.finatto

A beleza está em toda parte. Um exagero poético, vá lá.

photo: j.finatto



Explode na cidade a primavera.


sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O mundo na capa da gaita

Jorge Adelar Finatto


pintura: Maria Machiavelli
Vida difícil em todo lugar. Com raríssimas exceções, ninguém se sente muito à vontade no planeta nos últimos anos, tantos são os problemas, os medos, as violências e inseguranças que nos cercam. O mal-estar se espalha como aqueles círculos que se formam na água quando atiramos uma pedra.

Penso especialmente naqueles irmãos de certas regiões de África, que sofrem com o drama da falta de alimentos, lá onde há gente que morre de fome. Este o quadro mais doloroso.

Fruto de uma desordem mundial, de um esquecer-se do outro, de um culto sem precedentes à vaidade e ao todo poderoso deus do dinheiro e do mercado. Países ricos buscam saídas individuais para a crise da economia "globalizada" (essa que reparte prejuízos e concentra riquezas).

Os salvadores da pátria do "faça como quiser" já não conseguem encontrar soluções para suas casas que desmoronam e seus iates que afundam na baía.

Os mares e as terras do mundo, com sua generosa fertilidade, são capazes de abastecer com relativa facilidade os sete bilhões que seremos até o fim do ano. Mas qual o quê! "Faltam" alimentos para os pobres.

A Europa, quem diria, submete com regras duríssimas as comunidades de economias mais atrasadas da zona do euro.

Aqui no Brasil, onde existem condições para melhorar a vida de toda a população, a corrupção instalada rapina o dinheiro público, esse que faz falta na saúde, na educação, no sistema penitenciário, na cultura, na moradia, na qualidade de vida das pessoas, etc.

Alguém já fez a conta, ainda que aproximada, de quanto os gastos com a indústria da guerra, nos Estados Unidos, são responsáveis pelo afundamento da economia daquele país?  

Por que não se proíbe simplesmente a fabricação, a compra e a venda de armas no mundo? Já existe armamento suficiente para fazer quinhentas guerras mundiais.

Os desastres ambientais se intensificam por fatos do homem. Há países que não têm reservas de água potável para os próximos anos. O que vai ser?

Um pouco de solidariedade poderia salvar muita coisa. Mas, como tudo na vida, só vai acontecer se começar dentro de cada um. Nos pequenos e invisíveis gestos do dia a dia, na relação com as pessoas (colocar-se no lugar do outro), no respeito incondicional à vida e ao bem comum.

Isso tudo é velho e sabido como andar de pé. Mas por que será que não aprendemos? 

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Do coração para as mãos

Jorge Adelar Finatto

Trabalhos de Rosane de Lima e Bruna Maciel. photo: j.finatto

A tarde azul e morna de setembro faz esquecer o rigor dos últimos frios. Redivivos, depois do longo e fustigante inverno, começamos a sair da caverna. Visitei ontem uma feirinha de artesanato, na praça central da cidade de Canela, serra gaúcha.

Um espaço gracioso, situado quase na frente da antiga estação de trem. Nele, objetos simples e criativos cativam o olhar. Impressiona a arte que encontramos em muitas das peças expostas. As artesãs (a maior parte dos expositores são mulheres) mostram um talentoso trabalho feito em casa, com poucos recursos.

Peças de Izabel Ribeiro Dias e Gisele Ribeiro Dias, mãe e filha. photo: j.finatto

A dignidade com que essas pessoas se entregam ao ofício é tocante. O artesanato é uma arte ainda pouco vista e pouco divulgada. Os trabalhos são muitas vezes únicos, porque produzidos individualmente. Os preços são acessíveis.

idem

Eu sou um encantado por artesanato e a minha vontade é levar um monte de coisas. A morada da gente é um curioso e colorido museu de móbiles pendurados, bonecos, pinturas, esculturas e sabe-se lá mais o quê. Para que algo novo entre, às vezes é preciso que uma peça mais antiga saia.

A casa do indivíduo é um território introspectivo, povoado de coisas que têm a sua cara, invisíveis para o mundo.

Os artesãos dificilmente ficam ricos com seu ofício. Mas não é isso que importa. Estão na luta, tocando a vida honestamente e produzindo beleza. São pessoas assim, com este espírito, que nos dão esperança em um tempo mais humano e num mundo mais bonito.

photo: j.finatto

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O homem que roubou o sol

Jorge Adelar Finatto


pintura: Maria Machiavelli
 

Um homem de coração triste pode entristecer a vida de muita gente.

O sol está preso no sótão da casa do homem sem esperança.

Em uma manhã de infinita tristeza, ele ergueu os braços, apanhou o sol com as duas mãos, como se fosse uma laranja, e o levou para o trevoso lugar. Desde então, não mais o devolveu para a rua onde mora.

- Nunca, nunca mais vou soltar o sol -, disse a um grupo de meninos e meninas que foram até a frente de sua porta. 

- Ninguém mais vai ver a luz nem receber calor nessa rua.

À noite, os vizinhos observam a estranha claridade que escapa pela claraboia. Raios iridescentes giram entre si, perpassam o espaço e vão em direção ao vazio universo. Nenhum, no entanto, fica para iluminar aquele pequeno lugar mergulhado na sombra.

O homem triste tem uma pedra enorme, pesada e fria, no coração. Uma lápide com uma inscrição numa estranha língua que ninguém entende. Não consegue mais falar nem sentir.

O roubo do sol foi um ato de desespero, de revolta com coisas más que aconteceram na sua vida. Ao agir dessa maneira, privou a rua e seus habitantes de luz, alegria e esperança.

É preciso trazer de volta o homem triste para o convívio, antes que tudo em volta dele congele, antes que as seivas sequem, antes que desapareça a vida naquela rua.

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Maria Machiavelli é artista plástica em Passo dos Ausentes onde mantém ateliê e nele ensina gratuitamente técnicas de pintura.

domingo, 11 de setembro de 2011

Eu ia tomar um bonde amarelo

Jorge Adelar Finatto


photo: Museu Virtual Memória Carris. Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Imagem de José Luís Kieling Franco


Eu ia tomar um bonde amarelo
e dar um giro pela cidade
mas não existe mais o bonde amarelo
nem eu tenho dez anos

me engano ou essa cidade
mudou de endereço
se não, como explicar tanta gente
desconhecida nas ruas
e os amigos perdidos nas esquinas
do tempo do bonde?


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Do livro Claridade, Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento, 1983.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O sol do outono ilumina o córrego

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto

Olhemos o córrego. Sim, caminhemos em suas verdes sombras. As águas nascem no silencioso ventre da montanha e afloram, com suave rumor, num remanso.

Olhemos o sol do outono dentro do córrego. Sigamos sem pressa por suas curvas e declives no interior da mata, ouvindo os pássaros.

Peixinhos vermelhos, amarelos e brancos aparecem e somem num reflexo entre os ramos e as pedras. Os seixos ficaram redondos de tanto rolar no mundo. É bom sentir sua forma entre os dedos dos pés, acariciá-los na palma da mão. Sintamos o córrego.

Amemos o córrego. Vamos com os pés descalços, em lentos passos de quem caminha pela vez primeira. Sim, sigamos como habitantes do itinerário cantante das águas, no seu eterno movimento para o oceano.

Descobriremos que não estamos tão sós e que não há solidão irremediável no mundo, porque existe o córrego escorrendo entre passos e pássaros na mata.

O sol do outono ilumina o córrego.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Camafeu sentimental


Jorge Adelar Finatto
 

photo: j.finatto
 

Deve ter sido assim
num lugar assim
num tempo assim

ele foi feliz um dia
sem saber o que era
 felicidade
 

Uma fotografia guardada há muito tempo na gaveta. Ele já esteve nesse lugar. Nem sabe quando. Uma velha casa de madeira entre pinheiros. Um córrego esperto cantando ali perto. Pode ouvi-lo agora claramente. Na janelas laterais, floreiras com gerânios de variadas cores.

Lá dentro, em volta de uma grande mesa, pessoas se reúnem para o café da tarde. Um alarido de véspera de primavera. O menino olha aqueles rostos iluminados. O cheiro de pão feito em casa, no fogão de barro, se espalha por tudo.

Em volta daquela mesa, retratos na parede. Em volta da parede, o mundo gira em lentas rotações.

O aroma de jasmim invade o ambiente. No quintal grande, caminha-se entre laranjeira, ameixeira, romãs, pitangueira, mamoeiro, parreira, abacateiro. O cinamomo florido abre os galhos perto do poço, o banco pintado de branco embaixo.

Há muito tempo ele não visitava a casa da infância.

As buganvílias exalam azul e branco no jardim.

O gato dorme entre novelos de lã na cadeira de balanço.

Um dia recortado no tempo. Pessoas vivendo sem medo da separação. Cálida alegria.

A fotografia, camafeu sentimental.

Deve ter sido assim, num lugar assim, num tempo assim, ele foi feliz um dia, sem saber o que era felicidade.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O livro eletrônico

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto. novas folhas nascerão
  

Se o caro leitor teme que o livro eletrônico poderá varrer do planeta o livro de papel, fique calmo, isto não acontecerá. Dia desses, vi na televisão (sempre ela) a demonstração de como funciona o livro digital.

As palavras estavam lá  na pequena tela luminosa, intercaladas por imagens, entre elas algumas que, tocadas com a ponta do dedo, movimentavam-se coloridas como num filme. São breves animações que ilustram o texto, podendo ser utilizadas, se assim quiser o leitor.

Gosto muito da associação de textos e imagens, o que fica claro no tipo de trabalho que tento fazer aqui no blogue. Se é possível acrescentar recursos técnicos que valorizam o texto, tornando a leitura mais atraente, com imagens, notas explicativas, dicionários, sons e outros, penso que isto é válido. Em nada prejudica a leitura, pelo contrário, enriquece o ato de ler.

Não sou favorável a qualquer manipulação do texto literário em função do suporte. Nada de resumos, cortes, compactações. Simplesmente, deve oferecer o texto tal como é, podendo o leitor usar ou não os recursos disponíveis.

O livro eletrônico é uma realidade irreversível. Ainda é muito caro, eu não me animo a comprar um. Mas deverá tornar-se cada vez mais acessível. Um mesmo aparelho, do tamanho de um livro de bolso, poderá carregar não só uma, mas várias bibliotecas, além de permitir o acesso a jornais e revistas em meio digital, entre outras possibilidades.

O livro impresso não irá desaparecer, mas sem dúvida deixará de ser o principal instrumento de leitura. Gente como eu, que ama o livro de papel, nada perderá. Haverá outras opções de leitura apenas, e isto é muito bom.

Com relação à formação das novas gerações de leitores, acredito que a tecnologia aplicada ao livro vai facilitar bastante o processo, nestes tempos em que o computador faz parte da vida das pessoas.

Estarei sendo moderno ou ingênuo além da conta? Terei sido abduzido por falsas promessas de felicidade?

O que vocês acham?


domingo, 4 de setembro de 2011

Não escrevemos o primeiro verso

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto. magnólias


Não escrevemos o primeiro verso
há tudo por ser dito
mas sou teimoso
insisto no jogo

quando desanimares pensa em mim
que não abandonei as ferramentas
que não dei um verso para a eternidade


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Do livro Claridade, Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento, 1983.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Ah, uma tarde solto por aí

Jorge Adelar Finatto


barco de papel: j.finatto

Ah, uma tarde solto por aí. Navegando pelo rio no meu barco de papel. Ao largo do continente, sem compromissos, distante das mesquinharias, das bocas que nunca se calam, da violência, das cotidianas grossuras e vaidades.

Esqueço de mim, de ti, da nossa infinita desimportância no arranjo cósmico.


Deito no fundo do barco, olho as nuvens. 

Descortino o voo leve, lento e branco da gaivota. Só escuto o som do vaivém das ondas batendo na quilha.

Ah, um dia longe da cidade, disso tudo que tira a cor da alegria e corrompe a força da beleza.

Coração ao vento, sem hora pra voltar.