quinta-feira, 14 de junho de 2012

Eugénio de Andrade

Jorge Adelar Finatto


Na vida, ter talento só não basta, é preciso trabalhar muito para chegar a algum lugar. Muitos talentos se perdem, nas mais diversas atividades, por falta de entrega e persistência.

Existe um poeta pouco conhecido no Brasil, que é dos grandes que temos na língua portuguesa: Eugénio de Andrade. Nasceu em 19 de janeiro de 1923, em Póvoa de Atalaia, centro de Portugal, e morreu em 13 de junho de 2005, na cidade do Porto, onde hoje existe a fundação que leva seu nome.

Lê-se pouca poesia no Brasil e no mundo, de modo geral. Os tempos são duros. A poesia é o gênero literário que pede um leitor sensível, atento à beleza da palavra e da composição no seu grau mais elevado de elaboração (o poema), e, sobretudo, um leitor dotado de espiritualidade.

Um brutamontes dificilmente terá afeto pela poesia.

Eugénio de Andrade é um belo poeta. Lida com o poema de forma rigorosa e, ao mesmo tempo, com notável simplicidade. A simplicidade que só os mestres alcançam como resultado da dedicação cotidiana e obstinada ao trabalho da escrita.

Na vida, ter talento só não basta, é preciso trabalhar muito para chegar a algum resultado. Muitos talentos se perdem, nas mais diversas atividades, por falta de entrega e persistência.

A poesia de Eugénio de Andrade nos traz emoção e esperança. Como nestes dois poemas.

O SORRISO

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

VER CLARO

Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.

A obra do poeta é rara. Para melhor conhecê-la é interessante uma visita ao site da Fundação Eugénio de Andrade¹ e, claro, a leitura de seus livros.

Entre nós, onde Eugénio, infelizmente, é quase desconhecido, existe a antologia Poemas de Eugénio de Andrade², que oferece uma boa visão do conjunto de sua obra.

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¹Fotos e poemas de Eugénio de Andrade reproduzidos do site da Fundação Eugénio de Andrade:
http://www.fundacaoeugenioandrade.pt/
² Poemas de Eugénio de Andrade, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1999.
Texto publicado em 18 de maio, 2011.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Púbi Mann e a guerra contra o Terceiro Reich

Jorge Adelar Finatto



photo: j.finatto. Lago da Ausência


O fato por todos conhecido em Passo dos Ausentes  é que Púbi Mann retornou à cidade depois de 14 anos, sem memória, numa remota e fria tarde de junho de 1952. Não tinha uma história pra contar, não reconhecia mais as pessoas nem a si próprio.

Eram quatro horas quando o Jeep verde do Exército rompeu a neblina na entrada da cidade. Parou na Praça da Ausência. Trazia quatro militares e aquele homem com barba ruiva, vestindo um grosso capote azul-marinho e botas de cano longo. No lado direito da cabeça, tinha uma profunda cicatriz onde o cabelo não crescia.

Púbi não olhava nos olhos das pessoas. Esboçava um vago e incompreensível sorriso. O olhar passeava curioso pelos telhados ao redor da praça.  Dois oficiais levaram-no até o Teatro da Vida Breve, que também é biblioteca, pinacoteca, cinemateca, café e local de encontros.

Mocita de la Vega, administradora do teatro, explicou aos soldados que tentaria localizar o filósofo Don Sigofredo de Alcantis, a quem caberia atender a missão, na condição de presidente da Sociedade Histórica, Geográfica, Geológica, Astronômica, Filosófica, Literária, Antropofágica e Artística de Passo dos Ausentes.  

Mas Don Sigofredo não se encontrava na cidade, estava longe, no Contraforte dos Capuchinhos, visitando Claudionor, o Anacoreta. Mocita, então, buscou Juan Niebla, o músico cego, na estação de trem abandonada. E foi Niebla, na condição de vice-presidente da SHGAFLA, quem recebeu os militares no gabinete.

- Conforme mostram os documentos que ora entregamos - disse um dos oficiais, que, depois de olhar para Niebla, interrompeu a fala e virou-se para seu colega. Este, com um gesto impaciente, mandou que continuasse. - Como eu dizia, o senhor Púbi Mann, que agora apresentamos, foi mandado de volta ao Brasil pelo governo da Alemanha.

- De acordo com o Informe 79/EB/52, ele foi incorporado como soldado cozinheiro na marinha daquele país em 1939, um ano depois de chegar na Alemanha, vindo do Brasil.  Foi um lamentável equívoco, dizem as autoridades alemãs, já que o senhor Púbi estava de passagem, procurando parentes distantes na cidade de Lübeck.

- Ocorre que os Mann tinham fugido da Alemanha com a ascensão do nazismo. Púbi ficou sem ter para onde ir. Foi expulso da pensão quando o dinheiro acabou e passou a vagar pelas ruas e praças de Lübeck. Não conseguia se comunicar direito, pois falava num dialeto alemão de emigrantes do século XIX. Dormia na rua. Os dias eram difíceis. As autoridades locais resolveram recolhê-lo a um abrigo. Fizeram-lhe novos documentos, só que como cidadão alemão, e o entregaram ao exército. Poucos dias depois, foi encaminhado à marinha de guerra, sendo incorporado como soldado cozinheiro.

Juan Niebla interrompeu e disse:

- Pobre Púbi. Sinto pelo seu silêncio que está ausente deste mundo. Éramos amigos de infância. Com a morte dos pais, ele resolveu viajar em busca de possíveis familiares na Alemanha. De nada adiantaram nossos avisos sobre o perigo da guerra. Foi em busca de uma obscura ancestralidade. Está mais oco do que quando partiu.

- Só que Púbi se negou a servir na armada de Hitler -, retomou o oficial. No quartel, as coisas ficaram ruins pra ele. Mesmo assim, foi embarcado. Remisso, negava-se a fazer qualquer coisa e foi preso no navio. Durante um bombardeio, um pedaço de aço atingiu-lhe a cabeça, ferindo-o gravemente. Ele perdeu a memória.  De volta, foi encaminhado a um campo de concentração na Alemanha.

- Depois da guerra, foi para um hospital psiquiátrico, de onde teve alta recentemente para ser devolvido ao Brasil. O informe diz ainda que ele recebe uma pensão mensal e vitalícia do governo daquele país por serviços prestados contra o nazismo, com sacrifício da própria saúde. Não há outros detalhes.

Os soldados partiram afundando-se na neblina. Coube a Juan Niebla, com o auxílio do braço de Mocita, levar o desmemoriado pela mão até a casa da irmã Celina Mann, única parente viva.

Foi deste modo que Púbi Mann regressou a Passo dos Ausentes. Alto, magro, curvado e esquecido de tudo. Passava os dias sentado em silêncio na cadeira de balanço do avarandado do sobrado familiar. Celina, todos os dias, pelas cinco da tarde, lia para ele trechos da Bíblia.

Isto foi assim até o dia em que, do nada, durante uma caminhada com a irmã ao redor do Lago da Ausência, aconteceu o milagre que ninguém mais esperava. Púbi emergiu das trevas e contou a verdadeira e incrível história daquela cicatriz e de sua rebelião contra o Terceiro Reich. Mas isto já é outra história e caberá ao próprio Púbi contá-la, quando assim resolver.


sábado, 9 de junho de 2012

A cidade perdida: as origens

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


Uma cidade de fantasmas habita um lugar ermo, no cume das montanhas, nos Campos de Cima do Esquecimento.

O leitor talvez se pergunte por que, afinal, Passo dos Ausentes, lugar onde escrevo essas linhas, não aparece no mapa do Rio Grande do Sul nem em nenhum atlas.

Muitas vezes também me fiz essa pergunta. Não encontrei até hoje uma resposta plausível. Para nós, habitantes desta cidade esquecida, a invisibilidade é um mistério difícil de entender.

Não nos veem e não nos sentem.

Nós o que vemos é a andança das nuvens nos contrafortes da solidão.

Oficialmente, não existimos. Não estamos no mapa.

De onde vem essa ausência?

A Sociedade Histórica, Filosófica, Geográfica, Literária, Geológica, Astronômica e Antropofágica de Passo dos Ausentes já encaminhou diversos expedientes aos órgãos do governo, em Porto Alegre, pedindo providências. As respostas são sempre evasivas. “Vamos examinar”, “estamos estudando”, “faltam dados verossímeis acerca da existência da cidade e sua história”.

Mas como? Acaso nos tomam por seres de papel e tinta?

Passo dos Ausentes é uma espécie de Atlântida, a lendária ilha perdida no fundo tenebroso do oceano.

Uma Atlântida invertida, é certo, que caiu para o alto e desapareceu a 1.800 metros de altitude.

Somos seres invisíveis, desaparecidos vivos. Mortos na memória oficial e nos meios de comunicação.

Don Sigofredo de Alcantis, nosso filósofo-mor, costuma dizer que fomos fundados por um grupo de índios guaranis e padres jesuítas. Eles vieram de São Miguel Arcanjo, após a destruição da redução ocorrida durante a Guerra Guaranítica, em meados do século XVIII, quando portugueses e espanhóis acabaram com os Sete Povos das Missões.

Don Sigofredo é o guardião da nossa memória.

A barbicha grisalha, entradas no cabelo, o cavanhaque branco em forma de v, as extremidades do bigode levantadas para cima como a perscrutar o misterioso universo, o velho pensador conta histórias sentado no banco da praça ou caminhando em volta dos seus jardins.

Os dias não se contavam em horas, mas em suspiros, afirma ele.

O rumor do vento nas coberturas de capim santa-fé das cabanas, na beira do Rio dos Ausentes, era a música daqueles inícios.

Depois aqui chegaram cinquenta pessoas, entre crianças, mulheres e homens, todos escravos foragidos de estâncias do sul do estado. Livres, integraram-se na comunidade local.

Após, vieram algumas famílias de andaluzes, fugidas da Espanha por razões não muito bem esclarecidas. Os espanhóis tinham sido recebidos com antipatia nas metrópoles do Rio de Janeiro e São Paulo. Traziam na bagagem ideias utópicas de conteúdo socialista.

O tempo passou. Mais tarde subiram as montanhas indivíduos russos, polacos, alemães, italianos, portugueses e um grupo de judeus e árabes que chegaram juntos.

Ninguém sabe ao certo como e por que essas pessoas vieram parar em Passo dos Ausentes.

Toda essa gente tinha em comum algum trauma de perseguição por razões políticas, filosóficas ou relacionadas à cultura e etnia.

Em Passo dos Ausentes, encontraram refúgio e paz para viver, reconstruir sua história, trabalhar e criar filhos. Não demorou muito para que a cidade se tornasse produtora de boa variedade de produtos agrícolas, de artesanato e de utensílios de pequena indústria. A prosperidade ocorreu no auge da estrada de ferro nos anos de 1940. O declínio veio com o fim da ferrovia na década seguinte.

A população da cidade, que não era grande, passou a diminuir. As pessoas começaram a ir embora em busca de um futuro.

A memória e o afeto têm nos preservado da extinção. Mas não sabemos até quando.

Íngremes e tortuosos são os caminhos através dos paredões de basalto.

Muito frio, chuva, vento e neblina nos separam do mundo.

Don Sigofredo diz que é do nosso modo de ser a saudade das estrelas que desapareceram há muitos milênios. A luz desses astros nos chega viajando pela noite do tempo infinito.

Somos testemunhas de uma claridade que se apagou.

Por que não estamos no mapa?

Somos invisíveis como a nossa história e a nossa cultura.

Às vezes nos reunimos na praça para ouvir a pequena orquestra sinfônica. O Concerto para Violão e Orquestra, de Heitor Villa-Lobos, é a música predileta de Don Sigofredo. Acho que é também a música de Passo dos Ausentes.

Somos poucos e invisíveis.

Na solitude das noites de dezembro ouvimos as histórias uns dos outros.

Não sabemos o que será da cidade e de nós.

Mas quem sabe alguma coisa nessa vida?

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Texto publicado em 25 de dezembro, 2009.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Histórias do fim do mundo

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto


Nas antigas noites da Rua São João, os habitantes colocavam cadeiras na calçada.  Conversavam sobre o passado maravilhoso e o fim do mundo que estava próximo. Era uma maneira talvez de suportar o vazio daquela vida onde nada acontecia. 

Uns diziam que o mundo ia acabar em fogo. Um incêndio de proporções planetárias calcinaria os seres e todas as coisas.

Outros afirmavam que tudo ia terminar em água. Uma chuva, fininha no início, iria aumentando de volume até que ondas gigantescas mergulhariam a Terra em trevas de profundeza, onde nem os peixes sobreviveriam.

Do que Miguel observa e sente, o mundo ao redor está ruindo sem gritos nem estrondos. Como uma escultura de areia abandonada no vento da praia.

Um dia percebeu que continentes de memória e afeto desapareceram com os moradores que, como ele, emigraram para outras cidades.

Atlântidas à deriva num mar de esquecimento.

A passagem voraz do tempo erigiu ausências no coração de Miguel. Ele próprio está fora de contexto. Como uma fotografia que alguém recortou.

Em certas noites de insônia, ele acende a lamparina para espalhar claridade na escuridão da rua da infância.

As portas e janelas estão cerradas. Os habitantes da Rua São João flutuam no espaço. Ninguém mais sai para ouvir as histórias do fim do mundo embaixo das estrelas cadentes.

Às vezes, uma porta se abre vagarosamente. Um menino surge. Toma a mão de Miguel e anda a seu lado pela rua noturna onde ninguém mais vive.

Até que a aurora vem e o menino desaparece. Miguel segue seu caminho, deixando atrás a rua perdida. 

domingo, 3 de junho de 2012

Textos rasgados

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto

A última palavra é sempre do autor. Mas a opinião de alguém em quem confiamos, com "bom olho", ajuda muito na revisão e seleção de textos.

Um dia desses fiz uma incursão por papéis escritos há muito tempo. Estavam dentro de envelopes num canto do armário. Sem remorso, rasguei quase todos. Não havia ali muito a salvar.

Não significa que aquelas páginas foram inúteis. Ao contrário, considero indispensáveis como exercício da expressão escrita. Com seus defeitos, abriram caminho para outras tentativas e acertos.

Não tenho o dom do texto instantâneo. Preciso de um tempo para reler e reescrever. As palavras necessitam respirar para se acomodar entre si. Como abóboras na carroça.

Por isso, gosto de deixar um pouco na gaveta para criar certo distanciamento.

Escolher entre o que fica e o que deve ser rasgado não é fácil. Começa que o criador está envolvido emocionalmente com a sua criatura e é cruel descartar um filho (pais sempre acham os filhos bonitos).

Neste processo, o rigor excessivo é tão prejudicial quanto a autocomplacência. A arte está em encontrar o equilíbrio.

A busca da perfeição (que não existe) pode levar a enganos como a poda demasiada dos ramos dessa árvore, a autocrítica impiedosa. Essa atitude não deixa espaço para a criação.

É difícil e sinuoso o percurso da escrita, mas nisso está também a sua beleza.

A última palavra é sempre do autor. Mas a opinião de alguém em quem confiamos, com "bom olho", ajuda muito na revisão e seleção de textos.

Escritores importantes estão aí para provar que não existe um tempo certo para começar a escrever e publicar. Cada um tem seu tempo. Entre os grandes autores que surgiram para a literatura já na idade madura, encontramos José Saramago e Cora Coralina.

O que não se pode, em qualquer caso, é desanimar. Temos de acreditar que ainda vamos conseguir escrever aquilo que queremos da forma mais bela. E isso acontecerá talvez na próxima página ou na manhã seguinte.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Depois de tudo

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto


Depois de tudo ele quer só um banho. Não o tagarela e desajeitado das enfermeiras. Anseia um banho demorado, com direito de ficar só, recolhido, senhor de seus domínios.

Durante o tempo em que esteve longe do mundo e do próprio corpo, viajando na nuvem de morfina, sonhava sentar debaixo de uma cachoeira e ali ficar um dia inteiro sentindo a água cair.

Havia muitas árvores nesse lugar, camélias brancas, pássaros, um ar carregado de fragrância de mato, bom de respirar. Havia também uma mesa larga e comprida, onde gente da família e amigos se reuniam para o café da tarde.

Até os desaparecidos se chegavam na mesa para conversar com ele. Até mesmo o pai, imemorial ausência, surgiu no sonho e o abraçou calidamente, como nunca antes fizera.

Reencontrou o córrego da infância, entre os pinheiros. Caminhou descalço sobre os seixos, olhou o movimento ligeiro e colorido dos peixes na água. Recordou o jeito da saíra entrar e sair do ninho. A suave luz de maio a tudo envolvia.

Agora está de novo em seus domínios, o hospital ficou pra trás. Embaixo do chuveiro, a água morna escorrendo na cabeça, no corpo, ninguém pra segurá-lo, virá-lo dum lado pra outro feito joão-bobo. Sob a água, sentindo os seixos nos pés, o vento leve na face, os peixes no córrego, conversas na mesa larga dos afetos, ele celebra a dádiva de estar vivo.

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Texto publicado em 1º de julho, 2010.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

A fala de Pedrolino

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto. Venezia. Os mascarados
 

Pertenço à ordem dos amorosos sem camélia.

Os que amaram e se pensaram amados sem o ser. Os quase. Os que saíram cedo da festa.

A dama. Meu coração perdido no infinito tabuleiro. O mundo é lugar de barbaridades. Dor, dores.

Chamava-se Alberta, Alberta de Montecalvino. Pertencia à nobre estirpe dos Albertos, de Passo dos Ausentes. Foi quando a vida aconteceu.

O sol brilhou entre as nuvens. Iluminou a escuridão da vida minha. O triste que eu fui. A Commedia dell'Arte tomou conta da minha existência. Pedrolino, Pierrô.

Estava na janela da mansarda, como sempre, olhando a vida passar.

Então ela atravessou a rua. Trazia a sombrinha vermelha, o vestido branco, laço azul na cintura. Os sapatinhos amarelos. Olhou pra mim e sorriu. Rasgou minha solidão.

Bailei no ar como folha de plátano no outono, lentamente fui cair a seus pés. Desci correndo, pulando os degraus da escada em espiral. Segui o inefável perfume. Enfim, alcancei a dama.

Perguntei se podia fazê-la feliz. Sim, sim.

As iluminações.

Passamos a freqüentar a Praça da Ausência, nas tardes ocres daquele outono. Um dia peguei-lhe na mão. Meu coração cavalo louco. Não dormi durante três noites.

Alberta meu sentimento. Camafeu cravado na minha alma. Ela me deu o lencinho branco perfumado, a letra A bordada em lilás. Guardei-o num lugar secreto, bem no fundo de mim.

Aqueles eram dias de ora-veja.

A dama, o tabuleiro, eu nunca aprendi a jogar.

Não canto outros amores, que não os tive, e, se os tivesse, silenciaria.

Então Arlequim apareceu. Os ódios pularam dentro de mim.

Arlequim e seus guizos, seus versos de algibeira, sua palavra sem valia, seu alaúde. Arlequim disse coisas, deitou falas, expandiu-se em canções. Antes calasse.

Bazófias.

Arlequim se espalha no mundo. Faz ares. Blasona. Explorador de musas, ladrão de amores. Arrebatou o coração de Alberta, os suspiros, até o corpo de violino que eu nunca toquei.

Eu calado sonhador do fim do mundo. Os devaneios da alma. Voltei só pra mansarda. Nem acreditei.

Quem me visse, a face esculpida da dor. Veio o inverno. Invernos.

O vero solitário da rua triste. O que olha a vida da janela. O que foi quase feliz.

O sem camélia.

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Texto publicado em 09 de junho, 2010.
Do livro Calado observador do fim do mundo. Editora Vésper, 2010, Passo dos Ausentes.
Outros detalhes do drama de Pedrolino em A fala do Arlequim, post de 30/10/10, e Alberta de Montecalvino, de 8/11/10.

Ulisses

Casa Fernando Pessoa, Lisboa

domingo, 27 de maio de 2012

Coração batendo na beira do lago

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto


O sol mostra a cara entre as nuvens.

A pintura impressionista revela o traço leve, ligeiro, transparente.

Caminho ao redor do lago nesse dia de outono. Um momento de raro encontro.

As cores passam um sentimento de intimidade e delicadeza.

Não existe nada melhor do que esquecer os compromissos e andar na tarde de maio.

No outono, mais do que em outras estações, sentimos a transitoriedade das coisas.

photo: j.finatto

É um ritual de despojamento e recolhimento de seivas. A natureza guarda energia para os dias difíceis que virão. Um caminho de sombras a percorrer, uma passagem de frio e névoa.

Nunca a transformação fica tão clara.

Já não somos os mesmos que antes caminhavam ao redor do lago. O reflexo na água é de alguém que mudou.

A vida não pode ser levada tão a ferro.

É o que o outono nos ensina. Não vale a pena. Um pouco de leveza numa tarde de maio é o mínimo que devemos nos conceder.

Um pouco de distanciamento dos fantasmas.

Vamos entre as árvores, o silêncio, as cores.

Somos uma imagem dentro do lago, depois se apaga.

Tudo muda, tudo passa. Só ficará desse instante o leve traço do esforçado pintor.

Uma fotografia, um quadro, um poema, um rumor de folhas no vento.

Coração batendo na beira do lago.

photo: j.finatto

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photos: imagens de São Francisco de Paula, serra do Rio Grande do Sul.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Saramago, Caras e Pessoas

Marcelo Buainain
 
 


Para muitos, ao longo dos últimos 10 anos essa imagem do escritor José Saramago se tornou conhecida, porém poucos sabem da sua história e autoria. O autor não é desconhecido...

O ponto de partida é Lisboa, cidade onde vivi praticamente toda a década de 90. Foi nessa ocasião que tive oportunidade de formar uma parceria com a jornalista Cristina Duran que pautava os entrevistados e eu os fotografava. Momentos especiais foram vividos e compartilhados nas tascas e em nossas residências situadas no bairro de Alfama, quase à beira do rio Tejo. Deste elo profissional e amizade tivemos o privilégio de fotografar várias celebridades, entre elas Wim Wenders, Pedro Almodóvar, Bernardo Bertolucci, Irène Jacob, entre tantas outras.

Tomado por uma certa insatisfação com os clichês fotográficos, concebi o projeto "CARAS E PESSOAS", cuja proposta era apresentar uma personalidade portuguesa sob duas óticas: uma face que espelhasse o normal e a outra, a exemplo da famosa fotografia de Albert Einstein, o insólito, o inusitado.

Já em campo, empunhando uma Hasselblad e um estúdio ambulante, retratei o então presidente Mário Soares, a atriz Eunice Munhoz, o ator Joaquim de Almeida, o amigo e escritor Pedro Paixão, o pianista Bernardo Sassetti, o cineasta João Botelho, a cantora de fado Amália Rodrigues e, entre tantos outros, João Fiadeiro, Sérgio Godinho, Rui Chafes, Pedro Cabrita, Ana Salazar, Jorge Molder e Júlio Pomar.

Sensibilizado com o drama humano narrado no livro Ensaio sobre a Cegueira, idealizei para o projeto Caras e Pessoas um retrato do escritor Saramago, enfatizando os olhos, a cegueira, a visão.

Em 25 de fevereiro de 1996, no bairro de Alfama em Lisboa, na residência da jornalista Cristina Duran, tive a oportunidade de focar os olhos e a alma de José Saramago, expressos nesse retrato.

Saramago, a nossa gratidão por acreditar na possibilidade e realização desta imagem.

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Publicado no blog em 23 de junho, 2010.
Agradeço a Marcelo Buainain a generosa e preciosa autorização para reprodução desta matéria. J.Finatto

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Olhares de Granada

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. jardins da Alhambra


Entre a Alhambra e o bairro árabe do Albaicin, à margem do Rio Darro, onde nasceu a cidade de Granada, na Espanha,  o olhar viaja através do tempo.

A alma da cidade andaluz resiste a isso que o apressado observador chama esquecimento. As janelas iluminam o imemorial encontro do antes e o agora.


photo: j.finatto


As plantas verdes, verdes, carregam as seivas vivas, vivas, sobre as paredes descarnadas e vielas escondidas, que perduram ao sol, à chuva, aos ventos, aos séculos.

photo: j.finatto. fonte no Albaicin


As vetustas paredes cochicham entre si, vozes ancestrais aparecem e se perdem no interior dos pátios dos velhos casarões. O silêncio monta guarda nos caminhos estreitos. Vultos habitam sótãos.

photo: j.finatto


Na tarde gitana, acende um violão flamenco atrás das brancas cortinas.

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A casa de Federico García Lorca em Granada:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/01/casa-de-federico-garcia-lorca-em.html

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Música na estação de trem

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto

Às vezes, quando vejo alguém sentado no velho banco da estação de trem abandonada de Passo dos Ausentes, me lembro dos que partiram dessa cidade fantasma.

Tenho vontade de sair por aí e recolhê-los, ampará-los na infinita solidão de quem perdeu seu lugar no mundo.

Algumas palmeiras cercam a pequena estação. O último trem está lá parado. Agora os cáquis - maduros - douram as manhãs de outono perto dos trilhos.

Juan Niebla, 86 anos, costuma chegar pelas quatro da tarde para tocar seu bandoneón. O músico cego assumiu o posto em 1941, aos 15 anos, por concurso público.

Desde então não faltou um dia sequer. Acomoda-se no banco de peroba-rosa e toca algumas músicas. Transita entre Chopin, Debussy, Villa-Lobos, Ravel, Piazzolla e outros.

photo: j.finatto

A função de músico da estação começou com Honoratto Santos, que ocupou o cargo até a morte, em pleno trabalho, aos 80 anos. Tocava instrumentos de sopro como virtuose, especialmente o trompete.

Dizem que Honoratto era natural de Moçambique; alguns afirmam que veio menino ainda de São Tomé e Príncipe. Mas no documento de identidade consta como natural de Passo dos Ausentes.

O músico da estação tinha por ofício alegrar aqueles viajantes que chegavam à nossa cidade e amenizar a tristeza dos que partiam.

O trem acabou em 1950.

Juan Niebla diz que não importa: - Continuo tocando na estação porque quero estar aqui no dia em que o trem voltar. Um dia ele voltará a subir e descer essas serras.

- Enquanto isso, toco para os fantasmas.  E para os amigos que vêm me visitar nas quintas-feiras.


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Mais sobre o músico Juan Niebla:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2011/07/conversa-na-estacao.html

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Um mundo invisível

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto



O inconsciente é como o fundo de certos rios.

Sob a tênue linha que o protege do mundo, existe um espaço habitado, povoado de seres, histórias, descobertas, sentimentos. Há lugares ocos também, medos do escuro, sonhos que não viram a luz do sol.

Somos filhos da claridade atravessando a sombra.

Não existe outra saída além de abrir as janelas para a aurora entrar, tirar a casa da escuridão. Raízes profundas nos ligam ao intangível.

Aqui um riacho com água corrente, seixos, vozes; ali o pássaro, uma borboleta; adiante um pinheiro, um plátano, depois uma ponte de pedra. Depois, a névoa.

Magnólias e buganvílias habitam o jardim.

O passado imóvel, o tempo amarelecido nos retratos. 

A lágrima quente verte no escuro.

Como o fundo de certos rios, carregamos tesouros secretos, peixes vivos. Andorinhas cruzam a altura dos penhascos submersos.

A luminosidade oblíqua clareia o recanto onde o menino sonha.

Não há escuridão indevassável. O medo da travessia é só um breve instante.

A palavra salva o que ficou calado no porão.

Nunca se esquece o vento esculpindo a dura face do basalto. Nunca se olvida a partida da cidade pequena.

No alforje do coração, todos os que ficaram caídos no alçapão do oblívio. 

Entre ruínas procuramos o menino que respira sob destroços.

Esse que a tortuosa estrada jogou na cidade grande. Esse que perambulou por ruas mortas, entre desvalidos, que habitou quartos fétidos e sinistros, em longas noites de espera.

É preciso acolher o menino que se levantou da noite fascista, esse que pensávamos afundado no esquecimento.

Um círculo de luz ilumina a sombra da sala.

O presente é infinito, gosto de nuvem na boca, porcelana côncava azul acima da cidade e seu cais.

É tarde de outono. O mergulhador sai do fundo do rio. O lampião ainda quente nas mãos.

O caderno escrito com o toco do lápis.

Vida, teu sopro é agora.
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quarta-feira, 16 de maio de 2012

Um blogue de capa e espada

Jorge Adelar Finatto
 
Guy Williams, como o Zorro
 
 
Um dia desses alguém escreveu que os blogues fazem parte da pré-história da internet. É sempre assim. Quando acho que estou fazendo algo moderno, esse algo ou não existe mais ou saiu de moda. 

Pensando bem, porém, o blogue tem ainda lá seu interesse. Se tiver um conteúdo honesto, pode atrair leitores. Uma apresentação legal também ajuda.

Um leitor imaginário enviou-me um e-mail. Observa que este é um blogue primitivo, não tem filmes, nem sons, nem recursos técnicos que o tornem atrativo. Os textos não comentam fatos do momento nem são de autoajuda.

Tem razão. O que sei fazer, mal e mal, é publicar algumas linhas, em geral acompanhadas de fotos. As matérias tratadas não destacam temas específicos nem obedecem a critérios de atualidade, nascem da subjetividade do autor. No mais, não sei ou não quero fazer outras coisas.

Um autêntico blogue de capa e espada, que acredita na luta do bem contra o mal, da beleza contra a fealdade, do sentimento e do pensamento contra a brutalidade, bem ao estilo do velho e invencível Zorro, interpretado pelo notável ator americano Guy Williams.

As pessoas não vêm aqui para ver as últimas novidades. Uma razão que não alcanço faz com que visitem esta página. De qualquer forma, a presença é um estímulo.

Tenho o hábito do silêncio e aprecio o texto impresso. O notebook, pra mim, é uma velha máquina de escrever com luzinhas. Mas o fato é que escrever no blog tem sido uma boa experiência.

A internet é um território trevoso, pelas armadilhas que esconde. Mas é, sobretudo, uma alternativa democrática, uma porta que se abre para a comunicação e a liberdade de expressão. Como tudo na vida, o que é bom acaba permanecendo, e o ruim desaparece no buraco da própria ruindade que semeia.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

A casa do anjo

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. Colonia del Sacramento. Uruguai



Hoje, antes de começar a chover, arredaram uns móveis bem pesados lá no céu. Um barulho espesso me fez pensar que talvez fosse a mudança de um anjo. Um anjo bom e humano com suas asas de perfumadas plumas, levando com ele seu chapéu, suas estantes de livros, bicicleta, cama, armários.

Um anjo, quando se muda, deve ter muita coisa pra carregar: cartapácios com registros e fotografias de quem ele protege, cadernos de milagres, álbuns de recordações, aquarelas com paisagens dos campos do Senhor.

As roupas do anjo devem ser brancas como nuvem, inclusive as suas botas.

Gostava que o meu anjo da guarda viesse mais pra perto de mim.

Meu coração anda necessitado de amigo com sabedoria e consolação. Ele podia até ficar morando aqui comigo. Se quisesse, podia subir no telhado, sentar perto da chaminé, lugar calmo e iluminado, de onde se tem uma boa vista do mundo.

O meu anjo da guarda. Há de expulsar a solidão que toma assento na sala. Nunca mais nenhum mal vai me acontecer. Quando de noite o medo se acercar de mim, o anjo me dará sua mão forte. Então eu dormirei como um menino. E vou sonhar outra vez.

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Texto publicado em 10 de dezembro, 2010.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Juiz e réu, encontro extra-autos

Jorge Adelar Finatto


Era quase meia-noite quando saí do consultório do dentista. Tinha viajado cerca de 500 quilômetros até Porto Alegre, dirigindo o valente Monza. Cheguei e fui direto para a consulta.

Na época, 1996, jurisdicionava a vara criminal da comarca de Santo Ângelo, na Região das Missões do Rio Grande do Sul, perto da Argentina. Os compromissos e a grande distância da capital faziam raras essas viagens.

Tinha deixado o carro no estacionamento de um posto de gasolina, do outro lado da rua. Era preciso encher o tanque. Havia apenas um funcionário àquela hora tardia e ele veio me atender. 

Enquanto o veículo abastecia, ele se aproximou e disse que me conhecia. Ah, sim?, de onde - perguntei-lhe.

- O senhor é o juiz que me julgou e me condenou no processo criminal em que fui réu.

Era tarde, uma noite fria de agosto, quase ninguém na rua. Eu não sabia o rumo que aquela conversa ia tomar. Não recordava daquele rosto, por mais que me esforçasse. O homem falava pausadamente.

Não sabia o que dizer, então falei:

- Mas então, como vai a vida? Vejo que estás trabalhando, isso é muito bom.

Impassível, ele limpava o vidro dianteiro. Continuou:

-  Eu andava perdido, tinha problema com drogas, vieram os furtos. O senhor não se lembra de mim. Sabe por que eu não esqueci? Porque me tratou com respeito nas audiências, durante todo o processo. Me tratou com educação. Quando alguém na sala começou a me agredir com palavras, mandou que cessassem as agressões e que todos ficassem calmos. Nunca vou esquecer.

Depois, paguei a gasolina, agradeci o serviço, desejei-lhe sucesso na vida e fui embora.

Este fato me impressionou pelo tipo de percepção que revela. O que mais marcou aquele indivíduo não foi tanto a condenação (talvez esperasse o resultado), mas a maneira como foi tratado no ambiente judicial.

A instrução de processos criminais costuma ser penosa para os acusados e especialmente dolorosa para as vítimas.

O processo é instrumento de realização de justiça e, portanto, de humanização da sociedade. Nele não pode haver espaço para vingança, humilhação, maus-tratos. O que se busca é a aplicação da lei e dos princípios que movem o Direito, visando restaurar a ordem jurídica.

Nesse sentido, o respeito entre todos os envolvidos na relação processual é fundamental.

Para muitos dos que chegam ao Judiciário na condição de réus, em ações penais, a sala de audiência é a escola que faltou lá atrás, infelizmente. O dever mínimo do Estado, em tal situação, é garantir um tratamento digno às pessoas, respeitando cada uma nas suas circunstâncias.

O modo como nos tratamos uns aos outros define o tipo de sociedade em que queremos viver e o país que estamos construindo.

O fato de sentir-se respeitado durante o andamento do processo talvez tenha contribuído para aquele homem refletir e mudar seu comportamento. É o que espero, do fundo do coração.


terça-feira, 8 de maio de 2012

Meu encontro com Walt Whitman

Jorge Adelar Finatto

 photo: Walt Whitman, em 1887 . Autor: George C. Cox.
Fonte: Wikipédia.


O trabalho mudou minha vida de lugar  muitas vezes. Faz muitos anos morei numa cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul. O lugar se resumia a uma igreja católica e outra protestante, duas escolas, um hospital e pouca coisa mais nas ruas e casas. Em volta, a mata. Em certas tardes, eu saía a andar por estradas de chão, solitárias e com aroma silvestre.

Caminhar assim é como andar dentro de si mesmo.

Num dia de sol e frio, eu percorria um desses caminhos. Um córrego prateado corria na margem. Numa curva em frente, entre os altos plátanos que se erguiam nos dois lados da estrada, apareceu um homem. Quando nos cruzamos, ele me cumprimentou, em silêncio, fazendo um gentil aceno de cabeça, que eu retribuí. Ele tinha uma barba branca abundante, uns olhos pequenos muito azuis, o cabelo na altura dos ombros. Usava um chapéu escuro com largas abas, a face um tanto rosada. Vestia um velho casaco, a camisa abotoada até o pescoço. Trazia um livro na mão esquerda.

Eu tive certeza de que se tratava do poeta norte-americano Walt Whitman (1819 – 1892).

Fiquei orgulhoso e feliz de estar ali, pisando o mesmo chão que o grande Walt.

Seria o espectro do poeta que eu vira? Seria alguém muito parecido?

Encontrei-o em outras duas ocasiões. Como da primeira vez, éramos só nós, a estrada verde, a brisa e o rumor do córrego. Fiquei observando o poeta. Ele entrava num desvio lateral da estrada, subia uns cinquenta metros em direção a uma pequena casa de madeira.

A casa era muito branca e delicada. Sozinha, lá no alto, mostrava cortinas azuis nas janelas abertas, e flores, muitas flores da estação no breve jardim em volta.

Walt entrava pela porta dos fundos e desaparecia.

Uma chaminé de alumínio saía pelo telhado.

Pensei em conversar com o poeta na última vez em que o encontrei. Talvez ele até dissesse alguns versos de Folhas da Relva, sua obra-prima. Mas não. Achei melhor não incomodar. Afinal, os poetas trabalham enquanto caminham em silêncio por estradas de chão.

Um dia chegou a hora de ir embora da cidade pequena.

A vida seguiu, muitos caminhos eu percorri depois. Mas nunca esqueci que, em certas tardes, numa cidadezinha do interior, eu caminhei na mesma estrada por onde andava Walt Whitman.

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Transbordante de Vida
Walt Whitman


Agora, transbordante de vida, sólido, visível,
No ano quarenta de minha existência, no ano oitenta e três dos Estados,
A alguém que viverá dentro de um século, ou em qualquer número de séculos,
A vós, que ainda não haveis nascido, dedico estes cantos, esforço-me por
alcançar-vos.
Quando lerdes, eu que sou agora visível, hei-de ter-me tornado invisível; então sereis vós, denso e visível, quem lerá os meus poemas, quem se esforçará por compreendê-los,
A imaginar quão felizes seríeis se me fora dado estar ao vosso lado e converter-me em vosso camarada;
Que seja, pois, como se eu estivesse. (Não duvideis demasiadamente que não esteja então ao vosso lado).

Poema extraído de O Livro de Ouro da Poesia dos Estados Unidos, coletânea de poemas organizada por Oswaldino Marques, edição bilíngue, Ediouro, tradução de Manuel Ferreira Santos.

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Texto publicado no blog em 17, abril, 2010.

domingo, 6 de maio de 2012

Pintura de outono

Jorge Adelar Finatto

photos: j.finatto. Passo dos Ausentes, Rio Grande do Sul


Um leve sol espalha transparência na viva aquarela.

Caminho entre árvores na pintura da tarde de maio. Sou um traço de luz em composição à beira de um lago.

Faço parte da paisagem que o outono pintou.

Não tenho pressa. Habito a efêmera cena que brilha por um instante e depois se apagará.

A branca borboleta navega pelo ar em seu silencioso voo e atravessa o lago.

A impossível quimera: transcender o transitório, entender o suave movimento das águas, nunca mais sair desta pintura à margem do tempo.

Como a borboleta, sinto que é belo estar vivo nesse momento único, entre a eternidade do céu e o agora do lago. Sim, é belo.

photo: j.finatto


quinta-feira, 3 de maio de 2012

Os buquinistas de Paris

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. Catedral Notre-Dame

Jamais me senti solitário nas margens do Sena.*
Ernest Hemingway

Um belo passeio, em Paris, pra quem gosta de livros, é sair a pé pelas margens do Sena. Gosto de começar na altura da Notre-Dame em direção ao Museu do Louvre, com tempo para ir parando nas bancas de livros dos buquinistas (bouquinistes), os conhecidos vendedores de livros usados.

photo: j.finatto

Eles são muitos e estão instalados ao longo dos muros nas margens do rio, com sua cor verde. Dizem que eles estão ali desde o século XVIII.

photo: j.finatto

Os alfarrabistas da beira do Sena fazem parte do cartão-postal da cidade. Seu pequeno comércio de livros velhos, cartazes e souvenirs habita a paisagem parisiense e se apresenta ao olhar atento ou distraído de qualquer pessoa, nativo ou turista. Em geral são gentis e há entre eles alguns que gostam de uma conversa à toa, dessas que fazem a gente se sentir em casa.

photo: j.finatto

O que se procura no buquinista? Ora, vamos ali buquinar, verbo que, no Aurélio, significa procurar livros em sebo, catar obras literárias. Uma busca que, às vezes, rende preciosidades. Um bouquin (livro) raro, talvez.

photo: j.finatto


Numa caixa encontrei e adquiri um pequeno e encantador exemplar do livro Une Saison en Enfer (Uma estação no inferno), de Arthur Rimbaud, publicado em 10 de fevereiro de 1945, pela Mercure de France, trigésima primeira edição. As 90 páginas estão já um tanto amarelecidas, mas em bom estado. A capa está coberta por um delicado e fino plástico incolor. O antigo proprietário tinha um carinho especial pelo volume. Um achado.

photo: j.finatto

Vale a pena passar uma tarde na beira do Sena, sem pressa, intercalando o passeio com um cappuccino e uma baguete, na mesa de um aconchegante café, na calçada de preferência, se não fizer muito frio.

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*Paris é uma festa. Ernest Hemingway. Tradução de Ênio Silveira. Editora Bertrand Brasil, 15ª edição, 2011, Rio de Janeiro.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Uma decisão para reescrever o Brasil

Jorge Adelar Finatto

Ministro Joaquim Barbosa, STF. Autor: Antonio Cruz, Agência Brasil.


A abolição da escravidão no Brasil, em 1888, não foi acompanhada de políticas para incluir, minimamente, a comunidade afrodescente na vida social, econômica e educacional do país. As pessoas de origem africana saíram de quase 400 anos de escravatura e foram jogadas à própria sorte, à margem de tudo, sem nenhum amparo.

O Supremo Tribunal Federal declarou, na última quinta-feira, em decisão unânime, a constitucionalidade do sistema de cotas para o ingresso de pessoas negras e pardas nas universidades. A partir do julgamento, prevalece o entendimento de que, ao contrário de ferir o princípio constitucional da igualdade de todos perante a lei, tal sistema surge para reparar a imensa dívida que a nação tem com os negros, estes sim tratados desigualmente durante séculos até os dias de hoje. O que se busca, na verdade, é corrigir a brutal injustiça que pesa contra a comunidade negra.

Na Universidade de Brasília (que foi ré na ação julgada), vinte por cento das vagas destinam-se a pessoas que se autodeclaram negras ou pardas. Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (ré em outra ação), trinta por cento das vagas são para negros e egressos de escolas públicas.

A política de cotas, de acordo com o pensamento dos juízes do STF, é um começo apenas e não um fim, e não deverá prolongar-se indefinidamente. Medidas como as adotadas pelas duas universidades servem para promover a igualdade, tratando-se de modo diferente um grupo humano tão discriminado e desfavorecido.

O holocausto da escravidão é dívida impagável. O que se pode fazer é trabalhar com as consequências, através de ações afirmativas como essas. O número de indivíduos negros no ensino superior, como todos sabem, está muito aquém do que seria razoável, considerando a importante presença desta comunidade na formação e na vida social do Brasil.

Um dos argumentos que mais tenho ouvido contra o sistema de cotas é o de que a melhor solução seria aperfeiçoar o ensino público e eliminar a pobreza, com o que já não só os negros mas toda a população sairia beneficiada. Para os que assim pensam, a eliminação do abismo que separa os afrodescentes dos demais virá logo ali, depois do Armagedom e do Juízo Final. Para essa gente, a discriminação racial contra o negro não existe. Séculos de escravidão, indizível sofrimento e humilhação não são nada e os descendentes podem esperar na fila mais um pouco, isto é, pelo restante dos tempos.

O julgamento é especialmente relevante para as universidades públicas federais, as mais procuradas seja pelo bom ensino que oferecem, seja em função da gratuidade.  Como o estado não consegue garantir ensino público e gratuito para todos, penso que, além das cotas, está mais do que na hora de as universidades públicas brasileiras assegurarem a gratuidade somente aos que realmente dela necessitam, cobrando daqueles que têm condições. Enquanto em nosso país o ensino superior não for gratuito para todos, quem pode deve pagar.

Não é justo que a sociedade pague o estudo daqueles que não precisam disso, enquanto se prejudicam alunos carentes (de diversas origens étnicas) que, sem condições de um bom preparo para enfrentar o exame vestibular, se veem obrigados a parar de estudar ou a ingressar em faculdades particulares, contraindo dívidas e arcando com sacrifícios desumanos.

A decisão do STF começa a resgatar o Brasil diante de si mesmo através da única maneira de se fazer justiça: promovendo-a. É um pequeno passo, um início. Um bom começo, porque representa o reconhecimento do problema por parte do estado-juiz, ao mesmo tempo em que protege ações para resolvê-lo.

sábado, 28 de abril de 2012

Ilha de San Michele, ilha dos mortos

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto

A Ilha de San Michele repousa serena diante de Veneza.

Não devemos perturbar o sossego de seus habitantes. Na gôndola em que navegamos em torno desse território calado, nada deve ser ouvido além do remo na água verde-safira. Entre os altos muros de ocres tijolos, à sombra de ciprestes, os mortos descansam na antiquíssima ínsula.

San Michele é um pequeno pedaço de terra no Mar Adriático, mas é, acima de tudo, uma metáfora.

A ilha dos mortos tem o olhar voltado desde o exílio para a República Sereníssima.

A ilha-cemitério é um testemunho da brevidade humana e um alerta contra as vaidades do mundo.

Façamos silêncio, portanto, nessa viagem pelas cercanias de lugar tão despojado.

A ísola oberva, ao largo, o frêmito dos vivos. Silenciosa mirada. O espelho das águas recolhe o espírito e as cores da cidade que se assenta sobre as cerca de 120 ilhas que formam Veneza. A história veneziana remonta aos primeiros anos da era cristã.

Os habitantes de San Michele conhecem a vocação da Sereníssima para o abismo da beleza e das paixões. Ninguém consegue ficar indiferente ao seu brilho e mistério. Veneza é cruel com os deserdados da sensibilidade, e com a bondade desprovida de malícia. Não é um lugar para onde devam ir os desiludidos da vida. Acolherá bem os amantes, sobretudo os que souberem amar seus labirintos ao longo dos canais tortuosos que se perdem na neblina do tempo.

photo: j.finatto

Os mortos habitam a ilha já sem pecado, distantes do ruído e do encanto da cidade amada.

Veneza chegou àquele ponto turvo da civilização em que os falecidos não têm mais para onde ir. A cidade não pode crescer. Espaço para mais um morador é coisa rara em San Michele. Os defuntos que conseguem um lugar vão para lá de barco. O cortejo e a pompa (para alguns existe pompa até na morte) dependem das posses do viajante.

Entre a sombra e a luminosidade, Veneza recebe o coração ávido de memória e arte.

A silhueta negra e esguia das gôndolas desliza lentamente.

As máscaras do carnaval observam de noturnas vitrines.

La Serenissima pertence às águas, ao ruído do vento nos telhados e pontes, aos cavalos de névoa que invadem a Praça São Marcos. Os vetustos casarões, as galerias de arte, os vaporettos e palácios mergulham no fundo espectral dos canais.

photo: j.finatto

As cores são fortes e belas como a música das igrejas ao entardecer, os concertos na via pública, o traço febril de Tintoretto no Palácio Ducal.

Estamos de passagem no mundo. Devastados pelo desejo e pela beleza.

A metáfora de San Michele.

Se temos de ser ilhas, que pelo menos formemos arquipélagos com pontes e canais a nos unir, como em Veneza.

O resto são ostras e segredos na bruma dos corações.

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Texto publicado pela primeira vez em 27 de janeiro, 2010. 

quarta-feira, 25 de abril de 2012

A fala do Arlequim

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto


Querer eu quero, e o querer é tudo. Cumpro os regulamentos do invisível. De silêncio em silêncio, as difíceis passagens. Eu sinto no calado. Os comedimentos. A pessoa sonhada tem certos jeitos. De não se deixar ver, nem tocar, nem sentir, nem sonhar. Os caprichos do ser amado.

As magnólias me doem no inverno de tão belas. Eu lírico. Os tormentos do amador. A musa é do tipo nem aí. Nem sabe de mim.

Arlequim ao relento eu sou. Os rigores da lira. Vivo no austero. Sinto no meu segredo. Amador. Ela não me vê. Eu a vejo. A musa é só o motivo. Eu sou o seu adamastor.

O que dorme no banco da praça. O que mora dentro do casaco e da manta. O do chapéu ridículo. O que fala algaravias no café. O que não suporta gritos. O que senta no cais a olhar as gaivotas.

Caminho nos meus penhascos. Ruínas são coisas que habitam no íntimo da pessoa. O que se fala e o outro não entende. Um diz aurora, a musa entende anoitecer. As palavras, tonterias.

Sentimento é o ora-veja da vida. Cultivo distância, alimento paciência.

O ser sonhado tem certos olhares. A musa vive num jardim secreto que eu mesmo inventei. A trança de linho desce pelo muro escarpado do castelo. Eu romântico. A vida gira nos esconsos. Os trapos coloridos do meu coração ao vento.

Amador, amador.


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Photo: Cena veneziana.
Texto publicado em 30 de outubro, 2010.