quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Maiakóvski: a última esperança

Jorge Adelar Finatto
 
O poeta Maiakóvski em 1929
 
               
               Não vivi até o fim o meu bocado terrestre.
               Sobre a Terra
               não vivi o meu bocado de amor.
                    Maiakóvski (trecho do poema A propósito disto, 1923)¹
 
A insuficiência da vida, onde não viemos para passar férias ou viver em harmonia, mas para enfrentar toda sorte de vicissitudes e incertezas, com raras intermitências de felicidade e paz, é um dos principais motivos que levam o ser humano a procurar na arte um pouco de consolo e transcendência.

Um dos mais belos poemas que já li é A propósito disto, do poeta russo Vladímir Maiakóvski (1893-1930). Ele lutou ao lado dos bolcheviques na Revolução Russa de 1917 e depois, na sua área, que era escrever poemas, pintar cartazes (no Museu da Revolução, contavam-se mais de três mil pintados por ele e cerca de mil frases poéticas para o front²), realizar recitais viajando por todo o país, debater, falar sobre a função da arte, compor peças teatrais, colaborar na imprensa.

Maiakóvski fez o que pôde para a realização dos ideais revolucionários. Acreditava no novo homem que haveria de nascer com a revolução, sem vis mesquinharias, avesso à brutal exploração, solidário, aberto ao amor e ao diálogo, disposto a construir uma sociedade e um planeta bons para todos.

Empenhou-se com aguda sensibilidade de grande poeta. Foi um caso raro de escritor que trabalhou em função de uma causa, sem contudo diminuir o valor de seu fazer literário. Conseguiu ser um imenso poeta, mesmo vivendo os difíceis dias da revolução, nela empregando seus esforços. Mas entre a crueza da política e a alma sensível havia contradições que com o tempo se tornariam maiores e insuperáveis. Disse ele uma ocasião:

Não sei como se juntaram em minha cabeça os versos e a revolução.3

Um dia cansou, exaurido na luta, nas incompreensões, na pequenez e na sordidez de muitos dos que queriam, pretensamente, mudar a realidade (afinal, digo eu, os camaradas tomaram o poder e, uma vez nele, aparelharam o Estado, eliminaram a oposição e revelaram-se, com o tempo, iguais a tantos tiranos em qualquer parte do mundo. Veja-se o longo período de Stalin).

Ouçamos Emílio Carrera Guerra em seu excelente A vida de Maiakóvski:

Não bastavam o gênio, as provas de sinceridade, o trabalho árduo e honesto do poeta, para que seus inimigos fossem aplacados, para que seus adversários o deixassem em paz. Ao contrário, seu êxito crescente fazia com que mais se encarniçassem contra ele. 4

Maiakóvski não encontrou o novo mundo por que tanto ansiou e lutou, não teve tempo para viver e amar em paz. Deixou para o futuro o encontro definitivo com sua amada Lila Brik.

Com uma única bala no velho revólver, o poeta disparou contra o coração na noite de 14 de abril de 1930. Terminava, assim, num ato de desespero, antes de completar 37 anos, a vida de um dos maiores poetas que a humanidade conheceu.

photo: j.finatto

Em 12 de abril, escreveu a carta de despedida. Nela estava transcrita, em meio ao texto, parte do poema no qual trabalhava, À plena voz:

A todos!... Eu morro, não culpeis disso a ninguém. E nada de falatórios. O defunto tinha horror a isso.
Mamãe, minhas irmãs, meus camaradas, perdoem-me, isto não é um meio (não o aconselho a ninguém), mas para mim não há outra saída. Lili, ama-me. (...)

Como se diz
"O incidente está encerrado"
O barco do amor
                            quebrou-se contra a vida quotidiana
Estou quite com a vida
Inútil passar em revista
                               as dores
                               as desgraças
                               e os erros recíprocos.
Sede felizes! 5

Sete anos antes, em 1923, Maiakóvski escreveu este que é um dos poemas absolutos que nos legou, A propósito disto. Neste texto, imagina o futuro limpo de podridões, no qual se encontra o laboratório das ressurreições humanas. Nesse ambiente, o poeta vê o calmo químico, a vasta fronte franzida em meio à experiência.

E acrescenta: num livro, intitulado Toda a Terra, o cientista procura um nome, alguém a quem ressuscitar no século XX. Ao encontrar o poeta nas páginas do livro, o químico fica em dúvida e acaba desistindo dele, busquemos matéria mais interessante!

Diz, por sua vez, o poeta:

                              Será então minha vez de gritar
                                       daqui mesmo,
                                              desta página de hoje:
                              "Pára, não folheeis mais!
                                      É a mim que deves ressuscitar!" 6

Para um cristão, o cientista seria Deus, tratando de ressuscitar os mortos no fim do atual sistema de coisas. A esperança do poeta, por outro lado, é a mesma de todo mundo (ou pelo menos de muitos): voltar à vida, tornar a viver, sair do fundo da caverna escura (tal como Lázaro*) para uma vida plena, sem tantos sofrimentos, doenças, problemas, angústias, tragédias e o inevitável abismo da morte.

Prossegue Maiakóvski, na sua/nossa esperança:

                    Vosso Trigésimo Século
                                                   ultrapassará o enxame
                    de mil nadas,
                                         que dilaceravam o coração.
                    Então,
                           de todo amor não terminado
                    seremos pagos
                                            em inumeráveis noites de estrelas.
                    Ressuscita-me,      
                                             nem que seja só porque te esperava
                                                                            como um poeta,
                    repelindo o absurdo quotidiano!
                    Ressuscita-me,
                                             nem que seja só por isso!
                    Ressuscita-me!
                                             Quero viver até o fim o que me cabe! 7

O poema, belíssimo, continua. O grito de Maiakóvski em direção ao futuro, para ser ouvido pelo químico no laboratório das ressurreições, certamente será escutado e atendido um dia, pois poucos como ele souberam pedir, com tanta fé, por uma nova oportunidade na vida.

______________

1. O poeta-operário. Antologia poética. Vladímir Maiakóvski. p. 154. Tradução e estudo biográfico de Emílio Carrera Guerra. Cìrculo do Livro S.A. São Paulo, 1991.
2. idem, p.30.
3. idem, p.13.
4. idem, p.66.
5. idem, p.95.
6. idem, p. 154.
7. idem, pp. 155-156.
*Lázaro, o levantado dos mortos
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/08/lazaro-o-levantado-dos-mortos.html
O crédito da foto será dado assim que conhecida a autoria.
 

terça-feira, 20 de agosto de 2013

A navalha do avô

O Cavaleiro da Bandana Escarlate 
 
photo: Jean-Claude Bernardet como o avô
fonte: divulgação do filme
 

No fundo, apesar de me sentir meio fora de lugar nesse ambiente competitivo e cansativo do festival (quem agüenta ver tantos filmes?), sou um cinéfilo sentimental.

O cinema faz parte da minha vida desde tenra idade, desde quando o médico da nossa pequena Passo dos Ausentes (Dr. Fredolino Lancaster, hoje com 96 anos) projetava filmes sobre um lençol branco estendido na parede externa de sua casa para todos assistirem.

O mundo está explodindo? A vida anda insuportável? As frustrações acumulam-se? O blog tem raros leitores? Vou ao cinema em busca de renascimento.
 
Mas quero falar do presente e do daqui pra frente. Assisti a um belo curta-metragem nesse 41º Festival de Cinema de Gramado, que se encerrou no sábado, A navalha do avô (São Paulo, 2013), direção de Pedro Jorge.

O filme me tocou por trazer uma história de amor familiar entre um neto (Bruno), jovem universitário, e seu avô José. Bruno precisa dedicar parte de seu cotidiano para cuidar do avô doente. O adolescente é interpretado por Kauê Telloli e o velho, pelo escritor e crítico Jean-Claude Bernardet, ambos muito bem.

No início, Bruno reluta em conviver e acompanhar o avô em coisas como feira, barbearia, porque isso não tem a ver com sua juventude. Aos poucos, porém, passa a entender o mundo do avô e suas dificuldades, ficando a seu lado nas poucas atividades que ainda lhe restam.

Um momento de suspense é quando Bruno é levado a fazer a barba de José com a velha navalha deste. É que o dono da barbearia recusa-se a fazê-lo, alegando dificuldades com a pele do velho. Com isso, as idas à barbearia para ver os amigos, um dos poucos passeios do avô, terminam.

Bruno afia a navalha no estilo antigo. Quando começa a raspagem, a interferência intempestiva da avó faz com o jovem se assuste e a navalha...

É um filme em que a história e a emoção se constroem na medida certa, trazendo ao espectador uma sensibilidade escondida, um mundo pouco comum no cinema e na tv, que é o do afeto familiar e da consideração em relação aos mais velhos.

Foram bem merecidos os prêmios conquistados: Prêmio de Melhor Ator para Kauê Telloli; de Melhor Roteiro para Francine Barbosa e Pedro Jorge, e o Prêmio Canal Brasil.

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O Cavaleiro da Bandana Escarlate, menestrel medieval e livre-pensador, faz a cobertura do Festival de Cinema de Gramado para o blogue a convite de Alberta de Montecalvino. Como o blogue não tem mecenas, o Cavaleiro paga todas as suas despesas e acha que está muito bem assim.
 

domingo, 18 de agosto de 2013

Lázaro, o levantado dos mortos

Jorge Adelar Finatto

A ressurreição de Lázaro (depois de Rembrandt). Van Gogh
fonte: Van Gogh Museum
 
Uma das histórias que mais me tocam, na Bíblia, é a da ressurreição de Lázaro. O fato aconteceu na antiga aldeia de Betânia, que é um lugarejo situado a três quilômetros a leste de Jerusalém. Ainda hoje existe por lá o lugar onde se presume ficava o túmulo de Lázaro.
 
Naquela aldeia viviam os irmãos Lázaro, Maria e Marta. Eram muito amigos de Jesus e acreditavam na sua palavra. Jesus tinha muito carinho por eles. Numa ocasião, na casa deles, Maria banhou os pés de Jesus com óleo perfumado (caríssimo na época) e depois os secou com seus cabelos. A casa encheu-se com a fragrância.
 
Certo dia, Lázaro adoeceu. As irmãs mandaram avisar Jesus. Ao saber, Ele ainda permaneceu com os discípulos dois dias no lugar onde estavam, dizendo-lhes: "Lázaro, nosso amigo, foi descansar, mas eu viajo para lá para o despertar do sono." (João 11:11).
 
Quando Jesus se aproxima de Betânia, Marta vem a seu encontro, dizendo que, se Ele estivesse por perto, Lázaro não teria falecido. Jesus responde: "Teu irmão se levantará" (João 11;23). Marta acha que Jesus se refere à ressurreição do último dia. Foi quando Jesus disse as célebres frases: "Eu sou a ressurreição e a vida. Quem exercer fé em mim, ainda que morra, viverá (outra vez); e todo aquele que vive e exerce fé em mim nunca jamais morrerá."( João 11:25:26).
 
Maria também veio ao encontro de Jesus e chorou a seus pés. As pessoas que a acompanhavam igualmente choravam. Vendo isso, Jesus "gemeu no espírito e ficou aflito".  Ele pergunta onde está o corpo de Lázaro. Nesse momento, Jesus chora bastante.

Levam-no ao túmulo memorial (conforme a Bíblia, Deus guarda os mortos em sua memória para o dia da ressurreição).

O túmulo de Lázaro é uma caverna fechada com uma pedra. Jesus diz que é para retirá-la. Marta, irmã do morto, pondera: "Senhor, ele já deve estar cheirando, porque já faz quatro dias." (João 11:39). Ele responde, perguntando: "Não te disse eu que, se cresses, verias a glória de Deus?"

Retiram a pedra. Jesus diz, em voz alta: "Lázaro, vem para fora!" Nesse instante, Lázaro sai com mãos e pés amarrados com faixas e o rosto enrolado num pano. Jesus diz para soltá-lo e deixá-lo ir.

O morto está vivo outra vez.

Lázaro teria por volta de 30 anos na ocasião, e seguiu sua vida. Jesus, infelizmente, não duraria muito tempo mais.

Essa é uma bela história. A face sentimental de Jesus, a sua capacidade de comover-se ante o drama humano, revela-se em toda sua dimensão.

Literatura de primeira qualidade que, acima de tudo, passa a esperança de que um dia, talvez, tal como Lázaro, seremos levantados da escuridão da caverna e teremos outra oportunidade de vida na Terra.

Uma nova oportunidade para viver é tudo que se precisa, quando uma vida só, em meio à luta pra sobreviver e tentar ser um pouco feliz, num mundo extremamente injusto e conturbado, mostra-se insuficiente.
 

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Na tarde gelada e nevoenta de Gramado, todos somos celebridades

O Cavaleiro da Bandana Escarlate

photo: jfinatto

Alguns haverão de encontrar encanto em sair do cálido quarto de hotel, abandonar a leitura de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, e mergulhar na paisagem gelada e nevoenta de Gramado para assistir filmes no Festival de Cinema. Não é o meu caso.
 
photo: j. finatto
 
No hotel onde estou hospedado há tantos astros, estrelas, diretores e gente envolvida com cinema, que até um anônimo como eu chama a atenção.
 
Tenho participado, involuntariamente, de variadas rodas sobre temas relacionados ao mundo da tela grande. Não que eu faça questão. Sou ao natural um sujeito tímido e pouco falante. Prefiro sempre ouvir a falar. Não por modéstia, mas por falta do que dizer.
 
Ocorre que me pegam pelo braço no corredor, no café, no jardim, como se fosse um deles, e me levam pra lá, pra cá, em salas temáticas da sétima arte. Talvez o cabelo cinza, os óculos com lentes de fundo de garrafa e a aparência vetusta façam presumir alguém que não sou eu.
 
photo: j.finatto

A vida me ensinou que não é de bom tom perguntar-se o nome das pessoas nesse ambiente cinematográfico. Supõe-se que, entre nós, celebridades, existe o desejável, esperável e nunca desprezível recíproco reconhecimento.
 
A mim deram para chamar de Carlos, o Carlinhos do 707. Eu, que até dias atrás era um ilustre anônimo, pertenço agora à malta.

Sou um peixe navegando nessas marés de Deus, adapto-me com certa facilidade às vicissitudes, sobrevivo. E sempre gostei deste nome, Carlos! Já agora me sinto à vontade com a nova identidade.
 
Um diretor famoso (no festival todos os diretores são famosos) cismou de achar, num desses encontros, que, no início da carreira, trabalhou como meu assistente num filme. Disse aos presentes - pedindo que eu levantasse da cadeira, no fundo da sala - disse que eu lhe dei a primeira oportunidade.

Espantado, eu quis dizer que não, não era assim, ele estava me confundindo com outro. Mas o diretor imediatamente me interrompeu e retrucou:
 
- O velho e bom Carlinhos de sempre! Além de tudo, humilde!
 
A assistência aplaudiu, alguns de pé. Limitei-me a esboçar um breve aceno e sentei-me, curtindo meu momento de glória.
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O Cavaleiro da Bandana Escarlate, menestrel medieval e livre-pensador, faz a cobertura do Festival de Cinema de Gramado para o blogue a convite de Alberta de Montecalvino. Como o blogue não tem mecenas, o Cavaleiro paga todas as suas despesas e acha que está muito bem assim. Texto revisto, publicado antes em 10 de agosto, 2011.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Venimos de muy lejos

O Cavaleiro da Bandana Escarlate
 
photo: cena do filme
fonte: site dos produtores*
 
Não fique em casa sozinho, vendo televisão no sofá. Venha para a praça fazer teatro com a gente.
                                              Grupo de Teatro Catalinas Sur

Venimos de muy lejos (Viemos de muito longe, 2012), filme argentino com direção de Ricardo Piterbarg, é o melhor que vi até agora no Festival de Cinema de Gramado. Mais uma vez, o cinema argentino brilha, salva um festival que costuma ser apenas morno e faz valer a pena estar aqui em meio à chuva e ao frio.
 
O filme documenta o trabalho de criação e realização da peça Venimos de muy lejos, do Grupo de Teatro Catalinas Sur, que existe há trinta anos em Buenos Aires.

Catalinas Sur é o nome do bairro onde o grupo se formou, integrado pelas pessoas da comunidade. Vejamos o que eles dizem no seu site oficial*:

Somos um grupo de vizinhos que vemos no teatro a possibilidade de nos comunicarmos com outros vizinhos. Através do teatro, da música, do circo, dos títeres, queremos recordar o valor de nossas histórias individuais e coletivas e recuperar a memória que acreditou e que acredita em um mundo melhor.

Parece exagero dizer que o teatro pode mudar a sociedade, mas um grupo de homens e mulheres que fazem teatro pode levar adiante um projeto que não se limite aos novos modismos globalizados e se apóie nas ricas tradições e na história popular.


Pensamos e sentimos que o teatro é uma forma de comunicação e também de resistência. Estamos convencidos de que nossa utopia é possível e trabalhamos todos os dias para torná-la realidade.

photo: peça Venimos de muy lejos

Venimos de muy lejos conta histórias fictícias e reais, a partir da experiência dos imigrantes (italianos, espanhóis, poloneses, etc., antepassados dos membros do grupo) que vieram para a Argentina em fins do século XIX, inícios do XX, instalando-se nas imediações do porto da cidade de Buenos Aires, no bairro La Boca, conhecidíssimo hoje pelo time de futebol Boca Juniors (estádio La Bombonera) e pela rua-museu Caminito
 
Naquele lugar os imigrantes passaram a morar nos conventillos (cortiços), precariamente instalados em pequenos quartos, com problemas de toda ordem, desde várias pessoas dormindo no mesmo ambiente até diversas famílias usando um mesmo banheiro.
 
O filme traz a peça para a tela, contando as dificuldades e também a solidariedade que movia aquela gente, suas esperanças, suas lutas por um amanhã melhor, suas festas e canções, tudo sempre com muito humor.

Teatro comunitário. A peça, agora filme, estreou em 1990 na Praça Ilhas Malvinas do bairro Catalinas Sur, e segue sendo apresentada em outras praças, cidades e países.

O que mais chama a atenção é a maneira como o grupo atua na comunidade, chamando os moradores para a rua a fim de participarem das atividades artísticas e comunitárias.

Desde crianças até velhos, muita gente se envolve, opina, discute, atua, sendo a criação coletiva a principal característica.

O filme retrata tudo isso com muita riqueza.

Ao saírem da solidão dos apartamentos, as pessoas se encontram, conversam, sabem umas das outras, realizam vários tipos de oficinas, criam projetos, sentimentos e sentidos. E isto, nos dias de hoje, considerando a penúria de convivência em que se vive, é, no mínimo, revolucionário.
 

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Wagner Moura, ator e cidadão

O Cavaleiro da Bandana Escarlate
 
photo: j.finatto
 
No sábado, fez um frio polar aqui em Gramado, com a temperatura caindo para algo próximo de zero grau. Uma chuva bem molhada e insistente não parou o dia inteiro. À noite, no Palácio dos Festivais, assisti ao filme argentino Puerta de Hierro, El Exilio de Perón, e a um curta-metragem (o primeiro da programação noturna) que achei decepcionante, não entendendo como passou na seleção.
 
Para quem, como eu, conhece pouco a história da Argentina, o filme sobre o exílio de Perón (1955-1973), direção de Dieguillo Fernández e Víctor Laplace, tem interesse. Perón foi um líder político marcante e com personalidade complexa. Puerta de Hierro é o nome da casa em que ele morou em Madri, onde recebia visitantes e políticos, e na qual foi guardado o cadáver embalsamado de Eva Perón, depois que restou devolvido por inimigos de Perón, após terem mantido o corpo desaparecido por quase 20 anos. A obra aborda também sua amizade com uma jovem mulher espanhola, à qual confia suas memórias gravadas em fitas.

Naquele período conhece e casa-se com Isabelita. Através dela, entra na história um estranho com supostos poderes sobrenaturais, López Rega, dito El Brujo. Perón retorna à Argentina, é eleito novamente presidente, morre e assume sua vice, Isabelita, que dá poderes a Rega, seguindo-se um período de grande violência promovido por ele, que deságua no golpe e na ditadura militar em 1976.  
 
Um bom filme, embora não desenvolva como poderia as contradições de Perón, inevitáveis, para o bem e para o mal, em figuras de sua dimensão.
 
Mas o melhor da noite ocorreu depois deste filme, durante a entrega do Troféu Cidade de Gramado ao ator Wagner Moura, pelo conjunto de seu trabalho.

photo: j.finatto
 
Poucos artistas no Brasil conseguem se expressar tão bem sobre a arte e a função do ator como ele. Moura estava chegando dos Estados Unidos, onde foi para o lançamento do filme Elysium (estréia de Wagner em Hollywood), que no primeiro dia de exibição faturou cerca de 11 milhões de dólares, conquistando a primeira posição em bilheteria nos EUA.
 
Wagner disse, entre outras coisas, que partilhava o troféu com os atores de sua geração. Com a mãe presente no Palácio dos Festivais,  ele comentou que ela realizava o desejo de estar em Gramado e de ver o filho participando do festival.
 
photo: j.finatto
 
Depois ele referiu que no domingo, 11/8, Dia dos Pais, gostaria de almoçar com seu pai, abraçá-lo, mas não seria possível pois faleceu ainda durante a realização do filme Elysium.
 
O momento mais emocionante ocorreu quando ele dedicou o troféu aos filhos do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, desaparecido desde 14 de julho, na favela da Rocinha, no Rio, quando, após identificar-se aos policiais que o abordaram com a carteira de trabalho, foi conduzido a prestar depoimento na Unidade de Polícia Pacificadora local e não foi mais visto. Sumiu.
 
Wagner disse que não poderia almoçar com seu pai porque ele ficou doente e morreu. Mas que os filhos de Amarildo não poderiam passar com seu pai porque ele desapareceu e não há explicações para isso.
 
O ator falou como alguém que, além de procurar fazer o melhor na profissão que exerce (e o faz muito bem), não se omite diante da realidade brasileira e de fatos dramáticos como o desaparecimento de Amarildo. Sabe dizer as coisas com verdade e sentimento. Além de ator, um ser humano e um cidadão.
 
photo: j.finatto
  

domingo, 11 de agosto de 2013

A sombra da esfinge

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto. duas magnólias
 

Como ele nunca tivera pai para amar, sempre lhe pareceu que a coisa mais em falta no mundo não é dinheiro nem qualquer outro bem material, mas um abraço de pai.
 
Quando menino, era difícil explicar aquela ausência para os outros. Na rua e na escola, as pessoas botavam olho, cara de admiração. Não ter pai era mesmo que não ter um braço ou uma perna.
 
A sombra da esfinge o perseguia no Dia dos Pais, aniversários, natais, páscoas, reuniões na escola, fins de semana, noites e dias sem fim. A falta projetou-se nos sonhos e pesadelos do menino.

O tempo passou.

Um dia ele descobriu que outras casas também não tinham a figura misteriosa. Só que muita gente escondia isso. Estranho: escondiam um ser que não existia. Ocultavam o mito. E alguns possuíam apenas uma deprimente imagem de homem no sofá da sala.

Os sem-pai já não eram exceção. Talvez fossem maioria.

Ficou nele a idéia de que as mulheres, e não os homens, fazem o moinho do mundo girar.

Na verdade, isso não era um consolo, mas a consciência de uma espécie de mutilação. Sempre falta um pedaço.

A humanidade é toda seqüelada, ele pensa, enquanto caminha com o filho pela mão na praça do bairro, domingo à tarde.
 
É que pra ele, agora, todo dia é Dia dos Pais. 
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Texto revisto, publicado anteriormente em 16 de maio, 2013.
 

sábado, 10 de agosto de 2013

O assassinato do ambientalista

Jorge Adelar Finatto

photo: Hernández, em imagem cedida por sua viúva. fonte: El País

O assassinato do ambientalista espanhol Gonzalo Alonso Hernández, 49 anos, ocorrido no último domingo, em seu sítio, no interior do município de Rio Claro, Estado do Rio de Janeiro, é mais um trágico acontecimento na história da luta pela preservação do meio ambiente no Brasil. Uma demonstração evidente - mais uma - do alto grau de violência que domina a sociedade brasileira.

Segundo o jornal El País*, da Espanha, Hernández, que era biólogo, estava no Brasil desde 1997. Inicialmente veio trabalhar como diretor de uma empresa de telefonia. Em 2005 decidiu largar o emprego para dedicar-se integralmente à causa da ecologia, abrindo mão do bom salário que o cargo lhe proporcionava. Passou a atuar no Parque Estadual Cunhambebe, uma reserva da Mata Atlântica, com 38 mil hectares. Conforme o periódico, ele era rigoroso na denúncia de caçadores e desmatadores, chegando até mesmo a segui-los e fotografá-los em suas atividades ilegais.
 
O informe dá conta, ainda, de que sua viúva, a brasileira Maria de Lourdes Pena Campos, e pessoas envolvidas na proteção ambiental temiam pela maneira firme e contundente com que Hernández atuava. Para os que lhe eram próximos, foi uma tragédia anunciada. De acordo com Maria de Lourdes, ele se queixava de que "os brasileiros nunca protestam por nada".

Ela acrescentou que o marido era uma pessoa estudiosa, caseira, que gostava de ler, além de dedicar-se à ecologia:

- Ele queria fazer um blog sobre meio ambiente, mas não deu tempo.

O secretário do Meio Ambiente de Rio Claro, Mario Vidigal, lembrou que ele era um idealista da causa ambiental, denunciando toda ilegalidade que via.
 
O ecologista foi atingido pelas costas com um tiro na cabeça, quando chegava em seu sítio, depois de levar a mulher até a rodoviária, onde ela embarcou para a cidade do Rio, na qual trabalhava durante a semana. Ela regressava aos finais de semana para encontrar o marido. O corpo só foi encontrado na terça-feira pela manhã, coberto por pedregulhos e folhas de bananeira, num riacho próximo. De sua casa foram levados o laptop, duas lanternas e o celular, informa O Globo**. Conforme a reportagem, Hernández participava do programa Produtores de Água e Floresta, uma parceria do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) com o Instituto Terra de Preservação Ambiental, a prefeitura de Rio Claro e a ONG The Nature Conservancy. Ele recebia uma compensação financeira pelo zelo ambiental. O homicídio está sendo investigado pelas autoridades.
 
A violência inaceitável e revoltante nos remete a um Brasil em que existe um abismo entre o elevado poder dos criminosos e a baixa capacidade do Estado em fazer valer a lei. As pessoas de bem, que respeitam regras de convivência e procuram fazer algo pelo coletivo e pela natureza (como Hernández), vivem à margem de proteção. Dominam a cena os bandidos, os malfeitores, os corruptos e corruptores, os violadores da ordem jurídica, que atuam com desenvoltura, sem nenhum limite, porque falta Estado para fazer respeitar a lei.

Os agentes que combatem a criminalidade se defrontam com a falta de recursos para exercer seu papel, com poucos meios materiais e humanos, muitas vezes sem mínimas condições de trabalho. Os salários pagos pelo Estado a esses homens e mulheres não condizem com a importância e o risco de sua missão.
 
Infelizmente, há muito o Brasil deixou de ser um País cordial e pacífico (se é que realmente algum dia o foi). O que vemos é um quadro crescente e assustador de violência, que radica na maior de todas elas, a corrupção.

A incompetência governamental, em níveis federal, estadual e municipal, em áreas essenciais como segurança, saúde, educação, transporte, infraestrutura, meio ambiente e outras, se acentua a cada dia. Com poucas exceções, a maior parte dos administradores públicos subestima a capacidade de indignação da população diante dessa situação, o que põe em risco as conquistas democráticas.

A terrível morte de Hernández é mais um dado nessa realidade brutal, que é a negação dos direitos humanos, da democracia e do estado de direito pelos quais tanto se lutou e tantos perderam, e continuam a perder, a vida.

Quantos outros ambientalistas estarão sofrendo ameaças e agressões neste momento pelo país afora, sem que nada seja feito? Triste Brasil.
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*El País:
**O Globo:
 

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Cley e Cortázar

Jorge Adelar Finatto
 
photo: Julio Cortázar*

  "Sei que algum dia os brasileiros vão descobrir melhor Cley."
     Julio Cortázar
 
Volto ao livro Papéis Inesperados, de Julio Cortázar, sobre o qual escrevi faz algum tempo. Um texto me chamou a atenção, aquele em que Cortázar fala a respeito de seu amigo Cley Gama de Carvalho, que ele apresenta como jornalista e dramaturgo brasileiro. Impressiona o afeto, e também o respeito, que havia entre eles. Conheceram-se em Paris quando Cley fez uma entrevista com o escritor argentino.

Não eram amigos de se ver todo dia. Encontravam-se de vez em quando, a intervalos de dois anos, em geral. Quando Cortázar lhe perguntava, pessoalmente ou através de carta, como estava, a resposta era sempre a mesma: tudo bem.

Mas o escritor pressentia que as coisas não iam bem com o amigo, pelo contrário. Eram os anos dos governos de força neste lado do mundo e Cley teve sérios problemas com a ditadura militar no Brasil. Cortázar não sabia detalhes do que acontecia, pois Cley não era de lamentar-se e evitava o assunto. Mas sentia que a realidade, a cada dia, pressionava mais e mais o brasileiro.
 
É um texto cálido sobre o amigo Cley que se suicidou no Brasil, no final de 1976 ou inícios de 1977, não há precisão. O companheiro que enviava garrafas de cachaça, pelo correio, para Cortázar enfrentar o inverno. Algumas chegavam estilhaçadas no pacote.

O argentino refere-se, também, à peça de teatro que Cley escreveu, intitulada Cromossomos (Como somos), e que considera "magnífica", "cuja representação no Brasil não havia servido exatamente para facilitar a vida e a tranquilidade de Cley". Esse elogio, vindo do criador de Histórias de Cronópios e de Famas, tem que ser bem apreciado.
 
Nunca ouvira falar antes de Cley Gama de Carvalho até ler este texto.
 
Tentei encontrar alguma informação sobre ele, algum trabalho de sua autoria, mas muito pouco consegui até agora. Vou continuar atento. Afinal, pelo que diz Cortázar (poderia haver melhor testemunha?), foi uma pessoa muito especial e um autor importante:
 
"algum dia os paulistas, todos os brasileiros, saberão melhor quem foi Cley Gama de Carvalho, como passou por seu tempo com uma dignidade de grande urso livre, com um sorriso calado de ironia sem maldade".
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Papéis Inesperados, Julio Cortázar. Para uma imagem de Cley, pp. 367/372. Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2010.
*Foto de: Julio Cortázar. Fonte: www.juliocortazar.com.ar. O crédito será dado ao autor tão logo tenhamos a informação.
Este texto publicado anteriormente em 18 de agosto, 2010.
Leia também Urso solitário, do artista plástico Mario Gruber sobre Cley:
http://www.memorial.org.br/acervo/obras-de-arte/homenagem-a-clay-gama-de-carvalho/urso-solitario/
 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Proust no Festival de Cinema de Gramado

O Cavaleiro da Bandana Escarlate

photo: j.finatto. magnólias de Gramado. agosto 2013
 

Estava em solidão com o livro (Em busca do tempo perdido) no breve jardim de inverno no meu solar da Praça Maurício Cardoso, na madrugada fria de Porto Alegre, quando ouvi o som do telégrafo no escritório. Sim, ainda tenho um desses vetustos aparelhos (ninguém mais sabe o que é isso). É com ele que me comunico com Passo dos Ausentes.

Quem será no manipulador a uma hora dessas? Ainda há gente viva naquela cidade perdida? - perguntei-me.
 
Pedi licença a Marcel Proust (1871-1922) para ausentar-me um momento. Ele me olhou como quem diz: vá lá, eu tenho toda a eternidade pela frente.

Subi ao escritório e li a mensagem. Era Alberta de Montecalvino*, a Senhora da Biblioteca, me lembrando que nesta sexta-feira, 09 de agosto, começa mais um Festival de Cinema de Gramado, que se estenderá até o dia 17. Trata-se da 41ª edição do evento, que reúne filmes brasileiros e latinos. Mais que isso: a nobre dama me convocou a fazer a cobertura do festival para o blog.

Do meu jeito, claro, com liberdade, inclusive, para não assistir a todos os filmes (quem há de ver tudo?). Eu não consigo. Preciso de um tempo para respirar e admirar as magnólias que brilham nessa época contra o céu azul de Gramado. 
 
Respondi que sim, tenho por norma jamais dizer não ao cinema e à Alberta. Depois, naquela glacial madrugada, voltei ao jardim e comuniquei a meu amigo que teria de viajar, expliquei-lhe o motivo.
 
- Não se explique tanto, vá em paz, meu caro. Na sua volta, estarei aqui, esperando, aliás como sempre faço - disse-me Marcel. Havia nessas palavras muito mais que compreensão: era a ironia proustiana caindo sobre mim.
 
E não pense o leitor que me espantei, pois faço jus à ironia do grande escritor francês. Faz trinta anos que não consigo terminar de ler os sete volumes de Em busca do tempo perdido.
 
Proust por volta de 1900. photo: Sygma/Corbis.
fonte: site do jornal The Guardian**

Deus, é difícil confessar tamanha barbaridade. As páginas dos volumes ficaram amarelas, muitas coisas caíram no esquecimento dentro de mim, meus cabelos ficaram cor de cinza. Minha culpa não tem limites e é ainda maior do que aparenta: sequer recordo quantas vezes iniciei e interrompi a leitura do primeiro volume (No caminho de Swann), na bela tradução de Mario (sem acento, por favor) Quintana.
 
Pois justo agora tinha decidido seguir até o fim. Com o constrangimento habitual, pedi desculpas a Marcel que, com gravata de laço, perna esquerda cruzada, sentado, olhou para o teto, ergueu a mão direita, deixando-a cair em seguida sobre o braço vermelho da poltrona.
 
- C'est la vie, c'est la vie, mon ami, disse ele com visível enfado, baforando a cigarrilha contra a luz do abajur azul. No mesmo instante perguntei se não gostaria de viajar comigo a Gramado. Poderíamos continuar a conversa na serrana cidade, andar pelas ruas, ir a cafés e tavernas, que nessa época se enchem de felinis e mazaropis. Qual não foi minha surpresa com a concordância de Marcel.

Preparei a Yamaha 250 cilindradas (ano 1974), pouca roupa no alforje e parti, partimos, em tresloucada aventura pela BR-116. Marcel veio na carona da moto.
 
E aqui estamos olhando a imensidão do Vale do Quilombo, no hotel, depois de três horas de vento e garoa na cara. No caminho, paramos em Nova Petrópolis para um café com memorável fatia de bolo caseiro, que teve para nós o sabor de uma madeleine proustiana.

Publicado em 1913, No caminho de Swann foi pago com o dinheiro do próprio escritor. É a porta de entrada desta grande, bela e acolhedora casa. Desta vez, vou tentar não decepcionar Marcel. Enquanto o festival não começa, estamos convivendo, varando as noites em busca da memória e do sentido das coisas.

Os filmes que quero ver. O que mais me move nesta empreitada, não vou negar, é assistir aos seguintes filmes:  A Oeste do Fim do Mundo (2013) - Argentina/Brasil (coprodução); Cazando Luciérnagas (2013) - Colômbia; El Padre de Gardel (2013) - Uruguai; Puerta de Hierro - El Exilio de Perón (2012) - Argentina; Repare Bem (2012) - Portugal; Venimos de Muy Lejos (2012) - Argentina.

O cinema que se faz na Argentina, principalmente, e no Uruguai, atualmente, está entre os melhores do mundo. Pretendo acompanhar de perto esses filmes, sem esquecer alguns brasileiros (embora sem levar muita fé, confesso. Tomara que me surpreenda).

E, é claro, não vou perder os curtas, que passam às tardes, gratuitamente, no Palácio dos Festivais. Descobri belos trabalhos entre os curtas nas edições anteriores.

Os pequenos-grandes filmes são a cereja do bolo do festival de Gramado.

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O Cavaleiro da Bandana Escarlate, menestrel medieval e livre-pensador, faz a cobertura do Festival de Cinema de Gramado para o blogue a convite de Alberta de Montecalvino.
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/01/o-conde-de-lautreamont-e-as-magnolias.html

*Alberta de Montecalvino:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/07/alberta-de-montecalvino.html

**The Guardian:
http://www.theguardian.com/books/2013/feb/07/reading-group-swanns-way
 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Imagens do Vale do Quilombo

Jorge Adelar Finatto 

photo: j.finatto

 
Tem início hoje na Universidade de Caxias do Sul, campus da cidade de Canela, a exposição fotográfica Visões do Vale do Quilombo. São 22 imagens que fiz com a intrépida Coruja durante as minhas passagens por Canela e Gramado, onde se situa o Vale, nas idas e vindas a Passo dos Ausentes.
 
São pinturas de quem não sabe pintar, mas gosta de registrar imagens da natureza.
 
photo: j.finatto
 
Gosto de photos que nos transportam para um lugar espiritual.
 
Fotografar, como escrever, faz parte da vã tentativa de dominar o tempo, aprisionar o transitório. A arte é talvez a busca da impossível permanência. Isso de que somos carentes. A brevidade da vida é algo assustador e não está de acordo com nossa ânsia de beleza e eternidade, perceptível em quase tudo que fazemos.
 
Nesta luta entre o rochedo e o mar, a gente faz o que pode. São formas de partilhar a vida.
 
photo: j.finatto

A fotografia só se completa no olhar e no sentimento do observador.
 
Estão todos convidados.

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Exposição de 05 a 31 de agosto, na UCS, Canela. Fone: 054-32825200
 

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O retorno do pássaro

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto
 

Eu andava sorumbático e não sabia por quê. Até que me dei conta: estou longe de Passo dos Ausentes há muito tempo. Porto Alegre, pra mim, não é mais um porto acolhedor, é um lugar onde venho cumprir compromissos. E sinto medo.

Há violência, ressentimento, indiferença demais nesse porto que ficou triste.

Quando estou por aqui, uma vez cumprida a obrigação, fico no apartamento, ou então me refugio em sala de cinema, livraria, café. Pouco saio nas ruas.

O que houve entre mim e Porto Alegre? Mudamos, talvez não nos reconheçamos mais como antes. Perdemos a intimidade.

Se ainda sinto amor pela cidade do pôr-do-sol? Como não sentiria? Afinal aqui cheguei num longínquo abril, depois de escorregar entre os pinheiros e as montanhas, durante um grande vendaval. Vim rolando feito seixo que acabou caindo na beira do Guaíba.

O Guaíba foi o irmão que me recebeu de braços abertos.

Muitos anos depois retornei à serra ancestral, reencontrei o lar perdido. Tornei-me outra vez aquilo que nunca deixei de ser, um interiorano. Por isso essa sensação de passarinho caído fora do ninho quando estou longe da casa de madeira e basalto nos Campos de Cima do Esquecimento.

Em suma, parafraseando o velho Sócrates, eu não sei de nada, mas sei menos ainda da vida e de mim quando estou na cidade grande.

Quando você ler estas maltraçadas linhas, raro leitor, eu estarei na estrada, regressando, enfim, pro meu canto no universo. Feliz como pássaro ferido que retomou o vôo.
 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Visita ao cemitério de Père-Lachaise, Paris

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. Père-Lachaise, Paris


Um leitor pergunta-me, por e-mail, o que, afinal, um escritor genial como Balzac (1799-1850) ia fazer no cemitério de Père-Lachaise em Paris. Refere-se ao post de ontem (29/12/12), no qual escrevi que o grande romancista francês costumava freqüentar aquele lugar para meditar e realizar no local o que denominou "estudos de dor".


photo: j.finatto.Túmulo de Proust com carta e vaso de flor

Admirou-se, também, o raro leitor, pelo fato de eu ter passado um dia - um domingo - pesquisando, anotando e fotografando no tal cemitério: "O que pode haver de tão interessante num lugar assim? Não revelará esse gesto certa tendência mórbida do temperamento do cronista?", arrematou.

photo: j.finatto. Túmulo de Oscar Wilde em reforma, acima e embaixo (e os beijinhos)


photo: j.finatto

Não posso falar por Balzac, mas acredito que, atento observador como era, capaz de ir a minudências que passam despercebidas da maior parte dos mortais, as horas vividas no cemitério serviram-lhe de precioso material existencial e reflexivo para escrever sua obra.

Nada como a morte para chamar-nos à vida.

Uma certa melancolia ancestral habita o meu sangue, admito. Esse é um traço anímico de quem nasceu em Passo dos Ausentes como eu. Ninguém vem ao mundo impunemente aqui nos Campos de Cima do Esquecimento, entre gélidas névoas.


photo: j.finatto. Túmulo de Balzac

Mas ainda não chego ao ponto de fazer excursões a cemitérios por causa disso. Longe de mim! A morte é, entre os fatos naturais, o que me causa maior aversão e desgosto. Não existe entre mim e ela amizade ou encantamento possível.

Visitar cemitérios, portanto, não é um passeio que, de regra, me agrade, pelo contrário. Além disso, procuro sempre evitar tais visitas, pois, como diz aquele sábio ditado popular: "quem não é visto não é lembrado".


photo: j.finatto. Túmulo da escritora Colette

Uma visita ao Père-Lachaise tem valor cultural. É um giro pela história da arte e da cultura. E uma visão impressionante da transitoriedade de tudo nesse mundo. O destino final de todos os esforços, caprichos, alegrias, dores, sacrifícios, preocupações e vaidades.

Ali estão os túmulos de alguns dos principais artistas, escritores, filósofos e cientistas que marcaram a trajetória humana. As inscrições tumulares dão alguma notícia do que fizeram. Na portaria, o interessado pode pegar um impresso com o mapa das sepulturas contendo informações sobre os ilustres falecidos.


photo: j.finatto. Túmulo de Gilbert Bécaud

Também é possível observar a reação das pessoas diante da morte de personagens famosos (e outros nem tanto), os estudos de dor, de que nos fala Balzac. Cartas, bilhetes, livros, flores, velas, objetos diversos são colocados nos túmulos.

Mas nenhum dos habitantes do Père-Lachaise é alvo de tamanha manifestação de afeto como Oscar Wilde, cujo túmulo foi coberto por marcas de beijos com batom ao longo do tempo. Sobre o assunto escrevi Oscar Wilde: o beijo proibido.*


photo: j.finatto. Père-Lachaise

Estão sepultados no Père-Lachaise, entre tantos: Chopin, Édith Piaf, Yves Montand, Proust, Jim Morrison, Paul Éluard, Sarah Bernhardt, Maria Callas, Isadora Duncan, Allan Kardec, Camus, Gilbert Bécaud, Molière, Champollion, Modigliani, Pissarro, Dalacroix, Max Ernst e por aí vai. É um panteão a céu aberto. Vale a pena uma visita (não recomendável para pessoas impressionáveis).


photo: j.finatto. Père-Lachaise
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Oscar Wilde: o beijo proibido:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2011/12/beijo-proibido.html

Fotos de novembro de 2011.
Texto revisto, publicado antes em 30.12.12.

domingo, 28 de julho de 2013

T.S.Eliot, Deus e as coisas boas da vida

Jorge Adelar Finatto

photo: T.S. Eliot
 

Uma carta do poeta T.S. Eliot (1888-1965), publicada na edição de julho deste ano da revista Serrote (nº 14), que acaba de chegar às livrarias, evidencia a religiosidade de um dos grandes autores do século XX. Nela o escritor considera Deus uma presença fundamental em sua vida.

Eliot nasceu nos Estados Unidos (St. Louis, Missouri) e fez brilhante carreira literária na Inglaterra, adotando a cidadania inglesa em 1927. Por sua obra, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1948.

Num tempo em que o ateísmo ou a desconsideração de Deus é pensamento dominante nos meios intelectuais, a manifestação de Eliot, um dos grandes poetas de língua inglesa de todos os tempos, escapa ao "intelectualmente correto", abordando sem reservas sua crença.

Fugindo da concepção que nega a existência de Deus, ou que sequer leva o assunto em consideração (como se fosse coisa de indivíduos ignorantes e pouco dotados mentalmente), Thomas Stearns Eliot afirma sua fé com convicção, de forma tranqüila, sem pretender impô-la a ninguém.
 
A carta foi escrita em 18 de setembro de 1927, um domingo à noite, tendo como destinatário Geoffrey Faber, escritor e editor, fundador da editora Faber & Gwyer (depois Faber & Faber), para a qual Eliot trabalhou durante muitos anos.

Publicada na Serrote com o título As coisas boas da vida, traz o entendimento do poeta no sentido de que a apreciação das coisas boas da vida depende do alcance de cada um, do grau de bondade de cada um, "minha própria apreciação (...) é intensificada por minha consciência de Deus", e acrescenta:
 
"Por exemplo, se alguém toma as relações humanas (ou, ainda, melhor, a relação homem/mulher) como seu maior bem, afirmo que isso acabará em desilusão e engano. Mas se duas pessoas (digamos um homem e uma mulher que mantêm uma grande intimidade) amam Deus ainda mais do que um ao outro, então ambos desfrutam maior amor um pelo outro do que se não amassem a Deus.

"(...)  O amor de Deus substitui o cinismo, o qual, de outro modo, é inevitável em qualquer pessoa racional, pois as relações com amigos e amantes, apartadas do amor de Deus, sempre, em minha experiência, acabam em desilusão e engano. Ou as pessoas o decepcionam, ou você as decepciona, ou ambos: nenhuma relação humana é, em si mesma, satisfatória" (p.238).*
 
Não me recordo de ver a questão de Deus colocada de forma tão lúcida e clara no âmbito das relações humanas. Não imaginava encontrar semelhante visão a um só tempo existencial e espiritual no autor do belo poema A terra devastada, traduzido no Brasil, com excelência, por Ivan Junqueira, com o título de A terra desolada, no livro T. S. Eliot, Poesia (com introdução e notas), Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1981.

O tema é particularmente importante nos dias de hoje, quando tanto se despreza a dimensão da espiritualidade na vida das pessoas, preferindo-se o indivíduo isolado no egoísmo, separado dos outros, valendo por si, contra tudo e contra todos, sem limites na busca de prazeres e bens materiais.

Não vou tirar o prazer do leitor de ler na íntegra a carta nas páginas da Serrote, de ruminar e extrair suas conclusões. Trata-se de um rico documento. Digo apenas que, por mim, a revista poderia ter apenas esse texto e já estaria plenamente justificada. Mas tem muito mais. É ler ou ler.


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O crédito da photo de T.S. Eliot será dado tão logo conhecida a autoria.
* Tradução de Thiago Lins
 

quinta-feira, 25 de julho de 2013

O gato no escritório

Jorge Adelar Finatto

 
photo: j.finatto
 

Anda comigo, vai onde eu vou, dorme e acorda a meu lado um gato invisível. O pelo azul claro e brilhante ofusca quando o vejo caminhando ao sol. Os dentes afiados, brancos, aparecem na intermitência do bocejo. O gato nasceu no mesmo dia em que eu nasci e nunca mais me abandonou. Gosta de ficar sentado na janela da minha solidão.
 
Não é um gato de raça conhecida. É um tipo que não se encontra nos livros nem no google. Ele apenas está por perto, sua presença é como a extensão da minha sombra.
 
Às vezes, quando me distraio, ele some no ar. Se começo a pensar na passagem do tempo, no sumidouro do calendário, na vida por levar, nos problemas sem solução, ele torna a surgir numa mansidão de fazer inveja. Costuma deitar sobre o tapete do escritório, ao pé das estantes. Enquanto me esfalfo trabalhando ele ronrona.

Como os gatos em geral, o meu gato é muito silencioso. Toda vez que tento pegá-lo ele desaparece e surge noutro lugar. Não se deixa acariciar. Não come, não bebe leite nem água. Raramente mia, e quando o faz é um miado infantil. O bichano não caça mas às vezes sonha que está correndo e pulando atrás de coloridas borboletas pela casa.

Não sei se alguém enxerga o meu felino. Não costumo conversar sobre isso, porque é difícil falar de um ser como ele. Muitos dirão que estou inventando (a falta de imaginação está acabando com a graça das coisas). Alguns só acreditam naquilo que podem tocar, comprar e levar pra casa, em nada mais.

O mundo materialista em que se vive virou as costas para o invisível. Esse é um dos problemas da humanidade. As pessoas perderam a fé. A maior parte das coisas que valem a pena não se vê e não se toca. Alguém já pegou um sentimento com as mãos? E, no entanto, não existe nada mais forte e real.

Ninguém, em tempo algum, conseguiu segurar na mão uma única cor do arco-íris. Muitos quiseram, eu mesmo tentei várias vezes, mas não tem jeito. O raio de luar é uma coisa branca, suave como uma seda que ondula ao vento, mas ninguém põe a mão.

E os sonhos só se entregam a quem busca algo além da realidade tangível. Quem sonha habita um mundo que ainda não existe, mas que poderá vir a ser.

O meu gato faz parte desse universo invisível e essencial. Tem uns olhos amarelados e miúdos. E deixa na casa, e dentro de mim, um gosto morno de infância e novelo de lã.
 

terça-feira, 23 de julho de 2013

A breve carreira militar

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto
 

A - este é o nome do nosso singelo personagem - foi reprovado no exame físico do Exército. Era na década de 1970, em plena ditadura militar. Alguém teve a infeliz idéia de mandar que tirasse os óculos. Depois que os retirou, passou a ouvir vozes e enxergar vultos. Aquele período de dois dias no quartel foi o tempo que durou a carreira militar de A.
 
Na verdade, ele queria ingressar na Marinha do Brasil. Os filmes de pirata e de guerra naval haviam plantado este sonho em seu imaginário. Sempre gostara de aventuras pelos mares do mundo. Mas um amigo disse-lhe que se ele se alistasse na Armada teria de permanecer pelo menos cinco anos, longe de tudo e de todos. Por mais que quisesse ser marinheiro, isso estava fora de cogitação.
 
A imagem mais marcante que guardou na memória de sua célere passagem pelo Exército foi a do encontro entre um oficial e os dispensados numa sala. O militar olhou-os com desalento. Perguntou o que achavam que deveria ser feito com eles.

A quase maioria respondeu que estava preparada para fazer o serviço militar. Era sem dúvida um pelotão de bravos. O oficial disse, então, com delicadeza, que o certo era colocá-los dentro de um caminhão e depois atirar todos dentro do Guaíba.

Houve um certo desconforto entre os intrépidos guerreiros.
 
- Vocês não servem pra nada. Vão embora antes que eu me arrependa e chame o caminhão.
 
A voltou desanimado para casa, para a insossa vida civil que o aguardava (tinha só 18 anos). Voltou sem uniforme, sem divisas, sem histórias pra contar e sobretudo sem a admiração dos amigos de rua. Voltou, enfim, como partira, apenas um cara comum, sem eira nem beira, com a vida por levar num país injusto, esculhambado e violento, sem perspectiva para gente como ele.
 

domingo, 21 de julho de 2013

Os buquinistas de Paris

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto. Catedral de Notre-Dame

Jamais me senti solitário nas margens do Sena.*
Ernest Hemingway

Um passeio interessante, em Paris, pra quem gosta de livros, é sair a pé pelas margens do Sena. Gosto de começar na altura da Notre-Dame em direção ao Museu do Louvre, com tempo para ir parando nas bancas de livros dos buquinistas (bouquinistes), os conhecidos vendedores de livros usados.

photo: j.finatto

Eles são muitos e estão instalados ao longo dos muros nas margens do rio, com suas bancas de cor verde. Dizem alguns que eles estão ali desde o século XVIII.

photo: j.finatto
 
Os alfarrabistas da beira do Sena fazem parte do cartão-postal da cidade. Seu pequeno comércio de livros velhos, cartazes e souvenirs habita a paisagem parisiense e se apresenta ao olhar atento ou distraído de qualquer pessoa, nativo ou turista. Em geral são gentis e há até aqueles que gostam de uma conversa à toa, dessas que fazem a gente se sentir em casa. Outros não toleram aproximações e censuram com veemência quem pára para tirar uma fotografia do local.

photo: j.finatto

O que se procura no buquinista? Ora, vamos ali buquinar, verbo que, no Aurélio, significa procurar livros em sebo, catar obras literárias, muitas delas fora de comércio. Uma busca que, às vezes, rende preciosidades. Um bouquin (livro) raro, talvez.

photo: j.finatto

Numa caixa encontrei e comprei um pequeno e encantador exemplar do livro Une Saison en Enfer (Uma estação no inferno), de Arthur Rimbaud, publicado em 10 de fevereiro de 1945, pela Mercure de France, trigésima primeira edição. As 90 páginas estão já um tanto amarelecidas, mas em bom estado. A capa está coberta por um delicado e fino plástico incolor. O antigo proprietário tinha um carinho especial pelo volume. Sabe-se lá as estantes que percorreu até chegar no caixote verde. Um achado.

photo: j.finatto

Por essas e por outras, vale a pena passar uma tarde na beira do Sena, sem pressa, intercalando a missão de explorador literário com um cappuccino e uma baguete, na mesa de um aconchegante café, na calçada de preferência, se não fizer muito frio.

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*Paris é uma festa. Ernest Hemingway. Tradução de Ênio Silveira. Editora Bertrand Brasil, 15ª edição, 2011, Rio de Janeiro.
Texto revisto, publicado antes em 03 de maio, 2012.