segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O resgate do sentido humano

Álvaro Alves de Faria • São Paulo - SP


Jorge Adelar Finatto publica pouco. Como costuma dizer, publicar, para ele, é uma exceção e não uma regra. "Um livro me custa anos de espera", observa, para deixar claro que talvez a publicação não seja tão importante, especialmente quando livros de poesia no Brasil se transformaram - há quem diga - numa praga. Claro que estamos falando do lixo que anda por aí assinado por gente rotulada de poeta. Não é o caso de Finatto, que acaba de lançar Memorial da vida breve, livro que lhe mereceu dez anos de trabaho. "Publicar qualquer coisa, publicar por publicar, fazer carreira de poeta, não é o meu caminho", diz ele.

Nos anos 80, Jorge Adelar Finatto fazia parte do Grupo Sanguinovo, de São Paulo, pelo qual publicou sua primeira obra - Viveiro. A seguir, em 83, o livro Claridade foi lançado pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Vieram outras obras poéticas, com destaque para O habitante da bruma, de 1998. Ingressou na Magistratura em 1991, como juiz de Direito. Confessa nunca estar seguro sobre o que escreve. Tudo é sempre um risco. Tem para si que a função da literatura é resgatar o sentido humano. O homem tem origem divina.

Ao ver em Coimbra as águas do Mondego, sente saudades do Guaíba, com seus últimos barcos que partem ao entardecer, deixando atrás o sonho dos homens: "o poema de António Nobre/ escrito na pedra/ à beira do rio/ me recorda Porto Alegre/ seus poetas esquecidos". Estas são as imagens dos versos de Finatto, que tem na poesia uma forma de salvar ainda a possibilidade da vida, diante da brutalização completa de quase tudo.

Nascido em Caxias do Sul (RS), em 1956, Finatto percorre esse campo árido da poesia com o cuidado que se tem com um ferimento. Talvez a poesia seja mesmo assim, pelo menos para os que ainda conseguem pensar. Esta poesia é feita, sobretudo, de generosidades. A vida é maravilha. O tempo de viver é o lugar da alegria e do milagre. As estrelas cadentes são nossas irmãs. E a Deus é preciso devolver a vida emprestada.

Assim segue o poeta, como um peregrino: "afundado/ em seco/ decifro papéis/ que nada me dizem/ a página em branco/ espera o verso/ que não escreverei". O poeta sente a poesia como uma espécie de religião, a transcendência, onde talvez esteja a alma de todas as coisas: "escrever o poema/ é sempre claridade/ na caverna/ mão estendida/ a quem/ não conheço/ teço a canção/ antes do grande/ silêncio".

Este é um poeta que anda à margem do Guaíba à procura da voz da Luz, sabendo que existem caminhos de dor entre ele e a delícia. Há dias em que não suporta o vento e suas histórias: "o relógio da parede/ na casa velha/ espera o menino/ que não voltará", diz ele num poema, ao observar que gostaria de ter sido outra pessoa. E na sua missão de caminhante, escreve que precisa escrever o poema para salvar o dia, um poema que tenha a força de expulsar o desejo de morrer.

Memorial da vida breve é um livro de poemas de um autor que acredita que um dia a poesia poderá salvar o mundo. Quem sabe poderá em tempo incerto trazer de volta a humanidade engolida pelo perverso. Seja como for, o poeta certamente terá razão: "O que resta é esperar/ o retorno da primavera/ o ramo da buganvília/ o regresso do pássaro/ com o humano canto/ em setembro".

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Memorial da vida breve, Jorge Adelar Finatto, Nova Prova, Porto Alegre, 2007, 80 págs. Ilustrações de Paulo Porcella.
Esta resenha, de autoria do poeta e jornalista Álvaro Alves de Faria, foi publicada no jornal literário Rascunho, de Curitiba, Paraná, em agosto de 2007, e encontra-se também na internet: rascunho.rpc.com.br
Imagem: capa do livro.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Os prisioneiros na casa dos mortos

Jorge Adelar Finatto

O texto que transcrevo foi escrito por Paulo, o Apóstolo, em Roma, por volta do ano 61 da Era Cristã. Pequeno, mas enorme em verdade e ensinamento, é uma advertência contra a desumanização das cadeias. Um importante alerta contra a indiferença da sociedade e do Estado, no Brasil e no mundo, em relação à terrível realidade das prisões.

Aceitar ou calar diante da violência e dos maus-tratos, no interior das celas e dos presídios, é aceitar que o mal se multiplique e se espalhe pelas nossas cidades, ruas e casas. A lição vale para todos, cidadãos e autoridades responsáveis pelo sistema prisional. Trabalhar por uma execução criminal eficiente e digna é o caminho para a recuperação dos condenados, para a diminuição da criminalidade e para uma vida melhor em sociedade.

Um bom exemplo de compromisso e envolvimento de juízes e comunidade com a humanização do sistema prisional no Brasil pode ser encontrado no Projeto Trabalho para a Vida, criado pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul no ano 2000. O projeto parte do princípio de que a profissionalização e o ensino dentro das cadeias, ao lado da participação familiar e social na execução, são essenciais no caminho da tentativa de recuperação daqueles indivíduos que em algum momento se envolveram em atos criminosos.

Os presídios precisam deixar de ser a casa dos mortos para transformar-se na casa da esperança. Neste sentido, lembro o magistral livro de Dostoievski, Recordações da Casa dos Mortos, que nos remete a uma reflexão profunda sobre este mundo de sombras que precisa ser resgatado da escuridão.

Ninguém mais aguenta a barbárie.


Lembrai-vos dos que estão em cadeias, como se tivésseis sido presos com eles, e dos que estão sendo maltratados, visto que vós mesmos também estais ainda num corpo. (Apóstolo Paulo,  Bíblia, Hebreus, 13:3)

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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O sertão entre as nuvens


Jorge Adelar Finatto




O regalório das trevas este mundo é.

Ofício neblinoso em mim reinventado, me fiz poeta. Eu, Farandolino Brouillon, inquilino da quimera.

Os fanicos da alegria no meu coração. Remendos que tecem esperanças. As coloridas e rasgadas vestes com que a melancolia se veste. No interior das pedras se ouvem vozes.

Agora é tempo morto. Espírito morto. Semente clara germina no fundo do meu silêncio.

Ah, quem dera a palavra em mim renascida. As tardes no banco da praça, o invisível canto dos pássaros que um dia foram.

Os cavalos do oblívio atravessam a  ponte. Algaravia nos cascos vermelhos. Moro nesse sertão entre as nuvens que é Passo dos Ausentes.  Sou poeta num tempo trevoso. Esse da morte do espírito. O que se vê. A arte do esquecimento tem uma única lei, o estatuto da deslembrança. O espírito está morto. Eu recolho o que sobra, o farelo das horas, o farelo do farelo. 

A pouca migalha do viver. As musas nem aí diante do triste espetáculo. A pétrea indiferença dos habitantes do gelo. Os afundados na coisa crua. Vivo agora os difíceis dias do abismo. Sentimento  enclausurado. Lágrimas são gotas salgadas (e quentes) que escorrem na face fria.  A melancolia do córrego.

Os Campos de Cima do Esquecimento. Moro no chapadão sobre as nuvens. Acorrentado estou no alto penedo. Arrosto as flechas geladas dos ventos. Eu viajante audaz do esquecimento, mergulhado nos haveres da sobra. O farelo. Espero dias de brisas leves e suaves poemas campestres. Os impossíveis remansos no estar no mundo.  Sou o desconhecido poeta, morador do chapadão.

Esse tal, esse que vem diante de vossa elevada ausência. Esse. Uns dizem filosofia, sintaxe, eu digo viver nessa miséria. Vivo esse tempo  cevado na barriga da escuridão, adaga atravessada no peito. A nossa passagem no mundo.

O que vejo dentro do claustro: a face iluminada de Deus. As manhãs se  fabricam no poço violento da noite. Ah, essas desoladas horas passadas aqui no sertão das nuvens. A fé é um ranchinho branco  em cima do chapadão com a porta aberta, fumaça branca na chaminé, entre camélia e jasmim. Esse lugar onde resisto. O frio glacial, a tamanha ausência.

photo: jfinatto

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Farandolino Brouillon, poeta, colecionador de crepúsculos, estudioso do estranho fenômeno das estrelas cadentes nos céus de Passo dos Ausentes.
Fotos: J. Finatto 1) Ponte na neblina, Laje de Pedra, Canela 2) Pátio  do rancho de Farandolino Brouillon.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Andança

Jorge Adelar Finatto


De tempo em tempo
converso com Deus
na esquina

de tempo em tempo
ardo no frio
da memória

de tempo em tempo
choro como uma estátua
não pode fazer

de tempo em tempo
ressuscito
em teus braços

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Do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.
Foto: J. Finatto

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Casa de Villa

Jorge Adelar Finatto

A poesia cotidiana e quase imperceptível da vida comum na música de Guinga.
 

O compositor, cantor e poeta Guinga é uma das melhores revelações da música brasileira nos últimos 20 anos. Em meio ao prato feito (e muitas vezes insosso) dos modismos e imposições da indústria do disco, é raro o aparecimento de um artista com o preparo técnico, a inspiração e a intuição deste carioca nascido no subúrbio. Músico compenetrado em seu ofício, com conhecimentos de música erudita e popular, Guinga prepara  e serve requintadas iguarias com seu violão, seus versos e sua voz.

O cd Casa de Villa foi gravado entre novembro e dezembro de 2006, no estúdio da gravadora Biscoito Fino, e lançado em 2007. É um grande prazer ouvir as sonoridades e harmonias criativas e inusitadas, que fogem muito ao fácil posto. O que se espera de um artista é que seja inventivo e nos abra novos portões no casarão da sensibilidade. Pois surpresa é o que nos reserva este disco do senhor Carlos Althier de Souza Lemos Escobar.

De tempo em tempo, ponho-me a escutar essas trilhas de  encantadora luminosidade. São caminhos que nos levam para um Brasil que existe cálido nas casas humildes, sobrados, quintais e ruas dos bairros das nossas cidades. A poesia cotidiana e quase imperceptível da vida comum está viva na obra deste grande músico.

Guinga aparece como compositor em todas as doze faixas, às vezes só, às vezes em boa companhia. A reverência a Villa-Lobos é uma promessa e um compromisso que se confirmam ao longo do disco. O refinado letrista (poeta) revela-se em versos carregados de simbolismo como: o fogo da refinaria é boitatá (Maviosa).

Mar de Maracanã, a primeira música, é a feliz  abertura disso tudo que faz deste trabalho algo original e belo que merece a nossa atenção do início ao fim.

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Foto: 1) Guinga. Autor: Adriano Scognamillo. Fonte: site oficial do artista: www.guinga.com 2) capa do disco.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Pra que servem os poetas?

Jorge Adelar Finatto


Na oficina invisível onde trabalham os poetas, as portas e janelas da percepção estão sempre abertas.  O artesanato é difícil. Encontrar poesia nos seres e nas coisas,  com o imenso cuidado de não diminuí-la, é tarefa que exige sensibilidade, entrega, perseverança, humildade. É ofício de uma vida inteira.

A que serve o poeta? Ele tenta descobrir e revelar a poesia errante. A rara essência que existe além do que os olhos podem ver. Procura o poeta, com desvelo, colher a revelação através da construção do poema. O fracasso acompanha esse esforço, temperado, aqui e ali, por um feliz achado.
 
A arte desse silencioso artesão é trabalho não remunerado, clandestino, à margem da agitação e do tempo. Quando um novo poema acontece, é a própria maravilha que se desvela à mente e ao coração dos homens.

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Foto: J. Finatto

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Alguém visitou

Jorge Adelar Finatto


Alguém visitou
minha tristeza
soltou as gaivotas
no azul insular

não quero ser doido
desmemoriado
habitante
do penhasco

embora só
quero estar junto

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Do livro O habitante da bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.
Foto: J. Finatto

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Caso Cesare Battisti

 Jorge Adelar Finatto


Ainda não consegui entender a decisão do governo brasileiro de negar a extradição de Cesare Battisti para a Itália. Na sexta-feira passada, 31/12/10, no último dia de seu mandato, o Presidente Lula decidiu não extraditar o ex-ativista político italiano, condenado à revelia por quatro homicídios em seu país. A Justiça Italiana aplicou-lhe a pena de prisão perpétua pelos assassinatos ocorridos entre 1977 e 1979, época em que Battisti (que nega as acusações) integrava o grupo Proletários Armados pelo Comunismo.

A decisão condenatória foi tomada nas três instâncias da Justiça Italiana. A Corte Europeia de Direitos Humanos, à qual recorreu Battisti, entendeu que no julgamento não houve ofensa ao seu direito de defesa e nem nulidades processuais  por perseguição política (ver, a propósito, comentários no blog do jurista Walter Fanganiello Maierovitch, em 22/02/10 e 03/01/11: maierovitch.blog.terra.com.br).

Não encontro justificativa jurídica ou humanista para a decisão do Presidente Lula, adotada com base em argumentos da Advocacia-Geral da União (AGU), entre eles o do alegado risco para a integridade  da vida de Battisti no caso de ser extraditado.

A Itália é um país democrático, uma das grandes democracias do mundo, e o seu Poder Judiciário é uma instituição respeitada. Não se trata de uma ditadura na qual se restrinjam direitos humanos dos cidadãos. Nem existe notícia de que o Judiciário daquele país aja movido por vingança ou perseguições de qualquer espécie, pelo contrário.

Não cabe ao Brasil, portanto, negar à Itália o direito de executar uma decisão soberana. Como em nosso país não existe a pena de prisão perpétua, a extradição, se concedida, restringiria a sanção a 30 anos de prisão, máximo permitido pela legislação penal brasileira.

As nações democráticas devem-se respeito e colaboração entre si, sob pena de favorecer a impunidade e o avanço do crime organizado, que hoje, como se sabe, opera além fronteiras.

Cesare Battisti encontra-se preso na Penitenciária da Papuda, em Brasília, à espera de uma definição do caso, que agora foi remetido para deliberação ao Supremo Tribunal Federal. As autoridades italianas estão indignadas com a decisão e pretendem dela recorrer junto ao STF e à Corte Internacional de Justiça, com sede em Haia, na Holanda, mesmo que esta não tenha força vinculante.

Hoje é a Itália que exige respeito a uma decisão soberana e democrática. Amanhã poderá ser o Brasil.

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Foto: Cesare Battisti na Penitenciária da Papuda, em Brasília, em 17 de novembro de 2009. Autor: José Cruz, da Agência Brasil. Fonte: Wikipédia.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A viagem da umbela

Jorge Adelar Finatto


Agora todos estão dormindo. Escuto o sino que bate na pequena igreja ao longe. Gosto desse som pela música ancestral que ele traz. Estou sentado diante da janela do escritório. Não leio nem escrevo nada. Respiro o ar fresco da noite e é uma ventura esse respirar.

Em certos dias o coração fica seco. Não navego nenhum mar. Nenhum barco me leva. Parado no cais noturno.

Um guarda-chuva passa voando sobre os telhados de Passo dos Ausentes. A mão invisível o carrega pelo ar. De onde veio, pra onde vai? Outras coisas mais pesadas que o vento voam nos Campos de Cima do Esquecimento a essa hora.

Uma aquarela serrana surge em silêncio. Pinceladas de um delicado pintor. A cálida pintura se compõe e se desfaz a cada instante. Nenhum traço jamais se repete. A vida se transforma. A dor acontece e passa.

O guarda-chuva vai perdendo altura e cai no jardim abandonado na neblina. Calado e feliz como um viajante que acabou de chegar. O dia amanhece.
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Foto: J.Finatto

domingo, 2 de janeiro de 2011

Miséria e corrupção

Jorge Adelar Finatto


No discurso de posse, a Presidenta Dilma Rousseff disse, ontem, que seu governo combaterá a corrupção e empenhará todos os esforços pelo fim da miséria em nosso país. Não sei se as alianças políticas feitas para sua eleição permitirão um ataque frontal à corrupção e à má utilização do dinheiro público, que são, de longe, os maiores problemas do estado brasileiro. Partidos políticos retrógrados e conservadores integram a administração que ora se instala. Só o tempo e os atos concretos de gestão dirão a face que terá o governo da sucessora de Lula.

Espero que a primeira Presidenta eleita do Brasil consiga fazer valer o seu projeto e a sua sensibilidade, enfrentando as tristes forças que, insaciáveis comensais da mesa do poder, continuarão a trabalhar pelo atraso e pela injustiça. Não tenhamos dúvida: no momento em que a má aplicação dos  recursos for corrigida e a corrupção for arrostada com seriedade, o Brasil dará um salto, um belo salto pra fora do buraco. Peixe vivo.

Um país tão rico em recursos humanos e naturais não pode prosseguir tão mesquinho com seu povo.

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Foto: Dilma Rousseff. Reuters. Fonte: www.terra.com.br

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Velas e remos

Jorge Adelar Finatto


Tem livro novo na praça. É um livro diferente porque as páginas ainda estão em branco. No lugar do nome do autor, aparece o teu nome. A história está por ser escrita. As imagens, cores, tipo de papel, formato da letra, colofão, são as nossas escolhas que  os definirão.

Com nossas velas e remos (velis et remis), encontraremos o amanhecer.

Espero que os queridos leitores escrevam belas histórias de vida em  2011. Um tempo de luz, bondade e saúde é o que desejo a todos.

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Foto: J. Finatto. Céu de Passo dos Ausentes, dezembro, 2010.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Bibliotecas

Jorge Adelar Finatto



Tantos livros me assustam
trago uma ignorância milenar
guardada num lugar claro do meu ser
uma ignorância - ou a sabedoria -
do sol às 7 da manhã

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Poema do livro Claridade, co-edição Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento, Porto Alegre, 1983.

Foto: J. Finatto

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A carta

Jorge Adelar Finatto


O carteiro trouxe
muitas notícias
menos aquela
que ia me salvar

esperei dias
                 meses
                           anos
por urgentes palavras
que nunca chegaram
e se viessem
mudariam
a biografia

perdi tempo precioso
aguardando a mensagem
que nunca se confirmou

poucas palavras
dizendo o essencial

a carta que não recebi
extraviou-se no mar
na mão do náufrago
distraído

não cumpriu o destino
de salvar do extermínio
a esperança vazada
em silêncio
a juventude que se perdeu

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Poema do livro O Fazedor de Auroras. Instituto Estadual do Livro, Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1990.
Foto: J. Finatto

domingo, 26 de dezembro de 2010

Convivência e livros na parada de ônibus

Jorge Adelar Finatto


O nosso erro é que temos delegado nossa felicidade para os governantes, para o time de futebol, para os espetáculos, para a loteria, para esse outro que fará por nós as indispensáveis e inadiáveis mudanças que precisamos construir.

 A rua é lugar perigoso.

Os espaços públicos, em Porto Alegre como em outras cidades brasileiras, são sinônimo de insegurança, violência, medo.

As pessoas acautelam-se de sair à rua. Esse território que era de todos passou a ser área de livre circulação de gente que comete toda sorte de atos contrários à vida em sociedade.

Ninguém, em sã consciência, sai à rua sem temer por sua segurança e pela segurança das pessoas que ama. Estar fora de casa, longe do abrigo provisório, significa entrar na zona de conflito. Vivemos lutas encarniçadas, no trânsito e na selva do cotidiano, que ferem e ceifam vidas todos os dias.

A nossa alegria de viver se empobreceu, porque não há viver que não seja conviver.

Antigamente, era comum ocupar as calçadas. As pessoas colocavam cadeiras na frente da porta e aproveitavam para conversar, saber do outro, as crianças brincavam, e todos conviviam. Festas juninas e carnaval aconteciam no meio da rua. Essas cenas urbanas desapareceram.

A cidade, porém, possui reservas de vida.

 Surge um oásis simbólico no corpo ferido da cidade.

Instalou-se em Porto Alegre, por esses dias, o projeto Estante Pública em paradas de ônibus. Criação de artistas do grupo Estúdio Nômade, a ideia foi premiada pela Funarte.*

A parada de ônibus - que costuma atrapalhar o bom humor das pessoas, pela espera em situação de desconforto, pelo movimento atordoante da rua, pela falta de educação dos condutores de veículos - ganha vida com a iniciativa.

Um lugar inóspito, sem atrativo, no qual, normalmente, as pessoas não têm face, transforma-se num recanto interessante. Os livros ali estão ao alcance da mão de quem quiser ler. Poemas, crônicas, contos, novelas e outros incorporam-se através de doações espontâneas.

A inusitada visão dos livros provoca emoção. Faz com que, anônimos passageiros em trânsito, nos sintamos melhor, conversemos, quem sabe até troquemos endereços de e-mail.

Muito além de ser uma pequena biblioteca ao ar livre, sem nenhum tipo de vigilância, a estante pública torna a parada de ônibus um lugar de convivência.

A incomunicabilidade do indivíduo abre-se para a possibilidade do encontro.

Surge um oásis simbólico no corpo ferido da cidade. Pura criatividade.

É preciso investir na convivência humana, numa cidade que vai perdendo gravemente a sua alma.

Penso no quanto precisamos voltar a ocupar calçadas, praças, parques, ruas. No quanto precisamos voltar a conviver e conversar, sem ter vergonha pelo fato de necessitarmos companhia, do olhar de quem está próximo, uma palavra, um sorriso talvez.

As pequenas estantes públicas são enormes em significado. Ensaiam um jeito de mudar as coisas e de sair da escuridão.

O nosso erro é que temos delegado nossa felicidade para os governantes, para o time de futebol, para os espetáculos, para a loteria, para esse outro que fará por nós as indispensáveis e inadiáveis mudanças que precisamos construir.

A cidade pode ser mais bela, mais humana. Ler e conviver faz bem ao coração e à mente.

Espero que permaneça e cresça entre nós essa beleza que é encontrar livros, convivência e consciência em meio à solidão instantânea da parada de ônibus.

A rua é lugar perigoso?

A rua é lugar do bem.

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*Estante Pública: http://estantepublica.com.br/site/sobre-o-projeto/

Foto: vista de Porto Alegre a partir do Guaíba. J.Finatto

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

A vida é mesmo amanhecer

Jorge Adelar Finatto


A minha porta nunca se fecha para a dúvida. O que parece definitivo é, quase sempre, e apenas, provisório. As certezas do mundo são verdades passageiras. Estar aberto a mudanças, quando isso é o melhor a fazer, reconsiderar diante  de novas evidências, significa andar pra frente.

Não se trata de mudar ao sabor do vento.  Mas de querer  ser melhor. Como é que um ser transitório, de limitada capacidade de compreensão, pode ter a pretensão de achar que tem a verdade absoluta? Temos a verdade, sim, até que outra mais verdadeira se apresente. A rigidez excessiva não é boa conselheira.

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Agora, por ser Natal e véspera de Ano Novo (fim da linha pra 2010), há esse simbolismo de nascimento, luz e renovação.

Os livros do Novo Testamento têm impressionante significado literário e espiritual. Há força ativa naquelas palavras, além do insuperável valor estético que lhes é inerente. Essa força é capaz de gerar vida (transformação) dentro de nós.

Acredito que todas as histórias, todos os livros, nasceram da Bíblia, de algum dos 66 livros que a compõem. Está tudo lá, revolta, beleza, drama, esperança, luta, justiça. Quantos livros terão a sensualidade, a delicadeza e o trato da palavra de O Cântico de Salomão?

Cristo está acima das religiões (organizações humanas e, como tal, cheias de falhas) e não é monopólio de nenhuma delas.

Que cada um aproveite da melhor maneira esse período e que a bondade, a justiça e o perdão sejam mais que simples palavras em nossas vidas.

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Foto: J. Finatto

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Conversa no scriptorium: primeiro ano do blog

Jorge Adelar Finatto


Não alimento a ilusão do devorador de livros. Sou um leitor calmo e persistente. Nem me atenho demasiado ao cânone. Já li muita bula de remédio e texto de pacote de maisena. Pequenas notícias de jornal podem guardar preciosidades. Descobri frases e versos memoráveis em livros considerados menores. Li grandes embromações de autores famosos.

O lugar onde me sinto menos sozinho, nesse velho mundo de Deus, é o território dos livros. Pode ser a biblioteca, a praça, o escritório, o ônibus, metrô, avião ou trem. Muita vida há nas páginas impressas. Uma existência de tinta e papel. Sim, agora chegou também o livro eletrônico. Não digo que dessa água não beberei.

Corações solitários e livros são bons companheiros. Se além do livro a criatura tiver o luxo de um abraço, então é o passeio no paraíso.

Essas anotações vêm à luz do dia bonito que faz hoje aqui. Esse respirar claro. Na rua em frente o flamboyant é todo flor. Nunca nos falte.

Quero compartilhar com você esse dia luminoso. E agradecer o primeiro ano de convivência no blog que hoje se completa.

Uma joaninha marrom com bolinhas brancas resolveu caminhar sobre o teclado. O mínimo que posso fazer diante da doce visita é desligar a máquina.

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Ilustração: Scriptorium, Monk at work. Autor: William Blades (1824-1890). Domínio público. Fonte: Wikipédia.

Livro Europeu do Ano para Roberto Saviano e Sofi Oksanen



O italiano Roberto Saviano foi distinguido com o Prémio Livro Europeu do Ano, na categoria de não ficção, com A Beleza e o Inferno, e a finlandesa Sofi Oksanen venceu na de ficção, com o romance Purge. O júri, presidido pelo escritor e realizador alemão Volker Schlöndorff, decidiu premiar dois livros marcados pela violência que se exerce no norte e no sul do continente europeu. Purge (Puhdistus, em finlandês), editado pela Stock e já distinguido com o Prémio Femina Étranger 2010, relata a violência de que foram vítimas as mulheres estónias durante a ocupação soviética. Filha de mãe estónia e pai finlandês, Sofi Oksanen tem 32 anos e venceu em 2008, ano em que foi publicado o seu romance na Finlândia, os três maiores prémios literários do país, entre os quais o equivalente ao francês Goncourt. O Prémio Livro Europeu do Ano é organizado pela União Europeia e tem como objectivo promover os valores europeus e contribuir para uma melhor compreensão dos cidadãos da União Europeia como entidade cultural. (fonte: Público)

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Publicado por Casa Fernando Pessoa, Lisboa, em 13/12/2010, às 15:39, no seu blog: http://mundopessoa.blogs.sapo.pt/
A grafia é a de Portugal.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Uma gaivota sonha

Jorge Adelar Finatto


A memória da nave se dissolve no ar.
 
Uma gaivota branca e sonhadora pousa no alto do barco à espera da última viagem.

O ofício de esquecer atravessa as fendas de aço.  A embarcação aderna como um peixe que perdeu as asas.

É duro ser capitão de nau tão desolada.

A cor do tempo, marcas de ferrugem. As escotilhas rotas miram o impossível horizonte.

O colorido infantil recorda felizes partidas ao vento.  Imóvel paisagem nas janelas caladas.

O espectro de Ulisses caminha pelo convés.

Há um barco abandonado no cais.

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Foto: J. Finatto. Barco fantasma com gaivota a bordo. Rio Guaíba, Porto Alegre.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Calle de los suspiros

Jorge Adelar Finatto


De não ver os olhos estão vazios.
De não escutar os ouvidos estão ocos.

Um dia encontrei no mapa aquela cidade ao sul.
Nela havia uma rua chamada Calle de los Suspiros.
Um lugar que nasceu num tempo muito velho.

A rua dos suspiros está povoada de passos perdidos.
Os fantasmas ocupam as casas coloniais.
Quem mora na rua dos suspiros?

A moça na janela olha as buganvílias.
O homem que não sai de casa vê seres incorpóreos nos telhados.
A luz das luminárias é amarelo calmo.

À noite se ouve nas pedras a batida de cascos de cavalos que não existem mais.

A rua dos suspiros é um camafeu pregado na alma do tempo.

Os ventos se reúnem na calle antes de sair a galope pelo mundo.

A dor envelheceu nesta rua.
Neste lugar, todos sofrem pra dentro.

Há um salão de baile desabitado com mesas no escuro.
A orquestra foi embora carregando a música e os casais que dançavam.

A rua dos suspiros habita um retrato no oblívio.

Quem chora a essa hora na calle deserta?


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Foto: J. Finatto
Imagem de Colonia del Sacramento, Uruguai.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Cavalo-marinho

Jorge Adelar Finatto


Enquanto meu filho espera
no útero marinho da mãe
eu escrevo um poema
que ninguém lê
entre peixinhos e caravelas

invento uma alegria simples
um jeito novo de viver
e de querer bem

e vou até a janela
até a estrela mais próxima
onde algum homem há de existir
pra repartir comigo esta ternura
enquanto meu filho espera

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Poema do livro Claridade, co-edição Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento, Porto Alegre, 1983.

Imagem: Hippocampus Kuda. Autor: Robbie Cada. Obra constituída pelo autor em domínio público. Fonte: Wikipédia.

O menino do poema, que na época esperava no útero materno entre peixinhos e caravelas, hoje completa 29 anos. Ao Lorenzo, pois, renovo estes velhos versos, com a mesma emoção daquele jovem pai  encantado pela chegada ao mundo do primeiro filho.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Partilha do estar no mundo

Jorge Adelar Finatto


As palavras viajam em torno da essência das coisas. Como num velho barco que se aproxima da ilha, e adormece na praia depois de longas voltas no seu entorno, o poeta navega no poema. As palavras tangenciam, quase tocam, mas seu destino é ficar ao largo. Às vezes mais perto, às vezes mais longe do cais. Nunca alcançamos a expressão exata e ideal daquilo que queremos comunicar. Trabalhar com palavras é deparar-se com a impossibilidade da criação perfeita, a partir dos limites da condição humana, da cognição e do sentimento incompletos que temos em relação ao mundo e a nós mesmos. Somos imperfeitos e nossa percepção e nossa fala também o são. Somos parte de um mistério infinitamente maior do que  o cotidiano. Por isso escrevemos tanto e dizemos tão pouco. Por isso falamos durante uma vida e o resultado é tão escasso.

O que não nos impede de empregar todos os esforços na busca da expressão luminosa.

 Se com palavras é difícil viver, sem elas estaríamos condenados à escuridão da caverna.

Cada palavra clara é um fósforo que se acende no breu. Uma maneira de dizer sim à partilha do estar no mundo.

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Foto: J. Finatto

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

O violino perdido

Jorge Adelar Finatto


O sentimento que une o músico ao seu instrumento é de puro amor. Um amor incondicional que não conhece rupturas. Nem chuva, nem sol, nem vento. Quanto mais ao desamparo estiver o artista no mundo, tanto maior será o afeto que terá pelo companheiro. Já vi homens e mulheres dormindo em bancos de estações de trem, aeroportos e praças públicas, tendo como única e fiel companhia o seu instrumento. A música é a grande verdade de suas vidas.

O alemão Conrad Muck, 55 anos, é primeiro-violino do Quarteto Petersen, um dos mais importantes conjuntos de cordas da atualidade. Ao retornar de uma viagem à Ásia,  esqueceu seu violino no trem que o levou do aeroporto até a Gare Central de Munique. Construído na Itália em 1748, está avaliado em 1 milhão de euros. O músico sentiu-se mal assim que se deu conta, precisou de assistência médica. Tão logo avisada, a polícia saiu à procura do objeto, que foi localizado no mesmo lugar onde fora deixado. Durante uma hora violinista e violino (foto abaixo) ficaram longe um do outro, uma pequena eternidade.


A violinista Min-Jin Kym (foto ao alto), de origem sul-coreana, nascida em 1978, passou por dor muito maior no início deste mês. Comia um sanduíche num café ao lado da gare londrina de Euston, quando teve seu Stradivarius (de 1696) furtado. O fato ocorreu enquanto foi ao caixa pagar. Ao retornar, não estava mais lá. O violino tem valor estimado em 1,44 milhão de euros. Junto com ele foram subtraídos dois arcos, avaliados em 80 mil euros. A seguradora da artista está oferecendo 18 mil euros para quem fornecer informações que levem à recuperação do valioso instrumento.

Aqui em Passo dos Ausentes estamos torcendo muito para que a bela instrumentista reencontre logo seu Stradivarius,  raro integrante da família dos cerca de mil violinos  fabricados por Antonio Stradivari, em Cremona, na Itália, considerados os melhores do mundo por sua sonoridade  e qualidade únicas.

Don Sigofredo de Alcantis, o maior filósofo vivo de nossa pequena cidade, observa que, se vivo fosse, o célebre detetive inglês Sherlock Holmes, exímio violinista, certamente sairia da ficção onde viveu para recuperar o instrumento e apagar, desta forma, a tristeza do olhar de Min-Jin.*

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Texto escrito com base em notícia publicada no jornal Diário de Notícias, de Lisboa, edição de 10/12/10, e complementado com pesquisa do blog.
Consulte o artigo completo em: http://mail.terra.com.br/95trr/parse.php?redirect=aHR0cDovL2RuLnNhcG8ucHQvaW5pY2lvL2FydGVzL2ludGVyaW9yLmFzcHg/Y29udGVudF9pZD0xNzMxMzc2JnNlY2Nhbz1tJWZhc2ljYQ==

Fotos: Min-Jin Kym (Diário de Notícias). Violino italiano de Conrad Muck (AFP). Violino Stradivarius: site www.stradivariusviolins.org
 

domingo, 12 de dezembro de 2010

A fala de Pedrolino

Jorge Adelar Finatto


Pertenço à ordem dos amorosos sem camélia. Os que amaram e se pensaram amados sem o ser. Os quase. Os que saíram cedo da festa.

A dama. Meu coração perdido no infinito tabuleiro. O mundo é lugar de barbaridades. Dor, dores.

Chamava-se Alberta, Alberta de Montecalvino. Pertencia à nobre estirpe dos Albertos, de Passo dos Ausentes. Foi quando a vida aconteceu.

O sol brilhou entre as nuvens. Iluminou a escuridão da vida minha. O que eu fui.

Estava na janela da mansarda, como sempre, olhando a vida passar. Então ela atravessou a rua. Trazia a sombrinha vermelha. Olhou pra mim e sorriu. Rasgou minha solidão.

Bailei no ar como folha de plátano no outono, lentamente fui cair a seus pés. Desci correndo, pulando os degraus da escada. Segui o inefável perfume. Enfim, alcancei a dama.

Perguntei se podia fazê-la feliz. Sim.

As iluminações. Passamos a frequentar a Praça da Ausência, nas tardes amarelas daquele outono. Um dia peguei-lhe na mão. Meu coração cavalo louco. Não dormi durante três noites.

Alberta meu sentimento. Camafeu cravado na minha alma. Ela me deu o lencinho branco perfumado, a letra A bordada em lilás. Guardei-o num lugar secreto, bem no fundo de mim.

Aqueles eram dias de ora-veja.

A dama, o tabuleiro, eu nunca aprendi a jogar. Não canto outros amores, que não tive, e, se os tivesse, silenciaria.

Então Arlequim apareceu. Os ódios pularam dentro de mim. Arlequim e seus guizos, seus versos de algibeira, sua palavra sem valia, seu alaúde. Arlequim disse coisas, deitou falas, expandiu-se em canções. Antes calasse. Bazófias.

Arlequim se espalha no mundo. Faz ares. Blasona. Explorador de musas, ladrão de amores. Arrebatou o coração de Alberta, os suspiros, até o corpo de violino que eu nunca toquei.

Eu calado sonhador do fim do mundo. Os devaneios da alma. Voltei só pra mansarda. Nem acreditei.

Quem me visse, a face esculpida da dor. Veio o inverno. Invernos.

O vero solitário da rua triste. O que olha a vida da janela. O que foi quase feliz.

O sem camélia.
 
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Imagem: Pierrô (Gilles). Autor: Antoine Watteau (1684-1721). Museu do Louvre, Paris. Fonte: Wikipédia.
Maiores detalhes sobre o drama de Pedrolino em A fala do Arlequim, post de 30/10/10, e Alberta de Montecalvino, post de 8/11/10.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A casa do anjo

Jorge Adelar Finatto


Antes de começar a chover, arredaram uns móveis bem pesados lá no céu. Um barulho espesso e fundo me fez pensar que talvez fosse a mudança de um anjo. Um anjo bom e humano com suas asas de plumas perfumadas, levando seu chapéu, suas estantes de livros, bicicleta, cama, armários.

Um anjo, quando se muda, deve ter muita coisa pra levar com ele: cartapácios com registros, caderno de milagres, álbuns de fotografia das pessoas por quem tem cuidados, pinturas com paisagens dos campos do Senhor.

As roupas do anjo devem ser brancas como nuvem, inclusive as botas.

Gostava que o meu anjo da guarda viesse mais pra perto de mim.

Meu coração anda necessitado de amigo com sabedoria e consolação. Ele podia até ficar morando aqui comigo. Se quisesse, podia subir no telhado, sentar perto da chaminé, lugar calmo e iluminado, de onde se tem uma boa vista do mundo.

O meu anjo da guarda. Há de expulsar a solidão que toma assento na sala. Nunca mais nenhum mal vai me acontecer. Quando de noite o medo se acercar de mim, o anjo me dará sua mão forte. Então eu dormirei como um menino. E vou sonhar outra vez.

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Foto: Colonia del Sacramento. Uruguai. J. Finatto

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O astrônomo do farelo

Jorge Adelar Finatto


O astrônomo do farelo procura a estrela perdida.

Entre o sagrado e o profano da vida pequena, ele busca beleza nas coisas mais simples. Como o explorador de cavernas que, na escuridão e na umidade,  tateia a fresta de luz que o conduz à primeira claridade do mundo.

Um dia - sempre tem um dia - o astrônomo do farelo perdeu a  sua estrela. Era uma pequena estrela azul e brilhante. Era uma estrela risonha, íntima e calma que habitava sua alma.

Quando ele a tocava com a ponta dos dedos, muito suavemente, ouvia a doce e misteriosa música que vinha do seu interior. Um dia, de repente, ela desapareceu.

Por ela, ele se tornou um homem calado e triste.  Um oco cresceu no seu coração. Ele ficou assim, torto no mundo. Passa as noites olhando o céu. Um homem ferido a bordo de uma louca procura.

O homem que perdeu a sua estrela.
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Foto: J. Finatto
Publicado no blog em 1º/8/10