quarta-feira, 2 de março de 2011

Paul Desmond

Jorge Adelar Finatto


Se você ainda não conhece, procure conhecer. A obra musical do compositor, arranjador e virtuose americano Paul Desmond é puro sentimento. Ele tocou saxofone alto e clarinete em sua breve vida. Se clássico é um autor que alcançou um lugar único e referencial, então este é o caso de Desmond. Límpida, iluminada, original, transcendente. Eis a natureza da sonoridade que o artista criou.

Paul Desmond nasceu em San Francisco, em 25 de novembro de 1924, e morreu em 30 de maio de 1977, em New York, aos 52 anos. Integrou o quarteto de Dave Brubeck entre 1951 e 1967. São antológicos os discos que fez com este grupo. Compôs e gravou com o quarteto, em 1959, a famosa Take Five. Tocou também com Gerry Mulligan, Jim Hall, Modern Jazz Quartet e Chet Baker. Fumante inveterado, morreu de câncer de pulmão após uma temporada de apresentações com Brubeck. O último concerto aconteceu em New York, em fevereiro de 1977.

Um dos nomes do cool jazz, a melodia suave e tocante é uma marca do trabalho do artista. O legado musical de Paul Desmond é um momento de rara beleza na história da música universal.

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Foto: Paul Desmond. Ano: 1954. Autor: Carl Van Vechten. Fonte: Wikipédia.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Canção do vento no deserto

Jorge Adelar Finatto


Sobre o que escrever na segunda-feira? Não é que falte assunto. O mundo está cheio de coisas acontecendo. Falta, talvez, inspiração para encontrar o tema. O que interessará ao leitor neste último dia de fevereiro de 2011?

O que nós, leitores, buscamos num texto de segunda-feira é que nos permita sair, por um momento, do excesso de realidade que este dia carrega. Algo que nos faça alçar voo para o outro lado da muralha.

O que se espera do cronista é que nos ajude a respirar e a ter um pouco de esperança. Esperamos que nos revele um pouco de beleza em meio a tanta aridez.

Viver poderia/deveria ser muito melhor. 

Eu trocaria de bom grado esta sala fechada por um banco de praça. Para olhar gente, a copa das árvores, ouvir o canto de um pássaro.

A segunda-feira está coberta pelas cinzas da vida que não é.

Escuto a canção do vento no deserto.
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Foto: J. Finatto

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Memória do vento

Jorge Adelar Finatto



Não posso
fechar a porta
às histórias
que o vento traz

o mundo esquecido
a vida pequena
seres e coisas
que têm em mim
a eternidade
possível

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Foto: J. Finatto
Do livro Memorial da Vida Breve, Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007. 

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A volta do Cavaleiro da Bandana Escarlate

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto


Vulto na praça. A luz amarela seria poética, não fosse o perigo dos assaltos. Um observador oculto espreita entre as buganvílias.

Quem vem lá? Difícil saber na escuridão sem trégua. A noite de domingo até podia ser romântica. Mas há indivíduos dormindo nos bancos da Praça Maurício Cardoso. Dois bêbados urinam sob a pérgula.

A cidade não tem piedade dos seres delicados. Mas há que vencer o mal com o bem. É essa a hora do menestrel, do cavalo obediente e fiel, da capa e do alaúde.

Eis que surge da treva tremenda o Cavaleiro da Bandana Escarlate, montado no seu cavalo branco. Vem galopando desde muito longe, desde os Campos de Cima do Esquecimento, desde o fim do mundo. Vem para a batalha final.

Atravessa a praça com o garboso corcel de arado, cuidando aqui e ali pra não amassar as flores. Um cara passa correndo atrás de outro rua afora, gritando coisas impublicáveis.

O cavaleiro veste a capa de seda preta. A máscara negra não permite descubram-lhe o segredo. Traz o antiquíssimo alaúde a tiracolo. O instrumento pertenceu a um trisavô que veio fugido da Itália e aqui se estabeleceu no ramo dos embutidos e também mourejou em alguns negócios obscuros.

O cavaleiro tem genealogia, sim, mas o que passou, passou.

Neste momento ele cruza pro outro lado da rua e estaciona o alvo eqüino (com trema, por favor) debaixo do balcão da Meiga Donzela Dionéia (com acento, por favor). Saca com grande donaire o seu instrumento.

Dedilha então os primeiros acordes nas cordas do formoso alaúde ancestral. A melodia acorda a Musa, que, entre estremunhada, descabelada e furiosa, vai até a janela do balcão saber do que se trata. Não acredita no que vê.

- O que quereis, ó cavaleiro do alaúde em riste? - pergunta com voz sinistra. Acaso não percebeis que são altas horas? Não vos dais conta do ridículo?

E prossegue a Ausente Musa:

- Deixai-me dormir, ó misterioso mascarado. Amanhã é dia de pegar no batente outra vez, voltar pra dureza inglória da vida. Retornai ao vosso castelo de pó e vento, ó romântico senhor, poupai-me. Do contrário, obrigar-me-ei a chamar os homens da lei para vos untarem com grosseiros afagos, que é o que deveras mereceis.

O Cavaleiro da Bandana Escarlate silencia o valoroso instrumento. Parece não acreditar no que acaba de ouvir. Cavalgou durante dias por estradas cheias de rudes caminhões e automóveis. Mais de uma vez viu-se obrigado a jogar-se no matagal com o esbaforido e lácteo corcel.

Para não comprometer ainda mais o idílio, decide retirar-se. Num gesto de rara nobreza, joga uma rosa branca no balcão. Depois ergue bem alto o alaúde na mão esquerda, empina levemente o pangaré e grita:

- Eu voltarei na primavera, ó, Estressada Dionéia, Musa Minha.

Ao proferir essas elevadas palavras, escorrega do animal e estatela-se na fria calçada, magoando a triste cabeça que a bandana - agora rasgada - antes cobria.

Aos poucos recompõe-se o Nobre Cavaleiro. Junta o alaúde, apruma-se sobre o valoroso eqüídeo (nessa altura, tanto faz o trema) e parte no trote.

Enquanto atravessa de volta a Praça Maurício cardoso, algum insensível abre uma janela num edifício próximo e manda

- Vá tomar no seu caju (aqui é substituída a expressão original por outra, a fim de manter o mínimo decoro).

Assim que, sem perder a altivez, o nosso Valoroso Cavaleiro Medieval desaparece na noite escura da grande cidade.

Um bêbado atira uma pedra e quebra uma luminária da praça. Fim.

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Foto: J.Finatto. Colonia del Sacramento, Uruguai.
Texto revisto e atualizado, publicado no blog em 27 de abril, 2010. 

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

As coisas passam e passam

Jorge Adelar Finatto



As coisas são e passam. Passam.
Eu passo, tu passas, ela/ele passam, nós passaremos.
Um passo solitário na bruma.
Passo dos Ausentes.



Estas imagens saíram talvez de um sonho.
Fragmentos de instantes que não se repetem.
Nada nunca é o mesmo.
As coisas passam e passam.



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Fotos: J. Finatto
jfinatto@terra.com.br

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Retratos do Parque Laje de Pedra

Jorge Adelar Finatto



A vida de fotógrafo amador tem seus momentos luminosos. Essa luz que emana não só da paisagem, mas da presença das pessoas e do convívio. A partir de hoje faço mais uma exposição de fotografias, desta vez contando com o apoio do Hotel Laje de Pedra. À beira do Vale do Quilombo, no alto do chapadão, numa sala clara e acolhedora, estarão expostos alguns dos retratos que fiz do Parque Laje de Pedra ao longo dos últimos anos.

O lugar mora no meu coração. Por ali costumo andar em diferentes estações climáticas e espirituais. É um dos meus roteiros escolhidos para caminhadas polifônicas.

Os indivíduos dos povos indígenas e das comunidades marcadas por fortes vínculos não alimentam grandes medos. A doença e a morte são para eles acontecimentos que não possuem a carga de desamparo e desespero que têm para nós. É que sempre estão por perto uns dos outros, dão-se as mãos ao som do trovão e da tempestade, enfrentam os perigos com a invencível força da união. Vivem mais o momento e creio que são mais felizes.

Morrem apenas uma vez na vida, ao contrário de nós outros que, isolados em tristes pensamentos e tugúrios, morremos vezes sem conta de solidão e medo. Custamos a nos olhar, quase não nos tocamos.

A arte é uma forma de dar as mãos. Um jeito de estar perto do outro, em volta da fogueira do espírito, para espantar a escuridão e a morte.

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Foto: J. Finatto

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Alfonsina y el mar

Paulo Fabris


Mercedes Sosa e Atahualpa Yupanqui foram, segundo o maestro Júlio Medaglia, os representantes maiores daquilo que se convencionou chamar latinidade. Os dois cantavam com clareza, simplicidade, exatidão, transformando todas as canções em hinos sinfônicos, folclóricos, coletivos. Quem não lembra de Gracias a la vida, Volver a los 17 e Alfonsina y el mar?

Alfonsina, por sua vez, foi uma personagem real e única: nasceu na Suíça, filha de pais ítalo-argentinos, mas com apenas 10 anos de idade vivenciou o fracasso econômico, a doença e a morte do pai e daí em diante todas as dificuldades que levaram a que abreviasse a sua infância; teve então que trabalhar como costureira e operária, até que conseguiu ser aprovada em concurso para professora rural.

Mais tarde fugiu da província com a companhia teatral de José Tallavi, engravidou e teve seu único filho em Buenos Aires. Depois viajou pela Europa, conheceu artistas de vanguarda, escreveu, apaixonou-se e sofreu as dores de muitos amores. Estudiosos da literatura a comparam a Gabriela Mistral, poeta chilena e primeira latino-americana a receber o Nobel de Literatura (em 1945).

Há alguns anos viajei de navio pela Patagônia chilena e argentina e um dos portos em que o barco atracou foi em Puerto Madryn. Circulando pela cidade vi uma rua com o nome da poeta e perguntei ao motorista de táxi, um descendente de galeses com mais de 60 anos de idade, se já ouvira falar nela:

- Por supuesto que si. Era una maestra rural, además de grán poeta.

Passada a curva dos 50 - como diria Drummond - eu passei a prestar mais atenção nas mulheres, especialmente em seus atributos mais sinuosos (e que incluem a psiquê). Alfonsina desde cedo buscou no mundo do teatro e da poesia refúgio contra as ondas do azar e os desastres econômicos que destroem a vida de indivíduos, famílias e povos e os levam à impossibilidade de construir e manter um casamento e uma família razoavelmente estruturada, que ajudem a suportar as mediações - inadiáveis - da realidade.

Alfonsina escreveu magníficos sonetos, poemas breves e longos, tangidos pela melancolia do exílio e do tango, pela tristeza dos bares de cais de porto, pela saudade do prometido e insondável paraíso (que talvez somente exista no fundo do mar).

Alfonsina y el mar, a canção de Ariel Ramirez e Felix Luna, narra a história do estranhíssimo e impossível suicídio de Alfonsina Storni, ocorrido em 25 de outubro de 1938, aos 46 anos de idade, em uma noite enluarada em Mar Del Plata, supostamente em consequência de mais uma crise depressiva (agravada pelo suicídio de seu grande amigo, o escritor uruguaio Horácio Quiroga, e pela descoberta de um câncer) e depois de se passar por uma hóspede qualquer em uma pensão local, onde escreveu seu último poema (Voy a dormir).
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Paulo Fabris é médico e poeta em Porto Alegre.
Foto: Alfonsina Storni. Fonte: Wikipédia.
Texto publicado no blog em 07 de janeiro, 2010. 

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A tua mão e a minha

Farandolino Brouillon


Todos os medos, todas as mágoas, todas as dores, sem esquecer os abismos. O puro arrepio de fazer a humana travessia, de ermo em ermo. Todos os suspiros, todos os tormentos, todos os erros, sem esquecer a ingratidão. Amanhã será outro amanhecer, outro sentimento, outra tarde de garoa como essa sob o guarda-chuva da memória. Amanhã serei o que vai embora. O neblinense que deixa tudo pra trás e vai em busca do caminho perdido. Há uma ponte desconhecida esperando na bruma? Irei através dela sem medo. Amanhã as folhas do outono. O vento de abril cercando os caminhos. Amanhã serei o que levanta da escuridão. Coração camélia vermelha. A tua mão e a minha.
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Farandolino Brouillon é poeta em Passo dos Ausentes.
Fotos: J. Finatto. Parque Laje de Pedra.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A palavra

Jorge Adelar Finatto


A palavra me salva
dá a transparência
que preciso

não quero
o isolamento volumoso
do jardim secreto

o destino sem fio
do pássaro errante

busco a felicidade
possível
na face oblíqua
da chuva

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Do livro O habitante da bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.
Foto: J. Finatto

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Julio Cortázar e Porto Alegre

Jorge Adelar Finatto



A literatura passa um sentimento de permanência das coisas. Nós passamos, as palavras escritas ficam. A maior parte dos livros dura mais tempo do que as pessoas.

Os escritores que escolhemos para nos acompanhar na travessia são fundadores dessa eternidade de papel. Os livros fazem parte do que somos.

A lembrança mais remota que associo ao nome do escritor argentino (e que escritor!) Julio Cortázar (1914 - 1984) é dos primeiros tempos de estudante universitário em Porto Alegre. O ano 1976, tinha dezenove anos. Estava lendo Histórias de Cronópios e de Famas e As Armas Secretas. A fila do restaurante universitário era torturante pra quem tinha que ir pro trabalho cedo da tarde como eu. Estudante pobre, precisava trabalhar pra sobreviver, como muitos. Nas filas do ru, lia Cortázar. Então, aquele era também um bom momento do meu dia a dia. Depois li outros livros dele.

Agora, lendo Papéis Inesperados (tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht), livro de 490 páginas, com textos inéditos do escritor, publicado originalmente em 2009, vinte e cinco anos após sua morte, reencontro Cortázar. No Brasil, o livro foi lançado em 2010 pela Civilização Brasileira.

Os textos - encontrados em uma velha cômoda, na casa onde morou o autor, em Paris, por sua viúva Aurora Bernárdez - são poemas, contos, outras histórias de cronópios e de famas, episódios de Um tal Lucas, um capítulo de O Livro de Manuel, discursos, prólogos, artigos de arte e literatura, crônicas de viagens, etc.

A felicidade de encontrar material novo do autor, tantos anos depois, é muito grande.

O dado inusitado e, para nós que amamos a literatura de Julio Cortázar, muito gratificante foi descobrir uma menção a Porto Alegre no texto Never stop the press, onde se lê a frase "uma vista escolhida do Tirol e/ou de Bariloche e/ou de Porto Alegre" (pág. 117).

Sei que Cortázar gostava do Brasil, onde esteve pelo menos em duas ocasiões, e que admirava, por exemplo, Clarice Lispector e Carlos Drummond de Andrade, além de apreciar nossa música, especialmente Caetano Veloso, mas ignoro se alguma vez esteve em nossa cidade.

De qualquer forma, ver Porto Alegre nesse texto de Julio Cortázar, ainda que só de passagem, dá o que imaginar. Pensando bem, acho que ele tinha muito a ver com essa cidade povoada de barcos e crepúsculos, jardins escondidos no fundo de casas desaparecidas, silenciosos gatos que caminham sobre muros cobertos de hera, ruas esquecidas, fantasmas.
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Publicado em 11 de agosto, 2010.
Fotos: capa de Papéis Inesperados e Julio Cortázar (
http://www.juliocortazar.com.ar/)

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Os sem-leitor

Jorge Adelar Finatto


Existe um ser cada vez mais raro na face do universo.

Astrônomos passam as noites em claro, mirando os telescópios para o desconhecido, na incansável busca.

No momento em que traço essas linhas, inúmeras expedições científicas partem pelo cosmo à procura dele.

É quase tão belo como a estrela da manhã. É mais luminoso que a aurora boreal. É mais precioso que o mais raro diamante.

Por causa dele, blogueiros do mundo inteiro invadem as noites oferecendo seus serviços. Impressionantes editores perdem o sono à sua menor lembrança.

O ser em questão - o misterioso - é o senhor da lista dos mais vendidos, o sonho dos famélicos e maltrapilhos fazedores de livros. Por ele, Cervantes e Thomas Mann foram às vias de fato, Dom Quixote e Hans Castorp romperam relações.

Macunaíma, Anjo Malaquias e Urutu Branco não trocam mais e-mails. É o início do fim dos tempos, ou quase isso.

Os cafés literários perderam o sentido sem a poderosa presença do desaparecido.

As livrarias estão repletas de musas e personagens desempregados. Seria cômico, não fosse o fim de uma era.

Onde andará aquele que é a razão do meu trabalho?, perguntam-se miríades de escritores e poetas, na fria solidão.

A Academia Sueca devia criar o Prêmio Nobel de Leitura, em homenagem a ele, o inefável.

As noites de autógrafos, hoje, só são bem-sucedidas quando é ele quem assina os livros, enquanto os autores esperam a vez na infinita fila.

Não vereis dele mais que o fugidio vulto esgueirando-se no labirinto dos blogs e soturnas bibliotecas.

No entardecer de ontem, cerca de 150 bardos - entre maus, razoáveis e bons - cometeram suicídio no cais de Porto Alegre. Sob o olhar aterrorizado das mães e gritos desesperados das namoradas, os suicidas foram ao fundo do rio com grossos volumes amarrados ao pescoço.

Mais de mil caravelas estão partindo nessa hora de Lisboa em busca de um rastro do indizível em alto mar.

O impensável está acontecendo.

Escritores enlouquecidos batem-se em sangrentos duelos nas praças e ruas da cidade.

As últimas notícias dão conta de que livros famintos estão atacando e devorando escritores. Invadem seus locais de trabalho e, com requintes de crueldade, cometem o bárbaro crime.

Aproveitam-se da solidão literária das vítimas, que começa no ato de criar e se estende até o texto sem leitor, e as destroçam.

Depois só restam folhas brancas, embebidas em sangue, espalhadas no chão.

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Publicado neste blog em 12 de fevereiro, 2010.
Foto: J. Finatto

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Cativo

Jorge Adelar Finatto


Você me habita em todo lugar
de sol a sol

eu vivo nessa ilha
cheia das tuas pegadas
e gemidos

caminho contra o vento
cabeça erguida
                         olhar atento
nesta manhã
                         setembro

com meus doze corações
incendiados
esperando a tua chegada

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Do livro Claridade, co-edição Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento, 1983.
Ilustração: Maria Machiavelli

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A volta da ave perdida

Jorge Adelar Finatto


O jaó era dado como extinto no Rio Grande do Sul. Na semana passada, veio a boa notícia. Um exemplar dessa espécie foi encontrado numa cidade da região central do Estado. O nome do lugar não é revelado para evitar a ação de caçadores. Os autores da descoberta são estudantes de biologia da Universidade da Região da Campanha, conforme noticiou o jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Também conhecida como jaó do litoral e jaó da mata, o nome científico da ave é crypturellus noctivagus.

O jaó gosta de viver perto da água e no interior da mata, esse ambiente que é alvo de insana cobiça por parte de derrubadores de árvores, adeptos da caça e especuladores imobiliários, entre outros predadores. É uma vergonha para o ser humano quando uma espécie entra em risco de extinção. Esta, quando ocorre, é obra do bicho homem, que mata outros seres vivos de forma desnecessária e covarde.

Esperamos que o reencontro da solitária ave signifique uma oportunidade de permanência de sua espécie na natureza e, por extensão, uma chance mais de sobrevivência da gente humana no planeta. Nosso futuro está condicionado ao destino dos outros seres. Todos devemos ter o compromisso de preservar o que resta da mata e da fauna. A hora já está passando. A notícia da volta do jaó é motivo de alegria e, sobretudo, de redobrados cuidados.

Se o jaó está vivo, estamos todos um pouco mais vivos também.

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Foto do jaó. Fonte: Wikipédia. Autor: Marcos Massarioli. Ano: 2008.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Sem medo nem rancor

Frederico Vasconcelos


Final dos anos 60, em Recife, a tropa de choque, fortemente armada, impedia a passagem do enterro. No caixão, o corpo do padre Henrique, um assessor de dom Hélder Câmara que se dedicava a recuperar jovens viciados em drogas.

Na véspera, o padre fora encontrado no meio de um matagal, mãos e pés amarrados e com marcas de incrível violência em todo o corpo.

Ombro a ombro, os policiais militares fechavam a rua e não permitiam a passagem do féretro e das muitas faixas de protesto contra a ditadura.

Sem hesitar, o frágil dom Hélder toma a frente do cortejo, avança com passos firmes, seguido pelos sacerdotes que erguiam o caixão do companheiro assassinado.

O bloqueio é rompido. O comandante recolhe a tropa, que volta a surgir, alguns quarteirões adiante, agora todos perfilados, com os capacetes na mão, cabeças abaixadas, como num silencioso e incomum pedido de perdão.

A coragem pessoal de dom Hélder era um exemplo de resistência naqueles tempos de terror e trevas. Sem as pompas do cargo, o arcebispo morava sozinho numa casinha de pequenos cômodos, cujo muro havia sido metralhado, de madrugada, mais de uma vez.

"Vocês conseguem ver aqueles dois homens, ali em frente, atrás das plantas?", perguntou uma noite, sorrindo, ao se despedir depois de uma entrevista. "Eles estão escondidos, mas dizem que é para me proteger", ironizava.

"Às vezes, eu imagino colocar uma máscara, apenas para pregar um susto neles", comentou, brincando. Dom Hélder não tinha medos nem rancores.

O encontro fora coordenado pela corajosa jornalista, depois deputada, Cristina Tavares (que morreu em 1992). Cristina, como outros amigos, chamava-o apenas de "Dom". Da entrevista também participaram o jornalista Jeová Franklin e este repórter.

Publicada em "O Pasquim", capa de edição em março de 1970, ela teve o mérito de romper a longa censura imposta pelo regime militar a dom Hélder.

Como disse Janio de Freitas, realmente foi uma graça do destino tê-lo conhecido.

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Este artigo foi originalmente publicado na Folha de São Paulo, edição de 03/9/1999. Neste blog, veio à luz pela primeira vez em 13 de agosto de 2010. Agradeço ao Frederico e à FSP a autorização para reprodução. J. Finatto

Frederico Vasconcelos é jornalista, repórter especial da Folha de São Paulo. Mantém o Blog do Fred (blogdofred.folha.blog.uol.com.br) , um dos mais importantes e acessados da área do sistema judicial brasileiro.

Pelos seus trabalhos, recebeu, entre outros, o Prêmio Esso, o Prêmio Bovespa de Jornalismo, o Prêmio BNB de Imprensa, o Prêmio Icatu de Jornalismo Econômico e foi finalista do "Premio a la Mejor Investigación Periodística de un Caso de Corrupción", do Intituto Prensa y Sociedad e Transparency International Latinoamérica y El Caribe.

Nas horas vagas, dedica-se a outro teclado: toca piano (Jazz e MPB).

Foto: Dom Hélder Câmara (1909-1999). Fonte: www.google.com.br, Imagens de Dom Hélder. Nota do blog: o crédito será dado ao autor da foto tão logo tenhamos a informação.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Árida travessia

Ricardo Mainieri


É preciso
atravessar os dias.

Apesar da ferocidade
dos carros
& da beligerância
dos humanos.

É necessário
empreender rotas de fuga.

Para escapar
das armadilhas & artimanhas
das palavras & dos sorrisos
movediços.

É urgente
acender luz própria
em meio à escuridão...

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Ricardo Mainieri é poeta em Porto Alegre. Edita o blog literário mainieri.blogspot.com

Foto: J. Finatto

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A grande notícia é estar vivo

Jorge Adelar Finatto

A delicadeza fugiu para uma ilha que ninguém sabe onde fica.


Estamos em viagem em busca da ilha perdida.


Os indiferentes não estão à altura da vida que recebemos.



 Nada pode apagar esse momento luminoso.



 A morte vai ter que esperar.

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Fotos: J. Finatto

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O velho

Jorge Adelar Finatto


Imagino meu pai
numa obscura mesa de jogo
de casarão porto-alegrense
desmoronado

sentimento
que o invade
não se define

foi desde sempre
este touro
construindo castelos
e derrotas
na arena do baralho

silêncio de meu pai
não se traduz
ele se expressa nas marcas
que trago na face

e como trocaríamos
em vez de despedida
abraço
não tivesse a vida plantado
o desencontro
em nossos caminhos

a imemorial ausência
erigiu labirintos
espalhou ecos ao meu redor
povoou de medo
as noites do menino

bato na porta de sombra
do seu esquecimento

o menino cresceu
e a falta do velho
alastrou-se no tempo

meu pai partiu
cedo demais
partiu sempre
em cada hora
da minha vida

impossível saber
o doce do seu beijo
o abrigo no peito forte
agora que o tempo caiu
excessivamente sobre nós

esta falta, entre todas,
calaria mais fundo:
o pai que não tive
um quadro sem tela
na parede fria
da memória

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Do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.
Foto: J. Finatto. Cais de Porto Alegre.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Ilhas e taperas

Jorge Adelar Finatto


Um dia desses saí a navegar pelo Guaíba no meu barco de papel.
Às vezes ele se chama Sonhador, outras, Solidão.
No itinerário, desembarquei em algumas ilhas.
Confesso me assustei com as taperas que nelas encontrei.
Tapera, do tupi, aldeia extinta.
Habitação em ruína, lugar abandonado.
Filipo, o papagaio que me acompanha, costuma dizer tapera é em nós que ela existe.
Nos nossos gestos vazios, nas nossas omissões, na impotência de mudar a vida.
De tão abandonadas, as ilhas se transformam em território de fantasmas.
Cada um de nós é uma ilha nessas águas tão fundas do viver.
Quando olho em volta da minha ilha, encontro outras ilhas. Muitas ilhas.
Apesar da quantidade e da proximidade, não formamos  um arquipélago.
Existimos isoladamente.
Os habitantes das ilhas querem falar e ser ouvidos.
Raros, contudo, dispõem-se a escutar.
Esse o flagelo que assola o mapa das ilhas.
Habitamos taperas modernas, com computador, blogue, máquina de lavar, tv a cabo, aparelhos de som, ar-condicionado, elevador, mil coisas.
Em nosso íntimo, continuamos homens e mulheres das cavernas, com poucos amigos. Solitários, primitivos.
Lutamos pra sobreviver, saímos à caça todas as manhãs, disputamos ferozmente espaços no  mercado de trabalho, no mercado das paixões.
Desconfiamos quando nos mostram os dentes num sorriso.
Dores e medos são curtidos no recesso como se não existisse mais ninguém no bairro.
As nossas moradias, tugúrios onde nos escondemos. Planejamos a fuga para um lugar que não sabemos se existe, mas deve ser melhor.
Olho o movimento dos barcos na entrada do cais de Porto Alegre.
Ouço o ruído seco do vento na vela branca do meu veleiro.
Uma gaivota atravessa o rio.
O entardecer aprofunda o exílio.
Não conseguimos formar um arquipélago.
O Guaíba embala a solidão das ilhas e taperas.

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Foto: Eduardo Tavares. Veleiros em Belém, Porto Alegre.
Texto publicado em 04 de fevereiro, 2010.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Meu encontro com Walt Whitman

Jorge Finatto

O trabalho mudou minha vida de cenário muitas vezes. Faz muito tempo morei numa cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul. O lugar se resumia a uma igreja católica e outra protestante, algumas ruas e casas. Em volta, a mata. Em certas tardes, eu saía a andar por estradas de chão, solitárias e com aroma silvestre.

Caminhar assim é como andar dentro de si mesmo.

Num dia de sol e frio eu percorria um desses caminhos. Um córrego prateado corria na margem. Numa curva em frente, entre os plátanos, apareceu um homem. Quando nos cruzamos ele me cumprimentou, em silêncio, fazendo um gentil movimento com a cabeça, que eu retribuí. Ele tinha uma barba branca abundante, uns olhos pequenos muito azuis, o cabelo na altura dos ombros. Usava um chapéu escuro com largas abas, a face um tanto rosada. Vestia um velho casaco, a camisa abotoada até o pescoço. Trazia um livro na mão esquerda.

Eu tive certeza de que se tratava do poeta norte-americano Walt Whitman (1819 – 1892).

Fiquei orgulhoso de estar ali, pisando o mesmo chão que o grande Walt. Seria o espectro do poeta o que eu vira? Seria alguém muito parecido?

Encontrei-o em outras duas ocasiões. Como da primeira vez, éramos só nós, a estrada verde, a brisa e o rumor do córrego. Fiquei observando o poeta. Ele entrava num desvio lateral da estrada, subia uns cinquenta metros em direção a uma  pequena casa de madeira.

A casa era muito branca e delicada. Sozinha, lá no alto, mostrava cortinas azuis nas janelas abertas, e flores, muitas flores da estação  no breve jardim em volta.

Walt entrava pela porta dos fundos e desaparecia.

Uma chaminé de alumínio saía pelo telhado.

Pensei em conversar com o poeta. Talvez ele até dissesse alguns versos de Folhas da Relva, sua obra-prima. Mas não. Achei melhor não incomodar. Afinal, os poetas trabalham enquanto caminham em silêncio por estradas de chão.

Um dia chegou o tempo de ir embora da cidade pequena.

A vida seguiu, muitos caminhos eu percorri depois. Mas nunca esqueci que, em certas tardes, numa cidadezinha do interior, eu caminhei na mesma estrada por onde andava Walt Whitman.

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Transbordante de Vida
Walt Whitman

Agora, transbordante de vida, sólido, visível,
No ano quarenta de minha existência, no ano oitenta e três dos Estados,
A alguém que viverá dentro de um século, ou em qualquer número de séculos,
A vós, que ainda não haveis nascido, dedico estes cantos, esforço-me por
alcançar-vos.
Quando lerdes, eu que sou agora visível, hei-de ter-me tornado invisível; então sereis vós, denso e visível, quem lerá os meus poemas, quem se esforçará por compreendê-los,
A imaginar quão felizes seríeis se me fora dado estar ao vosso lado e converter-me em vosso camarada;
Que seja, pois, como se eu estivesse. (Não duvideis demasiadamente que não esteja então ao vosso lado).

Poema extraído de O Livro de Ouro da Poesia dos Estados Unidos, coletânea de poemas organizada por Oswaldino Marques, edição bilíngue, Ediouro, tradução de Manuel Ferreira Santos.

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Publicado no blog em 17, abril, 2010.
Foto: Walt Whitman, feita em 1887 por George C. Cox.
Fonte: Wikipédia.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Coração barroco

Jorge Adelar Finatto


A palavra vale mil imagens.













Coração, por exemplo.


Essa palavra quer ser tudo.

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Fotos: J. Finatto

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O peixe da boca vermelha

Jorge Adelar Finatto


A caminhada polifônica destina-se não apenas ao exercício do corpo como à indispensável atenção às coisas do espírito.

A observação dos seres vivos e da paisagem, a aproximação estética e sensorial  da mãe natureza, a respiração do ar limpo e fresco nas manhãs (ou tardes), a descoberta de inefáveis epifanias durante o percurso, tudo isso faz parte da polifonia andante.


Andava eu nas cercanias do Lago da Neblina, em Passo dos Ausentes, prevenido com a invencível Coruja, a vetusta máquina fotográfica que me acompanha.

Os gansos desistiram de acusar a minha presença. Sabem que sou apenas um caminhante que está só de passagem, um sujeito inofensivo, que anda a bordo de um chapéu de palha branco, com grossas e estapafúrdias lentes nos óculos, catando o invisível.

Um indivíduo assim não oferece risco à fauna e à flora, quiçá a si mesmo.


Nas margens e dentro do lago existe vida pulsante. Estava eu olhando o vazio (essa maneira de encontrar, talvez, o inesperado) quando ouvi um vago rumor na água.


Foi quando me apareceu o amigo (ou amiga) dessas fotos.


Um peixe branco, a boca pintada de vemelho, com traços coloridos espalhados pelo corpo, cerca de 1 metro de comprimento, passou a navegar perto de mim.

Tive a impressão de que sabia da sessão de fotos, ao menos não poupou poses e movimentos. Chegou-se mais para a beira, mas não tão próximo que não pudesse ativar um plano emergencial de fuga caso isso fosse necessário. Não foi.




O peixe da boca vermelha quis dizer alguma coisa com sua presença, e acho que conseguiu. Encheu de beleza a tarde (e o meu coração).



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Fotos: J. Finatto

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O ladrão de livros

Jorge Adelar Finatto

Entre as páginas de um velho livro, encontrei um recorte de jornal amarelecido. Nele se noticia que o homem considerado o maior ladrão de livros da história foi condenado, na Inglaterra, a 15 meses de prisão.

O inglês, cujo primeiro nome é Duncan, furtou, ao longo de 30 anos, mais de 40 mil volumes de bibliotecas, faculdades, igrejas e outras instituições.

O motivo alegado por Duncan, segundo a notícia, era um só: impressionar vizinhos e conhecidos com aparência de erudição. A polícia encontrou os livros guardados desde o porão até o sótão de sua casa de campo, no condado de Suffolk, leste da Inglaterra. Ele foi descoberto ao tentar vender uma das obras num leilão.

O principal objetivo de Mr. Duncan, como se vê, era alardear leituras que nunca fizera. Aliás, comportamento que não é privilégio dele. A vaidade literária se presta, em vários sentidos, à ostentação e esnobismo.

Há grandes leitores de orelhas e resumos de livros que acenam erudição, em conversas e através de resenhas, a respeito de obras que, na verdade, nunca leram. Esse tipo de "leitor" se faz presente em certo meio intelectual e em parte do jornalismo dito cultural. Claro que há pessoas que procuram fazer um trabalho sério. Mas os tempos são difíceis também nessa área.

Uma boa pena alternativa para Duncan, que a meu ver não deveria ir para a cadeia, seria a leitura de livros em asilos, hospitais, prisões e outras lugares, durante algumas horas por semana, para atender pessoas impossibilitadas de ler.

Quem sabe dessa forma ele adquirisse, enfim, o verdadeiro gosto pela leitura e, mais do que isso, descobrisse o quanto é bom ajudar a quem precisa por meio da literatura.
 

sábado, 22 de janeiro de 2011

Os últimos acendedores de lampiões

Jorge Adelar Finatto


À tardinha, quando o sol morre atrás do Contraforte dos Capuchinhos, os dois acendedores de lampiões saem às ruas para dissipar a escuridão. Érico tem 78 anos e Dyonelio, 83. São os últimos remanescentes da Companhia de Iluminação de Passo dos Ausentes. Ao que se quer e espera, muita luz, luzes.

A nostálgica claridade noturna de nossas 20 ruas é invenção de 80 lampiões nelas espalhados. É assim desde 1925. A cidade parou no tempo desde então.

Érico e Dyonelio exercem o ofício desde a adolescência, quando ingressaram na companhia como aprendizes. Com a aposentadoria dos acendedores mais velhos, e diante do brutal esvaziamento da cidade (os jovens muito cedo vão-se embora à procura de estudo, trabalho e aventura; os velhos acabam morrendo e mudam-se em definitivo para os campos da ausência), não houve renovação dos iluminadores.

Somos poucos.

Os últimos acendedores de lampiões fizeram um pacto. Trabalharão até o dia da morte para não deixar a cidade entregue às trevas. Eles acreditam que quando não mais estiverem nas ruas para acender os lampiões forças malignas tirarão proveito da escuridão e expulsarão nossa cidade do sistema solar. Precisamos evitar a todo custo que se cumpra o presságio do padre Eleutério Ombra, enunciado em 1755, de que uma nova São Miguel das Missões se ergueria perto das nuvens, sobre altas montanhas, com graça e fulgor. Advertiu, todavia, que uma grossa sombra rondaria sempre esse lugar e poderia engoli-lo.

Depois que exércitos espanhóis e portugueses destruíram São Miguel, em 1756, alguns padres jesuítas e índios guaranis, sobreviventes do massacre, fugiram e fundaram Passo dos Ausentes.

Uma grande angústia toma conta das pessoas por aqui. Vivemos nesta cidade condenada ao desaparecimento. Cada um é insubstituível.  Nem ao menos figuramos no mapa do Rio Grande do Sul.

Somos poucos.  Somos invisíveis. Somos habitantes dos Campos de Cima do Esquecimento.


O tempo, em Passo dos Ausentes, é uma ferida que não para de sangrar.

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Do livro A cidade perdida: as origens. Editora Vésper, Passo dos Ausentes, 2003.
Fotos: J. Finatto

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O córrego

Jorge Adelar Finatto


Não quero outra vida
que passar os dias
na beira do córrego
olhando os seixos
                      as folhas
o rosto humano dos peixes

perto do pinheiro
contemplo o lento caminhar
das águas

não indago de onde ele vem
não sofro seu tortuoso destino
nem as lágrimas que traz

quero apenas estar a seu lado
no suave e breve instante
de sua passagem
na minha vida

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Do livro Memorial da vida breve, Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.
Foto: J. Finatto

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A nave-mãe está cansada e seriamente doente

Jorge Adelar Finatto


A escritora e querida amiga Helena Jobim disse-me, certa vez, que Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim (1927-1994), seu inesquecível irmão Tom (apelido dado por ela, em criança, ao mano), compôs diversas de suas músicas no sítio da família, na localidade de Poço Fundo, município de São José do Vale do Rio Preto, região serrana do Estado do Rio de Janeiro. Uma ocasião o maestro saiu de sua casa e foi até a de Helena, ambas no sítio, e mostrou com o violão a música que acabara de fazer: era Águas de março. Ali também compôs Dindi e tantas outras, e recebeu amigos, entre os quais Vinicius de Moraes e João Gilberto. Naquele lugar, o músico passava temporadas de descanso e lazer, desde pequeno. Ele era uma pessoa encantada com a natureza. Em Poço Fundo aprendeu nomes de pássaros, animais, plantas, conviveu com a mata e com os bichos. Tornou-se um dos primeiros artistas brasileiros a falar de ecologia e a externar preocupação com a destruição do ambiente natural, nele incluídas as pessoas.

A tragédia que se abateu sobre as cidades serranas do Rio de Janeiro destruiu a casa do Tom em Poço Fundo, na manhã de quarta-feira passada, conforme se vê na foto acima, tirada pelo neto Daniel Jobim, que se encontrava no local, mas em outra residência. A forte enxurrada e a subida do Rio Preto, que passa por lá, acabou com quase tudo no lugar.

O desastre que assola o Estado do Rio, fazendo cerca de 700 mortes e milhares de desabrigados, em municípios como Teresópolis, Nova Friburgo, Petrópolis e São José do Vale do Rio Preto, entre outros, é uma demonstração de que a nave-mãe Terra está muito cansada e seriamente doente.  O Brasil não era acostumado a fatos como esse, que vêm se repetindo nos últimos tempos, em várias proporções em quase todas as regiões do país. Temporais, tornados, enxurradas, vendavais, alagamentos, deslizamentos de terra têm causado mortes, medo, traumas e prejuízos incalculáveis. No Brasil e no mundo, percebe-se o grave desequilíbrio: os desacertos do clima, a elevação das temperaturas, o derretimento das geleiras, a redução drástica da camada de proteção atmosférica.

Estamos produzindo lixo além de toda conta, e jogando tudo na natureza. Gases são atirados de qualquer maneira no ar, detritos de inumeráveis espécies vão para dentro das águas. Queimadas, mortandade de animais, produtos tóxicos produzidos e espalhados indevidamente. A sociedade do consumo total, do lucro como valor supremo, da mentira e da vantagem a qualquer custo chega ao limite.

A natureza está devolvendo ao homem o que dele recebe. Se não desenvolvermos uma ética de solidariedade entre nós e de respeito ao meio ambiente, em breve a nave-mãe Terra mergulhará em profunda escuridão.

Precisamos urgentemente fazer as pazes com a natureza. Do contrário, vamos todos desaparecer, sem memória do que fomos e das canções que um dia embalaram nossos corações, como as do grande maestro Antonio Brasileiro.

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Foto: imagem da casa de Tom Jobim, no sítio de Poço Fundo, destruída pelas chuvas. Autor: Daniel Jobim. Publicada no jornal O Globo, online, em 15.01.2011: oglobo.globo.com.