domingo, 8 de abril de 2012

Calado observador do fim do mundo

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto

F acorda às 4h da manhã, quando dorme antes da meia-noite. Quando se recolhe depois, e apenas navega no entressono, levanta da cama às cinco. Em qualquer caso, desce até a cozinha, acende o fogão a lenha, prepara o café e sobe para o escritório.

Leva na mão a xícara fumegante e o pão torrado que gosta de molhar na taça. Abre as cortinas para explorar os longes.

Faz frio nessas alturas nas madrugadas de abril. Por isso, a manta cobre-lhe os ombros. Lentamente a claridade rosada surge nas montanhas. A luz se espalha.

Isso é assim desde muito antes de F vir ao mundo, e continuará dessa maneira muito tempo depois de partir.

A paisagem vista da janela é a mesma de sempre e sofre a eternidade da beleza.

photo: j.finatto

Este amanhecer de domingo não desaparecerá, ele pensa. Ficará na memória da câmara escura, na efêmera página de um blogue. Será visto daqui a cinco segundos ou mil anos talvez.

A transitória permanência das coisas faz de F, nesta manhã e em todas as manhãs de sua vida, calado observador do fim do mundo. E, no entanto, nada se acaba. Tudo muda.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

A cidade do animal solitário

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto


Depois da chuva virá a névoa.
Depois da névoa virá a noite.
Depois da noite virá o amanhecer.
Depois, silêncio outra vez.

Habitamos os Campos de Cima do Esquecimento.
Somos poucos, somos invisíveis.
 
A passagem do tempo desaba sobre nós. Um gosto de outono na alma. Pouco menos que o inverno, pouco mais que o verão. Um intermitente suspiro na estação de trem abandonada da cidade. 

Em abril, mais que em outros meses, percebemos a presença dos voláteis.

Alguns ficam dependurados nas copas das árvores e telhados, onde passam a noite com seus casacos de lã, molhados de  sereno. Outros caminham pelas ruas com as golas levantadas, sem fazer ruído.

Um grupo ocupa os bancos da Praça da Ausência, que nessa época fria mergulha no abandono.

As casas  - de madeira - fecham as janelas muito cedo. Somos poucos em Passo dos Ausentes, cada vez mais raros por viver num lugar assim, que nem sequer figura no mapa do Rio Grande do Sul.

A chama da lenha queimando nas lareiras projeta uma claridade tremeluzente, que desenha vultos nas paredes, o que dá a impressão de que existimos em maior número do que somos realmente.

Uma ilusão como outras que cercam a nossa história e até nossa existência (questionada de forma pueril e impiedosa pelos burocratas do governo em Porto Alegre).

Um grande silêncio toma conta das ruas a essa hora. O sino bateu as onze da noite.

Afundo na poltrona enrolado na manta.
Desisti por ora de conversar com os fantasmas que andam pela casa.
No outono eles ficam suscetíveis e melancólicos, não se pode dizer nada. Já é tarde.

Vou continuar a leitura desses contos de Juan José Morosoli.
O vento faz seu giro nas esquinas, vem bater nas portas e janelas.
O vento é um animal solitário.
Como nós.

domingo, 1 de abril de 2012

Clube da Esquina: 40 anos

Jorge Adelar Finatto


O disco Clube da Esquina completou 40 anos. Lançado em março de 1972, não foi apenas mais um disco: revelou, deu forma a uma nova sensibilidade que andava calada nos corações e nas cabeças. Um acontecimento estético e sentimental que trouxe uma aragem de esperança  e liberdade num período muito difícil da vida brasileira, de ditadura militar e luta armada. Reproduzo, em memória, texto sobre o Clube publicado em 13 de março de 2010.

O que nos dizia o Clube da Esquina no vendaval das nossas vidas pequenas e massacradas na década de 1970? Dizia que era possível ir muito além da pobreza material e espiritual daqueles dias. Dizia que valia a pena acreditar na amizade, no encontro, na ousadia, na transgressão do ódio e da hipocrisia.

Mostrava que nada podia amputar nossos sonhos, nossa criatividade. A vida podia e devia ser bonita.

O Clube da Esquina não tinha carteirinha, nem endereço, tampouco piscina e sede campestre. Era um lugar espiritual onde as pessoas se reuniam em qualquer dia, qualquer hora, qualquer estação do ano. Os sócios espalhavam-se pelo Brasil.

A senha dos frequentadores do Clube estava no jeito, no olhar, no modo de ser, na amizade verdadeira, na busca.

Muitos construíram saídas existenciais frequentando o Clube da Esquina. Ali se cultivavam encontros, pomares de alegria, viveiros de afeto. Um modo novo de olhar a vida num país que tinha perdido o encanto e a esperança.

Uma maneira diferente de traduzir essa coisa tão velha que é o indivíduo estar no mundo, mergulhado numa paisagem sombria, sob sol e chuva, e seguir adiante, apesar de tudo.

Construções melódicas e letras inusitadas, instigantes, sensíveis, tão diferentes do que tinha sido feito até então.

O fundo musical da minha adolescência foi inventado pelo Clube da Esquina, de Milton Nascimento, Lô Borges e companheiros de estrada. Estamos falando dos anos 1970. O famoso clube mineiro vinha dos anos sessenta, quando Milton tinha vinte e poucos anos e havia feito músicas eternas como Travessia (em parceria com Fernando Brant) e Morro Velho, que chamaram a atenção do mundo.

O Clube da Esquina, disco lançado em março de 1972, trazia um recado urgente. Era uma música nova, numa época difícil. As portas estavam fechadas para a juventude. Os ares das montanhas de Minas Gerais, o sertão, as veredas, as paisagens de concreto, vidro e aço das grandes cidades, a loucura da história, tudo vinha junto nas canções. O antigo e o moderno.

A impressão é que nada de importante escapava dos integrantes do Clube. Eram poetas lúcidos e líricos, profundamente brasileiros, latino-americanos, um canto universal.

Havia no trabalho daqueles jovens músicos e compositores muito de cinema, leitura de filosofia, literatura, conhecimento da arte em geral, que os levava a uma reflexão atual sobre a vida, a risco, a céu aberto. O paredão da censura e do medo não lhes caía bem, o grupo rejeitava com coragem esse tipo de interferência.

Eu estudava com meia bolsa numa escola particular de Porto Alegre, na qual havia filhos de famílias das classes média e alta. Quando vim a ter a minha primeira jaqueta Lee, americana, esse vestuário já saíra de moda.

Sempre estive fora de moda naquela escola. Ir todos os dias pra casa, no bairro distante, no ônibus velho e lotado, era de certa forma um alívio. As pessoas mais afortunadas não conseguem esconder certa estranheza diante dos pobres, quando eles entram no seu ambiente.

Mas a leitura e a música, duas coisas relativamente acessíveis, abrem caminhos ensolarados.

No Clube da Esquina não se barravam pessoas pela classe social ou qualquer outra. Aprendi a olhar nos olhos dos outros, sem ter vergonha de ser pobre e não ter as coisas materiais que, para muitos, são importantes. Havia outras riquezas.

Foi um amigo da escola, filho de militar de alta patente do Exército, quem comprou o primeiro Clube da Esquina. Me convidou para ouvir o disco. O cara tinha até um quarto só pra ele! Passamos muitas tardes de nossas vidas de adolescentes dentro do Clube.

Podíamos, então, sair em viagem com O tem azul (Lô Borges e Ronaldo Bastos):

Coisas que a gente se esquece de dizer
Frases que o vento vem às vezes me lembrar
Coisas que ficaram muito tempo por dizer
Na canção do vento não se cansam de voar
Você pega o trem azul
O sol na cabeça
O sol pega o trem azul
Você na cabeça
O sol na cabeça