sexta-feira, 12 de abril de 2013

Cinema de rua

O Cavaleiro da Bandana Escarlate



Este é um blog primitivo. Se o leitor observar, notará vestígios de textos escritos a caneta em guardanapo de papel. Me disseram que o autor desta página pode ser visto em cafés, lendo e rabiscando coisas. Essas anotações ele depois datilografa no computador. O editor do blog é do tempo da máquina de escrever. Para ele, o notebook nada mais é do que uma vetusta olivetti com luzes dentro. Às vezes, desconfio que, em menino, banhou-se nas águas do Dilúvio.

Este é, portanto, um blog arcaico, com raros e valentes leitores. Aqui não se ouvem músicas nem sons temáticos, não se encontram imagens cambiantes nem filmes. Tudo se passa como no tempo do cinema mudo. O fazedor da página deve amar Charles Chaplin (1889-1977).

Eu não devia ficar me dando ares. Sou convidado a escrever sobre cinema. Mas o fato é que quase não tenho saído de casa. Ultimamente, passo os dias na biblioteca do modesto solar, nas cercanias da praça Maurício Cardoso, em Porto Alegre. Abro as janelas dos fundos pra ver os pássaros no breve jardim. Eles vêm alimentar-se. Sirvo-lhes frutas. Em troca me oferecem o canto, dentro da lógica capitalista de que não existe almoço de graça.

Saio pouco de casa por temperamento e porque tenho medo de assalto. Não tenho mais fôlego pra correr dos bandidos. Fumei durante muito tempo, hoje me falta o ar. Contrariando o médico, ainda fumo charuto escondido, principalmente nos entrementes de uma garrafa de vinho.

Meu físico assaz patético é um convite aos ladrões na via pública.

Uma pequena história: os primeiros filmes que vi foram aqueles do tempo de menino em Passo dos Ausentes. Não havia sala de projeção naquele fim de mundo. Um dia, no final dos anos 1940, o médico da cidade, Dr. Fredolino Lancaster, numa viagem de estudos à Inglaterra, adquiriu um projetor. Na volta, começou a passar filmes na fachada de sua casa, sobre um lençol branco. As famílias levavam cadeiras para assistir às sessões de filmes mudos, que aconteciam no primeiro sábado do mês. Ali conhecemos o grande Carlitos.

Eram as noites mais esperadas do ano. Alberta de Montecalvino se encarregava de distribuir a pipoca. Nefelindo Acquaviva organizava a platéia. Juan Niebla, o músico cego do bandoneón, executava inefáveis melodias, conforme a história se passava na tela e lhe era segredada na concha do ouvido por Heitor dos Crepúsculos.

O miserável andarilho vaga pelo universo com sua surrada roupa, chapéu-coco e bengala. Carlitos mudou nosso modo de sentir e ver a vida. O vagabundo que vive na pobreza, com modos de sobrevivente e dignidade de cavalheiro, nos devolveu alguma coisa que havíamos perdido pelo caminho. Assistir a um filme de Carlitos é receita infalível contra depressão e vontade de morrer.
 
_________
 
Foto: Chaplin como o vagabundo Carlitos (11 de abril de 1915). Autoria não informada. Fonte: Wikipédia. Texto publicado em 2 de junho, 2011.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Encher o chapéu com folhas de outono

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto
 
 
Escolhi esta tarde cinzenta pra caminhar por caminhos de silêncio e folhas arrastadas no chão. O coração quis fugir da sala fechada e da tristeza dos últimos dias.

Fui respirar um pouco do ar transparente de abril. Desapareci entre as árvores na distância como quem desaparece ao penetrar numa luminosa aquarela.
 
O silêncio só era cortado aqui e ali pela voz de algum pássaro ou pelo rumor das folhas dos plátanos na passagem do vento.
 
Uma paisagem fora do tempo. Um território só sentimento. Um instante longe da dor, perambulando nos Campos de Cima do Esquecimento.


photo: j.finatto
 
 
A bordo do chapéu de palha e dos óculos de fundo de garrafa lá me fui, misturado nas cores outonais como quem vai em busca da urgente seiva pra continuar vivo. 
 
Tem dias em que é preciso estancar a ampulheta e sair por aí numa tarde cinzenta.

Encher o chapéu com as folhas do outono, e andar, andar e andar pela aquarela até flutuar sobre os telhados e sobre a copa das nuvens.
  

terça-feira, 9 de abril de 2013

In memoriam

Jorge Adelar Finatto
 

Romeu Marques Ribeiro Filho
Fonte: site Tribunal de Justiça do RS
 

Porque sois uma bruma que aparece por um pouco de tempo e depois desaparece.
      Tiago 4: 14

A morte tece sua teia invisível, implacável. Num instante, retira de perto da gente pessoas que nos são queridas.
 
No meio da tarde de quarta-feira (3 de abril) recebi o telefonema dando conta da morte do colega. Ele havia jogado tênis pela manhã. Depois foi para casa pela hora do almoço. Passou mal e, em seguida, veio a morrer do coração. Não houve tempo pra nada.

Um mero e fatal instante: já não estava mais entre nós. Tinha 57 anos, havia se aposentado há alguns meses como desembargador.

Conhecia-o há mais de 20 anos. Tivemos uma convivência próxima quando, em 1991, trabalhamos na comarca de Rio Grande, cidade ao Sul, porto marítimo. Havia então o hábito do convívio entre colegas, não apenas no foro como em almoços e jantares de fim de semana.
 
Tinha admiração pelo ser humano e pelo juiz que ele era. Em Porto Alegre, a convivência diminuiu. Se o interior aproxima, a grande cidade tem o condão de nos distrair do trato diário. O invencível excesso de trabalho e as mil preocupações facilitam o isolamento e, se não nos damos conta, nos distraímos até de viver.

Algum tempo atrás, nos encontramos pela última vez. Era uma época especialmente difícil pra mim em razão de uma doença grave. Como não havia muito o que dizer, ele veio ao meu encontro, me abraçou e me deu um beijo. O gesto me comoveu, e me deu força.
 
Há momentos na vida em que tudo que mais precisamos é de um abraço e um beijo. Infelizmente, não pude fazer isso por ele.

Vou levar para sempre aquele beijo na minha face, enquanto durar a bruma que também sou.
 
A Romeu Marques Ribeiro Filho,  o beijo e o abraço, saudade e afeto, in memoriam.
 

domingo, 7 de abril de 2013

Nagai Kafu e as histórias da outra margem

Jorge Adelar Finatto
 
 
Nagai Kafu entre mulheres.
Kafu Nagai with strippers @ Asakusa Rokkuza, 1952
Fonte: the setting sun*
 
 
 
Oyuki era uma musa que ressuscitara em meu coração tão cansado imagens de um tempo  distante e saudoso. O manuscrito há tanto tempo abandonado sobre a escrivaninha, não fosse por ela ter aberto seu coração para mim - ou, ao menos, não fosse por eu ter achado que esse coração se me abrira -, já estaria há muito tempo no lixo.¹
                      Nagai Kafu
 
Mais por falta de livros traduzidos do que por outro motivo, no Brasil temos pouco conhecimento da literatura oriental.
 
Mas isso começa a mudar. Na medida em que editoras brasileiras investem na tradução de autores daquele lado do mundo, vamos descobrindo pérolas até aqui escondidas.
 
Ultimamente tenho folheado livros de pintura japonesa, de autores como Hokusai e Hiroshige, e lido textos de escritores japoneses. Não é pouca nem recente a admiração que sinto pela cultura do Japão.
 
Entre os autores daquele país mais conhecidos por aqui, temos Bashô (poesia) e Yasunari Kawabata (prosa, Prêmio Nobel de 1968 ). Mas existem outros de grande qualidade.
 
Acabo de ler Histórias da outra margem, do escritor Nagai Kafu (1879 - 1959), esse da foto com as moças. Trata-se de um livro de 123 páginas, que transita entre a ficção, o diário, a poesia, a crônica e as memórias do autor.

Eu não tinha mais aonde ir. As pessoas que eu queria rever estavam todas mortas.²

O enredo se passa na Tóquio da década de 1930. Tadasu Oe é um escritor de quase 60 anos que vive uma história de amor com uma "mulher da vida", na zona de prostituição do bairro Tamanoi, a leste do rio Sumida.

Oyuki é jovem, pobre, bela, alegre, foi gueixa antes de prostituir-se. Ao conhecer Tadasu Oe, pensa abandonar a zona e casar-se com ele. Oe, por seu turno, encontra na jovem inteligente e cheia de vida um cais cálido onde ancora sua solidão nos fins de tarde.

Ao mesmo tempo em que narra o seu romance, Oe conta detalhes do livro que está escrevendo, no qual um professor aposentado abandona a família. O desenvolvimento é surpreendente.

A história é, em vários aspectos, a história do próprio Nagai Kafu. E de muitos homens e mulheres por este mundo afora.

Histórias da outra margem é um livro com uma curiosa e envolvente construção. Nagai Kafu revela-se um excelente escritor, com uma narrativa que combina técnica esmerada e sensibilidade poética, sem cair em literatices.

Como se isso não bastasse, a obra tem ainda belas ilustrações de Shohachi Kimura (1893 - 1958). Um livro, enfim, pra se ter nas mãos.
 
___________________
 
¹,²Histórias da outra margem, pp. 109, 117. Nagai Kafu, Editora Estação Liberdade, São Paulo, 2013. Tradução do japonês e notas por Andrei Cunha.
 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

As Variações Goldberg ( ou o fantasma da casa demolida)

Jorge Adelar Finatto


Variação Goldberg 13. Fonte: Wikipédia
 

Outro dia encontrei um homem sentado no meio-fio, diante de um casarão que estava sendo demolido. Era viúvo, devia ter por volta de 80 anos e chorava discretamente. Parei e perguntei o que havia.

Ele estava bastante desolado. Disse que o único filho e a nora venderam o imóvel onde vivera por mais de 70 anos. No lugar será erguido um edifício de 30 andares. Trocaram a casa por dois apartamentos e pequena soma em dinheiro.

Era um imóvel dos anos 30 do século passado, com amplo quintal, que ele herdou dos pais. Afirmou que não queria passar o resto de seus dias no apartamento do filho, onde morava agora. Não sabia o que fazer, pra onde ir.

Um homem sensível e educado. Acrescentou que não quis opor-se ao negócio, porque o filho passava por um momento difícil financeiramente. Mas lamentou não ter morrido antes da demolição.

O que dizer? Falei apenas que era importante ele manifestar sua aflição para a família. Conversar sobre o problema é a maneira de começar a enfrentá-lo, seja ele qual for.

A vida e o tempo atropelam tudo pela frente. Aquele homem era o fantasma vivo daquela casa.
 
Quando um casarão como esse vem abaixo muitas coisas desmoronam com ele.

As lembranças e sentimentos dos antigos moradores ficam sem o lastro físico que as sustenta.

O velhos fantasmas são jogados no meio da rua. E levarão muito tempo até encontrar outro lugar, se é que não ficarão vagando para sempre pelas ruas vazias da cidade.

Os ninhos dos passarinhos, nas reentrâncias do telhado, vão para o espaço.

As sombras, por sua vez, ficam sem as paredes e o chão para projetar-se como antes. Somem no ar.

Um mundo passa a habitar o invisível.

A memória é talvez a última morada da qual ninguém pode nos expulsar.

Quando cheguei na minha casa, fiquei feliz ao certificar-me de que ainda estava de pé (graças a Deus). Abri as venezianas do escritório, nos fundos, para o ar fresco, as plantas e árvores do pátio.

Botei as Variações Goldberg, para cravo, de Johann Sebastian Bach (1685 - 1750) pra tocar. Tentei salvar o que restava daquele dia.

Posso dizer que a música do João Sebastião cumpriu com rigor, naquele fim de tarde, a finalidade da arte que é consolar os homens na sua difícil passagem (mil variações) pelo mundo. E foi assim que o sublime compositor alemão, que nada tinha a ver com essa história, passou a fazer parte dela.
 

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Ensaio sobre as remotas cores do outono

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto
 

A trevosa sintaxe da vida.

A escuridão das almas. Fugidias imagens me perseguem. Nos urdimentos do bandoneón, busco outras claridades. Viver longe do abismo, no vero amanhecer, eu busco. Eu, Juan Niebla, venho do neblinoso. (Trouxe o calepino?)

Tenho andado pela vida à procura de luz. Essa que vem de dentro. A escuridão está por toda parte, principalmente nos corações.

As trevas-mestras sustentam o mundo.

Bem-vindo o que vem em paz e desarmado. Os regulamentos da amizade eu cumpro. A minha casa está sempre aberta. Nos enquantos, porque amanhã é escuro. (Anote, por favor.)

A treva foi inaugurada com a luz principial.

Isto é demanda antiga. A velha contradição, o bem contra o mal. A luta imemorial. Mas também o complemento ideal, um não existe sem o outro. Em termos de arriscada filosofia, caminho em beira de precipício.

A maldade não tem sala na minha casa. Sou músico de bandoneón e antiga memória, na estação de trem abandonada de Passo dos Ausentes.

Espero com o ouvido a chegada do invisível trem. Cego desde os 15 anos, sim, senhor. O resto é breu e se dissipa quando toco meu instrumento no velho banco.

A vida é dura? Pra completar, é breve. Somos um ato-falho da criação.

Sou homem de fé, Deus me perdoe. Se vive. Fazemos o que é possível, às vezes muito menos, às vezes pouco mais. Somos ferida em carne viva, vivo sentimento. Vive-se. (Está anotando?)

O certo é que, na vida como na arte, a gente fracassa sempre. Falta aquele grito, aquela palavra certa, aquela revolta, o remate contra a escuridão, aquilo que não foi dito nem lembrado.

O ora-veja na arte só a divina obra tem. Deus é artista caprichoso, no atacado e no miúdo, como outro não há. (Conseguiu escrever?)

Pediram-me um ensaio falado sobre as cores remotas do outono. Mas eu só sei, só vejo isso que sinto.

_______

Juan Niebla é músico em Passo dos Ausentes. Admitido por concurso público, ocupa o cargo desde 1940, na estação de trem abandonada da cidade. Tem 88 anos, é cego desde os 15.
Texto revisto, publicado anteriormente em 23 de março, 2011.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Um poeta voando por aí

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto
 

Nascer em Passo dos Ausentes é uma condenação ao degredo eterno. Essa cidade não está sequer no mapa do Rio Grande do Sul.

Somos seres perdidos no vento.
 
A situação em que eu, Filipe Penaverde, me encontro: abismado e solitário, poeta lírico, 21 anos, lúcido e à margem. Trago perplexidades que não querem silenciar.

Quanto mais eu penso mais eu quero sumir desse lugar. Mas ir pra onde? Viver do quê?

A solidão não é um problema geográfico, eu sei. É no interior da alma que ela habita. Estamos sozinhos em toda a parte. Uma espécie de cósmico exílio.
 
Por aqui não existem outros da minha idade, exceto uns quatro ou cinco beirando os trintanos. Os que não estão muito velhos estão de partida para o além.

Um cansaço existencial viver aqui no fim do mundo.

Muitos abandonaram a cidade em busca de um futuro. Mas que futuro? Eu escolhi ficar nesse ambiente demasiado esconso, demasiado ventoso e perdido, porque tenho medo do lado de lá das montanhas. 

Espero que Deus não me abandone nessa lonjura.

Fica perto de quê, alguém pergunta.  De lugar nenhum.

Passo dos Ausentes é um pueblito no frio. Um cochilo do Senhor na criação do mundo.
 
Se ao menos eu tivesse a coragem que me falta. Fico quando quero partir. Morro quando devia viver.

Estou no meu caminho de angústia voando entre abismos. Don Sigofredo de Alcantis, filósofo-mor, diz que é assim mesmo, mas que depois tudo vai melhorar. Quem me dera.

Peneiro o invisível até encontrar a saída luminosa.
 
_____________

Filipe Guilherme Telles Correa dos Santos Penaverde é jovem poeta e secretário da Sociedade Literária, Filosófica, Artística, Histórica, Geográfica, Astronômica, Antropológica, Musical e Antropofágica de Passo dos Ausentes.
 

domingo, 31 de março de 2013

Manhã de Páscoa

Jorge Adelar Finatto



O que as mulheres estão olhando? O que vem pela frente na estrada do tempo? Quem ficou em casa sem nada esperar?

Que mistérios, que notícias virão enrolados nos palimpsestos da manhã de Páscoa?

O amanhecer avança entre as sombras.

O que há de luminoso no domingo de Páscoa é que todos estão vivos. Anda pela casa o cálido rumor de vozes, conversas, cantigas, risos, que começa na quinta-feira Santa e se estende até a Ressurreição.

Todos estamos vivos e a esperança habita entre nós.

A vida vence a morte e nada está perdido.

_____________

Imagem: pintura Manhã de Páscoa, de Caspar David Friedrich (1774 - 1840). Fonte: Museu Thyssen-Bornemisza, Madri, Espanha:
http://www.museothyssen.org
Texto publicado em 23 de abril, 2011.
 

sexta-feira, 29 de março de 2013

A princesa africana

Jorge Adelar Finatto

Princesa africana. Escultura em basalto
de João Bez Batti Filho
photo: j.finatto.


O escultor Bez Batti pediu-me certa vez para dar nomes (sugestão de nomes) a algumas de suas esculturas. Confiou-me a honrosa tarefa numa das minhas visitas a seu ateliê nos Caminhos de Pedra, interior de Bento Gonçalves, na Serra gaúcha. Em breve haveria uma exposição de suas obras em Porto Alegre.
 
Gosto de dar nomes às coisas. A começar pelos títulos de textos e livros (poucos). Mas é árdua a missão de nomear. Tem a ver com penetrar na alma do objeto. É preciso querer descobri-la, e entendê-la com sentimento (a só razão, neste caso, não leva a lugar nenhum).
 
O escritor é, a seu modo, um escultor de palavras, trabalha uma a uma, até que ganhem uma estrutura de texto capaz de provocar emoção. Escrever e esculpir exigem grande dose de paciência, humildade e persistência.

Dar um nome, enfim, é assunto de responsa. O nome jamais pode diminuir o ser ou a coisa nomeada.


photo: j.finatto
 
A uma das esculturas dei o nome de Princesa africana. Era uma linda cabeça de mulher negra com vistoso turbante. Uma obra construída em basalto sangüíneo, extraído do Arroio Tega.
 
No dia da inauguração da exposição, fui disposto a adquiri-la, pois a princesa conquistara meu coração desde o momento em que a vi pela primeira vez. Havia nela um significado ancestral para mim, um retorno à beira do Arroio Tega, onde nasci, e à mãe África.
 
O Tega da minha infância corria pela montanha, atravessava pinheirais, divagava entre casas de madeira. Na sua margem, mulheres lavavam trouxas de roupa que nunca terminavam. A nossa casa ficava a poucos metros de seu curso. Do meu quarto eu podia ouvir o rumor do Tega em sua louca ânsia de conquistar o mundo. Conhecia-lhe o cheiro e os céus azuis que trazia espelhados dentro de si.
 
Bez Batti, além de encantador de pedras (conforme já foi chamado com sabedoria), é estudioso de geologia. Disse-me que no leito do Tega repousa a única jazida de basalto sangüíneo de que se tem notícia. No cerne da rocha cascuda e impenetrável (trabalhado pelo cinzel na mão firme e talentosa do artista), dorme o belo minério cor de vinho, vermelho-coração, originado de imemoriais derramamentos vulcânicos, descoberto por Bez Batti.

João Bez Batti Filho. photo: Divulgação RBS-TV
 
Mas então eu cheguei à exposição para buscar a minha Princesa africana. Ocorre que diante dela já havia uma placa indicando que fora vendida. Por alguns minutos, perdi-a. Perder faz parte da vida, mas desistir de um sonho ninguém deve.

Encomendei ao escultor uma outra princesa africana. Passaram-se uns dois anos e nada. Achei até que ele tinha esquecido, tal o volume de pedidos que seu ateliê recebe.

Mas Bez Batti não é homem de esquecer um sonho. Em fevereiro último voltei aos Caminhos de Pedra para buscar a minha Princesa africana, bela e altiva, em fino basalto negro. Está aqui em casa comigo. Valeu a pena esperar.

_______________

* Bez Batti, o homem que tira sentimento de pedra:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2010/10/o-homem-que-tira-sentimento-de-pedra.html
 

quinta-feira, 28 de março de 2013

Série Retratos 15 (Adeus a uma gaivota)





______________

photo: Jorge A. Finatto
Rio Guaíba, Porto Alegre
A gaivota está no ponto mais alto do barco
Pedidos de reprodução podem ser feitos ao autor pelo e-mail

quarta-feira, 27 de março de 2013

Visão

Jorge Adelar Finatto
 
 
photo: Rio Guaíba. j.finatto
 
 
Eu olho as velas brancas
dos barcos que cruzam
as águas escuras do rio

Sentado no banco do parque
eu observo o indescritível
declínio da tarde
sobre o Guaíba

Aqui embaixo do eucalipto
o sangue escorrendo nas veias
os pés firmes na terra
eu acompanho o lento movimento
das águas e do planeta

Estou condenado ao continente
ao monótono traçado das ruas
à intromissão do tédio e do medo

Mas o rio é um caminho
onde a emoção navega
 
_________

Poema do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.
Lugar da photo: Veleiros do Sul, Porto Alegre.
 

segunda-feira, 25 de março de 2013

Recuerdo do rio Uruguai

Jorge Adelar Finatto

Rio Uruguai. photo: Wikipédia



 
 
A recordação mais antiga que eu tenho de um rio é do rio Uruguai. Por algum motivo que desconheço, meus avós - com quem vivia - foram morar na cidade de São Borja, na fronteira com a Argentina, quando eu tinha dois anos.
 
O rio Uruguai corria (e corre ainda) largo e murmurante em São Borja, mais unindo que separando o Brasil da Argentina.
 
Recordo que aquela foi a primeira vez que viajei de avião. Tenho a longínqua lembrança de olhar através de uma janela redonda. Estava no colo da avó.

Partimos da Serra para o ancestral território das Missões Jesuítico-Guaranis. São Borja foi um dos povos missioneiros. Moramos por lá cerca de dois anos e depois regressamos às montanhas.

Lembro-me muito vagamente de passeios ao rio, onde as pessoas faziam piqueniques e tomavam banho na praia. Na beira do Uruguai havia conchas e pedras, em meio à areia e vegetação. 
 
Luminosos dias missioneiros, ao menos para o menino que nada sabia de coisa nenhuma. Tenho uma foto de época vestindo pala, bota, chapéu e bombacha. Acho que foi a única vez na vida que usei indumentária de gaúcho (com muito garbo, diga-se de passagem...).

O tempo passa num doido galope.
 
Com os cacos da felicidade de um dia, a gente vai compondo um vaso de rara porcelana que, por falta de peças, nunca se completa. Mas o rio Uruguai está desenhado com sua cor, sua luz e seu som no mosaico daquele tempo feliz. 
 

sábado, 23 de março de 2013

Somos todos de uma distante galáxia

Jorge Adelar Finatto
 
Imagem da galáxia espiral NGC 1637, divulgada nesta semana.*


A idéia de que alguém na Islândia ou na galáxia espiral NGC 1637, a cerca de 35 milhões de anos-luz da Terra, na constelação do Rio Erídano, pode estar lendo estas linhas dá o que pensar. Revela também o poder da palavra na internet, capaz de estreitar distâncias, suavizar o tempo e mitigar solidões.

Se é verdade que somos todos estrangeiros neste inóspito universo, resta ao menos a esperança de encontrar pelo caminho pessoas para partilhar a vida, tornando a viagem menos árdua e solitária.

Escrever num blog, raro leitor, é como escrever em direção a uma nuvem de estrelas. Ninguém sabe no que vai dar. 

A palavra impressa passa o sentimento físico de permanência, ao contrário do ciberespaço, no qual domina a sensação de extrema fugacidade.

Estamos acostumados a pensar no papel como se nele a palavra estivesse a salvo do tempo, do desaparecimento.

Mas a impressão de perenidade é uma quimera.

A imensa maioria dos livros está condenada ao esquecimento por falta de leitores. Sobrevivem fisicamente nas estantes, mas é uma existência sem brilho. Na verdade, vivem no escuro. A luz não ilumina suas páginas fechadas.

Só está vivo o texto, virtual ou impresso, quando encontra um leitor que o acolhe e retira da escuridão.

O resto é poeira e sombra na biblioteca (ou na tela do computador).

O blog é uma esquina onde amigos invisíveis se encontram pra conversar. Um meio de comunicação aberto a todos, lugar de partilha, região de claridades.
 
Escrever na nuvem, portanto, é uma maneira de resistir. Uma ilusão quem sabe, mas ajuda a viver.

Estou falando essas coisas talvez porque é madrugada de sábado, faz muito frio lá fora e eu olho para o céu limpo deste início de outono, tentando descobrir uma janela aberta na NGC 1637.
_________________

*Imagem produzida e divulgada pelos astrônomos do Observatório Europeu do Sul, no norte do Chile, nessa 4ª feira, 20 de março.
 

sexta-feira, 22 de março de 2013

Série Retratos 14 (Outono, outonos)







____________________

photo: Jorge A. Finatto
Pedidos de reprodução podem ser feitos ao autor pelo e-mail
 

quinta-feira, 21 de março de 2013

O bandoneón de Jorge de la Brume

Jorge Adelar Finatto 
 
bandoneón. fonte: Wikipédia
 

No fundo da cegueira pode haver muita luz. Foi o que pensei enquanto ouvia Juan Niebla tocar Adiós, Nonino, de Piazzolla, no seu velho bandoneón argentino. Perguntei-lhe de onde vinha a afinidade com o instrumento.

Isso foi ontem, quarta-feira, primeiro dia do outono, chuvoso e gelado outono. Ficamos na mesa com vista para o Vale do Olhar, no Café da Ausência, que fica na estação de trem. Conversamos até o entardecer. Conversa regada a bule de café preto com pão torrado passado em geléias de laranja, framboesa, figo e uva.
 
Disse ele que três anos depois de tornar-se músico da cidade, por concurso público, e assumir o posto na estação de trem, recebeu um convite. A jovem e bela viúva Alberta de Montecalvino pediu que fosse com ela a Buenos Aires.

A Dama da Biblioteca queria companhia para visitar a capital portenha, onde tinha um encontro marcado com um certo senhor Jorge De La Brume, com quem se correspondia há alguns anos.
 
- Acontece - afirmou Niebla, acomodado dentro do grosso capote azul-marinho - acontece que a intimidade dos missivistas transbordou das cartas para a vida. Alberta e este senhor descobriram que havia entre eles um mundo de coisas em comum, que não se resumia ao interesse pelos livros.

- O senhor De La Brume, que era escritor, teve a iniciativa do encontro. Mas havia um entrementes. Ele era cego, não podia viajar sozinho até Passo dos Ausentes para conhecê-la.

Continuou Niebla:
 
- Ele tinha muita vontade de conhecer Passo dos Ausentes, a cidade do fim do mundo, de que já ouvira falar. Ficou interessadíssimo nas histórias que Alberta contava nas cartas. Chamou-lhe especialmente a atenção o caso dos espelhos espirituais. (Nossos espelhos não refletem a imagem da pessoa, mas sim seus sentimentos.)
 
- O ano era 1956. Tirei férias, pegamos o trem e iniciamos a longa viagem ferroviária que durou oito dias até Buenos Aires, com várias baldeações pelo caminho.

- Numa terça-feira, Alberta e eu fomos, enfim, ao apartamento onde o escritor residia na companhia da mãe, uma senhora mui gentil. Então conversamos muito, De La Brume e eu, conversa de cegos.

- Alberta ficou numa outra sala com a mãe dele. Ele era um homem afável, recitou alguns textos que tinha na memória. Coisas dele e de outros. Disse que lia e escrevia com os olhos da mãe e de amigos. Ouvia a leitura de livros e ditava seus textos.

- Aquela foi uma tarde inesquecível. Ele estava absolutamente fascinado com a história dos espelhos. Expliquei que era verdade, eu muitas vezes ficara diante do espelho olhando as imagens dos meus sentimentos, antes de perder a visão. Eram pinturas iridescentes. Um bosque, um córrego esperto entre árvores, pássaros, vultos esgueirando-se em corredores escuros, pessoas solitárias sentadas na praça, um banco vazio, um homem partindo, uma mulher chorando, uma boneca queimada. E muitas outras imagens indecifráveis.

- Jorge de La Brume ficou enlouquecido com aquilo.

- Antes de nos despedirmos naquele dia, La Brume presenteou-me com este bandoneón, dizendo que seria meu companheiro. "Este bandoneón é irmãos dos livros da minha biblioteca, mora lá com eles. Agora ele será teu irmão", falou.

- Pediu-me que tocasse alguma coisa. Foi o que fiz, improvisando Les chemins de l'amour, de Francis Poulenc, num arranjo inspirado por aquele encontro mágico. Acho que nunca toquei tão bem uma peça de Poulenc. Contou-me Alberta, depois, que, enquanto eu tocava, uma lágrima escorreu na face do escritor (apoiava as mãos sobre a bengala, sentado na poltrona bege de couro).

- Nos três dias seguintes, ele e Alberta saíram a caminhar pelas ruas da cidade, foram a cafés, bibliotecas, livrarias, bosques. Fizeram muitas coisas juntos naqueles poucos dias. Alberta era elegante, culta e discreta (como é até hoje). Eu passei as tardes com a mãe do escritor, ouvindo casos, histórias, e provando o delicioso chá que ela servia. Toquei algumas músicas também. 

- Jorge de La Brume e sua mãe fizeram questão de despedir-se de nós na estação de Buenos Aires. Lembro do cálido abraço que ele me deu. Uma tarde de outono muito fria como essa. Eu era jovem. Um cego emocionado com seu novo amigo e com o bandoneón.

_________________

Juan Niebla, 88 anos, é músico da estação de trem de Passo dos Ausentes desde 1940, ano em que ficou cego aos 15 anos. Vice-presidente da Sociedade Histórica, Geográfica, Antropológica, Astronômica, Geológica, Artística e Antropofágica.

Alberta de Montecalvino:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/07/alberta-de-montecalvino.html
A estação de Passo dos Ausentes:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/12/a-estacao-de-passo-dos-ausentes.html
Música na estação de trem:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/05/musica-na-estacao-de-trem.html
A claridade do coração:
 http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/04/claridade-do-coracao.html
Les chemins de L'amour, na voz de Véronique Gens:
http://www.youtube.com/watch?v=ex-IxBQndqM
 

quarta-feira, 20 de março de 2013

O show de Bibi e de sua plateia

Carlos Alberto de Souza
 
 
Bibi Ferreira. photo: Prêmio Claúdia Abril*

 
Sábado, dez e meia de uma noite fria para o verão que termina, entro no Bourbon Shopping para sacar um dinheirinho no caixa eletrônico. O sobrinho que me acompanha chama a atenção para a enorme fila de pessoas que, na calçada, sob neblina, esperam táxi.
De início, imagino tratar-se de um movimento normal de sábado, dia em que muita gente vai ao cinema nas várias salas do Bourbon e do Iguatemi, do outro lado da rua. À medida que avançamos dentro do shopping, dou-me conta que de dentro dele saem grupos de pessoas idosas, – mas não idosos de 60 anos, e sim de 80 pra cima - a maioria senhoras, bem arrumadas, que se dirigem para a rua.
Cai a ficha: é o público de Bibi Ferreira que foi assisti-la no teatro que funciona no local. Comento com Fernando, estudante de engenharia elétrica que acende sua curiosidade e quer saber quem é a cantora.

Começo por dizer, como que rendendo uma homenagem à artista, que ela tem 90 anos. Interpreta maravilhosamente bem, não só em português como em outros idiomas. Recentemente se apresentou no Lincoln Center, em Nova York, e, ano passado, deu uma entrevista ao Jô Soares que vale a pena ver, resumindo a sua vida durante o talk show.
O meu sobrinho, nos seus flamantes 22 anos, espanta-se com a faixa etária das pessoas que saíram de suas casas, numa noite nada convidativa, e deslocaram-se, sabe-se lá que distância, para assistir a um musical na zona norte de Porto Alegre.

Ao vê-las, a maioria mulheres acompanhadas de amigas, umas amparadas nas outras, ou nas suas “secretárias” ou cuidadoras (provavelmente, viúvas), todas elegantes e bem vestidas, pensei o quanto aquele programa mobilizou-as. Muitas certamente foram ao salão de beleza, escolheram a melhor roupa, aguardaram ansiosamente para assistir a talentosa e inquebrantável Bibi Ferreira.
Uma lição de vida diante de nossos olhos. Gente que não está em casa esperando a morte chegar. Está indo ao encontro da vida aonde ela estiver. Na volta do caixa eletrônico, entramos na fila do táxi e atrás de nós postou-se uma das senhoras com a sua acompanhante. Perguntamos como havia sido o show.
Seus olhos brilharam, o rosto se iluminou: “Maravilhoso”, disse ela, emendando logo em seguida, para caso não soubéssemos, que Bibi “está com 90 anos”. Essa também é, mais ou menos, sem medo de errar, a idade de nossa interlocutora. Reflito que, tal como Bibi no palco, ela, como todas as senhoras da plateia, merece aplausos e gritos de “bravo”. Ali, na calçada fria, restou fazer o gesto possível a uma verdadeira dama: dar-lhe a preferência para embarcar no táxi que finalmente chegara.
___________________

Carlos Alberto de Souza é jornalista em Porto Alegre.
smcsouza@uol.com.br

O show de Bibi realizou-se no Teatro do Bourbon Country, Porto Alegre, em 16 de março passado.
photo de Bibi Ferreira:
http://premioclaudia.abril.com.br/finalistas/bibi-ferreira/
 

segunda-feira, 18 de março de 2013

Jorge Luis Borges e a névoa do tempo

Jorge Adelar Finatto
 
photo: J.L.Borges. Fonte: Fundación Internacional JLB


Gradualmente, o aprazível universo o foi abandonando; uma insistente névoa apagou as linhas de sua mão, a noite se despovoou de estrelas, a terra era insegura sob seus pés. Tudo se afastava e se confundia. Quando soube que estava ficando cego, gritou; o pudor estóico ainda não fora inventado e Heitor podia fugir sem menoscabo. "Não verei mais (sentiu) nem o céu cheio de pavor mitológico nem este rosto que os anos vão transformar." ¹

Jorge Luis Borges


Buenos Aires, calle Tomás Manuel de Anchorena, 1660. Neste endereço está a Fundación Internacional Jorge Luis Borges.

Aqui se encontram objetos de uso pessoal e documentos que pertenceram a Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo, entre eles duas bengalas, manuscritos, fotografias, talismãs, medalhas, títulos, coisas curiosas como uma vestimenta de samurai, e livros, muitos livros, como as primeiras edições de suas obras, e publicações preciosas de outros escritores, entre elas Os Lusíadas, de Luís de Camões.

O lugar é silencioso. Os iniciados na obra de Borges vêm a esta casa numa peregrinação em busca da memória do mestre. Querem ver algum sinal, algum vestígio, saber se Borges de fato existiu ou se foi só um sonho sonhado pelo outro Borges, o fantasma que vaga pelos espelhos e bibliotecas.


photo: fachada da FIJLB (j.finatto)

Na escadaria da antiga casa, paira o seu retrato. A senhora que atende o visitante é atenciosa. Informa que no andar superior será montado, em breve, o quarto do autor de Fervor de Buenos Aires (1923), Historia Universal de la infamia (1935), Ficciones (1944), El Aleph (1949), Los Conjurados (1985), entre tantos textos. Neste espaço todos os detalhes passam pelo exame da guardiã da memória de Borges, María Kodama, viúva do escritor.

A fundação foi criada em 1988 e situa-se ao lado da casa 1670, na qual Borges viveu com sua família de 1938 a 1943. Nela escreveu Las ruinas circulares.

photo:j.finatto
 
A funcionária esclarece que o acervo muda de tempos em tempos. Conheceu Borges em palestras, não teve contato pessoal com ele. As peças às vezes viajam para exposições em outros países.

Pergunto-lhe se há livros do escritor e sobre ele para vender. Ela providencia alguns exemplares. A Fundação não faz comércio das obras como uma livraria comum, embora ofereça alguns títulos, dentro da finalidade de preservar o legado e a história de Borges. Há livros para casos de urgência, como o meu, que - devoto inconveniente na biblioteca do mosteiro - pretendo folheá-los, cheirá-los, acariciá-los, ler trechos, adquiri-los ali mesmo.


photo: fachada da casa onde viveram Borges e sua família (j.finatto)

Jorge Luis Borges nasceu em 24 de agosto de 1899, na casa 840 da calle Tucumán, na capital da Argentina, filho de Jorge Guillermo Borges, advogado e professor de psicologia, e de Leonor Acevedo. Morreu em 14 de junho de 1986 em Genebra, Suíça, onde está enterrado no cemitério de Plainpalais. No ano da morte, em 26 de abril, casou-se com María Kodama, cerca de trinta e cinco anos mais jovem que ele. Há muito tempo María o acompanhava, tendo auxiliado Borges na escrita, na leitura, na organização de seus trabalhos, em viagens.

Em 1956, por determinação médica, o escritor não pôde mais ler nem escrever. A nuvem da cegueira invadia sua existência. Uma ironia para quem passou a vida no meio dos livros e teve nas bibliotecas seu ambiente natural. O pai do escritor, Jorge Guillermo, ficou cego ainda mais jovem do que o filho, interrompendo uma sonhada carreira de escritor.

photo: j.finatto

Jorge Luis, porém, não desistiu da leitura nem da produção literária. Registrava na memória os poemas e textos. Depois os ditava para alguém chegado a ele. Da mesma forma passou a ouvir a leitura dos livros.

A espessa névoa não o impediu de construir uma obra única. Tornou-se um dos maiores escritores do século 20.

Um escritor raro, culto, dotado de humanismo e notáveis recursos técnicos.

Um homem, como todos, contraditório, com dificuldades de lidar com o mundo real.

As contradições levaram-no a não receber o Prêmio Nobel de Literatura. A mais importante distinção dada anualmente a um escritor é concedida levando em conta critérios não apenas de mérito literário como, e talvez principalmente, políticos. Borges foi recusado, na década de 1970, por sua simpatia, no momento inicial, pela ditadura argentina e pelo governo não menos ditatorial de Pinochet, no Chile.

Mais tarde revisou suas posições, reivindicou a volta ao estado democrático de direito, insurgiu-se diante da questão dos desaparecidos na ditadura, posicionou-se contra a Guerra das Malvinas.²

O tempo passou, o escritor foi capaz de rever conceitos, mas jamais receberia o Nobel. Esse foi um grave equívoco cometido pelo comitê que outorga a premiação. Tanto ou mais do que outros, Borges merecia o galardão.

Ele não apenas construiu uma importante obra literária como teceu para si uma biografia de escritor, mosaico de fatos cuidadosamente recolhidos do cotidiano e da imaginação. A invenção, mais do que a realidade, ocupa o centro do seu universo.

Ele sentia-se inglês, embora com nome de origem portuguesa. A avó paterna nasceu na Inglaterra. Por isso, aprendeu a ler primeiro em inglês e só depois em espanhol. A condição de argentino e latino-americano lhe doía, às vezes, pelo atraso cultural.

Borges teve o tempo necessário para fazer uma obra, tornando-se um escritor universal. Era alguém a quem as idéias de morte e suicídio visitavam com alguma freqüência.

Sempre buscou amparo e refúgio nos livros.

Identificado o câncer que lhe sobreveio já octogenário, negou-se ao tratamento convencional. Saiu da Argentina. Viveu os últimos tempos em Genebra, cidade de sua devoção, ao lado de María Kodama.

Passou por um constrangimento desnecessário ao postular, e não obter, por essa época, a nacionalidade suíça. Não tinha como preencher os requisitos, tais como 12 anos de residência continuada naquele país.

Morto, foi enterrado em Genebra... Não voltou para sua Buenos Aires.

Não há talvez muita esperança na obra de Borges. Mas há uma cálida compreensão do humano destino. Existem livros, bibliotecas, espelhos, claros e sombras num casarão povoado de memória e espectros.

Uma súbita manhã costuma emergir dos textos de Jorge Luis Borges.

Ele alcançou o maior reconhecimento que um escritor pode sonhar: sua obra continua lida e amada por sucessivas gerações.

Silenciosamente desesperado, escreveu as histórias do nosso mundo pequeno, no qual se movem criaturas feitas de sangue e névoa.
__________________

1. Trecho do texto O fazedor, do livro O Fazedor (El hacedor - 1960). Companhia das Letras, São Paulo, 2008. Tradução de Josely Vianna Baptista.
2.Informações extraídas do livro Jorge Luis Borges, El tejedor de sueños. Aguilar, Altea, Taurus, Alfaguara, 1a. ed., Buenos Aires, 2006.
Foto: J.L.Borges. Fonte: site da Fundación Internacional Jorge Luis Borges
http://www.fundacionborges.com/
Texto revisto, publicado em 22 de janeiro, 2010.

sábado, 16 de março de 2013

O acordo ortográfico fazendo água

Jorge Adelar Finatto

Dicionário Novo Aurélio, 1999. photo: j.finatto
 

O acordo ortográfico da língua portuguesa, firmado pelos países lusófonos em 1990, está no papel, está assinado, só tem um problema: os interessados não sabem o que fazer com ele...  A tentativa forçada de unificação da ortografia, depois de tanto tempo, ainda não é obrigatória.

A edição do Decreto 7.875, de 27/12/2012, postergou a obrigatoriedade das novas regras, no Brasil, para 1º de janeiro de 2016. Até lá, a norma ortográfica atual e a estabelecida no acordo coexistem legalmente.

O adiamento revela, no mínimo, desconfiança. E há razão para isso. Não tenho dúvida de que o acordo dificilmente se tornará obrigatório em Portugal. Por uma singela razão: não existe motivo relevante que justifique as alterações propostas.

Espero, no fundo, que o apego natural dos portugueses ao vernáculo rejeite mudanças sem sentido e que vêm apenas ao argumento de deixar tudo igual. Igual pra quê? Acaso o leitor do português deixará de entender o significado de algumas palavras só porque têm alguns cês a mais ou variação de acentuação? É claro que não.

Uma parte importante da intelectualidade portuguesa não quer saber do acordo, felizmente. As repercussões lá serão/seriam muito mais abrangentes do que no Brasil.

O acordo tem, a meu ver, vício de origem: pretende uniformizar, de cima para baixo, as normas ortográficas brasileira e portuguesa, desconsiderando a razão de ser das diferenças, como se isso fosse razoável. Não é.

Explicações culturais, sociológicas e históricas fazem com que a língua de Camões e Oswald de Andrade tenha particularidades no Brasil e em Portugal, sem que haja nisso desdouro. São diferenças que em nada comprometem o funcionamento e a clareza do idioma.

Podemos ler Fernando Pessoa, Saramago, Ruy Belo, Al Berto e Eugénio de Andrade no "original" português, sem qualquer dificuldade, do mesmo modo que os países da lusofonia lêem, sem problema, Drummond, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Mario Quintana e Heitor Saldanha no português do Brasil.

As peculiaridades ortográficas expressam riqueza, não empobrecimento. Empobrecer é reduzir a norma única, como quer o tal acordo.

No Brasil está muito bem o trema que indica que a pronúncia correta é lingüiça em vez de linguiça, freqüente em vez de frequente, e por aí vai. O acento agudo que nos faz dizer idéia e não idêia tem utilidade.

Qual o problema se, em Portugal, escrevem colectivo, direcção, acção, etc? Nenhum.

As diferenças respondem a realidades e modos de lidar com a língua que precisam ser respeitados.

Pretender unificar a grafia, neste caso, é como querer tornar igual o modo de ser das pessoas. 

O passo seguinte dos sedizentes donos do idioma será talvez homogeneizar as pronúncias e proibir a existência de palavras próprias de cada país. Afinal, quem disse que o absurdo tem limite?
 
No Brasil, houve a certeza de que o acordo fosse valer em definitivo, já que o Decreto nº 6.583, de 29/9/2008, fixou a data de 1º de janeiro de 2009 para a entrada em vigor da nova ortografia.

Mas tinha um porém: estabeleceu, também, um período de transição para sua implementação, tendo como data limite 31 de dezembro de 2012 (agora 31/12/2015). Nesse enquanto-isso, valeriam, como estão valendo, ambas as normas ortográficas.

Penso que na idéia de transição tão longa (depois de mais de 20 anos da assinatura) está subjacente uma desconfiança em relação à validade e plausibilidade do que foi feito.

Se fosse necessário, se fosse histórica e culturalmente justificável, já estaria em pleno vigor o acordo no mundo lusófono. Os fatos demonstram o contrário. 
 
Enfim, não chego ao ponto de dizer que deveríamos  pegar em armas por causa da extinção do trema e outras alterações, como defendem alguns companheiros de luta...

Mas que a coisa ficou muito estranha, não há a menor dúvida.

De tudo fica a lição de que o idioma não pertence a um grupo de iluminados.

A língua é do povo. Querer tornar igual o que, por natureza, é diferente (e não traz qualquer prejuízo) é uma insensatez e uma grande vaidade.

Aqui no blogue, como se vê, continuamos a escrever da forma como temos feito nas últimas décadas, sem remorso e com esperança de que o bom senso, afinal, prevaleça.
 

quinta-feira, 14 de março de 2013

Camané e a arte do fado


Jorge Adelar Finatto

Tu podes mentir
Às leis do teu coração
Mas ai quer queiras quer não
Tens de cumprir a tua sina

(Fado da Sina. Letra: Amadeu do Vale. Música: Jaime Mendes. Cd The art of Camané)


photo de Camané
O fado é o barco da vida a navegar sobre o mar dos sentimentos.
 
Quem não gosta do fado? Aquele que não suporta olhar para dentro de si mesmo. Aquele que sofre ao caminhar nas ruas cobertas pela névoa do tempo. Aquele que não consegue recordar a casa que ficou abandonada. Aquele que teve o coração ferido e se perdeu de tanta dor.

O fado é a revanche do amor sobre as geleiras da indiferença. Por isso se engana quem pensa que fado é só tristeza. É algo além. É alegria de flores nas janelas, um navio chegando no porto, mãos dadas no inverno da solidão, ternura antiga.

O fadista nos abre a porta da casa onde habitam as emoções que pensávamos perdidas para sempre.
 
Mas o fado é também muito mais do que isso. Universal desde que nasceu, tornou-se Patrimônio Imaterial da Humanidade, por decisão da Unesco, órgão cultural da ONU, em 2011.
 
E é, sobretudo, na voz dos jovens fadistas que esse grande legado de Portugal ao mundo se comunica às novas gerações.
 
Nascido em 1967, em Oeiras, Camané  (Carlos Manuel Moutinho Paiva dos Santos) é um dos principais nomes do fado hoje em Portugal. A reputação de fadista já ultrapassou as fronteiras de seu país, fazendo com que percorra muitas cidades do mundo levando sua arte.

Na voz de Camané e na sua interpretação sensível está revelada a alma de um povo.

O rio Tejo visto do Chiado. photo: j.finatto
 
Numa incursão pelo Chiado e Bairro Alto, adquiri o disco The art of Camané, the prince of fado, um trabalho precioso e representativo de sua arte.

A essência do fado está no canto de Camané, como está no da rainha Amália Rodrigues e de outros notáveis fadistas do passado e do presente.

Entre a Tasca do Chico e o café A Brasileira, o fado e a poesia das ruas de Lisboa nos ajudam a viver.
 
________________
 
Sei de um rio, na voz de Camané:

terça-feira, 12 de março de 2013

O livro na praça

Helena Jobim

 
Helena Jobim


Vim para Porto Alegre a convite, participar da Feira do Livro. E aqui estou, nessa terra generosa, terra de meu pai Jorge Jobim. Tornei-me filha de três cidades, e assim posso dizer que sou carioca, belo-horizontina (recebi o título com muita honra) e porto-alegrense. A Feira é uma beleza. Ocupa toda a Praça da Alfândega, onde grandes barracas brancas oferecem livros de todo o tipo. Algumas têm o teto transparente, e é muito bonito ver os jacarandás floridos enfeitarem os tetos com suas pétalas roxas.

Assim que cheguei à Feira, deparei-me com uma grande estátua do General Osório, montado a cavalo. No pedestal de pedra, uma inscrição gravada. Chamou-me muito a atenção. Tomei nota: "O dia mais feliz da minha vida seria aquele em que me dessem a notícia de que os povos civilizados comemorariam a sua confraternização queimando seus arsenais". Vem a calhar para a hora difícil que vivemos.

A Feira é uma grande festa invadindo a praça, com suas árvores antigas, gigantescas, de troncos retorcidos pelo tempo, verdadeiras esculturas. Essa paisagem, de largas sombras e bancos para descanso, sugere a leitura. O ambiente combina com reflexão e cultura. Sabiás e pardais cantam ocultos nas copas de folhagens espessas, como um pano de fundo construído de sons que nos remetem a dias felizes.

Esta é a 47ª Feira do Livro de Porto Alegre. Chegou o sol e o calor e havia tanta gente pelos largos corredores entre as barracas, que tínhamos de andar devagar, parando a cada instante para examinar os livros. Vontade de comprar tudo. Os homenageados desse evento estavam bem representados em bronze, lado a lado. Carlos Drummond de Andrade, de pé, segurando um livro como se o lesse. E bem junto dele, sentado, Mario Quintana olhava-o, absorto. Tirei retratos junto às estátuas desses dois grandes poetas, pensando em colocar depois as fotos enfeitando meu escritório.

E como foi proveitoso estar com artistas mexicanos! Escritores, roteiristas, editores. Chegavam em comitivas alegres e coloridas, representando o seu país, também homenageado este ano na Feira. Sons e imagens que nos aproximam definitivamente.

Depois de muito andar, palestrar (junto com meu amigo e poeta Jorge Finatto) e autografar "Recados da Lua", atravessei a rua e sentei-me no pequeno Café Antigo, dos anos 30, perfeitamente conservado. E nesse ambiente calmo, de frente para a praça, me dei conta de como é importante para mim o ofício de escrever.

Lá estava eu, testemunha deste importante evento, de lápis e papel na mão, registrando minhas impressões. Dentro de mim vibrava a grande festa do artista, irmanada com as pessoas mais simples que observava folheando livros de todos os tipos, de todas as cores. Poucas vezes na vida um escritor pode saborear tão de perto a avidez do leitor pelo livro, a ponto de me fazer esperançosa em prosseguir na luta com o papel em branco, na busca da sensibilidade, na entrega total aos meus leitores. E me lembro de novo de Cecília Meireles: "Eu canto porque o instante existe/ e a minha vida está completa./ Não sou alegre nem sou triste:/ sou poeta".

Quero hoje agradecer especialmente aos e-mails de Clara e Fred. Suas palavras ajudaram-me também a acreditar na palavra escrita, como forma de melhorar o mundo.

Para se pensar:

A vida era por um momento.
Não era dada. Era emprestada.
Tudo é testamento.

Antonio Carlos Jobim


_________

Helena Jobim é escritora, autora, entre outros, de Antonio Carlos Jobim, Um Homem Iluminado (Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1996), Trilogia do Assombro (Editora Nova Fronteira, 1998) e Pressinto os Anjos que Me Perseguem (Editora Record, Rio de Janeiro, 2000).

Esta crônica foi escrita por Helena durante sua passagem por Porto Alegre, na Feira do Livro de 2001. Agradeço à querida escritora e amiga a autorização para publicação do texto.

Fotos: 1) Helena Jobim. Fonte: livro Antonio Carlos Jobim, Um Homem Iluminado. 2) Helena e o irmão Tom Jobim em 1945. Fonte: site oficial do Instituto Antonio Carlos Jobim: http://www.jobim.org/
Texto publicado no blog em 11 de abril, 2011.