quarta-feira, 22 de maio de 2013

Um fantasma lê Mallarmé

Jorge Adelar Finatto
 
photo: Stéphane Mallarmé


A carne é triste, sim, e eu li todos os livros.*
Stéphane Mallarmé
 
Uma certa invisibilidade costuma andar comigo. De tal modo passo sem ser percebido, como um fantasma. Em ambientes com bastantes pessoas essa característica mais se acentua. Costumo ser um fantasma discreto, do tipo que não se dá na vista e não assusta ninguém. Desses que não derrubam coisas dentro de casa nem fazem barulho nos quartos vazios nem conversam nas escadas e corredores quando todos dormem alta noite.
 
Existem fantasmas absolutamente exibidos e inconvenientes. Dão-se a conhecer sem a menor cerimônia, com efeitos especiais de sons, luzes, névoas. Esses perdem rápido a credibilidade. Ora, nem sempre estamos dispostos a ver e muito menos receber um desses estranhos visitantes.
 
Heitor dos Crepúsculos, o jovem poeta suicida que se jogou do Penedo da Saudade, no alto do penhasco, aos 27 anos, em 1953, é um volátil bastante habitual em Passo dos Ausentes. Ele não incomoda ninguém. Pelo contrário, sua presença é reservada como um segredo. Agora, por exemplo, ele está aqui no escritório comigo, sentado na poltrona, enrolado no capote preto, manta lilás, a perna direita largada sobre o braço do assento. A negra cabeleira escorre-lhe até os ombros.
 
Traz nas mãos um volume de poemas que pegou na estante. Trata-se de um livro do poeta francês Stéphane Mallarmé (1842 - 1898). Nele se lêem versos de fina, inusitada e bela construção. O homem foi um artesão caprichoso e trabalhador.

Mallarmé criou maneiras diversas de dizer velhas coisas, modos que se prolongam como ecos no fazer poético dos que vieram depois:

nessas paragens
                               do vago
                                               onde toda realidade se dissolve**
 
O meu silencioso visitante passa a tarde lendo os poemas de Mallarmé. É tranqüilo, não atrapalha em nada o meu trabalho. E, pensando bem, é boa companhia nessa tarde longa, austera e fria de outono nos Campos de Cima do Esquecimento.

Quando volto ao escritório, depois da pausa para o café passado no bule e as roscas de polvilho, ele não está mais. Deixou o livro sobre a mesa com um evanescente bilhete:
 
Não importa a tempestade na montanha ou o silêncio da gruta perdida, o claustro onde vivo. Viver a cada instante sempre é a última oportunidade. Eu só descobri depois de voar sobre o penhasco.                                                                                                                      Heitor

Viajo pelo cosmos nesses 50 metros quadrados de quinquilharias, livros, plantas, pássaros no entorno, a perscrutar o silêncio que esconde e prenuncia a revelação, no correr das fontes subterrâneas, enquanto passo/passamos e não quero que a luz do sol se apague em volta do mundo. Trabalho pela dissolução da treva, espero amanhecer nos corações.
  
_________________
 
Mallarmé. Estudo crítico, apresentação da obra e poemas traduzidos por Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos. Editora Perspectiva, São Paulo, 2010.
*O verso em epígrafe é o primeiro do poema Brisa Marinha.
** Verso do poema Um lance de dados jamais abolirá o acaso.
Escritores fantasmas reúnem-se em Passo dos Ausentes:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/03/encontro-reune-escritores-fantasmas-em.html
 

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Racismo à brasileira

Jorge Adelar Finatto 
 
Chico Buarque
 
Nós não somos brancos. O nosso valor é a miscigenação. 
Chico Buarque de Holanda
 
Um dos mitos da civilização brasileira é o da democracia racial. Embora a miscigenação faça parte da nossa formação, a igualdade de tratamento está longe de ser uma realidade, ainda que formalmente assegurada no ordenamento jurídico.

Chico Buarque de Holanda revelou que a família de sua filha (casada com o músico negro Carlinhos Brown, com o qual tem filhos, netos de Chico) foi alvo de discriminação no condomínio onde tinham apartamento, no Rio de Janeiro. Por essa razão, saíram de lá. Em lúcido depoimento, Chico Buarque falou sobre o problema do racismo no Brasil (o vídeo está no youtube).

O preconceito de cor é tratado por muitos como algo inexistente ou vago. Mas a negação não resiste às evidências. Se os netos do grande Chico Buarque enfrentam esse problema, o que dizer dos outros milhões e milhões de brasileiros de ascendência africana espalhados por este país-continente? 
 
Há um "defeito de cor" que impregna as relações sociais no Brasil.

Para além da hipocrisia, o fato é que a pele negra ainda é discriminada. Existem avanços em função das lutas por igualdade, mas o caminho é difícil. 

A ironia nessa história é que somos um país essencialmente mestiço. Os racistas brasileiros não têm espelho em casa. E se têm não enxergam a própria imagem. Somos uma mistura de sangue negro, índio e de tantos outros sangues que por aqui chegaram a partir do século XVI.

Dificilmente haverá família, no Brasil, que não tenha origem na miscigenação. Os racistas daqui são ridículos e delirantes na sua fabulação arianista. Não sabem, muitos por ignorância e outros por má consciência, que desprezam o que há de melhor em si mesmos, ao negar a sua/nossa natureza misturada.
    
Como o preconceito não passa recibo (até porque racismo é crime no Brasil), ele é na maior parte das vezes dissimulado, escamoteado, esconde-se nas reticências, nas evasivas, nas entrelinhas, no cinismo, na rejeição tácita, no silêncio cúmplice.
 
A "raça" humana é uma só. As diferenças físicas, culturais, religiosas, etc., fazem parte da unidade universal que é o ser humano. Já é tempo de reverem-se conceitos ditos científicos a respeito de "raças". As diferenças tendem a mitigar-se com a união cada vez maior entre pessoas de origens diversas.

Prefiro falar, ao invés de raça, em origens étnicas, que compreendem caracteres físicos e culturais.
 
O Brasil ainda será uma democracia racial. Acredito que a maioria da nossa população anseia por isso. O cerco cada vez maior à hipocrisia com ações afirmativas - como a das cotas nas universidades para afrodescendentes e índios - nos dá essa esperança.
 
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Uma decisão para reescrever o Brasil:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/04/uma-decisao-para-reescrever-o-brasil.html
O escravo e sinhá:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/03/o-escravo-e-sinha.html
O crédito da foto será dado assim que conhecido o autor. 

sábado, 18 de maio de 2013

Escrever em língua portuguesa

Jorge Adelar Finatto

photo: Fernando Pessoa
fonte: Casa Fernando Pessoa*
 

 
Um escritor disse que a língua portuguesa tem pouco alcance, é entendida por um número reduzido de leitores no planeta. Lamentou que estamos muito longe da realidade de quem escreve em inglês. Ficamos circunscritos aos países que têm o idioma de Fernando Pessoa como língua oficial, além de antigos enclaves portugueses como Goa e Macau.

Pois eu não sofro essa angústia. As minhas inquietações de escritor amador - no duplo sentido de quem ama o que faz e não sobrevive deste fazer - são mais modestas. Não me tira o sono a maior ou menor influência de escritores de dicção portuguesa no mundo. Não faço, aliás, distinção entre autores a partir do idioma em que escrevem ou da nacionalidade, mas a partir do sentido de suas palavras.

O português é a nossa língua do coração. É através dela que expressamos nosso ser no mundo. É um prazer imenso falar, ler e escrever na língua de Camões, João Guimarães Rosa, Cartola, dona Maria Antônia da floricultura.

Estou mais preocupado com o fato de viver num país com quase 200 milhões de almas e que tem tão poucos leitores. Me entristece não ser lido por pessoas que falam a minha língua e que moram na mesma rua que eu, no mesmo bairro, na mesma cidade e até no mesmo edifício.

A questão que me toca diz respeito à pouca participação, na vida cultural, das populações dos países de expressão portuguesa, fruto do atraso que também atende pelo nome de injustiça social nesses lugares.
 
Claro que gostaria de ser lido em Paris, Tóquio e Londres, mas já estou me preparando para não ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. A menos que haja uma revolução no mundo das letras, a começar pela descoberta, por parte de meus vizinhos, de que eu escrevo.

Tudo leva a crer que continuarei desconhecido no meu próprio idioma. (Mas se daqui a cinco minutos, ou três mil anos, alguém se debruçar sobre estas linhas, acho terá valido a pena.)

No fundo, no fundo, penso que livros e autores, como todo o resto, estão votados ao esquecimento, com raríssimas exceções. Mas ninguém deve desanimar por isso.

A língua portuguesa e seus escritores têm um lugar no mundo. Esse lugar será tanto mais importante quanto maior for nossa capacidade de formar cidadãos e leitores em nossas sofridas nações.
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Site da Casa Fernando Pessoa (Portugal):
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/index.php?id=2233
Texto revisto, publicado antes em 6 de junho, 2011. 

quinta-feira, 16 de maio de 2013

A sombra da esfinge

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto
 

Como ele nunca teve pai para amar, sempre lhe pareceu que a coisa mais em falta no mundo não é dinheiro nem qualquer outro bem, mas um abraço de pai.

Quando menino, era difícil explicar aquela ausência para os outros. Na rua e na escola, as pessoas botavam olho, cara de admiração. Não ter pai era mesmo que não ter um braço ou uma perna.

A sombra da esfinge o perseguiu nos dias dos pais, aniversários, natais, páscoas, reuniões da escola, fins de semana, noites e dias sem fim. A falta projetou-se nos sonhos e pesadelos do menino.

O tempo passou. Um dia ele descobriu que outras casas também não tinham a figura misteriosa. Só que muita gente escondia isso. Estranho: escondiam um ser que não existia. Ocultavam o mito. Alguns possuíam apenas uma deprimente imagem de homem no sofá da sala.

Os sem-pai já não eram exceção. Talvez fossem maioria.

Ficou nele a idéia de que as mulheres, e não os homens, faziam o mundo funcionar.

Na verdade não era um consolo, mas a consciência de uma espécie de mutilação. Sempre faltava um pedaço.

A humanidade é toda seqüelada, ele pensa, enquanto caminha com o filho pela mão na praça do bairro, domingo à tarde. Pra ele agora todo dia é dia dos pais.
 

terça-feira, 14 de maio de 2013

Os fascistas

Jorge Adelar Finatto
 
 
photo: j.finatto



Os fascistas
escolhem sempre
as prisões
à benignidade do sol

mas os poetas
continuarão
violando
as sombras


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Do livro O Habitante da Bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.
 

segunda-feira, 13 de maio de 2013

As intermitências da primavera

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


O amor - ou esse sentimento que aproxima pessoas solitárias e desamparadas como ele - inaugurou datas no calendário, pintou de lilás e rosa o coração.

O amor tocou músicas no som do carro e do apartamento. O amor pintou de azul e amarelo as flores do vaso da sala. O amor tornou-o uma pessoa melhor para si e para os outros.
 
Um dia, talvez, ela, que gostava tanto de gatos, regressará da nuvem onde foi habitar. Virá buscá-lo, como sempre fazia, para irem juntos ao cinema, ao café, à livraria, ao Parque Harmonia ver o pôr-do-sol na beira do Guaíba.
 
Ela foi o único ser humano que conseguiu resgatá-lo da remota ilha. Morreu há três anos de uma doença que não vale a pena lembrar, foi embora depois de sorrir e dizer que ele não devia se preocupar, tudo ia dar certo. Perdeu-a pouco antes de irem morar juntos.
 
Sente-se um morto-vivo sem aquela que o salvou da solidão de náufrago.  Ela foi a sua primavera.

Uma colega de trabalho disse-lhe que ele é muito certinho. A vida, não.
 
O fato é que, um dia, ele sonhou ser feliz para sempre. Mas a realidade disse que para sempre é tempo demais.
 
A família que, no passado, foi unida, agora vive dividida, os irmãos quase não se convivem.
 
A mãe, que em vida tecera com dedos de fada os frágeis laços do afeto familiar, também morreu antes do tempo. Ninguém a substituiu na rara arte de evitar e, sobretudo, de colar os cacos. Os cristais se partiram.
 
Ele voltou a viver no ermo distante da ilha. Tornou-se um estrangeiro em sua própria cidade. Os antigos amigos transformaram-se em conhecidos, foram casando, criando filhos, separando, mudando de rua, de bairro, cidade, país.

O seu mundo reduziu-se ao apartamento, ao trabalho, às idas ao mercado, às leituras, a uma eventual saída aos sábados e às impiedosas tardes e noites de domingo.
 
Teve poucos relacionamentos depois, coisas entediantes, sem nenhuma importância. Não consegue fazer o tipo leve, desses à vontade no mundo. Gosta de pensar, procurar sentidos. E não os encontra.
 
Sexo de ocasião nunca foi pra ele. Tem receio das pequenas e insignificantes memórias que o invadem, quando a dona delas vai embora. O que para muitos é pura diversão, para ele é vertigem. Se ao menos não sentisse as coisas.

O lugar onde vive - a longínqua ilha - só não é uma tapera porque a velha empregada da família aparece duas vezes por semana, dá um ar doméstico ao tugúrio. Os únicos seres vivos ali, além dele, são as hortênsias que cultiva na sala, em dois vasos, um em cada lado da janela.
 
As hortênsias acendem as manhãs de verão, iluminam a casa.
 
A janela é o ponto de referência dele no planeta.
 
Dali pode ver a praça e as pessoas nela, as árvores e a rua, o céu, os outros edifícios.
 
De qualquer parte do universo um observador pode tê-lo como objeto de estudos. Todos os dias, no fim da tarde, está na janela tomando chimarrão. Só.
 
No fundo, nunca a perdoou por tê-lo abandonado no mundo.
 
O medo de amar afeiçoou-se a ele como as heras num túmulo de cemitério do interior.
 
A solidão o faz acariciar o gato invisível, na frente da televisão, até adormecer.
 
Se fez acompanhamento psiquiátrico para esse viver tão desolado? Sim. Mas continua o mesmo homem enclausurado, estranho a si mesmo, sem saber o que fazer com as mãos quando está sozinho.

O outono chegou com um cesto florido de lembranças dela. Vive de memória.
 
Os dias chuvosos, frios, deixam as pessoas entocadas em casa.
 
A praça está vazia agora. Recorda-se dos dias em que caminhavam juntos ali.

A ausência da primavera faz o coração girar louco na ventania.
 
Se ao menos tivesse um gato de verdade.

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Texto revisto, publicado originalmente em 17 de fevereiro, 2010.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Travessia da névoa

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


Estou só e escrevo para minha alegria.*
                                               Matsuo Bashô (Japão, 1644 - 1694).
 
Vinha pensando nesse verso de Bashô enquanto ia pra casa, no fim da tarde de outono. Atravessei a ponte no meio da névoa fria, um leve vento nas folhas.

A vida é encontro, mas é também uma constante despedida. Dos outros e de nós mesmos.

O tempo foge a galope, vamos sumindo na bruma.

Alguém notará a minha ausência quando não estiver mais na paisagem de outono? Quando não estiver mais em paisagem alguma? Quem estenderá a mão quando chegar do outro lado da ponte?

Vinha eu pela ponte, pensando esse difícil pensar.

Trazia o calepino e o lápis no alforje. No coração, essas ruminações em torno do inefável.

Mas não é propriamente de solidão que a travessia da névoa fala. Não é bem disso que ela trata.

Há um caminho a percorrer no ermo, ela diz.

O que a ponte espera de nós é o gesto da passagem. O passo corajoso e humilde.

Um movimento além do medo. 

Os poetas constroem pontes através da névoa.

A palavra abre a picada na mata densa e escura. E por ali vamos, colonos do território despovoado, catando o farelo de beleza e mistério.
 
O vento leve toca o sino de bambu.
 
O visível e palpável é apenas um vestígio. Imenso é o que não se vê nem se toca.

Tem dias que habitamos a tapera. Tem dias que brilhamos ao sol.

Por isso gosto dos caminhos do outono, por isso me dei a travessia.

Gosto dessas horas de distância e dispersão.

Escuto a conversa do pássaro no galho invisível.

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*O Gosto Solitário do Orvalho. Matsuo Bashô. Antologia poética. Versões de Jorge de Sousa Braga. Editora Assírio e Alvim, Lisboa, 1986.
O peixe da boca vermelha:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/08/o-peixe-da-boca-vermelha.html
 

terça-feira, 7 de maio de 2013

A casa do anjo

Jorge Adelar Finatto
 

photo: j.finatto. Colonia del Sacramento. Uruguai
 

Antes de começar a chover esta noite, arredaram uns móveis bem pesados lá no céu. Um barulho espesso e arrastado de trovões me fez pensar que era a mudança de um anjo.

Um anjo bom e humano com invisíveis asas de plumas perfumadas, levando com ele seu chapéu, suas estantes de livros, sua bicicleta e outros objetos pessoais.

Um anjo, quando se muda, deve ter muita coisa pra carregar: cartapácios com registros e fotografias de quem ele protege, cadernos de milagres, álbuns de recordações de pessoas que acompanhou um dia, armário onde guarda instrumentos do ofício, um piano, aquarelas com os campos do Senhor.

As roupas e as botas do anjo devem ser brancas como nuvem.

Gostava que o meu anjo da guarda viesse morar mais perto de mim.

Meu coração anda necessitado de amigo com sabedoria e consolação. Ele podia até ficar morando aqui em casa. Quando quisesse olhar o mundo pra ver como vão as coisas, podia subir no telhado e ficar perto da chaminé, lugar calmo e iluminado, de onde se tem uma boa vista.

O meu anjo da guarda. Há de expulsar a solidão que toma assento na sala. E nunca mais nenhum mal vai me acontecer.

Quando de noite o medo se acercar de mim, o anjo me dará sua mão forte. Então eu dormirei como um menino. E vou sonhar outra vez.

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Texto revisto, publicado originalmente em 10 de dezembro, 2010.
 

segunda-feira, 6 de maio de 2013

O amor

 
 
photo: j.finatto



O amor suporta todas as coisas, acredita todas as coisas, espera todas as coisas, persevera em todas as coisas. O amor nunca falha.

                    
                                              1 Coríntios 13:7,8
 

sábado, 4 de maio de 2013

A vida breve dos pássaros

Jorge Adelar Finatto

Saíra-preciosa (Tangara preciosa) photo: j.finatto
 
A observação das aves e das nuvens é uma das atividades que mais me cativam. Nesse sábado, raro leitor, vamos falar sobre eles, os pássaros.

Todos os dias eles vêm à sacada do escritório comer as frutas que lhes sirvo. Às vezes reúnem-se vários ao mesmo tempo nos galhos das árvores que quase encostam na casa. Em seguida, vão aos potes. Nunca contei, mas são dezenas durante o dia.

De vez em quando, tenho de repor as porções. No entorno, há árvores frutíferas que também fornecem alimento para eles.


Sanhaço-cinza (Thraupis sayaca) photo: j.finatto

As aves que visitam os potes no escritório preferem a banana. Não há entre elas uma só que não goste. Apreciam também mamão, maçã, cáqui, laranja, figo, melão, etc. Mas banana tem que ter sempre e é a que mais sai.

Ter pássaros por perto é um encanto. A observação cotidiana desses seres é fonte de lições e inspiração. Por exemplo, aprendi que eles são felizes ao natural. Vivem com o que tem e sentem-se bem assim. Não querem mais do que a natureza lhes oferece. Existem. A vida é breve. Ponto.

Saí-azul fêmea (Dacnis cayana) photo: j.finatto

Não permitem que a metafísica e as encucações lhes roubem instantes preciosos.

A vida, para os pássaros, é bela demais para se perder com preocupações menores, raivas, angústias desnecessárias, invejas, ruminações sem sentido.

Pouco antes de amanhecer, eles soltam os primeiros gorjeios. Ao clarear, vão-se ao mundo. De ramo em ramo, de flor em flor, de fonte em fonte, de céu em céu, cuidam de viver.

Bem-te-vi (Pitangus sulphuratus) photo: jfinatto

Pode ser que tenham lá seus momentos de reflexão em torno da finitude do ser, da consumação do tempo, da origem e da finalidade da existência. Mas isso não deve durar mais que o  breve momento de descanso num galho, no intervalo do vôo.

Saí-azul macho photo: j.finatto

Os pássaros tratam de viver, ao contrário de nós, ocupados demais com a morte.

Eu bem que tentei olhar a vida como eles, mas ainda não consegui. Talvez porque me faltam asas.

Saíra preciosa photo: j.finatto

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Identificação das aves: Clube de Observadores de Aves de Porto Alegre, ao qual agradeço.
 

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O cavaleiro invisível

Jorge Adelar Finatto


Dom Quixote e Sancho Pança, por Gustave Doré (1832 - 1883)


Um homem só, caseiro, beirando os cinqüentanos, cansado da vida pequena e vazia na qual nada acontece, resolve ir ao mundo em busca de aventura, justiça e amor.

A vida que vive não é a venturosa vida dos livros, é outra, enfadonha e triste. O melancólico senhor, habitante da região de La Mancha, na Espanha, mergulhou nas histórias de cavalaria, a elas dedicou seu tempo e sua alma, de tal modo que esqueceu o mundo real.

Vendeu até mesmo parte de suas terras, que não eram tantas, para comprar volumes e mais volumes de livros de cavaleiros andantes.

O valoroso fidalgo, de modestas posses, alto e seco de carnes, revolta-se: é preciso espelhar o sonho na realidade, plantar uma flor no solo ressequido da realidade.

Alonso Quijano vai ao mundo à procura daquilo que mudará o imóvel destino, quer reviver em si as lendas da cavalaria, e tecer outras, delas extraindo glória, reconhecimeno e o amor de sua amada, a não menos inventada Dulcineia del Toboso.

O que nos diz o Quixote é que a vida cotidiana é insuficiente. Falta vida à vidinha.


Dom Quixote, por Gustave Doré

A figura imortal criada por Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1615)¹ é o resumo da alma humana em suas maravilhas, esperanças, desesperos, contradições e tragédias.

O Cavaleiro da Triste Figura saiu pelas estradas poeirentas e bosques da Espanha para resgatar os oprimidos, dar ânimo aos infelizes, levantar os desvalidos, socorrer os caídos, lutar contra todas as injustiças, e para salvar a si mesmo.

Montado no magro Rocinante ele vai, armado cavaleiro andante, com escudo, espada e lança, tendo por companheiro Sancho Pança, meio louco e meio sensato como o amo, montado em seu jumento.

A vida tal como é não basta. É necessário inventar outra, erguer a aurora da escuridão. É preciso viver intensamente os dias que passam velozes e irrecuperáveis.

Viver com a urgência de quem se despede. Viver como quem morre. 

"Eu, Sancho, nasci para viver morrendo."²

Ninguém no mundo terá jamais autoridade para censurar Dom Alonso pelo desvario e fracasso da louca odisséia. Só os secos de espírito o fariam.

Não será essa busca o anelo secreto que habita o coração de tantos homens e mulheres na difícil jornada através do mundo hostil e trevoso, sonhando e lutando por uma outra existência, que faça valer a pena ter nascido?

Há talvez um Dom Quixote adormecido e invisível em cada um de nós, à espreita da hora da rebeldia.

"Cada qual é artífice de sua ventura"³, ensinou-nos o Quixote.

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¹ Dom Quixote de la Mancha. Miguel de Cervantes Saavedra. Edição ilustrada por Gustave Doré, três volumes. Tradução de Almir de Andrade e Milton Amado. Ediouro Publicações S.A, Rio de Janeiro, 2002.
² idem, terceiro volume, p.307.
³ idem, ibidem, p. 379.
Fonte das ilustrações: Wikipédia.Texto revisto, originalmente publicado em 14 de julho, 2012.

terça-feira, 30 de abril de 2013

A vida vale um caco

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto

Existe beleza nos cacos de uma xícara quebrada, agora eu sei.

Juntei os restos de louça espalhados no chão do escritório, acondicionei-os em folhas de jornal, preparei o material para descartar no lixo seco. Desci, coloquei tudo no recipiente próprio. Depois subi a escada Santos Dumont e voltei ao trabalho.
Enquanto labutava, percebi num canto da sala uma reminiscência da xícara em forma de lasca colorida.

As cores e o formato daquele caco me chamaram a atenção. Eu descobri que havia beleza naquilo. Fui em seguida até o lixo e resgatei os outros pedaços.

photo: j.finatto
O objeto xícara havia se partido acidentalmente ao cair no chão. Deu origem a vários outros miniobjetos com formas, cores e volumes próprios.

No ato trágico de morrer da xícara-mãe, os fragmentos renasceram individualmente, dando inicio a novas "vidas". No ato de nascer, receberam a marca intransferível da solidão que caracteriza as coisas e os seres deste mundo.

Sei, por experiência de quem é astrônomo do farelo e observador de miudezas, que não existem outras lascas iguais a essas.

photo: j.finatto


São entes novos no universo. Estão aí com sua intransferível verdade, têm uma face própria, uma maneira de ser, uma sombra, ocupam um certo espaço, a claridade os ilumina todos as manhãs, existem.
A asa da xícara ficou incólume, contudo não é mais uma asa. Aderente à superfície convexa, lembra mais uma orelha.

Um orelha que escuta talvez a voz de uma boca ausente, de uma canção impossível.

Libertou-se, a asa, da antiga e rígida situação funcional. Ninguém mais poderá tratá-la ou esperar dela que se comporte como se singela asa fosse. É uma nova entidade, um corpo mutante com uma estética particular. Perdeu a natureza acessória com que veio à existência.

photo: j.finatto

De certo modo, os fragmentos estão mais vivos do que quando formavam um todo orgânico e fechado. Aproveitaram a chance, gozam agora de uma liberdade que antes não conheciam.

O que aconteceu com os cacos foi um reviver após a morte súbita da mãe-xícara. Estão agora soltos no mundo, rebentos recém paridos, cada um a seu jeito. Como todos os seres, correm riscos e o futuro lhes é incerto. O preço de estar vivo.
Olho os restos no canto da escrivaninha. São parecidos com tudo que é vivente. Aprenderam na pele que, às vezes, cair um baita tombo, bater com a cara no chão, ficar reduzido a estilhaços, pode ser o caminho para um novo, jamais imaginado, belo e colorido recomeço.

domingo, 28 de abril de 2013

Maestro Antonio Brasileiro, entre o Guaíba e Ipanema

Jorge Adelar Finatto
 

photo: Tom Jobim

Tom Jobim (1927 - 1994). Músico, compositor genial, cidadão do mundo. Amante das palavras, amigo das pessoas, dos bichos, das plantas. Deixou um legado de superação, amor à vida e à música.
 
Quando ouvimos a música de Jobim, quando lemos seu verso e sua prosa, estamos mais perto de algo parecido com felicidade.
 
O que pouca gente sabe é que o maestro era filho de um gaúcho de São Gabriel, Jorge Jobim, e que por pouco não nasceu em Porto Alegre.


O coração do homem que nunca mais voltará resiste em silêncio. O navio avança nas águas do Guaíba em direção à Lagoa dos Patos. Jorge Jobim perde de vista o contorno de Porto Alegre.

A figura melancólica recorta-se na memória da tarde de inverno. O grande mar de água doce (Mar de Dentro) remete Porto Alegre ao Atlântico. O Rio de Janeiro é o destino onde irá concluir o curso de Direito.

O tempo voa longe. No dia do futuro, alguém abre a gaveta. A claridade ilumina velhos papéis de Jorge Jobim. Eis ali o poeta e sua palavra.
 
photo: j.finatto. cais antigo de Porto Alegre

Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim nasceu em 25 de janeiro de 1927, no Rio de Janeiro, filho de Nilza Brasileiro de Almeida, carioca, professora, e de Jorge de Oliveira Jobim, gaúcho de São Gabriel, bacharel em Direito que teve passagem pela carreira diplomática. O casal se conheceu e casou em Porto Alegre, onde o pai de Nilza, Azor, servia como capitão do exército.

Por pouco o menino Tom não veio ao mundo na capital do Rio Grande do Sul. A família regressou antes para o Rio.

O desejo de Nilza era morar perto de seus familiares. Isso fez com que o jovem casal não ficasse no sul. No meio materno foi criado Tom-Tom, apelido dado pela única irmã, Helena Jobim.

O guri criou-se entre as montanhas e o mar do Rio de Janeiro. Os longos passeios pela mata e pela praia, as pescarias, o contato com bichos e plantas fizeram nascer o interesse e a estima pelas coisas da natureza. Tornou-se não apenas profundo conhecedor como defensor do meio ambiente.

Antonio Carlos teve que reinventar o pai, que perdeu aos oito anos. Acariciou suas mãos ausentes ao piano (alugado pela mãe), nas antigas manhãs da casa de Ipanema.

O piano cantou a canção paterna: a nostalgia do sul, a saudade da família, dos amigos, do amor que se perdeu.

Era preciso calar o esquecimento.
 
Entre os professores de música que o maestro teve, está o alemão naturalizado brasileiro Hans-Joachim Koellreutter, que lhe ensinou a transposição das fronteiras que separam a música erudita da popular. Alguns mestres o inspiraram: Debussy, Bach, Stravinsky, Villa-Lobos.

Jorge Jobim e os filhos Antonio Carlos e Helena.
Fonte: Arquivo Jobim Music 
 
Amoroso das palavras, Tom Jobim foi um leitor dedicado. Cultivou, entre tantos, João Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade. Nas letras e textos que escreveu, percebe-se o artesão meticuloso do verbo.

A obra de Tom Jobim constrói-se na esfera da genialidade, unindo palavra e melodia. Soube como poucos aliar talento a muito trabalho. As composições que nos legou transcendem as ensolaradas cercanias de Ipanema: são patrimônio espiritual da humanidade.

Águas de março, Garota de Ipanema, Lígia, Dindi, Samba de uma nota só, Chovendo na roseira e Samba do avião são algumas das inesquecíveis canções que integram a sua produção.

Um dos criadores da Bossa Nova, o maestro foi também um dos principais nomes da música mundial no século XX.

A descoberta da obra jobiniana nos leva a um mundo de delicadezas, antecipa-nos a maravilha. 

Antonio Brasileiro parece dizer-nos que um dia encontraremos o amor. E que aqui poderá ser outra vez o paraíso, se a natureza não virar jardim calcinado, se nos tratarmos como irmãos nesse planeta cada vez mais frágil e pequeno.

 
A vida era por um momento.
Não era dada. Era emprestada.
Tudo é testamento.
                                          Antonio Carlos Jobim*

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Foto: Antonio Carlos Jobim. Fonte: Acervo do Instituto Antonio Carlos Jobim: http://www.jobim.org
Texto publicado originalmente no blog em 05 de junho, 2010.
*Palavras finais de ACJ na apresentação do disco Urubu, 1976.
Leia texto de Helena Jobim, irmã de Tom:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com/2011/04/o-livro-na-praca.html
 

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Zeca Afonso

Jorge Adelar Finatto

 


Grândola, vila morena
terra da fraternidade
o povo é quem mais ordena
dentro de ti, ó cidade*

Uma tarde de inverno europeu em 2002, de passagem por Coimbra, onde estava para conversar com estudantes da Faculdade de Letras, ouvia a chuva bater na janela do quarto do Hotel Botânico. Meu espírito andava às voltas com António Nobre, Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Eugénio de Andrade e o Mondego, esse rio que me traz saudades do Guaíba.

Em Porto Alegre, o Guaíba me dói porque não me deixa esquecer o Mondego.

A tarde já caminhava para a noitinha quando liguei a televisão na RTP (Rádio e Televisão de Portugal). Foi quando ouvi, pela primeira vez, falar dele. No dia seguinte, fui a uma loja e comprei uma caixa com dois discos.

O que há no canto do poeta, compositor e cantor português José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos - o Zeca Afonso - que faz o coração da gente bater fundo e claro?

Dentro de ti, ó cidade
o povo é quem mais ordena
terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Que emoção é esta que nos convida a sair pelas ruas de mãos dadas?

De que profundeza brota essa vaga azul de sentimento que se alteia no horizonte e depois invade a cidade, distribuindo esperança em meio ao feroz egoísmo?

Em cada palavra que pronuncia, no canto geral que celebra a vida, Zeca Afonso fala-nos da gente, da terra, do compromisso com o justo. A voz que sincera se levanta vem de uma alma sensível, sedenta de justiça, harmonia entre os homens e beleza. Vem das origens de um povo esta voz forjada no sonho e na luta.

Zeca Afonso nasceu em Aveiro a 2 de agosto de 1929, filho de pai juiz e mãe professora primária, com os quais viveu em certos períodos, tendo, em outros, ficado aos cuidados de tios e tias. Morreu em Setúbal, em 23 de fevereiro de 1987.

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
em cada rosto igualdade
o povo é quem mais ordena

O canto de Zeca Afonso, comprometido com a fraternidade, simples e rico, oferece abrigo e consolo a pessoas oprimidas do mundo inteiro. Não por acaso a belíssima Grândola, Vila Morena, é uma canção-símbolo dos novos tempos nascidos em Portugal com o movimento que se cristalizou na Revolução dos Cravos, a 25 de abril de 1974, que levou democracia ao país depois da longa escuridão da ditadura.

Nós do Brasil precisamos conhecer a obra do Zeca Afonso.

À sombra duma azinheira
que já não sabia a idade

jurei ter por companheira
Grândola, a tua vontade

Grândola, a tua vontade
jurei ter por companheira
à sombra duma azinheira
que já não sabia a idade

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* Grândola, Vila Morena, letra e música de José Afonso.
Foto: José Afonso. Fonte: imagem do Google. O crédito será dado tão logo tenha informação sobre o autor. Texto publicado em 16 de junho de 2011.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Série Retratos 17 (fria manhã de outono)




photo: j.finatto



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photo: Jorge Adelar Finatto, 24 de abril, 2013
Fria manhã de outono. Passo dos Ausentes



quarta-feira, 24 de abril de 2013

Série Retratos 16 (outono em Passo dos Ausentes)



 
 
 
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photo: Jorge Adelar Finatto, 23 de abril, 2013
Outono em Passo dos Ausentes
Pedidos de reprodução podem ser feitos ao autor pelo e-mail
j.finatto@terra.com.br
 

terça-feira, 23 de abril de 2013

Os gatos e o medo de voar

Jorge Adelar Finatto

 
ilustração: Maria Machiavelli


Dizem que os gatos pressentem quando o dono vai morrer.

Desde que Nefelindo Acquaviva me convidou pra fazer com ele o vôo inaugural do dirigível O Invencido (que construiu no galpão do quintal de sua casa, como todas as estrovengas voadoras que criou) meu gato Pituca não saiu mais de perto de mim.
 
Nefelindo Acquaviva é considerado o pioneiro da aviação em Passo dos Ausentes. Um doido com alma de Ícaro.

O que seria do mundo sem os loucos, ele costuma perguntar, apontando ambas as mãos para o peito. E ele mesmo responde: ainda andaríamos de quatro e moraríamos em grutas úmidas, malcheirosas e povoadas de morcegos.

Tudo que alguma vez voou nesses céus dos Campos de Cima do Esquecimento passou pelas mãos de Acquaviva. Da mesma forma, todas as geringonças que se espatifaram no chão também foram obra dele. Ele coleciona 22 quedas com seus objetos voadores, não incluídos aí os tombos na fase de decolagem, mais de trinta.¹ 
 
Sim, eu temo pela minha vida. Como temi das outras vezes em que concordei em acompanhá-lo em vôos abissais pelo Vale do Olhar. Sou amigo do nosso Santos Dumont e é difícil dizer não a um amigo.

A vontade de voar é tão antiga quanto a presença do ser humano neste mundo de Deus.

Se o Criador não nos deu asas, deu-nos pra compensar a capacidade de sonhar e é o que fazemos na maior parte do tempo, do contrário a vida seria insuportável.

Da última vez em que saí pelos ares com Acquaviva, estávamos a bordo do Besouro Voador, espécie de motociclo com São Cristóvão ao lado, onde eu estava, e duas pequenas asas. O aparelho começou a soltar vários estouros em pleno vôo, a 100 metros de altitude, até que parou de funcionar.

Caímos em queda oblíqua em direção à igreja. Cerca de meio minuto depois, arrebentamos e atravessamos o vitral principal. Desabamos na frente do altar, diante do padre, em plena missa das seis da tarde.

O acidente causou um sério desentendimento entre a Igreja Católica e a Aviação em Passo dos Ausentes, que culminou com o rompimento de relações.

Há muito que Nefelindo e o padre Krauss trocam farpas por questões filosóficas e em razão de um outro acidente aéreo que quebrou a torre da igreja.²  O padre acha que os ataques são propositais, parte de um plano de Acquaviva para acabar com a igreja.

Por milagre, não morremos ali mesmo, no meio dos cacos coloridos do vitral. Impossível não lembrar as fortes palavras que o senhor pároco nos dirigiu na ocasião, impublicáveis neste espaço.

A questão é: como posso dizer não a Acquaviva sem magoá-lo, sem ferir de morte seu sonho de voar no mais pesado que o ar? Por outro lado, como dizer sim, sem morrer logo em seguida?

A única pessoa, além de mim, que sempre aceitou voar com ele é Juan Niebla, o músico cego do bandoneón, que toca na estação de trem abandonada. Mas Niebla está com 88 anos. 
 
Em janeiro último, Acquaviva terminou de construir O Invencido, utilizando o motor de seu antiquíssimo fusca. Quando entrei no galpão naquela manhã de sábado, ele tomava chimarrão sentado cabisbaixo sobre um pelego, encostado na carroça que também faz as vezes de cama.Vestia o gasto macacão azul-marinho e as botas pretas de cano longo.

A negra cabeleira escorrida e o grosso bigode nem de longe denunciam o jovial homem de 70 anos.

Ao me ver, seu rosto se iluminou e ele abriu um sorriso. Veio lépido na minha direção, me pegou pelo braço e disse que tinha algo para mostrar lá no Ninho do Esqueleto. Com emoção, retirou o enorme lençol que cobria o dirigível.

- Faltam poucos dias pra ficar pronto, só mais uns detalhes. Olha a maravilha. Nunca ninguém construiu algo assim. Um dirigível compacto, pra duas pessoas, com seis pequenas janelas pra admirar tudo lá de cima. Tem um beliche, uma geladeirinha, um minifoguareiro, um armarinho, um mínúsculo banheiro e o painel com os instrumentos de navegação, entre os quais aquele telescópio pra ver as estrelas. Não só chegaremos a Porto Alegre desta vez como vamos até o mar. Prepare-se, partiremos em meados de maio. O dia glorioso se aproxima.

O Pituca não sai mais do meu lado. Onde quer que eu vá o gato vem atrás. Mia de um jeito estranho e insistente, quase não me deixa trabalhar no escritório.

Desconfio que ao invés de uma placa comemorativa, no dia da glória vamos ganhar um epitáfio: Aqui jazem dois idiotas, gravado na lápide do túmulo que reunirá o que sobrou de nossos corpos, se é que alguma coisa vai restar depois do desastre anunciado.

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¹Nefelindo e o aeroplano:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2010/05/nefelindo-e-o-aeroplano.html

²A queda do Águia Negra: 
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2010/09/queda-do-aguia-negra.html
 

domingo, 21 de abril de 2013

O senhor do tempo

Jorge Adelar Finatto
 

ilustração: Maria Machiavelli
 

De antigo senhor das horas, o meu velho relógio virou vítima do tempo e hoje sofre com longos intervalos de ausência.

É um relógio que me acompanha desde o século passado. É um objeto austero e simples. Não existem outros como ele à venda. É um dos últimos exemplares vivos de sua geração, se não for o último.
 
Registrou com precisão a passagem do tempo durante muitos e muitos anos. Esse mesmo tempo agora volta-se contra ele.
 
O calendário numérico funciona às vezes, e o escrito perdeu-se na bruma. Esquece em que dia da semana estamos, não sabe bem se é segunda, sábado ou domingo. A passagem das horas confunde-lhe o mecanismo e, por vezes, ele pára sem saber o que fazer, como alguém que perdeu a memória numa esquina, de repente.
 
Em suma, o relógio que por séculos me guiou na mata escura dos dias precisa agora ser guiado.
 
Não tenho coragem de separar-me dele, jamais o faria e me recuso a sequer falar no assunto. Contudo, sem que ele soubesse, tive outros relógios, mais funcionais e modernos. Nenhum, porém, conseguiu substituí-lo no meu afeto. 
 
Toda vez que abria a gaveta, encontrava-o calado, sem nada reclamar, olhando as paredes internas do cubículo sombrio. Ao perceber minha presença, olhava-me nos olhos como quem se coloca à disposição para o trabalho e a luta. Um companheiro valente e digno.

Resgatei-o agora das trevas.
 
Se ele é hoje apenas a lembrança do relógio que foi um dia, por outro lado não posso negar-lhe reconhecimento pelos serviços prestados. Além disso, atravessamos momentos difíceis juntos, vivemos muitas situações complicadas e dolorosas nessa vida, coisas que atormentam o pensamento e queimam o coração. E às vezes fomos felizes também.
  
Carregar o tempo nas entranhas, como ele sempre fez, segundo a segundo, ano após ano, sem descanso, num giro interminável e monótono, é ofício dos piores.
 
Mandei-o à oficina já por três vezes, mas não resolveu o problema. Decidi poupá-lo das internações inúteis no hospital dos relógios, pois observei que o magoam pelo ar de tristeza com que retorna a casa.
 
Não sou mais escravo do tempo. Eu faço o que quero do meu tempo. (Por favor, raro leitor, não se iluda: essa disponibilidade é tão sedutora quanto terrível). 
 
Trago o antigo relógio no pulso outra vez. Faço-lhe ajustes manuais e tocamos a vida. Quando é necessário, em razão de compromissos e viagens longas, levo um outro, no bolso ou na mala, sem que ele perceba. E assim levamos o nosso barco.
  

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Memória nas ruas de Paris

Jorge Adelar Finatto

 
"Em memória das crianças, alunos dessa escola [Lycée Henri IV], deportadas de 1942 a 1944 porque nasceram judias, vítimas inocentes da barbárie nazista, com a cumplicidade ativa do governo de Vichy. Elas foram exterminadas nos campos da morte. Não as esquecemos jamais". (tradução e photo: j.finatto)


Paris, novembro, 2011. Uma das coisas que admiro nos franceses é o respeito que têm pela memória histórica. Acredito que a maioria dos cidadãos deste país cultua a verdade como valor essencial, o que explica muitas das conquistas da civilização aqui ocorridas.

Em Paris, a cada passo encontramos placas informativas nas vias publicas. Elas contam coisas boas e ruins que aconteceram na cidade. Há um apreço pela transparência que ajuda a formar as consciências.

Não se trata de uma memória seletiva, hipócrita.

Numa escola de crianças, no Quartier Latin, há uma placa na parede ao lado da porta, voltada para a calçada, informando que, durante a ocupação nazista, muitos meninos e meninas judeus daquele colégio foram levados para os campos de concentração dos alemães, com a concordância e participação das autoridades francesas, sendo depois assassinados (foto).

Na esquina dos bulevares Saint-Michel e Saint Germain, uma outra placa informa que, naquele local, no dia 19 de agosto de 1944, Bottine Robert foi morto pelos nazistas por lutar pela libertação de Paris.

Naquele mês, Hitler ordenara a destruição completa da cidade antes de uma retirada das tropas alemãs diante do avanço das forças francesas de Charles de Gaulle e dos aliados. O comandante alemão em Paris, general Von Choltitz, no entanto, negou-se a cumprir a insana determinação, e a cidade foi poupada.

photo: j.finatto
 
São fatos diferentes dentro de um mesmo contexto histórico, revelados nas ruas da cidade, à luz do sol ou da lua, para quem quiser saber. É importante que assim seja, que todos saibam e sintam, para que essas coisas nunca mais voltem a acontecer.

Que a história contada e sabida sirva de farol dentro do negrume do nosso tempo, em que a crise mundial testa diariamente a capacidade dos povos em solidarizar-se para melhorar a vida das pessoas.
 
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Post revisto, publicado anteriormente em 22 de novembro, 2011.
 

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Calle de los suspiros

Jorge Adelar Finatto
 

photo: j.finatto


De não ver os olhos estão vazios.
De não escutar os ouvidos estão ocos.

Um dia encontrei no mapa aquela cidade ao sul.
Um lugar que nasceu num tempo muito antigo.
Nela havia uma rua chamada Calle de los suspiros.
Fui até lá como atrás de um segredo.

A rua dos suspiros está povoada de passos perdidos.
Os fantasmas ocupam as casas coloniais.

Quem mora na rua dos suspiros?

A moça da janela olha as buganvílias.
O homem que não sai de casa vê seres incorpóreos nos telhados.
A luz das luminárias é amarelo calmo.

À noite se ouve nas pedras a batida de cascos de cavalos que não existem mais.

A rua dos suspiros é um camafeu pregado no oblívio.

Os ventos se reúnem na calle antes de sair a galope pelo mundo.

A dor envelheceu nesta rua.
Neste lugar, todos sofrem para dentro.

Há um salão de baile desabitado com mesas no escuro.
A orquestra foi embora carregando a música e os casais que dançavam.

A rua dos suspiros habita um retrato caído no tempo.

Quem chora a essa hora na calle deserta?

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Foto: J. Finatto
Imagem de Colonia del Sacramento, Uruguai.
Texto publicado no blog em 18/12/2010.
 

terça-feira, 16 de abril de 2013

As massas polares

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto
 

A solidão é um negro espantalho que habita os corações.

Agora chegaram as massas de ar polar. Aqui nos Campos de Cima do Esquecimento é assim: aos primeiros movimentos de violoncelo do outono, o tempo se enregela.

Estava arejando livros antigos sobre a escrivaninha, aproveitando uma réstia de sol que penetrava pela clarabóia*, quando o ar gelado da tarde começou a tomar conta.

As primícias do inverno mandam notícias.

Lá fora os ramos e as folhas perdem viço. Tentei resistir só com a blusa de lã, mas não teve jeito. Resgatei o capote azul-marinho do armário.
 
O frio antecipado traz de volta costumes, reclama providências. Na tarde de domingo, fui até o pinheiro mais robusto do quintal ver se havia caído alguma pinha. Ainda não. As pinhas permanecem penduradas nos verdes galhos, entre grimpas pontiagudas.

Cozinhar pinhão, na chapa do fogão a lenha, é um dos prazeres do frio. 
 
Enquanto olhava a copa da araucária, deu-se que, no profundo azul do céu, passou voando - num vôo suave e elegante -  uma ave de longo pescoço e asas de larga envergadura. Era vôo alto, coisa de duzentos metros, em direção ao poente. Senti gratidão.

As andorinhas já não voam por estas paragens. Partiram em arribação para o Norte, em busca de dias cálidos. Neste canto do planeta, a circulação das seivas diminuiu.

As massas polares vêm me lembrar também que faltam abraços no mundo. Faz muito frio nas almas.

Vertem lágrimas nos olhos das estátuas nas praças. 

Mas alguns ainda são capazes do humano gesto. Trazem o sol dentro de si. Esses herdarão a primavera. 
 
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*Nos textos do blog, continuo usando a ortografia atual, e não a do acordo ortográfico, conforme o Decreto 7.875, de 27/12/2012, que postergou a obrigatoriedade das novas regras, no Brasil, para 1º de janeiro de 2016. Até lá, ambas as nornas estão em vigor.
Sobre o assunto:
O acordo ortográfico fazendo água:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/03/o-acordo-ortografico-fazendo-agua.html
 

segunda-feira, 15 de abril de 2013

A boca oca

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto
 


a
li
te
ra
tu
ra
é
um
belo
caminho
mas
porém
contudo
sem
fim                        

(infinitos
 livros
 vogam
 nas estantes)

eu
finito                               
                                     
(silêncio
 da
 boca
 oca)

um
de
nós
terá
de
se
adaptar                
           
 

sábado, 13 de abril de 2013

Efêmera canoa

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. Canoa no Guaíba
 

Diante de Porto Alegre, atravessa lenta e quase invisível uma canoa.

Vista do continente, parece uma figura saída de um velho livro de fotografias. Recordação de um passado distante.

Observo-a deslizando no rio, em mansa e agonizante viagem em direção ao crepúsculo.

O homem atrás do peixe e do repouso.

O pescador e o peixe à sombra da cidade desolada.

O observador, na beira do rio, alimenta a ilusão de beleza e permanência do instante.

O olho faminto registra o calado movimento, a passagem da canoa em seu delicado itinerário.

Nenhuma imagem é tão bela como a cidade espelhada no seu rio.

A canoa, a cidade, o homem, o peixe, habitam o efêmero.

Todos rumo ao oblívio.

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Texto revisto, publicado antes em 24, fevereiro, 2012.