sábado, 22 de junho de 2013

O calepino de Dante

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto. Venezia


O VENTO geme como um bicho malferido nas esquinas, sacode as placas na rua, portas, janelas, enlouquece os ponteiros do relógio da estação de trem abandonada de Passo dos Ausentes.

Um lamento emana do interior do sino da igreja da praça.

Um cenário de filme de assombração. Aqui acontecem coisas do outro mundo.
 
Os fantasmas somos nós, habitantes dessas terras frias e invisíveis situadas nos Campos de Cima do Esquecimento.

Lá fora, a chuva molha a solidão da rua. Somos peixes no aquário, nadando de um lado para outro dentro de casa, tentando enxergar, sentir alguma coisa nesse enorme vazio. Peixes à procura de qualquer coisa mais que silêncio e oblívio. Agora que o inverno chegou.
 
Vivemos nessas remotas e íngremes alturas, no sul do continente, entre inóspitas nuvens.

Este lugar é a última estação antes do fim do mundo.

photo: jfinatto. Venezia

Os poetas sabem do que eu falo, não digo coisas inaugurais (quem me dera). Digo o trivial da humana condição e não mais do que isso: quireras.

Neste território pequenino existem coisas de espantar.

Um dia, não me lembro quando, andava eu numa fondamenta (caminho que vai à beira de um canal) distante e perdida de Veneza. Caminhava do meu jeito naquela cidade, isto é, olhando as coisas de perto por causa da difícil visão (óculos fundo de garrafa).

Naquela cidade tudo é insondável, úmido labirinto, e eu, quase cego, gosto de me perder em labirintos.

As janelas das casas daquela fondamenta, onde cheguei não sei como, tinham flores e cordas com roupas estendidas secando, mas não havia ninguém morando nelas. Uma doideira. O vento percorria o canal assobiando uma canção terna e delicada, sem começo nem fim.

Descobri, então, o vetusto casarão de uma livraria abandonada. A livraria ficava mais ou menos perto da Ponte de Rialto, no Grande Canal. Entrei lá abrindo uma porta escura e muito pesada, difícil de empurrar.

Canal veneziano. photo: j.finatto

Sentei numa cadeira de couro marrom diante de uma mesa. Ao lado um pequeno vitral amarelo e azul deixava penetrar um sopro de luz solar. Estantes repletas de livros se projetavam para o interior.

Descobri sobre a mesa um calepino de capa lilás.

Abri o caderno, quase encostando os olhos nele. Na terceira página estava escrito: Dante Alighieri, 1319. Li sem fôlego as primeiras anotações do mestre florentino.

Só então percebi do que se tratava, o tesouro que tinha em mãos: eram esboços de poemas misturados a notas de diário, rascunhos de cartas e pequenos desenhos.

A música que o vento tocava lá fora, me dei conta quase sem poder acreditar, era a Valsa dos Ausentes, de Pixinguinha.

O mundo é muito pequeno, o mundo é um suspiro.

Antes de sair da estranha livraria, guardei o calepino de Dante no fundo do meu alforje. Desde aquele insólito evento nunca mais nos separamos. Nunca antes contei esta história.

(Às vezes me pergunto se isso de fato aconteceu ou terá sido um sonho, o espírito aturdido por esses ventos andarilhos de Passo dos Ausentes, nas longas e inóspitas madrugadas.)

O calepino de Dante é o consolo que trago na vida. Quando o leio, como nessa hora longínqua, sentado na cadeira de palha diante da mesa do escritório, tomando café preto com biscoitos de polvilho, esqueço tudo de ruim.

O medo de morrer não encontra asilo nessa hora quase solene.
 
Nem tudo é solitude nesses caminhos.

Passagens luminosas habitam o breu.

Tem orquídeas e magnólias povoando o jardim lá fora. Ramos novos brotam entre as folhas secas.

Um tempo de busca-vida, este.

Esta página, notícia do invisível.
 
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Texto revisto, publicado anteriormente em 10/12/12.
 

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Primavera do Brasil (o tempo das magnólias em flor)

Jorge Adelar Finatto
 

photo: j.finatto



Quem podia imaginar que a primavera do Brasil chegaria em pleno inverno!


(É bom ver o povo nas ruas, lutando pela sua primavera, em paz.)

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Jogos Olímpicos 2016:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2011/07/jogos-olimpicos-de-2016.html
 

terça-feira, 18 de junho de 2013

Presença

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto
 
 
Me tens aqui lutando
com secas palavras
para iluminar a treva
que nos reúne
em torno do lume
do poema

me tens aqui solidário
beirando a primavera
beirando os trintanos
com raros bens materiais
e nenhum privilégio
de credo ou classe

às vezes louco
às vezes patético
com poucos seres humanos
pra repartir
alguma coisa

me tens aqui poeta
num país injusto e sofrido
caminhando à beira de um rio

a sujeira flutua nas águas
os pobres equilibram-se
em perigosas palafitas

me tens aqui poeta lírico
cada dia mais lúcido

como a primavera
eu invado de repente
a sala adormecida
o coração desabitado

não tenho uma saída
para os dramas
que andam por aí

sequer possuo soluções
plausíveis
para os atrapalhos
cotidianos

o que posso oferecer
e ora ofereço
é essa canção discreta
para dissipar a sombra

um braçada de flores
no inverno

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Do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.
 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

O escolhido de Deus

Jorge Adelar Finatto

photo: Auguste Rodin. Fonte: Wikipédia

 
Paris (Novembro, 2011). Sempre penso que Deus fala através dos artistas. Acho que eles têm a missão de continuar a criação do mundo. Carregam a centelha divina capaz de revelar a beleza escondida. A iluminação do calabouço da condição humana faz parte deste desígnio.

Fui visitar o Museu Rodin. Esse homem foi um artista abençoado. As esculturas que fez em materiais difíceis como mármore e bronze são absolutamente belas. Mesmo um admirador eventual não fica indiferente diante de tanta beleza.


"A Catedral", escultura de Auguste Rodin, Museu Rodin, Paris. photo: j.finatto


Deus colocou nas mãos, no coração e na mente de Auguste Rodin (1840 - 1917)  um talento especial para esculpir, pensar e sentir o mundo - e ele soube, com muito trabalho, aproveitar a graça recebida (para nosso proveito e encanto). Chegamos a duvidar que um ser humano seja capaz de realizar tamanha obra em quantidade e qualidade. São esculturas divinas.

Eu poderia ficar na frente de um pedaço de mármore uns dez anos e, pelo que sei de mim, não sairia sequer um traço, quanto mais uma simples escultura. Rodin, no entanto, criava enquanto trabalhava diariamente na dura pedra ou no bronze, como se fosse um pedreiro erguendo uma casa.


Le Penseur (O Pensador), de Rodin. photo: J.finatto

Teve como secretário particular o então jovem poeta Rainer Maria Rilke, um dos mais importantes que o mundo conheceu, autor das Elegias de Duíno, entre outras obras. Rodin exerceu forte influência na arte do poeta, que tinha grande admiração pelo escultor. Rilke publicou uma monografia sobre Rodin em 1903.

Deus distribui talentos a todos, a cada um de um jeito. O segredo está em descobrir a capacidade que nos destinou e depois trabalhar, trabalhar e trabalhar. Dar o nosso melhor para tornar a vida menos sofrida, mais bonita, eis aí um bom projeto, nesse planeta onde tantas vezes nos sentimos exilados da luz na escuridão.
 

Le Baiser (O Beijo), de Rodin. photo: J. Finatto

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Texto revisto e acrescido de fotos; publicado anteriormente em 24/11/11.
 

domingo, 16 de junho de 2013

Os livros e a ilha do coração

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto
 

Encontrar um escritor capaz de nos emocionar é um verdadeiro achado. Escrever com clareza e desenvoltura é uma coisa. Trabalhar o pensamento e a emoção no texto exige arte.
 
Estava lendo um escritor que tem cerca de 70 livros publicados, entre romances, novelas, artigos e crônicas. Por que esse autor não me diz quase nada?, eu me perguntava. Porque sua palavra não toca a minha emoção.
 
Não basta uma grande quantidade de livros, uma imaginação inventiva e espaços generosos na imprensa para conquistar o leitor. Tem que ter algo mais. Esse algo, ao menos pra mim, tem a ver com sentimento.
 
Por isso é tão difícil achar um autor no meio dos mares de livros. Por isso me apego tanto aos escritores que conseguem me fazer pensar e sentir ao mesmo tempo. São esses que habitam a ilha do meu coração.
 
A volúpia de publicar muito e de ser devorado pelos leitores às vezes faz um autor se perder. Ser bom de venda e de mídia não significa ser um bom escritor, embora faça bem para a vaidade, para a vida social e para o bolso.

No final, a última palavra só o tempo pode dar. Balzac e vários outros venderam bem seus livros em vida e eram grandes escritores.
 
Não carrego mais a ilusão de fazer livros de papel. É muito raro conseguir espaço no meio editorial. Existem muitos autores e poucas oportunidades. Autores bons de marketing são sempre bem-vindos. Não é o meu caso. Não sei, também, se o que escrevo interessa a alguém.

A busca da qualidade do texto, de fazer uma escrita com arte (sempre tão exigente), é vista com reserva e foge ao interesse imediato do mercado editorial.
 
Mas eu sou antes de tudo um leitor. Espero que os autores fora do comércio continuem seu trabalho. Não desistam, insistam, resistam, sobrevivam no ofício.

São os textos que tocam o coração, impressos ou eletrônicos, que nos ajudam a viver em nossas solitárias ilhas.

Que a escrita seja um ato de vida e de esperança.

O breve clarão de uma lanterna num tempo escuro.

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Escrever na língua portuguesa:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/05/escrever-na-lingua-portuguesa.html
 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

A minha viagem a Marte

Jorge Adelar Finatto 
 
photo: Marte. Fonte: Nasa

  
Outro dia li que uma empresa européia está recebendo inscrições de interessados em colonizar o planeta Marte. Os primeiros colonizadores chegarão ao planeta vermelho em 2023. Mas tem um porém: não há previsão de retorno à Terra. É uma passagem só de ida. A explicação é que faltam recursos técnicos para a volta e os custos financeiros da viagem são altíssimos.

As candidaturas serão recebidas até 31 de agosto próximo. A idéia é enviar 24 astronautas, em grupos de quatro, dois homens e duas mulheres, para a colonização. Tem mais um porém: deve haver a reprodução humana durante a missão. Os futuros colonos viverão em casas de 50 metros quadrados e cultivarão os próprios alimentos. 
  
Fico pensando se vale a pena ser colono em Marte. Até poderia passar uma temporada por lá. Sei o que é viver longe do mundo. É que tenho habitado entre as nuvens, nas alturas de Passo dos Ausentes, o que me deu um certo sentido de distanciamento. Mas a impossibilidade de voltar à querência amada é difícil de aceitar.
 
A questão da reprodução obrigatória, entre colegas de trabalho, é coisa que me intriga. Astronautas em geral são pessoas muito ocupadas, a dura lida do espaço não permite muitas distrações. E eles usam aquelas roupas pesadas e bufantes. Isso sem falar que flutuam quase o tempo todo pela ausência de gravidade. Como conciliar essa situação com o ato de reprodução da espécie? E ainda por cima com colega de missão, na obrigada. Não vejo muito clima.

E se uma astronauta engravidar e tiver o bebê? Como o filho assim concebido, numa relação entre colonos do espaço, reagirá depois que souber que veio ao mundo como parte de um manual de instruções? Aceitará bem ou será mais um revoltado solto na galáxia?
  
Haverá boas creches e escolas em Marte? Haverá uma biblioteca e um café? Como serão as tardes de domingo em Marte?

Se ao menos tivesse, na vasta planície marciana ou dentro de alguma cratera, uma casa velha de madeira, com cheiro de campo ao amanhecer, e um rádio elétrico com válvulas coloridas para ouvir música e notícias da Terra...

Vou curtir as belas paisagens do planeta gelado aqui mesmo, pelo telescópio caseiro. E não vou me surpreender se daqui a pouco passar um menino astronauta correndo atrás de uma bola no chão cor de caramelo e os pais atrás, empurrando um carrinho de bebê.
 
 
photo: pôr do sol em Marte. Fonte: Nasa

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Nasa:
A solidão do planeta errante:
Vestígios de vida no planeta Terra:
 

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Anne Frank, 84 anos

Jorge Adelar Finatto

Anne Frank. Fonte: Fundação Anne Frank
http://www.annefrank.ch/
 
Anne Frank nasceu em 12 de junho  de 1929 e hoje estaria fazendo 84 anos. Uma entre as inumeráveis vítimas do nazismo alemão, morreu de tifo entre o final de fevereiro e início de março de 1945, aos 15 anos, no campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha, depois de ter passado por Auschwitz (Polônia), onde sua mãe perdeu a vida.  Os corpos de Anne e de sua irmã Margot foram jogados numa vala comum e nunca foram localizados. 
 
De 12 de junho de 1942 (quando completou 13 anos) até 1º de agosto de 1944, ela escreveu o seu diário, publicado postumamente.* Nele relata o dia-a-dia no Anexo Secreto de uma antiga casa, na beira de um canal, em Amsterdam, onde viveu escondida com sua família e outras 4 pessoas, entre 6 de julho de 1942 e 4 de agosto de 1944. Os afundados no esconderijo tentam desesperadamente escapar da perseguição movida contra os judeus.
 
Um delator, cujo nome até hoje não se sabe ou se sabe e não se divulga por razões obscuras, entregou-os aos agentes sanguinários de Hitler. O Diário de Anne Frank é um documento que todos deveriam conhecer. Para saber como foram aqueles dias. Para jamais esquecer.
 
 
Espero poder contar tudo a você, como nunca pude contar a ninguém, e espero que você seja uma grande fonte de conforto e ajuda.
(O Diário de Anne Frank, 12 de junho de 1942)

Um domingo de outono em Amsterdam, fim de novembro, 2011. O vento corre sobre os telhados e canais, enquanto a garoa cai gelada. O fato de ser domingo, muito frio e úmido, não afasta as cerca de 200 pessoas que aguardam na fila para entrar na casa (hoje museu) onde viveu Anne Frank nos últimos dois anos de sua vida, antes de morrer no campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha. Estou no fim da fila. Poucos minutos depois outra extensa fila se forma atrás de mim. São pessoas de todas as idades e nacionalidades.

Anne escreveu nesta casa o famoso diário no tempo em que aqui esteve mergulhada com a família no Anexo Secreto, durante a ocupação nazista da Holanda, na Segunda Guerra Mundial. Pelo fato de serem judeus, os Frank, como milhões de outros, foram implacavelmente perseguidos pelo nazismo alemão. Em 1933, haviam se mudado da Alemanha, seu país de origem, para Amsterdam, a fim de fugir do regime de Hitler.

Otto Frank construiu este refúgio na parte dos fundos do imóvel onde funcionava sua empresa, situada na rua Prinsengracht, 263, à beira de um canal. Fez isso prevendo o dia em que teriam de mergulhar (sumir) para não ser presos e assassinados. Em 6 de julho de 1942, trouxe a família para cá. O esconderijo foi chamado de Anexo Secreto. Deixaram para trás o apartamento onde viviam ele, a esposa Edith e as duas filhas, Anne e Margot. Na parte da frente da casa continuou o negócio, comércio de alimentos, cuja propriedade Otto passou para o nome de outros (os judeus não podiam exercer atividade empresarial), embora, na prática, continuasse a dirigi-lo. Mais quatro pessoas juntaram-se a eles no anexo. Amigos fiéis se encarregaram de levar alimento e outros produtos ao grupo. Com o passar dos dias, tudo foi escasseando.
Diário de Anne Frank

 Em 4 de agosto de 1944, o esconderijo foi denunciado (nunca se soube quem foi o delator ou se soube e não se divulgou). As oito pessoas foram presas, levadas para campos de concentração e todos, com exceção de Otto, morreram. Anne e sua irmã morreram de tifo no campo de Bergen-Belsen no fim de fevereiro ou em março de 1945, poucos dias antes da libertação deste campo. Foram enterradas em valas comuns como os outros. Além delas, outras 28 mil pessoas perderam a vida naquele campo naquele período, em função da fome, do frio e das doenças. A maioria dos prisioneiros, nos últimos seis meses, era de mulheres. Edith morreu em Auschwitz-Birkenau. Otto sobreviveu a Auschwitz. Em 1947, publicou o diário de Anne, que havia sido encontrado na casa depois da invasão dos nazistas e da prisão dos oito. Anos mais tarde, o prédio transformou-se na Casa de Anne Frank, museu que guarda a memória daquelas vidas e daquele tempo terrível.
Autenticidade
 
Houve quem duvidasse e ainda duvide da autenticidade do diário. Argumentou-se que uma menina entre os 13 e os 15 anos não teria conhecimento nem maturidade suficientes para escrevê-lo com tal profundidade. Na apresentação do livro, informa-se que após a morte de Otto Frank, em 1980, aos 91 anos, os documentos (diário e outros papéis que o integram) foram entregues ao Instituto Estatal Holandês para Documentação de Guerra, em Amsterdam. Consta que o referido instituto mandou fazer uma profunda investigação a respeito, a qual concluiu por autênticos os documentos.

O texto passou por revisões gramaticais, ortográficas e, quiçá, de estilo antes da publicação. Houve alguma seleção do que seria publicado, o que, em princípio, é natural: apenas uma parte do que se escreve se transforma depois em livro.

Realmente chama a atenção que uma pessoa tão jovem tenha escrito essas páginas. Todavia, cada indivíduo é um universo e talentos há que se revelam muito cedo. Por outro lado, é sabido que o sofrimento acelera ferozmente o amadurecimento do ser humano, que em condições tais queima etapas e se vê obrigado a antecipar uma visão adulta do mundo.

Sobre o diário manifestaram-se com admiração pessoas como o ex-presidente americano John F. Kennedy, o ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela e o escritor italiano e ex-prisioneiro de Auschwitz Primo Levi.
O testemunho

Para mim, é praticamente impossível construir a vida sobre um alicerce de caos, sofrimento e morte. Vejo o mundo ser transformado aos poucos numa selva, ouço o trovão que se aproxima e que, um dia, irá nos destruir também, sinto o sofrimento de milhões. E, mesmo assim, quando olho para o céu, sinto de algum modo que tudo mudará para melhor, que a crueldade também terminará, que a paz e a tranquilidade voltarão. Enquanto isso, devo me agarrar aos meus ideais. Talvez chegue o dia em que eu possa realizá-los! (Diário, 15 de julho, 1944)
 
O relato de Anne Frank é, antes de tudo, vivo. Prende a atenção do leitor pela forma como é construído e pela matéria-prima com que trabalha. Anne conta como eram os dias no Anexo Secreto, as angústias, os conflitos, as perplexidades, tristezas, pequenas alegrias, esperanças e o medo sempre à espreita.

O texto surge como exercício de liberdade (a única possível naquelas condições) e resistência num ambiente absolutamente adverso. O confinamento de mais de dois anos num espaço pequeno, a convivência difícil de pessoas fragilizadas física e psiquicamente, o cerceamento da individualidade e dos sonhos, o desespero, a ausência de direitos elementares, tudo isso faz do diário um documento único.
 
O testemunho de Anne Frank conta uma história que deverá ser lembrada para sempre. Vale para todos nós. O nazismo continua atuante, seja através de organizações clandestinas, seja em coisas como o racismo e no ódio aos direitos humanos.

Existem ainda os que acreditam na superioridade de algumas raças, nações e culturas. Esse tipo de gente acha que os 'inferiores' precisam ser submetidos a qualquer custo e não economiza esforços nesse sentido.

Contra a barbárie aniquiladora do outro precisamos estar atentos e lutar.

A palavra de Anne Frank, no seu apelo à dignidade da vida em contraste com a brutalidade diabólica e insana do totalitarismo, nos ajuda a refletir e a nos posicionar. E, sobretudo, a não esquecer.

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*O Diário de Anne Frank, tradução do inglês para o português de Ivanir Alves Calado, Edições BestBolso, 11ª edição, Rio de Janeiro, 2010.
Texto atualizado, publicado antes em 16 de fevereiro, 2012.
 

terça-feira, 11 de junho de 2013

Oscar Wilde e o beijo proibido

Jorge Adelar Finatto

Oscar Wilde, 1882. autor: Napoleon Sarony
Fonte: Wikipédia

O escritor a quem, em vida, proibiram os beijos, nem na morte pode recebê-los.

INAUGURARAM, no dia 29 de novembro de 2011, o túmulo reformado do escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900), no Cemitério Père-Lachaise, em Paris. Estive no local poucos dias antes da inauguração, num domingo (20/11), e, no mesmo dia, escrevi sobre o assunto no texto Visita ao cemitério.*

A reforma foi financiada pela família do escritor e pelo governo da Irlanda. Contou com a execução técnica do Departamento de Monumentos Históricos da França, segundo divulgado na imprensa francesa.

Em 1950, foram depositados junto ao túmulo os restos mortais do amigo de Wilde, Robert Ross. Em razão do homossexualismo, o escritor chegou a ser condenado a dois anos de prisão com trabalhos forçados, na Inglaterra, em 1895, fato que desestruturou sua vida e sua saúde de modo irremediável. Na prisão, escreveu o texto de natureza confessional De profundis. A terrível experiência do cárcere levou-o, também, a escrever sobre a necessidade de revisão total das condições de vida nas cadeias.


Mulheres beijam o túmulo de O.Wilde. Autor: Peter Horree/Alamy.
Fonte: www.cartacapital.com.br


Sobre o túmulo de Wilde foi erguido, em 1912, um monumento, uma esfinge alada, pelo escultor Jacobs Epstein. O conjunto da obra foi declarado patrimônio histórico em 1997. Merlin Holland, neto do escritor, e Dinny McGinley, ministro irlandês das Artes e do Patrimônio, estiveram presentes na inauguração, assim como o ator britânico Rupert Everett, intérprete de escritos do criador de O Retrato de Dorian Gray. Todos estavam felizes com a reforma.

A triste e asséptica novidade, contudo, é que, agora, não será mais possível beijar o túmulo, nele deixando as cálidas e coloridas marcas de lábios com batom, demonstração de afeto que começou, de forma misteriosa, por volta dos anos 1990. Os responsáveis pelos trabalhos ergueram em torno do mausoléu placas de vidro de dois metros de altura para manter distantes os lábios dos admiradores.

Segundo os responsáveis pela obra, as marcas de batom enfeiaram o local ao longo dos anos, prejudicando o monumento, pois o conteúdo gorduroso do batom penetrou profundamente na pedra. Acreditam eles que os fãs de Wilde serão doravante mais sensatos que apaixonados, protegendo, assim, melhor a memória do autor (sic).

Não acredito em proteção contra o amor.

Aliás, a humanidade anda cada dia mais infeliz por causa desse tipo de proteção. Também não creio que possa existir maior manifestação de respeito e carinho do que beijar o túmulo de um escritor que morreu pobre e esquecido, em 1900, num quarto humilde de hotel, perto do Sena, em Paris.

No lugar de proibir os beijos, poderiam ter feito diferente: criar no ambiente um espaço que acolhesse esses beijos, que os facilitasse, enquanto manifestação de carinho.

Ao invés de preocupar-se em proteger a integridade fria e monumental da pedra, deviam receber melhor esses lábios, dar-lhes o amparo que merecem.

Eles, os beijos, expressam o verdadeiro monumento imaterial a ser preservado acima de tudo, em tempos de pouco afeto e de raras manifestações de calor humano.

O escritor que, em vida, sofreu a proibição dos beijos não pode recebê-los nem na morte.

Uma obra de arte é o resultado singular de um temperamento singular. Sua beleza provém de ser o autor o que é (...)**
                                     Oscar Wilde

Equivocam-se, na minha opinião, os familiares e reformadores do túmulo, que procuram afastar a demonstração de vida e ternura, em homenagem à aparência insípida, inodora e despida de qualquer sinal de gordura do calor humano.

Devo mesmo dizer aos meus dois leitores que estou de saco cheio desse tipo de mentalidade, cúmplice da indiferença, do distanciamento, da ostentação e da frieza.

Pelo que conheço de Wilde, ele detestaria essa reforma que o protege dos beijos dos leitores. Carinho que lhe foi negado em sua breve e sofrida vida.

Deus nos proteja de quem nos protege do afeto.

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*Visita ao cemitério:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2011/11/visita-ao-cemiterio.html
**A alma do homem sob o socialismo, Editora LPM, tradução de Heitor Ferreira da Costa, Porto Alegre, 2010.
Leia sobre a viagem de O.Wilde a Passo dos Ausentes:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com/2011/04/oscar-wilde-em-passo-dos-ausentes.html
O cemitério de Père-Lachaise em Paris:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/12/o-cemiterio-pere-lachaise-de-paris.html

Texto revisto, publicado anteriormente em 02 de dezembro, 2011.
 

domingo, 9 de junho de 2013

O postigo de Deus

Jorge Adelar Finatto 

photo: j.finatto

 
As manhãs amadurecem no coração da treva.
 
Como pode alguém tão pequeno querer voar tão longe, sonhar tão alto?

Em meio a portulanos e cartapácios, Claudionor, o Anacoreta, alimenta o sonho.

A quimera do grande encontro o habita.
 
Ah, as horas passadas entre os livros na caverna, no Contraforte dos Capuchinhos. A cela espiritual onde ele se retira em torno da vetusta mesa, viajando nas páginas, no telescópio, na bruma de estrelas.
 
Ah, as travessias desoladas pelo invisível. Os altos vôos onde ele se queda a duvidar.
 
As místicas visões o perseguem desde menino nestes Campos de Cima do Esquecimento.

A mirada do infinito saber, a vertigem do pensar, a busca da unidade com o cosmos. Não ser apenas mais um estrangeiro no universo.

Os mistérios do vir-a-ser. O terrível peso do aqui e agora. As fomes do corpo.

Um dia - Claudionor bem sabe - a face de Deus iluminará o postigo e ele então  irá embora da caverna para a casa dEle. Então tudo o mais será pó de luz iluminando a estrada.

Por enquanto, o trevamundo. Escuridão a galope pelo mundo. Coração pulsando no oblívio.

Urgentes prosopopéias o ajudam a povoar o silêncio, a construir o neblinoso itinerário.

Ah, as solitárias caminhadas pela Rua do Farelo, em Passo dos Ausentes.

Prisioneiro do efêmero, Claudionor se lança na antieternidade do instante fugaz.

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Claudionor, o Anacoreta, é místico e astrônomo amador. Vive numa caverna no Contraforte dos Capuchinhos, em Passo dos Ausentes
Texto revisto, publicado antes em 09 de março, 2011.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

A estação de trem de Passo dos Ausentes

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto

 
O trem está imóvel na gare deserta. Por ali os passageiros são fantasmas. De vez em quando o apito perdido da locomotiva pode ser ouvido no oco da madrugada. O roçar do vento nas folhas dos plátanos envolve o lugar. A solidão monta guarda na estação abandonada. Nenhum bulício de viagem, nenhuma respiração. Silêncio.
Juan Niebla, 85 anos, ocupa  o banco de peroba cor-de-rosa na plataforma, diante do terceiro vagão, e toca seu bandoneón nas terças, quintas, e quando lhe dá na telha. Naquele vagão, funciona hoje o Café dos Ausentes. O músico cego relembra os tempos em que recebia os viajantes com música.

A cidade então não era o território de fantasmas de hoje. Gente chegava, gente partia, gente chorava, gente ria. Havia vida nas casas, nas poucas ruas, na praça e tudo passava pela estação.
A cidade ficou ilhada no dia em que acabaram com o transporte ferroviário. As viagens cessaram, o trem nunca mais andou. Muita gente foi embora em busca de um futuro.
Da estação de trem de Passo dos Ausentes tanto se partia rumo ao universo como se voltava ao colo materno.
- Eu estou aqui esperando a próxima composição de passageiros. Quando chegar, quero estar no meu posto, tocando o bandoneón. Para isso fui contratado em 1943, através de concurso público. Era um menino. A estação ainda vai ter vida um dia – diz Juan Niebla.
A cidade parece ter saído de um velho álbum de fotografias. Mas nada, nenhum homem, nenhum governo e nenhum absurdo - como o fim da ferrovia - conseguirão nos enterrar vivos e tampouco as coisas boas que foram um dia. Acreditamos que há um amanhã para nós.

Há algo que pulsa nas ruínas caladas dessa cidade, algo que insiste em sobreviver, um sentido de permanência na memória e no afeto dos poucos que ficaram.
Em certas madrugadas geladas de junho, ouve-se ao longe o ruído de rodas de aço deslizando sobre os trilhos. De súbito as luzes da estação se acendem.
 
A velha locomotiva estremece sobre os dormentes, expele fumaça branca pela negra chaminé, apita como se tivesse recém-chegado de uma longa viagem. Ninguém consegue entender o que acontece. Ninguém ousa ir até lá, todos observam à distância.

Vê-se um passeio de sombras na plataforma. Vozes longínquas se misturam, vultos se projetam nas janelas.
Num instante as luzes da estação se apagam novamente. O silêncio da noite toma conta do lugar outra vez.
O vento embala as flores das magnólias. Um gato volta a dormir no banco do maquinista.



photo: j.finatto
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O tecido da tua ausência:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/12/o-tecido-da-tua-ausencia.html
Texto revisto, publicado anteriormente em 22 de dezembro, 2012.
 

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Shuukatsu, o perfeito funeral

Jorge Adelar Finatto


photo: camélia. j.finatto
 
A notícia vem do Japão. Shuukatsu é o mais instigante neologismo surgido naquele país recentemente. Resulta da combinação dos termos "fim" e "agir", significando "preparar o seu próprio fim". Cada vez mais as pessoas preparam a própria morte para não transferir o problema aos outros.

Li sobre o assunto na Folha de São Paulo.* Diz o informe que no Japão, ao final de cada ano, são escolhidas as novas palavras mais populares, selecionadas por um júri de intelectuais. A seleção é promovida pela editora Jiyu Kokumin, que publica o anuário Gendai Yogo no Kiso Chishiki (informações sobre vocabulário contemporâneo), obra muito esperada, cujos verbetes indicam neologismos que poderão vir a fazer parte de dicionários.

A palavra shuukatsu foi lançada no semanário Shukan Asahi, que publicou várias reportagens sobre o tema em 2009. A expressão ganhou força no ano passado, quando o jornalista Tetsuo Kaneko, antes de morrer de câncer, aos 41 anos, preparou o que a imprensa denominou o funeral perfeito, escolhendo até mesmo a flor para ficar ao lado de sua foto durante o velório.

Pra completar, o ministro das Finanças do Japão, Taro Aso, declarou, em janeiro passado, segundo o mesmo artigo, que uma pessoa idosa como ele, 72 anos, deveria "se apressar e morrer", desonerando desta forma o Estado.

Pelas regras do shuukatsu, o futuro defunto deve resolver as dívidas que possui, deixando tudo pago, o túmulo inclusive, elaborar um testamento que afaste as brigas entre herdeiros, bem como acertar os detalhes da cerimônia.

Pois era isso o que faltava, digo eu.

A prática é realista, não há novidade, muitas pessoas sempre se ocuparam disso, desde os antigos egípcios. Mas é triste.

Vive-se, em geral, muito mal e, para compensar, antecipam-se os preparativos para o fim da vida. Uma beleza, né! 

Se a vida está muito difícil, se viver se tornou insuportável, se doenças galopantes nos espreitam, se os donos da rua, da cidade, do país e do planeta tornaram o mundo um lugar intolerável, quem sabe não será a hora de se cuidar com desvelo da própria morte, antecipando a fuga deste mar de lágrimas?
  
A idéia está bem de acordo com o conselho do senhor ministro das Finanças: que os idosos se apressem e morram, facilitando assim as coisas para o Estado. Pois é.
 
Eis aí, portanto, o que resta do ato de ter nascido: passar os últimos tempos, alguns meses, talvez anos, organizando o próprio funeral, e tome correr para quitar dívidas, fazer testamento, escolher as flores do velório, as últimas roupas, a maquiagem, a música, a lista de convidados, comes e bebes, texto de despedida, quem sabe um vídeo com as últimas declarações aos que ficam.
 
De minha parte, aviso que não pretendo aderir ao shuukatsu, pelo menos não por agora.  É que ainda ando atrás de uma alegria, uma pequena alegria que ilumine meu dia. Não estou falando de felicidade, mas de um instante de ternura, harmonia, amizade.

Estou exausto de viver no meio de tanta morte.

Ando à procura de um jardim de camélias debaixo do céu azul. E quero a louca esperança de acreditar que alguma coisa boa virá pelo caminho na vida de todos nós.
 
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* O verbete, por Angelo Ishi, Folha de São Paulo, edição de 27 de janeiro, 2013, caderno Ilustríssima. O autor do texto, 44 anos, é jornalista e professor de Sociologia em Tóquio.
 

terça-feira, 4 de junho de 2013

O apanhador de estrelas

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto
 

Escrever é estar vivo. Compartilhar isso com o outro é felicidade. 

Esse texto aconteceu durante uma falta de luz que lançou a casa e a rua no mais profundo breu.
 
Saí pelos armários e gavetas às cegas, apalpando em busca de coisas capazes de substituir a luz.
 
Velas, fósforos, lanterna, isqueiro, lamparina a óleo, qualquer coisa para iluminar a escuridão. O breu do ambiente. O breu na alma.

Um apanhador de estrelas.

O que é o texto senão um telescópio mirando a espessa névoa dos corações e mentes? Que podem dizer as palavras que ainda não foi dito? Falar a quantos olhos nascem no planeta todos os dias, luz das estrelas.
 
Na sala calada, o apanhador rumina paciência, viaja distâncias, abraça ausências, inventa afetos, estuda anotações de outros exploradores, ajusta as lentes do seu instrumento.

Viajar por esse mistério chamado existência.

O apanhador espreita a noite infinita à procura de um sinal, um movimento, uma luz distante e amiga, uma voz que acalente o coração na hora iluminada.

As palavras criam asas, inauguram o voo. Dias de trabalho para conseguir uma única página.

O apanhador se sente vivo e no caminho. Graças a Deus.
 
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Texto revisto, publicado antes em 9 de janeiro, 2013.
 

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Aeromóvel: um avião sobre trilhos

Lorenzo Finatto
 
Oskar Coester e o aeromóvel. fonte: Wikipédia
 
Sou do início da década de 1980 e, desde criança, ouço maravilhas sobre um tipo de transporte público não poluente, barato, silencioso, movido por engenhoso mecanismo – em uma explicação leiga, misto de trem e avião que se utiliza de motores elétricos, os quais acionam um sistema de ar que se movimenta  por dutos localizados sob o veículo, colocando-o em movimento. Em linguagem mais técnica: o veículo se movimenta por meio de um “singular sistema de propulsão pneumática”.
Trata-se do aeromóvel, inventado por Oskar Hans Wolfgang Coester, empresário e inventor brasileiro, nascido em Pelotas, no Rio Grande do Sul. Coester foi responsável pelo setor de manutenção de aeronaves da Varig, sob o comando de Rubem Berta, e é o fundador da Aeromóvel Brasil S.A., empresa que desenvolveu e implantou a tecnologia de transporte pneumático por ele inventada.
Entre o final da década de 1970 e o início da de 1980 foi obtida a primeira patente da nova concepção, internacionalmente conhecida por Sistema Aeromóvel.
Lá se vão quase 40 anos, e é triste constatar que muitas boas ideias, revolucionárias como essa, infelizmente, são colocadas em prática só muitos anos depois de concebidas, em prejuízo de gerações. E não há dúvida de que o futuro do transporte urbano moderno passa, necessariamente, pela implementação de múltiplas linhas do aeromóvel, veículo não poluente, absolutamente silencioso, veloz, de baixo custo para o passageiro e que muito bem se harmoniza com a paisagem da cidade, valorizando-a.
Isso a um custo pequeno, se comparado com o valor necessário para a construção, por exemplo, de um sistema de transporte de metrô subterrâneo (ou mesmo de superfície), com desapropriações inevitáveis e o trabalho árduo e delicado de perfuração do solo em áreas densamente povoadas. Lembro de caminhar com meu pai, com uns 7 anos de idade, admirando a estrutura sobre a qual, em 1983, em Porto Alegre, quase à beira do Guaíba, operou uma linha-piloto de testes onde foram certificados os componentes da tecnologia criada por Coester.

Detalhe importante: o aeromóvel movimenta-se pelo ar, sobre trilhos colocados em uma via sustentada por pilares que ocupam muito pouco espaço, em nada interferindo no trânsito terrestre de pessoas e veículos.


Aeromóvel em Jacarta, Indonésia. fonte: Wikipédia

De fato, nas proximidades do Parque Harmonia e da Usina do Gasômetro, em 10 de abril de 1983, realizou-se a primeira viagem da linha experimental em Porto Alegre, na Avenida Loureiro da Silva, com duas estações espaçadas entre si em 750 metros, num percurso total de 1,1 quilômetro. Contudo, o projeto não foi adiante.
Destaco a paciência desse notável inventor gaúcho. Um homem admirável não apenas pela qualidade do invento, mas também pela persistência com que, ano após ano, entra governo sai governo, ele aguarda e resiste à lamentável inércia diante de um projeto que tornaria nossa cidade rigorosamente sustentável e bem servida no item transporte. O que ele deve pensar quando vê bilhões de reais despejados na construção de inúteis estádios de futebol, num país em que tanto falta, inclusive em termos de transporte público de qualidade?...
Mas a invenção se impôs por si mesma, como acontece, acredito, com tudo aquilo que tem genuíno valor.
Apesar de o projeto não ter ido adiante no Brasil, foi implantado com sucesso, em 1989, na cidade de Jacarta, capital da Indonésia. Constitui-se de uma linha circular construída no interior de um parque ecológico, que abriga centros de convenções, teatros, hotéis etc.
Agora foi construída uma linha do aeromóvel ligando a estação de metrô (Porto Alegre só tem de superfície) do aeroporto até o Aeroporto Internacional Salgado Filho. Com 1000 metros de extensão, é a primeira linha utilizada comercialmente no Brasil e será administrada pela empresa Trensurb. A linha recebeu no dia 13 de abril de 2013 o primeiro vagão para passageiros, com capacidade de 150 usuários. É prevista para junho a chegada do segundo vagão com capacidade para 300 passageiros. Devagar, o sonho vira realidade.
Está em estudo uma outra linha de aeromóvel que ligará a Estação Mercado Público do metrô, no centro de Porto Alegre, até a zona sul da cidade, interligando o centro histórico a pontos importantes, como o Estádio Beira-Rio, o Museu Fundação Iberê Camargo, o Barra Shopping Sul, clubes náuticos e vários outros.
Fico imaginando a vista desse silencioso passeio, às margens do Rio Guaíba. O sol no rosto; algum pensamento bom pelo caminho. A paisagem preenchendo com a beleza os olhos e o coração.
E aí, quem quer embarcar? Todos a bordo: “Tripulação e passageiros, preparar para a decolagem no trem voador!"

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Fontes de pesquisa: site da Prefeitura de Porto Alegre:
http://lproweb.procempa.com.br/pmpa/prefpoa/eptc/usu_doc/revista_mobilidade.pdf
e Wikipédia
Lorenzo Finatto é bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais no Rio Grande do Sul.

domingo, 2 de junho de 2013

O corpo doce da chuva

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


a noite passada fiquei ouvindo a chuva no telhado.

desliguei a luz, fechei o livro, afundei na poltrona do escritório, pra ficar só com o som da chuva,

nas telhas, em volta da casa, nas árvores, no verde balde cantante do jardim.

fiz silêncio para ouvir. a voz da chuva.

me levou pra bem longe.

uma chuva como da primeira vez que choveu no mundo.
 
a chuva que alguém sentiu na pele há 6 mil anos num jardim perdido.

o som da chuva é música ancestral do mundo, a canção principial.

a chuva espalhou-se em mim e me arrastou pra longe do que eu sou, chuva boa de fugir nela.

imemorial e materna, colo pra dormir. 
 
fiz silêncio até me sentir parte da chuva, até me diluir no seu ventre, no seu corpo doce e molhado,

até me esquecer.
 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Clarice

Jorge Adelar Finatto
 
Clarice Lispector
 

Eu vinha  torto de leituras difíceis, arrastadas, porque livro é um troço que, às vezes, pode ser muito chato. Há livros que nos levam a um rotundo cansaço, seguido de frustração, queremos terminar a leitura o quanto antes, como quem se livra de um pesado estorvo.

Não agradam nosso paladar (e paladar, como se sabe, cada um tem o seu). Nem sempre o problema é da obra, por vezes é o nosso gosto que não está bom.
 
Vinha eu sofrido nos tortuosos caminhos de páginas escarpadas, quando tive aquela iluminação que às vezes me salva: quem sabe leio ou releio alguma coisa de Clarice Lispector (1920 - 1977).

O texto clariceano jamais me deixa abandonado no meio do caminho, nunca me enfada. Salvo se enfadar tivesse algo a ver com fada, mas não é isso. Sim, porque Clarice tem alguma coisa de fada na escrita que brota de suas mãos ternas e violentas (sua força é capaz de revolver as entranhas do vulcão).
 
Mas então passei na livraria e lá estava A descoberta do mundo (Editora Rocco, Rio de janeiro, 1999), que reúne os textos que ela publicou no Jornal do Brasil, aos sábados, entre 1967 e  1973. São anotações, crônicas, pensamentos, pequenos contos e novelas.
 
Nesta coluna estou de algum modo me dando a conhecer. p. 137

É verdade, ao escrever para jornal, Clarice abriu portas e janelas do claro-escuro casarão de sua alma, que abriga uma multidão de outras almas nos seus misteriosos aposentos.

É preciso ter coragem e merecimento para conseguir aproximar-se de Clarice.

Além de rara escritora, uma linda mulher, que nada ficava a dever às divas do cinema e das capas de revista. Em Clarice encontravam-se reunidos, como poucas vezes acontece, beleza física e talento.

A natureza esmerou-se na sua criatura.

Estou agora, nessa madrugada gelada em Passo dos Ausentes, conjugando o verbo claricear, me delicio com seu texto alto, transcendente e humano, em que não há sobras, não há poses, mas um rigoroso mergulho em busca da expressão, que traz à tona tesouros escondidos nos corações e mentes de mulheres e homens.

Uma exploradora de águas profundas, Clarice consegue traduzir com palavras aquilo que dorme no mais recôndito de cada ser, e o faz com tal naturalidade que até parece uma coisa simples.

Felizes somos nós, os que podem lê-la no original em português, que presenciamos o milagre de sua criação sem necessidade de oráculos, bebendo na fonte um texto de valor universal.

Peço humildemente para existir, imploro humildemente uma alegria, uma ação de graça, peço que me permitam viver com menos sofrimento, peço para não ser tão experimentada pelas experiências ásperas, peço a homens e mulheres que me considerem um ser humano digno de algum amor e de algum respeito. Peço a bênção da vida. p. 117

Bons tempos em que escritores como  Clarice Lispector escreviam para jornal. O prazer de ir até a banca da esquina e lá encontrá-la brihando na página efêmera do sábado.

Uma época em que também escreviam em jornal Carlos Drummond, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, José Carlos Oliveira, Guilhermino Cesar, Carlos Reverbel, Tarso de Castro, Joel Silveira, Mario Quintana, entre muitos outros. Poupo o leitor de comparações com o que (não) temos atualmente, não vale a pena.

O que importa é que, sempre que reencontro Clarice, redescubro a alegria da palavra e volto a me sentir um peixe feliz no aquário.

 

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Recém-nascido resgatado com vida

Jorge Adelar Finatto


photo: AFP
 

Um bebê recém-nascido foi resgatado com vida da tubulação do esgoto de um prédio na China. O fato aconteceu na cidade de Jinhua, na província de Zhejiang. Conforme ontem noticiado, a mãe seria uma jovem solteira de 22 anos, que deu à luz e, após, a criança teria sido arrastada com a descarga do banheiro.
 
Moradores do edifício ouviram choro nos condutos e alertaram os bombeiros. A criança - um menino - estava entalada no cano de apenas 10 centímetros de diâmetro. Os bombeiros tiveram de cortar parte do conduto no qual estava, levando-o em seguida ao hospital, onde os médicos retiraram o bebê, que agora está na incubadora.

A polícia ainda não sabe os detalhes do caso e desconhece a extensão da responsabilidade da mãe. A jovem explicou que escondera a gravidez por temor.
  
A lei do filho único, em vigor na China desde o final da década de 1970, para controlar a natalidade em face da superpopulação, impõe sanções, como multas, a casais que têm mais de um filho. Isso fez aumentar o número de abortos e de abandonados após o nascimento, sendo as crianças do sexo feminino o alvo principal.
 
O fato aconteceu na China, mas ocorre, infelizmente, em toda parte. É das coisas mais tristes que podem suceder. Não me refiro apenas ao sofrimento do bebê, vítima indefesa, mas ao trauma da própria mãe, não raro de pouca idade, em situação de profundo abandono e perturbação mental.
 
Pelo que se pode ver nas manifestações pela internet, há uma exigência de punição em relação à mãe (o pai, neste caso, como em muitos outros, é desconhecido).
 
É compreensível a dor e a revolta que um fato como esse provoca. Mas é preciso, antes do julgamento sumário da mãe, da condenação moral sem direito a recurso, tentar entender as circunstâncias que cercam o evento (até o momento pouco se sabe).
 
Na minha visão, é necessário buscar explicações para o abandono cada vez mais freqüente de crianças recém-nascidas, aqui e acolá. 
 
O abandono de bebês revela a face cruel da sociedade em que vivemos. É, a princípio, um problema de quem comete o terrível ato, mas é, também, uma sinalização de que a sociedade está muito mal. Para além da idéia da punição, simplista e que nada resolve, que quer apenas infligir castigo a quem pratica o fato, é preciso conhecer de perto a situação em que vivem essas gestantes.

A solução, com certeza, não está no Código Penal. Existe por trás, quase sempre, uma realidade de rejeição familiar, afetiva e social que, dependendo de cada pessoa, pode levar a um gesto de loucura.
 
O pai do recém-nascido abandonado não costuma estar por perto, aliás não está nem aí na maioria das vezes, escondendo-se como se não fosse com ele.

Em vez de sair pedindo a cabeça da mãe, é conveniente examinar com cuidado, sob pena de confundir frios criminosos com pessoas desesperadas, entregues à própria solidão, sem nenhum preparo psíquico e material para enfrentar a situação em que se encontram.

Não se faz justiça nem se previne o mal com ódio. O respeito ao próximo, de que tanto está carente nossa sociedade, é, ao lado do amor, o caminho para evitar que estas tragédias aconteçam. E para remediar as conseqüências, quando elas ocorrem.
 
O nenê chinês passa bem, graças a Deus, haverá de sobreviver. Quem sabe ajudará a China a rever a sua política de controle da natalidade, humanizando-a. E cabe a todos os países, a toda sociedade, tratar melhor as gestantes em situação de desamparo, dando-lhes o imprescindível apoio, importante para elas, para o nascituro e para a vida em comunidade.
 

segunda-feira, 27 de maio de 2013

A volta ao mundo num barco de papel

Jorge Adelar Finatto


Arroio Tega no Moinho da Cascata, Caxias do Sul.
photo: Nereu de Almeida, ClicRBS

 
O Arroio Tega passava no fundo do quintal da casa onde nasci. Entre os pinheiros e a horta, me iniciei na arte da navegação em barcos de papel, que construía com folhas de caderno escolar.
 
O Tega era uma extensão do nosso pátio e um caminho de água doce que se ia pelo mundo. Nele partiam as minhas pequenas embarcações em viagem por aquelas águas ligeiras e claras.

Um dos possíveis significados da palavra tega, no italiano antigo, é pragana (barba ou fios de espigas de cereais), que ondula ao vento, acepção tão em acordo com a sinuosidade da correnteza. Um outro é vagem.

Lá em casa a natureza fazia parte da vida. Além de bichos comuns (na época) como galinhas, cabritas, peixes, gato, cão, havia também um macaco. E uma vez apareceu por lá um pingüim que o avô trouxe da praia de Torres.

O nosso pingüim deu-se muito bem no clima temperado da serra. Gostava de ir caminhando ao lado do avô até a Praça Dante Alighieri, coração da cidade. O assunto virou destaque numa matéria especial do velho jornal Correio do Povo, numa página perdida do final da década de 1950.
 
De tantos barcos de papel que soltei no Tega não sei o destino. Talvez algum tenha conseguido seguir o trajeto até o Rio das Antas, depois ao Taquari, chegando mais tarde ao Guaíba, à Lagoa dos Patos e, por fim, ao mar-oceano. 
 
Tinha eu seis anos quando chegou a hora de dizer adeus e partir das margens do Tega. Nunca mais voltei ao arroio em que me tornei navegador.

A vida me levou por águas distantes e revoltas. Às vezes fui feliz como um peixe. Outras me senti triste e só como um capitão que perdeu a bússola e se extraviou no mapa rasgado.
 
De qualquer forma, de tanto ver o arroio passar e ir ao mundo, ganhei gosto de conhecer outros lugares e gentes. E o mundo é uma viagem de onde nunca mais se retorna.
 
Ouvi dizer que o Tega, importante patrimônio ambiental da cidade, onde brincávamos e perto do qual, nos fins de semana, as famílias colocavam mesas para as refeições e encontros, está agora poluído, quase morto. Mas ouvi, também, que estão fazendo obras de tratamento de esgoto e outros efluentes para livrá-lo da morte atroz.
 
Não pode morrer o arroio que fornece água boa de pura nascente rochosa, que foi cenário inesquecível das brincadeiras de meninos e meninas antigos que ali viveram talvez os melhores dias de suas vidas. 
 

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Composição

Jorge Adelar Finatto
 
 
Van Gogh (O mar em Les Saintes-Maries-de-la-Mer, 1888)
Van Gogh Museum, 20 digital highlights


O anjo tombou morto
na terra alheia de uma tela

Van Gogh imagina Gauguin
asfixiando o anjo no jardim
com as mãos queimadas de sol

Dali encoberta a face de granito
com o manto de brilhantes
os brilhantes despojados do anjo

Di Cavalcanti entristece: era uma mulata
o anjo assassinado nas cores do jardim?

Portinari retira-se melancólico
Picasso adentra a gruta de um olho

A noite cai pesada de remorso

Nesse instante todos dão-se as mãos
e cantam a canção predileta do anjo
em volta do corpo estendido no chão

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Do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.