quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Domingo nas praias do Guaíba

Jorge Adelar Finatto 
 
Praia da Pedreira, Parque Estadual de Itapuã, sul de Porto Alegre.
Fonte: Wikipédia. Autor: Paulo RS Menezes
 

A função dos domingos de verão era pegar o bonde, ir até o centro da cidade e dali tomar um ônibus até uma das praias da zona sul de Porto Alegre. Era assim nos anos 1960.  As águas do Guaíba tinham a superfície pintada de azul e eram boas para banho.
 
Lembro que saíamos cedo de casa para aproveitar o dia. A galinha com farofa era o almoço que ia acondicionado na pequena panela dentro da sacola. Algumas bananas e fatias de pão com chimia eram reservadas para o lanche do meio da tarde. Junto iam duas garrafas de suco feito com pó artificial misturado com água (não havia dinheiro para refrigerantes).
 
Levávamos também uma bola de plástico, duas bóias (que inflávamos assoprando no bico), toalhas e a esteira para estender na areia.
 
A jovem mãe e os três filhos, todos com menos de 10 anos. Não havia pai. Cada um de nós carregava uma sacola. O trajeto de bonde até o centro era tranqüilo. Depois caminhávamos duas ou três quadras até chegar ao ponto de ônibus. E esperávamos de pé, sob o sol, numa fila grande, até que algum deles chegasse.

Parecia que todas as famílias pobres da cidade tinham a mesma idéia de ir à praia no domingo.
 
Quando enfim chegava o ônibus (que uns chamavam de navio negreiro), a fila andava. Claro que a maioria das pessoas ia de pé, apertada no corredor. Os assentos eram destinados aos poucos sortudos que entravam primeiro.

A viagem até as praias era animada, durava cerca de 50 minutos. As pessoas falavam alto, contavam causos, faziam piada, crianças corriam entre as pernas dos adultos. Afinal, era domingo, a alegria fazia parte do passeio e ajudava no desconforto.
 
Até que a porta se abria e descíamos na nossa praia, o Guarujá (havia várias outras). Corríamos para a beira do rio, para ver e respirar as águas. Em seguida, esticávamos a esteira, arrumávamos as sacolas ao lado, trocávamos de roupa num dos precários vestiários. Depois era correr e se jogar no Guaíba.
 
Aproveitávamos até as 5 da tarde. Depois era hora de arrumar as tralhas, ir para a fila do ônibus outra vez e fazer o caminho de volta. A gente vinha com a pele avermelhada, a areia grudada no corpo, as caras de cansaço e sono.
 
A aventura dominical terminava com um banho sonolento embaixo do fraco chuveiro elétrico. Antes de adormecer, a lembrança dos últimos reflexos do sol sobre as águas, o toque cálido da água, a visão dos barcos dos pescadores.

Até que algum navio passava ao fundo da aquarela e levava nossos sonhos com ele. 
 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Hay vida antes de la muerte?

Jorge Adelar Finatto
 
 
photo: j.finatto
  
 
Em Montevidéu, os grafites, em geral, têm espírito. As inscrições, desenhos e pinturas em muros e fachadas das ruas montevideanas não perdoam a superficialidade. Uma vez lidas, não deixam o caminhante em paz.
 
Pressentindo que seria um absurdo virar simplesmente as costas e seguir em frente, resolvi fotografar e trazer comigo a inquietante frase. Na ocasião, eu andava caminhando nas cercanias do Teatro Solis.

Hay vida antes de la muerte?

A pergunta me acompanha desde então, veio com a bagagem de volta para a Passo dos Ausentes.
 
Não bastassem as perplexidades e angústias de sempre, acrescentei mais esta ao meu baú de assombros.

Afinal, haverá mesmo vida antes da morte ou seremos apenas tristes fantoches com a boca colorida de pano rasgado e olhos opacos, às voltas com o sofrimento, a indiferença, o desamparo, a solidão?

O que sei é que há dias em que me sinto muito vivo. Parece que a morte ainda não foi inventada. Em outros, contudo, viver não vale um caco de vaso quebrado.

Hay vida antes de la muerte?
 
Sí, pero...
 
_________________
 
Texto atualizado, publicado antes em 14 de junho, 2011.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Memória do vento

Jorge Adelar Finatto 


photo: j.finatto


Não posso
fechar a porta
às histórias
que o vento traz

o mundo esquecido
a vida pequena
seres e coisas
que têm em mim
a eternidade
possível


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Do livro Memorial da vida breve, Jorge Finatto. Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.
 

sábado, 7 de dezembro de 2013

Fanicos e farfalhas

Jorge Adelar Finatto

photo: Wikipédia. Autor: Jon Sullivan
  


Quem viu alguma vez uma joaninha caminhando na página de um livro ou sobre uma folha verde sabe do que estou falando. É talvez o acontecimento mais importante do universo.

Nenhuma literatura e nenhuma filosofia do mundo valem os passos da joaninha.

Só que pouca gente percebe o engenho e a arte por trás da  construção da frágil joaninha.

Existem muitos outros assuntos importantes para se tratar, está bem. Um blog a sério não devia ignorar isso. Tudo bem.
 
O fato, contudo, é que me encanto com os farelos do mundo, com a coisa pouca ou nenhuma, como um raio de sol na janela. As coisas pequenas me atraem, me cativam, me elevam. As outras me enfadam, quando não revoltam.

Encontro beleza e claridade nos fanicos da existência.

Tudo que é breve e pequeno se parece com ser humano e com estar vivo e ser transitório, e isso me interessa sobretudo.

Os verdadeiros e últimos sentidos habitam além das aparências, é assim que eu vejo. E o que eu mais enxergo, quando penso profundamente na vida, é a pequenina joaninha. Talvez tudo isso não passe de mais um dos meus notórios enganos.
 
O mundo silencioso das migalhas me é, por isso, muito caro e diz muito mais sobre o que nós somos - ou o que sou eu, ao menos - do que um tratado ontológico.
 
Quando se perde a palavra, é como se perdêssemos a vida. Deus nos livre e guarde.
 
Na arte, ao menos, podemos voar, sonhar um pouco, levitar acima dos mausoléus e crematórios existenciais.

Mas sei também que ninguém pode viver entre as nuvens.

Deve haver um caminho de passagem entre as farfalhas da biblioteca e a copa das estrelas; entre a imensidão da Via Láctea e os passos humildes da joaninha.

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photo de joaninha: fonte: Wikipédia. Autor: Jon Sullivan (PD-PDphoto.org]
Texto revisto, publicado antes em 25/11/2012.  

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

O último boêmio de Porto Alegre

Carlos Alberto de Souza
 
Darcy Alves
 

O último boêmio de Porto Alegre repousa às margens do Atlântico, em Capão da Canoa. Já faz algum tempo que o professor Darcy Alves, virtuose do violão e dono de voz rebuscada nas velhas canções, teve de abandonar os bares da Cidade Baixa, a Lapa porto-alegrense.

Longe das noitadas em que encantava os mais velhos e os jovens admiradores da música de seresta, ele recupera-se de um percalço de saúde na Clínica Geriátrica Melhor Idade. “Hoje não tem show”, brincou ao telefone quando do outro lado da linha eu disse que era um admirador querendo saber do ídolo. 
As informações da atendente são animadoras. Desde que chegou à clínica, o professor tem melhorado progressivamente. Sua esposa também está morando na cidade litorânea, além dos dois filhos, um deles médico neurologista, especialidade que tem a ver com o estado de saúde do pai. O velho boêmio, agora compulsoriamente afastado do cigarro e da bebida, está bem assistido. E recomeça a dedilhar o violão e cantar, para a alegria de todos na casa de repouso.
A cuca do professor está boa. Perguntei-lhe se lembrava de Emerson Rosa, meu tio, excelente saxofonista, que tocou com ele em algumas ocasiões, acompanhando Lupicínio Rodrigues e também homenageando postumamente o grande compositor, em um espetáculo histórico. “Claro, o Emerson, meu amigo”, disse o professor. Certa vez, quando se apresentava no bar São Jorge e o Dragão, mostrou-me um álbum com fotos de sua carreira.

Além de Lupi, acompanhou Alcides Gonçalves, outro expoente da velha boêmia porto-alegrense, Beth Carvalho, Ângela Maria, Sílvio Caldas, Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Francisco Egídio, Jamelão e Altamiro Carrilho, entre outros.

A noite de Porto Alegre segue viva, com mais bares do que no passado. Certamente, abrigam legiões de boêmios resistentes. Mas não têm o mesmo encanto sem o violão, a voz e a presença do professor Darcy Alves. Ele foi o último boêmio da cidade. E assim deve entrar para a história.  
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Carlos Alberto de Souza é jornalista em Porto Alegre.

smcsouza@uol.com.br


O crédito da foto será dado tão logo conhecido o autor. 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

O que vale na escuridão

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto

 
Os gestos são os melhores professores, os mais autênticos, os que verdadeiramente podem ensinar algo de bom (ou mau) a alguém. Se queremos transmitir valores nos quais acreditamos, precisamos antes dar o exemplo.
 
Um gesto vale, não diria mil, mas um milhão de palavras. Palavras são feitas de ar e delas se ocupa o vento, levando-as. O que importa é o que se faz de concreto com as palavras que brotam sem parar da nossa boca. A teoria, isoladamente, não leva a lugar nenhum.
 
Nessas lucubrações não há nenhuma novidade. É assunto batido, velho (sempre atual embora), que mereceu inclusive tratamento na Bíblia.

Ouçamos o que diz Tiago, irmão de Cristo, na sua Carta: "Vedes que o homem há de ser declarado justo por obras e não apenas pela fé." E ainda: "Deveras, assim como o corpo sem espírito está morto, assim também a fé sem obras está morta." (A Carta de Tiago, capítulo 2, versículos 24 e 26).

Lembro essas coisas ao constatar (todos os dias, todos os lugares) o quanto estamos carentes de atitudes de bondade e civilidade, no dia a dia, nos relacionamentos, na rua, no trânsito, no trabalho, no interior das casas.

O quanto nos falta esse ato capaz de nos tornar mais humanos, mais fraternos, mais solidários, menos julgadores, mais em paz com o outro.

Chego sempre à invariável conclusão de que temos tudo para dar certo como pessoas, fazendo do mundo um lugar mais feliz, mas falta este passo que nos tornará melhores do que somos.

Nunca esqueço, a propósito, o ensinamento de Santo Agostinho, que certa vez ouvi, e que contém uma verdade pulsante como o sol:

"Os maus não são bons porque os bons não são melhores."

Como a maioria das pessoas, estou farto de tanta violência, de ver o sofrimento, a indiferença e o egoísmo tomarem conta.

O que vale é saber quem de nós vai acender a vela, o farol, a lanterna, o archote, a lâmpada para dissipar essa escuridão que nos cerca e que já vai longe demais.

É preciso se iluminar urgentemente.
 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Dizer com a ponta dos dedos

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto
 
 
Despedida na primavera
 
dia após dia um pouco se envelhece
ano após ano volta a primavera
do vinho a alegria cabe a um copo
não chora a flor as pétalas que fogem
 
                                           Wang Wei

 
Para você que não está familiarizado com a poesia chinesa (como eu), tomo a liberdade de recomendar uma obra que chegou há pouco nas livrarias: Antologia da poesia clássica chinesa*. O livro foi traduzido diretamente do chinês para o português por Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao, igualmente responsáveis pela organização, introdução e notas.
 
A publicação é da Editora Unesp com participação do Instituto Confúcio na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho.
 
Não posso avaliar os méritos da tradução, pois para mim o chinês é, literalmente, chinês, isto é, impenetrável. A obra traz os textos, também, em caracteres chineses.
 
Mas a julgar pela leitura em português, acredito que é um trabalho meticuloso e bem realizado. Se não conheço nada do idioma de partida, conheço razoavelmente o de chegada.
 
Os poemas vertidos revelam achados de sintaxe, além de estranhamento e beleza, essenciais na poesia.
 
Estamos falando de poemas escritos entre os anos 618 e 907 d.C., durante a Dinastia Tang, período considerado a época de ouro da literatura chinesa clássica.
 
Por se tratar de trabalho inédito (talvez a  primeira coletânea representativa daquele momento literário), certamente contribui para a aproximação cultural entre China e Brasil, o que não é pouco considerando o histórico distanciamento entre os dois países.
 
E o que encontramos neste conjunto de poemas produzido por vários autores chineses antigos?
 
Há uma delicadeza no dizer as coisas, um tocar com a ponta dos dedos, textos que muito mais sugerem do que nomeiam ou revelam. São criações verbais de pouca extensão e alta intensidade, que confiam na capacidade de desvelamento do leitor e na sua cultivada sensibilidade. Ricos em sugestões semânticas, os poemas são, por isso mesmo, abertos a interpretações e à participação criativa de quem lê.
 
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*Antologia da poesia clássica chinesa. Dinastia Tang. Tradução, organização, notas e introdução por Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao. 312 páginas. Editora Unesp, São Paulo, 2013.

domingo, 1 de dezembro de 2013

De tudo restou o poema

Jorge Adelar Finatto
 
 
photo: j.finatto
 
 
 
De tudo restou o poema
espelho de muitas faces
solitário como um bicho
resfolegando no silêncio
da página
 
 
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Poema do livro Claridade, Jorge Finatto. Prefeitura Municipal de Porto Alegre, 1983.
jfinatto@terra.com.br
 

sábado, 30 de novembro de 2013

A despedida do Bacana

Jorge Adelar Finatto

O Bacaninha. photo: j.finatto.


Sentimental e reservado, ele não era de muita conversa. Um tanto melancólico talvez. Parecia sentir saudade de um mundo que um dia foi de alegria e companheirismo entre seus irmãos siameses. Devia ser num lugar perto do mar, com bastante peixe, alimento preferido.
 
Quando ainda era um gato bebê, nunca se viu mais chorão. Chegou aqui em casa no inverno, faz cinco anos. O único jeito de parar de chorar era deixá-lo entrar embaixo dos cobertores. Aí se acalmava, queria contato físico, calor humano (não tinha outro gato para se aquecer).
 
O Bacana tornou-se um adolescente calado, não gostava de reuniões e ruídos. Preferia o silêncio e o recolhimento do escritório a qualquer outro ambiente da casa. Era doce e cálido.

Apreciava também o muro do quintal. E gostava de sentar-se no quiosque em meio a vasos de flores, de onde podia admirar o Contraforte dos Capuchinhos, na lonjura, com suas montanhas azuis.

Caminhava em silêncio como só os gatos sabem fazer.
 
Às vezes, subia no teclado do computador, com o motorzinho de popa fazendo o rom-rom característico. Queria atenção. Só sossegava quando era acariciado, após alguns minutos.

Nessas ocasiões, sentava na estante perto da janela ao lado do volume encadernado de A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Depois descia a escada escarpada, ia para o pátio, silente e esguio como uma sombra.

No final de agosto, teve uma doença que o levou embora. Primeiro foi para a clínica veterinária onde ainda havia esperança (não muita) em sua recuperação. Até que veio o telefonema anunciando a morte.

Ficou o silêncio de seus passos pela casa.

Perdi os olhos azuis e a meiga presença do Bacaninha.

Falta um gato no escritório.
 
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Texto revisto, publicado em 9 de setembro, 2012.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Alvaro Moreyra

Jorge Adelar Finatto
 
 
Alvaro Moreyra
 
 

Se um dia tiver de escolher um cronista pra levar para a ilha deserta (essa pequena ilha imaginária que  todo mundo tem, de náufrago, com uma só palmeira, perdida no meio do oceano), este cronista será o porto-alegrense Alvaro Moreyra (1888 - 1964).

O Brasil tem cronistas de valor, o sempre lembrado Rubem Braga é, com justiça, um bom exemplo. Mas nenhum tem a sintaxe tão refinada, natural, despojada e poética de Alvaro Moreyra. Não será exagero dizer que ele fundou a moderna crônica brasileira, conforme afirmou Guilhermino Cesar:

Alvaro Moreyra teve o privilégio de criar a crônica moderna no Brasil. Chegou a ser o mais lido dos nossos cronistas. A influência que exerceu é perceptível em muitos autores que vieram depois. Rubem Braga, por exemplo, parece dever alguma coisa ao autor de Um sorriso para tudo.¹
 
As palavras parecem gostar de ser tocadas pela mão do escritor. Passeiam com ele, brincam, mergulham, saltam da página, seduzem e se deixam seduzir. Adoram estar perto do senhor Moreyra (ele acrescentou o y ao nome em lugar do i).
 
Não há sobras nem há faltas no texto do autor (principal influência literária de Carlos Drummond de Andrade, nos anos de formação, entre os escritores brasileiros).

São breves composições que têm a invulgar capacidade de traduzir sentimentos, pensamentos, estados de espírito, aquarelas da alma que normalmente são difíceis de pintar.
 
A leveza, o humor, a bondade, a delicadeza e a ironia inteligente (que nunca se confunde com grosseria) são sua marca.
 
Dele disse Drummond:
 
Uma impressão de magia singela: com poucas e leves palavras, um y e algumas reticências, ele soube dizer finas coisas, que nos tocaram.²

Um olhar amoroso sobre os seres e a vida é o traço deste artesão do verbo.

A injustiça e o sofrimento das pessoas não passam despercebidos nas páginas deste comunista devoto de São Francisco de Assis.

Poeta, cronista, diretor de revistas importantes onde publicou autores como Oswald de Andrade e Carlos Drummond, produtor e apresentador de programas culturais de rádio, teatrólogo (iniciou o movimento de renovação do teatro em nosso país junto com a mulher, Eugênia Moreyra, através do Teatro de Brinquedo),  Alvaro Moreyra sempre levou Porto Alegre e o Guaíba no coração por onde andou.

Estas impressões vêm a propósito de ter descoberto agora a edição de uma antologia de crônicas do escritor, recolhidas dos vários livros que publicou no gênero. É a primeira publicação desta natureza dedicada ao autor de Havia uma oliveira no jardim. A obra faz parte da Coleção Melhores Crônicas, da editora Global, com seleção e prefácio de Mario Moreyra.

Tomo a liberdade de sugerir aos meus dois leitores que não deixem de levar para casa este livro. Estou certo de que viverão momentos de felicidade na companhia do senhor Arlequim da Silva (pseudônimo de Alvaro).

... E fico a ver navios. É um passatempo. O mar, por ser sempre o mesmo, é diferente sempre. Às vezes, verde, com franjas de espuma. Outras vezes, azul, parado, imóvel. Em certas manhãs, parece uma cauda de pavão... Eu gosto do mar. Paro, horas esquecidas, na areia da praia, olhando as ondas, marujamente, cheio de uma nostalgia deixada em mim pelos portugueses meus ancestrais... E fico a ver navios...
É o que tenho feito em toda a minha vida...³
 
                                         Alvaro Moreyra *

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Foto de Alvaro Moreyra: reprodução de fotografia do escritor publicada na revista  Para Todos, de 19 de março de 1927 (coleção do autor do blog).
 
¹Alvaro Moreyra, Jorge Adelar Finatto. Tchê e RBS. Porto Alegre, 1985. p. 65.

²Cadeira de Balanço, Carlos Drummond de Andrade. Livraria José Olympio Editora, 8ª ed., Rio de Janeiro, 1976.


³Alvaro Moreyra, Coleção Melhores Crônicas, p. 54. Seleção e prefácio de Mario Moreyra. Global Editora, São Paulo, 2010.
 
Leia mais sobre Alvaro Moreyra:
 
A memória do coração:

Páginas de velhas revistas:
 
Teatro de Brinquedo:
 
Este post foi revisto e ampliado, tendo sido publicado pela primeira vez em 07 de março, 2012.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

O caçador de flores

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. nov. 2013


O caçador de flores, na sua floral loucura, busca reter a beleza do que, por natureza, é volúvel ao tempo e perecível.

Sou amador na arte de caçar flores, alguém que se dedica ao ofício por puro prazer estético, sem fazer disso meio de vida ou por espírito de emulação com outros caçadores.

Em setembro, lanço-me mais uma vez na delicada faina, mesmo sabendo que imagens conservam apenas a aparência do que foi belo um dia e depois deixou de ser.

Saio por aí com a Coruja, vetusta máquina fotográfica que me acompanha há séculos, e começo mais um dia de caçada. Esta é a época perfeita.

E haja corola para satisfazer a sanha insana.

O gesto é egoísta, reconheço, típico de quem dá valor excessivo ao deleite das formas, cores e aromas, numa ânsia predatória de fazer arrepiarem-se os campos, jardins e pomares. Tal é a índole do caçador.

photo: j.finatto. nov. 2013

O caçador satisfaz o cruento instinto ao capturar flores em fotografias, escondendo-as em secreto compartimento. Todavia, o segredo não resiste à evidência de que o belo precisa ser compartilhado. Só isso torna completa a alegria da caça.

Um dia as flores secam e morrem, como tudo que é vivo e respira. Alguma coisa delas permanece nas imagens. Será essa, talvez, a possível atenuante para a conduta violenta do caçador, no seu afã de ter consigo todas as flores que puder e mais algumas.

Na cidade grande quase não há flores ao ar livre. Por isso, e por não gostar de viver distante delas, quando estou longe de Passo dos Ausentes, levo comigo as imagens floridas. Um jardim de emergência em meio ao deserto de concreto, para suavizar o feio e o triste.

Nos Campos de Cima do Esquecimento, de onde escrevo essas frágeis linhas de primavera, não faltam flores, graças a Deus. Elas crescem generosamente em todo lugar e a caça é abundante.

O retrato é, talvez, um modo patético de aprisionar o efêmero, alguém dirá. Pode ser. Mas o que não é patético nessa vida, não é mesmo, raro leitor?

photo: j.finatto. nov. 2013
 

sábado, 23 de novembro de 2013

Pescadores limpam as águas

Jorge Adelar Finatto

photo: Luciano Lanes. Divulgação da Prefeitura de Porto Alegre
 
Se queres limpar o mundo, começa limpando a tua casa. 
 
A Ilha da Pintada é uma das ilhas que habitam o rio Guaíba em Porto Alegre. Como todas as ilhas, tem seus pescadores, e os pescadores têm suas histórias. Eles escreveram uma bela página na última quinta-feira. Saíram para o rio em 150 barcos, a fim de recolher a sujeira das águas.
 
O resultado desta "pescaria" foi o recolhimento de 20 toneladas de lixo. Havia de tudo: aparelhos de televisão, sofás, colchões, pneus, tanques de plástico, garrafas pet, para-choques de carro e muita coisa mais.
 
A ação dos pescadores - que incluiu também a limpeza de um fragmento dos rios Jacuí e Gravataí - tem o nome de Pescando Lixo. Trata-se de um mutirão organizado pela Colônia de Pescadores Z-5, da Ilha da Pintada, com a participação de órgãos dos governos estadual e municipal.
 
O diretor da Colônia de Pescadores, Vilmar Coelho, observou que esta foi a nona edição do projeto. Disse ele ao jornal Correio do Povo, de Porto Alegre: "É uma maneira de o pescador aproveitar o tempo parado para retirar o lixo do rio, pois com menos lixo vai ter mais peixe". Acrescentou que falta mais apoio ao mutirão, pois os pescadores não recebem sacos para o lixo nem luvas se proteger. 
 
O "tempo parado" por ele referido decorre de ser época em que a pesca é proibida em face da desova dos peixes, período conhecido como do "defeso".
 
O material recolhido foi entregue ao Departamento de Limpeza Urbana de Porto Alegre para reciclagem. O restante irá para aterro sanitário.
 
Se queres limpar o mundo, começa limpando a tua casa. É a idéia que me ocorre ao ver o gesto dos pescadores da Ilha da Pintada, com sua população formada por descendentes de açorianos e africanos.

Se os habitantes do continente ainda são capazes de desatinos como jogar esse lixo nas águas (até quando?), o ato que nos redime tem que vir dos ilhéus.
 
A salvação virá talvez das ilhas... Nelas o rio limpo e o peixe vivo são o mais importante. Esses barcos em movimento carregam a nossa esperança.
  

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Tara McPherson, a persistência do coração

Jorge Adelar Finatto


 A artista desenha figuras femininas e masculinas com um buraco no peito em forma de coração. São os rompimentos amorosos, as duras perdas, o dilaceramento dos afetos, num mundo que se esforça por afastar o sentimento da vida cotidiana.


Sempre me surpreende a capacidade das pessoas de fazer arte, apesar da estrovenga em que o planeta está mergulhado, mercê do grande empenho destrutivo dos senhores do poder e do dinheiro em todos os países do mundo.

Conheci uma breve mostra do trabalho da americana Tara McPherson. Ela nasceu em São Francisco, Califórnia, em 1976.

Quando surge uma artista como Tara, em condições de observar as coisas do mundo e traduzi-las para nós em forma de arte, devemos agradecer a Deus por isso.

A absurda cultura do consumo, a imposição de personalidades patéticas como referência de valor artístico e sucesso midiático, deixam pouca margem ao pensamento crítico e criativo. É raro alguém desenvolver criatividade em meio a padrões tão rígidos de valorização do pueril.
 
 
Tara desenha figuras femininas (e, às vezes, masculinas) com um buraco em lugar do coração no peito. São os rompimentos amorosos, as duras perdas, o dilaceramento dos afetos, num mundo que se esforça por afastar o sentimento do cotidiano.

Os corações ausentes das musas podem significar, também, entrega, estão batendo em outra parte, no corpo dos seres amados, nessa viagem incandescente e visceral pelo cosmos  à procura do outro que nos enxergue na multidão, nos acolha e nos salve das geleiras da solidão.

Às vezes, a figura feminina flutua leve pelo ar, com aquele buraco no lugar do coração, numa espécie de felicidade.


Em outras pinturas, os corações femininos aparecem sangrando.

A artista desenvolve uma estética pop com raízes na história da pintura universal. Não despreza a tradição, pelo contrário, aproveita-a. E segue seu caminho.

Tara costuma falar do amor aos amigos e do respeito ao próximo comos valores essenciais em sua vida. Gosto muito disso, pois revela um ser humano sensível ao seu semelhante e não preocupado apenas com o próprio umbigo.

Visitei o site oficial dela e o coloquei entre os meus favoritos.
 

A obra em construção de Tara McPherson revela traços em busca de sentimento, claridade e beleza. 
 
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Reproduções de pinturas de Tara McPherson a partir do site oficial da artista:

Leia entrevista com ela na revista Zupi:
http://www.zupi.com.br

Texto revisto e atualizado, publicado antes em 6 de agosto, 2011.
 

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Bullock e Clooney perdidos no espaço

Jorge Adelar Finatto

Sandra Bullock, no filme  Gravidade. photo: divulgação
 

Gravidade é um dos melhores filmes que vi nos últimos tempos. Dirigido pelo mexicano Alfonso Cuarón, com roteiro dele e de Jonás Cuarón, estreou em outubro passado. Tem nos papéis principais os atores George Clooney e Sandra Bullock, que interpretam astronautas num vôo nas cercanias da Terra, com a missão de reparar o telescópio Hubble.

As coisas transcorrem normalmente. O comandante Matt Kowalski (Clooney) e a engenheira biomédica Ryan Stone (Bullock) trabalham fora da espaçonave, quando, de repente, uma chuva de detritos provoca a destruição da nave e a morte dos demais tripulantes. Inicia-se então uma terrível luta pela sobrevivência por parte de Matt e Ryan.

A construção das imagens é impressionante. A seqüência das cenas nos leva ao pleno sentimento de desamparo causado pelo fato de se estar a cerca de 400 km acima da Terra, sem qualquer comunicação com os técnicos da Nasa. Os dois viajantes estão perdidos no espaço, soltos no vácuo, sem gravidade, numa região escura, povoada de silêncio. Longe do mundo num ambiente inóspito.

Ali um pedaço de metal, submetido à luz solar, chega facilmente a 260º Celsius, obrigando a utilização de espessas luvas e isolantes térmicos. Na região de sombra, a temperatura despenca para -100º C.

Nesse território obscuro, as estrelas são remotos pontos de luz. A única coisa que brilha, em suaves cores, é o nosso planeta, que surge como um doce jardim em meio ao abismo celeste. Ryan e Matt têm apenas um ao outro.

O resto é solidão e isolamento.

Bullock e Clooney. photo: divulgação

As imagens em três dimensões transportam o espectador àqueles confins, fazendo com que se sinta também perdido, olhando com profunda nostalgia a distante Terra. O cenário é maravilhoso e assustador.

Os astronautas estão à deriva no espaço. Náufragos do infinito, sem galho ou corda em que se segurar. Com a proximidade do fim do oxigênio armazenado no interior do equipamento e com a iminente perda de propulsão que lhes permite deslocamento, a situação torna-se dramática.

Isto é apenas um pálido rumor do que acontece. Tem muito mais.

A história faz pensar tanta coisa.

Entre os possíveis sentidos que o drama sugere, está o da imensa nuvem de solitude e precariedade que cerca aqueles que estão fora do nosso planeta, presos por um fio à vida. Fica a forte sensação de que, sozinhos, não vamos a parte alguma.

Precisamos uns dos outros em nossa precária condição de seres frágeis e pequenos num universo tão vasto quanto difícil. A aventura de viver na Terra e de explorar o espaço exige coragem e solidariedade. Não temos mais do que o outro, que, mais do que algoz, pode ser a nossa inspiração e salvação.

O filme lembra que talvez pior do que passar dificuldades aqui no planeta azul, cercado de gente por todos os lados, é ficar abandonado lá em cima, onde viver é, nas atuais condições, impossível.
 

domingo, 17 de novembro de 2013

A queda do Águia Negra

Jorge Adelar Finatto
photo: j.finatto


Os destroços do aeroplano ainda estão espalhados em volta do chafariz, no centro da Praça da Ausência. Essa queda do Águia Negra não foi apenas a décima oitava na vida do piloto Nefelindo Acquaviva. Mas ao contrário das anteriores, não foi um acidente.

Um traiçoeiro tiro de bombarda, de autoria desconhecida, está na origem do rompimento das relações entre a igreja e a aviação em Passo dos Ausentes.

Nefelindo decolou com o Águia Negra do fundo de seu quintal na tarde de sábado. Sobrevoou cercas e telhados a muito pouca altura. Os vizinhos taparam os olhos com as mãos e baixaram as cabeças, temendo pelo pior.

O ensurdecedor e absurdo objeto voador - espécie de motociclo com asas de besouro, contruído por Acquaviva no galpão do seu pátio - ganhou altitude a duras penas, descrevendo no ar um preocupante ziguezague.

Quando atingiu a marca de 40 metros, Nefelindo iniciou manobra para contornar a torre da igreja e rumar ao sul, na direção de Porto Alegre. O acalentado sonho do pioneiro da aviação em Passo dos Ausentes é aterrissar um dia na capital do Rio Grande do Sul. Com isso quer realizar dois objetivos: chamar a atenção da sociedade para a existência da cidade esquecida, que nem sequer no mapa está, e divulgar a prodigiosa invenção aeronáutica.

No momento em que começava a volta na torre, ouviu-se o assombroso estrondo do tiro de bombarda, cujo projétil passou a poucos centímetros do aparelho, desequilibrando-o nas alturas. O aeroplano bateu no alto da torre contra a cruz, que se partiu e despencou. Em seguida, a nave precipitou-se vertiginosamente, vindo a cair sobre o chafariz no meio da praça. A água amenizou a queda.

Naquela hora a banda municipal ensaiava no coreto. Os músicos correram e retiraram o que sobrou de Nefelindo de dentro do casulo. O médico, Dr. Fredolino Lancaster, 96 anos, único da cidade, compareceu ao local pouco depois da tragédia e fez o atendimento de urgência. Disse que era um milagre o piloto ter sobrevivido. 
Dois dias após, no hospital, pela tarde, todo enfaixado na cama, Nefelindo segurava um charuto entre os dedos, enquanto olhava através da janela. Nuvenzinhas brancas desfiavam entre os fios do negro bigode. Nisso chegou o chefe local da igreja católica, Dom Krauss. O padre usava o chapelão preto em forma de bacia virada para baixo. Dirigiu-se secamente a Nefelindo, com forte sotaque germânico.

- Eu o proíbo de invadir o espaço aéreo da igreja. Se isso acontecer novamente, eu mesmo me encarregarei de atirar contra seu pássaro insano. Acredite, Nefelindo, sou bom atirador.

- Cínico chapeludo - respondeu o aeronauta com a voz cavernosa. A cidade toda sabe que o tiro partiu do pátio da sua igreja. O senhor acaba de decretar o fim do nosso armistício. Nós da aviação não aceitamos intimidação nem ultimatos. Passou o tempo em que a igreja fazia o que bem entendia nesse fim de mundo. Prepare-se para o pior.

- Você não podia andar solto por aí, devia estar no hospício -, disse Dom Krauss, que se retirou furioso do quarto, abrindo espaço com os braços entre as duas enfermeiras que chegaram para atender o sobrevivente.
                              
               &        &        &

Juan Niebla, o músico cego que toca bandoneón na estação de trem abandonada de Passo dos Ausentes, foi até o jardim do hospital e, diante da janela aberta do amigo, executou Adiós Nonino, de Astor Piazzolla.
O perfume das madressilvas impregna o ar nesses tempos de primavera.

Somos ruínas vivas em progresso na nossa pequena cidade. Um lugar onde a neblina veio morar com a solidão. 

Mas temos, como nosso aviador, a ambição dos altos voos.
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Texto revisto, publicado em 24 de setembro, 2010.
Mais sobre o Águia Negra no post de 5 de maio, 2010.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Dom Segundo Sombra

Jorge Finatto

pintura O Gaúcho, de Nélson Jungbluth.
fonte: Relatório Samrig - Moinhos Rio-Grandenses, 1981-1982
 
Guacho e gaúcho pareciam-me o mesmo, porque entendia que ambas as coisas significavam ser filho de Deus, do campo e de si mesmo. 
Dom Segundo Sombra, p. 228

Voltando de Cambará do Sul, no meio de muita chuva e frio, num setembro da vida, resolvi entrar em São Francisco de Paula para tomar um café com bolo na Livraria Miragem, um bom lugar para se encontrar não só livros como objetos de artesanato, além de bom atendimento.
 
Retirei da estante o livro Dom Segundo Sombra¹, do escritor argentino Ricardo Güiraldes (1886-1927), publicado pela primeira vez em 1926. Trata-se  de um clássico da literatura latino-americana, saudado por gente como Jorge Luis Borges.

O que foi decisivo para que o levasse para a mesa do café e, depois, para casa foi ver que o tradutor do espanhol para a última flor do Lácio, inculta e bela² era ninguém mais nem menos do que Augusto Meyer (1902-1970), notável escritor, intelectual e pesquisador porto-alegrense.
 
Comecei a ler enquanto bebia café e comia a inefável fatia de bolo da casa, seguindo-se um refrescante hidromel. O livro me pegou pela cabeça e pela emoção.

Ao ler Dom Segundo Sombra, nos transportamos para a vida dos tropeiros de antigamente, que trilharam os caminhos da formação da identidade do gaúcho, atravessando as grandes solidões do pampa argentino montados em lombo de cavalo, levando gado de um lado para outro. Mas não só gado: notícias, histórias, amizades, saudades, um modo de estar na vida. Aqueles homens levavam no íntimo uma visão de mundo temperada pelo sofrimento, pela dignidade e pela coragem.

A vastidão do silêncio impregnava seus gestos.
 
A história se passa em um cenário em que eles estão expostos a tudo, unidos no duro ofício. Nas difíceis andanças, sob chuva e sol, o horizonte parece ficar cada vez mais longe à medida em que avançam na marcha. Nesse ambiente hostil ao conforto, no qual o convívio social se dá por exceção, a figura feminina aparece em segundo plano. Os cavalos são os imprescindíveis companheiros de travessia. Güiraldes mostra, neste contexto, a iniciação de um jovem na áspera lida rural.


capa da primeira edição³

O jovem é Fábio Cáceres, meio sem eira nem beira no mundo, sem saber direito qual sua origem, perdido na bruma da falta de memória familiar, um guri abandonado, guaxo (isto é, que não tem mãe ou que dela foi separado ainda na amamentação. A. Meyer utiliza a grafia guacho, como no espanhol). Um sobrevivente num universo primitivo mas não destituído de grandeza humana.
 
Dom Segundo Sombra é um homem escuro, forte, andarilho, sozinho como muitos naquelas paragens e naquele tempo, resumido no modo de ser, habituado à ironia cevada daqueles que, como ele, passam a existência trabalhando para proprietários rurais donos de quase tudo. Homem, todavia, a quem a ternura não abandonou e para quem a liberdade se funda no possuir-se, e não no possuir, no feliz dizer de Leopoldo Lugones (1874-1938), no artigo que apresenta o livro.

Dom Segundo carrega muitas histórias, mistérios, saberes da terra, num viver que é a cristalização da imagem do trabalhador do campo. Nesse viver e nos códigos que o norteiam está a raiz da nacionalidade argentina. Uma espécie de protopersonagem, assim como o Martín Fierro de José Hernández (1834-1886). Ele traz uma sabedoria de longínqua origem, de vertente indígena. Sabe lutar como poucos, mas o uso da violência não faz parte do seu modo de ser e resolver as coisas.
 
O encontro do menino Fábio com Dom Segundo Sombra é determinante para ambos. Um resgate de sentidos em meio à solitude de espaços vazios que se perdem em confins.

A vida gira constantemente e muitas vezes se tem a impressão de que não chega a lugar algum. Talvez só a afeição humana possa nos salvar do desaparecimento na sombra opressiva do tempo.
 
Dom Segundo Sombra, o gaúcho por excelência, povoa o ambiente com sua observação aguda da vida e sua bondade, e não nega ensinamentos, conselhos e o contido afeto a Fábio, o qual deixa de ser um desamparado guaxo. Nasce entre eles uma amizade profunda com a marca da cumplicidade e do respeito que só o sentimento de gratidão e a admiração são capazes de criar.
 
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¹Dom Segundo Sombra, Ricardo Güiraldes. Tradução de Augusto Meyer. L&PM Editores, Porto Alegre, 1997.
²verso de Língua Portuguesa, poema de Olavo Bilac.
³photo do Museu Güiraldes, Argentina.
http://www.sanantoniodeareco.com/parque-criollo-y-museo-gauchesco-ricardo-guiraldes
 

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Segredos do implúvio

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto
 

I

Dizem
que escrever
poemas
é ofício
de pouco valimento

mas pouco se revelou
sobre a memória
da sombra
as paredes úmidas
da velha casa de madeira
o escuro corredor
onde se morria
um pouco todos os dias
sem notícia
sem amanhã

II

alguém precisava
recordar
os soturnos habitantes
da rua humilde
na cidade serrana

lembrar o cheiro
de suas vestes
as pedras soltas
na porta das casas

os casacos pretos
nas manhãs de geada

III

nada ou muito pouco
se disse
dos segredos do implúvio

eu me pergunto por que
esse vazio em torno

estaria no silêncio
acre das caves
o destino de partir?

trabalho lento
nas escarpas
do coração

IV

não fossem
os trilhos
do trem
o barulho santo
do trem
atravessando
a madrugada
criando ao menos
em tese
a possibilidade
da fuga
muitos teriam
desistido de tudo
ali mesmo
como fez Chico
o Esquecido

V

o coração não é
assim mero

cresce em segredo
na dura colheita

não se esvazia
o coração
como se esgotam
as cisternas

VI

alguém precisava contar
a náusea persistente
a longa e tortuosa estrada
que desce na Capital

melhor não inventar
histórias
de castelos e linhagens
que nunca existiram
e se houve
federam
como podem feder
as escadarias
dessas obscuras passagens
perdidas no planeta
que recolhem
seres rastejantes

VII

o que se registra
no tombo do tempo
é que há um menino
imóvel
à beira da jovem defunta

naquele lugar
a despedida
com alguma flor
sussurros abafados

ele pergunta
onde ela foi habitar

o que vê
é a morte
e seu absurdo trabalho
convertendo em pó
a luz dos olhos

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Do livro O habitante da bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.
 

domingo, 10 de novembro de 2013

Ilhas e taperas

Jorge Adelar Finatto 
 
photo: Eduardo Tavares. veleiro no Guaíba
 
 
Um dia desses saí a navegar pelo Guaíba no meu barco de papel.
Às vezes ele se chama Sonhador, outras, Solidão.
No itinerário, desembarquei em algumas ilhas.
Confesso me assustei com as taperas que encontrei.
Tapera, do tupi, aldeia extinta.
Habitação em ruína, lugar abandonado.
Filipo, o papagaio que sempre me acompanha, costuma dizer: tapera, é em nós que ela existe.
Nos nossos gestos vazios, nas nossas omissões, na impotência de mudar a vida, na indiferença.
De tão abandonadas, as ilhas se transformam em território de fantasmas.
Cada um de nós é uma ilha nessas águas tão fundas do viver.
Quando olho em volta da minha ilha, encontro outras ilhas. Muitas ilhas.
Apesar da quantidade e da proximidade, não formamos  um arquipélago.
Existimos isoladamente. Em certos dias flutuamos à deriva.
Os habitantes das ilhas querem falar e ser ouvidos.
Raros, contudo, dispõem-se a escutar.
Esse o flagelo que assola o mapa das ilhas.
Habitamos taperas modernas, com computador, blog, máquina de lavar, tv a cabo, aparelhos de som, ar-condicionado, elevador, secador de cabelo, mil coisas.
Em nosso íntimo, continuamos homens e mulheres das cavernas, com poucos amigos. Solitários, primitivos, ilhados.
Lutamos pra sobreviver, saímos à caça todas as manhãs, disputamos ferozmente espaços no  mercado de trabalho, no mercado de alimentos, no mercado das paixões. Com sorte, encontraremos nosso quinhão no mercado do amor.
Desconfiamos quando nos mostram o coração.
Dores e medos são curtidos no recesso como se não existisse mais ninguém no bairro, no edifício.
As nossas moradias, tugúrios onde nos escondemos. Planejamos a fuga para um lugar que não sabemos se existe, mas deve ser melhor.
Olho o movimento dos barcos na entrada do cais.
Ouço o ruído seco do vento na vela branca do veleiro.
Uma gaivota atravessa o rio.
O entardecer aprofunda o exílio.
Não conseguimos formar um arquipélago.
O Guaíba embala a solidão das nossas ilhas e taperas.

 
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A photo do Eduardo não é uma maravilha?  Texto revisto, publicado antes em 04 de fevereiro, 2010.
 

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

António Zambujo vale um banquete

Carlos Alberto de Souza
 
António Zambujo. photo: Rita Carmo*
 
António Zambujo vale um banquete, mas saiu por quilo de alimento não perecível na gostosa noite da quinta (7/11) no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Os que foram assisti-lo saíram nutridos com o que de melhor a música pode oferecer. Cantor maravilhoso, repertório maravilhoso, músicos maravilhosos.
Em algumas canções, Zambujo lembrou Caetano, pela afinação, beleza vocal e gorjeios. Mas também lembrou Chico, de quem cantou Valsinha, um dos grandes momentos do espetáculo, curtido por representantes da colônia portuguesa de Porto Alegre. E até as onomatopeias de João Bosco se insinuaram na voz do gajo do Alentejo (por sinal, onde fica a Portoalegre deles).
Zambujo é de primeiríssima grandeza, mas, pelo que se viu no palco e após o espetáculo, nos autógrafos do seu CD Outro sentido, desprovido de estrelismo. Dividiram a cena com ele os virtuoses Ricardo Cruz (contrabaixo) - da estatura de um Jorge Helder -, Bernardo Couto (guitarra portuguesa), José Miguel (clarinete) e João Moreira (trompete). Todos tiveram o demorado e reconhecido aplauso da plateia, que quase lotou o espaço.
O brincalhão Zambujo disse esperar que tenha sido a primeira de outras apresentações na capital gaúcha. Tomara. Assim também devem pensar o simpático Wiliam, que veio especialmente de Santos (SP) para o espetáculo, e o casal Verissimo e Lucia, que aplaudiu o artista português.
Para terminar, vale dizer que no segundo e último bis, António Zambujo cantou Foi Deus, de Alberto Janes, acompanhado apenas do contrabaixo de Ricardo Cruz. Caiu-lhe bem o verso “...Foi Deus que me pôs no peito um rosário de penas que vou desfiando e choro ao cantar / Fez poeta o rouxinol / Pôs no campo o alecrim / Deu as flores à primavera / Ai... e deu-me esta voz a mim”.
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photo do site oficial do artista:
 Carlos Alberto de Souza é jornalista em Porto Alegre.
smcsouza@uol.com.br