quinta-feira, 12 de julho de 2018

O caso da Enciclopédia Barsa

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 
COMO A CASA da serra está cheia de livros, um dia desses fui aconselhado a me desfazer ("desapegar") daqueles que não interessam mais (livros há muito lidos, esquecidos, que não pertencem ao grupo dos "essenciais").
 
Providência, aliás, que tomei há um ano, separando cento e alguns livros para doar. Só que ainda não tive coragem, porque a cada olhar retiro os que, pensando bem, merecem ficar. E, assim, cada vez retiro alguns, diminuindo a pilha. 
 
Sabendo da minha dificuldade em "desapegar", alguém da família teve a gentileza de retirar de uma estante, e acomodar com carinho, a velha Enciclopédia Barsa. Quando, ao regressar de viagem, entrei no escritório, dei com aquele quadro (para mim) dantesco.
 
Pra quem não sabe, as enciclopédias eram o Google de antigamente. A elas se recorria para pesquisar e realizar estudos nas mais diversas áreas do saber. Eu comprei a Barsa com sacrifício, pagando em prestações. Além dos volumes, com bonita encadernação, havia os livros do ano que traziam as atualizações.

Aquela enciclopédia, há quase quarenta anos, me deu esperança de dias melhores. Acreditava, como ainda acredito, no estudo e no conhecimento como ferramentas para construir caminhos.

Como poderia me desfazer de algo com tanto significado? Resumo do caso: pedi que recolocassem a Barsa no lugar. Não estou em condições de fazer o desapego...

Numa espécie de codicilo verbal, disse que, quando fizer a passagem, podem fazer da Barsa o que quiserem. Mas, por enquanto, ela fica, assim como os demais livros que me ajudaram e ajudam a viver. Porém deixo claro: se vier um pedido de doação para escola ou outra instituição, farei com prazer.
 

segunda-feira, 9 de julho de 2018

No tempo do Cine Vogue

Jorge Finatto
 
Retratos de Ingmar Bergman. fonte: site oficial*
 
 
TEVE UM TEMPO em Porto Alegre que assistir a filmes de Ingmar Bergman (1918 - 2007) era uma religião. O diretor sueco era o pastor de almas de muita gente por aqui, principalmente estudantes, intelectuais,  perdidos na vida e trânsfugas em geral.
 
Era na época da ditadura civil-militar. Eu andava pelos 19 anos em 1976. O general Geisel era o presidente de plantão com o apoio de parcela da sociedade civil brasileira e parte da imprensa. Os direitos e garantias individuais estavam fora da ordem jurídica. Ter ideias e opiniões diferentes dos que ocupavam o poder configurava crime do pensamento. Sim, muito parecido com o "1984", de George Orwell.
 
Nos regimes em que a escuridão vigora, as nuances são proibidas e qualquer sutileza é vista como inimiga. Todos são suspeitos (de alguma coisa) até prova em contrário. Era assim.

O Cinema Vogue, na Avenida Independência, era, como os demais de então, um cinema de rua. Tinha uma programação especial, considerada "cabeça". Um território de resistência em meio à repressão, assim como os bares da Esquina Maldita. 
 
A delicadeza era uma ilha deserta a mil milhas do continente.

O nórdico Ingmar Bergman não tinha nada a ver com a ditadura no Brasil. Não sabia que era o pastor daquelas almas abismadas em voos interiores e travessias espirituais.

Não sendo possível mudar a realidade, muitos buscavam outras claridades. Havia um mundo intangível a ser descoberto, onde os donos do poder e os emissários da morte não entravam.
 
Apesar da pobreza material em que eu vivia, e do escasso tempo para os assuntos do espírito, apreciava os itinerários bergmanianos através da consciência, da memória e, sobretudo, do inconsciente. A manhã seguinte aos filmes de Bergman era sempre o cru desafio da luta pela sobrevivência.

O Brasil de então era e, sinto dizê-lo, ainda é um lugar onde reina uma grande violência social baseada na exclusão e na indiferença. O acesso às coisas da arte continua um privilégio para poucos.

O país conseguiu livrar-se da ditadura, mas não logrou o mesmo com a corrupção, responsável direta pelo atraso e pelo sofrimento da maioria. A dita esquerda tomou o poder central, mas as práticas continuam as mesmas, e em algumas situações pioraram muito como evidenciam os escândalos de grossa corrupção dos últimos anos.
 
Devo dizer, também, que gostava de filmes de Teixeirinha e Mazzaropi, que assistia em outras salas tidas como menos cult, do povão. Havia um grande preconceito das classes média e alta, principalmente entre universitários, em relação a esses filmes brasileiros. Uma coisa idiota como todo preconceito.
 
Essas lembranças me vêm porque andei revendo Morangos Silvestres (1957) e Fanny e Alexander (1982), duas obras-primas do grande cineasta. Me lembrei de mim e de nós. Da vida que foi e da que poderia ter sido. Da vida que passou, tempo finito.

Olhei com esperança para a vida que é e para a que vem vindo logo ali.
 
Viver pode até ser difícil para quem leva o coração entre as mãos, sem omiti-lo nas suas ações e decisões. Mas é infinitamente melhor do que ser mais um a roubar, a dar porrada, a pisar na cabeça dos outros, a destruir a vida alheia, a não ter valores.
 
Muita gente se perdeu no caminho em sinistras direções. Eu inventei tempo para a poesia e a arte em minha vida e tentei/tento compartilhar isso. Foi e é uma maneira de não me perder e de não enlouquecer em meio a uma realidade tão absurda, desumana e violenta como a do nosso país.

Ave, sentimento.
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Site Oficial de Ingmar Bergman:
Os direitos humanos em Cuba:
Texto publicado em 12 de agosto, 2014.
 

terça-feira, 3 de julho de 2018

La última tarde de Borges en Buenos Aires

Jorge Finatto 

Alberto Casares. photo: jornal Clarín, Buenos Aires*

 
NA TARDE de segunda-feira (19, janeiro, 2015) me dediquei a visitar livrarias, que é o que tenho feito em Buenos Aires. O que esta cidade é para mim? Cafés e livrarias. E caminhadas pelo bairro Puerto Madero, olhando os barcos e o movimento das pessoas ao longo do braço do Rio da Prata que entra pela cidade.
 
Antes de sair do hotel, telefonei para a librería de Don Alberto Casares. Fui atendido ao telefone pelo próprio. Queria saber até que horas estava aberta: até as 19h30min, ele respondeu. A bordo do chapéu de palha, lá me fui na tarde quente do janeiro bonaerense.

A livraria está situada no centro da cidade, na Calle Suipacha, 521. Há ali primeiras edições de livros raros. Há ambiente de livros e cheiro de livros. Não é um supermercado onde também se vende literatura. Mas há nesse lugar, sobretudo, a figura de Don Alberto.

photos: jfinatto, 19/1/2015

Apresentei-me ao livreiro dizendo que era um antigo leitor de Jorge Luis Borges (1899-1986), um borgista. Ao que ele respondeu: fazemos parte de uma comunidade espalhada pelo mundo. Senha e contrassenha ajustadas, começamos a falar do mestre, mas não só. Alberto admira, como eu, a saga das Missões Jesuítico-Guaranis. E lamentamos que Borges não tenha escrito sobre o assunto.

Em seguida falamos a respeito do tema deste texto. Alberto Casares organizou, sem o saber, aquela que foi a última tarde de Borges em Buenos Aires, passada no seu ambiente natural: uma pequena livraria na cidade amada. O escritor viveu ali sua despedida dos amigos e da Argentina.

Ao realizar uma exposição com as primeiras edições das obras do escritor, no mês de novembro de 1985, Don Alberto convidou-o para estar presente. Conversou com Borges ao telefone em diversas ocasiões. Borges escolheu o dia 27 de novembro para o evento. Explicou que viajaria no dia seguinte para a Itália, onde passaria o Natal, e depois iria para Genebra, uma de suas pátrias, como dizia. Alberto ponderou se não seria melhor outra data. Borges disse que não, 27 estava bem. Só o escritor sabia que naquele lugar e naquele dia faria sua despedida.

photo: jfinatto

Na dia marcado, Alberto telefonou-lhe pela manhã e Borges falou que não poderia ir à livraria, estava complicado por causa da viagem a realizar-se em menos de 24h. Alberto ficou desanimado, mas desejou-lhe uma ótima ida à Europa. Restou triste e abatido.

Naquela mesma manhã, falou com um amigo, na livraria, sobre o ocorrido (notando seu ar de desalento, o amigo queria saber o que havia). Disse-lhe o companheiro para telefonar outra vez a Borges. Foi o que fez mais tarde. Do outro lado, o escritor atendeu e perguntou-lhe:

- Casares, que esperas para vir me buscar?

Eram 14h. Correu até sua casa, na Calle Maipú, e o levou para a livraria. Borges conversou e autografou livros para os presentes (não era um grupo grande), entre os quais o amigo e também escritor Adolfo Bioy Casares, que não encontrava havia muito tempo. Foram cinco horas de convívio, um encontro simples e cálido, sem discursos. Ao despedir-se, no fim da tarde, Borges disse que estava partindo para a Europa no dia seguinte. Iria para Genebra onde morreria.

- Me voy a Ginebra a morir.

Borges com Bioy Casares. Atrás, Alberto (de barba). photo de Julio Giustozzi
 
As pessoas não entenderam a manifestação do escritor. Ninguém sabia que estava muito doente. A realidade é que partiu com María Kodama no dia 28 de novembro, nunca mais voltou à Argentina e, de fato, morreu cerca de sete meses depois, em 14 de junho de 1986, em Genebra, onde foi sepultado no Cemitério de Plainpalais.

Alberto Casares ama a literatura de Borges e os livros em geral. Dirige a importante Coleção Memória Argentina, publicada por Emecé Editores. Além de parente, foi amigo muito próximo de Adolfo Bioy Casares. Nas paredes de sua livraria, habitam fotos de Borges e outros escritores. Entre elas, alguém que nos é muito caro: Miguel de Unamuno.

O Don que dedico a Alberto Casares é resultado de um breve porém rico encontro. O reconhecimento a um homem que cultiva a humildade, o humanismo e a cultura.

photo: jfinatto
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*Vídeo com entrevista de Alberto Casares para o jornalista Luis Sartori do jornal Clarín:http://www.clarin.com/sociedad/Admiro-Borges-abre-cabeza-corazon_0_905909590.html
 
Texto publicado em 21 de janeiro, 2015. Acho que vale a republicação. Com um abraço a Don Alberto.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Clariceando

Jorge Finatto
 
Clarice Lispector
 

EU VINHA TORTO de leituras difíceis, arrastadas, porque livro é um troço que, às vezes, pode ser muito chato. Há livros que nos levam a um rotundo cansaço, seguido de frustração, queremos terminar a leitura o quanto antes, como quem se livra de um pesadelo.

Não agradam nosso paladar (paladar, como se sabe, cada um tem o seu). Nem sempre o problema é da obra, por vezes é o nosso gosto que não está bom.
 
Vinha eu sofrido nos tortuosos caminhos de páginas secas, escarpadas, quando tive aquela iluminação que às vezes me salva: quem sabe leio ou releio alguma coisa de Clarice Lispector (1920 - 1977).

O texto clariceano jamais me deixa abandonado no meio do caminho, nunca me enfada. Salvo se enfadar tivesse algo a ver com fada. Sim, porque Clarice tem alguma coisa de fada na escrita que brota de suas mãos ternas e violentas (sua força é capaz de revolver as entranhas de um vulcão).
 
Mas então passei na livraria e lá estava A descoberta do mundo (Editora Rocco, Rio de janeiro, 1999), que reúne os textos que ela publicou no Jornal do Brasil, aos sábados, entre 1967 e  1973. São anotações, crônicas, pensamentos, pequenos contos, novelas.
 
Nesta coluna estou de algum modo me dando a conhecer. p. 137

É verdade, ao escrever para jornal, Clarice abriu portas e janelas do claro-escuro casarão de sua alma, que abriga uma multidão de outras almas nos seus misteriosos aposentos.

É preciso ter coragem e merecimento para conseguir aproximar-se de Clarice.

Além de rara escritora, uma linda mulher, que nada ficava a dever às divas do cinema e às beldades expostas nas capas de revista. Em Clarice encontravam-se reunidos, como poucas vezes acontece, beleza física e talento.

A natureza esmerou-se na sua criatura.

Estou agora, nessa madrugada gelada de Passo dos Ausentes, conjugando o verbo claricear, me delicio com seu texto alto, transcendente, humano, em que não há sobras, não há poses, mas um rigoroso mergulho em busca da expressão, que traz à tona tesouros escondidos nos corações e mentes de mulheres e homens.

Uma exploradora de águas profundas, Clarice consegue traduzir com palavras aquilo que dorme no mais recôndito de cada ser, e o faz com tal naturalidade que até parece uma coisa simples.

Felizes somos nós, os que podem lê-la no original em português, que presenciamos o milagre de sua criação sem necessidade de oráculos, bebendo na fonte um texto de valor universal.

Peço humildemente para existir, imploro humildemente uma alegria, uma ação de graça, peço que me permitam viver com menos sofrimento, peço para não ser tão experimentada pelas experiências ásperas, peço a homens e mulheres que me considerem um ser humano digno de algum amor e de algum respeito. Peço a bênção da vida. p. 117

Bons tempos em que escritores como  Clarice Lispector escreviam para jornal. O prazer de ir até a banca da esquina e lá encontrá-la brilhando na página efêmera do sábado. Não existem mais grandes cronistas no Brasil e faz tempo.

A época luminosa em que também escreviam em jornal Carlos Drummond, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, José Carlos Oliveira, Guilhermino Cesar, Carlos Reverbel, Tarso de Castro, Joel Silveira, Mario Quintana, Caio Fernando, entre vários outros. Poupo o leitor de comparações com o que (não) temos atualmente, não vale a pena.

O que importa é que, sempre que reencontro Clarice, redescubro a alegria da palavra e volto a me sentir um peixe feliz no aquário da biblioteca.
 
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Texto revisado, publicado antes em 31.5.2013

segunda-feira, 18 de junho de 2018

As mãos de Van Gogh

Jorge Finatto

photos: jfinatto, 2018, Kunsthaus Museum, Zürich

NO DETALHE, a força e o poder da pincelada de Van Gogh. O quadro é Le cyprès et l'arbre en fleurs ( O cipreste e a árvore em flor, imagem abaixo) da coleção do Kunsthaus Museu, em Zurique, na Suíça. A espessura do traço, sua intensidade, profundidade, largura, ondulações e cores nos dão uma ideia do esforço do artista em sua luta solitária com a tela.

Ele pintava rápido, às vezes mais de um quadro por dia, e essa produção o levava muitas vezes à exaustão física e mental. Tinha urgência em criar, em deixar um legado e um testemunho de sua passagem. Ele cuja obra contava com poucos admiradores além do irmão Theo. Ele que foi muitas vezes considerado um pária.

O reconhecimento consagrador no Salon des Indépendants, em Paris, março de 1890, no final da vida, pouco significou. O sonho havia se partido. O artista pobre, doente, sensível e temperamental se esfacelou contra o paredão da realidade. Fez da pintura sua razão de viver. A arte foi seu território de luta e sobrevivência. A criação venceu a estupidez e a indiferença. A obra de Van Gogh habita o sublime.


O Kunsthaus foi inaugurado em 1787 e merece uma visita de dois dias pelo menos. Passei lá algumas horas numa tarde e foi pouco para conhecer seu rico acervo com obras de Rodin, Paul Klee, Picasso, Monet, Cézanne, Alberto Giacometti e tantos outros clássicos. Mas o pouco que vi, vi com calma, e fotografei (sem utilizar flash, conforme regra da casa). O pessoal do museu é gentil, as instalações são ótimas e a gente sai de lá querendo voltar um dia.
 

sexta-feira, 15 de junho de 2018

A fábrica do esquecimento

Jorge Finatto

máquina antiga. Livraria Miragem, São Francisco de Paula

 
OLHO a velha fotografia. Estou batendo nas teclas da máquina de escrever na redação do jornal Folha da Tarde, de Porto Alegre, que existiu entre 1936 e 1984. O ano é 1982. Trabalho na dura lida de repórter. Eu acreditava então que teria um futuro no jornalismo, porque gostava de ler, escrever e buscar a verdade das coisas. Meu sonho era trabalhar com jornalismo cultural.
 
Vinte e alguns anos, pai de filho, pagando aluguel e tudo mais, salário baixo. A luta de sempre. Algum tempo depois, não vendo perspectiva na profissão, mudei o rumo do meu barco e fui para o Direito.

Naquele momento minha luta era sair da pobreza que me acompanhava desde sempre. Concluíra a Faculdade de Comunicação Social na PUC a duras penas. Nela conheci o ser humano admirável, professor e grande jornalista que foi Antoninho Gonzalez, que me estimulou e ajudou muito a conseguir este primeiro trabalho em jornal.
 
Novo no ofício, aprendi que a matéria com que se lida numa redação é o efêmero. Um jornal é feito para ser esquecido. Terá sorte se for lembrado por estudiosos no futuro. No entanto, quanto esforço é preciso para fazer um bom jornal!

Quantos bons profissionais, quanto talento, quanta luta, quanta renúncia são necessários para construir as páginas do esquecimento! 
 
O Brasil é o que é com a imprensa livre das últimas três décadas. Se você acha que estamos muito mal como nação (de fato estamos), imagine como seria sem a imprensa a esquadrinhar e divulgar os podres que muitos querem esconder na sombra.
 
Eu me vejo jovem e inteiro na antiga foto. Vivo. Acreditando no poder da palavra para mudar a realidade e melhorar a vida de todos. Uma bela luta. Tudo valeu a pena. Cada linha, cada parágrafo que escrevi nos breves anos de repórter.

(Como leitor, sou grato a todos os jornais e revistas lidos à procura de um novo olhar, verdade e beleza.)

domingo, 10 de junho de 2018

Breves memórias

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 

CERTAS RECORDAÇÕES podem nos fazer felizes ou infelizes. As tristes é bom nem lembrar. As boas nos protegem nos dias de tempestade. Felizmente, eu tenho algumas que me salvam.
 
Por exemplo, quando Paco passava com seu caminhão lá em casa para buscar a mim e a avó. Ele nos dava carona até Porto Alegre para visitar parentes. Era um amigo da família.
 
O caminhão chegava lá pelas três, quatro da madrugada. Já estávamos prontos, com a mala, a bolsa da avó e um farnel de galinha com farofa e suco de frutas para a longa descida até a capital.
 
Viajávamos na cabine com Paco. O caminhão descia a serra muito lentamente, a estrada era  perigosa. Eu um pouco dormia, um pouco acordava no colo da avó. Tinha uns quarto, cincos anos. Quando o dia amanhecia, tudo brilhava na estrada, a mata e as altas montanhas exalavam um aroma verde, suave e bom.
 
Eram homéricas aquelas viagens com paradas para beber água em fontes naturais, comer frutas na beira da estrada e admirar abismos. Porto Alegre era uma espécie de Tróia, um lugar desconhecido com muita gente estranha e coisas esquisitas como navios e bondes.
 
Poucos dias e já queríamos regressar a Passo dos Ausentes, a nossa querida Ítaca. A viagem de volta era de trem, com os últimos vagões que então ainda rasgavam os caminhos do Rio Grande do Sul. Antes da incompreensível e desastrosa decisão dos sábios políticos brasileiros de acabar com o transporte ferroviário de cargas e passageiros no território nacional. Uma entre tantas decisões que nos levaram onde estamos.
 
As boas recordações nos salvam.