terça-feira, 23 de maio de 2017

Ushuaia, a cidade do fim do mundo

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto 21 maio 2017
 

QUANDO O AVIÃO da Aerolíneas Argentinas começa a descer e atravessa o almofadão de nuvens, a quase dez mil metros de altitude, inicia-se a aproximação de Ushuaia. A visão que então se descortina é deslumbrante e perturbadora.
 
As primeiras imagens revelam a majestade da Cordilheira dos Andes, com suas montanhas cobertas de gelo e neve, numa extensão que a vista não ousa alcançar (cerca de oito mil km), percorrendo vários países da América do Sul. Num cálculo feito a olho da janela do avião, estimo entre dois e quatro mil metros a altura dessas elevações nesse ponto.
 
A maior montanha do maciço (e das Américas) alcança quase sete mil metros (6.960), o Aconcágua (Sentinela de Pedra), em Mendoza, também na Argentina. Prosseguindo, avista-se o Estreito de Magalhães, passagem entre o Atlântico e o Pacífico.
 
Ushuaia, a mais de três mil km de Buenos Aires, é a última cidade ao sul do planeta, a mais austral (La Cuidad del Fin del Mundo), capital da Província da Terra do Fogo, fundada em 1884. Depois dela, a álgida e desabitada (salvo exploradores e cientistas) Antártida. O Canal de Beagle, em frente, com cerca de 240 km de comprimento, faz também a ligação entre os oceanos Atlântico e Pacífico.
 
A Patagônia (na parte mais meridional da América do Sul) é uma das regiões mais belas do mundo. Nela sente-se a presença de Deus no silêncio das vastas extensões solitárias. Aqui no fim do mundo os extremos se encontram. E não há espaços para vidas isoladas. As pessoas precisam umas das outras para enfrentar a ausência.
 
Aqui é o fim do mundo. Solitude, imensidão. Ventos gélidos, impossíveis. Lugar onde as mãos precisam se dar. Começo talvez de uma nova quimera.
 

sábado, 13 de maio de 2017

O vício dos livros

Jorge Finatto
 
Italo Svevo. fonte: Wikipédia


O HOMEM É UM ANIMAL de óculos. O pensamento (aqui livremente transcrito) é do escritor italiano Italo Svevo (1861- 1928) e está na última página do livro A consciência de Zeno*, sua obra-prima. 
 
Svevo escreveu-o após um período de 20 anos sem nada produzir, frustrado diante da falta de reconhecimento de seus primeiros trabalhos. Estimulado por seu professor de inglês em Trieste, ninguém menos do que o escritor irlandês James Joyce, que se impressionou com seu talento literário, retomou a escritura traduzindo Freud para o italiano  e construindo este romance que foi publicado em 1923.
 
Em suas páginas, Svevo questiona o jogo de poder  na sociedade, o progresso e seus artefatos que muitas vezes põem tudo a perder.
 
O autor faz uma abordagem dos impulsos inconscientes que movem os personagens, em conformidade com a psicanálise de Freud em desenvolvimento na época (pela qual Svevo tinha grande interesse). Com humor, sensibilidade e sutileza, trabalha com a figura do anti-herói, um homem que passa a vida tentando parar de fumar e não consegue, enroscado em dilemas familiares, afetivos e psicológicos. Zeno produz um relato escrito de suas memórias, buscando autoconhecimento, tratamento e cura, conforme recomendação de seu psicanalista. Mostra-se cético em relação à análise para si, mas não chega a abjurá-la. O resultado desse trabalho é surpreendente.
 
Eu comprei A consciência de Zeno (em rica tradução de Ivo Barroso) em janeiro de 1984 (tinha o costume de datar os livros), numa banca de jornais. Era no tempo em que a Editora Abril publicava uma coleção de clássicos nacionais e estrangeiros. As edições eram excelentes: capa dura, papel de qualidade, preços acessíveis. Os autores (e tradutores) eram naturalmente muito bons. 
 
De sorte que até um cara pobre como eu, que vivia na dura lida da sobrevivência, podia com algum sacrifício comprar um volume por mês e assim iniciar uma pequena e intrépida biblioteca.

Como animal de óculos que tinha respeito e afeição pelos livros, minha autoestima se revigorava a cada obra adquirida. Os livros significavam consolo e beleza numa realidade violenta e sufocante como a brasileira. Nada mudou.
 
Tenho grande dificuldade de me desfazer de livros, mesmo daqueles pelos quais já não tenho tanto interesse. Talvez porque cada um deles está inserido na minha história e teve, a seu tempo, um sentido.

No dia em que eu morrer provavelmente eles vão acabar num alfarrabista qualquer, porque as casas já não têm espaço para livros. Os tempos são de nanotecnologia e é possível acumular várias bibliotecas num singelo leitor eletrônico.
 
A filha Clara diz ter medo que meu escritório desabe qualquer hora, comigo dentro dele, por causa do peso dos livros e quinquilharias. Acho que isso não vai acontecer pois coloquei novas estantes no andar debaixo, transferindo para elas parte do peso. A família não gosta desta estratégia de acumulador compulsivo (com razão). Estou me esforçando pra mudar isso, mas não é fácil.
 
Do mesmo modo que Zeno Cosini não conseguiu abandonar o cigarro, eu não consigo abandonar meus livros. Meu desapego das coisas materiais não chegou até eles. Em todo caso, tranqüilizei a todos: se o escritório vier abaixo, não se perderá grande coisa. Exceto pelos livros, claro.
 
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*A consciência de Zeno. Italo Svevo. Tradução de Ivo Barroso. Abril Cultural, São Paulo, 1984.
 

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Saudade de um colo

Jorge Finatto 
 
photo: jfinatto
 
(...) há certos momentos em que sinto uma grande falta de um colo macio e morno onde recostar a cabeça e dormir tranquilamente - dormir, dormir, dormir, como se eu fosse apenas um passarinho.
Campos de Carvalho*
 

OS FIOS DE LUZ no alto da rua, esticados entre os postes, parecem a pauta de um caderno escolar. Ou as cordas de aço de um violão tocadas pelo vento. 
 
A chuva não parou na tarde de sábado. Nessas ocasiões vou até a janela especular o invisível. Perto, a uns vinte metros, estava a pomba cinza descansando sobre o fio. Melhor dizendo: tomava um banho de chuva. Parecia tão calma, distante de tudo e aconchegada.
 
Cheguei a ficar preocupado: estaria ela sem forças, doente, e por isso não se animava a bater asas e buscar abrigo? Dava a impressão de estar um pouco cansada. Talvez, como eu, com saudades de um colo de mãe.
 
photo: jfinatto
 
Mas ela estava muito segura de si, não esboçava sinal de fraqueza, qualquer tremor ou desequilíbrio. Às vezes fechava os olhinhos mergulhando num doce cochilo. Peguei a máquina e fiz algumas fotos, sem estardalhaço. Notei que ela percebeu meu movimento, mas não se incomodou.
 
Permaneceu ali por muito tempo, curtindo a chuva que caía sem pressa. Livre, sozinha, na santa paz. E eu me lembrei da frase em epígrafe desse livro encantador que é A lua vem da Ásia, do grande escritor mineiro Campos de Carvalho (1916 - 1998). Um belíssimo e cálido achado da língua portuguesa.
 
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*A lua vem da Ásia, pág 41. Campos de Carvalho. Editora Autêntica, 5ª edição, Belo Horizonte, 2016.
 

terça-feira, 2 de maio de 2017

Tarde no Brasil

Jorge Finatto
 
 
O sentimento que me levou a escrever este poema, há muitos anos, é parecido com o de agora. A diferença é que, naquele tempo, eu tinha 22 anos e uma vida pela frente. Havia a ditadura militar mas havia, sobretudo, a esperança na democracia, que acabou se impondo pela vontade do povo. Os maus políticos e a corrupção, contudo, botaram tudo por terra. Precisamos urgentemente reinventar o sonho.
 

TARDE no Brasil
nenhuma novidade no coração ou no lugar
estou vivo

na esquina da Rua Santana
homens pobres discutem futebol
mulheres passam ao lado
o ruidoso colorido da roupa
cortando o silêncio em fatias

tarde
nenhuma esperança nos olhos de Esmeralda
a louca cantora sentada no meio-fio

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Poema do livro Claridade. Jorge A. Finatto. Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento, 1983.
 

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Alberta de Montecalvino

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

VENEZA é o sonho de toda Colombina.

Eu passei a vida em Passo dos Ausentes. O que é esse lugar? Um território sitiado pelo vento. A neblina, o frio e a solidão povoam a aldeia o ano inteiro.

Habito com amargura e ironia esta estação de fim de mundo.

Casei-me aos 14 anos com Dom Alberto de Montecalvino, o Solitário da Biblioteca. Contrato de gaveta. Era eu de pobre origem. Estudava as primeiras letras e ajudava no serviço de casa. A mãe, viúva de quatro filhos, lavadeira, no inverno vendíamos lenha na porta das casas.

Na época Dom Alberto contava 69 anos. Desde aquele quando, passei a viver neste austero castelo de basalto e vidro. Hoje tenho 70 anos, sou deveras viúva e, às vezes, me perco nos salões da memória. As intermitências.

Daqui de cima, na larga janela da biblioteca, avisto o Contraforte dos Capuchinhos. Gosto muito dessa visão porque por ali é que se vai embora de Passo dos Ausentes. Mas nunca passei naquela estrada. Dom Alberto me pediu que jamais o fizesse. Os medos. Atendi o bom homem. Passaram-se os anos.

O muito amado do meu coração é Pedrolino. Dom Alberto sempre soube, suportou, era como um pai pra mim. O meigo Pedrolino. Amoroso e fiel. Seu amor é casto e resignado. Tem as delicadezas, carrega bosques de melancolia na alma gentil.

Arlequim é o senhor das labaredas.

Inconstante e fútil. Nunca vem ao meu coração. Tem meu corpo, jamais minha alma. Com ele muito me rio, é engraçado, leviano. Incapaz de amar alguém além de si mesmo. Não tem sentimento.

O corpo tem fome e a fome, seus apetites.

Arlequim é malicioso, egoísta, por isso sabe agradar quando quer. Pedrolino é terno, quase um menino, vai direto ao assunto. Não conhece as sutilezas.

Quem pudera reunir, na mesma pessoa, as gratas virtudes. Mas o mundo humano foi costurado imperfeito, eu sei. Tal felicidade ninguém merece.

Ambos os dois, Arlequim, o devasso, e Pedrolino, o amado, são a minha devoção. Cada qual no seu momento.

Sou a Senhora da Biblioteca. Viúva mui constante em negras vestes de luto. Os respeitos a Dom Alberto. Tenho a minha idade, conheço os regulamentos, mas só os cumpro à minha vontade. Cultivo a fé, no discreto. Véu de seda e missal.

Não me julguem tão depressa. Poupem-me da moral de almanaque.

De metafísica e solidão o cemitério está cheio. Conheço os reveses.

Eu vivo os enquantos.
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Texto publicado em 7 de julho, 2011.

sábado, 22 de abril de 2017

Benedictus de Spinoza

Jorge Finatto

Spinoza. pintura a óleo, cerca de 1665. autor desconhecido.
fonte: Wikipedia

UMA PEQUENA MESA de carvalho. Uma cama. Dois travesseiros. Uma estante de livros feita em madeira de pinho com prateleiras. Algumas lunetas. Um manto turco. Dois anéis de prata. Um paletó colorido.  Uma calça. Um jogo de xadrez. Uma mala velha.
 
Dois chapéus pretos. Dois pares de sapato. Um saco de viagem. Sete camisas. Uma gravata de algodão.  Dois lenços usados. 160 livros.

São alguns dos poucos objetos que fazem parte do inventário do filósofo holandês Benedictus de Spinoza, morto em casa, em Haia, na Holanda, em 21 de fevereiro de 1677. Acervo mínimo de quem quase nada teve além de si próprio e de seus pensamentos. A relação completa consta da excelente obra Ética, publicada pela Editora Autêntica, com elogiada tradução de Tomaz Tadeu em edição bilíngüe latim-português.¹

Benedictus de Spinoza (1632 - 1677), filósofo nascido em Amsterdam, filho de família portuguesa de origem judia que emigrou para a Holanda, tinha a desagradável mania de fazer o que todo filósofo que se preza faz: pensar pela própria cabeça. O que, no ambiente em que vivia, era uma ousadia e um atentado às verdades estabelecidas pelos líderes religiosos judeus e de outras religiões, e pelos políticos da época.

Ainda jovem (23 nos), em 1656, é excomungado e expulso da religião e da comunidade judaicas devido a sua formação humanista e liberal e a suas "más opiniões e obras", bem como pelas ligações com livres-pensadores. Onde já se viu sair-se com ideias novas sobre Deus, os homens e a vida?

Defendeu a liberdade de pensamento, sem interferência religiosa ou política, e a separação entre Estado e Igreja, política e religião. Do mesmo modo refletiu sobre a influência dos afetos na vida em sociedade. Foi profundo, corajoso, inovador.

O Conselho da Sinagoga, em Amsterdam, não deixou por menos: "expulsamos, amaldiçoamos e esconjuramos" Spinoza:

"Maldito seja de dia e maldito seja de noite, maldito seja em seu deitar, maldito seja em seu levantar, maldito seja em seu sair, e maldito ele em seu entrar. Que não queira Adonai (Soberano Senhor) perdoá-lo, mas, antes, inflame-se o furor de Adonai e o seu rigor contra esse homem e lance contra ele todas as maldições escritas no livro desta Lei. E que Adonai apague o seu nome de sob os céus, e que Adonai o afaste, para sua desgraça, de todas as tribos de Israel, com todas as maldições do firmamento escritas no Livro desta Lei. E vós, os dedicados a Adonai, que Deus vos conserve todos vivos. Advertindo que  ninguém lhe pode falar bocalmente nem por escrito nem conceder-lhe nenhum favor, nem debaixo do mesmo teto estar com ele, nem a uma distância de menos de quatro côvados, nem ler Papel algum feito ou escrito por ele." (Herem - anátema - pronunciado contra Spinoza, em 27 de julho de 1656).²
 
A liberdade de espírito, o conhecimento longe de sectarismos e o questionamento de verdades dadas costumam ser malqueridos e maltratados pelas religiões e sistemas políticos.

Vivemos uma permanente Inquisição (ou incineração) das almas livres e sonhadoras. O que aconteceu com Spinoza lá, acontece hoje aqui, com algumas variações, mas em igual essência. Nada de novo sob o sol.

Mas o filósofo de pele morena e cabelos pretos encaracolados foi decisivo na construção de uma nova claridade, lançando um vento de esperança contra o inferno.
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1,2. Ética. Spinoza. Edição bilíngue Latim - Português. Tradução de  Tomaz Tadeu. Editora Autêntica. 3ª edição, 1ª reimpressão. Belo Horizonte, 2013.

Agradeço à Editora Autêntica pela autorização das citações.
 

sábado, 15 de abril de 2017

Maria Madalena

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 
Maria Madalena teve o privilégio de ser a primeira a ver Jesus após a Ressurreição.  Nenhum dos apóstolos teve essa ventura. Havia nas cercanias do lugar onde ele foi assassinado (Monte Gólgota, Jerusalém) um jardim e, neste, um túmulo novo ainda não usado. Foi nele que o sepultaram José de Arimateia (discípulo secreto de Cristo, homem influente e rico) e Nicodemos, envolto o corpo em fino linho.

Enquanto ela chorava diante do túmulo, onde o corpo não estava mais, Jesus apareceu-lhe. Era de manhã muito cedo. Num primeiro momento ela não o reconheceu. Até que ele diz: "Maria!". E a alegria de Madalena é infinita. Em lágrimas, ela toca o Senhor levantado dos mortos.  Ele então lhe fala:

- Para de agarrar-te a mim. Porque ainda não ascendi para junto do Pai. Mas, vai aos meus irmãos e dize-lhes: "Eu ascendo para junto de meu Pai e vosso Pai, e para meu Deus e vosso Deus".

Impressiona o amor de Maria Madalena por Cristo e o sentimento que os unia. Ele tinha expulsado sete demônios dela e a partir de então ela passou a segui-lo e amá-lo, segundo o relato bíblico.

Em sua passagem pelo mundo, Jesus mostrou-se um ser espiritual num corpo humano. Um ser que valorizava por demais o afeto. Daí ter proclamado a importância de amarmos ao próximo como a nós mesmos. Teve o amor como algo urgente e necessário.

Estamos à véspera da Ressurreição, no domingo de Páscoa. Relendo os quatro Evangelhos por esses dias (Mateus, Marcos, Lucas e João), dei-me conta de que, durante a vida,  assim como nas horas finais e na Ressurreição, Cristo foi acompanhado de perto, modo amoroso e atento, por mulheres.

O aparecimento de Jesus a Maria Madalena é revelador disso. É prova de gratidão e de um grande carinho. Mostra que ele não era indiferente à presença feminina em sua vida, mas tinha-a em elevada consideração.

Não há informes sobre Maria Madalena (da aldeia de Magdala, cuja existência foi comprovada por recentes escavações em Israel), além dos Evangelhos. Sabe-se, por exemplo, que assistiu a Cristo e aos apóstolos com seus bens como outras mulheres também o fizeram (Lucas 8: 1, 2, 3).

Quem foi essa mulher? O que fez e como viveu? Que momentos luminosos compartilhou com Jesus? Como se passaram seus dias depois da morte de seu amado Senhor? São mistérios a desafiar interpretações e especulações.

Uma coisa, contudo, parece certa: por ser quem era e pelo seu imenso amor, ela conquistou o coração de Jesus.