sexta-feira, 29 de junho de 2018

Clariceando

Jorge Finatto
 
Clarice Lispector
 

EU VINHA TORTO de leituras difíceis, arrastadas, porque livro é um troço que, às vezes, pode ser muito chato. Há livros que nos levam a um rotundo cansaço, seguido de frustração, queremos terminar a leitura o quanto antes, como quem se livra de um pesadelo.

Não agradam nosso paladar (paladar, como se sabe, cada um tem o seu). Nem sempre o problema é da obra, por vezes é o nosso gosto que não está bom.
 
Vinha eu sofrido nos tortuosos caminhos de páginas secas, escarpadas, quando tive aquela iluminação que às vezes me salva: quem sabe leio ou releio alguma coisa de Clarice Lispector (1920 - 1977).

O texto clariceano jamais me deixa abandonado no meio do caminho, nunca me enfada. Salvo se enfadar tivesse algo a ver com fada. Sim, porque Clarice tem alguma coisa de fada na escrita que brota de suas mãos ternas e violentas (sua força é capaz de revolver as entranhas de um vulcão).
 
Mas então passei na livraria e lá estava A descoberta do mundo (Editora Rocco, Rio de janeiro, 1999), que reúne os textos que ela publicou no Jornal do Brasil, aos sábados, entre 1967 e  1973. São anotações, crônicas, pensamentos, pequenos contos, novelas.
 
Nesta coluna estou de algum modo me dando a conhecer. p. 137

É verdade, ao escrever para jornal, Clarice abriu portas e janelas do claro-escuro casarão de sua alma, que abriga uma multidão de outras almas nos seus misteriosos aposentos.

É preciso ter coragem e merecimento para conseguir aproximar-se de Clarice.

Além de rara escritora, uma linda mulher, que nada ficava a dever às divas do cinema e às beldades expostas nas capas de revista. Em Clarice encontravam-se reunidos, como poucas vezes acontece, beleza física e talento.

A natureza esmerou-se na sua criatura.

Estou agora, nessa madrugada gelada de Passo dos Ausentes, conjugando o verbo claricear, me delicio com seu texto alto, transcendente, humano, em que não há sobras, não há poses, mas um rigoroso mergulho em busca da expressão, que traz à tona tesouros escondidos nos corações e mentes de mulheres e homens.

Uma exploradora de águas profundas, Clarice consegue traduzir com palavras aquilo que dorme no mais recôndito de cada ser, e o faz com tal naturalidade que até parece uma coisa simples.

Felizes somos nós, os que podem lê-la no original em português, que presenciamos o milagre de sua criação sem necessidade de oráculos, bebendo na fonte um texto de valor universal.

Peço humildemente para existir, imploro humildemente uma alegria, uma ação de graça, peço que me permitam viver com menos sofrimento, peço para não ser tão experimentada pelas experiências ásperas, peço a homens e mulheres que me considerem um ser humano digno de algum amor e de algum respeito. Peço a bênção da vida. p. 117

Bons tempos em que escritores como  Clarice Lispector escreviam para jornal. O prazer de ir até a banca da esquina e lá encontrá-la brilhando na página efêmera do sábado. Não existem mais grandes cronistas no Brasil e faz tempo.

A época luminosa em que também escreviam em jornal Carlos Drummond, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, José Carlos Oliveira, Guilhermino Cesar, Carlos Reverbel, Tarso de Castro, Joel Silveira, Mario Quintana, Caio Fernando, entre vários outros. Poupo o leitor de comparações com o que (não) temos atualmente, não vale a pena.

O que importa é que, sempre que reencontro Clarice, redescubro a alegria da palavra e volto a me sentir um peixe feliz no aquário da biblioteca.
 
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Texto revisado, publicado antes em 31.5.2013

segunda-feira, 18 de junho de 2018

As mãos de Van Gogh

Jorge Finatto

photos: jfinatto, 2018, Kunsthaus Museum, Zürich

NO DETALHE, a força e o poder da pincelada de Van Gogh. O quadro é Le cyprès et l'arbre en fleurs ( O cipreste e a árvore em flor, imagem abaixo) da coleção do Kunsthaus Museu, em Zurique, na Suíça. A espessura do traço, sua intensidade, profundidade, largura, ondulações e cores nos dão uma ideia do esforço do artista em sua luta solitária com a tela.

Ele pintava rápido, às vezes mais de um quadro por dia, e essa produção o levava muitas vezes à exaustão física e mental. Tinha urgência em criar, em deixar um legado e um testemunho de sua passagem. Ele cuja obra contava com poucos admiradores além do irmão Theo. Ele que foi muitas vezes considerado um pária.

O reconhecimento consagrador no Salon des Indépendants, em Paris, março de 1890, no final da vida, pouco significou. O sonho havia se partido. O artista pobre, doente, sensível e temperamental se esfacelou contra o paredão da realidade. Fez da pintura sua razão de viver. A arte foi seu território de luta e sobrevivência. A criação venceu a estupidez e a indiferença. A obra de Van Gogh habita o sublime.


O Kunsthaus foi inaugurado em 1787 e merece uma visita de dois dias pelo menos. Passei lá algumas horas numa tarde e foi pouco para conhecer seu rico acervo com obras de Rodin, Paul Klee, Picasso, Monet, Cézanne, Alberto Giacometti e tantos outros clássicos. Mas o pouco que vi, vi com calma, e fotografei (sem utilizar flash, conforme regra da casa). O pessoal do museu é gentil, as instalações são ótimas e a gente sai de lá querendo voltar um dia.
 

sexta-feira, 15 de junho de 2018

A fábrica do esquecimento

Jorge Finatto

máquina antiga. Livraria Miragem, São Francisco de Paula

 
OLHO a velha fotografia. Estou batendo nas teclas da máquina de escrever na redação do jornal Folha da Tarde, de Porto Alegre, que existiu entre 1936 e 1984. O ano é 1982. Trabalho na dura lida de repórter. Eu acreditava então que teria um futuro no jornalismo, porque gostava de ler, escrever e buscar a verdade das coisas. Meu sonho era trabalhar com jornalismo cultural.
 
Vinte e alguns anos, pai de filho, pagando aluguel e tudo mais, salário baixo. A luta de sempre. Algum tempo depois, não vendo perspectiva na profissão, mudei o rumo do meu barco e fui para o Direito.

Naquele momento minha luta era sair da pobreza que me acompanhava desde sempre. Concluíra a Faculdade de Comunicação Social na PUC a duras penas. Nela conheci o ser humano admirável, professor e grande jornalista que foi Antoninho Gonzalez, que me estimulou e ajudou muito a conseguir este primeiro trabalho em jornal.
 
Novo no ofício, aprendi que a matéria com que se lida numa redação é o efêmero. Um jornal é feito para ser esquecido. Terá sorte se for lembrado por estudiosos no futuro. No entanto, quanto esforço é preciso para fazer um bom jornal!

Quantos bons profissionais, quanto talento, quanta luta, quanta renúncia são necessários para construir as páginas do esquecimento! 
 
O Brasil é o que é com a imprensa livre das últimas três décadas. Se você acha que estamos muito mal como nação (de fato estamos), imagine como seria sem a imprensa a esquadrinhar e divulgar os podres que muitos querem esconder na sombra.
 
Eu me vejo jovem e inteiro na antiga foto. Vivo. Acreditando no poder da palavra para mudar a realidade e melhorar a vida de todos. Uma bela luta. Tudo valeu a pena. Cada linha, cada parágrafo que escrevi nos breves anos de repórter.

(Como leitor, sou grato a todos os jornais e revistas lidos à procura de um novo olhar, verdade e beleza.)

domingo, 10 de junho de 2018

Breves memórias

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 

CERTAS RECORDAÇÕES podem nos fazer felizes ou infelizes. As tristes é bom nem lembrar. As boas nos protegem nos dias de tempestade. Felizmente, eu tenho algumas que me salvam.
 
Por exemplo, quando Paco passava com seu caminhão lá em casa para buscar a mim e a avó. Ele nos dava carona até Porto Alegre para visitar parentes. Era um amigo da família.
 
O caminhão chegava lá pelas três, quatro da madrugada. Já estávamos prontos, com a mala, a bolsa da avó e um farnel de galinha com farofa e suco de frutas para a longa descida até a capital.
 
Viajávamos na cabine com Paco. O caminhão descia a serra muito lentamente, a estrada era  perigosa. Eu um pouco dormia, um pouco acordava no colo da avó. Tinha uns quarto, cincos anos. Quando o dia amanhecia, tudo brilhava na estrada, a mata e as altas montanhas exalavam um aroma verde, suave e bom.
 
Eram homéricas aquelas viagens com paradas para beber água em fontes naturais, comer frutas na beira da estrada e admirar abismos. Porto Alegre era uma espécie de Tróia, um lugar desconhecido com muita gente estranha e coisas esquisitas como navios e bondes.
 
Poucos dias e já queríamos regressar a Passo dos Ausentes, a nossa querida Ítaca. A viagem de volta era de trem, com os últimos vagões que então ainda rasgavam os caminhos do Rio Grande do Sul. Antes da incompreensível e desastrosa decisão dos sábios políticos brasileiros de acabar com o transporte ferroviário de cargas e passageiros no território nacional. Uma entre tantas decisões que nos levaram onde estamos.
 
As boas recordações nos salvam.
 

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Pausa para o café

Jorge Finatto
 
Jean Pierre Pâtisserie et Boulangerie
 espaço externo. photos: jfinatto
 
 
NO BAIRRO BELA VISTA, meu território em Porto Alegre, há vários cafés. Bons cafés. Desses que têm doces e salgados, café de qualidade e mesas espaçosas. Gosto de freqüentá-los quando estou na cidade, especialmente em dias muitos frios como neste domingo de fim de outono.
 
Na tarde gelada, fui à banca de jornal e depois ao café Jean Pierre Pâtisserie (doces e bolos) e Boulangerie (pães), na rua Antônio Rebouças, 74, alto de uma colina do bairro.
 
Fiz o que sempre faço nestes locais: li, escrevi, provei um bom croissant, além do cappuccino.
 
É um bom lugar pra se estar, descansar, recompor ideias. E tem um jardim com verdes que aconchegam os olhos e a alma.