sábado, 11 de julho de 2020

As primeiras horas

Jorge Finatto

photo: jfinatto



Imagino o que os habitantes da Arca de Noé devem ter sentido quando as águas do Dilúvio baixaram e puderam olhar o azul do céu outra vez. Hoje, depois de muitos dias de pandemia, chuva, frio, ventania, ciclone bomba, enchentes, mortos e desabrigados, e sem poder ver uma nesga de céu claro, o dia amanheceu azulzinho. Abri a janela do escritório e respirei aquele azul.

Como tinha sede do Sol, desci a escada Santos Dumont e fui para o nosso jardim. Um pouco maltratadas com o mau tempo, as rosas estavam lá ainda. E as camélias, as magnólias, as azaleias, as flores de mel, as éricas também. Fiquei ali com elas, apanhando sol.

Depois fui recolher galhos e gravetos que caíram com a tempestade, para acender o fogão a lenha. Cada movimento com calma, como se o mundo estivesse começando agora. E fosse preciso viver essas primeiras horas com a delicadeza e o espanto de uma borboleta.

domingo, 5 de julho de 2020

O jeitinho brasileiro diante da tragédia

Jorge Finatto

photo: jfinatto. rosa amarela: esperança


A estimativa de que o Brasil poderá chegar a 100 mil mortos pela covid-19 nos próximos dois meses está se confirmando. O número diário de óbitos passa de mil e, seguindo assim, ultrapassará aquela projeção feita por especialistas. Uma catástrofe.

O que se percebe é uma quase indiferença em relação ao assunto. Quando a pandemia se instalou na Europa, houve comoção. Agora que está aqui, em números muito maiores, parece que não nos diz respeito. 

A falta de coesão no enfrentamento da doença é alarmante. O pouco caso de parte da população às orientações sanitárias é inacreditável. A maioria sabe o que precisa ser feito para impedir a propagação da doença. Mas muitos reagem como se se tratasse de uma gripezinha apenas, como a relativizou há algum tempo o Presidente da República. Aliás, um capítulo especial caberá a este senhor, quando for contada a história da pandemia no Brasil.

O que falta ao nosso país é amor social. Não nutrimos apreço pela vida em sociedade, a lei que vale é a famosa "quem pode mais chora menos". Não temos sentimento de coletividade. Somos capazes de atos solidários no varejo, aqui e ali, mas não alimentamos a empatia como um valor necessário e indispensável.

Claro que existem pessoas solidárias e envolvidas com o bem comum. Mas a média dos que praticam tais virtudes é insuficiente. A indiferença em relação às muitas tragédias que nos atingem pode ser observada quando olhamos para o número anual de assassinatos, para  as favelas, presídios, para a falta de saúde, educação, saneamento, moradia, para os elevados níveis de corrupção, devastação da natureza, etc.

Não formamos propriamente uma nação, mas um amontoado de gente sem direção, os "espertos" puxando brasa para o seu assado, achando que isso é o certo. O resultado é o que se vê. 

Somos uma sociedade autofágica, que não se comove com a dor do próximo. Não fomos educados para desenvolver ideia de pertencimento que reforce nossos vínculos com a comunidade na qual estamos inseridos e da qual bem ou mal dependemos. Ao contrário, o mantra desse modus vivendi é: cuide de si, leve vantagem, suba na vida, não olhe para os lados.

Uma sociedade com esse nível de desunião é incapaz de acusar o golpe ante as mais de 100 mil mortes anunciadas (hoje esse número chegou a 64.365*, sendo o primeiro óbito em março passado).

É um triste espetáculo para o mundo. Um atestado de frieza moral. Um péssimo legado para nossos filhos e netos.

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O Globo:
https://oglobo.globo.com/sociedade/coronavirus/brasil-registra-64365-mortes-por-covid-19-informa-consorcio-de-veiculos-da-imprensa-em-boletim-das-20h-24515993

terça-feira, 30 de junho de 2020

As últimas folhas

          Jorge Finatto

photo: jfinatto


Caíram as últimas folhas do outono
novelo de lã nas mãos de Maria
fogão a lenha, pinhão
conversa na noite fria

anúncio do inverno: ventania

esperança de vida
apesar do isolamento,
da pandemia
e do autoritarismo
(em progresso)
no Brasil

que Deus proteja o povo (todos nós)
da peste e da tirania

sexta-feira, 26 de junho de 2020

O visitante

Jorge Finatto

Lausanne, Suíça. photo: jfinatto


Quando o frio chega
eu saio com o bolso
cheio de pássaros
e vou até aí te visitar

tempero o inverno
no teu calor
de mulher

de manhã parto feliz
com tua luz
nas entranhas

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Do livro Claridade, coedição Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento, 1983.

terça-feira, 23 de junho de 2020

O caçador

Jorge Finatto

Rosa. photo: jfinatto

O caçador de flores, na sua floral loucura, busca reter a beleza do que, por natureza, é volúvel ao tempo e perecível.
Sou amador na arte de caçar. Dedico-me ao ofício por puro prazer, sem fazer disso meio de vida. Também não nutro espírito de emulação com outros caçadores.
Lanço-me à faina, mesmo sabendo que retratos conservam apenas a aparência do que foi belo um dia, e depois deixou de ser.
Saio por aí com a Coruja, vetusta máquina fotográfica que me acompanha há séculos, e começo mais um dia de caçada.
E haja corola pra satisfazer essa sanha insana.
O gesto é egoísta, típico de quem quer dar expansão ao próprio deleite estético, numa ânsia predatória de fazer arrepiarem-se as pedras.
O caçador satisfaz o cruento instinto ao capturar as imagens, escondendo-as em seguida em secreto compartimento.
Todavia, o segredo não resiste à evidência de que o belo precisa ser compartilhado pra ser admirado.
Só a exposição da caça torna completa a alegria da caçada.
Um dia as flores secam e morrem, como tudo que é vivo e respira. Alguma coisa delas permanece nas photos. Será essa, quem sabe, a possível atenuante para a conduta do caçador, no seu afã de ter consigo todas as flores que puder e mais algumas.
Na cidade grande quase não há flores. Por isso, e por não gostar de viver distante delas, quando estou longe de Passo dos Ausentes, levo comigo o baú de fotografias. Um jardim de emergência em meio ao deserto de concreto, suavizando o feio e o triste.
No lugar onde escrevo essas frágeis linhas, não faltam flores, graças a Deus. Elas crescem generosamente e a caça é abundante.
O retrato é, talvez, um modo patético de aprisionar o efêmero. Mas o que não é patético nessa tosca existência, não é mesmo, raro leitor?
Magnólia rosa. photo: jfinatto
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Texto revisto, publicado antes em 26 nov. 2013.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

A Praia do Gasômetro

Jorge Finatto

Guaíba com barco e neblina. photo: jfinatto
 

Ele precisa respirar um pouco de ar fresco, sair do calabouço. Recorda como eram bons os banhos, as caminhadas e brincadeiras que, quando criança, fazia pela orla do Guaíba.
 
Um dia distante se viu só diante do rio. A casa da serra tinha afundado.

O rio passou a ser seu único amigo na cidade grande.
 
Sai do calabouço na tarde de junho. Precisa respirar.Vai até a margem do Guaíba fazer um passeio sentimental, que é uma maneira de não deixar o vazio tomar conta.
 
A hora mais feliz do dia era pelo meio da tarde, quando mães e crianças saíam das casas e apartamentos com roupas de banho, guarda-sol, chinelo, toalha e iam para a Praia do Gasômetro, ali ao lado da alta chaminé que virou cartão-postal.
 
Era só sair de casa, esperar o bonde passar, atravessar a rua, e estavam na areia. Ser feliz era simples.
 
O Guaíba é esse espelho sobre o qual o céu se debruça todos os dias com o sol, as nuvens, o azul, e, à noite, com as estrelas.
 
No dia em que tudo o mais estiver perdido, haverá a memória do rio e nele um barco branco com vela branca para levar o menino a navegar nas águas claras e sem margens da infância.
 
A ilha ensolarada da infância.
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Texto revisto, publicado antes em 3 de novembro, 2015.


segunda-feira, 15 de junho de 2020

Drummond e a máquina de costura

Jorge Finatto

Carlos Drummond de Andrade¹

Uma antologia de poesia brasileira e uma máquina de costura. Que relação têm essas coisas? Nenhuma aparentemente. Mas foi através desse inusitado encontro que li, pela primeira vez na vida, um poema de Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987).

Gosto de lembrar e contar essa história. Numa casa de gente pobre como era a nossa, livro raramente entrava, era artigo de luxo. Eu tinha 15 anos e minha mãe comprou a máquina de costurar pra cuidar das roupas da família.

Por feliz iniciativa do fabricante (ou da loja que vendia o produto, nunca soube), junto com a máquina vinham duas antologias: a de poesia brasileira e uma outra de poetas portugueses. Os dois volumes eram pequenos e grossos (trago-os até hoje na estante, são os livros que estão comigo há mais tempo).

A força viva da palavra apresentou-se diante de meus olhos quando li Cantiga de viúvo do bardo de Itabira. Algo estremeceu dentro de mim, uma porta se abriu e nunca mais fechou.

Como podia alguém escrever aquelas coisas, daquele jeito?

Havia tanto sentimento e beleza naqueles versos que me emocionei com a viuvez do poeta. Drummond tinha só 28 anos quando publicou Alguma Poesia, em 1930, seu primeiro livro, no qual está incluído o poema. Ele não era viúvo, pelo contrário, estava na flor da juventude e trilhava o caminho do conhecimento amoroso. A comovente história do poema tinha brotado da imaginação e da sensibilidade do escritor.

O texto drummondiano transmutou invenção em realidade na alma do adolescente leitor que eu era. Me tocou fundo a solidão do homem perplexo e sofrido ante a perda do seu amor.

Concluí que, se era possível dizer tais coisas com palavras tão simples, então valia a pena escrever. Despertar emoção e capacidade de sentir dor e alegria faz parte da missão dos poetas.

Fiquei para sempre com aquela impressão de força e limpeza da expressão escrita do poeta mineiro, confirmada depois de travar conhecimento com sua obra.

Drummond é uma lição perene de poesia.

Cantiga de viúvo²

A noite caiu na minh'alma,
fiquei triste sem querer.
Uma sombra veio vindo,
veio vindo, me abraçou.

Era a sombra de meu bem
que morreu há tanto tempo.

Me abraçou com tanto amor
me apertou com tanto fogo
me beijou, me consolou.

Depois riu devagarinho,
me disse adeus com a cabeça
e saiu. Fechou a porta.
Ouvi seus passos na escada.
Depois mais nada...
                                 acabou.
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¹Foto colhida na internet. O crédito será dado tão logo conhecido o autor.
²Poema do livro Alguma poesia, da antologia Reunião, 10 livros de poesia de CDA. Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1977.

Também sobre Drummond: A memória do Coração:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2010/04/memoria-do-coracao.html 
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Texto republicado, editado antes em 31.10.83