sábado, 13 de agosto de 2022

Salve, Jorge

 Jorge Finatto

foto: Jorge Amado, 1972. Fundo documental: Correio da Manhã,
 Wikipédia

Nos 110 anos do nascimento de Jorge Amado (1912), comemorados em 10 de agosto passado, reproduzo este depoimento. Salve, Jorge.

Antes de enveredar para o Direito e depois para a magistratura, trabalhei como jornalista, após fazer a faculdade de jornalismo. Em dezembro de 1984, tive oportunidade de entrevistar Jorge Amado (1912 - 2001). A entrevista foi marcada através de carta e telefone. Na época eu escrevia a biografia do poeta, cronista, radialista, editor de grandes revistas e teatrólogo porto-alegrense Alvaro Moreyra (1888 - 1964).*

Jorge Amado concordou em dar um depoimento. Fiquei feliz com a atenção do grande escritor baiano, que na ocasião veio a Porto Alegre autografar o romance Tocaia Grande, lançado naquele ano. Aproveitei e pedi que assinasse o exemplar do livro que havia comprado especialmente para o encontro.

A entrevista durou cerca de uma hora e meia no saguão do Hotel Plaza São Rafael. Zélia Gattai, sua mulher, também escritora, deixou-nos à vontade para a conversa. Naquele tempo, o casal Amado residia uma parte do ano em Paris e outra no Brasil. Jorge gostava de modo especial do outono parisiense. Em Salvador encontrava dificuldade de escrever devido à procura dos leitores, jornalistas e mesmo turistas, que queriam conhecer a casa onde morava o criador de Gabriela, cravo e canela.

Não tenho dúvida de que o que o levou a concordar com a entrevista foi o respeito, a admiração e o carinho que nutria pelo amigo Alvaro (sem acento) Moreyra, cuja casa passou a frequentar desde que chegou ao Rio de Janeiro, ainda muito jovem.

Pedi-lhe que falasse, entre outros assuntos, sobre o que representou a casa de Alvaro e Eugênia Moreyra (primeira repórter brasileira), na rua Xavier da Silveira, 99, em Copacabana, na qual o casal passou a morar a partir de 1918. Assim respondeu (apenas parte do longo depoimento):

"A casa de Eugênia e Alvaro Moreyra, ali em Copacabana, é um dos centros da vida literária e cultural do país. Essa casa, na rua Xavier da Silveira, número 99, era uma espécie de estuário onde desembocavam as inquietações culturais da época, sobretudo na literatura. Ali compareciam os jovens escritores, principalmente aqueles ligados à esquerda, ao Partido Comunista, à juventude comunista (aquilo que depois foi a Aliança Nacional Libertadora). Ali vinha todo mundo. Aquela casa aberta foi minha casa naquele tempo. Para os escritores que, como eu, chegaram ao Rio no início dos anos 30 - eu tinha então dezoito anos - a convivência com Alvaro e Eugênia foi muito importante. Quase todas as noites eu ia lá. Esse convívio foi bastante intenso até por volta de 1935. Depois, com o Estado Novo, as coisas se modificaram. A atmosfera do 99 estava de acordo com a calma e a bondade de Alvaro e com a enorme energia de Eugênia, que ao lado de suas atividades como mãe de família, atriz e militante política da esquerda, encontrava tempo para fazer aqueles panelões de lentilha para alimentar os visitantes. Como Alvaro era um homem de poucos recursos, havia sempre num canto da sala uma espécie de caixa onde cada um colaborava com alguns vinténs para comprar a comida."

A imagem que guardo de Jorge Amado é a de um homem extremamente talentoso e simples, afável no trato, preocupado em preservar a memória cultural e histórica do país, e mais aquela capacidade que ele tinha de ser afetivo mesmo com um desconhecido como eu.

O importante escritor que ele foi, é e sempre será se explica, também, pela sua grande figura humana.

________ 
*Alvaro Moreyra. RBS, Editora Tchê, 1985.
Texto revisto, publicado no blog em 12 de julho, 2010.

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Ditadura de novo não

 Jorge Finatto

photo: jfinatto

Eu passei a juventude em meio à ditadura militar (1964-1985). Trabalhava duro de dia, estudava à noite. Filho de família pobre, lutei muitos anos para conseguir alguma coisa na vida, como a maior parte das pessoas. O mais difícil, além de viver num país profundamente desigual, foi viver num clima de medo, acuado por um sistema opressivo que não admitia contestação nem protestos.
O tempo e a experiência me ensinaram que não existem ditaduras boas. De direita ou de esquerda, ditaduras são infernais. Nenhum governo ditatorial presta.
Ao impor pensamento único, vedar liberdades democráticas, cercear direitos políticos, suprimir habeas corpus, censurar a imprensa e a arte, as ditaduras remetem a existência geral ao calabouço existencial.
Não tenho nem nunca tive partido político, embora entenda sua importância. Voto em candidatos que têm compromisso com a democracia e a liberdade e que lutam pela distribuição de renda, pelo ensino público, pelo SUS, pela ciência, pela causa antirracista, pelo meio ambiente, contra a fome, a corrupção e o preconceito.
Não me apaixono pelo fanatismo de lado nenhum e estou sempre disposto a rever minhas posições (poucas, aliás) em termos de política. Respeito as ideias políticas dos outros, desde que não tentem me aprisionar em camisa de força ideológica assentada na mentira e na força bruta.
Detestaria viver sob um regime de força novamente. Quero que todos - principalmente os mais jovens - tenham direito a um presente e um futuro sem medo, mordaças, ameaças, violências, mortes.
Os defensores do estado democrático de direito, da democracia plena com eleições livres, Justiça Eleitoral atuante e urnas eletrônicas, eles devem ser ouvidos e acompanhados em sua luta, sem outras armas além da força moral das ideias, das palavras, do direito à vida e à livre expressão do pensamento e do sentimento.

segunda-feira, 25 de julho de 2022

Meu caro George Orwell*

 Jorge Finatto

pintura: Clara Finatto


Enquanto não começam a queimar livros nas praças
enquanto não sequestram o vizinho para averiguações
(e não o devolvem mais)
enquanto não invadem nossa casa em busca
de textos e canções proibidos
enquanto não nos levam à força para esclarecimentos
perante a polícia do pensamento
enquanto não suspendem o habeas corpus
enquanto não põem a tropa na rua para bater
em baderneiros que criticam o governo
enquanto não criam o índex dos subversivos
inimigos da pátria
enquanto não instauram a tortura
como instrumento de interrogatório
enquanto não fecham jornais e televisões
enquanto não espalham agentes infiltrados
em escolas e universidades
para identificar conspiradores
enquanto o parlamento permanece impassível
diante do monstro que se levanta,
lembremos que tudo isso que parece coisa do passado
pode estar mais vivo do que se imagina.
Um mundo sombrio, obcecado pela sede de poder total
que não se comove diante do sofrimento dos outros
nem diante dos cadáveres que se amontoam
em razão da peste e da indiferença
este triste mundo de perseguição e sadismo
que ergue sua imensa escuridão
e já não esconde a ânsia
de aprisionar o sol
e enterrar o futuro
________
*Autor do extraordinário e atual 1984.

sexta-feira, 22 de julho de 2022

Rua sem sol

 Jorge Finatto

photo: jfinatto. interior de magnólia


Os antepassados
negros e italianos
rasgaram o oceano
para que eu estivesse

aqui no futuro
olhando o fim de tarde
no horizonte dos muros

não possuo do imigrante branco
a esperança eldorada
nem a saudade triste do preto
em pranto mastigada

sou apenas um homem mestiço
olhando o movimento dos barcos

agora que a noite cai
sobre a cidade
e me surpreendo sonhando
com a fuga
por uma rua sem sol

________________
Do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990. 

domingo, 10 de julho de 2022

É sempre bom lembrar...


photo: jfinatto


 "Vejam que o homem será declarado justo por obras, e não apenas pela fé."

                                           Tiago 2:24


"Lembrem-se dos que estão presos, como se vocês estivessem presos com eles, e dos que estão sendo maltratados, visto que vocês mesmos também estão num corpo."

                                                Hebreus 13:3

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Meu sucesso na Feira do Livro

 Jorge Finatto




Os meus leitores são gente da família e amigos. Não tenho o que se denomina público leitor. O que, aliás, nunca me impediu de escrever.

Em 1998 publiquei, pela Mercado Aberto, o livro de poemas "O Habitante da Bruma". A expectativa de quem lança um livro é encontrar leitores que justifiquem o esforço  da criação.

A editora inscreveu a obra para autógrafos na Feira do Livro de Porto Alegre, que está entre as mais importantes do país. No dia e hora marcados, lá me fui com o coração batendo forte, imaginando como seria o encontro com possíveis leitores. No mesmo horário, havia outros autores autografando. Na minha direita e na minha esquerda longas filas se formavam diante dos escritores. Na minha frente formou-se uma longa fila de ausências.

A hora passava e não chegava ninguém. Fiz cara de paisagem. No final da sessão chegou um senhor com o livro na mão. Pelo menos um, pensei. Esclareceu que viera à sessão de autógrafos a pedido de... minha mãe, sua amiga. Ela, como outros parentes e amigos, tinha ido no lançamento do livro um ou dois meses antes. 

Enfim, o sino bateu encerrando a sessão. Me senti aliviado.

O livro fez seu percurso. Conquistou alguns leitores. Recebeu o Prêmio Fernando Pessoa da União Brasileira de Escritores.

Um músico que ama seu instrumento não o abandona por falta de plateia.

Escreve-se por amor à palavra escrita e aos livros, esse modo encantador de comunicação. Escreve-se com sofrimento e alegria, sem saber se haverá leitores. No fundo, há sempre a esperança de sermos lidos e, quem sabe, amados pelo que escrevemos. Ainda que só um amigo de sua mãe vá à sessão de autógrafos, o negócio é não desanimar  e tocar o barco.

segunda-feira, 20 de junho de 2022

McCartney, 80 anos

 Jorge Finatto

photo: Paul McCartney. 2021. Autor: Raphael Pour-Hashemi. Fonte: Wikimedia


Não sou fã incondicional dos Beatles. A minha relação com o grupo sempre foi discreta (motivo de preocupação para eles, claro). Não é uma questão de querer ser diferente, mas de gosto. Aprecio diversas músicas, mas não tenho nenhum disco. Um perfeito ser das cavernas.
Mas nada como um dia depois do outro. Acompanhei a passagem de Paul McCartney por Porto Alegre em 2010 através da imprensa (até porque não se falava noutra coisa). Ele tinha 68 anos. Posso dizer que fiquei com boas razões para admirá-lo. A começar pelo esforço que fez em comunicar-se em português (muito bem, por sinal) com o público presente ao seu show. Vejo nisso uma manifestação de consideração com as pessoas, tão fãs quanto qualquer súdito da rainha.
Admirável a sinceridade nas entrevistas, fazendo questão de mostrar-se como a pessoa que é, sem mitologia. Falou sobre seu vegetarianismo, seus filhos, sua carreira. Tratou todo mundo com gentileza, mas sem falsas intimidades. Cantou como se a voz estivesse ainda nos anos 1960. Foi simpático a ponto de, em pleno estádio de futebol lotado, repetir com a telúrica assistência "ah, eu sou gaúcho!".
Uma lição nesses tempos em que o planeta aderna com o peso de tantos egos inflados. Portanto, passei a gostar do cara e curtir seu trabalho. Como é bom poder dizer isso.

No sábado passado, 18 de junho, Paul completou 80 anos. Mando-lhe um abraço (sou aquele que não foi ao seu show).