domingo, 25 de agosto de 2019

O guardião da cidade-fantasma

Jorge Finatto
 
Shigeru Nakayama. photo: Bruno Kelly (Folhapress)
 
Nos últimos dias, as queimadas na Floresta Amazônica chamaram a atenção do mundo, provocando protestos no Brasil e em muitos países. A pressão de líderes internacionais, somada às muitas manifestações, forçou o governo brasileiro a rever sua posição de inércia diante do aumento da devastação da Amazônia. Algumas medidas foram agora adotadas, mas falta muito ainda para se alcançar um nível razoável de efetividade no combate às ações ilegais que destroem a floresta, atentando contra os povos que lá vivem. Reproduzo a história do japonês Shigeru Nakayama, exemplo de amor àquela região, que serve de inspiração a todos nós.  
 
 
AIRÃO VELHO é uma cidade em ruínas, nas margens do rio Negro, perdida na floresta amazônica. Nasceu em 1694 como Santo Elias do Jaú, primeira povoação daquela região ribeirinha, no atual Estado do Amazonas. Algumas décadas depois da fundação, os portugueses mudaram-lhe o nome para Airão Velho.
 
Cidades e vilas fantasmas não são propriamente raridades no Brasil. Não é por essa razão que Airão Velho virou notícia na Folha de São Paulo por esses dias*. Após o auge, durante o período do ciclo da borracha (final do século XIX, inícios do XX), foi gradativamente se esvaziando.

Na década de 1960, os últimos moradores partiram por falta de opção econômica e se estabeleceram a 100 km do local, na hoje Novo Airão, distante 120 km de Manaus.

O que restou da antiga cidade é cuidado pelo imigrante japonês Shigeru Nakayama, 65 anos, que vive ali sozinho num casebre há 13 anos.
 
Ele sobrevive da pesca e de uma horta que cultiva nas cercanias do rio Negro, sem nenhuma ajuda do Estado no trabalho de conservação. As ruínas e objetos que fizeram parte da vida da comunidade são poucos e Shigeru assumiu a missão de dar-lhes guarida, antes que desapareçam:
 
- Não quero abandonar isso aqui, tenho paixão por esse lugar, disse ele ao enviado especial da Folha, jornalista Lucas Reis.
 
A história do guardião remonta ao ano de 1964, quando desembarcou no Brasil, aos 16 anos, em Belém do Pará, com os pais e mais três irmãos. Vinham de Fukuoaka, no Japão. Um dia foi convidado por uma integrante da família Bezerra (importante em Airão Velho), ex-moradora, para cuidar das ruínas. Ele aceitou a tarefa e começou a recolher os remanescentes históricos, formando um pequeno museu em sua casa. Na época de finados, limpa o cemitério. A patroa morreu em 2012, mas ele continua firme, cuidando e preservando o lugar.
 
photo: Bruno Kelly (Folhapress)
 
Segundo Shigeru, o local é conhecido internacionalmente e recebe turistas, principalmente estrangeiros, além de pesquisadores. "Não restou quase nada, mas tem muita história", afirmou a Lucas.
 
Conforme a reportagem, sobraram poucas coisas: uma casa de comércio, uma residência, o cemitério, uma escola, restos da igreja construída em 1702.

O pedido de tombamento está sendo examinado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Tomara que a resposta não tarde e seja positiva.
 
A matéria da Folha, revelando o zelo do japonês em plena Floresta Amazônica, traz a idéia de que o mundo é quintal de todos, independente da nacionalidade e do lugar onde a pessoa resolve viver. Shigeru cuida daquele torrão brasileiro como se tivesse nascido lá. É uma relação de amor com a terra, com a memória dos que lá viveram, com a história da velha e extinta cidade.
 
Aquilo que para muitos seria motivo de insuportável solidão, para o imigrante é razão de realização e orgulho. Sua razão de viver. Tornou-se um filho da terra.
 
Esta história demonstra que o que vincula um indivíduo a um lugar é o sentimento e o compromisso que tem em relação a ele.

A ideia de pertencimento é coisa de coração e mente, não de papéis oficiais. São atitudes como a de Shigeru Nakayama que fazem a diferença entre a conservação e a destruição da Amazônia (e do próprio planeta).
 
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Folha de São Paulo, edição digital de 29/12/2013. Reportagem do enviado especial Lucas Reis com fotos de Bruno Kelly (Folhapress):
Texto  revisto, publicado em 02 de janeiro, 2014.

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Aviso aos navegantes

Jorge Finatto
 
barquinhos de papel: Clara Finatto
 

LANÇAMENTO do meu livro Navegador de barco de papel, crônicas, dia 24 de outubro próximo, na Escola Superior da Magistratura, em Porto Alegre. Resolvi publicar algo novo depois de doze anos sem dar o ar da graça em livro. Como diz aquela canção antiga, há sempre uma ilusão...Vamos navegar!
 
 
 
 
 

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Peixes, garças e biguás

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 

Estive nas cercanias do ARROIO DILÚVIO perto do Guaíba. Conversando com gente que anda por ali, fiquei sabendo que ainda existem peixes em suas águas. Águas que atravessam uma parte da cidade carregando muita poluição, esgotos, móveis velhos, animais mortos, tudo que se possa imaginar. O Dilúvio nasce numa vertente limpa de mata para os lados de Viamão e  desemboca no Guaíba. Há atualmente um trabalho no sentido de recolher esses detritos antes que cheguem ao rio.
 
Quando vim morar em Porto Alegre, aos sete anos, a orla do Guaíba tinha muitas praias que com o tempo foram extintas devido à poluição. A minha era ali na altura da Usina do Gasômetro, hoje Parque Harmonia. Aquela região foi recuperada em belo projeto do arquiteto paranaense Jaime Lerner. Mas as águas continuam poluídas.
 
O Guaíba é mais que um cartão-postal em minha/nossas vidas. É um ser vivente que nos alimenta e encanta com sua formosa visão até a Lagoa dos Patos. Há que tratar os esgotos, os resíduos, educar a população, estimular amor e cuidado.
 
O Dilúvio haverá de ser saneado um dia. Será amado como precisa e merece um ser vivo. Durante meu deslocamento por suas margens, vi um bando de biguás numa árvore. Vi também garças e gaivotas. Eles são a prova de que existem peixes no riacho, seu alimento. Existe vida. Ainda é tempo.
 

sábado, 10 de agosto de 2019

Maria Eulália e a rosa vermelha

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 

ULTIMAMENTE aquela frase não saía da cabeça de Maria Eulália:
 
A morte é um preço alto a ser pago por uma rosa vermelha.
 
Desenterrou-a, como um raro diamante, do conto A Rouxinol e a Rosa,¹ do escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900).² A triste beleza dessas palavras tocou-a profundamente.
 
Algumas pessoas passam pela vida tão em silêncio que ninguém lhes presta atenção. Levam a existência tão distantes do amor que mais vegetam do que vivem. Vivem, por assim dizer, a cappella.
 
Em algum momento algo desmoronou dentro da nossa personagem. O mundo em volta foi perdendo a cor, o sabor e o sentimento. O calor humano começou a rarear.

Na ilha solitária onde foi habitar, Maria Eulália não tinha a quem oferecer e nem de quem receber uma rosa vermelha.
 
Pensou que não podia procurar alguém que não via há muitos anos para oferecer a rosa. Seria vista talvez como louca ou supercarente. Detestava a ideia de demonstrar que estava afogada em solidão.
 
Naquele dia de fim de maio, descobriu que, para algumas pessoas, o único jeito de receber uma rosa vermelha é a morte. Aí percebeu a terrível verdade escondida na frase de Wilde. E soube então, com lágrimas no coração, que ela fora escrita para gente como ela.

Nesse momento teve a certeza de que não estava disposta a pagar o preço. Secou os olhos, arrumou-se e foi até a floricultura onde comprou um buquê com doze rosas vermelhas que colocou no centro da mesa da sala.

Depois, como era sábado, prendeu o cabelo e foi limpar o apartamento. 
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¹Oscar Wilde. Contos Completos. Edição bilíngue. Editora Landmark, São Paulo, 2013.
²Oscar Wilde e o beijo proibido:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/06/oscar-wilde-e-o-beijo-proibido.html
Texto publicado em 31 de maio, 2014.
 

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Quatro conversas com Deus

Jorge Finatto

photo: jfinatto


O SILÊNCIO DE DEUS é cheio de significados. Há pessoas que se ressentem por não escutar a voz de Deus. De fato, Ele não anda tagarelando por aí. Eu, pessoalmente, nunca conversei, face a face, com Deus, quem dera. Mas talvez a face Dele seja muito diferente da que imaginamos e se manifeste de muitas maneiras. Quem sabe nos deparamos com ela todos os dias sem nos dar conta...
 
Precisamos aprender a ouvir a voz de Deus. No silêncio.
 
O silêncio não quer dizer que Deus seja indiferente ou surdo às nossas palavras, sentimentos e angústias. Tenho motivos para achar que Ele nos ouve. Não sou pregador nem pastor. Apenas observo. Creio que existem realidades além das coisas visíveis e tangíveis. Como explicar a poderosa criação que existe por trás de uma flor, uma nuvem, um pássaro? Há algo espiritual que não se explica só pela razão.

Sim, Deus não perde tempo com bobagens. Por exemplo, acredito que Ele nunca se envolve com resultados de futebol ou de qualquer outro esporte (se fosse atender, todos os jogos terminariam empatados). Ele tem outras prioridades.
 
O silêncio de Deus escuta o coração humano. É o que parece. E de algum modo misterioso nos responde quando entende que é o caso. Depende muito - digo eu - da qualidade da conversa. Tem gente que só sabe pedir, pedir mais e mais, esquecendo-se de agradecer.

Selecionei quatro conversas com Deus. Repare bem em cada uma delas. Creio, sim, que Deus gosta de boas conversas (não deve ser fácil ser Todo Poderoso... imagine como isto deve ser solitário...) E às vezes se diverte com elas...

photo: jfinatto
 
                         &                    &                    &
                   
Já não me aborreço tanto com Deus - com Deus eu já me reconciliei; aborreço-me, sim, com as pessoas: por que são elas tão más, quando podem ser boas? Por que as pessoas amargam a vida quer do próximo, quer a sua própria, quando está em suas mãos viverem felizes e contentes?
(Tévye, o leiteiro, de Scholem Aleikhem. pág. 181. Organização, tradução, introdução e notas de Jacó Guinsburg. Ilustrações: Sergio Kon. Editora Perspectiva, São Paulo, 2012.)

Senhor
tende piedade de Vós
que nos criastes.
(A Hora Evarista. Heitor Saldanha. Poema Oração do mortal, pág. 49. Instituto Estadual do Livro, Editora Movimento. Porto Alegre, 1974.)

Se me perdoardes, Senhor,
as pequenas peças que Vos preguei
eu Vos perdoarei
a enorme peça que Vós me pregastes.
(Poemas Escolhidos. Robert Frost. pág. 135. Editora Lidador Ltda. Rio de Janeiro, 1969. Tradução de Marisa Murray.)

Senhor
quando chegar
a minha vez
de cruzar a ponte
deixa levar comigo
no alforje de nuvem
os dias de sol

as tardes
de outono

os pinheiros
da serra onde
nasci

deixa eu levar
o som do riacho


as antigas
conversas
da Rua São João

me concede
a memória
dos amigos
da infância

na bruma
que serei
me alcança
um bosque
e pássaros
para tecer
a minha casa
 

(Poema Canção da bruma, do livro O habitante da bruma, Jorge Finatto, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.) 

sábado, 3 de agosto de 2019

Horacio Quiroga num dia frio

Jorge Finatto
 
photo: Horacio Quiroga. Wikipédia.
 
Um velho rádio de válvulas que funciona como se fosse ontem. Um pouco do noticiário, desligo. É muita realidade demais. Um dia frio, muito frio, nesses inícios de agosto. Com a bênção de um fogão a lenha. Depois, no toca-discos, a Suíte Popular Brasileira, de Heitor Villa-Lobos. 
 
Lendo o Diário* do jovem Horacio Quiroga (1878-1937), a viagem de Montevideo à Europa, de navio, 24 dias entre céu, mar e saudade. Os dias passados em Paris, assim assim. O olhar do escritor em formação:
 
Abril, 30, 1900. 2.30 p.m. En Notre Dame. La misma impresión general que el Pantheon, La Madaleine, y de todos los monumentos de París, muy pobre, debido al color oscuro, sucio y manchado de todas las paredes. El interior, gótico puro (...) Estoy en la cúspide de Notre Dame, después de subir 345 escalones en caracol. Lo primero que me ha llamado la atención han sido los canalones para el agua - en forma de pescuezo de bicho raro,  rectos e avanzando a la calle (...)
 
A falta de dinheiro torna sem graça os dias vividos em Paris:
 
Sábado, 09, junio. 9 p.m. Un poeta griego de la decadencia dijo: 'La patria está donde se vive bien.' Es un gran pensamiento. Por qué he de decir yo que no hay como París, si no me divierto? (...) estoy en lo verdadero diciendo que Montevideo es mejor que París, porque allí lo paso bien; que el Salto es mejor que París, porque allí me divierto más.
 
A literatura é feita por gente de carne e osso, que sente frio, cansaço, alegria, dor de dente, fome. Às vezes tudo junto. Os livros são depoimentos de passagens pelo mundo. Embora às vezes não pareçam. Eu desconfio de autores que não esbarram nessa coisa difícil, faminta, suja, flébil, encantadora.

A morte é só um suspiro. Uma lágrima que seca. Impostergável ausência. Depois passa.

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* Diario de París. Horacio Quiroga. pp. 58/91. Faro Ediciones. Montevideo, 2018.
 

quarta-feira, 31 de julho de 2019

O rinoceronte branco

Jorge Finatto
 
Crédito será dado tão logo identificado o autor. fonte: internet.
 

1. ESCREVER é o oficio mais solitário do mundo. Escritores são seres isolados. Vivem longe dos homens. Como solitários viajantes do universo que nunca mais voltarão à Terra, precisam escrever para não esquecer.
 
2. Tive uma namorada na adolescência que reclamava porque eu não fazia sexo com ela. Dizia que eu era paternalista. Mas eu achava  tão bom ficar só conversando e olhando pra ela que nem precisava sexo. Era talvez um modo diferente de transar. Mas ela não entendeu assim. Não demorou muito, terminou comigo, claro. E eu fiquei sem aquele sexo gostoso.
 
3. Observei e fotografei muitos seres e lugares. Posso dizer que a coisa mais linda que vi nessa vida foi o rinoceronte branco.

E a mais impressionante: o silêncio de Deus.
 
4. Já morri e ressuscitei várias vezes. Espero continuar assim: morrendo às vezes; ressuscitando sempre.
 
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O rinoceronte branco está quase extinto por caça humana.