sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Drummond 118

 Jorge Finatto

photo: jfinatto


O jovem leitor afeiçoou-se ao poeta. Compartilhou com ele, mais do que palavras, a viva vida que elas expressam. E como diziam coisas as palavras do bardo itabirano!

Havia entre poeta e leitor uma secreta cumplicidade. Um andar juntos pelo mundo. Uma troca de confidências, alegrias, queixas, protestos, malquereres, desertos, amores e esperanças. O invisível amigo percorria com o moço os duros caminhos da vida

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) será sempre o lúcido, o lírico, justo enlace razão-emoção, construtor de versos indeléveis na língua universal da poesia. Enquanto houver livros e leitores, Drummond será sinônimo de altíssima poesia e claro pensamento.

O ser-no-mundo, às vezes cambaio, às vezes indescritivelmente só, mas sempre comprometido com a vida em sua humana jornada.

O poeta não se esquivava e respondia as cartas que lhe chegavam todos os dias. Generoso, sabia colocar-se, não acima, mas ao lado do leitor que o procurava ávido por um contato, mínimo que fosse. Respondia com incomum e delicada atenção.

Quando escreveu, na resposta, o nome do missivista interiorano, manuscrito com tinta azul na folha branca (que o tempo esmaeceu), retirou-o do anonimato, reconheceu-lhe a existência, tratou-o como um semelhante. 

Sensível ao outro, ele sabia que o poema só existe quando desvelado aos olhos do cúmplice leitor. A carta que dele recebi é, para mim, verdadeira relíquia literária e sentimental guardada no cofre do coração. 

Drummond fez um imenso bem à minha alma, aos meus dias de juventude e aos dias que vieram depois. Neste 31 de outubro, em que se comemoram seus 118 anos de vida (vida estendida no numeroso testamento da palavra), renovo a emoção de abraçá-lo com amor de leitor. Afeto que o tempo não apaga.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

O processo

 Jorge Finatto

photo: jfinatto


SOU habitante
da beira do rio
condenado
a não ver o rio

afundado em seco
decifro papéis
que nada me dizem

a página em branco
espera o verso
que não escreverei

o que encontro
no gabinete
a essa hora
da manhã
é não ter tempo
pra mais nada

enfrento a trama
invencível
a dor sem abrigo

a grande trituração
das almas
no processo

resta apenas
o duro ofício
que não pode
ser adiado

impossível fugir

o carteiro
envelhece
enquanto aguarda
as cartas
que não enviarei

observo por um momento
o voo branco
da gaivota
sobre o Guaíba

nesse instante
invade-me a tristeza
do prisioneiro
(a essa hora da manhã)

desapareço
na névoa

_______

Poema do livro Memorial da vida breve, Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.

sábado, 24 de outubro de 2020

O jardineiro amoroso

 Jorge Finatto

photos: jfinatto

                    Omnia humana brevia et caduca sunt.*

Cultivarás o teu jardim.

Não cobiçarás o jardim do próximo.

Aprenderás que o jardim perfeito não existe, só na tua imaginação.

As flores que habitam teu jardim não te pertencem. 

Elas nasceram para embelezar o mundo.

Não deixes que o orgulho de jardineiro te faça esquecer que o tempo das flores, como o teu, se esfuma entre os dedos. 

O jardineiro amoroso cultiva beleza e perfume à margem da eternidade. 

Aceita o outono e suas folhas secas, sem desespero nem remorso. 

Sabe que tudo é transformação.

A morte é só passagem para outros jardins.

____ 

*As coisas humanas têm vida curta e são transitórias.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Pensar com o coração

 Jorge Finatto

photo: jfinatto


Não fiques justo demais, nem te mostres excessivamente sábio. Por que devias causar a ti mesmo a desolação? Eclesiastes 7:16

Começar a pensar  é começar a ser atormentado.¹ Albert Camus


Pensar causa dor. Os caminhos do pensamento levam à desolação. Mas, sem ele, onde a alegria, a descoberta do mundo, a esperança, o êxtase? Talvez a fuga do desalento esteja em pensar com sentimento. Em outras palavras, pensar com o coração, sentir com o pensamento, como disse Fernando Pessoa. Ouçamos o poeta:

"Sentir é compreender. Pensar é errar. Compreender o que outra pessoa pensa é discordar dela. Compreender o que outra pessoa sente é ser ela. Ser outra pessoa é de uma grande utilidade metafísica. Deus é toda a gente." ²

A razão solitária, isolada do sentir, é um lugar profundamente ermo. Uma paisagem vazia e inóspita. Um cálculo matemático, se feito com razão e sensibilidade, é muito mais belo. Olhemos as cores, formas e movimentos dos corpos celestes. Onde entra o sentimento nisso? Entra na motivação do olhar, naquilo que nos move a tentar compreender, nas razões e emoções que nos levam a pôr nossa força vital nessa direção.

A natureza está construída, em toda sua extensão e profundidade, sobre alicerces de ciência e beleza. Em toda coisa existente há um pensamento e um desejo que a precedem, a volúpia da criação. Quanto mais observo e reflito sobre a obra do mundo e da vida, mais admiro a mão de quem a concebeu. Deus é um artista perfeito e apaixonado pelo que faz e fez. E tem todos os motivos para isso. 

______ 

¹ O Mito de Sísifo. Albert Camus. Editora Record, 16ª ed. Tradução: Ari Roitman e Paulina Watch. pág. 19. Rio de Janeiro. 2019.

² http://arquivopessoa.net/textos/1709

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Brinquedos de criança pobre

 Jorge Finatto

do meu jardim. photo: jfinatto

Uma das alegrias da minha infância eram os brinquedos caseiros. Brinquedos rústicos de criança pobre, feitos com materiais descartados. Não obstante humildes, nos levavam a viajar pelo cosmos, expandindo nosso universo.

O porão da velha casa de madeira, lá na Serra, não abrigava somente quinquilharias. Era uma oficina de brinquedos. O artesão desse mundo mágico, que transformava latas de azeite em belos carrinhos e caminhões, era o primo Nego (Rogério). Eu era auxiliar de feiticeiro.

De suas mãos saíam também carrinhos de lomba com rodas de rolimã (rolamentos de aço), cavalinhos, balanços pra pendurar no plátano à beira do Arroio Tega, arcos e flechas, pernas de pau, trenzinhos, espadas, escudos, revólveres, espingardas, bonecos, aviões. Tudo trabalhado com serrote, martelo, lima, formão, goiva, torno, lixa e pedaços de madeira que buscávamos na madeireira perto de casa.

Os brinquedos dos outros meninos e meninas da rua também eram caseiros, mas não se comparavam aos nossos (na nossa imodesta opinião). 

Devia haver uma espécie de museu para esses brinquedos de antigamente. Cheios de imaginação e criatividade, povoavam de fantasia nossas brincadeiras e nos levavam além do mundo em preto e branco.

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Beija-flor no galho pensador

 Jorge Finatto

photo: Clara Finatto. Canela/RS

Na tarde de neblina e frio desta instável primavera, o beija-flor cisma.

Pensando na vidinha, no galho pensador, ele faz uma pausa. Que ninguém é de ferro. 

Fica um tempo, dá uma saída e depois volta. Não se incomoda que o observem da janela. Tampouco que abelhudos lhe façam fotos. Há um pote com líquido de néctar no galho ao lado que muito o agrada. E não só a ele: tem irmãos ou amigos que vêm ali toda hora todos os dias. 

No que estará pensando? 

Há de ter lá os seus compromissos o beija-flor, uma casa pra voltar, filhos pra criar, contas a pagar, preocupações de quem vive neste mundo de Deus.

Mas, nesse momento, ele precisa ficar sozinho e em silêncio. Precisa disso pra saber quem ele é. 

Porque, às vezes, na dura faina da sobrevivência, a gente esquece quem é.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

"E se todos nós vivêssemos?"

 Jorge Finatto

duas rosas. photo: jfinatto

                                                

Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos? 
Carlos Drummond de Andrade, no poema O medo


A palavra morte é a palavra da moda. Nunca se pronunciou tanto como neste 2020. A boca fala o que o coração sente, parafraseando Mateus 12:34. Se for assim, atravessamos um momento em que o medo é um sol escuro no céu da nossa angústia. 

Não se trata apenas de uma palavra e seu sombrio significado, mas da vida que perdemos nos últimos 8 meses. A pandemia da covid-19 retraiu passos, limitou movimentos, mudou itinerários, mostrou que ninguém tem controle sobre nada. 

Temos ideias, projetos, sonhos, concentramos esforços em determinada direção. Mas o resultado final é imponderável.

O dia de amanhã é inescrutável como a face de Deus. 

O dia de hoje, por outro lado, tem um peso às vezes insuportável. Pelas perdas de muitas vidas todos os dias, pelo risco de que a peste nos alcance e nos leve para onde não queremos ir. Uma danação.

Não sei como isto vai acabar. Sei que mudanças estão ocorrendo rapidamente e coisas que antes pareciam improváveis tornam-se realidade. 

Para nós, do Brasil, que vivemos um dia a dia de enorme desestruturação social, violência, injustiça, indiferença dos governantes e da própria sociedade, a peste é só uma página a mais no triste livro da nossa história. Temos à volta todo o resto a nos sufocar. 

Olhemos as queimadas na Amazônia e no Pantanal e suas gravíssimas consequências sócio-econômico-ambientais. A desordem do clima, a destruição da fauna e da flora, os problemas na produção de alimentos, a tremenda poluição. 

Sem esquecer a depressão psicológica diante da falta de perspectivas em relação ao futuro.

Estou/estamos exaustos diante de tanto sofrimento. Ainda que não nos atinja diretamente (conservar-se com saúde é o que mais importa), o ambiente está carregado demais, difícil demais, dolorido demais. 

Precisamos celebrar a alegria de viver outra vez. Não imagino como a travessia se dará. Mas acho que virá aos poucos, como uma manhã de sol após a noite de tempestade. Será uma alegria diferente, que passará longe da celebração privada, fechada em si mesma, egoísta, excludente. Uma alegria simples, dividida entre todos. Como respirar.