sexta-feira, 1 de julho de 2022

Meu sucesso na Feira do Livro

 Jorge Finatto




Os meus leitores são gente da família e amigos. Não tenho o que se denomina público leitor. O que, aliás, nunca me impediu de escrever.

Em 1998 publiquei, pela Mercado Aberto, o livro de poemas "O Habitante da Bruma". A expectativa de quem lança um livro é encontrar leitores que justifiquem o esforço  da criação.

A editora inscreveu a obra para autógrafos na Feira do Livro de Porto Alegre, que está entre as mais importantes do país. No dia e hora marcados, lá me fui com o coração batendo forte, imaginando como seria o encontro com possíveis leitores. No mesmo horário, havia outros autores autografando. Na minha direita e na minha esquerda longas filas se formavam diante dos escritores. Na minha frente formou-se uma longa fila de ausências.

A hora passava e não chegava ninguém. Fiz cara de paisagem. No final da sessão chegou um senhor com o livro na mão. Pelo menos um, pensei. Esclareceu que viera à sessão de autógrafos a convite de... minha mãe, sua amiga. Ela, como outros parentes e amigos, tinha ido no lançamento do livro um ou dois meses antes. 

Enfim, o sino bateu encerrando a sessão. Me senti aliviado, era o fim do constrangimento.

O livro fez seu percurso. Recebeu o Prêmio Fernando Pessoa da União Brasileira de Escritores.

Escreve-se por amor à palavra escrita e aos livros, esse modo encantador de comunicação. Escreve-se com sofrimento e alegria, sem saber se haverá leitores. No fundo, há sempre a esperança de sermos lidos e, quem sabe, amados pelo que escrevemos. Ainda que só um amigo de sua mãe vá à sessão de autógrafos, o negócio é não desanimar  e tocar o barco.

segunda-feira, 20 de junho de 2022

McCartney, 80 anos

 Jorge Finatto

photo: Paul McCartney. 2021. Autor: Raphael Pour-Hashemi. Fonte: Wikimedia


Não sou fã incondicional dos Beatles. A minha relação com o grupo sempre foi discreta (motivo de preocupação para eles, claro). Não é uma questão de querer ser diferente, mas de gosto. Aprecio diversas músicas, mas não tenho nenhum disco. Um perfeito ser das cavernas.
Mas nada como um dia depois do outro. Acompanhei a passagem de Paul McCartney por Porto Alegre em 2010 através da imprensa (até porque não se falava noutra coisa). Ele tinha 68 anos. Posso dizer que fiquei com boas razões para admirá-lo. A começar pelo esforço que fez em comunicar-se em português (muito bem, por sinal) com o público presente ao seu show. Vejo nisso uma manifestação de consideração com as pessoas, tão fãs quanto qualquer súdito da rainha.
Admirável a sinceridade nas entrevistas, fazendo questão de mostrar-se como a pessoa que é, sem mitologia. Falou sobre seu vegetarianismo, seus filhos, sua carreira. Tratou todo mundo com gentileza, mas sem falsas intimidades. Cantou como se a voz estivesse ainda nos anos 1960. Foi simpático a ponto de, em pleno estádio de futebol lotado, repetir com a telúrica assistência "ah, eu sou gaúcho!".
Uma lição nesses tempos em que o planeta aderna com o peso de tantos egos inflados. Portanto, passei a gostar do cara e curtir seu trabalho. Como é bom poder dizer isso.

No sábado passado, 18 de junho, Paul completou 80 anos. Mando-lhe um abraço (sou aquele que não foi ao seu show).

sexta-feira, 3 de junho de 2022

Bom dia, Mano Bisol

 Jorge Finatto


Neste mês em que faz um ano da morte de José Paulo Bisol (26 de junho, 2021), reproduzo este texto que escrevi e publiquei aqui no blog em 7 de fevereiro de 2012.



pinturas: Maria Machiavelli



Habitava sozinho a quitinete diante do rio Guaíba. Um microcosmo formado por uma sala, que também era quarto, uma cozinha, um banheiro e uma janela.

Uns livros empilhados contra a parede, um radinho de pilha para ouvir as músicas da rádio da universidade, as últimas notícias (o mundo estava por acabar, só não se sabia o dia).

Havia também quatro baratas (as sibilas) e algumas traças de saudosa memória. 

Naquele mínimo universo, não havia liberalidades de espaço, de dinheiro (que se contava aos centavos para o ônibus e o prato feito do almoço) e muito menos de ternura.

Tudo minimalista.

Ele, as sibilas, as traças e os livros povoavam aquele território perdido, cercado de austeridade e solidão por todos os lados.

Sobre a pia da cozinha, o fogãozinho com duas pequenitas bocas. Essas bocas, como a dele, estavam sempre famintas.

O calado morador não sabia e nem tinha disposição para cozinhar. Comer sozinho, todos os dias, deixa o cara meio bicho. O que saía (ao amanhecer e antes de dormir) era uma singela e morna taça de café com leite, pão e manteiga.

Solidão, farelo de pão. A festa das baratas.

Lá fora, na rua, a ditadura militar.

Às sete horas da manhã (que é quando os justos abrem os olhos para o sol que roça a veneziana), ele ligava o radinho para ouvir na, Rádio Gaúcha, Bom dia, Mano, o ensaio falado do filósofo, poeta, desembargador aposentado e político José Paulo Bisol.


A cortina musical era a linda Voo sobre o horizonte, tocada pelo conjunto Azymuth (o cd com essa e outras músicas foi relançado pela Livraria Cultura, na sua Coleção Cultura).

Aquele era o momento de reunir forças antes de ir para a batalha. A palavra do Bisol tinha afeto, esperança, companheirismo. Carregava uma energia capaz de empurrar o vivente para o núcleo duro da realidade.

Havia naquelas frases um entusiasmo, uma ideia de que tudo na vida é possível. E, naquela altura, era mesmo.

(Palavras acendem um coração apagado.)

Com o bornal ao ombro e uma esperança difusa no peito, o sobrevivente saía então para enfrentar o mundo onde ganhava o pão como revisor de livros.

Gracias, Mano Bisol!


terça-feira, 31 de maio de 2022

Retrato do repórter quando jovem

 Jorge Finatto

Jorge Finatto. photo: arquivo jornal Folha da Tarde


Repórter na redação da Folha da Tarde, eu trabalhava com a velha e valente máquina de escrever. 1982. Não recordo quem fez o antigo retrato.
Para onde terão ido aquelas máquinas? Para onde teremos ido nós após todos esses anos?
Estamos à beira de outra ditadura? A democracia vai sobreviver? Eu acredito que sim, apesar do momento absurdo que vivemos.
Não podemos desistir do futuro.

Rubem Braga, um lutador pela resistência antifascista, nos deu lições de esperança e poesia com suas crônicas escritas em Porto Alegre para a Folha da Tarde em 1939. Ouçamos suas palavras no livro "Uma fada no front". Elas nos inspiram e fortalecem.

segunda-feira, 30 de maio de 2022

Prosódia, paródia, misericórdia

 Jorge Finatto

photo: jfinatto


No interior onde vivi quando criança, muitas palavras eram ditas de maneira diferente da que consta nos dicionários. Bênção se dizia "benção". Bergamota, "vergamota". Borboleta, "barboleta". Assim, "ansim". Escuta, "escuita". Cinamomo, "cinamão". Entreter, "enterter". Noivos, "novios". Bom, "bão". Pior, "pelhor". Problema, "poblema". Vermelho, "vermeio", etc.

"Retorneado", significava refinado, finório. "Plasta", era pessoa lerda, inábil. "Mato perso", mato perdido. E por aí vai.

Havia uma prosódia peculiar, e expressões idem, de obscura origem. Para não falar do vocabulário de origem alemã, italiana, africana, árabe, inglesa, espanhola, tupi-guarani.

Quando se dizia benção, tinha de beijar a mão do adulto a quem se dirigia: pai, mãe, avós, tios, pessoas mais velhas que estavam de visita. E era bom ouvir: "Deus te abençoe, meu filho".

Não tenho dúvida que o mais importante não era a pronúncia, mas o sentimento que cada palavra guardava. Com tempo e estudo, aprendemos a falar e escrever corretamente, às vezes em mais de um idioma. 

O problema é que, com o passar dos anos, acabamos ficando só com palavras, sem o calor dos sentimentos que elas nos transmitiam. Porque aqueles que as pronunciavam já não estão por perto. 

O presente é uma paródia do que fomos. O tempo não tem misericórdia do que seremos.

segunda-feira, 23 de maio de 2022

O fusquinha azul de Mujica

 Jorge Finatto 


grafite de Montevideo. photo: jfinatto

Os grafites das ruas de Montevideo sempre nos dizem alguma coisa interessante. É uma cidade onde as pessoas trabalham, pensam e sonham enquanto tomam mate nas casas,  calles, praças e calçadas da beira do Rio da Prata. 

É uma cidade que gosta de livros, música, pintura, cinema, parques, teatro, etc. E de gente, deveras. Pouca ostentação de riquezas particulares, pouca gente vivendo na miséria. Em suma, um lugar onde sobriedade e bom senso parecem andar juntos.  Haverá gente má por lá? Possivelmente. Mas em modesta proporção. Não se criam por muito tempo. Ao contrário de países cercanos, o Uruguai aprende com seus erros e avança. 

Li que um sheik árabe ofereceu, anos atrás, um milhão de dólares para comprar o velho fusquinha azul de José "Pepe" Mujica, que ganhou o veículo de um grupo de amigos que fez uma vaquinha para adquiri-lo. O ex-presidente uruguaio, entre 2010 e 2015, disse que não, obrigado, estava bem assim, vivendo modestamente na sua chácara, a 20 km de Montevideo. Nela compartilha a vida simples com gente simples como ele. Ali ele construiu uma escola agrária para os jovens do lugar e cultiva com suas mãos flores e hortaliças aos 87 anos.

Me gusta o Uruguai. Tão diferente do Brasil. Quando estou lá tenho a impressão de que é mesmo verdade que a Terra gira em torno de si e do Sol. Mas o faz de um jeito sereno e civilizado, de tal modo que não caímos uns sobre os outros nem os edifícios desabam sobre nossas tontas cabeças. Também sou levado a acreditar que a Terra não termina num abismo mas vai se arredondando numa curvatura lenta que faz com que no Japão seja dia enquanto em Montevideo é de noite e vice-versa. 

Gosto muito das ruas montevideanas. Onde andou e viveu o Conde de Lautréamont (Isidore Ducasse), antes de ir para a França. E penso que só mesmo tendo nascido naquela cidade poderia conceber os Os Cantos de Maldoror, essa obra genial.

Acho muito bonito as crianças irem para as aulas, nas escolas públicas, com seus guarda-pós brancos e laços azuis. Pode-se andar à noite sem medo e pessoas velhas costumam sair para jantar fora, a pé, sem ser molestadas. 

De fato, o Uruguai é um país muito estranho para quem vive na "normalidade" brasileira. Deve ser efeito do mate.

domingo, 22 de maio de 2022

Dia de outono

 Jorge Finatto

photo: jfinatto

Tempo de sol com frio.
Pinhão na chapa, gato pela casa, livro na mão,
janela aberta, geada no quintal,
tristeza guardada na gaveta.
Óculos de tartaruga.
Esse olhar o mundo que me encanta.