terça-feira, 23 de novembro de 2021

Deus, o mistério que nos habita

 Jorge Finatto

photo: jfinatto


Ninguém jamais viu a Deus. Se continuamos a amar uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu amor é aperfeiçoado em nós. 1 João 4:12

Penso em Deus várias vezes ao dia. Não tenho ideia de sua aparência, de seu tamanho, de seu endereço. Uma vez que teceu o infinito, sei que ele é infinitamente maior que todo o universo. Às vezes me pergunto se ele realmente existe ou é apenas um sonho que sonhamos na nossa imensurável solidão. Pergunto, também, se ele me enxerga: um grão de poeira na Via Láctea: ser insignificante, habitante de uma placenta cheia de estrelas e inumeráveis corpos celestes. Haverá outros seres como nós?

Gente sábia pensou e pensa sobre Deus em todas as épocas. Todo ser humano pensa em Deus. Porque é impossível não pensá-lo. E como não fazê-lo diante de tanto encantamento, tanto sofrimento, tantas interrogações, tanta beleza? Certa vez indagaram ao filósofo, psicanalista, erudito e escritor Carl Gustav Jung sobre sua ideia a respeito de Deus. Ele respondeu: eu sei.

O que Jung quis dizer? Creio que pretendeu afirmar que sua experiência com o ser divino era semelhante à de todos nós, pessoas comuns. Nossa experiência acerca de Deus vem de longe, atravessando gerações e gerações, de pessoa em pessoa, de alma em alma, de aldeia em aldeia. Deus é um ser incontornável, que floresce em todas as mentes e corações. É uma realidade que se impõe, acreditemos nele ou não. É inevitável como respirar. Deus está em nossas células. Nós "sabemos" Deus porque não existe possibilidade de ignorá-lo. Está impregnado na nossa essência, em nosso antes e nosso depois.

Vivemos cercados de Deus por todos os lados.

A ninguém é dado não ter conhecimento dele, deixar pra lá. Crendo ou não, a presença dele se impõe. Entre crentes e ateus. Não conhecemos sua face, ignoramos sua morada, nunca ouvimos sua voz, desconhecemos sua origem e suas canções preferidas. Mas de alguma forma "sabemos" Deus.

A condição humana é inescapável. Nela está ínsita a figura luminosa de Deus. Não temos como nos livrar dele. Não temos para onde correr. Deus é inexplicável e é, sobretudo, inevitável. É impossível resumir Deus numa frase. Nenhum conceito o aprisiona. Nenhuma definição o limita.

Quem recolhe a tempestade no leito de um lenço?

Filósofos, livres-pensadores, cientistas e escritores têm ocupado parte de seus talentos e esforços esquadrinhando a existência divina. Alguns encaminham-se pela negação, mostrando-se revoltados com o que consideram barbáries em certos relatos bíblicos. Outros, por infensos à Igreja Católica, desconsideram  Deus (como se fosse propriedade e criação dela). 

De tanto ocuparem-se de um Deus cuja existência tentam negar - sem consegui-lo – deixam uma fresta aberta para a possibilidade oposta. É razoável concluir que mentes privilegiadas não perderiam anos de vida com algo que simplesmente inexiste.

A própria preocupação em torno do tema demonstra que "algo" é, "algo" há que escapa da compreensão e não se deixa dominar pelo conhecimento racional humano.

Deus é um mistério e um sentimento que nos habita desde a remota escuridão de onde viemos. Resta claro que é preciso mais do que a razão para nos aproximarmos dele. A fé faz parte desse caminho. Talvez um dia acenda-se em nosso coração a luz que nos revelará o que tanto ansiamos saber.

sábado, 13 de novembro de 2021

Quatro conversas com Deus

                                                                                                                                                    Jorge Finatto


photo: jfinatto


O SILÊNCIO DE DEUS é cheio de significados. Há pessoas que se ressentem por não escutar a voz de Deus. De fato, Ele não anda tagarelando por aí. Eu, pessoalmente, nunca conversei, face a face, com Deus, quem dera. Mas talvez a face Dele seja muito diferente da que imaginamos e se manifeste de muitas maneiras. Quem sabe nos deparamos com ela todos os dias sem nos dar conta...
 
Precisamos aprender a ouvir a voz de Deus. No silêncio.
 
O silêncio não quer dizer que Deus seja indiferente ou surdo às nossas palavras, sentimentos e angústias. Tenho motivos para achar que Ele nos ouve. Não sou pregador nem pastor. Apenas observo. Creio que existem realidades além das coisas visíveis e tangíveis. Como explicar a poderosa criação que existe por trás de uma flor, uma nuvem, um pássaro? Há algo espiritual que não se explica só pela razão.

Sim, Deus não perde tempo com bobagens. Por exemplo, acredito que Ele nunca se envolve com resultados de futebol ou de qualquer outro esporte (se fosse atender, todos os jogos terminariam empatados). Ele tem outras prioridades.
 
O silêncio de Deus escuta o coração humano. É o que parece. E de algum modo misterioso nos responde quando entende que é o caso. Depende muito - digo eu - da qualidade da conversa. Tem gente que só sabe pedir, pedir mais e mais, esquecendo-se de agradecer.

Selecionei quatro conversas com Deus. Repare bem em cada uma delas. Creio, sim, que Deus gosta de boas conversas (não deve ser fácil ser Todo Poderoso... imagine como isto deve ser solitário...) E às vezes se diverte com elas...

photo: jfinatto
 
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Já não me aborreço tanto com Deus - com Deus eu já me reconciliei; aborreço-me, sim, com as pessoas: por que são elas tão más, quando podem ser boas? Por que as pessoas amargam a vida quer do próximo, quer a sua própria, quando está em suas mãos viverem felizes e contentes?
(Tévye, o leiteiro, de Scholem Aleikhem. pág. 181. Organização, tradução, introdução e notas de Jacó Guinsburg. Ilustrações: Sergio Kon. Editora Perspectiva, São Paulo, 2012.)

Senhor
tende piedade de Vós
que nos criastes.
(A Hora Evarista. Heitor Saldanha. Poema Oração do mortal, pág. 49. Instituto Estadual do Livro, Editora Movimento. Porto Alegre, 1974.)

Se me perdoardes, Senhor,
as pequenas peças que Vos preguei
eu Vos perdoarei
a enorme peça que Vós me pregastes.
(Poemas Escolhidos. Robert Frost. pág. 135. Editora Lidador Ltda. Rio de Janeiro, 1969. Tradução de Marisa Murray.)

Senhor
quando chegar
a minha vez
de cruzar a ponte
deixa levar comigo
no alforje de nuvem
os dias de sol

as tardes
de outono

os pinheiros
da serra onde
nasci

deixa eu levar
o som do riacho


as antigas
conversas
da Rua São João

me concede
a memória
dos amigos
da infância

na bruma
que serei
me alcança
um bosque
e pássaros
para tecer
a minha casa
 

(Poema Canção da bruma, do livro O habitante da bruma, Jorge Finatto, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.) 

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Texto publicado em 6 de agosto de 2019.

sábado, 30 de outubro de 2021

Encontro de Dante com Beatriz: vita nuova

Jorge Finatto

photo: jfinatto


Na tarde de quarta-feira, logo após chegar a Caxias do Sul, fiz um passeio pela praça Dante Alighieri, a principal da cidade. Vim para o lançamento do livro e inauguração da exposição de esculturas de Bez Batti, "Dialogando com Picasso".

A agradável surpresa foi encontrar naquele belo lugar ninguém mais nem menos do que a eterna musa do poeta Dante, Beatriz. Estava lá sentada num banco perto do bardo italiano com A Divina Comédia no colo.

Faz 14 anos que estive pela última vez em Caxias (minha cidade natal) e na ocasião Beatriz ainda não existia naquele lugar. Obra da escultora Dilva Conte, foi inaugurada em 2015.

Durante muitas décadas Dante esteve solitário na praça, sujeito a invernos rigorosos com chuvas e trovoadas, além, claro, de suaves primaveras serranas. Sempre sozinho. Dava pena vê-lo naquele desamparo. Agora percebe-se uma nova luz em seu olhar com a companhia da amada. Vita nuova. Que sejam felizes!

photo: jfinatto

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

600 mil vidas

 Jorge Finatto


photo: jfinatto


Quantas dessas 600 mil mortes por covi-19 poderiam ter sido evitadas se houvesse um pouco mais de afeto social e bom senso?

A vida é muito mais do que a politização dessa tragédia. Ninguém merece perdê-la pelo negacionismo dos que têm o dever de preservá-la. O Brasil é muito melhor do que isso.

Devemos nos negar a habitar o imenso cemitério que inventaram ao nosso redor.

Resistir até que o pesadelo acabe.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Resquício de primavera

 Jorge Finatto

photo: jfinatto


O vento soprou nas ruas do bairro hoje, varreu folhas mortas, choveu um pouco, esfriou, depois houve um silêncio. 

A primavera mal começou e o inverno voltou com sua mala cheia de presságios, suas fotos e cartas antigas, suas bonecas de porcelana, seus segredos. 

Ficou um resto de azul nas poças d'água, um aroma de flor na calçada, resquícios de primavera.

Me lembrei de quando andávamos sem máscara pela cidade. Faz tantas luas. Senti saudade. E os dias nem eram tão lindos assim. O tempo anda doido (doído). Sei lá.