sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Paiuia

 Jorge Finatto

photo: jfinatto
 

Quando eu era criança, tinha medo-pânico de cortar o cabelo. O drama se estendeu até os cinco anos mais ou menos. Era um medo primitivo, do tempo das cavernas, pavor diante do raio e do trovão. O avô me levava ao barbeiro, na ruazinha central de Passo dos Ausentes, aquilo era um suplício.
 
Havia na aldeia um homem que vivia na rua. Vestia sempre um casacão de lã, fosse inverno ou verão, tinha longos cabelos cor de cobre, uma cara amarrotada, chupada, fustigada pelo sol e pelo vento. Sobrevivia ele com os trocados que ganhava pelas momices e mugangas que fazia aos passantes na calçada, onde instalava seu escritório de saltimbanco.
 
O nome dele era Paiuia.
 
Para amenizar minha sessão de tortura, o avô contratava Paiuia a fim de distrair-me junto à cadeira do barbeiro. O fato é que ele conseguia me acalmar menos pelos trejeitos que fazia do que pela sua feiura. Eu ficava impressionado: como é que alguém tão feio era ao mesmo tempo tão engraçado?
 
Eu já não chorava nem sofria como antes, deixava o barbeiro fazer seu trabalho. Com sua arte humilde, Paiuia me consolava no sofrimento. 

Acaso não será esta a sublime missão do artista?
 
No dias difíceis, recordo com ternura de Paiuia, que não está mais neste mundo pra me dar consolo com suas visagens. Hoje percebo que a beleza que ele tinha era invisível ao olhar. Ele a carregava pura dentro da alma e com todos compartilhava generosamente.

_________ 

Texto revisto, publicado em 22.4.2016

domingo, 13 de setembro de 2020

O milagre dos pavões

Jorge Finatto
 
photos: jfinatto
 

Na quinta passada, dois pavões apareceram no quintal aqui de casa. Não me perguntem como. Um acontecimento absolutamente raro e inesquecível.
 
Eles andaram no pátio calmamente, pra lá, pra cá, na santa paz. Atrás da janela, eu observava aquele movimento elegante e silencioso. Num breve voo, subiram na pérgola e ficaram mais um tempo. Num bater de asas, deram uma passada na sacada do vizinho. Depois alçaram-se no espaço e partiram, deixando saudades.
 
Nunca tinha visto pavões livres na natureza. E menos ainda na minha humilde querência. Aquelas cores brilhando. Não chegaram a abrir o leque da cauda. Seria incrível. Mas pensando bem, nem precisava. O milagre já estava consumado com a presença deles ali, iluminando a tarde gris de setembro. Aí eu pensei: foi um presente de Deus para este velho bardo que às vezes sonha voar. 
 
 

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Saudade nos tempos da peste

Jorge Finatto

photo: jfinatto


A esquina tem saudade dos amigos.
O voo tem saudade do pássaro.
O poço tem saudade da Lua.
A abelha tem saudade da flor.
O avião tem saudade do céu.
O homem tem saudade de Deus.
Eu tenho saudade de nós.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Maquinista de fogão a lenha

Jorge Finatto

photo: jfinatto


O inverno é um velho rabugento, de barba branca, capote preto, com olheiras e óculos de lentes de fundo de garrafa, afeito ao silêncio e a remotas recordações.

Inícios de setembro, ele prepara a carroça com seus pertences pra fazer a longa viagem ao outro lado do mundo. Viagem na névoa em direção ao hemisfério norte onde vai suceder o outono. As despedidas do inverno ouvem-se na voz do vento anunciando a primavera. 

Como maquinista de fogão a lenha, não posso descuidar. São os últimos frios, as últimas cerrações e geadas. Se o maquinista vacila, as coisas congelam ao redor. 

Adeus, folhas secas, galhos retorcidos, grinfas de pinheiro, fantasmas nos sótãos. Adeus, nuvens de chumbo. O tempo das folhas verdes novas pede passagem. Tempo de cores e perfumes. O que melhor do que o aroma da flor de laranjeira impregnando o ar? 

Anúncio da primavera.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

A palavra no agora

Jorge Finatto

Estação da Luz. fonte: site do Museu da Língua Postuguesa


Com o objetivo de ajudar as pessoas a lidar com os sentimentos advindos da pandemia, o Museu da Língua Portuguesa lançou no mês de julho o projeto virtual A palavra no agora. A ideia é estimular as pessoas a expressar este momento difícil através de exercícios de escrita. O projeto acolhe textos que traduzem sentimentos e pensamentos em face da grave crise que enfrentamos, mostrando como cada um está vivendo a situação. Está disponível no endereço http://www.noagora.museudalinguaportuguesa.org.br/. 

Para compartilhar o texto no site do Museu, o interessado deve encaminhá-lo para noagora@museulp.org.br, informando nome, idade, cidade, bem como se deseja publicar com seu nome ou pseudônimo, iniciais ou anonimamente. 

Andei lendo algumas das contribuições. É surpreendente a diversidade do material, seu conteúdo, sua qualidade. A riqueza de percepções deste tempo sombrio se manifesta em linhas de espanto, tristeza, ansiedade, imaginação, saudades e, acima de tudo, em um olhar generoso sobre a vida e o futuro.

O Museu da Língua Portuguesa é um órgão da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo e foi criado em 2006 com a finalidade de valorizar a diversidade da língua portuguesa, celebrá-la como elemento fundamental e fundador da cultura e aproximá-la dos falantes do idioma em todo o mundoAs atividades que desenvolve nessa direção são preciosas e muito variadas.

O local escolhido para abrigá-lo foi a Estação da Luz, edifício histórico no coração de São Paulo (cidade com a maior população de falantes de português do mundo). Um incêndio ocorrido em 21 de dezembro de 2015 fez com que se suspendessem as visitações enquanto o prédio está sendo reconstruído.

Entre os escritores que já foram homenageados, em mais de 30 exposições, estão Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Machado de Assis, Cora Coralina, Jorge Amado, Agustina Bessa-Luís, Rubem Braga e Guimarães Rosa.

Parabéns a toda equipe do Museu da Língua Portuguesa pela bela iniciativa.

Exposição temporária Grande Sertão: Veredas

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Um jardim na pandemia

Jorge Finatto



Tenho me envolvido com flores desde que a peste começou. A terra do jardim é fértil. As plantas pegam, crescem, iluminam. Eu apenas faço as imagens. O blog transformou-se num jardim virtual. Quem pensa e cultiva o jardim é a Izabel. Nunca esteve tão viçoso. Foi concebido para enfrentar esse tempo de sombras e espantar a morte. Está dando certo. Graças a Deus.






sábado, 22 de agosto de 2020

Tempo/espaço à beira do abismo

Jorge Finatto

photo: jfinatto


Nesse tempo/espaço à beira do abismo... Começar um texto com essa frase é um grande espanta-leitor. Eu mesmo ando atrás de palavras que me levantem do chão, deste chão de pandemia com mais de 113 mil mortos pela covid-19 no Brasil. Este calcinado chão da realidade brasileira cuja desumanidade derruba qualquer um. 

Como cultivo um jardim (gosto da vida), reescrevo o título: Tempo/espaço à beira de um jardim.

Eu já tive mais esperança no nosso país. Quando achava que poderíamos dar um passo adiante depois das últimas eleições, com um basta à corrupção e ao cinismo, o resultado é este que aí está. A reafirmação do atraso, da ignorância, do autoritarismo, da indiferença. A lava-jato sob ataque em diferentes níveis. A inexplicável e inacreditável ausência de um médico à frente do Ministério da Saúde em plena pandemia.

Minha decepção também quanto a nós como sociedade, educados que fomos pra não atentar para o coletivo e só ter em conta o próprio umbigo, "cuide de você, esqueça o resto e suba na vida". As ruas selvagens das nossas tristes cidades são o retrato acabado deste infeliz mantra.

Adolescência. Um pobretão em escola de classe média alta sonha alcançar uma profissão, por ele e por aqueles que não tiveram a mesma chance. Sofre os olhares e gozações de praxe por estudar com bolsa de estudos, vestir-se como pobre, não ser claro nem ter olhos azuis, ir de ônibus ou a pé pra escola, não viajar nas férias, não ter dinheiro pra nada. 

Quando um dia conseguiu comprar a primeira calça Lee americana, a grife já tinha saído de moda há tempos. Não perdeu o jeito, foi adiante e realizou seus principais objetivos: conquistou uma profissão e construiu uma família. Foi muito além do preconceito e do pouco caso dos "mestres e colegas".

Queria viver num país infinitamente menos egoísta e desigual. A corrupção mutila o futuro de meninos e meninas que nunca terão oportunidade no ensino e no trabalho. Um crime contra toda a sociedade.

Mas é preciso não perder de vista o sonho em um país melhor. Ele constrói-se na cabeça e nos gestos de pessoas que levam a honestidade e o sentimento de justiça a sério, que lutam por isso no seu dia a dia. Essa prática começa dentro de casa, nas coisas mais simples. Depois ganha o mundo. 

Com esse espírito, agarrado no que resta de esperança, vou vivendo e cultivando meu jardim.