segunda-feira, 25 de maio de 2020

Meu caro George Orwell

Jorge Finatto

Foto do crachá de jornalista
de George Orwell, 1933. Wikipedia

Enquanto não começam a queimar livros nas praças
enquanto não sequestram o vizinho para averiguações
(e não o devolvem mais)
enquanto não invadem nossa casa em busca
de textos e canções proibidos
enquanto não nos levam à força para esclarecimentos
perante a polícia do pensamento
enquanto não suspendem o habeas corpus
enquanto não põem a tropa na rua para bater
em baderneiros que criticam o governo
enquanto não criam o índex dos subversivos
inimigos da pátria
enquanto não instauram a tortura
como instrumento de interrogatório
enquanto não fecham jornais e televisões
enquanto não espalham agentes infiltrados
em escolas e universidades
para identificar conspiradores
enquanto o parlamento permanece impassível
diante do monstro que se levanta,
lembremos que tudo isso que parece coisa do passado
pode estar mais vivo do que se imagina.
Um mundo sombrio, obcecado pela sede de poder total
que não se comove diante do sofrimento dos outros
nem diante dos cadáveres que se amontoam
em razão da peste e da indiferença
este triste mundo de perseguição e sadismo
que ergue sua imensa escuridão
e já não esconde a ânsia
de aprisionar o sol
e enterrar o futuro
________
Ao grande escritor britânico, autor do extraordinário e atual 1984.

sábado, 23 de maio de 2020

Os fascistas

Jorge Finatto
 
photo: j.finatto


Os fascistas
escolhem sempre
as prisões
à BENIGNIDADE DO SOL

mas os poetas
continuarão
VIOLANDO
AS SOMBRAS


 _________________

Do livro O Habitante da Bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.
 

domingo, 17 de maio de 2020

Saudade de Vera Cruz

Jorge Finatto

detalhe do Planisfério de Cantino, nordeste brasileiro.
 
 
Que notícias me dão dos amigos?
Que notícias me dão de você?
Sei que nada será como está

amanhã ou depois de amanhã
Resistindo na boca da noite um gosto de sol
 
                               (Nada será como antes, Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)
 
Outono significa transformação, as mudanças tão necessárias e urgentes para a vida seguir seu curso. É o recolher das seivas, reunião de forças, introspecção, preparo e passagem para um outro tempo.

Não quero desfazer das outras estações, cada qual com seu gosto e seu agosto. O verão, por exemplo: tem muita gente que gosta. A primavera é amada por todos. Mas é no outono que eu renasço.

O outono não é um senhor decrépito, longe disso. É uma musa sensual, discreta e misteriosa, que traz o véu iridescente com mil tons, além de delicadas fragrâncias.

As manhãs da estação das folhas cadentes prometem beleza e contemplação. As nuvens são cor de açúcar queimado ao entardecer.
 
Um texto de fuga, alguém dirá, talvez com razão. A palavra há de servir, também, para a evasão do real, sempre tão necessária a fim de evitar a loucura por excesso da realidade.
 
Os dias dentro de casa, trancados para fugir do bicho ruim, pestilento, passam à velocidade da luz, e são, ao mesmo tempo, longos e intermináveis. Lá pelas tantas tudo parece um dia só. E quando se vê, foi-se uma semana, um mês.
 
São estranhos esses dias de portas fechadas e janelas pensativas. A peste corre feroz e à solta no burgo. Um cenário da Idade Média.  

A truculência verbal e a ignorância ocupam o centro das atenções hoje no Brasil. O cenário primitivo, agressivo e intolerante é tal que não podemos sequer dizer que estamos vivendo na Idade Média.

Estamos sendo catapultados direto para a escuridão das cavernas. Um país desorientado, com o povo exposto à pandemia covid-19, ao enorme desemprego e à incessante crise política gestada no interior do poder. 

Um momento extremamente duro, um futuro nebuloso. E dizer que com um mínimo de bom senso, por parte de quem tem o dever do bom senso, tudo poderia ser melhor.

Os sabiás andam calados. As aves de mau agouro ocupam o palco.
 
Saudade da Terra de Vera Cruz com sua gente lutadora, amável e criativa, saudade de suas cidades movimentadas, seus verdes mares e belas paisagens. Saudade do cotidiano civil com sua magia e seu feijão com arroz. Saudade dos pássaros e das nuvens.
 
Eu ando mesmo com uma bruta saudade de um pouco de leveza, lucidez e esperança, em meio à barbárie destes dias.  
 

quarta-feira, 13 de maio de 2020

A queda de Chet Baker em direção ao infinito

Jorge Finatto

Chet Baker, 1983. foto: Michiel Hendryckx
Wikipedia

Faz hoje 32 anos que Chet Baker (1929 - 1988) morreu após despencar da janela de um quarto de hotel em Amsterdam. Nunca se esclareceu se foi suicídio ou morte acidental. Um mistério.

O que não é mistério é a enorme contribuição dele ao jazz e à música. Com seu maravilhoso trompete e sua voz cálida, quase sussurrada, inventou uma nova maneira, personalíssima, de fazer música.

Aos 58 anos perdeu a vida, uma vida atormentada que lhe pregou dolorosas peças. O envolvimento com as drogas foi um capítulo dramático em sua existência.

A música foi sua salvação. Nos palcos onde pisou, com big band ou solitário, uma aura de silêncio tomava conta quando, sentado, silhueta esguia, empunhava seu instrumento. Naquele diminuto território ele era o mágico senhor dos sons e sentimentos.

No vasto fundão do universo, imagino que, em certa noite de melancolia, Deus criou Chet para aquecer o seu coração e o coração dos homens.


Não me abandones*

                         a Chet Baker

Não me abandones
povoa a noite
com teu suprimento
de afeto

enche o deserto
com teus passos

em segredo
devolve-me
a delicadeza
daqueles dias

me dá outra vez
o diamante
da tua
presença


________

*Do livro O Habitante da Bruma, Jorge Finatto, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.
Leia também Chet on poetry:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/06/uma-viagem-sentimental.html

terça-feira, 12 de maio de 2020

Dádiva na tarde de outono

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto, 11 maio 2020
 
Quando desci a Serra, aos seis anos de idade, para visitar a mãe em Porto Alegre, não imaginava que nunca mais voltaria para a casa à beira do arroio. Não voltaria para perto dos pinheiros, das parreiras, dos caminhos de chão. Não sentiria mais o cheiro de vinho no porão. Não veria mais os amigos.
 
A morte repentina da avó, ao meu lado, em Porto Alegre, teve consequências desastrosas para mim e para o avô. Ela era a nossa verdadeira casa. A nossa amada querência. Sem ela, não havia para onde voltar. Não havia mais nada sem ela. Foi difícil sobreviver à perda.
 
Os anos passaram como passam as nuvens. Sempre alimentei no íntimo o desejo regressar à Serra um dia. Quase quarenta anos depois isto de fato aconteceu. Não na mesma casa, não na mesma cidade, mas em outra não muito distante.
 
Reconstruí a casa desmoronada dentro de mim. É um lugar cálido, com horta, pinheiros, plátanos, quintal, jardim, frutíferas, pássaros. Principalmente com a querida família a quem devo esse tempo feliz, pouco importando a peste e todos os problemas.
 
Pensei nessas coisas enquanto caminhava nesta tarde de outono. Pisando nas folhas, agradecendo a Deus por estar vivo e poder assistir ao incrível espetáculo da natureza nessa época. Sinto que valeu a pena ter sobrevivido a tudo.

Dádiva na tarde de outono.
 
photo: jfinatto, 11 maio 2020
 

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Um homem só

Jorge Finatto

photo: jfinatto

Escutei o relato de um médico, numa entrevista de rádio, a respeito de sua experiência com pacientes da covid-19. Trabalha num hospital de Porto Alegre. Disse que um paciente com cerca de trinta anos estava internado para tratamento de um câncer agressivo. Perdera a capacidade de falar em razão disso. 

Durante a internação apresentou sintomas que o levaram ao teste do novo coronavírus. Enquanto aguardava o resultado, estava em isolamento no quarto há alguns dias.

O médico contou que, através de gestos, o homem fez um único pedido. Queria poder ver a filha. Foi-lhe dito que, naquele momento, isto não poderia ser diante do risco de contágio. De modo que teria de ficar só por enquanto.

Eu fiquei impressionado e triste com a história.  Percebi como se fosse minha a enorme solidão daquele jovem submetido a tanto sofrimento. Pensei numa palavra que pudesse levar-lhe algum conforto. Não encontrei.

Quem já passou por hospital sabe que contamos minuto após minuto o tempo que falta para melhorar e ir embora. O único consolo que nos resta é a presença das pessoas que amamos. Só esta presença e a fé podem nos fortalecer.

Estou rezando por aquele homem, que Deus lhe dê ânimo e forças para vencer. Que nesta hora tremenda Deus ampare os doentes espiritualmente, não os deixe esmorecer, e salve a todos.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Hermann Hesse em Montagnola

Jorge Finatto

photo: JFinatto. Museu Hermann Hesse, Montagnola, jan. 2020.

Descrevi e louvei muitas vezes tudo isso. Gastei centenas de folhas de bom papel de pintura, muitos tubos de tinta, para provar minha veneração pelas velhas casas e telhados de madeira, muros de jardim e bosque de castanheiros, montanhas próximas e distantes, com minhas aquarelas ou bico de pena. Plantei aqui muitas árvores e arbustos, um pequeno bambuzal na fímbria do bosque, e muitas flores. (Quarenta anos de Montagnola, Hermann Hesse

Em janeiro último viajei a Lugano, no cantão (estado) do Ticino, sul da Suíça (a Suíça italiana), com o objetivo principal de conhecer o lugar onde viveu e escreveu Hermann Hesse (1877-1962). O Museu Hermann Hesse, na pequena Montagnola, abriga o acervo deste que é, segundo dizem, o autor de língua alemã mais lido no mundo. Nascido em Calw, Alemanha, tornou-se cidadão suíço em 1924. Em 1946 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura.

photo. J.Finatto. Museu Hermann Hesse, jan. 2020

Montagnola é um lugarejo pertencente ao município de Collina D´Oro, situado nas cercanias de Lugano. Chega-se lá de ônibus (que tomei junto à estação ferroviária de Lugano) após cerca de 15 minutos de íngreme subida, vislumbrando-se, do alto, o belo Lago Lugano e suas montanhas na fronteira com a Itália.

O museu funciona na Torre Camuzzi, ao lado da Casa Camuzzi onde o poeta e escritor viveu em um apartamento entre 1919 e 1931. Foi viver em Montagnola "em busca de refúgio", sendo na época um homem "na flor da idade".²

Depois, mudou-se para a Casa Rossa, perto dali, que lhe foi oferecida por um mecenas como morada permanente - vitalícia - até sua morte, em 1962. Ambas as propriedades onde ele viveu são privadas, não podendo ser visitadas.

photo do escritor. Museu Hermann Hesse, Montagnola.

A vista desde Montagnola é belíssima. O lago, as montanhas, as videiras, jardins, quintais e demais elementos enchem os olhos. Pacifista e naturalista, Hesse ficou também conhecido pelas longas caminhadas que costumava fazer. Diz-se que, às vezes, pelado.

Antes de chegar ao museu existe um café literário com livros dele, mas não só, e com publicações de suas pinturas. O cappuccino é ótimo, assim como os doces e sanduíches. A senhora que atende no local é muito querida.

pintura de H. Hesse

Conhecer Hesse pintor (aquarelista principalmente) foi pra mim uma grata descoberta. Não conhecia este seu lado. As pinturas são muito bonitas.

Entrando no museu encontram-se objetos que marcaram sua vida e obra, como uma velha máquina de escrever, edições originais de seus livros, móveis, fotografias, quadros, correspondências, chapéus, aquarelas, etc. Alguns instrumentos lembram que ele se dedicou ao cultivo de plantas, árvores, flores, hortaliças. Foi um jardineiro amoroso do ofício.

Existe, além disso, um pequeno cinema no porão que mostra um documentário sobre a vida do escritor em italiano, alemão, inglês e francês, com audioguides (em alemão e italiano). No museu se acha um amplo programa de leituras, palestras e concertos que ocorrem ao longo do ano.

máquina de escrever de H. Hesse. photo: JFinatto

A trilha "Nos rastros de Hermann Hesse" passa por locais em que o escritor gostava de estar e contemplar a paisagem de Collina d'Oro. O ponto de chegada da caminhada de cerca de meia hora é o túmulo de Hesse no cemitério de Montagnola-Gentilino.

O autor de O Jogo das Contas de Vidro diz muito à alma de pessoas sensíveis. Não li toda a sua obra, mas o que li foi suficiente pra saber que se trata de um grande escritor, alguém preocupado com a vida. Teve sua obra proibida na Alemanha nazista. Sua voz aproxima nosso coração das coisas simples e profundas, fugindo dos estereótipos, da mercantilização e da coisificação do ser humano. É um escritor que escolhe sempre o silêncio em meio à gritaria, a contemplação, o mergulho em viagens espirituais. Para isso contribuiu seu conhecimento de culturas como as da Índia e China.

photo: JFinatto. jan, 2020. Museu H. Hesse

Em tempos tão duros, ler Hermann Hesse, travar conhecimento com seu pensamento e com a beleza de seus escritos, é um antídoto contra a mediocridade, a grosseria, o autoritarismo, a estupidez e a falta de esperança.

Agradeço a Regina Bucher, diretora da Fondazione Hermann Hesse e do Museu, pela gentileza da atenciosa recepção.

objetos do escritor. photo: JFinatto, jan, 2020

Tanto quanto me lembro, sempre encarei a função do escritor sobretudo como memória, como não-esquecimento, como preservação do efêmero na palavra, como retorno do passado através de apelos e carinhosa descrição. (idem, ibidem) ³

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1, 2, 3  Pequenas Alegrias. Hermann Hesse. págs. 5 e 305. Tradução: Lya Luft. Editora Record, Rio de Janeiro, 1977.