terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Café Odeon

Jorge Finatto
 
Rio Limmat. Zurich. photo: jfinatto

Zurich, 11 de fevereiro - DEPOIS de uns dias em Thun e Annecy, vem Zurich. Cinco horas de trem desde a França. A gente chega quadrado. Mas tudo vale a pena. Passando a fronteira sente-se que a Suíça é outro planeta. A população resumida a 8 milhões e quatrocentas mil pessoas, uma organização e um modo de viver que vêm de muitos séculos fazem deste país um lugar à parte. Tudo é feito para funcionar e funciona num nível elevado.
 
Igreja Protestante Grossmünster, Zurich.
photo: jfinatto
 
A democracia direta, em que os cidadãos decidem pelo voto as coisas que realmente importam, faz toda a diferença. Não se resumem a votar de quatro em quatro anos em governantes sobre os quais em geral pouco ou nada se sabe, e cujos resultados disso nós, brasileiros, bem conhecemos. Um país rico e trabalhador. Evidente que tem defeitos, mas no básico todos têm o necessário, têm direitos respeitados, uma vida. A ostentação não é um defeito suíço. São austeros sem ser misantropos. 25% da população, segundo andei lendo, são imigrantes.
 
Hoje passei no Café Odeon, tomando um cappuccino. Existe desde 1911. Desde sempre freqüentado por artistas, poetas, escritores, políticos, cientistas, entre eles Stefan Zweig, James Joyce, Albert Einstein, Toscanini, Mussolini, Tristan Tzara, Klaus Mann, Lenin, Sommerset Maugham, Friedrich Dürrenmatt.
 
Café Odeon, Zurich. photo: jfinatto
 
E caminhei à margem do Rio Limmat, verde-azul transparente, com suas nuvens, barcos e aves refletidas na face ondulante. Um frio de rachar, mas nada que um ausentino não possa suportar com calma.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Trens suíços

Jorge Finatto
 
Castelo na cidade de Thun. photo: jfinatto, 08.02.19
 

Thun, Suíça - 09.02.2019 - Os trens suíços funcionam no horário. Os relógios suíços, dizem, são implacáveis com o atraso. Eu gosto de andar de trem e aqui na Suíça é o que mais faço (junto com outras coisas simples). É um lugar único no mundo. 
 
E gosto de relógios. Mas continuo com meu relógio comprado em 1995, no interior do Rio Grande do Sul, na cidade onde trabalhava. Em dinheiro de hoje deve ter custado por volta de 200 reais.  Deve estar valendo agora em torno de 20 ou 30 reais, se tanto. Mas não troco por nenhum outro.
 
Eu não viajo pra fazer compras. Claro, o dinheiro não dá pra isso. Mas se tivesse dinheiro, também não faria compras. Minto: compro livros e revistas em bancas de jornal e livrarias. Que me dão um trabalho enorme na hora de arrumar a mala para voltar. Essa é minha cachaça.
 
No mais é caminhar pelos lugares, conhecer, ouvir música, fotografar, tomar café, cheirar, ir a livrarias e lugares bons, como os Pastéis de Belém, a Livraria Cotovia, a Casa Fernando Pessoa e o Oceanário, em Lisboa, ou o Kunstmuseum de Zurique.
 
Viajar, estar em trânsito, tem o poder de pôr em suspenso as nossas preocupações. A sensação de movimento, de pé na estrada, e a descoberta de coisas novas e boas (algumas nem tanto) alimentam o espírito. Depois ficam as memórias.
 
Longe dos problemas e das correntes do cotidiano, podemos navegar pra fora do continente da angústia e dos medos. Um pouco que seja. E, com o descanso do excesso de realidade, podemos encontrar caminhos que antes pareciam inviáveis. Quem viaja abre o coração, não se mata nem pensa mal da vida. E o ser humano volta a parecer gente.
 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

A boneca de trapo

Jorge Finatto
 
photo: j.finatto *
 
ERA UMA DESSAS TARDES que antecedem o outono em Passo dos Ausentes. O ar outonal nos deixa mais sensíveis. Talvez pela mudança das cores na natureza e pela queda das folhas. As seivas concentram forças, evitando qualquer desperdício. Em dias assim, é uma sorte estar vivo.
 
Enquanto atravessava a Praça da Ausência, encontrei uma boneca de trapo caída no chão. Era feita de velhos panos coloridos. Os olhos eram dois botões verdes.
 
Os cabelos, fios de lã repartidos em duas tranças. A boca, um pequeno risco vermelho, e sorria.
 
Apesar de perdida, a boneca não parecia muito triste. Carregava um leve toque de melancolia no semblante, que desapareceu quando a levantei.  Acomodei-a no banco da praça, embaixo de um salgueiro, ao lado do lago.
 
Fui embora, não sem alguma dor. No início quis levá-la comigo, dar-lhe novo lar. Mas desisti ao pensar que quem a perdeu (uma criança tudo leva a crer) voltaria para buscá-la. Seria de cortar o coração não encontrar a sua boneca de trapo.
 
Viver tem dessas coisas. Nem sempre podemos ter o que nos encanta. Nem sempre, como no outono, a vida se exalta em delicadas mutações.
 
Num dia, o céu azul nos ilumina, habitado aqui e ali por nuvens cor-de-rosa, o coração bate harmonioso. Noutro, pensamentos escuros, pesados, se espalham e a gente só imagina besteira.
 
A boneca de trapo me lembrou coisas que perdi na vida. Perdi e me conformei. Porque nada, absolutamente nada, nos pertence nesse mundo.
 
Tudo que temos é emprestado, a começar pela vida. Um dia teremos de devolver. Nada é verdadeiramente nosso.

Salvo, talvez, o meigo sorriso de uma boneca de trapo.
______
 
*Boneca artesanal da região serrana do Rio Grande do Sul.
Texto revisto, publicado em 16 de março de 2011.