sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Paiuia

 Jorge Finatto

photo: jfinatto
 

Quando eu era criança, tinha medo-pânico de cortar o cabelo. O drama se estendeu até os cinco anos mais ou menos. Era um medo primitivo, do tempo das cavernas, pavor diante do raio e do trovão. O avô me levava ao barbeiro, na ruazinha central de Passo dos Ausentes, aquilo era um suplício.
 
Havia na aldeia um homem que vivia na rua. Vestia sempre um casacão de lã, fosse inverno ou verão, tinha longos cabelos cor de cobre, uma cara amarrotada, chupada, fustigada pelo sol e pelo vento. Sobrevivia ele com os trocados que ganhava pelas momices e mugangas que fazia aos passantes na calçada, onde instalava seu escritório de saltimbanco.
 
O nome dele era Paiuia.
 
Para amenizar minha sessão de tortura, o avô contratava Paiuia a fim de distrair-me junto à cadeira do barbeiro. O fato é que ele conseguia me acalmar menos pelos trejeitos que fazia do que pela sua feiura. Eu ficava impressionado: como é que alguém tão feio era ao mesmo tempo tão engraçado?
 
Eu já não chorava nem sofria como antes, deixava o barbeiro fazer seu trabalho. Com sua arte humilde, Paiuia me consolava no sofrimento. 

Acaso não será esta a sublime missão do artista?
 
No dias difíceis, recordo com ternura de Paiuia, que não está mais neste mundo pra me dar consolo com suas visagens. Hoje percebo que a beleza que ele tinha era invisível ao olhar. Ele a carregava pura dentro da alma e com todos compartilhava generosamente.

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Texto revisto, publicado em 22.4.2016