segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O medo

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 

MEU medo
é adormecer um dia
de repente
e não te encontrar
nunca mais
Maria Izabel

entrar no bosque
álgido da bruma
profunda
varado
de tua ausência

se ao menos
tivesse
tua mão
amorosa
outra vez
 

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Montevideo: despacito suave suavecito

Jorge Finatto

charla en la Rambla. photo: jfinatto
 

GOSTO DE MONTEVIDEO. Me sinto bem caminhando por suas ruas de plátanos, praças, visitando seus cafés, livrarias, museus. Ando pela Rambla como um nativo do lugar, sem compromisso, sem paranoia, com o vento me empurrando feito um barco. 
 
Gosto de vagabundear sem medo pelas calles, onde em cada esquina se descobre um café, uma banca de jornal, pessoas conversando. Gosto de ver os velhos andando despacito, suave, suavecito, em qualquer hora do dia ou da noite, nas calçadas, entrando em restaurantes, sozinhos ou acompanhados, senhores de si.

Os criminosos cessaram aqui suas atividades e foram para outro lugar. Talvez para o Brasil.

Cafe Misiones. photo: jfinatto

Gosto de ler Galeano, Benedetti, Juan José Morosoli, Juan Carlos Onetti, Idea Vilariño, Felisberto Hernández, Mario Arregui. De passear pelas páginas terríveis dos Cantos de Maldoror, do famoso Conde de Lautréamont, o mais misterioso, espantoso, impressionante e cruel escritor do universo. Montevideano, claro.
 
Gosto de regressar ao quarto de hotel, echar una siesta, mientras escucho la Radio Babel. Con la lluvia en la ventana

Librería El Más Puro Verso. photo: jfinatto
 
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Radio Babel:

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Mensagem numa garrafa

Jorge Finatto
 
photo: Dave Leander. fonte: abc News
 

QUEM COLOCA MENSAGEM dentro de uma garrafa, jogando-a ao mar, ou ao rio, alimenta a esperança de que um dia alguém a encontre e leia. A palavra escrita, dentro e fora de garrafas, é um modo de lutar contra o esquecimento. No íntimo de cada um, o desejo de prolongar a vida no texto, de fazê-la maior, mais humana, menos frágil.
 
Ansiamos ressuscitar nos olhos de quem nos lê. As cartas, os bilhetes dos suicidas, as mensagens eletrônicas, os poemas, os livros, os blogues, as tais redes sociais, são maneiras de dizer: estou vivo. Tudo se escreve para fugir da casa do oblívio. 
 
A palavra, ao contrário de nós humanos, permanece. É capaz de carregar por séculos  a nossa efêmera felicidade, a nossa perplexidade, o nosso desespero e a nossa esperança. Por vezes, é tudo que fica de um dia feliz numa ilha ensolarada. Às vezes, é tudo que fica de uma vida.
 
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Excerto de texto publicado em 24 de junho de 2013.