terça-feira, 12 de maio de 2020

Dádiva na tarde de outono

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto, 11 maio 2020
 
Quando desci a Serra, aos seis anos de idade, para visitar a mãe em Porto Alegre, não imaginava que nunca mais voltaria para a casa à beira do arroio. Não voltaria para perto dos pinheiros, das parreiras, dos caminhos de chão. Não sentiria mais o cheiro de vinho no porão. Não veria mais os amigos.
 
A morte repentina da avó, ao meu lado, em Porto Alegre, teve consequências desastrosas para mim e para o avô. Ela era a nossa verdadeira casa. A nossa amada querência. Sem ela, não havia para onde voltar. Não havia mais nada sem ela. Foi difícil sobreviver à perda.
 
Os anos passaram como passam as nuvens. Sempre alimentei no íntimo o desejo regressar à Serra um dia. Quase quarenta anos depois isto de fato aconteceu. Não na mesma casa, não na mesma cidade, mas em outra não muito distante.
 
Reconstruí a casa desmoronada dentro de mim. É um lugar cálido, com horta, pinheiros, plátanos, quintal, jardim, frutíferas, pássaros. Principalmente com a querida família a quem devo esse tempo feliz, pouco importando a peste e todos os problemas.
 
Pensei nessas coisas enquanto caminhava nesta tarde de outono. Pisando nas folhas, agradecendo a Deus por estar vivo e poder assistir ao incrível espetáculo da natureza nessa época. Sinto que valeu a pena ter sobrevivido a tudo.

Dádiva na tarde de outono.
 
photo: jfinatto, 11 maio 2020